
6.11.09
Götterdämmerung no S. Carlos - breves notas
De rajada que não quero perder muito tempo: esta produção teve uma cantora razoável em Brünnhilde, Susan Bullock, com um timbre algo feio no registo agudo, um vibrato agressivo nas notas em fortíssimo mas com bom sentido da frase e um Siegfried boçal e grosseiro em Stefan Vinke que, apesar de tudo, conseguiu gritar as notas do papel, ao contrário do que se passou na jornada anterior. O resto foi desinteressante, entre o mediano (por ex.: algumas vozes solistas) e o horrível (por ex.: o coro e outras vozes solistas), e não vale a pena destacar nada…
Graham Vick quer apenas destruir as ideias de Wagner, incapaz de clareza, de clarividência, pondo os personagens a actuar contra a natureza do texto e do seu devir trágico. A Gutrune submissa e inerte transformada numa assassina. O representante do eterno, mesquinho e sempre vivo mal, Alberich, vive agora decadente na senilidade (a mesma senilidade que é obsessão de Vick) é o chamado envelhecimento a velocidade supersónica, ainda na jornada anterior Alberich andava aos pulos, viçoso como uma alface na caverna de Fafner. As observadoras Normas, desprovidas para sempre de poder, preparam bombas no S. Carlos, o que até não seria despropositado. Motoqueiros em ridículas scooters eléctricas são tudo... menos convincentes. A nobre Brünhilde é bombista. O Reno, outro personagem mágico, deixa de existir transformado numa campa infecta. Só esta última questão seria suficiente para quebrar a ideia fecunda do cosmos que Wagner preparou durante 15 horas de música para o apocalipse (quase) final: nos ares refulge o fogo que consome os céus, em oposição às águas do Reno transbordando das margens e que invadem, purificadoras, as terras de Worms...
A ideia do totalitarismo presente na corte de Gunther é interessante mas banal. Os corvos de Wotan, interessante e bela ideia (pensei ao vê-los surgir), é assassinada barbaramente pelos trejeitos a que os desgraçados dos bailarinos foram obrigados pelo "coreógrafo", mais pareciam uns pardalecos tontos uma espécie de gatos-pingados esbracejantes do que os nobres observadores de Wotan, olhos do mais presente dos ausentes, olhos de Wagner afinal. Outra nota saída do bordel do "coreógafo" Ron Howell, citado universalmente pela crítica internacional como um coreógrafo sem ideias e que vive à sombra artística de Graham Vick, é a "dança" das ondinas. Confundir sedução e erotismo com aquilo é o mesmo que chamar de meretrizes a todas as mulheres...
Foi dito que Vick fervilha de ideias, que é um mágico do teatro. Eu pergunto-me: onde estão as ideias de Vick que sejam fecundas? Encontro apenas meros actos gratuitos, sem sentido, sem fluxo, esparsas provocações: um par a dançar danças de salão ao tema da redenção que encerra o Crepúsculo, banalidade que representa o vazio, banalidade pessimista em oposição ao pessimismo mágico, sublime, trágico de uma visão de Wagner da filosofia de Schopenhauer... Fica uma pergunta: qual a lógica disto? Qual o sentido de um grupo de figurantes a correr e a pular durante os mais belos momentos musicais da orquestra? A única resposta é que o que sai do fosso é tão mau que é necessário fazer barulho com os pés dos figurante, distrair e encher o olho do público para que este não perceba a miserável direcção de Letonja e o som horrendo que vai escorrendo, qual fluxo lamacento, de um fosso sem coordenação, sem conjunto, sem propriedades acústicas, sem nexo. Abafar as notas erradas dos trompetes no juramento de Brünnhilde, esconder os graves a entrarem todos descoordenados porque os instrumentos não se conseguem ouvir no fosso, esconder a falta de precisão das entradas dos sopros, esconder os trombones fora de tom da banda de palco quais buzinas desafinadas, esconder o paupérrimo som das cordas, esconder a triste marcha fúnebre, sem pathos, sem impacto, sem chama, mortiça, esconder a visão míope do maestro que não tem qualquer noção do conjunto wagneriano e dirige compasso a compasso, nota a nota, sem sublinhar os motivos condutores, sem construir uma linguagem estética, a medo, é que, infelizmente, não é possível e, quando chegamos ao final, suspiramos de alívio que a tortura acabou ao som de um insuportável e infernal lá bemol (?) agudo de primeiros e segundos (?) violinos, a imagem do sofrimento que termina para músicos e mim próprio mas fica a ecoar como um bicho que se nos entranhou no cérebro e nos causa uma enxaqueca até o dia seguinte. Quando o personagem principal é a orquestra, Vick dixit, fazer Wagner sem orquestra é um absurdo, e como tal não pode existir Wagner. Qualquer crítica a um Götterdämmerung que não é de Wagner mas de Vick é quase um desperdício de tempo e de palavras.
Mas Vick não tem uma única ideia interessante? Claro que tem, e com isto encerro este raciocínio rápido sobre esta produção: tapar o teatro por dentro com painéis plásticos de um cinzento "cor de burro quando foge" é uma boa ideia, o Teatro de S. Carlos está na miséria, miséria artística, miséria musical, miséria no canto, miséria no número de produções e miséria nos números com que nos querem enganar, o cinzento é a cor da lama pútrida da poluição, daquele cinzento nada vive, não é fecundo. O palco virado ao contrário (no lugar da plateia habitual), ideia estimulante pela novidade a princípio, já parece um vício: o vício da destruição do teatro mágico de Wagner tendo como brinde um fosso sem comunicação interna, plano e de tecto baixo, sem espaço para a orquestra de Wagner reduzida em 20 unidades sobre o pretendido pelo compositor. Trocando distância e sonho pelo concreto materialismo brechtiano do teatro a ser feito à nossa frente, encontramos apenas mais um estereótipo de Vick. Uma encenação sem hermenêutica, um vazio de lugares comuns materialistas, um pessimismo do concreto, de pacotilha, um Wagner esquecido. Esgotada a ideia transforma-se numa escravatura. Fica a única ideia genial de Vick, colocar uma escada em cima da orquestra com o maestro bem debaixo da mesma, é óptimo para a comunicação… parece. Esta escada revela o lugar que Vick tem na sua escala para a orquestra de Wagner. Tem a vantagem de colocar a OSP e Letonja no seu verdadeiro lugar: o vão de escada.
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23.10.08
Siegfried no S. Carlos III
Em jeito de balanço e após presença na última récita do Siegfried faço uma reflexão sobre a música deste Siegfried dirigido por Marko Letonja. Os meus comentários dizem respeito a esta última récita, bem superior à do dia de estreia em termos de "catástrofes" orquestrais e dos cantores.
Aproveito para me lembrar deste maestro, lembro a destruição arrasadora da partitura da Medeia de Cherubini, lembro alguns concertos menos maus com a Orquestra Sinfónica Portuguesa. Lembro ainda a Valquíria do último ano. Nas lembranças operáticas de Letonja recordo sempre um maestro que atinge um certo ponto e depois desiste de fazer melhor, uma maestro que dirige sempre no "mais ou menos" e que nunca atingiu, em todas interpretações a que assisti, qualquer nível de refinamento ou de grandes qualidades expressivas. No caso de Cherubini a interpretação foi catastrófica, no caso da Valquíria a interpretação foi mais ou menos indiferente.
Mas Wagner, uma observação que se pode estender a outros compositores mas de particular acuidade para o alemão, não se pode ficar pelo "mais ou menos". Ser "wagneriano" tem que se lhe diga. É necessário o estudo, é necessária a paixão, a "obra de arte total" não está ao alcance do primeiro que compra a "edição da Dover do Siegfried", como Letonja revelou ter comprado, e fez umas semanas de ensaios com a OSP. Por outro lado a visão de "encenador" da obra, deixa o maestro claramente na sombra, Letonja é apenas mais um instrumento ao serviço de Graham Vick e das suas ideias.
Não é alheio a isto o facto de tocar com menos duas harpas e catorze cordas do que o escrito por Wagner e realizado desde então em Bayreuth, ou pela Filarmónica de Berlim ou nos Proms de Londres ou em Mannheim ou Valência. Enfim, por todo o lado: dos Estados Unidos até ao Extremo Oriente... menos em Lisboa. Como se deu a volta ao Teatro de S. Carlos para se acabar com um fosso sem espaço? É algo que continua incompreensível e que, depois disso, haja um bom "maestro" capaz de dirigir nessas circunstâncias torna-se insondável. É evidente que depois de se escutar o trabalho de Letonja, da OSP e dos cantores, o insondável torna-se transparente.
A direcção de Letonja poderia ser até uma direcção "edição Dover", uma edição baratinha mas com um certo aprumo e digna mas acabámos a escutar uma sopa de notas sem ênfase, sem arquitectura nem rumo, onde os motivos condutores foram apresentados sem alma nem glória, embebidos no visco sonoro informe, sem realce, sem verve, sem cor, onde as indicações dinâmicas e as articulações foram integralmente desrespeitadas, onde passagens inteiras eram tocadas descoordenadamente por violinos e violas, eles primeiro... elas atrás. Nesta última récita os violoncelos primaram por um som horrível e desafinados (v.g. murmúrios da floresta) e onde as violas corresponderam com notas erradas, passagens destruídas, incapacidade de articulação do que está escrito. Nas passagens mais complexas foram passando staccati a legati alegremente. Os violinos desafinaram do princípio ao fim, e foram transformando as articulações escritas, geralmente cheias de cor e detalhe onde primam contrastes dinâmicas em passagens difíceis, sforzandi aqui e ali e acentuações por todo o lado em cima de escalas com staccati pelo meio, numa massa caótica com a articulação feita da forma para conseguir "dar" as notas e o menos possível para tocar o que está escrito de forma confiante e afirmativa. Foi notória uma passagem onde vem escrito "sempre staccato" pelo punho do Wagner, e onde a "edição Dover" do maestro não esquece a indicação, que foi tocada "sempre legato" e feita sem uma única acentuação. Entretanto os metais parecem só conhecer duas indicações: meio forte e fortíssimo e com a resalva da tuba lá conseguir ainda reunir forças para um "ainda mais forte" como vem escrito, louvada seja, apesar de se debater com o problema do fôlego que leva o instrumentista a interromper notas sustentadas para respirar e voltar ao assunto, que é como quem diz: à mesma nota mas agora de peito mais aliviado. Tem a desculpa de uma interpretação arrastada, lentíssima, que torna qualquer tubista num homem deprimido e sem fôlego... Uma interpretação que parece desconhecer as indicações de Porges, Levi, Mottl ou Kniese e do próprio Wagner que comentou que Richter (na estreia em Bayreuth) andou devagar demais e a arrastar: "se os senhores não fossem tão aborrecidos o Ouro estava acabado em duas horas!" Não seguir ou não estudar, ou ignorar ou querer ignorar, o que se escreveu, não se conhecer a nova edição da obra e andar a comprar a edição de vinte euros não quer dizer que não se toque uma "edição Dover" da obra: se fosse tocada como vem escrita na referida edição já não era nada mau... Mas a Letonja e ao S. Carlos exige-se a Neue Richard-Wagner-Gesamtausgabe.
Assim tivemos duzentos e setenta minutos de Siegfried na estreia e duzentos e cinquenta e cinco minutos na última récita! Evolução brilhante, que retira sob a mesma direcção cerca de quinze minutos ao empadão final. Se na última récita o Siegfried foi arrastado imagine-se agora a estreia... Recordo que Amsterdão fez o mesmo Siegfried em 2004 em duzentos e vinte e três minutos. O maestro Hartmut Haenchen seguiu a nova edição Richard Wagner e estudou a fundo as indicações recolhidas da boca de Wagner por Porges. Imagine-se a OSP a fazer o Siegfried em menos 47 minutos do que na estreia!!! Se esta produção foi o caos musical com menos 47 minutos o que seria?...
Uma palavra para a trompa, sempre em elevado plano. Já a tuba, como apontei, deixou-me algo insatisfeito. Noto que ambos os instrumentos são bem importantes para o fluxo discursivo da obra. O corne inglês a imitar a cana rachada de Siegfried saiu perfeito.
As madeiras não tiveram a qualidade de som exigível e no seu conjunto padeceram do mesmo mal do resto da orquestra: ausência de cor e de nuance. Falta de trabalho do detalhe. Falta de ênfase e cuidado na articulação. Som surdo devido à posição no fosso. Escaparam alguns solos apesar do clarinete baixo ter cultivado um som pesado e forte, provavelmente para se poder ouvir, em detrimento de um maior lirismo. As madeiras saíram sempre em défice sonoro face ao resto da orquestra, um desequilíbrio manifesto muito por falta do maestro.
O prelúdio do terceiro acto foi um dos piores momentos da direcção de Letonja, os metais com um peso brutal e sem a tal nuance que se impõe nos sforzandi e nas articulações abafaram todo o resto da orquestra. As cordas em número insuficiente e de baixa qualidade ou não se ouviam ou, quando apareciam, escutava-se uma espécie de miado longínquo das notas mais agudas dos violinos. As madeiras, neste trecho, pareciam que estavam lá ao longe dentro de um poço sem fundo. Tudo mesclado numa espécie de caldo informe onde os temas esbracejavam para se poderem escutar e sobressair no meio do viscoso mar de crude que invadiu o teatro no segundo acto e o fosso durante toda a récita, acabámos a escutar repetidamente o tema da lança servido pelos pulmões pujantes da banda metálica.
Outros momentos paradigmáticos desta informe massa sonora foram os murmúrios da floresta e o inenarrável caos sonoro pós quebra da lança de Wotan em que o fogo mágico de Loge soou atabalhoado, com notas erradas nos violinos, numa passagem exigente que acabou por ficar muitíssimo aquém do exigível para uma orquestra profissional e sob a batuta de uma maestro caro e competente.
Entretanto os cantores lá se esforçavam no espaço da arena do S.Carlos, o Siegfried de Stefan Vinke é um Siegfried sem refinamento, que sabe gritar muito cantando muito pouco, sem temperamento lírico e a cantar nas oitavas abaixo no terceiro acto: acima do sol, em notas sustentadas, podia-se contar quase sempre com a oitava abaixo porque a voz já não dava para mais e o cantor estava a ficar rouco. Além disso Vinke arrasta para além do tempo possível a gritaria de cada nota sustentada. Além disso, e apesar do alemão ser a sua língua, canta com voz de "sopinha de massa", fazendo lembrar o lamentável Wotrich...
Samuel Youn no Viandante apesar de ter belos agudos e uma voz de barítono com presença, cantou de forma muito irregular, de forma algo soluçante, sem nobreza da grande linha vocal. Faltou-lhe gravidade e profundidade nos graves. Tem o defeito de entrar sempre, ou quase sempre, atrasado o que além de ser sistemático revela problemas de musicalidade que devem ser resolvidos com mais treino e trabalho. A sua noção do tempo de entrada e do ritmo é perfeitamente aleatória acabando muitas vezes a arrastar as notas. Youn tem um belo futuro se controlar estes erros.
O Mime de Colin Judson foi muito conseguido, no meu entender, com uma bela presença de actor e uma belíssima colocação vocal num papel incrivelmente ingrato.
O Fafner de Dieter Schweikart foi conseguido sem causar grande impressão, é pouco profundo como baixo, mas é o possível.
A Erda de Gabirele May deve-se ter ressentido da encenação, o facto de aparecer senil e provavelmente com uma doença incapacitante, fez com que a voz aparecesse muito feia, destimbrada mesmo. May é, neste momento, tudo menos contralto.
Susan Bullock foi razoável mas distante da forma como abordou a Valquíria: vibrato excessivo, voz com poder mas com falta de convicção. Estava à espera de melhor mas, mesmo assim, foi muito razoável, a voz ainda tem o chicote da Valquíria mas falta-lhe a frescura necessária para a jovem heroína.
O pássaro da floresta de Chelsey Chill foi conseguido, creio que a canadiana encontrou aqui o papel da sua vida, apropriado ao seu registo estreito, voz metálica e nasalada, com agudos pobres e graves inexistentes. A tessitura estreita e uniforme deste pássaro da floresta é o ideal para a cantora. Entretanto a voz nos saltos para cima, notório no lá agudo, desliza de forma muito pouco natural, fazendo um brutal sforzando em stress ao atacar o som mais agudo atacado em fortíssimo agressivo sem qualidade, quando na partitura não existe qualquer indicação dinâmica e o canto deva fluir natural e uniforme. É o papel da vida deste pássaro mas, mesmo assim, bem longe do ideal.
Wagner sem música não é obra de arte total, nem sequer é obra de arte. Dar ao encenador o papel total é reduzir a dimensão da obra. O meu Wagner tem música, não sei como será o Wagner do leitor, ou como o leitor quer o seu Wagner. Os críticos da nossa praça parecem esquecer este lado e preferir o Wagner do encenador. Não percebo esta abordagem, creio que essa visão é provinciana e coxa. É uma visão sem referentes e, sobretudo, sem grande amor pela obra deslumbrante do compositor alemão.
Esta produção é um risco interessante como conceito, no entanto creio ser um falhanço enquanto obra de arte total e um falhanço estrondoso no capítulo musical. O meu balanço é francamente negativo e as culpas vão direitinhas para um maestro pouco wagneriano e complacente, para uma orquestra sem grande qualidade, sobretudo nas cordas, para uma encenação que despreza a música e uma cenografia que rouba espaço a uma verdadeira orquestra wagneriana. Veremos como corre o Crepúsculo dos Deuses, onde o coro entra de forma fundamental, mas a 75% desta produção o balanço é desolador, sobra a revolução no teatro e pouco mais.
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3.10.08
Siegfried no S. Carlos II
Creio que a encenação de Vick, não entende a modernidade do Ring de Wagner e reduz todo o mito sobre o homem moderno a uma encenação "doméstico-contemporânea", onde apenas existe uma leitura directa, primária, óbvia, do fluxo discursivo wagneriano: os capitalistas estão em decadência, o socialismo triunfará, o povo participa na coisa e vê a acção decorrer dentro de si mesmo, ali à frente, chegando os artistas a pisar os calos do próprio povo que está calmamente no seu camarote a tentar ver e escutar uma obra de teatro, não através de uma distância mágica que o transporta a um mundo de pensamento e emoção pura, como Wagner queria, mas percebendo que aquilo que ali está é apenas teatro, percebendo a mecânica daquilo, sem nada escondido.
Vários equívocos, o "povo" representado pelo "público" são uns senhores e senhoras que nunca serão o público que Wagner queria. Que se estão aliás nas tintas para a vitória do socialismo e a queda do capitalismo no mundo de hoje.
Esta leitura de Wagner é primária porque escamoteia a própria evolução do artista: Wagner saiu das barricadas de Dresden em 1848, Wagner antes de acabar o Siegfried escreve os Mestres e antes tinha escrito o Tristão, passam-se mais de vinte anos, Wagner não é o socialista em choque que imaginou o programa do Ring. Wagner não leu Brecht nem teve oportunidade de assistir às suas peças de teatro do pós-guerra, Wagner não viveu em Berlin Leste. Realizar Wagner no tempo de hoje com ideias de hoje é perfeitamente possível, ver por exemplo Braunschweig em Aix e Salzburg, obra em progresso de uma força e de uma beleza plástica incríveis, lendo até ao âmago e reinterpertando Wagner à luz do desencanto do homem moderno. O problema de Vick é que, ao tentar, subverter de forma alarve o texto de Wagner está, de facto, a reduzir a dimensão da obra a apenas uma faceta, a da parábola anti-capitalista vista no contexto de um drama doméstico, afastando-se do teatro conceptual que poderia levar a encenação a uma verdadeira subversão, a subversão da transcendência.
O conflito pai-filho domina esta encenação o que está certo no meu entender, a decadência de Wotan, por outo lado, é grotesca. Vick não percebe que esta putativa decadência é apenas aparente, esse é o seu erro mais grosseiro, Wotan perde poder mas ganha uma compreensão infinita, uma consciência tão forte que se torna insustentável e que só tem uma saída: o nirvana.
Não perceber isto é ser ultra conservador, é ser reaccionário, é ser redutor e incompetente. Por outro lado existe um desprezo total pela música sobrevalorizando o teatro. O que com os meios do TNSC era um risco também ele óbvio uma vez que a orquestra é incapaz da qualidade e subtileza necessária a este Siegfried e os cantores são de muito baixa qualidade (em média) e as condições acústicas são más, mas esse risco poderia ter sido minorado e foi engrandecido pelo encenador. Tudo demonstra mais uma vez a mais profunda ignorância ou o mais profundo desprezo, o que me parece mais plausível, pela obra de arte total de Wagner. A arrogância ignorante ou pedante do encenador sobrepõe-se ao génio de Wagner. Prefiro o segundo. Não me interessa o Siegfreid de Vick, interessa-me o Siegfried de Wagner.
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2.10.08
Siegfried no S. Carlos I
Siegfried de Richard Wagner. Teatro Nacional de S. Carlos, Lisboa.
30 de Setembro de 2008, 18h30.
Segunda jornada de: Der Ring des Nibelungen.
Poema de Richard Wagner. Estreia a 1876, Bayreuth.
Direcção musical Marko Letonja.
Encenação Graham Vick.
Cenografia e figurinos Timothy O'Brien.
Desenho de Luz Giuseppe Di Iorio.
Orquestra Sinfónica Portuguesa
Nova produção
Assisti à estreia de Siegfried no S. Carlos na passada terça feira, dia 30 de Setembro. Começo por fazer notar que a experiência de Vick como encenador de Siegfried é interessante. Do ponto de vista conceptual "virar o teatro ao contrário" dá ao encenador infinitas possibilidades.
Começo por abordar o personagem central da obra: Wotan, o centro, o pilar de toda a estrutura do Ring, a imagem do W, Wotan, Wanderer, Wagner. O W que serve de bandeira em Bayreuth hasteada enquanto o festival decorre, o W a que Wagner recorreu para domesticar o nome de Odin à sua aliteração, forma poética que cultivou à exaustão, e que foi o motor rítmico da composição a partir do poema.
Vick vê a obra quase como se tratasse de um drama doméstico, Wotan é visto como um chefe de família decadente, não é nunca um deus poderoso, faz negócios e engendra teias de esquemas em Rheingold, aparece na Walküre como um burguês sem poder com vulgares amantes e de roupão jogando bilhar em casa e, finalmente, como um bêbedo sem abrigo neste Siegfried.
É na essência no tratamento do personagem Wotan que Vick mais se revela como encenador. Esquecendo o folclore do palco ao centro do teatro como se tratasse de uma arena, a encenação vale muito mais pelo tratamento dos personagens, pela leitura em concreto da obra. É na leitura em concreto da obra e na sua passagem a teatro que Vick falha estrondosamente. Em Wotan, Wagner coloca o poder, a sabedoria, a potência, a sua lança tem geralmente uma acção simbólica e apenas é utilizada como instrumento de poder quando parte a espada de Siegmund no final do segundo acto da Walküre. Gradualmente este poder dissipa-se, não por acção dos elementos estranhos mas pela própria acção de Wotan que se enreda numa teia de compromissos inextricáveis que o atam a ele mesmo. Pela compreensão de que já não faz falta ao mundo.
Wotan concebe de Erda entre Rheingold e a Walküre, engendra Brünnhilde dessa Terra Primordial, sábia e eterna. A mesma Terra que é violada, a mesma Natureza que Wotan violou ao cortar a lança do Freixo do Mundo. Mais do que os compromissos é o destino de Wotan a perda de poder, ele tudo sabe mas a Fonte da Sabedoria secou, o Freixo secou, a lança vai perdendo força. Wotan apercebe-se e quer o Crepúsculos dos Deuses, ele afirma que o Mundo é das novas gerações, puras, sem malícia, sem culpa, sem tratados. Ele afirma-o neste Siegfried. Wotan realiza o supremo ideal de Wagner: a renúncia, a mesma renúncia que Wagner nunca realizou mas que amava em Schopenhauer.
Wagner passa do socialista em 1848, quando idealiza a obra, a pessimista em finais de sessenta quando retoma o Siegfried. É evidente que a ideia simples do início, uma parábola sobre o capitalismo destruído não pela força das armas em revolta armada mas pela arte e pela ideia, deixou de ter sentido para Wagner, que escreve após a epifania de S.: "O Ring continha em si a filosofia que vim a descobrir em Shopenhauer". Não só é isso evidente como a escrita musical de Siegfried foi, toda ela, realizada depois da revelação. O que antes no poema era semente torna-se com a composição da música filosofia pura, é com a música que se percebe a intenção mais íntima de Wagner, nos temas do crepúsculo, da lança, da falsa segurança do Walhalla, da angústia de Wotan, nos temas da Natureza e, sobretudo, na forma como são dispostos, os corais de metais que sublinham e suportam as últimas linhas de Wotan são um exemplo notável do amor que Wagner colocou neste personagem. A linha vocal de Wotan é sempre de uma nobreza sem par ao longo de todo o Ring, e neste Siegfried o personagem é tratado com um carinho e cuidado musical verdadeiramente reveladores da identificação que W tinha com W. Ouvindo o Siegfried, mais do que vendo, percebe-se o amor com que o Wagner maduro, com mais de cinquenta anos e depois de abandonar Siegfried por mais de uma década, retoma o tratamento de Wotan, agora o mais nobre senhor de toda a Tetralogia, deixou de ser o Deus poderoso e sonhador que olha para o Anel em Rheingold, deixa de ser o Deus em Queda livre que abandona o seu filho amado à morte por causa dos seus esquemas, o deus que clama desesperado "É o Fim" o eixo central da Walküre. Wotan no terceiro acto de Siegfried é mais do que um deus, é um homem sábio, o mundo pesa-lhe nos ombros, ele que tudo sabe não quer mais o poder, o poder afinal é inútil, basta-lhe saber, basta-lhe ser o senhor dos corvos.
Mas Wotan ainda é luz, é o Alberich Luz que se revela a Mime na cena das perguntas, é o senhor do cavalo de luz que Alberich entrevê por cima das árvores na floresta onde dorme o Gigante Fafner vestido de Serpente Dragão. Wotan renuncia mas ainda monta o cavalo de luz, ainda tem a lança na mão, ainda é o senhor dos corvos, os mesmos corvos que estão pintados por cima da sua imagem na casa de Wagner em Bayreuth. Pintura emblemática essa, Wagner não escolheu para encimar a porta da sua casa um retrato de Wotan deus, escolheu o retrato de Wotan como o viandante de Siegfried, rodeado pelos corvos que o hão-de servir até ao final do Crepúsculo dois Deuses, os corvos olhos de Wotan.
É pois neste personagem que vai perdendo poder mas vai alcançando a suprema sabedoria e o supremo bem da renúncia, que Wagner também admirava no budismo, na retirada de Wotan para um mundo inacessível aos mortais que ainda não atingiram o Nirvana, que Wagner atribui o papel central do Ring. Wotan perde poder e vai reganhando dignidade, torna-se finalmente um ser resplandecente ao entregar a lança ao seu neto para que este a parta.
Graham Vick trata Wotan neste Siegfried como um bêbedo que usa a lança para devastar em estado de grande decadência a gruta (gaiola) de Mime, que bate numa Erda envelhecida e enterrada num asilo, como um bêbedo bate numa velha e decadente amante, sem dó nem piedade Wotan arrasta-se cambaleando pela cena, arrota, as suas roupas são andrajosas e estão manchadas, os cabelos e a barba hirsutas, Wotan comporta-se como um fantasma sem consciência, como se a sua condição fosse resumida à inevitabilidade da queda na degradação humana. Vick não percebe, ou não quer perceber, que Wotan ao renunciar ao poder ascende ao supremo bem e à verdadeira iluminação. Wotan sombrio e sábio, presidirá doravante na sala do seu castelo à reunião silenciosa dos seus heróis, das suas filhas Valquírias, e dos outros deuses (que não Loge): é o Crepúsculo dos Deuses que se avizinha, Wotan já não está presente na cena, mas é a sombra tutelar do última jornada, Wotan que assistirá de longe à queda e corrupção de Siegfried, último representante da sua raça na terra, e até as nova gerações sem mácula cairão, e a sua queda será muito pior: Siegfried não renuncia, será morto pelas costas, não lhe é dada essa faculdade, essa sabedoria.
A cena da floresta com o esgoto industrial e a poluição não faz o menor sentido na arquitectura da obra, a floresta é primordial, é pura, da floresta nasce o herói sem mácula: Siegfried o idiota que conquista o mundo, o dragão é também um ser primordial. A mancha vem depois, surge no Crepúsculo, colocar o lixo tóxico, o esgoto, o petróleo, no coração da floresta de Siegfried é mais um erro crasso. Parece bem, é a denúncia ecológica do politicamente correcto, a "malta aprecia", mas convenhamos que não tem grande coerência.
O pior é mesmo um Wotan bêbedo e sem consciência, no meu entender um erro violento e grosseiro, incompreensível, que destrói completamente a mensagem filosófica da obra de Wagner. Poupem-me a encenadores que querem ser mais do que os autores da obra e que de forma alarve passeiam a sua ignorância e o seu ódio pelas obras cimeiras do espírito humano.
Tudo o resto são diversões e folclore, a falta de respeito pelos espectadores, com figurantes sentados nas cadeiras pagas pelo público no início do terceiro acto, com gente a entrar nos camarotes sem aviso, e a pisar os calos a pessoas de idade que querem descansadamente gozar as centenas de euros que gastaram para poder assistir a um momento de magia, sem um pedido, sem um aviso, tudo é marca de arrogância e desvario de um encenador que se julga acima da obra e do respeito que deve ao público pagante, mas isso é marginal.
Outro aspecto que Vick despreza alarvemente é o relegar o papel da música e do canto para um plano secundaríssimo, o espaço para a orquestra é reduzido, há menos catorze cordas do que o previsto por Wagner, tudo é mesquinho, os cantores são fracos e têm de correr e saltar desalmadamente, a acústica é muito irregular e depende da orientação dos cantores face ao público circundante, a direcção de Letonja é canhestra e despreza o detalhe, a orquestra tem momentos verdadeiramente miseráveis (mas isso fica para outro texto). Mas, como se sabe, a música em Wagner diz tudo e fazer desaparecer a música da ópera é não entender nada de Wagner.
Gravei ontem para a Antena 2 um possível esboço de discussão crítica, para mim a encenação valia sete valores, é uma classificação muito alta, e tem de ponderar vários efeitos: a direcção de actores é excelente, há efeitos cénicos muito belos como o dos pássaros na ponta de varas que oscilam sobre todo o teatro e sustentados por figurantes que irrompem pelos camarotes, a ideia do dragão está bem imaginada com a a empilhadora do Ouro do Reno transformada agora em aríete. Mas a competência cénica esbarra com um factor inelutável: a destruição da obra na sua visão global, e aí Vick tem zero.
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8.5.07
Valquíria - Miserabilismo musical
Prometi anteriormente escrever sobre os aspectos musicais da Walküre em Lisboa.
Pouco mais há a dizer sobre os longos textos que escrevi sobre o teatro de Vick. É inequívoco que a música foi um parente pobre nesta Valquíria.
A orquestra wagneriana em versão mini, com 18 cordas a menos do que o minimamente exigível, e de muito fraca qualidade nessas mesmas cordas, portou-se francamente mal. O buraco orquestral, de acústica péssima e mal estudada, não contribuiu para mais, mal medido revela a profunda incompetência, ou desinteresse, do encenador sobre o assunto.
Os graves estando muito separados não se ouviam entre si com desacertos gritantes nas entradas, trompas e fagotes, contrabaixos e violoncelos, contrabaixos e todo o resto. Parecia que tudo andava à nora. Os violinos desafinados, com notas erradas e, cúmulo dos cúmulo, no final da obra (na passagem francamente difícil do fogo mágico) até parecia haver primeiros violinos a fingir que tocavam, arcos atravessados voando alegremente sem tocar nas cordas!
O resultado orquestral foi claramente mau. Muito pior do que o sofrível que me parecia a audição da estreia, por culpa de não conseguir ouvir a orquestra quando fiquei na distante plateia do palco.
O maestro Marko Letonja mostrou-se desatento, displicente, sem ter cuidado com as entradas. Em lugar de ser um elemento aglutinador e organizador de um conjunto fraco e desconjuntado, contribuiu para um descalabro orquestral absoluto. Apesar de frases poéticas nos solos de muitos instrumentos, o resultado em termos de conjunto foi entre o sofrível e o muito mau. E em Wagner ser sofrível já é péssimo. Letonja que já tinha sido péssimo na Médée de Cherubini, ainda teve o descaramento de dar uma entrevista ao DN em que mandava umas postas de pescada sobre Bayreuth e a obra de Wagner revelando uma confrangedora candura sobre o assunto, afirmando, entre outros disparates, que não precisava das seis harpas porque até ouvia bem demais as quatro que estavam encostadas às suas orelhas. Não importa que o público não ouvisse nada, sua excelência com as harpas em cima de si próprio achava que era demais. O pior nem sequer foi isso, o pior foi a subalternização a que a música foi votada, e com a qual o maestro esloveno foi cúmplice. O resultado final em termos puramente musicais foi desconexo, sem ligação global, momentos interessantes que se perdiam em declamações intermináveis mal sublinhadas e que não contribuiram para a coerência final. Não houve sequer um arremedo de leitura musical, não se percebeu qual a posição estética da direcção, não se entendeu uma linha de som, os tempos foram sempre ditados pelo palco e nunca pelo pulso do maestro como emanações de uma ideia da obra. Ideia global da obra? Só se for a que Vick tem, preconcebida, do drama wagneriano, e é claro que Letonja não faz tem a menor noção do assunto. Não perceber que a música de Wagner é essencial ao drama é não perceber nada de encenação, nada de música e nada de Wagner. Ter deixado isto acontecer no Ouro do Reno foi um erro, persistir nesse erro na Valquíria e até aumentar essa dependência com a atitude subserviente de Letonja, de andar e deixar andar, foi um erro ainda mais grave. Creio que durante todos os anos de Pinamonti, e eu disse muito bem deste director que acho insubstituível, esse foi o seu maior erro, deixar Graham Vick destruir o drama Wagneriano, não numa encenação canhestra e meramente destrutiva e gratuita mas numa encenação incompetente. No entanto não foi por isso que Pinamonti foi substituído, nem eu acho que isso fosse motivo para o ser, pois o próprio secretário hermenêutico abanava a cabeça de contente com o Ouro do Reno e delirava com esta proposta de Graham Vick, avalizando esta escalada vergonhosa de desrespeito pela música de Wagner.
Já falámos de Letonja e da orquestra, salvaram-se os metais aqui e ali, salvaram-se alguns solos. Nas cordas em conjunto a coisa foi um desastre, contrabaixos reduzidos a cinco não se ouviam, violoncelos desafinavam (isto quando se ouviam), violas eram a imagem da anarquia, com uma agitação frenética dentro do naipe e uma falta de profissionalismo verdadeiramente confrangedora por parte de alguns músicos e os violinos foram globalmente desastrosos. Será que as harpas estavam lá? Pouco as ouvi, no palco estavam longe, no camarote o som projectava-se noutra direcção...
As vozes foram também muito irregulares:
Mikhail Kit em Wotan foi grosseiro, sem linha vocal, desafinou e não tem legato, não sabe alemão e depende do ponto, fraco.
Susan Bullock em Brünnhilde, acabou por cumprir com grande dignidade sem ter a voz de um verdadeiro soprano dramático. Cantou as linhas wagnerianas com grande empenho, determinação e sentido dramático, agudos demasiados estridentes e às vezes um pouco destimbrada, fez no entanto uma belíssima cena final quase irrepreensível, muitos furos acima de uma Linda Watson, por exemplo.
Judit Németh em Fricka, excelente, belo timbre, belíssima linha vocal, belos agudos, encantou, já tinha feito Brünnhilde antes. Creio que terá sido um erro de casting empregá-la em Fricka que tantas cantoras podem fazer.
Maxim Mikhailov em Hunding, boçal e bárbaro, voz poderosa mas rude, desafina nos graves, é o que se pretende em Hunding.
Ronald Samm em Siegmund, com um físico imprestável para o papel e as exigências da encenação, acaba extenuado e em perda vocal total, o final do primeiro e do segundo actos foram, em ambas as récitas a que assisti, verdadeiramente desastrosas. Acabou sem agudos e sem fôlego. As invocações heróicas de Sigmund foram tudo menos heróicas.
Anna-Katharine Behnke em Sieglinde, esteve mal na entrada da estreia, com perdas de linha e de afinação, depois aqueceu e a coisa compôs-se. Voz bonita e um segundo acto de grande nível, imponente a forma como cantou o tema da redenção, ou da esperança, na estreia. Na segunda récita tentei ouvir Behnke a cantar a mesma parte vocal, mas como a mesma estava de costas não sei se correu mal ou bem, não se ouvia... Tem uma boa linha vocal e representa com a voz.
As valquírias estiveram francamente bem, apesar de algumas entradas fora de sítio, sobretudo na estreia, o que se entende pela posição dificílima em que tinham de cantar e longíssimo do maestro; mais uma inconsistência prática desta encenação.
E fica cumprida a promessa. Apesar de continuar a achar que isto se devia ter feito, pela experiência, e que a encenação tem pontos a favor, fazendo pensar. Creio que ainda é tempo de fazer estudos acústicos para o Siegfried e de aumentar o buraco de forma a caber lá a orquestra wagneriana. O tecto que cobre grande parte da orquestra deve ser mais aberto, de forma a deixar fluir melhor o som, a disposição dos músicos na orquestra deve também ser melhorada. Por outro lado ainda se está a tempo de contratar um maestro mais sério, e com uma personalidade mais vincada, para o resto da Tetralogia.
Ao cuidado de novo director.
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29.3.07
Seabra volta
Concordo inteiramente com a referência ao último Wozzeck, obra prima da literatura operática, feita com grande dignidade musical por um grande director e encenada de forma subtil e profunda por um, verdadeiramente, grande encenador. Para mim este Wozzeck foi talvez a melhor realização dos anos Pinamonti, muito acima da espectacular (e pouco referida por Seabra) encenação centrada em torno do ego de Vick da primeira metade da Tetralogia; que está muitos furos furos abaixo da encenação do mesmo Vick para o Werther, outra das grandes realizações dos anos Pinamonti.
O espaço público está amordaçado pela pesada modorra política, pelo domínio dos bonzos opinativos habituais e pela estupidez e anti cultura que grassam nos chamados jornais de referência com "O Público" cada vez mais desastroso, o Diário de Notícias a degradar-se cada dia que passa com mais uma direcção e o Expresso que, apesar da espessura, dedica cada vez menos espaço à cultura. É necessário recriar novos espaços públicos e formas de reflexão crítica sobre a arte e sociedade. O Site da culturgest abre um espaço que é necessário mas muito mais tem de ser feito.
Etiquetas: Augusto M. Seabra, Culturgest, ópera, Pinamonti, S. Carlos, Stéphane Braunschweig, Vick, Wozzeck
7.3.07
A banalização da tragédia - II
A partitura de Wagner é também teatro, a música está escrita bem como a acção e o que devem fazer os personagens, até os momentos de abertura e fecho da cortina são explicitados e se deve ser rápida ou normalmente. Por exemplo no momento em que Hunding e Siegmund discutem, na cabana do primeiro, Wagner escreve que Sieglinde deve aproximar-se e colocar-se entre os dois. A cena da morte de Hunding é claríssima, apenas depois do segundo "Vai" de Wotan deve o corpo do bruto cair acompanhando as notas descendentes das cordas graves.
Se as notas são sagradas porque não é o teatro? O drama wagneriano é tão forte ao nível da música como ao nível da representação, a música e o teatro do mesmo autor que concebeu a obra como um todo. Ou entendemos Wagner como um grande autor que fez obras notáveis que devem ser respeitadas e gostamos do seu teatro, ou achamos que esse mesmo teatro deve ser alterado, reescrito, destruído. Vick está claramente no segundo lado.
Vejamos a queda de Hunding, Vick mata-o ao mesmo tempo de Siegmund antes de Wotan lhe dizer que deve ir ajoelhar perante Fricka como escravo, antes de Wotan dizer que a sua lança deve corrigir a humilhação feita ao seu dono e antes de lhe dizer, "Vai" duas vezes. Quando as notas descendentes medem a queda pesada e dramática emprestando uma cenografia através da música ao gesto, criando uma tensão insuportável que contribui para a densidade trágica da obra, já Hunding está por terra há dois ou três minutos. É ridículo, ineficiente dramaturgicamente, destrutivo do texto de forma gratuita, é mesmo pateta, poderia até ser confundido com ignorância grosseira se não se soubesse que Vick até conhece bem a obra. Isto contribui para a uma espécie de teatro incongruente entre o que é dito e feito. Vick banaliza ao retirar à música o seu papel simbólico e a sua força dramática. Qual a razão de destruir uma construção tão perfeita? Incompetência ou vontade autista do encenador em subverter gratuitamente uma edifício tão perfeito?
Será apenas imprimir algo de novo, uma marca Vick espúria e sem sentido, que nem sequer funciona no gesto aparente do teatro surdo à música. Junte-se aos gémeos a preto e branco, bucha e estica, já discutidos, junte-se à cena de Wotan e Fricka que discutiremos no próximo parágrafo e caminhamos para uma banalização da tragédia, uma futilização do génio, um aburguesamento acéfalo de um texto profundamente filosófico e politizado, depois daquele Ouro do Reno esta trivialização. O que será que Vick quer dizer? Veremos se Siegfried esclarece o programa de Vick.
A cena entre Fricka e Wotan, é representada por Judit Németh, uma excelente cantora e actriz, ele por um russo que serve para Gergiev, para Jorge Calado, para a minha amiga Ana Rocha, para quase toda a gente, mas que para mim não serve. Num alemão inenarrável, rosnando o papel sem o cantar verdadeiramente, (será que ninguém aprendeu com os arcos de Hotter?), mal vestido, Wotan enfrenta uma Fricka poderosa e motivada, bem vestida na sua simbologia divina, Németh é tão nobre que parece a mais bela das mulheres. Este Wotan não tem armas para ela, é um trapaceiro, tenta seduzi-la, mas a cena não tem a menor verosimilhança, dá umas tacadas no snooker de forma displicente, mas não tem jeito nenhum para aquilo e fazê-lo enquanto canta é desastroso, não funciona dramaturgicamente por inverosimilhança com o texto e a própria realidade que quer descrever. Wotan é tão pouco poderoso nesta Valquíria que nem sequer consegue acertar umas tacadas. Aliás o snooker marca o erro de Vick, aquilo faz o quê ali? Faz sentido Wotan dar tacadas, como não quer a coisa, enquanto discute o futuro do seu universo? Por acaso acho a metáfora do jogo interessante se bem realizada, ou seja: Wotan teria o poder de manipular as forças do universo como quem manipula habilmente as bolas de um jogo de snooker, o taco é um equivalente da lança; mas para esta ideia ser credível e funcionar o cantor/actor que faz de Wotan teria de ser um excelente jogador e surgir com a caracterização de alguém poderoso... em vez do "jogador trapaceiro" eu penso no jogador hábil, que a certa altura se começa a enredar no seu próprio jogo e a meter os pés pelas mãos, que é o que no fundo acontece com Wotan... não sei se era esta a ideia que Vick tinha em mente. Se era não era má, mas de facto a concretização foi banal. De facto o oposto é que aparece, um charlatão sem poder, que não acerta nas bolas. Mas se Wotan não tem poder qual o sentido disto tudo?
Uma cena de conflito emocional profundo, que reflectia profundamente o drama pessoal de Wagner com a sua mulher, é dramatizado por Vick como uma cena de uma série da britcom, ridículo. Vick quis trazer todos os diálogos como conflitos a dois, a ideia é boa, a Valquíria lida a todo o passo com o conflito entre opostos. Mas apenas se deve notar que este conflito não faz sentido, quem não tem poder não pode ter conflitos, está derrotado à partida. Se o actor/cantor é fraco tudo resulta inútil : o Das Ende de Wotan soa a rouco e a pouco e este Wotan está condenado à partida, até pelo mau gosto do seu trajar.
É óbvio que a Valquíria lida com o conflito, mas o porquê do conflito qual é? Nunca foi explicitado por Vick qual a força motriz por detrás do conflito: o poder e a sua demanda. Wotan é uma espécie de jogador, um burguês que bebe whisky manhoso e que tem uns esquemas, a Valquíria é uma viuva negra que não sabe bem o que fazer e que tem pena do mortal Siegmund, sem se perceber todo o conflito interno da revelação da emoção e da rejeição da imortalidade fria que busca apenas o poder eterno e que vai perdendo gradualmente. É evidente que A Valquíria é um drama de transição, é um drama de explicação, não se espera aqui a renúncia sábia do último Wotan. O supremo deus também está perdido no seu labirinto interior, talvez por isso Vick o tenha retratado como "burguês manhoso" um pouco perdido, que se evade bebendo whisky num bar/retiro de terceira categoria... Vick antecipa cedo demais a renúncia do poder. Parece claro que Vick quis enfraquecer a personagem de Wotan. Este sabe que tudo está perdido, Fricka explicita-o, Wotan já o sabia há muito, desde a profecia de Erda, e admite-o, mas é uma admissão involuntária, Wotan ainda espera recuperar o poder, ainda o utiliza na punição de Brünnhilde que ele sabe que virá a ser tomada pelo herói que há-de vir, e o tema de Siegfried ecoa por toda a orquestra e pelo canto da filha.
Magníficas as palavras finais sobre a imortalidade que Wotan enuncia no final do drama, Wotan sabe que o futuro está no homem. Vick, imagino eu, também o quer mostrar, mas esquece o lado profundamente humano de Wotan que, apesar de deus, é uma representação do homem. Wotan não é apenas um fútil e oco jogador com uns esquemas, Wotan é o símbolo último da demanda pelo poder e da sua renúncia.
Não será um herói que não teme o medo, mas um herói que não teme a lança de Wotan, que atravessará as chamas mágicas. O poder só existe através da sua representação, do respeito e do medo que inspira, o poder não existe se não se recear a lança de Wotan. A lança é o símbolo último do poder enquanto a espada é o símbolo da razão, que corta e divide, a espada é analítica, a lança é brutal. A razão cortará o poder.
E que banalização desse momento decisivo da ópera, Wotan parece um pobre desgraçado, um actor mau, mal vestido, sem os estigmas do seu poder, de lança remendada, um "farroupilha" (perdoe-se-me o neologismo) que se despede da filha, balbuciando mal um alemão de porto russo, rosnando em vez de cantar, rouco, desafinado, não tão péssimo quanto o Wotan da primeira produção mas mesmo assim claramente insuficiente.
A orquestra está reduzida a uma dimensão de trazer por casa com 16 cordas a menos sobre o exigível, a tocar horrendamente, com uns violinos em que alguns até fingem que tocam com o arco por cima das cordas sem lhes tocar, os que tocam desafinam como um bando de gatos, sem chama nem glória, nem poesia, nem alma. As tubas não conseguem cantar gloriosamente o tema de Siegfried porque estão metidas num buraco de onde o som não sai e onde estão condenadas a desafinar como bodes se cantarem a plenos pulmões por causa do tecto estar a dez centímetos dos pavilhões das mesmas. As chamas, símbolo supremo do poder de Wotan, e neste caso sobre Loge, o deus do fogo, são umas letras encarnadas que desfilam rápidas à volta de Brünnhilde.
É um erro supor que Wotan já nem sequer tem o poder de mandar no fogo, Wotan perde o poder porque deixa de ser temido na sua representação que se mantém até à lança ser quebrada pelo seu neto. Se o seu poder não fosse imponente à partida, o papel de Siegfried poderia ser desempenhado por um qualquer Sr. Hermenêutica de foice e martelo em punho, em vez da espada Notung..
As letrinhas de Loge representam um adeus antecipado ao poder de Wotan: não será demasiado fácil para Siegfried atravessar aquela barreira? Se Wotan apenas consegue aquilo porque razão teremos de suportar mais de oito horas de música para se atingir o cataclimo do fogo, também ele ordenado por Wotan no seu acto final, e servido pelo mesmo leitmotif. Será que Vick nos servirá o Crepúsculo dos Deuses com estes a tomarem um banho de sol na Caparica, de facto não estaria mal pensado. Ainda estou para ver como é que ele vai descalçar essa bota! Em rigor devia deitar o fogo ao camarote real.
É evidente que esta leitura também apresenta boas ideias, as Valquírias como vampiras negras, chupando o sangue e a alma dos mortos em combate. Mas aqui esta boa ideia esbarra com o papel secundário para o drama desta cena magnífica: boa realização teatral, bons movimentos cénicos mas apenas show-off.
A cena da tempestade com a violação e o casamento forçado de Hunding com Siegliende é muito bem conseguido e funciona, apesar de Wagner não ter escrito nada disso na partitura, é aqui que o texto wagneriano pode ser enriquecido com as ideias do encenador e neste caso funcionou muitíssimo bem.
A cena das vaias a Fricka quando esta se senta no camarote real no início do terceiro acto estariam muito bem apanhadas se fossem para o maestro Letonja e a orquestra, no caso de Fricka são grosseiras e desnecessárias, a censura, a reflexão sobre o seu papel não se faz ao nível maniqueísta do bom e do mau, as vaias são redutoras, Fricka tem o seu papel no drama, é um motor. É certo que ela representa valores que os outros questionam, desprezam ou dos quais se querem libertar... talvez o próprio Wagner, mas Wagner deixa essa hermenêutica (como a palavra está na moda porque não usá-la, afinal não é exclusiva do sr. secretário) à consciência do espectador, quem não está preparado não o perceberá, não necessita de um encenador para o guiar. Os valores de Fricka são negativos ou positivos? Isso fica na consciência e no pensamento crítico do espectador, esse é um dos lados geniais de Wagner, não há personagens cem por cento certas ou erradas, não há rectidão de valores, há seres humanos. Isto apesar de alguns serem chamados de deuses. Retirar a capacidade de pensar ao espectador é mais uma vez destruir o génio de Wagner, o drama faz-se com as nossas cabeças e com as nossas emoções.
Existe uma outra interpretação: é evidente que há á uma tomada de posição do encenador mas isso também não quer dizer que o espectador a aceite; o espectador mais conservador pode até ficar do lado de Fricka... acho que a interpretação fica na mesma em aberto, mas nesse caso as vaias são desnecessárias, acessórias.
Já a presença de Fricka no primeiro acto é inteligente, a entrada de Wotan quando o amor se consuma é também inteligente. Eles são as testemunhas que debaterão depois, em conflito, o papel dos heróis, dos tratados, da essência do poder, numa discussão que é, para mim, um dos mais belos momentos da ópera wagneriana.
Os pares expostos pela sala são interessantes na aparição da Primavera, mas distraem do essencial, o dueto de amor extraordinário de Siegmund e Sieglinde. Onde estavam as harpas que não se ouviam?
Hunding, um bruto, está bem caracterizado, só falta arrotar e peidar-se, o que eu não veria com maus olhos, seria respeitar Wagner de facto: o retrato dos maridos que Wagner tão detestava.
Sieglinde também não está mal, uma mulher conformada, forçada, mas que reencontra o sonho.
As Valquírias vestidas como estão, parecem saídas de um filme do Harry Potter, mas a ideia é muito boa e funciona perfeitamente.
Siegmund é um desgraçado inverosímil: quem acredita que um homem daqueles conseguiu fugir de uma matilha de cães? Quem acredita que a arfar, a suar abundantemente e cantando de forma penosa, pelo cansaço originado pelo seu peso, tenha uma cena de amor credível?
Porque razão as mulheres dos heróis mortos em combate, estavam tão bem vestidas? Um pouco ridículo de novo se aquilo era um campo de batalha. Será para criar a tal distância crítica da qual Vick é adepto? No fundo o seu maior erro, Wagner é tudo menos Brecht, formatá-lo pelas ideias posteriores é destruir a sua mensagem. Para uns é tocar no sagrado, para outros uma leitura possível. No meu caso prefiro a magia e o transcendente em oposição à democratização tonta. Wagner democratiza pelo pensamento a que obriga e que atinge todos. Esta é uma questão estética, filosófica e política que está no cerne da paixão que Wagner suscita nos seus irredutíveis e nos seus críticos. Admito perfeitamente outras visões, trata-se de uma questão de emoções profundas, prefiro a vertente transcendente em oposição ao lado trivializante desta visão do teatro sem distância, sem transcendência, em que a música é reduzida a um papel de acompanhamento e não há segredos por revelar. Serei um conservador empedernido nesta visão?
Teatro puro, magia pura, nada de ilusões: o drama wagneriano é teatro mágico...
Falou-se bem do tronco caído, acho visualmente interessante, e bem apanhado do ponto de vista cenográfico, mas volta a ser errado deixar a árvore da vida caída e morta no chão da sala. Alguém dirá que faz sentido: tudo começou porque Wotan lhe arrancou um ramo, o primeiro atentado contra a natureza a que se seguirão muitos outros... este freixo representa o freixo primordial que sustenta o castelo dos deuses, mas estar já morto e reduzir o poder actual de Wotan ao nada é excessivo, e é afinal a mais forte mensagem de Vick.
Interessante a batalha nos destroços da sala de Wotan, finalmente uma ideia que faz sentido simbólico, aqui Wotan já admitiu o fim. Joga-se a morte do seu filho nos destroços do seu conforto burguês, gostei.
Já o sofá na cena final da montanha é acessório e sem sentido. Nem como trono de Wotan será coerente, pois Vick caracteriza-o como um trapaceiro sem poder.
Valeu a pena? Apesar de uma encenação errada na sua concepção geral e servida por personagens centrais ocos sem saberem bem o que estavam a fazer (Wotan e Brünnhilde), eliminando a magia do teatro (factor essencial para Wagner e elemento crucial do papel da música no drama) mas também não o tornando verosímil, deixando sempre margem para a distância crítica brechtiana (o que é uma visão defendida por muitos), socializando e integrando o teatro global com o público no drama (o que poderia ser defensável e positivo à partida), subalternizando a música, banalizando a tragédia, usando figurinos horríveis, luzes anónimas, abandonando o público do palco à sua triste sorte de não ouvir nada e de ver quase sempre as costas dos cantores, de deixar sempre público de fora do teatro pela impossível utilização dos 360º que deixam sempre gente de fora, acaba por ser emocionalmente atraente este Wagner de trazer por casa. Este Wagner acaba por fazer pensar.
E se Mikhail Kit em Wotan fosse melhor actor e cantor? E se o maestro Letonja fosse mais refinado e atento aos detalhes? E se a música não fosse tão sacrificada? Talvez a coisa, creio que sobretudo pela música de Wagner e pelo palco central, teria valido os inconvenientes. Assim ficou-se pelo interessante. A minha análise desta Valquíria fica-se pela minha desilusão pessoal, de estar à espera de mais de um encenador que já fez coisas muito belas e pela sucessão de erros factuais que poderiam ter arruinado globalmente o projecto e que ainda o poderão fazer.
Os lados da acústica e da subalternização da música são para mim os mais graves defeitos desta encenação que atinge uma classificação mediana para quem a vê dos camarotes e negativa para os espectadores do palco.
Os meus comentários sobre Vick são sobretudo ao nível estético, como realizador no concreto Vick sabe do seu métier. Esta encenação tem novidades, tem valor acrescentado sobre as encenações que se vêm fazendo, acaba por dar algum prazer ver como se faz e em ter Wagner em Lisboa. Uma encenação histórica. Prefiro assim do que não se fazer, apesar das críticas que fiz.
Uma palavra para a direcção do teatro: o risco corrido resultou melhor no Ouro do Reno. Na Valquíria uma repetição da utilização do palco já não trouxe as novidades do ano passado. O cast é irregular. A música é subalternizada, acusticamente existem gravíssimas falhas. O projecto no entanto tem valor e deve ser corrigido para 2008 e 2009. Vick não pode ter o poder absoluto sendo autista relativamente a estes problemas. Não acredito que este Wotan consiga em 2009 fazer uma tetralogia completa.
O projecto deve ser continuado sem sombra de dúvidas, cortá-lo seria um acto de censura. A crítica nunca deverá ser vista como um incentivo à censura, mas uma forma de reflexão, de pensamento livre. Defender o teatro e a sua direcção contra uma tutela incompetente não é incompatível com dizer-se o que se pensa das produções em concreto.
Continua com a análise em concreto das vozes, da orquestra e da concepção do maestro.
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5.3.07
A banalização da tragédia - I
Assisti à estreia e à récita de Sábado passado, duas perspectivas, uma do palco, onde agora é a plateia, outra de um camarote de primeira ordem por cima da orquestra.
Graham Vick é o encenador, utiliza uma rotunda enorme no local onde anteriormente se situava a plateia do teatro, as cadeiras foram retiradas e um estrado ao nível do topo da balaustrada das frisas é agora o palco cénico.
Nestes textos comenta-se a encenação de per se, não me interessa se existe uma larga rotunda para expor os cantores, não me interessa nada a espectacularidade dos figurantes a sair ou entrar das frisas, das Valquírias a cantar das torrinhas ou da Fricka na Galeria Real. Nada disso é essencial, são aspectos acessórios que poderiam ter sido utilizados com sucesso sem virar o teatro ao contrário. Uma larga rotunda pode ser excelente se os actores forem excelentes, se as luzes forem poéticas e interessantes, se os cantores tiverem algo a dizer com as suas expressões, se o personagem central do drama, Wotan, e não Brünnhilde, tiver um bom actor a representá-lo. Com um design de luzes miserável, descolorido e enfadonho, uma cenografia de estúdio de teatro amador: uns sofás, um snooker e um bar de canto, o que poderia surtir efeito era a caracterização dos personagens, era o drama.
Qual drama? Pergunta quem assistiu. Tudo se passou no campo do banal, as emoções eram triviais, o jogo do poder, motor último da obra, não existiu. Nesta Walküre o único poder é o do encenador, o poder de destruir e de usar tudo a seu belo prazer, sem espaço para o teatro, sem espaço para a música. Nesta Walküre o maestro não tem qualquer poder, os cantores não têm poder, os personagens poder algum têm. Uma experiência que é um risco, que tem aspectos positivos mas que vista numa análise rigorosa de todos os seus elementos se revela profundamente triste, uma trivialização do teatro, uma secundarização da música, uma banalização da tragédia, afinal aquilo que poderia salvar uma encenação tão nua, tão despida nos seus elementos cenográficos.
Por outro lado esta revolução no Teatro de S. Carlos, feita em cima dos joelhos, sem uma equipa de técnicos de acústica, sem se medir o novo fosso, melhor nome seria buraco, leva a que a orquestra esteja reduzida a um número insuficiente para as sonoridades graves, nobres e majestosas que Wagner requere. A falta de reverberação e a secura do som produzido são confrangedoras e um buraco mal concebido para a orquestra leva a problemas de comunicabilidade dentro da mesma que colocam a música à beira do abismo a cada instante. O facto de no palco, agora feito plateia, não se ouvir quase nada das sonoridades orquestrais e de os cantores estarem quase sempre de costas para esse local, levando a que também não se ouçam, foi claramente subestimado pelo encenador-rei. Uma suposta tampa acústica que só funciona ao nível psicológico na cabeça do encenador e dos membros da produção, sem testes acústicos rigorosos, demonstra o autismo voluntarista deste projecto de Vick. Ficam algumas ideias, ficam alguns aspectos interessantes, mas este Wagner de Lisboa para mim deixa um sabor amargo de tristeza, de secundarização do mais belo que estes dramas encerram.
Alguém disse (Jorge Calado no Expresso) que era caso para "V de victória, de Valquíria de Vick", eu digo a propósito deste buraco da orquestra, um buraco infecto, mal concebido, onde as tubas têm de tocar com o pavilhão a escassos centímetros do tecto, onde mal cabem 9 violoncelos e cinco contrabaixos, onde o número anunciado pelo maestro Letonja de 13 cordas a menos (sobre as cordas pedidas por Wagner) era falso por defeito, sendo pelo menos 16 os instrumentos a menos sobre o exigível e numa péssima localização:
V de vergonha, V de voluntarismo, V de Vick
Esta Walküre ainda poderá ser corrigida, se o projecto continuar, em 2008 e 2009, o buraco infecto da orquestra terá de ser alargado, a sala terá de ser estudada do ponto de vista acústico por gente competente e atempadamente. Assim como está corremos o risco desta ideia nem sequer passar da linha de partida. Talvez resulte na televisão onde microfones e câmaras podem fazer milagres, no teatro não funciona.
Vick disse que queria democratizar a ópera, levá-la ao público, dessacralizar o acto. Conseguiu-o de facto, os actores/cantores estão próximo do público, figurantes saem das frisas e atiram-se sobre o actual palco, pares aparecem nos camarotes quando surge a Primavera (primeiro acto), estação de renovação e reprodução na Natureza. Os actores vestem trajes comuns, o que está de acordo com a intemporalidade do drama, mas também os aproxima do público. A pergunta ingente é: Mas o que isso adianta para o conceito do sublime, para a cosmogonia wagneriana? Atrevo-me a responder: nada. Esta dessacralização não existe, o que existe é a transformação da magia, do mito, em banalidade. Nada é poesia, tudo é gratuito, nada se esconde. Onde está a politização, a filosofia?
Hunding veste de motoqueiro, Sieglinde é uma mulher romântica, mas actual, que vive uma vida miserável com um homem que não ama e que a força, veste de mini-saia de cabedal e recebe apalpões de Hunding, acomodou-se, já não espera redenção. Quando volta à sala para Siegmund vem vestida de branco nupcial. Siegmund é uma espécie de marginal, longe da sociedade, contra tudo e todos. Wotan um burguês que tem um pavilhão onde pode andar vestido à sua vontade, onde tem a sua mesa de snooker e um bar para beber o seu Grants de zero anos.
Fricka representa todos os estereótipos de mulher rica e poderosa, uma tiara cobre-lhe os cabelos, será uma deusa? Talvez, talvez seja também, e apenas, uma mulher rica e pretensiosa. Felizmente a cantora/actriz Judit Németh compõe uma Fricka deslumbrante de nobreza, mercê da sua presença em palco e da sua vocalidade, que acaba por fazer cair a simpatia numa personagem que Vick pretendia homiziar, aviltar... que paradoxo.
Brünnhilde veste de preto, uma viúva negra. Todos os de raça divina têm uma mancha na face, uma nuvem, uma marca sagrada. Siegmund, Sieglinde, Wotan e Fricka, pares, casais. Curiosamente Brünnhilde e suas irmãs, Valquírias, ela que é filha de Erda a deusa ancestral da Terra e de Wotan, as outras, filhas nascidas também de Wotan e possivelmente com a mesma ascendência materna não têm a marca divina nas suas faces. Uma incongruência que o o encenador continuará ao longo desta primeira jornada da trilogia com prólogo.
Por outro lado os gémeos Siegmund e Sieglinde, parecidíssimos, segundo Hunding e segundo eles próprios, ele pretíssimo e gordíssimo, ela loura e com menos um cento de quilogramas. Se não eram fisicamente parecidos, os actores de Seigmunde e Sieglinde, num erro de casting grosseiríssimo que eu diria até gratuitamente provocatório, pelo menos poderiam ser parecidos nos maneirismos, na forma de andar, na expressão vocal, nos gestos. Mas nada menos convincente, do que este "par" ridículo de gémeos. É evidente que não se trata de uma questão racial, poderiam até ser convincentes se os corpos se se aparentassem, se a caracterização apontasse nessa direcção. Esta redução do teatro wagneriano ao teatro do absurdo e da negação do texto choca-me profundamente. A encenação pode ser subversiva e respeitar o texto, pode ser radical e entender o autor recriando-o, Vick aqui foi apenas grosseiro. É caso para dizer: com Vick o gang de motoqueiros bebe Sagres de litro no casamento forçado de Sieglinde com o seu líder enquanto Wotan, o deus supremo, bebe Grants de supermercado.
Mas serão estes erros o pior desta produção, não, nem por sombras, o pior ainda está para vir... e o melhor também. É evidente que ficam ideias muito interessantes, que Vick sabe colocar os actores em palco, que 360º são desafiantes e ao mesmo tempo problemáticos, mas o pior é mesmo a caracterização dos personagens, facto que debaterei no próximo texto.
Etiquetas: Brünnhilde, Crítica de Ópera, ópera, Orquestra Sinfónica Portuguesa, Valquíria, Vick, Wagner, Walküre, Wotan
3.3.07
Hoje Walküre
A crítica sairá de domingo para segunda. Espero ter uma acústica um pouco melhor para perceber o que se passa com a orquestra e os cantores.
O teatro é, no meu entender, mais fraco em termos de ideias do que no Ouro do Reno. Para além do espectáculo de ter os cantores a andar por ali na rotunda e uma boa movimentação cénica no início do terceiro acto resta pouco mais; uma paupérrima cena entre Wotan e Fricka e uma cena final pífia. Assuntos a desenvolver nesses textos que se preparam.
Etiquetas: Acústica, Crítica de Ópera, Fricka, Valquíria, Vick, Wagner, Walküre, Wotan
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