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8.3.16

Iphigénie en Tauride no S. Carlos 

Iphigénie en Tauride no S. Carlos
Henrique Silveira – Crítico
Crítica rápida e curta saiu originalmente no "O Diabo", seguir-se-á,  após o final das récitas, uma crítica mais alongada.
Música de Christoph Willibald Ritter (Cavaleiro) Gluck - 1714 – 1787. Estreia em 1779 em Paris. Direcção musical: David Peter Bates, Encenação: James Darrah, Cenografia e desenho de luz: Emily MacDonald Cameron Mock, Figurinos: Chrisi Karvonides, Iphigénie: Alexandra Deshorties, soprano, Orestes: William Berger, Bbarítono, Pylade: Anthony Gregory, tenor, Thoa: John Moore, barítono. Coro do Teatro Nacional de São Carlos Maestro titular: Giovanni Andreoli, Orquestra Sinfónica Portuguesa. Tragédia em quatro actos, Libreto de Nicolas-François Guillard. Sala quase cheia, estreia a 5 de Março pelas 20h.


Esta será uma crítica rápida que será rematada dentro de algumas edições com reflexões post mortem mais elaboradas.


A encenação foi extremamente pensada, inteligente e eficaz. O drama psicológico de Ifigénia e de Orestes é tremendo, a relação de amizade profunda, que raia a ambiguidade homossexual, aliás natural nos gregos antigos, é complexa e subtil e junta um elemento de complexidade que foi jogado com enorme subtileza. A direcção de actores foi notável, com marcações a raiar a perfeição e momentos estéticos de grande impacto visual, com todas as movimentações em palco a obedecerem a um plano que serve constantemente a acção. Como em tudo na vida esta visão teve defeitos, Thoas a subir paredes é excessivo, alguma gesticulação absurda de Ifigénia é apatetada, mas a criação de seis espectros é engenhosa, são criaturas do submundo tão caras a Gluck, representações simbólicas das sombras que rodeiam Ifigénia, e seu irmão Orestes, e quando estes se reconhecem dá-se uma transferência entre estes dois dos espectros, num momento subtil mas também de clarividência. Toda a leitura é lógica, a intemporalidade de uma fábrica abandonada gera um nível de abstracção que não se fixa numa época particular e não é meramente gratuita, a tragédia de Orestes, que matou a mãe por instigação de Electra, ou de Ifigénia, que quase foi sacrificada pelo pai e se tornou uma assassina ritual, é eterna e revela factos que a psicanálise nunca se cansou de explorar. As luzes foram perfeitas sublinhando com a cor a acção e o drama psicológico e a cenografia simples jogou com um imenso disco suspenso sobre o palco, um disco entre o solar e o lunar que centrou a cena no ponto do clímax da acção, exactamente na razão dourada da duração da obra! Conseguiu-se o económico sem ser ordinário. Os figurinos poéticos evocaram-me imagens de Bilal e das suas bandas desenhadas com plasticidade e intemporalidade.


As vozes são, em geral, de grande qualidade, apesar de uma Deshorties de voz curta, de agudos pobres de harmónicos e graves pouco densos, cansada ao longo da récita mas com grande trabalho cénico e uma enorme preparação na interpretação musical. Um Berger de voz pujante, bela e rutilante, algo exagerado nos gritos de interjeição mas de bom gosto vocal, bem assim como Gregory, um tenor de voz bonita e elegante e um denso Moore, figura muito bela e bem trabalhada pelo encenador e figurinistas.


Um coro péssimo nos homens, e sofrível nas mulheres e um lindíssimo oboé, naipe que salvou a récita diversas vezes, juntamente com restantes madeiras, metais pouco idiomáticos mas com alguns momentos interessantes gerando as trompas belos timbres. Primeiros violinos perdidos e segundos violinos inexistentes com outras cordas débeis, em que se salvaram apenas os contrabaixos, arruinaram o tecido orquestral. A direcção é idiomática mas pouco eficaz na gestualidade e na segurança, preparou o estilo mas não deu segurança musical a coro e cordas e foi pouco incisivo nas entradas dos cantores. Talvez a orquestra melhore com as récitas seguintes, recomendo vivamente pela encenação, vozes e música excelente de Gluck.

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9.6.14

Norma ou o império do mau gosto 


Henrique Silveira – Crítico
Norma, ópera composta por Bellini (1801-1835) com libreto de Romani (1788-1865) em dois actos, Teatro Nacional de S. Carlos, TNSC, 4 de Junho, estreia. Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP), Coro do Teatro Nacional de S. Carlos (CSC), direcção de Speranza Scappucci, maestro de Coro: Giovanni Andreolli. Pollione: Alejandro Rey, tenor espanhol, Oroveso: Wojtek Gierlach, baixo polaco, Norma: Dimitra Theodossiou, soprano grego, Adalgisa: Patrizia Biccirè, soprano italiano, Clotilde: Cátia Moreso, meio-soprano português e Flavio: Bruno Almeida, tenor português. Versão de concerto, sala a três quartos.
Uma nota inicial: fomos a S. Carlos contrariados, não é do nosso agrado escutar ópera, nomeadamente a belíssima obra de Bellini e Romani, em versão de concerto, nem é função do TNSC ter uma temporada de ópera com três versões de concerto. Por isso vetámos as duas versões anteriores, até por serem de compositores relativamente menores. A curiosidade venceu no caso desta Norma, primeiro a música é muito boa, em segundo lugar não escutávamos o soprano grego há alguns anos. Sempre tivemos dúvidas sobre as suas qualidades e queríamos comprovar a evolução da cantora, apresentada pelo consultor artístico Pinamonti como se fosse uma espécie de grande diva mundial. É certo que uma ópera em versão de concerto nunca poderá concorrer com o verdadeiro produto teatral, nunca podendo aspirar a uma total satisfação do público. Norma constituía assim um grande risco, sendo uma obra complexa do ponto de vista musical e extremamente difícil para cantores medíocres apenas poderia resultar interessante com intérpretes superlativos.
Começamos pela direcção musical. A italiana Scarappuci é franzina mas tem gestos duros e feios, a sua postura no pódio é agreste e angulosa, tem o péssimo hábito de bater com o pé, de forma percussiva e violenta o que é tremendamente incomodativo, quer do ponto de vista estético, quer do ponto de vista da violenta pancada que se sente momentos antes de mais um acorde intenso um fortíssimo do coro ou uma entrada dos metais. Parece que Bellini não escreveu para bombo, tímpanos e… “sapatadas de maestro” quando assinalou os compassos da percussão. Acontecem assim sucessivos anticlímaxes nos pontos em que Bellini procura efeitos de contraste e surpresa, resulta muito estranho, a meio de um pianíssimo dos violinos, escutarmos as patadas vigorosas da maestrina antecedendo um forte súbito que aparece uns instantes depois, estragada a surpresa pela violenta cacetada. Constatando esta idiossincrasia da senhora logo na sinfonia inicial percebemos que a elegância musical iria estar arredada da interpretação pela pose da artista, o que se confirmou ao longo da noite. Não é com patadas de natureza hípica que se dirige a extraordinária melodia e o belíssimo legato com que Bellini, compositor inspiradíssimo, dotou a sua música. Outro aspecto verdadeiramente negativo foi o facto de a maestrina não dirigir os cantores mas, pelo contrário, ser dirigida por estes. Uma coisa é saber escutar as vozes e dar-lhes tempo de respiração, outra é arrastar e parar a evolução musical sempre que há uma nota mais aguda em que um tenor vaidoso gosta de se ouvir ou um soprano de ego monstruoso se quer deliciar deleitada com os seus dotes de diva. Bellini apenas constrói coloraturas ao serviço do discurso verbal e do fluxo dramático, não há cadências espúrias, parar em cada nota mais exibicional, tipo guitarristas a acompanhar o fadista em cada final de fado, final que se repete centenas de vezes, dando tempo ao cantor de exibir vaidades pouco consentâneas com as suas reais capacidades e destruindo a propulsão musical e o discurso rítmico e melódico, arrasando cantar natural da musicalidade do poema ao serviço da presunção dos divos é destruir a ideia da obra e o génio de Bellini. Espalhafato gratuito, deselegância musical, fortíssimos desproporcionados, falta de equilíbrio dos planos sonoros, direcção pesadona, arrastamento constante nas passagens lentas e em muitas que deviam ser rápidas, entradas em falso, todos estes factos contribuíram para uma confrangedora falta de nexo musical, de fluxo dramático e de ausência de tensão que arrasaram negativamente a música de Bellini.
A soprano Dimitra Theodossiou contribuiu para a enorme falta de gosto desta Norma. Nem discutimos o facto de parecer um mostruário de berloques e brilhantes, facto que deixamos para outros críticos mais mundanos. O que interessa é a falta de qualquer elegância vocal, agudos pesados e baços e médios feios, vibrato monstruoso e voz aparentemente envelhecida, a única justificação para as tremendas dificuldades de respiração poderia ser um problema de saúde que a soprano pareceu invocar assoando-se de forma falsamente recolhida. É inadmissível que uma cantora, vendida como se fosse a diva das divas, se apresente a cantar “casta diva” sem conseguir concluir de forma fluida uma única frase completa. Respirando a meio das palavras, sem conseguir sustentar o legato, parando para se deleitar com alguns agudos, a cantora foi uma sombra musical do que parece ter sido há alguns anos. Junte-se a isto uma géstica histérica e desproporcionada, mais a fazer-se ao gosto fácil de um público pouco exigente, abrindo desabridamente os braços, num estilo que deixaria Amália Rodrigues corada de embaraço, Dimitra Theodossiou foi um modelo de exuberante espalhafato quando se pedia contenção, um personagem sem evolução, que não passou a figura hierática inicial para a mortal encarnação do frágil eterno feminino no desfecho fatal a que se condenou. Theodossiou foi uma má Norma que, mesmo assim, convenceu o ignorante público presente que aplaudiu a pretensa diva de forma ostensiva.
O espanhol que cantou Pollione foi grosseiro e incapaz de nuance apesar da voz grande e do peito farto. Cometeu o erro de entrar no despique dinâmico com uma sempre pronta para a gritaria Theodossiou no terceto final do primeiro acto, apagando completamente a voz bonita, mas pequena, da Biccirè, facto que se repetiu nos duetos com esta, demonstrando falta de companheirismo e de inteligência artística. Resulta muito mais musical e lógico no contexto dramático manter o equilíbrio vocal com a ingénua a quem seduz, depois de ter feito dois filhos a Norma a quem traiu de forma canalha. Provavelmente o tenor também não seria capaz de moderar a voz, uma vez que não tem um grande domínio sobre o seu poderoso instrumento, cantando sempre em poder e nunca em subtileza, o tenor espanhol precisa de reformar o seu canto, deve procurar um bom professor de canto que lhe ensine elegância e subtileza pois a voz, a plenos pulmões, é bela e o instrumento tem qualidades.
A Adalgiza de última hora, uma vez que substituiu uma cantora incapaz que ou foi mal escolhida ou adoeceu (versão oficial), foi correcta. Tendo a elegância que faltou a todos os outros titulares, Bicciré foi inteligente, delicada e suave, conseguiu sustentar um dueto de alto nível com a desbragada Theodossiou que, pelo menos aqui, foi ao encontro da soprano italiana.
O cantor polaco Gierlach cantou sistematicamente de pernas abertas e mostrou-se particularmente boçal do ponto de vista musical, apesar de mostrar bons agudos e consistência na emissão, precisaria de outra direcção para moderar a deselegância natural.
Os portugueses Cátia Moreso e Bruno Almeida estiveram muitíssimo bem, ela densa e consistente mostrou uma voz aveludada e boa presença, apesar de uns sapatos ruidosos que faziam estremecer todo o teatro quando entrava e saía. Bruno Almeida esteve também excelente com uma voz quente e bonita nos agudos, muito bem colocada, a mostrar um belíssimo trabalho de fundo.
A orquestra não comprometeu, mostrando bons sopros e cordas graves, a banda de palco portou-se de forma regular e o coro foi muito bem preparado para esta produção por Giovanni Andreolli, apesar de algum excesso de volume. Rápida e incisiva foi a invocação “Guerra”, tratou-se de um lenitivo no arrastamento global imposto pela batuta de chumbo da maestrina.
Nota muito positiva para o programa de sala com belos textos, apesar de não existir uma crítica e um distanciamento aos pontos débeis na dramaturgia, que os há, e ao lado superficial que orientava o divertimento para as emoções dos burgueses que era a indústria da ópera no início do século XIX. Existe um lado deliberadamente kitsch – já no seu tempo – a puxar ao sentimentalismo, em que é paradigmática, por exemplo, a ária final de Norma destinada à lágrima fácil, mostrando o saber inteligente de Bellini na sua relação com o seu público, facto que não é explorado no programa. Felizmente há outras leituras subjacentes dentro da partitura e, no capítulo das leituras secundárias, o programa é muito feliz.
Uma estrela

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14.5.13

Relógio atrasado em S. Carlos 


Henrique Silveira
Crítico
Rigoletto de Verdi e Francesco Maria Piave, Teatro Nacional de S. Carlos, dia 11 de Maio, última récita, sala cheia.
Agostina Smimmero, Maddalena, contralto, excelente; Luís Rodrigues, Il Conte di Ceprano, barítono (seria um baixo segundo Verdi), bom; Piero Terranova, Rigoletto, barítono, escapatório; Giovanni Furlanetto, Sparafucile, baixo, pouco convincente; Romina Casucci, Gilda, soprano, medíocre; Alessandro Liberatore, Il Duca di Mantova, tenor, péssimo.
Cantores que cumpriram sem brilhar devido ao seu pequeno papel: Mário Redondo, Il Conte di Monterone, barítono; Marco Alves Dos Santos, Borsa Matteo, tenor; João Merino, Marullo, barítono; Leila Moreso, Giovanna, meio soprano; Ana Luísa Cardoso, La Contessa di Ceprano, meio soprano, Maria do Anjo Albuquerque, Un Paggio della Duchessa, Meio Soprano; Simeon Dimitrov, Un Usciere di Corte, baixo.
Direcção Musical: Martin André, péssimo; Orquestra Sinfónica Portuguesa e Coro Do TNSC, razoáveis; Encenação e Figurinos: Francesco Esposito, encenação fraca e figurinos maus; Cenografia: Francesco Esposito e Mauro Tinti, pindérica; coreografia: Domenico Iannone, houve coreografia? Desenho De Luz: Fabio Rossi, fraca. Programa de sala: incompleto, pouco informativo e dispensável.
Piero Terranova em Rigoletto compõe um bom papel e canta esforçadamente sem ter uma voz grande e densa e os seus graves são pouco convincentes, teatralmente foi muito esforçado, mostrou métier e o seu trabalho musical foi muito bem preparado, a sua voz é pouco ágil e no seu “andante mosso agitato” ponto fulcral da sua composição “cortigiano, vil razza danata” e nos duetos com Gilda, teve dificuldade em articular semicolcheias e tercinas, como é experiente esteve-se nas tintas para a direcção pesada de Martin André e entrou quando quis, às vezes antecipando os tempos de entrada quando o ritmo avassalador da obra o exigia. Entretanto não se entende como o director artístico não deu uma oportunidade de um grande papel a Luís Rodrigues, que estava em palco no papel de pisa palcos como Ceprano que, aliás, realizou brilhantemente com grande densidade teatral no ponto do primeiro acto em que interveio e com uma bela voz, bem timbrada, que imediatamente penetra na sala sem esforço.

A soprano Romina Casucci em Gilda tem a voz feia nos agudos, é muito inexperiente e tem muita falta de confiança no ataque das notas agudas que saem destimbradas, o domínio dos agudos é muito mau entrando muito instável e muito pobre de tímbre sempre que a nota está acima do fá, isso foi notório na ária “Caro nome” em que os saltos de oitava de fá para fá agudo foram penosos quebrandro as palavras para respirar e ganhar coragem para o ataque que saiu miserável, o ataque directo ao lá agudo foi desesperante e não acentuou os lás e sis agudos de passagem depois da segunda suspensão e, finalmente, fez ainda cadências trapalhonas onde dominou o medo e não a confiança necessária para este papel. Ao longo da obra manteve-se sempre neste registo e não vale a pena escalpelizar ainda mais uma interpretação verde.
O tenor Alessandro Liberatore no Duque de Mântua, mostrou maus dotes vocais e, sobretudo, um supremo mau gosto musical e teatral. Esbracejando desbragadamente, o desastre começou na “ballata” de entrada e prosseguiu o martírio ao longo de toda a ópera. Exibiu agudos em esforço, soluços de ataque, e foi incapaz de realizar as dinâmicas escritas por Verdi, notavelmente a total ausência de pianíssimos a três ppp quando canta o seu amor a Gilda no final do primeiro acto no andantino, “È il sol dell’anima”, não consegue apianar sobre o fá grave para depois fazer o melisma em salto de oitava sempre em pianíssimo. Tendo uma voz miseravelmente pequena canta tudo aos seus fracos plenos pulmões passando por toda a música de Verdi, e por toda uma paleta de sentimentos, da mesma forma boçal, sem que exista um mínimo de interpetação, ou direcção por parte do maestro, desta torrente infinita de arrogância da mediocridade. O cantor exibe ainda uma voz sempre na iminência de partir e visivelmente cansada, devido ao esforço que imprime ao seu canto. Sob uma direcção competente poderia melhorar imenso, nem todos podem ter vozes poderosas, poderia jogar com o claro escuro e apostar nos matizes, aproveitado algum bom timbre que, no fundo, ainda poderia restar-lhe. Sendo inteligente, poderia poupar-se para brilhar nos pontos mais exigentes. Mas a direcção pesada de Martin André é completamente insensível a este domínio, o peso da orquestra é tão exagerado, mesmo em acompanhamento, que retira ao cantor a possibilidade, admitindo que teria essa inteligência, de matizar mais a sua interpretação.
Giovanni Furlanetto em Sparafucile mostrou trabalho digno mas pouca profundidade de peito e graves pouco densos, o seu fá de saída no primeiro acto não fez estremecer os corações de tremor pela sua profissão de assassino professional. João Fernandes faria bem melhor e estou a ver mais alguns baixos portugueses que fariam, pelo menos, igual.
A surpresa desta récita, no meio da falta de critério na escolha do elenco, provavelmente por acaso feliz no meio de escolhas falhadas e erráticas, foi a grande voz de contralto de Agostina Smimmero, de uma densidade e profundidade impressionantes, e uma grande naturalidade musical, fez uma prostituta notável. Tem o inconveniente de um físico que a desfavorece em termos teatrais; no entanto, se perder peso poderia perder os dotes vocais e estes são preciosos e raros a nível mundial.
Na orquestra houve momentos de grande lirismo, apesar de Martin André, nomeadamente nos belíssimo solos de oboé. Tivessem seguido os cantores a poesia deste instrumentista e outro galo teria cantado em S. Carlos. O coro, apesar de algumas “fugas” rítmicas, esteve bem, muito moderado em termos cénicos e equilibrado vocalmente.
A direcção musical foi, de novo, muito fraca, André decorou o calhamaço mas não ganhou muito com isso, decorar para a exibição pura e simples não tem o menor significado, teria se ponderasse os planos e os equilíbrios, se preparasse realmente o canto, se entendesse a efervescência e a vivacidade dramática da partitura. A aceleração vertiginosa da obra em direcção ao clímax não foi entendida e a direcção pesada e empastelante, grosseira na sua falta de entendimento das subtilezas, fazem desta direcção um paradigma do que não se deve fazer em Verdi.
A encenação foi de uma “modernização” banal e tristonha, direcção de actores ao Deus dará e motos electricas para um duque que tanto é almirante como motoqueiro em cabedal, tijolos pintados para poupar em cenários e mobiliário tipo IKEA, em que o palácio do duque e beco escuro e abandonado têm a mesma realização, (a partitura tem escrita: Sala Magnifica nel palazzo Ducale splendidamente iluminata!) se o director tivesse poupado na contratação de uma armada de italianos banais como equipa cénica e tivesse optado por uma equipa nacional, certamente haveria quem fizesse melhor do que este chorrilho de banalidades, figurinos de loja chinesa e luzes indiferentes.
Pelo exposto muitos dos protagonistas poderiam ser feitos por cantores portugueses capazes de fazer igual ou melhor, há uma meia dúzia de Gildas superiores e há melhores tenores do que este Liberatore, mesmo num país fraco neste tipo de voz como Portugal. Não se entendem as opções de Martin André num capítulo que também é um desastre financeiro, pois cachets e a estada desta armada italiana durante meses em Lisboa, são muito superiores às dos artistas portugueses. Apostar nesta mediocridade quando há opções melhores neste tempo de crise, é quase insultuoso para o público pagante e para o contribuinte que sustenta o S. Carlos.

Eu próprio, juntamente com mais público, vaiei convictamente o tenor e, sobretudo, o maestro, que também é director artístico e nessa qualidade ali estava, num gozo da minha liberdade de público que pagou o seu bilhete, como é natural, nomeadamente nas mais exigentes casas por esse mundo; como era tradição no S. Carlos, sala sempre muito exigente ao longo da sua história. A reacção do director, ao fazer gestos desbragados num claro insulto ao público, que tem todo o direito de mostrar a sua posição e lhe paga o chorudo vencimento, foi inaceitável e levantou uma pateada merecida.

Bola preta

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7.5.13

Um todo muito abaixo da soma das partes 



Henrique Silveira


Crítico


Traviata de Verdi e Francesco Maria Piave, Teatro Nacional de S. Carlos, dia 2 de Maio, última récita, sala cheia.


Il Dottor Grenvil: Luís Rodrigues, brilhante. Gastone: Marco Alves dos Santos; Annina: Leila Moreso; Il Barone Douphol: Mário Redondo; Il Marchese D’obigny: João Merino; Guiseppe: Nuno Cardoso; Un Domestico: Daniel Paixão; Un Commissionario: Costa Campos, todos razoáveis; Violetta Valery: Daniela Schillaci, medíocre; Alfredo Germont: Andrés Veramendi, mau; Giorgio Germont: Damián Del Castillo, péssimo; Flora Bervoix: Joana Seara, erro de casting. Direcção Musical: Martin André, mau; Orquestra Sinfónica Portuguesa e Coro do TNSC, fracos; Encenação e Figurinos: Francesco Esposito, encenação má e figurinos péssimos; Cenografia: Francesco Esposito e Mauro Tinti, má; Coreografia: Domenico Iannone, péssima; Desenho De Luz: Fabio Rossi, péssima.


Fui a esta Traviata com bilhetes comprados e não oferecidos pelo teatro de S. Carlos, como é habitual junto dos críticos. Renunciei a requerer os mesmos ao Teatro nesta produção para ter a liberdade normal num público pagante e sentir a mesma sensação da assistência normal. Fui à última récita propositadamente, nas primeiras récitas há sempre muitos erros que se podem corrigir com a sequência, foi-me dito por diversas pessoas que esta Traviata seria a menos má das produções e que, dos três cantores principais, a Violetta de Schillaci escaparia. Fui com esperança num espectáculo digno de interesse por qualidades cénicas apesar da falta de dinheiro e da pouca qualidade nominal dos cantores. Afinal Martin André, o director artístico, é um maestro, deve ter algum ouvido, mesmo dentro de um orçamento limitado há escolhas excelentes que se podem fazer, ainda por cima com o tempo disponível dado pela quase total ausência de produções operáticas do teatro nacional de ópera.


Constatei que as escolhas de Martin André foram desastrosas, a soprano principal tem a voz pouco rica de harmónicos, a sua emissão é estridente e apitada, o domínio dos agudos é muito mau, entrando desafinada frequentemente sempre que a nota está acima do sol, recorrendo sistematicamente a portamentos de correcção para emendar as notas, tem um vibrato grosso e feio nos médios e não tem graves, tem algum “métier” mas, apesar de ser esforçada, a sua postura em palco é rígida e artificial, talvez culpa de uma fraca direcção de actores. Musicalmente é grosseira e pouco artística, limita-se a seguir André, o que é inseguro, e não tem inteligência própria. Note-se que esta é uma produção em que em lugar de existirem muitos pontos fortes e um ou outro defeito, acontece que é notada por a titular ser escapatória numa completa ausência de qualidade, o que não é admissível.


O tenor Veramendi não tem nível para uma ópera desta envergadura, de voz feia, anasalada (sobretudo na voz de cabeça) e pequena, má técnica vocal: após inúmeros dias de descanso surge cansado e com a voz a partir e com a emissão em grande stress, incapaz de cantar em dueto, sempre fora de tom e com as entradas pouco certas, oitavando notas arriscadas, tem uma dicção do italiano ciciada “a la espanhola” o que é horrível. Precisa de um longo trabalho com um bom professor de canto e de melhorar grandemente a pronúncia italiana.


O “barítono” Damián Del Castillo não tem qualidade musical, em dueto com Schillaci nunca acertou nas entradas, tem mau solfejo, voz muito feia e instável, não tem gravidade vocal arranhando nos agudos e não sendo capaz de graves, de voz pequena foi tapado pela orquestra e pela batuta dura e pesada do maestro, pouco inteligente no trabalho de doseamento de som e incapaz de perceber os compromissos que uma ópera requer.


A Flora de Joana Seara foi fraquita, a sua voz ligeira nada tem a ver com a necessária para Flora, e a sua graça é plastificada, relembro que cantoras como Gundula Janowitz ou Frederica Von Stade cantaram este papel!


Os cantores portugueses estiveram razoáveis nas pouqíssimas linhas que cantaram, o que não permite maiores elocubrações sobre a sua actuação. Realço a voz de Luís Rodrigues, no menoríssimo papel de Grenvil, uma distribuição que, para um cantor com as provas dadas de Rodrigues, é um insulto: sempre que a sua voz surgia fazia esquecer o inenarrável Germont. Não consigo entender como foi dado a um cantor que mal consegue arrastar-se em palco o papel de Germont deixando Rodrigues com o papel de Grenvil, das três uma: ou é ignorância ou surdez ou maus fígados contra os cantores portugueses por parte do director.


A direcção musical foi atroz, André parece que dirigiu de memória, sem papel, isso demonstra falta de respeito e arrogância perante a partitura, Carlos Kleiber, um maestro que fica mal só por ser mencionado na mesma folha de papel do que o medíocre André, levava sempre a respectiva partitura, e era um conhecedor obsessivo da Traviata. André é um maestro de ópera incipiente, que dá entradas com a boca a fingir que canta (!), muitas vezes antecipadamente dois ou três compassos, e reserva as mãos e batuta para controlar, obsessivamente, a orquestra. Ter memória e gostar de Verdi não garantem uma boa direcção e isso verificou-se logo na entrada do primeiro acto em que está escrito: “allegro brillantissimo e molto vivace” e se escutou um “allegreto muito baço e muito mortiço”. Tudo o resto foi de mal a pior, pretendendo controlar a obra com “mão de ferro” o maestro inglês conseguiu que tudo fosse feito com sapatos de ferro, arrastado, sem brilho nem cor, trapalhão no gesto, desprezando a tradição, factor importantíssimo quando se trata de ópera italiana, fazendo as repetições das árias, algo completamente disparatado no contexto do fluxo teatral e que Verdi usou para prevenir os infelizes pedidos de bis do seu tempo. Memorizar sem compreender a essência vertiginosa da obra é um exercício espúrio: sem graça nem brilhantismo nos pontos mais rápidos e sem qualidade de som nem pathos nos momentos mais lentos, a interpretação fica um monolito tristonho.


A orquestra não tem qualidade de som e os acompanhamentos sairam pesados, como se fossem patas de elefante, a tuba, que substitui o cimbasso original contribui para um maior peso. Notou-se algum esforço, mas a qualidade musical é limitada pelo fraco som.


O coro, rouco, envelhecido e muito reduzido limitou-se a berrar, o naipe dos tenores mostrou-se atroz, tudo dentro do costume, felizmente mais afinado e mais certo nas entradas do que já foi norma.


A encenação foi um deserto de ideias, a única e infeliz novidade é a cena em que Germont dá tacadas nas bolas de golfe enquanto Violetta renuncia a Alfredo o que demonstra uma absoluta incompreensão da dimensão da partitura e do sentido dos personagens. Um falso teatro dentro do teatro, que não acrescenta nada, uns camarotes mal feitos, um espelho fosco feito de plástico e uns andaimes fazem de cenários, piores do que os de um festival de Verão de província em que se monta e desmonta uma barraca no próprio dia. Um desenho de luzes inteligente poderia colmatar a pobreza daquilo tudo mas não existiu qualquer desenho de luz, existiram projectores fixos e um amarelo deslavado do princípio ao fim. Os figurinos também não existiram onde existiu, quanto muito, pronto a vestir. A coreografia foi uma palhaçada trapalhona e escolar.


Nem o relógio da sala está certo, marcava seis e um quarto e lá continuou penosamente atrasado durante toda a ópera marcando a decadência e a falta de brio desta direcção, imaginar pior do que isto é, porém possível, imagine-se por exemplo um Rui Massena como director? Quem tivesse essa ideia passaria a ser motivo de chacota para a eternidade.


Acrescento que, neste período de crise, cobrar cinquenta euros por uma plateia é um roubo e um insulto ao público em face do produto muito fraco apresentado.









Bola preta

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30.3.11

A Luta de Vasco e Nuno 


Ópera Banksters em estreia absoluta no S. Carlos

Henrique Silveira – crítico

Estreia a 18 de Março de 2011 com sala pouco mais de meia. Direcção musical de Lawrence Renes com Orquestra Sinfónica Portuguesa e Coro do Teatro Nacional de S. Carlos. Obra do compositor Nuno Côrte-Real com libreto de Vasco Graça Moura.

É célebre a imagem de Jacob lutando durante a noite com um ser, nunca nomeado mas interpretado como um anjo, nas pinturas de Rembrandt, Delacroix ou na gravura de Doré. Essa imagem vai percorrer a encenação de João Botelho: a luta constante entre esse estranho ser, enviado de um paraíso fiscal, Angelino Rigoleto, tenor Musa Nkuna, e o banqueiro Santiago Malpago, barítono Jorge Vaz de Carvalho. O denso texto original de José Régio, Jacob e o Anjo, que se aplicava a D. Afonso VI é desmontado e reconstruído por Graça Moura que cria um libreto em rima de um finíssimo sentido de humor e musicalidade, misturando alguns elementos brejeiros com uma refinada erudição. A obra original de Régio serve de prancha de salto para a história de um banqueiro, visitado por um ser estranho que precipita a acção. O banqueiro é traído pela mulher, Mimi Kitsch, soprano Sara Braga Simões, e pelo Accionista irmão de Santiago, barítono Diogo Oliveira.

A música de Côrte-Real não acompanha o sentido de humor de Vasco Graça Moura, criando-se assim o principal equívoco desta obra. Côrte-Real sabe utilizar a prosódia e o português resulta muito legível mas aquilo que seria, à partida, uma tragicomédia resulta, através da música, num produto muito enfático, continuamente sobrecarregado na orquestração com uso e abuso dos metais, muito denso de graves, muito repetitivo na exploração do material temático e no abuso da marcação pelos tímpanos, quase sempre em fortíssimo, de ritmos assumidamente brutais, como o do “malhão malhão” dos Zés Pereiras, que deixam o auditor num sufoco de tensão que nunca distende, acabando tudo em ambiente de tragédia pura e dura.

A música é sempre ofegante. As citações contínuas de outros trechos musicais, assumidas ou inconscientes, como o cliché dos violoncelos após um momento mais pungente, acabam por perder o efeito e são mais uma máscara que se confunde com a realidade. Os momentos de grande beleza musical banalizam-se pela sua exploração exaustiva onde falta a concisão. A constante divagação estilística de Crte-Real é uma espécie de barroquismo pós-moderno que, de tão assumido, se torna num pastiche que nem sequer consegue ser reaccionário. Após uma muito interessante e fresca Oratória Popular, estreada recentemente em Torres Vedras, esta ópera é, para mim, uma desilusão.

A encenação de Botelho é primorosa, resultando muito visual e evocativa e muito bem coadjuvado por todos os elementos da equipa cénica.

O maestro não conseguiu dar coesão ao todo e o coro foi a habitual abominável colecção de cromos aos gritos. Grande dignidade na representação e canto de Vaz de Carvalho, com bela dicção, e uma muito interessante Sara Braga Simões [teatralmente] com Diogo Oliveira a cumprir bem, Musa Nkuna foi fraco e Chelsey Chill foi excessiva, o resto dos cantores primou por uma fraca mediania.

**

o - Mau, * - sofrível, ** - interessante, *** - bom, **** - excepcional

Nota -Este texto curto de cerca de 3000 caracteres não me satisfaz. As necessidades jornalísticas forçam-me a uma concisão que, apesar da disciplina que impõe, é castradora e deixa a crítica sempre incompleta. Mas são as regras do jogo.

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20.3.11

Orquestra Sinfónica Portuguesa II 

Publicado originalmente no Jornal "O Diabo"

Henrique Silveira – crítico

Continuamos a analisar nesta edição a Orquestra Sinfónica Portuguesa. Como vimos é uma orquestra fraca que custa ao erário público mais de cinco milhões de euros por ano com os seus cento e dez músicos. Uma orquestra que nada tem evoluído desde a sua fundação. Uma orquestra que oscila na esquizofrenia de ser ao mesmo tempo uma orquestra sinfónica e uma orquestra de ópera e não faz bem nem uma coisa nem outra.

Quais as soluções para este problema crónico? Como escrevemos anteriormente não existe avaliação de desempenho. Os maestros vão e vêm e nunca deixam escrito qual a impressão causada por este ou aquele naipe, ou pelos músicos em particular. Depois das audições para entrar na orquestra nunca mais os músicos têm de provar se estão aptos, os instrumentos são de má qualidade e o som, sobretudo nas cordas, é horrendo. Este estado de coisas, com uma crítica geralmente amorfa e com pouco espaço, leva a que muitos músicos se estejam nas tintas para o estudo e a arte, e a coisa sai como calha e se vão dedicando a outros projectos que lhes vão rendendo proventos extra.

Qual a solução? No meu entender é simples, extinção da orquestra como orquestra “sinfónica” e passagem a “Orquestra Nacional de Ópera”. Redução dos quadros a cinquenta e cinco músicos escolhendo apenas os mais capazes e indemnizando os restantes através de audições com um júri internacional e os músicos a tocar atrás de cortinados. No futuro fazer uma avaliação de desempenho anual, com avaliações pelos maestros e por eventual audição dos músicos. Os avaliados como “insuficiente” por duas vezes teriam de sair da orquestra. Enfim, reformar a orquestra e transformá-la numa organização séria e capaz. Hoje em dia o público está afastado da orquestra pela sua falta de qualidade e esta não presta um grande serviço à comunidade. Deve-se investir o dinheiro poupado, que será da ordem dos três milhões de euros por ano, para fazer uma sala de ensaios e uma sede para a orquestra. Ao longo dos anos o dinheiro poupado permitiria uma muito maior actividade artística do Teatro de S. Carlos.

Para os concertos Portugal conta com orquestras de nível muito superior que cumprem a função de transmitir a música sinfónica ao público, orquestras que têm público fiel e mantém um nível razoável.

Os outros corpos artísticos permanentes sofrem dos mesmo defeitos. O coro do Teatro de S. Carlos é péssimo e os bailarinos da Companhia Nacional de Bailado na sua maioria já nem sequer dançam. É necessário acabar com este estado de coisas que apenas serve para esbanjar dinheiro aos contribuintes portugueses, nesta época de crise, e criar soluções que permitam salvaguardar os artistas e o público.

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o - Mau, * - sofrível, ** - interessante, *** - bom, **** - excepcional

Esclarecimento (a sair na edição de 22 de Março de 2011) – Nunca escrevi que a OSP deve ser extinta, o que eu defendo é a extinção do nome “Sinfónica” e a substituição por “Orquestra Nacional de Ópera”. Defendo de facto a redução de quadros mas penso que se devem, e cito, : “...criar soluções que permitam salvaguardar os artistas ...”.

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Orquestra Sinfónica Portuguesa I 

Publicado originalmente no jornal "O Diabo"
Henrique Silveira – crítico

Mega Ferreira, presidente do CCB, anunciou com pompa e circunstância que a obra Daphnis et Chloé de Maurice Ravel seria apresentada nos Dias da Música, esse sucedâneo da Festa da Música, mais pobrezinho que o evento anterior e baseado fundamentalmente nos mesmos princípios. A obra de Ravel é extraordinária, é necessário um grande refinamento da orquestra e do coro.

A obra vai ser entregue à Orquestra Sinfónica Portuguesa, o que me levou a esta reflexão. Pois fique sabendo que a orquestra custa mais de cinco milhões ao Estado por ano, foi fundada em 1993 e nunca se conseguiu afirmar como uma orquestra razoável sequer no plano português sem falar do plano internacional. Desde a sua criação a Orquestra Sinfónica Portuguesa nunca se livrou de alguns problemas que assolaram a sua existência.

Em primeiro lugar a esquizofrenia de ser uma orquestra de ópera e ao mesmo tempo uma orquestra de concertos, os seus 110 elementos nunca se encontram em conjunto para fazer ópera e nos períodos em que há ópera não se fazem concertos. Se em Viena a Filarmónica, associação livre de músicos do teatro de ópera, se reúne nos seus tempos livres para ensaiar e fazer concertos aos Domingos, com uma carga enorme de trabalho que conjuga mais de 300 noites de ópera com dezenas de concertos, a sinfónica portuguesa terá cinquenta noites de ópera e uma vintena de concertos anuais, com uma produtividade baixíssima. No entanto os seus padrões de qualidade são tão baixos que seria impossível uma maior produção, acresce a isso que a orquestra portuguesa não consegue fixar repertório devido o número ínfimo de vezes que se apresenta em público.

Em segundo lugar esta orquestra tem sido desprezada pelo poder político e por todas as tutelas, sem excepção, desde a sua criação. Não tem uma sala de concertos própria, o que a par da sua falta de qualidade, tem contribuído para um total desfasamento do público. Por outro lado não tem salas de ensaio, estudo, biblioteca, ou gabinetes de trabalho e estúdios para os músicos desenvolverem as suas actividades relacionadas com a orquestra e paralelas e nem sequer espaços de arrumações dignos desse nome têm para guardar instrumentos que podem ser volumosos. Andam com a casa à costas ensaiando onde calha, muitas vezes no impróprio Salão Nobre do Teatro de S. Carlos.

Finalmente a orquestra não tem na sua constituição músicos verdadeiramente excepcionais e não há qualquer avaliação de desempenho. Os lugares são de funcionalismo público, seguros e para sempre. Toquem bem ou mal ninguém os repreende. As críticas eram penosas no início mas a coisa está tão estagnada que os críticos já nem se dão ao trabalho de ir aos concertos e nas críticas das ópera andam pela condescendência e evitam referir-se à orquestra.

Desde 1993 nunca a orquestra evoluiu, os críticos internacionais com quem tenho falado dizem-me sempre: que pena, a vossa orquestra nacional é tão fraca... Se no Índice de Desenvolvimento Humano Portugal aparece pelo lugar 30 a nossa orquestra nacional terá à frente, e de longe, mais de trezentas orquestras, o que diz bem do estado de coisas da orquestra pública.
Continua.

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o - Mau, * - sofrível, ** - interessante, *** - bom, **** - excepcional

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10.3.11

1+1=1 

Henrique Silveira – crítico

O Teatro Nacional de S. Carlos levou à cena mais uma produção, desta feita reuniu a Gianni Schicchi de Puccini a experiência operática Blue Monday de Gershwin. Assistimos a 17 de Fevereiro com a casa quase cheia. Dirigiu Martin André, director artístico do Teatro à frente da OSP. Parece que o grande elo de ligação era o facto de as duas óperas terem sido estreadas em Nova Iorque! Note-se que o Gianni se integra num ciclo de três óperas curtas juntamente com Suor Angelica e Il Tabarro.

Começou-se pela experiência de Gershwin, Blue Monday, produto híbrido de vinte e cinco minutos, nem carne nem peixe, nem jazz, nem blues, nem musical, nem ópera, numa história que pretendia parodiar a ópera verista e que acaba por se tornar num episódio mau de “soap opera” em triângulo em que nem sequer existe intrigalhada. Presentes: Tom o cantor por um João Merino com inglês de Sacavém, a mocinha, Vi por Laura Giordano, que mata o rapaz, o jogador Joe por Mário João Alves, por julgar que este recebeu um telegrama de uma outra mulher que, afinal, era apenas a notícia de que a sua mãe tinha morrido, isto perante os assistentes Mike, dono do café onde se passa a acção por Nuno Dias, e Sam, o faz tudo, por João de Oliveira.

Fracasso claro de Gershwin mais por causa de uma história pobre e teatro deficiente do que pela música que não serve qualquer propósito dramático. Fracasso que mais uma vez se estendeu a esta récita onde Martin André não conseguiu dar um cheirinho de blues e a orquestra esteve monótona e os cantores também se limitaram a cantar as notas e não “o que está entre estas” como disse o maestro numa entrevista.

Já o Gianni Schicchi, foi interpretado com mais entrega pelos cantores, sendo o titular Yanni Yannissis e sua fillha Lauretta por Laura Giordano os mais cotados, cumprindo de forma agradável o papel. A família florentina que se debate pela herança do velho Buoso Donati a quem velam, Maria Luísa de Freitas, Carlos Guilherme, Ana Paula Russo, Miguel Neves, João de Oliveira, Nuno Dias, Jorge Martins, Luisa Francesconi, Simeon Dimitrov, Rui Baeta, Christian Luján e João Rosa estiveram razoáveis com um ligeiro destaque para o sobrinho Leonardo Capalbo. Martin André mais uma vez dirigiu sem grande brilho todo o conjunto mas de forma mais equilibrada do que na ópera de Gershwin e a orquestra, apesar do som miserável dos violinos, cumpriu.

A encenação a cargo de André E. Teodósio foi inapta na direcção de actores em Gershwin, onde os actores cantores andavam à deriva no palco, e mais interessante nas marcações em Puccini onde sublinharam bem o sentido da comédia e do teatro de Puccini. E, se quem tinha visto a desastrosa encenação de “Um Outro Fim” de um barroquismo pós-moderno confusionista, que o encenador coloca numa perspectiva preparatória desta encenação, vai encontrar aqui em Blue Monday e em Schicchi um convencionalismo total. Dá a ideia que o S. Carlos e os estereótipos referidos pelo encenador em diversas entrevistas, como aquele dos casacos de pele do intervalo, o intimidaram e o impediram de se tornar o Schlingensief tuga. É pena, pois é necessário um verdadeiro subversivo em S. Carlos. Sobra a ideia do carro funerário, que desvenda o mistério antes do tempo em Gershwin e é redundante em Puccini. A grande ideia é o carro funerário? E daí?...

Blue Monday – o

Gianni Schicchi – **

o - Mau, * - sofrível, ** - interessante, *** - bom, **** - excepcional

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Uma Katia Inclinada 

Versão não cortada - a que saiu no jornal teve de ser amputada por razões de espaço.

Henrique Silveira – crítico

Kátia Kabanová – ópera de Leos Janácek, Teatro Nacional de S. Carlos (TNSC), casa muito fraca com menos de metade da lotação. Dia 14 de Janeiro, 20h30m com meia hora de atraso.
Orquestra Sinfónica Portuguesa com direcção de Julia Jones, coro do TNSC. Katerina Kabanová: Ausryne Stundyte, Tichon: Hans Georg Priese, Marfa Kabanová: Dagmar Peckova, Boris: Arnold Bezuyen, Dikoi: Magnus Baldvinsson, Vánia: Finnur Bjarnason, Várvara: Anna Grevelius substituída em playback por Natascha Petrinsky, ainda com Larissa Savchenko, Mário Redondo, Ana Cosme, Luísa Lucena e João Queirós. Encenação de David Alden, figurinos de Jon Morrel, coreografia/equilibrismo: Maxine Braham e luzes de Adam Silverman. Co-produção com o teatro Wielki-Opera Varsóvia e English National Opera.
Com a direcção musical de Julia Jones tivemos o prazer de poder ver e ouvir Janacek (1854-1928) pela segunda vez em alguns dias após “Da Casa dos Mortos” na Gulbenkian. Desta feita o TNSC apresentou uma verdadeira encenação da obra do compositor moravo estreada em 1921.
A prevista Grevelius, com problemas de saúde, não pode cantar e foi substituída à última hora por Petrinsky, que cantou num camarote adjacente ao palco seguindo a partitura. O atraso de meia hora deveu-se à chegada em cima da récita da cantora, que nem sequer. Petrelius ficou em palco a esbracejar e a abrir a boca a fingir que representava e cantava, mas o efeito era sobretudo cómico: o som vinha de um lugar completamente díspar. No entanto parece ter sido a única solução para não cancelar a récita e evitar ao anémico público presente a devolução do valor dos bilhetes. Saúda-se a solução do problema mas os efeitos teatrais foram comprometidos em todas as cenas em que Várvara intervinha.
A direcção musical de Julia Jones foi atenta às vozes e pode-se dizer que foi notável o esforço da substituta para tentar tão em cima do acontecimento salvar a récita e, apesar da descoordenação inevitável, conseguiu-se um resultado vocal sofrível.
A encenação esteriotipada de Alden contava com um plano inclinadíssimo em palco, parece que o encenador quis dar aos cantores o máximo de desconforto, além de actores e cantores, passámos a ter equilibristas no palco do TNSC, daí, provavelmente, a necessidade do coreógrafo Braham, só com grande prática e treino se pode transformar um cantor de ópera numa espécie de artista de circo, uma vez que as marcações, limitadas pela geometria peculiar do palco ficava limitada ao evitar escorregar e cair dentro do fosso da orquestra. Um dos membros do coro deixou mesmo cair um objecto que tinha na mão e este foi cair em cima dos músicos. É caso para dizer que além do traje de cerimónia faltavam capacetes amarelos aos membros da orquestra. Se a inspecção das condições de trabalho fosse mais rigorosa e tivesse feito uma rusga lá acabava a récita antes do tempo por falta de rede.
A casa dos Kabanov era uma espécie de parede de uma barraca gigante, um mastodonte de madeira, que andava de um lado para o outro em palco criando as diversas atmosferas (des)necessárias.
Depois a ideia de que os russos andam todos de colete e barrete e que dentro e fora de casa andam sempre vestidos de igual parece saída de um filme dos anos trinta e não de uma encenação que não entendeu o âmago da peça de Ostrovski, adaptada por um Janacek que faz verdadeiro teatro e caracteriza os personagens do ponto de vista psicológico de forma notável, uma reflexão sobre as fraquezas humanas, a culpa, o amor, a convenção e a religião. Com Alden tudo é estereótipo, tudo é superficial e resume-se a não cair para dentro da orquestra. Pode-se dizer que se percebe que o encenador é homem de teatro e que tem alguma competência mas que não esteve inspirado.
Como sempre ns últimos tempos a que tenho assistido à OSP, esta esteve francamente mal: excessos de som nos metais, violinos horríveis em termos de beleza sonora, desafinados, sem corpo, desconcentração geral e som mal equilibrado e feio.
O coro, alvíssaras, tem uma intervenção muito breve e no meio da tempestade a coisa passou despercebida.
Salvaram-se algumas vozes, sobretudo as da Stundyte e Peckova. Priese e Bjarnsson cumpriram e o tenor Bezuyen, que conhecemos de Bayreuth, esteve muito fraco nos agudos exigentes mas acabou por cumprir no resto. Baldvinsson foi grosseiro vocalmente e teatralmente e exibiu uma voz cansada e envelhecida.
Mesmo assim o nível acabou por superar o dos tempos da última direcção de Dammann.
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26.3.10

Niobe 

Na estreia de Niobe Mário Vieira de Carvalho consegue torturar hoje pós-hermeneuticamente, e antes de qualquer compreensão possível, mais 250 pessoas com dinheiros públicos. Provavelmente hoje também o S. Carlos bateu todos os recordes de financiamento de um lugar na ópera com dinheiros públicos!

Niobe no S. Carlos: Deprimente, soturno, penoso. Menos de 250 pessoas na sala, número oficial. Próximo Domingo (récita sem assinatura) estão previstas menos de 60 (cada lugar ocupado deve ficar ao Estado mais de 1800 euros)! Confesso que se percebe este desfasamento do público. Eu cumpri a minha penitência da quaresma, talvez de dez quaresmas...

O "Intermezzo" foi simplesmente lamentável, Stockhausen com 23 anos já compunha obras menos datadas do que aquela porcaria...

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19.3.10

Niobe no S. Carlos 

Eu nem devia ir, mas tenho uma crítica para fazer. É já no dia 25, no S. Carlos em Lisboa, e começo já a ficar doente, ontem tive uma crise fortíssima de enxaqueca: aqueles cantores e orquestra fazem prever um desastre. Quem gosta de música antiga e tem uma paixão muito particular pelo século XVII sofrerá horrores com um previsível massacre e retalhe da ópera de Stefani. Em princípio é necessário uma fortíssima preparação psicológica para conseguir passar por aquilo sem uma crise grave de saúde. A antevisão possível e aconselhável é imaginar uma catástrofe de dimensões bíblicas, preparar o riso, em vez do choro, olhar para o que vai acontecer como uma espécie de segunda Aggripina de Handel e canalizar as energias para a anedota em vez da tragédia. Depois tudo o que vier de positivo, como umas notas certas aqui e ali, uma frase acertada estilisticamente de um cantor, acabará por ser um lenitivo que apaziguará o desconforto e o desencanto de ver uma obra programada assim....

Não aconselhei nenhum amigo a ir, infelizmente lá terei de subir ao cadafalso como o cordeiro para o sacrifício quase em tempo de Páscoa. Felizmente ainda será bem dentro da Quaresma mas deverá ser uma penitência muito pior do que o cilício, o jejum a pão e água e a auto-flagelação com chicote, coisas que já não se exigem ao devoto da música antiga.
A esperança é a última a morrer e dizem-me que nunca se sabe, mas o currículo de Christroph Dammann é desastroso. Aliás, depois do fiasco de D. Branca não se percebe porque razão ficou no cargo. Dammann devia ter sido despedido com justa causa no mesmo dia da estreia falhada por razões nebulosoas e mal explicadas e desculpas que não mascaram a incompetência do alemão.
Quem o contratou fazendo um contrato ruinoso para os cidadãos e o Estado devia ser fortemente responsabilizado.
E dizem que ser crítico é agradável...

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28.2.10

Dammann soma e segue 

Continua o escândalo Dammann: cantores piores que maus. Orquestra péssima, coro abominável. Mais uma encenação banal, mas o pior de tudo são as escolhas artísticas. Anuncia a D. Branca do monárquico Keil (e amigo de D. Carlos) mas sem cantores para Setembro e Outubro de 2010 para celebrar a república...
Será que pagou aos que andaram por aí a fazer uns ensaios lamentáveis? Será que o tenor mostrou atestado médico? Será que não pagou aos cantores? Onde estava o plano de contigência? Que andou o João Paulo Santos a fazer com os materiais? Quanto é que este cancelamento custou ao erário público em época de crise?
E depois tem a lata de vir pedir mais dinheiro para a uma entrevista na Rádio...
A minha conclusão é que nada foi explicado por detrás de uma "doença" de um tenor, demasiado conveniente, e que me pareceu óptimo e fresquíssimo ao telemóvel no dia em devia ter sido a estreia. Como estava cheio de planos para a semana seguinte e o "seu Baile de Máscaras"! Quando lhe perguntei como ia a sua terrível doença, no final da conversa, ele disse-me: "Silêncio Absoluto o doutor deu-me uma semana de repouso" e aí tossiu uma tosse "cagalhoeira" (como se dizia na terra da minha avó) e enrrouqueceu durante 10 segundos para crítico ouvir...

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6.11.09

Götterdämmerung no S. Carlos - breves notas 

Alguns amigos pedem a minha crítica ao Crepúsculo de Wagner no S. Carlos. Tenho hesitado em escrever algo sobre o assunto. A principal razão é que existe um problema lógico inextricável, o que tivémos no S. Carlos não foi o Crepúsculo dos Deuses de Wagner, nem sequer foi uma obra de Wagner. Neste último mês tivémos, sim, o crepúsculo na senilidade de Graham Vick e o afundar num pântano angustiante de uma orquestra. Comento o que assisti ao vivo: A estreia...

De rajada que não quero perder muito tempo: esta produção teve uma cantora razoável em Brünnhilde, Susan Bullock, com um timbre algo feio no registo agudo, um vibrato agressivo nas notas em fortíssimo mas com bom sentido da frase e um Siegfried boçal e grosseiro em Stefan Vinke que, apesar de tudo, conseguiu gritar as notas do papel, ao contrário do que se passou na jornada anterior. O resto foi desinteressante, entre o mediano (por ex.: algumas vozes solistas) e o horrível (por ex.: o coro e outras vozes solistas), e não vale a pena destacar nada…

Graham Vick quer apenas destruir as ideias de Wagner, incapaz de clareza, de clarividência, pondo os personagens a actuar contra a natureza do texto e do seu devir trágico. A Gutrune submissa e inerte transformada numa assassina. O representante do eterno, mesquinho e sempre vivo mal, Alberich, vive agora decadente na senilidade (a mesma senilidade que é obsessão de Vick) é o chamado envelhecimento a velocidade supersónica, ainda na jornada anterior Alberich andava aos pulos, viçoso como uma alface na caverna de Fafner. As observadoras Normas, desprovidas para sempre de poder, preparam bombas no S. Carlos, o que até não seria despropositado. Motoqueiros em ridículas scooters eléctricas são tudo... menos convincentes. A nobre Brünhilde é bombista. O Reno, outro personagem mágico, deixa de existir transformado numa campa infecta. Só esta última questão seria suficiente para quebrar a ideia fecunda do cosmos que Wagner preparou durante 15 horas de música para o apocalipse (quase) final: nos ares refulge o fogo que consome os céus, em oposição às águas do Reno transbordando das margens e que invadem, purificadoras, as terras de Worms...
A ideia do totalitarismo presente na corte de Gunther é interessante mas banal. Os corvos de Wotan, interessante e bela ideia (pensei ao vê-los surgir), é assassinada barbaramente pelos trejeitos a que os desgraçados dos bailarinos foram obrigados pelo "coreógrafo", mais pareciam uns pardalecos tontos uma espécie de gatos-pingados esbracejantes do que os nobres observadores de Wotan, olhos do mais presente dos ausentes, olhos de Wagner afinal. Outra nota saída do bordel do "coreógafo" Ron Howell, citado universalmente pela crítica internacional como um coreógrafo sem ideias e que vive à sombra artística de Graham Vick, é a "dança" das ondinas. Confundir sedução e erotismo com aquilo é o mesmo que chamar de meretrizes a todas as mulheres...
Foi dito que Vick fervilha de ideias, que é um mágico do teatro. Eu pergunto-me: onde estão as ideias de Vick que sejam fecundas? Encontro apenas meros actos gratuitos, sem sentido, sem fluxo, esparsas provocações: um par a dançar danças de salão ao tema da redenção que encerra o Crepúsculo, banalidade que representa o vazio, banalidade pessimista em oposição ao pessimismo mágico, sublime, trágico de uma visão de Wagner da filosofia de Schopenhauer... Fica uma pergunta: qual a lógica disto? Qual o sentido de um grupo de figurantes a correr e a pular durante os mais belos momentos musicais da orquestra? A única resposta é que o que sai do fosso é tão mau que é necessário fazer barulho com os pés dos figurante, distrair e encher o olho do público para que este não perceba a miserável direcção de Letonja e o som horrendo que vai escorrendo, qual fluxo lamacento, de um fosso sem coordenação, sem conjunto, sem propriedades acústicas, sem nexo. Abafar as notas erradas dos trompetes no juramento de Brünnhilde, esconder os graves a entrarem todos descoordenados porque os instrumentos não se conseguem ouvir no fosso, esconder a falta de precisão das entradas dos sopros, esconder os trombones fora de tom da banda de palco quais buzinas desafinadas, esconder o paupérrimo som das cordas, esconder a triste marcha fúnebre, sem pathos, sem impacto, sem chama, mortiça, esconder a visão míope do maestro que não tem qualquer noção do conjunto wagneriano e dirige compasso a compasso, nota a nota, sem sublinhar os motivos condutores, sem construir uma linguagem estética, a medo, é que, infelizmente, não é possível e, quando chegamos ao final, suspiramos de alívio que a tortura acabou ao som de um insuportável e infernal lá bemol (?) agudo de primeiros e segundos (?) violinos, a imagem do sofrimento que termina para músicos e mim próprio mas fica a ecoar como um bicho que se nos entranhou no cérebro e nos causa uma enxaqueca até o dia seguinte. Quando o personagem principal é a orquestra, Vick dixit, fazer Wagner sem orquestra é um absurdo, e como tal não pode existir Wagner. Qualquer crítica a um Götterdämmerung que não é de Wagner mas de Vick é quase um desperdício de tempo e de palavras.

Mas Vick não tem uma única ideia interessante? Claro que tem, e com isto encerro este raciocínio rápido sobre esta produção: tapar o teatro por dentro com painéis plásticos de um cinzento "cor de burro quando foge" é uma boa ideia, o Teatro de S. Carlos está na miséria, miséria artística, miséria musical, miséria no canto, miséria no número de produções e miséria nos números com que nos querem enganar, o cinzento é a cor da lama pútrida da poluição, daquele cinzento nada vive, não é fecundo. O palco virado ao contrário (no lugar da plateia habitual), ideia estimulante pela novidade a princípio, já parece um vício: o vício da destruição do teatro mágico de Wagner tendo como brinde um fosso sem comunicação interna, plano e de tecto baixo, sem espaço para a orquestra de Wagner reduzida em 20 unidades sobre o pretendido pelo compositor. Trocando distância e sonho pelo concreto materialismo brechtiano do teatro a ser feito à nossa frente, encontramos apenas mais um estereótipo de Vick. Uma encenação sem hermenêutica, um vazio de lugares comuns materialistas, um pessimismo do concreto, de pacotilha, um Wagner esquecido. Esgotada a ideia transforma-se numa escravatura. Fica a única ideia genial de Vick, colocar uma escada em cima da orquestra com o maestro bem debaixo da mesma, é óptimo para a comunicação… parece. Esta escada revela o lugar que Vick tem na sua escala para a orquestra de Wagner. Tem a vantagem de colocar a OSP e Letonja no seu verdadeiro lugar: o vão de escada.

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18.4.09

A catástrofe 

Depois de uma Salomé desastrosa segue-se uma Agrippina catastrófica. Nunca ouvi um naipe de cantores tão miserável, uma direcção tão lamentável e uma orquestra em tão baixo nível no S. Carlos. Na minha opinião aquilo é simplemente horripilante, é de fugir.
Christoph Dammann surpreende pela negativa em cada produção que realiza: pior do que a Salomé parecia impossível mas consegue agora, num esforço denodado de asneira, cair ainda mais na produção seguinte. Se a cenografia estática escapa, na sua banalidade estética, tudo o resto é um gigantesco erro de casting. Pouco mais há a dizer: se a Salomé era bola preta, esta Agrippina é a negação da música de Handel, é a negação da música e do canto. Espectáculo a evitar a todo o custo. Pedir dinheiro por bilhetes num espectáculo destes é enganar o público. É uma vergonha uma instituição pública cobrar entradas inacreditavelmente caríssimas por uma coisa tão rasca. Se Jorge Calado pedia a polícia para a Solomé, na última edição do Expresso, eu peço a ASAE para esta Agrippina. Nem me apetece fazer uma crítica detalhada deste lixo vindo de "Colónia Agrippina"...
O público ainda bate umas palmas envergonhadas e aparecem alguns bus aqui e ali. Por muito menos pateava-se forte e feio há alguns anos, é minha opinião que um público que ainda bate algumas palmas a coisas destas é profundamente complacente, ignorante, pouco exigente e analfabeto. É ser-se enganado e ainda agradecer no fim, de chapéu na mão, enquanto o sr. Dammann bebe champanhe, brinda e dá gargalhadas com os amigalhaços no intervalo, dando aos provincianos dos portugas as piores coisas que se podem imaginar com nepotismo à mistura (com o evidente exemplo de Chesey Schill), é obra! É tempo de dizer basta a este estado de coisas. Infelizmente temos um ministro da cultura absolutamente inútil e que parece não fazer a menor ideia do que se passa no teatro público que mais dinheiro gasta aos contribuintes portugueses, já é mais que tempo para demissão com justa causa.

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27.3.09

Resumo da Salomé no S. Carlos 

Amy Whinehouse com mais cinquenta quilos, trinta anos, pedrada e com os copos é a megera de serviço no papel de Herodias, Herodes é um velho e tonto pedófilo, Salomé é uma menina pura e doce, de soquetes, vítima de uma família disfuncional. Como Nancy Gustafson tem cinquenta e três anos aquilo não funciona sem uma dupla muda que faz de criança e que representa a menina Salomé.
Mas a cereja no topo do bolo e o motor de toda a acção é o S. João Baptista que rejeita Salomé porque é pederasta e anda atrás do pagem...

Num exercício de (pequena) imaginação pense-se no mesmo feito com Maomé ou com o genro Ali...

É o que eu chamo de encenação panfletária homossexual básica na antítese do texto genial de Oscar Wilde, que prova à saciedade que se pode ser homossexual e ser um génio. Oscar Wilde escreve uma obra em que todas as subtilezas, todas as ambiguidades têm lugar, dando lugar à elegância e à estética: como de outra forma se escreveria o horror da necrofilia senão em Salomé? Sem se ser básico e primário? Apenas Oscar Wilde para o fazer.
O encenador tem um padrão: todas as obras, todos os textos que por acaso lhe passem pelo estreito passam a ser motivo para panfleto. Numa visão deste tipo todo o homem é homossexual, desde D. Giovanni até Casanova, passando por Jesus Cristo, S. João Baptista, o toureiro da Carmen, Otello e Mefistófles, todos querem abafar a palhinha. Nas mulheres as coisas variam mas não andam longe. O encenador olha para a obra não numa perspectiva histórica, intelectual, ou estética, a música não interessa para nada, não interessa se a música de Jochanaan é majestosa e digna (e até intolerante) e a de Salomé é cromática e erótica, sedutora e torsa. O que interessa é servir a ideia pré-concebida do encenador de enfiar o pederasta algures e da vítima abusada alhures. As interpretações são múltiplas, não sou psicanalista, mas ao ver as encenações destes tipos (no sentido tipológico) acho que se podem tirar conclusões bem interessantes sobre os traumas dos encenadores, que tantas dores nos dão ao imolarem no altar dos seus fantasmas as obras primas do génio humano.
Retirando a camada erótica do feminino, eliminando a dança dos sete véus, colocando a carga negativa em Herodes, um simples pedófilo, fazendo de Jochanaan um vulgar pederasta, arranjando uma dupla muda de Salomé (solução banal e recorrente), que faz de conta que é uma criança, a encenadora destrói, do princípio ao fim desta Salomé, uma obra notável, que tinha tudo lá dentro sem precisar do canibalismo pseudo subversivo, deselegante, espelho de uma alma sem cor, sem imaginação no seu excesso panfletário, desta mulher-homem cinzenta e seca, óbvia, primária e transparente que dá pelo nome de Gruber. A encenação não dá lugar à subtileza e à ambiguidade, é um nojo.

Classificação: uma merda para tomates podres e que valeu bem a pateada e os "bus" que brindaram a encenadora quando veio ao palco. Uma das piores encenações que tenho visto no S. Carlos. Por mim fiquei calado e descontente, gélido: é que aquela porcaria já nem sequer serve para incomodar...

Sobre a encenação da Salomé devo acrescentar que o tomate podre se estende ao director artístico Christoph Dammann e, sobretudo, ao hermenêuta que o meteu no S. Carlos: para mim o pior secretário de Estado da cultura que ocupou o lugar desde o 25 de Abril de 1974.

Continua com aspectos musicais.

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9.1.09

Faust de Gounod 

Estreou no S. Carlos, ontem, o Fausto de Gounod, o elenco foi entre o fraco e o sofrível.

O maestro foi desastroso.
O coro foi muito fraco.
A orquestra esteve mal e as cordas (concertino, violinos, violas e violoncelos) estiveram péssimas.
Os desacertos canoros, de ritmo, a desafinação e os erros decorreram calmamente do princípio ao fim.
Uma direcção sem chama nem glória, sem subtileza nem encanto, quadrada, pesada e sem a elegância necessária à mais conhecida, e mui digna, obra dessa estrela de segunda grandeza que foi Gounod.

O barítono estava enrouquecido e com dificuldades de respiração e não houve um substituto para dar um pouco mais de dignidade à estreia numa casa de ópera num teatro nacional europeu.

A encenação mediana, e não acompanhada pelo encenador, foi o melhor do conjunto. Está, no entanto, recheada de lugares comuns e sem grande rasgo.

Uma tristeza este Teatro sob esta direcção artística muito fraca vinda de Colónia e com gente, vinda de Colónia e arredores, de currículo muito curto.

Uma crítica mais detalhada posteriormente.
Classificação: nove e meio.

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23.10.08

Siegfried no S. Carlos III 

A Sopa de Notas

Em jeito de balanço e após presença na última récita do Siegfried faço uma reflexão sobre a música deste Siegfried dirigido por Marko Letonja. Os meus comentários dizem respeito a esta última récita, bem superior à do dia de estreia em termos de "catástrofes" orquestrais e dos cantores.
Aproveito para me lembrar deste maestro, lembro a destruição arrasadora da partitura da Medeia de Cherubini, lembro alguns concertos menos maus com a Orquestra Sinfónica Portuguesa. Lembro ainda a Valquíria do último ano. Nas lembranças operáticas de Letonja recordo sempre um maestro que atinge um certo ponto e depois desiste de fazer melhor, uma maestro que dirige sempre no "mais ou menos" e que nunca atingiu, em todas interpretações a que assisti, qualquer nível de refinamento ou de grandes qualidades expressivas. No caso de Cherubini a interpretação foi catastrófica, no caso da Valquíria a interpretação foi mais ou menos indiferente.

Mas Wagner, uma observação que se pode estender a outros compositores mas de particular acuidade para o alemão, não se pode ficar pelo "mais ou menos". Ser "wagneriano" tem que se lhe diga. É necessário o estudo, é necessária a paixão, a "obra de arte total" não está ao alcance do primeiro que compra a "edição da Dover do Siegfried", como Letonja revelou ter comprado, e fez umas semanas de ensaios com a OSP. Por outro lado a visão de "encenador" da obra, deixa o maestro claramente na sombra, Letonja é apenas mais um instrumento ao serviço de Graham Vick e das suas ideias.

Não é alheio a isto o facto de tocar com menos duas harpas e catorze cordas do que o escrito por Wagner e realizado desde então em Bayreuth, ou pela Filarmónica de Berlim ou nos Proms de Londres ou em Mannheim ou Valência. Enfim, por todo o lado: dos Estados Unidos até ao Extremo Oriente... menos em Lisboa. Como se deu a volta ao Teatro de S. Carlos para se acabar com um fosso sem espaço? É algo que continua incompreensível e que, depois disso, haja um bom "maestro" capaz de dirigir nessas circunstâncias torna-se insondável. É evidente que depois de se escutar o trabalho de Letonja, da OSP e dos cantores, o insondável torna-se transparente.

A direcção de Letonja poderia ser até uma direcção "edição Dover", uma edição baratinha mas com um certo aprumo e digna mas acabámos a escutar uma sopa de notas sem ênfase, sem arquitectura nem rumo, onde os motivos condutores foram apresentados sem alma nem glória, embebidos no visco sonoro informe, sem realce, sem verve, sem cor, onde as indicações dinâmicas e as articulações foram integralmente desrespeitadas, onde passagens inteiras eram tocadas descoordenadamente por violinos e violas, eles primeiro... elas atrás. Nesta última récita os violoncelos primaram por um som horrível e desafinados (v.g. murmúrios da floresta) e onde as violas corresponderam com notas erradas, passagens destruídas, incapacidade de articulação do que está escrito. Nas passagens mais complexas foram passando staccati a legati alegremente. Os violinos desafinaram do princípio ao fim, e foram transformando as articulações escritas, geralmente cheias de cor e detalhe onde primam contrastes dinâmicas em passagens difíceis, sforzandi aqui e ali e acentuações por todo o lado em cima de escalas com staccati pelo meio, numa massa caótica com a articulação feita da forma para conseguir "dar" as notas e o menos possível para tocar o que está escrito de forma confiante e afirmativa. Foi notória uma passagem onde vem escrito "sempre staccato" pelo punho do Wagner, e onde a "edição Dover" do maestro não esquece a indicação, que foi tocada "sempre legato" e feita sem uma única acentuação. Entretanto os metais parecem só conhecer duas indicações: meio forte e fortíssimo e com a resalva da tuba lá conseguir ainda reunir forças para um "ainda mais forte" como vem escrito, louvada seja, apesar de se debater com o problema do fôlego que leva o instrumentista a interromper notas sustentadas para respirar e voltar ao assunto, que é como quem diz: à mesma nota mas agora de peito mais aliviado. Tem a desculpa de uma interpretação arrastada, lentíssima, que torna qualquer tubista num homem deprimido e sem fôlego... Uma interpretação que parece desconhecer as indicações de Porges, Levi, Mottl ou Kniese e do próprio Wagner que comentou que Richter (na estreia em Bayreuth) andou devagar demais e a arrastar: "se os senhores não fossem tão aborrecidos o Ouro estava acabado em duas horas!" Não seguir ou não estudar, ou ignorar ou querer ignorar, o que se escreveu, não se conhecer a nova edição da obra e andar a comprar a edição de vinte euros não quer dizer que não se toque uma "edição Dover" da obra: se fosse tocada como vem escrita na referida edição já não era nada mau... Mas a Letonja e ao S. Carlos exige-se a Neue Richard-Wagner-Gesamtausgabe.

Assim tivemos duzentos e setenta minutos de Siegfried na estreia e duzentos e cinquenta e cinco minutos na última récita! Evolução brilhante, que retira sob a mesma direcção cerca de quinze minutos ao empadão final. Se na última récita o Siegfried foi arrastado imagine-se agora a estreia... Recordo que Amsterdão fez o mesmo Siegfried em 2004 em duzentos e vinte e três minutos. O maestro Hartmut Haenchen seguiu a nova edição Richard Wagner e estudou a fundo as indicações recolhidas da boca de Wagner por Porges. Imagine-se a OSP a fazer o Siegfried em menos 47 minutos do que na estreia!!! Se esta produção foi o caos musical com menos 47 minutos o que seria?...

Uma palavra para a trompa, sempre em elevado plano. Já a tuba, como apontei, deixou-me algo insatisfeito. Noto que ambos os instrumentos são bem importantes para o fluxo discursivo da obra. O corne inglês a imitar a cana rachada de Siegfried saiu perfeito.

As madeiras não tiveram a qualidade de som exigível e no seu conjunto padeceram do mesmo mal do resto da orquestra: ausência de cor e de nuance. Falta de trabalho do detalhe. Falta de ênfase e cuidado na articulação. Som surdo devido à posição no fosso. Escaparam alguns solos apesar do clarinete baixo ter cultivado um som pesado e forte, provavelmente para se poder ouvir, em detrimento de um maior lirismo. As madeiras saíram sempre em défice sonoro face ao resto da orquestra, um desequilíbrio manifesto muito por falta do maestro.

O prelúdio do terceiro acto foi um dos piores momentos da direcção de Letonja, os metais com um peso brutal e sem a tal nuance que se impõe nos sforzandi e nas articulações abafaram todo o resto da orquestra. As cordas em número insuficiente e de baixa qualidade ou não se ouviam ou, quando apareciam, escutava-se uma espécie de miado longínquo das notas mais agudas dos violinos. As madeiras, neste trecho, pareciam que estavam lá ao longe dentro de um poço sem fundo. Tudo mesclado numa espécie de caldo informe onde os temas esbracejavam para se poderem escutar e sobressair no meio do viscoso mar de crude que invadiu o teatro no segundo acto e o fosso durante toda a récita, acabámos a escutar repetidamente o tema da lança servido pelos pulmões pujantes da banda metálica.

Outros momentos paradigmáticos desta informe massa sonora foram os murmúrios da floresta e o inenarrável caos sonoro pós quebra da lança de Wotan em que o fogo mágico de Loge soou atabalhoado, com notas erradas nos violinos, numa passagem exigente que acabou por ficar muitíssimo aquém do exigível para uma orquestra profissional e sob a batuta de uma maestro caro e competente.

Entretanto os cantores lá se esforçavam no espaço da arena do S.Carlos, o Siegfried de Stefan Vinke é um Siegfried sem refinamento, que sabe gritar muito cantando muito pouco, sem temperamento lírico e a cantar nas oitavas abaixo no terceiro acto: acima do sol, em notas sustentadas, podia-se contar quase sempre com a oitava abaixo porque a voz já não dava para mais e o cantor estava a ficar rouco. Além disso Vinke arrasta para além do tempo possível a gritaria de cada nota sustentada. Além disso, e apesar do alemão ser a sua língua, canta com voz de "sopinha de massa", fazendo lembrar o lamentável Wotrich...

Samuel Youn no Viandante apesar de ter belos agudos e uma voz de barítono com presença, cantou de forma muito irregular, de forma algo soluçante, sem nobreza da grande linha vocal. Faltou-lhe gravidade e profundidade nos graves. Tem o defeito de entrar sempre, ou quase sempre, atrasado o que além de ser sistemático revela problemas de musicalidade que devem ser resolvidos com mais treino e trabalho. A sua noção do tempo de entrada e do ritmo é perfeitamente aleatória acabando muitas vezes a arrastar as notas. Youn tem um belo futuro se controlar estes erros.

O Mime de Colin Judson foi muito conseguido, no meu entender, com uma bela presença de actor e uma belíssima colocação vocal num papel incrivelmente ingrato.
O Fafner de Dieter Schweikart foi conseguido sem causar grande impressão, é pouco profundo como baixo, mas é o possível.
A Erda de Gabirele May deve-se ter ressentido da encenação, o facto de aparecer senil e provavelmente com uma doença incapacitante, fez com que a voz aparecesse muito feia, destimbrada mesmo. May é, neste momento, tudo menos contralto.
Susan Bullock foi razoável mas distante da forma como abordou a Valquíria: vibrato excessivo, voz com poder mas com falta de convicção. Estava à espera de melhor mas, mesmo assim, foi muito razoável, a voz ainda tem o chicote da Valquíria mas falta-lhe a frescura necessária para a jovem heroína.
O pássaro da floresta de Chelsey Chill foi conseguido, creio que a canadiana encontrou aqui o papel da sua vida, apropriado ao seu registo estreito, voz metálica e nasalada, com agudos pobres e graves inexistentes. A tessitura estreita e uniforme deste pássaro da floresta é o ideal para a cantora. Entretanto a voz nos saltos para cima, notório no lá agudo, desliza de forma muito pouco natural, fazendo um brutal sforzando em stress ao atacar o som mais agudo atacado em fortíssimo agressivo sem qualidade, quando na partitura não existe qualquer indicação dinâmica e o canto deva fluir natural e uniforme. É o papel da vida deste pássaro mas, mesmo assim, bem longe do ideal.

Wagner sem música não é obra de arte total, nem sequer é obra de arte. Dar ao encenador o papel total é reduzir a dimensão da obra. O meu Wagner tem música, não sei como será o Wagner do leitor, ou como o leitor quer o seu Wagner. Os críticos da nossa praça parecem esquecer este lado e preferir o Wagner do encenador. Não percebo esta abordagem, creio que essa visão é provinciana e coxa. É uma visão sem referentes e, sobretudo, sem grande amor pela obra deslumbrante do compositor alemão.
Esta produção é um risco interessante como conceito, no entanto creio ser um falhanço enquanto obra de arte total e um falhanço estrondoso no capítulo musical. O meu balanço é francamente negativo e as culpas vão direitinhas para um maestro pouco wagneriano e complacente, para uma orquestra sem grande qualidade, sobretudo nas cordas, para uma encenação que despreza a música e uma cenografia que rouba espaço a uma verdadeira orquestra wagneriana. Veremos como corre o Crepúsculo dos Deuses, onde o coro entra de forma fundamental, mas a 75% desta produção o balanço é desolador, sobra a revolução no teatro e pouco mais.

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3.10.08

Siegfried no S. Carlos II 

Uma brevíssima nota sobre VIck e esta encenação:
Creio que a encenação de Vick, não entende a modernidade do Ring de Wagner e reduz todo o mito sobre o homem moderno a uma encenação "doméstico-contemporânea", onde apenas existe uma leitura directa, primária, óbvia, do fluxo discursivo wagneriano: os capitalistas estão em decadência, o socialismo triunfará, o povo participa na coisa e vê a acção decorrer dentro de si mesmo, ali à frente, chegando os artistas a pisar os calos do próprio povo que está calmamente no seu camarote a tentar ver e escutar uma obra de teatro, não através de uma distância mágica que o transporta a um mundo de pensamento e emoção pura, como Wagner queria, mas percebendo que aquilo que ali está é apenas teatro, percebendo a mecânica daquilo, sem nada escondido.
Vários equívocos, o "povo" representado pelo "público" são uns senhores e senhoras que nunca serão o público que Wagner queria. Que se estão aliás nas tintas para a vitória do socialismo e a queda do capitalismo no mundo de hoje.
Esta leitura de Wagner é primária porque escamoteia a própria evolução do artista: Wagner saiu das barricadas de Dresden em 1848, Wagner antes de acabar o Siegfried escreve os Mestres e antes tinha escrito o Tristão, passam-se mais de vinte anos, Wagner não é o socialista em choque que imaginou o programa do Ring. Wagner não leu Brecht nem teve oportunidade de assistir às suas peças de teatro do pós-guerra, Wagner não viveu em Berlin Leste. Realizar Wagner no tempo de hoje com ideias de hoje é perfeitamente possível, ver por exemplo Braunschweig em Aix e Salzburg, obra em progresso de uma força e de uma beleza plástica incríveis, lendo até ao âmago e reinterpertando Wagner à luz do desencanto do homem moderno. O problema de Vick é que, ao tentar, subverter de forma alarve o texto de Wagner está, de facto, a reduzir a dimensão da obra a apenas uma faceta, a da parábola anti-capitalista vista no contexto de um drama doméstico, afastando-se do teatro conceptual que poderia levar a encenação a uma verdadeira subversão, a subversão da transcendência.
O conflito pai-filho domina esta encenação o que está certo no meu entender, a decadência de Wotan, por outo lado, é grotesca. Vick não percebe que esta putativa decadência é apenas aparente, esse é o seu erro mais grosseiro, Wotan perde poder mas ganha uma compreensão infinita, uma consciência tão forte que se torna insustentável e que só tem uma saída: o nirvana.
Não perceber isto é ser ultra conservador, é ser reaccionário, é ser redutor e incompetente. Por outro lado existe um desprezo total pela música sobrevalorizando o teatro. O que com os meios do TNSC era um risco também ele óbvio uma vez que a orquestra é incapaz da qualidade e subtileza necessária a este Siegfried e os cantores são de muito baixa qualidade (em média) e as condições acústicas são más, mas esse risco poderia ter sido minorado e foi engrandecido pelo encenador. Tudo demonstra mais uma vez a mais profunda ignorância ou o mais profundo desprezo, o que me parece mais plausível, pela obra de arte total de Wagner. A arrogância ignorante ou pedante do encenador sobrepõe-se ao génio de Wagner. Prefiro o segundo. Não me interessa o Siegfreid de Vick, interessa-me o Siegfried de Wagner.


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2.10.08

Siegfried no S. Carlos I 

Wotan não é um bêbado



Siegfried de Richard Wagner. Teatro Nacional de S. Carlos, Lisboa.

30 de Setembro de 2008, 18h30.



Segunda jornada de: Der Ring des Nibelungen.

Poema de Richard Wagner. Estreia a 1876, Bayreuth.



Direcção musical Marko Letonja.

Encenação Graham Vick.

Cenografia e figurinos Timothy O'Brien.

Desenho de Luz Giuseppe Di Iorio.



Orquestra Sinfónica Portuguesa

Nova produção





Assisti à estreia de Siegfried no S. Carlos na passada terça feira, dia 30 de Setembro. Começo por fazer notar que a experiência de Vick como encenador de Siegfried é interessante. Do ponto de vista conceptual "virar o teatro ao contrário" dá ao encenador infinitas possibilidades.

Começo por abordar o personagem central da obra: Wotan, o centro, o pilar de toda a estrutura do Ring, a imagem do W, Wotan, Wanderer, Wagner. O W que serve de bandeira em Bayreuth hasteada enquanto o festival decorre, o W a que Wagner recorreu para domesticar o nome de Odin à sua aliteração, forma poética que cultivou à exaustão, e que foi o motor rítmico da composição a partir do poema.

Vick vê a obra quase como se tratasse de um drama doméstico, Wotan é visto como um chefe de família decadente, não é nunca um deus poderoso, faz negócios e engendra teias de esquemas em Rheingold, aparece na Walküre como um burguês sem poder com vulgares amantes e de roupão jogando bilhar em casa e, finalmente, como um bêbedo sem abrigo neste Siegfried.

É na essência no tratamento do personagem Wotan que Vick mais se revela como encenador. Esquecendo o folclore do palco ao centro do teatro como se tratasse de uma arena, a encenação vale muito mais pelo tratamento dos personagens, pela leitura em concreto da obra. É na leitura em concreto da obra e na sua passagem a teatro que Vick falha estrondosamente. Em Wotan, Wagner coloca o poder, a sabedoria, a potência, a sua lança tem geralmente uma acção simbólica e apenas é utilizada como instrumento de poder quando parte a espada de Siegmund no final do segundo acto da Walküre. Gradualmente este poder dissipa-se, não por acção dos elementos estranhos mas pela própria acção de Wotan que se enreda numa teia de compromissos inextricáveis que o atam a ele mesmo. Pela compreensão de que já não faz falta ao mundo.
Wotan concebe de Erda entre Rheingold e a Walküre, engendra Brünnhilde dessa Terra Primordial, sábia e eterna. A mesma Terra que é violada, a mesma Natureza que Wotan violou ao cortar a lança do Freixo do Mundo. Mais do que os compromissos é o destino de Wotan a perda de poder, ele tudo sabe mas a Fonte da Sabedoria secou, o Freixo secou, a lança vai perdendo força. Wotan apercebe-se e quer o Crepúsculos dos Deuses, ele afirma que o Mundo é das novas gerações, puras, sem malícia, sem culpa, sem tratados. Ele afirma-o neste Siegfried. Wotan realiza o supremo ideal de Wagner: a renúncia, a mesma renúncia que Wagner nunca realizou mas que amava em Schopenhauer.

Wagner passa do socialista em 1848, quando idealiza a obra, a pessimista em finais de sessenta quando retoma o Siegfried. É evidente que a ideia simples do início, uma parábola sobre o capitalismo destruído não pela força das armas em revolta armada mas pela arte e pela ideia, deixou de ter sentido para Wagner, que escreve após a epifania de S.: "O Ring continha em si a filosofia que vim a descobrir em Shopenhauer". Não só é isso evidente como a escrita musical de Siegfried foi, toda ela, realizada depois da revelação. O que antes no poema era semente torna-se com a composição da música filosofia pura, é com a música que se percebe a intenção mais íntima de Wagner, nos temas do crepúsculo, da lança, da falsa segurança do Walhalla, da angústia de Wotan, nos temas da Natureza e, sobretudo, na forma como são dispostos, os corais de metais que sublinham e suportam as últimas linhas de Wotan são um exemplo notável do amor que Wagner colocou neste personagem. A linha vocal de Wotan é sempre de uma nobreza sem par ao longo de todo o Ring, e neste Siegfried o personagem é tratado com um carinho e cuidado musical verdadeiramente reveladores da identificação que W tinha com W. Ouvindo o Siegfried, mais do que vendo, percebe-se o amor com que o Wagner maduro, com mais de cinquenta anos e depois de abandonar Siegfried por mais de uma década, retoma o tratamento de Wotan, agora o mais nobre senhor de toda a Tetralogia, deixou de ser o Deus poderoso e sonhador que olha para o Anel em Rheingold, deixa de ser o Deus em Queda livre que abandona o seu filho amado à morte por causa dos seus esquemas, o deus que clama desesperado "É o Fim" o eixo central da Walküre. Wotan no terceiro acto de Siegfried é mais do que um deus, é um homem sábio, o mundo pesa-lhe nos ombros, ele que tudo sabe não quer mais o poder, o poder afinal é inútil, basta-lhe saber, basta-lhe ser o senhor dos corvos.

Mas Wotan ainda é luz, é o Alberich Luz que se revela a Mime na cena das perguntas, é o senhor do cavalo de luz que Alberich entrevê por cima das árvores na floresta onde dorme o Gigante Fafner vestido de Serpente Dragão. Wotan renuncia mas ainda monta o cavalo de luz, ainda tem a lança na mão, ainda é o senhor dos corvos, os mesmos corvos que estão pintados por cima da sua imagem na casa de Wagner em Bayreuth. Pintura emblemática essa, Wagner não escolheu para encimar a porta da sua casa um retrato de Wotan deus, escolheu o retrato de Wotan como o viandante de Siegfried, rodeado pelos corvos que o hão-de servir até ao final do Crepúsculo dois Deuses, os corvos olhos de Wotan.

É pois neste personagem que vai perdendo poder mas vai alcançando a suprema sabedoria e o supremo bem da renúncia, que Wagner também admirava no budismo, na retirada de Wotan para um mundo inacessível aos mortais que ainda não atingiram o Nirvana, que Wagner atribui o papel central do Ring. Wotan perde poder e vai reganhando dignidade, torna-se finalmente um ser resplandecente ao entregar a lança ao seu neto para que este a parta.

Graham Vick trata Wotan neste Siegfried como um bêbedo que usa a lança para devastar em estado de grande decadência a gruta (gaiola) de Mime, que bate numa Erda envelhecida e enterrada num asilo, como um bêbedo bate numa velha e decadente amante, sem dó nem piedade Wotan arrasta-se cambaleando pela cena, arrota, as suas roupas são andrajosas e estão manchadas, os cabelos e a barba hirsutas, Wotan comporta-se como um fantasma sem consciência, como se a sua condição fosse resumida à inevitabilidade da queda na degradação humana. Vick não percebe, ou não quer perceber, que Wotan ao renunciar ao poder ascende ao supremo bem e à verdadeira iluminação. Wotan sombrio e sábio, presidirá doravante na sala do seu castelo à reunião silenciosa dos seus heróis, das suas filhas Valquírias, e dos outros deuses (que não Loge): é o Crepúsculo dos Deuses que se avizinha, Wotan já não está presente na cena, mas é a sombra tutelar do última jornada, Wotan que assistirá de longe à queda e corrupção de Siegfried, último representante da sua raça na terra, e até as nova gerações sem mácula cairão, e a sua queda será muito pior: Siegfried não renuncia, será morto pelas costas, não lhe é dada essa faculdade, essa sabedoria.

A cena da floresta com o esgoto industrial e a poluição não faz o menor sentido na arquitectura da obra, a floresta é primordial, é pura, da floresta nasce o herói sem mácula: Siegfried o idiota que conquista o mundo, o dragão é também um ser primordial. A mancha vem depois, surge no Crepúsculo, colocar o lixo tóxico, o esgoto, o petróleo, no coração da floresta de Siegfried é mais um erro crasso. Parece bem, é a denúncia ecológica do politicamente correcto, a "malta aprecia", mas convenhamos que não tem grande coerência.

O pior é mesmo um Wotan bêbedo e sem consciência, no meu entender um erro violento e grosseiro, incompreensível, que destrói completamente a mensagem filosófica da obra de Wagner. Poupem-me a encenadores que querem ser mais do que os autores da obra e que de forma alarve passeiam a sua ignorância e o seu ódio pelas obras cimeiras do espírito humano.

Tudo o resto são diversões e folclore, a falta de respeito pelos espectadores, com figurantes sentados nas cadeiras pagas pelo público no início do terceiro acto, com gente a entrar nos camarotes sem aviso, e a pisar os calos a pessoas de idade que querem descansadamente gozar as centenas de euros que gastaram para poder assistir a um momento de magia, sem um pedido, sem um aviso, tudo é marca de arrogância e desvario de um encenador que se julga acima da obra e do respeito que deve ao público pagante, mas isso é marginal.

Outro aspecto que Vick despreza alarvemente é o relegar o papel da música e do canto para um plano secundaríssimo, o espaço para a orquestra é reduzido, há menos catorze cordas do que o previsto por Wagner, tudo é mesquinho, os cantores são fracos e têm de correr e saltar desalmadamente, a acústica é muito irregular e depende da orientação dos cantores face ao público circundante, a direcção de Letonja é canhestra e despreza o detalhe, a orquestra tem momentos verdadeiramente miseráveis (mas isso fica para outro texto). Mas, como se sabe, a música em Wagner diz tudo e fazer desaparecer a música da ópera é não entender nada de Wagner.

Gravei ontem para a Antena 2 um possível esboço de discussão crítica, para mim a encenação valia sete valores, é uma classificação muito alta, e tem de ponderar vários efeitos: a direcção de actores é excelente, há efeitos cénicos muito belos como o dos pássaros na ponta de varas que oscilam sobre todo o teatro e sustentados por figurantes que irrompem pelos camarotes, a ideia do dragão está bem imaginada com a a empilhadora do Ouro do Reno transformada agora em aríete. Mas a competência cénica esbarra com um factor inelutável: a destruição da obra na sua visão global, e aí Vick tem zero.

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31.7.08

Depois de Jericó o artístico Dammann 

Regresso a Jerusalém, depois de passar por Ramallah, Belém e Jericó (a 41 graus dia e noite), finalmente tive tempo de olhar a net e ver o programa do S. Carlos para a próxima temporada.
Constato sem surpresa a repetição de erros de palmatória. Se antes havia a desculpa de o novel director artístico Christoph Dammann ter sido nomeado pelo doutor Vieira de Carvalho e pela doutora Pires de Lima e de parte da concepção ser ainda de Pinamonti, ficamos agora a saber que afinal os erros eram mesmo deste artístico Dammann.
Quando regressar em força ao blogue, e à actividade crítica, depois do périplo por Bayreuth que se segue a este Médio Oriente esgotante mas mágico (o regresso total será pelos idos de Setembro) espero poder ter tempo para apontar com detalhe e de forma exaustiva os erros de Dammann.
Entretanto Portugal visto daqui, do Monte das Oliveiras parece-me tão distante. Vou mas é dar um pulo ao American Colony onde me espera um narguilé que eu sei que não existe...

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