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8.5.07

Valquíria - Miserabilismo musical 


Prometi anteriormente escrever sobre os aspectos musicais da Walküre em Lisboa.
Pouco mais há a dizer sobre os longos textos que escrevi sobre o teatro de Vick. É inequívoco que a música foi um parente pobre nesta Valquíria.
A orquestra wagneriana em versão mini, com 18 cordas a menos do que o minimamente exigível, e de muito fraca qualidade nessas mesmas cordas, portou-se francamente mal. O buraco orquestral, de acústica péssima e mal estudada, não contribuiu para mais, mal medido revela a profunda incompetência, ou desinteresse, do encenador sobre o assunto.
Os graves estando muito separados não se ouviam entre si com desacertos gritantes nas entradas, trompas e fagotes, contrabaixos e violoncelos, contrabaixos e todo o resto. Parecia que tudo andava à nora. Os violinos desafinados, com notas erradas e, cúmulo dos cúmulo, no final da obra (na passagem francamente difícil do fogo mágico) até parecia haver primeiros violinos a fingir que tocavam, arcos atravessados voando alegremente sem tocar nas cordas!
O resultado orquestral foi claramente mau. Muito pior do que o sofrível que me parecia a audição da estreia, por culpa de não conseguir ouvir a orquestra quando fiquei na distante plateia do palco.
O maestro Marko Letonja mostrou-se desatento, displicente, sem ter cuidado com as entradas. Em lugar de ser um elemento aglutinador e organizador de um conjunto fraco e desconjuntado, contribuiu para um descalabro orquestral absoluto. Apesar de frases poéticas nos solos de muitos instrumentos, o resultado em termos de conjunto foi entre o sofrível e o muito mau. E em Wagner ser sofrível já é péssimo. Letonja que já tinha sido péssimo na Médée de Cherubini, ainda teve o descaramento de dar uma entrevista ao DN em que mandava umas postas de pescada sobre Bayreuth e a obra de Wagner revelando uma confrangedora candura sobre o assunto, afirmando, entre outros disparates, que não precisava das seis harpas porque até ouvia bem demais as quatro que estavam encostadas às suas orelhas. Não importa que o público não ouvisse nada, sua excelência com as harpas em cima de si próprio achava que era demais. O pior nem sequer foi isso, o pior foi a subalternização a que a música foi votada, e com a qual o maestro esloveno foi cúmplice. O resultado final em termos puramente musicais foi desconexo, sem ligação global, momentos interessantes que se perdiam em declamações intermináveis mal sublinhadas e que não contribuiram para a coerência final. Não houve sequer um arremedo de leitura musical, não se percebeu qual a posição estética da direcção, não se entendeu uma linha de som, os tempos foram sempre ditados pelo palco e nunca pelo pulso do maestro como emanações de uma ideia da obra. Ideia global da obra? Só se for a que Vick tem, preconcebida, do drama wagneriano, e é claro que Letonja não faz tem a menor noção do assunto. Não perceber que a música de Wagner é essencial ao drama é não perceber nada de encenação, nada de música e nada de Wagner. Ter deixado isto acontecer no Ouro do Reno foi um erro, persistir nesse erro na Valquíria e até aumentar essa dependência com a atitude subserviente de Letonja, de andar e deixar andar, foi um erro ainda mais grave. Creio que durante todos os anos de Pinamonti, e eu disse muito bem deste director que acho insubstituível, esse foi o seu maior erro, deixar Graham Vick destruir o drama Wagneriano, não numa encenação canhestra e meramente destrutiva e gratuita mas numa encenação incompetente. No entanto não foi por isso que Pinamonti foi substituído, nem eu acho que isso fosse motivo para o ser, pois o próprio secretário hermenêutico abanava a cabeça de contente com o Ouro do Reno e delirava com esta proposta de Graham Vick, avalizando esta escalada vergonhosa de desrespeito pela música de Wagner.
Já falámos de Letonja e da orquestra, salvaram-se os metais aqui e ali, salvaram-se alguns solos. Nas cordas em conjunto a coisa foi um desastre, contrabaixos reduzidos a cinco não se ouviam, violoncelos desafinavam (isto quando se ouviam), violas eram a imagem da anarquia, com uma agitação frenética dentro do naipe e uma falta de profissionalismo verdadeiramente confrangedora por parte de alguns músicos e os violinos foram globalmente desastrosos. Será que as harpas estavam lá? Pouco as ouvi, no palco estavam longe, no camarote o som projectava-se noutra direcção...
As vozes foram também muito irregulares:

Mikhail Kit em Wotan foi grosseiro, sem linha vocal, desafinou e não tem legato, não sabe alemão e depende do ponto, fraco.
Susan Bullock em Brünnhilde, acabou por cumprir com grande dignidade sem ter a voz de um verdadeiro soprano dramático. Cantou as linhas wagnerianas com grande empenho, determinação e sentido dramático, agudos demasiados estridentes e às vezes um pouco destimbrada, fez no entanto uma belíssima cena final quase irrepreensível, muitos furos acima de uma Linda Watson, por exemplo.
Judit Németh em Fricka, excelente, belo timbre, belíssima linha vocal, belos agudos, encantou, já tinha feito Brünnhilde antes. Creio que terá sido um erro de casting empregá-la em Fricka que tantas cantoras podem fazer.
Maxim Mikhailov em Hunding, boçal e bárbaro, voz poderosa mas rude, desafina nos graves, é o que se pretende em Hunding.
Ronald Samm em Siegmund, com um físico imprestável para o papel e as exigências da encenação, acaba extenuado e em perda vocal total, o final do primeiro e do segundo actos foram, em ambas as récitas a que assisti, verdadeiramente desastrosas. Acabou sem agudos e sem fôlego. As invocações heróicas de Sigmund foram tudo menos heróicas.
Anna-Katharine Behnke em Sieglinde, esteve mal na entrada da estreia, com perdas de linha e de afinação, depois aqueceu e a coisa compôs-se. Voz bonita e um segundo acto de grande nível, imponente a forma como cantou o tema da redenção, ou da esperança, na estreia. Na segunda récita tentei ouvir Behnke a cantar a mesma parte vocal, mas como a mesma estava de costas não sei se correu mal ou bem, não se ouvia... Tem uma boa linha vocal e representa com a voz.

As valquírias estiveram francamente bem, apesar de algumas entradas fora de sítio, sobretudo na estreia, o que se entende pela posição dificílima em que tinham de cantar e longíssimo do maestro; mais uma inconsistência prática desta encenação.

E fica cumprida a promessa. Apesar de continuar a achar que isto se devia ter feito, pela experiência, e que a encenação tem pontos a favor, fazendo pensar. Creio que ainda é tempo de fazer estudos acústicos para o Siegfried e de aumentar o buraco de forma a caber lá a orquestra wagneriana. O tecto que cobre grande parte da orquestra deve ser mais aberto, de forma a deixar fluir melhor o som, a disposição dos músicos na orquestra deve também ser melhorada. Por outro lado ainda se está a tempo de contratar um maestro mais sério, e com uma personalidade mais vincada, para o resto da Tetralogia.
Ao cuidado de novo director.

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7.3.07

A banalização da tragédia - II 

No texto prévio falámos de erros que entendemos na encenação de Graham Vick da "Die Walküre", não seria justo ficar por aí. Embora os actores (os masculinos) estejam entre o normal e o fraco, e as actrizes entre o mediano (caso de Sieglinde) e o muito bom, a caracterização dos personagens e a concepção global da encenação, responsabilidade de Vick, padece de erros objectivos, que procurarei explicar, e de erros estéticos e filosóficos sempre de cariz mais subjectivo, que terei de explicar ainda melhor. É claro que Vick tem boas ideias. Vick é um bom director de actores, sabe colocá-los em palco, as cenas têm sempre movimento, é claramente um homem de teatro, os erros vêm no meu entender da visão autocrática da posição de si próprio como encenador e artista, provêm de delírios de omnipotência que arrumam à partida muitas hipóteses de uma leitura analítica, filosófica e política, que esteve presente no Ouro do Reno e que aqui, incongruentemente para uma obra comum, desaparecem.
A partitura de Wagner é também teatro, a música está escrita bem como a acção e o que devem fazer os personagens, até os momentos de abertura e fecho da cortina são explicitados e se deve ser rápida ou normalmente. Por exemplo no momento em que Hunding e Siegmund discutem, na cabana do primeiro, Wagner escreve que Sieglinde deve aproximar-se e colocar-se entre os dois. A cena da morte de Hunding é claríssima, apenas depois do segundo "Vai" de Wotan deve o corpo do bruto cair acompanhando as notas descendentes das cordas graves.
Se as notas são sagradas porque não é o teatro? O drama wagneriano é tão forte ao nível da música como ao nível da representação, a música e o teatro do mesmo autor que concebeu a obra como um todo. Ou entendemos Wagner como um grande autor que fez obras notáveis que devem ser respeitadas e gostamos do seu teatro, ou achamos que esse mesmo teatro deve ser alterado, reescrito, destruído. Vick está claramente no segundo lado.
Vejamos a queda de Hunding, Vick mata-o ao mesmo tempo de Siegmund antes de Wotan lhe dizer que deve ir ajoelhar perante Fricka como escravo, antes de Wotan dizer que a sua lança deve corrigir a humilhação feita ao seu dono e antes de lhe dizer, "Vai" duas vezes. Quando as notas descendentes medem a queda pesada e dramática emprestando uma cenografia através da música ao gesto, criando uma tensão insuportável que contribui para a densidade trágica da obra, já Hunding está por terra há dois ou três minutos. É ridículo, ineficiente dramaturgicamente, destrutivo do texto de forma gratuita, é mesmo pateta, poderia até ser confundido com ignorância grosseira se não se soubesse que Vick até conhece bem a obra. Isto contribui para a uma espécie de teatro incongruente entre o que é dito e feito. Vick banaliza ao retirar à música o seu papel simbólico e a sua força dramática. Qual a razão de destruir uma construção tão perfeita? Incompetência ou vontade autista do encenador em subverter gratuitamente uma edifício tão perfeito?
Será apenas imprimir algo de novo, uma marca Vick espúria e sem sentido, que nem sequer funciona no gesto aparente do teatro surdo à música. Junte-se aos gémeos a preto e branco, bucha e estica, já discutidos, junte-se à cena de Wotan e Fricka que discutiremos no próximo parágrafo e caminhamos para uma banalização da tragédia, uma futilização do génio, um aburguesamento acéfalo de um texto profundamente filosófico e politizado, depois daquele Ouro do Reno esta trivialização. O que será que Vick quer dizer? Veremos se Siegfried esclarece o programa de Vick.

A cena entre Fricka e Wotan, é representada por Judit Németh, uma excelente cantora e actriz, ele por um russo que serve para Gergiev, para Jorge Calado, para a minha amiga Ana Rocha, para quase toda a gente, mas que para mim não serve. Num alemão inenarrável, rosnando o papel sem o cantar verdadeiramente, (será que ninguém aprendeu com os arcos de Hotter?), mal vestido, Wotan enfrenta uma Fricka poderosa e motivada, bem vestida na sua simbologia divina, Németh é tão nobre que parece a mais bela das mulheres. Este Wotan não tem armas para ela, é um trapaceiro, tenta seduzi-la, mas a cena não tem a menor verosimilhança, dá umas tacadas no snooker de forma displicente, mas não tem jeito nenhum para aquilo e fazê-lo enquanto canta é desastroso, não funciona dramaturgicamente por inverosimilhança com o texto e a própria realidade que quer descrever. Wotan é tão pouco poderoso nesta Valquíria que nem sequer consegue acertar umas tacadas. Aliás o snooker marca o erro de Vick, aquilo faz o quê ali? Faz sentido Wotan dar tacadas, como não quer a coisa, enquanto discute o futuro do seu universo? Por acaso acho a metáfora do jogo interessante se bem realizada, ou seja: Wotan teria o poder de manipular as forças do universo como quem manipula habilmente as bolas de um jogo de snooker, o taco é um equivalente da lança; mas para esta ideia ser credível e funcionar o cantor/actor que faz de Wotan teria de ser um excelente jogador e surgir com a caracterização de alguém poderoso... em vez do "jogador trapaceiro" eu penso no jogador hábil, que a certa altura se começa a enredar no seu próprio jogo e a meter os pés pelas mãos, que é o que no fundo acontece com Wotan... não sei se era esta a ideia que Vick tinha em mente. Se era não era má, mas de facto a concretização foi banal. De facto o oposto é que aparece, um charlatão sem poder, que não acerta nas bolas. Mas se Wotan não tem poder qual o sentido disto tudo?
Uma cena de conflito emocional profundo, que reflectia profundamente o drama pessoal de Wagner com a sua mulher, é dramatizado por Vick como uma cena de uma série da britcom, ridículo. Vick quis trazer todos os diálogos como conflitos a dois, a ideia é boa, a Valquíria lida a todo o passo com o conflito entre opostos. Mas apenas se deve notar que este conflito não faz sentido, quem não tem poder não pode ter conflitos, está derrotado à partida. Se o actor/cantor é fraco tudo resulta inútil : o Das Ende de Wotan soa a rouco e a pouco e este Wotan está condenado à partida, até pelo mau gosto do seu trajar.

É óbvio que a Valquíria lida com o conflito, mas o porquê do conflito qual é? Nunca foi explicitado por Vick qual a força motriz por detrás do conflito: o poder e a sua demanda. Wotan é uma espécie de jogador, um burguês que bebe whisky manhoso e que tem uns esquemas, a Valquíria é uma viuva negra que não sabe bem o que fazer e que tem pena do mortal Siegmund, sem se perceber todo o conflito interno da revelação da emoção e da rejeição da imortalidade fria que busca apenas o poder eterno e que vai perdendo gradualmente. É evidente que A Valquíria é um drama de transição, é um drama de explicação, não se espera aqui a renúncia sábia do último Wotan. O supremo deus também está perdido no seu labirinto interior, talvez por isso Vick o tenha retratado como "burguês manhoso" um pouco perdido, que se evade bebendo whisky num bar/retiro de terceira categoria... Vick antecipa cedo demais a renúncia do poder. Parece claro que Vick quis enfraquecer a personagem de Wotan. Este sabe que tudo está perdido, Fricka explicita-o, Wotan já o sabia há muito, desde a profecia de Erda, e admite-o, mas é uma admissão involuntária, Wotan ainda espera recuperar o poder, ainda o utiliza na punição de Brünnhilde que ele sabe que virá a ser tomada pelo herói que há-de vir, e o tema de Siegfried ecoa por toda a orquestra e pelo canto da filha.
Magníficas as palavras finais sobre a imortalidade que Wotan enuncia no final do drama, Wotan sabe que o futuro está no homem. Vick, imagino eu, também o quer mostrar, mas esquece o lado profundamente humano de Wotan que, apesar de deus, é uma representação do homem. Wotan não é apenas um fútil e oco jogador com uns esquemas, Wotan é o símbolo último da demanda pelo poder e da sua renúncia.

Não será um herói que não teme o medo, mas um herói que não teme a lança de Wotan, que atravessará as chamas mágicas. O poder só existe através da sua representação, do respeito e do medo que inspira, o poder não existe se não se recear a lança de Wotan. A lança é o símbolo último do poder enquanto a espada é o símbolo da razão, que corta e divide, a espada é analítica, a lança é brutal. A razão cortará o poder.
E que banalização desse momento decisivo da ópera, Wotan parece um pobre desgraçado, um actor mau, mal vestido, sem os estigmas do seu poder, de lança remendada, um "farroupilha" (perdoe-se-me o neologismo) que se despede da filha, balbuciando mal um alemão de porto russo, rosnando em vez de cantar, rouco, desafinado, não tão péssimo quanto o Wotan da primeira produção mas mesmo assim claramente insuficiente.
A orquestra está reduzida a uma dimensão de trazer por casa com 16 cordas a menos sobre o exigível, a tocar horrendamente, com uns violinos em que alguns até fingem que tocam com o arco por cima das cordas sem lhes tocar, os que tocam desafinam como um bando de gatos, sem chama nem glória, nem poesia, nem alma. As tubas não conseguem cantar gloriosamente o tema de Siegfried porque estão metidas num buraco de onde o som não sai e onde estão condenadas a desafinar como bodes se cantarem a plenos pulmões por causa do tecto estar a dez centímetos dos pavilhões das mesmas. As chamas, símbolo supremo do poder de Wotan, e neste caso sobre Loge, o deus do fogo, são umas letras encarnadas que desfilam rápidas à volta de Brünnhilde.
É um erro supor que Wotan já nem sequer tem o poder de mandar no fogo, Wotan perde o poder porque deixa de ser temido na sua representação que se mantém até à lança ser quebrada pelo seu neto. Se o seu poder não fosse imponente à partida, o papel de Siegfried poderia ser desempenhado por um qualquer Sr. Hermenêutica de foice e martelo em punho, em vez da espada Notung..
As letrinhas de Loge representam um adeus antecipado ao poder de Wotan: não será demasiado fácil para Siegfried atravessar aquela barreira? Se Wotan apenas consegue aquilo porque razão teremos de suportar mais de oito horas de música para se atingir o cataclimo do fogo, também ele ordenado por Wotan no seu acto final, e servido pelo mesmo leitmotif. Será que Vick nos servirá o Crepúsculo dos Deuses com estes a tomarem um banho de sol na Caparica, de facto não estaria mal pensado. Ainda estou para ver como é que ele vai descalçar essa bota! Em rigor devia deitar o fogo ao camarote real.

É evidente que esta leitura também apresenta boas ideias, as Valquírias como vampiras negras, chupando o sangue e a alma dos mortos em combate. Mas aqui esta boa ideia esbarra com o papel secundário para o drama desta cena magnífica: boa realização teatral, bons movimentos cénicos mas apenas show-off.
A cena da tempestade com a violação e o casamento forçado de Hunding com Siegliende é muito bem conseguido e funciona, apesar de Wagner não ter escrito nada disso na partitura, é aqui que o texto wagneriano pode ser enriquecido com as ideias do encenador e neste caso funcionou muitíssimo bem.
A cena das vaias a Fricka quando esta se senta no camarote real no início do terceiro acto estariam muito bem apanhadas se fossem para o maestro Letonja e a orquestra, no caso de Fricka são grosseiras e desnecessárias, a censura, a reflexão sobre o seu papel não se faz ao nível maniqueísta do bom e do mau, as vaias são redutoras, Fricka tem o seu papel no drama, é um motor. É certo que ela representa valores que os outros questionam, desprezam ou dos quais se querem libertar... talvez o próprio Wagner, mas Wagner deixa essa hermenêutica (como a palavra está na moda porque não usá-la, afinal não é exclusiva do sr. secretário) à consciência do espectador, quem não está preparado não o perceberá, não necessita de um encenador para o guiar. Os valores de Fricka são negativos ou positivos? Isso fica na consciência e no pensamento crítico do espectador, esse é um dos lados geniais de Wagner, não há personagens cem por cento certas ou erradas, não há rectidão de valores, há seres humanos. Isto apesar de alguns serem chamados de deuses. Retirar a capacidade de pensar ao espectador é mais uma vez destruir o génio de Wagner, o drama faz-se com as nossas cabeças e com as nossas emoções.
Existe uma outra interpretação: é evidente que há á uma tomada de posição do encenador mas isso também não quer dizer que o espectador a aceite; o espectador mais conservador pode até ficar do lado de Fricka... acho que a interpretação fica na mesma em aberto, mas nesse caso as vaias são desnecessárias, acessórias.
Já a presença de Fricka no primeiro acto é inteligente, a entrada de Wotan quando o amor se consuma é também inteligente. Eles são as testemunhas que debaterão depois, em conflito, o papel dos heróis, dos tratados, da essência do poder, numa discussão que é, para mim, um dos mais belos momentos da ópera wagneriana.
Os pares expostos pela sala são interessantes na aparição da Primavera, mas distraem do essencial, o dueto de amor extraordinário de Siegmund e Sieglinde. Onde estavam as harpas que não se ouviam?
Hunding, um bruto, está bem caracterizado, só falta arrotar e peidar-se, o que eu não veria com maus olhos, seria respeitar Wagner de facto: o retrato dos maridos que Wagner tão detestava.
Sieglinde também não está mal, uma mulher conformada, forçada, mas que reencontra o sonho.
As Valquírias vestidas como estão, parecem saídas de um filme do Harry Potter, mas a ideia é muito boa e funciona perfeitamente.
Siegmund é um desgraçado inverosímil: quem acredita que um homem daqueles conseguiu fugir de uma matilha de cães? Quem acredita que a arfar, a suar abundantemente e cantando de forma penosa, pelo cansaço originado pelo seu peso, tenha uma cena de amor credível?
Porque razão as mulheres dos heróis mortos em combate, estavam tão bem vestidas? Um pouco ridículo de novo se aquilo era um campo de batalha. Será para criar a tal distância crítica da qual Vick é adepto? No fundo o seu maior erro, Wagner é tudo menos Brecht, formatá-lo pelas ideias posteriores é destruir a sua mensagem. Para uns é tocar no sagrado, para outros uma leitura possível. No meu caso prefiro a magia e o transcendente em oposição à democratização tonta. Wagner democratiza pelo pensamento a que obriga e que atinge todos. Esta é uma questão estética, filosófica e política que está no cerne da paixão que Wagner suscita nos seus irredutíveis e nos seus críticos. Admito perfeitamente outras visões, trata-se de uma questão de emoções profundas, prefiro a vertente transcendente em oposição ao lado trivializante desta visão do teatro sem distância, sem transcendência, em que a música é reduzida a um papel de acompanhamento e não há segredos por revelar. Serei um conservador empedernido nesta visão?
Teatro puro, magia pura, nada de ilusões: o drama wagneriano é teatro mágico...
Falou-se bem do tronco caído, acho visualmente interessante, e bem apanhado do ponto de vista cenográfico, mas volta a ser errado deixar a árvore da vida caída e morta no chão da sala. Alguém dirá que faz sentido: tudo começou porque Wotan lhe arrancou um ramo, o primeiro atentado contra a natureza a que se seguirão muitos outros... este freixo representa o freixo primordial que sustenta o castelo dos deuses, mas estar já morto e reduzir o poder actual de Wotan ao nada é excessivo, e é afinal a mais forte mensagem de Vick.
Interessante a batalha nos destroços da sala de Wotan, finalmente uma ideia que faz sentido simbólico, aqui Wotan já admitiu o fim. Joga-se a morte do seu filho nos destroços do seu conforto burguês, gostei.
Já o sofá na cena final da montanha é acessório e sem sentido. Nem como trono de Wotan será coerente, pois Vick caracteriza-o como um trapaceiro sem poder.

Valeu a pena? Apesar de uma encenação errada na sua concepção geral e servida por personagens centrais ocos sem saberem bem o que estavam a fazer (Wotan e Brünnhilde), eliminando a magia do teatro (factor essencial para Wagner e elemento crucial do papel da música no drama) mas também não o tornando verosímil, deixando sempre margem para a distância crítica brechtiana (o que é uma visão defendida por muitos), socializando e integrando o teatro global com o público no drama (o que poderia ser defensável e positivo à partida), subalternizando a música, banalizando a tragédia, usando figurinos horríveis, luzes anónimas, abandonando o público do palco à sua triste sorte de não ouvir nada e de ver quase sempre as costas dos cantores, de deixar sempre público de fora do teatro pela impossível utilização dos 360º que deixam sempre gente de fora, acaba por ser emocionalmente atraente este Wagner de trazer por casa. Este Wagner acaba por fazer pensar.
E se Mikhail Kit em Wotan fosse melhor actor e cantor? E se o maestro Letonja fosse mais refinado e atento aos detalhes? E se a música não fosse tão sacrificada? Talvez a coisa, creio que sobretudo pela música de Wagner e pelo palco central, teria valido os inconvenientes. Assim ficou-se pelo interessante. A minha análise desta Valquíria fica-se pela minha desilusão pessoal, de estar à espera de mais de um encenador que já fez coisas muito belas e pela sucessão de erros factuais que poderiam ter arruinado globalmente o projecto e que ainda o poderão fazer.
Os lados da acústica e da subalternização da música são para mim os mais graves defeitos desta encenação que atinge uma classificação mediana para quem a vê dos camarotes e negativa para os espectadores do palco.

Os meus comentários sobre Vick são sobretudo ao nível estético, como realizador no concreto Vick sabe do seu métier. Esta encenação tem novidades, tem valor acrescentado sobre as encenações que se vêm fazendo, acaba por dar algum prazer ver como se faz e em ter Wagner em Lisboa. Uma encenação histórica. Prefiro assim do que não se fazer, apesar das críticas que fiz.
Uma palavra para a direcção do teatro: o risco corrido resultou melhor no Ouro do Reno. Na Valquíria uma repetição da utilização do palco já não trouxe as novidades do ano passado. O cast é irregular. A música é subalternizada, acusticamente existem gravíssimas falhas. O projecto no entanto tem valor e deve ser corrigido para 2008 e 2009. Vick não pode ter o poder absoluto sendo autista relativamente a estes problemas. Não acredito que este Wotan consiga em 2009 fazer uma tetralogia completa.

O projecto deve ser continuado sem sombra de dúvidas, cortá-lo seria um acto de censura. A crítica nunca deverá ser vista como um incentivo à censura, mas uma forma de reflexão, de pensamento livre. Defender o teatro e a sua direcção contra uma tutela incompetente não é incompatível com dizer-se o que se pensa das produções em concreto.

Continua com a análise em concreto das vozes, da orquestra e da concepção do maestro.

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6.3.07

A anedota da noite 

Hunding falando sobre Siegmund e Sieglinde:
Wie gleicht er dem Weibe!
Der gleissende Wurm
glänzt auch ihm aus dem Auge!

Realmente o par de cantores que no S. Carlos faz de par de gémeos é parecidíssimo!

(Continua com a segunda parte do texto anterior A banalização da Tragédia - II)

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5.3.07

A banalização da tragédia - I 

Comentários sobre "Die Walküre" de Wagner no Teatro nacional de S. Carlos.
Assisti à estreia e à récita de Sábado passado, duas perspectivas, uma do palco, onde agora é a plateia, outra de um camarote de primeira ordem por cima da orquestra.
Graham Vick é o encenador, utiliza uma rotunda enorme no local onde anteriormente se situava a plateia do teatro, as cadeiras foram retiradas e um estrado ao nível do topo da balaustrada das frisas é agora o palco cénico.

Nestes textos comenta-se a encenação de per se, não me interessa se existe uma larga rotunda para expor os cantores, não me interessa nada a espectacularidade dos figurantes a sair ou entrar das frisas, das Valquírias a cantar das torrinhas ou da Fricka na Galeria Real. Nada disso é essencial, são aspectos acessórios que poderiam ter sido utilizados com sucesso sem virar o teatro ao contrário. Uma larga rotunda pode ser excelente se os actores forem excelentes, se as luzes forem poéticas e interessantes, se os cantores tiverem algo a dizer com as suas expressões, se o personagem central do drama, Wotan, e não Brünnhilde, tiver um bom actor a representá-lo. Com um design de luzes miserável, descolorido e enfadonho, uma cenografia de estúdio de teatro amador: uns sofás, um snooker e um bar de canto, o que poderia surtir efeito era a caracterização dos personagens, era o drama.
Qual drama? Pergunta quem assistiu. Tudo se passou no campo do banal, as emoções eram triviais, o jogo do poder, motor último da obra, não existiu. Nesta Walküre o único poder é o do encenador, o poder de destruir e de usar tudo a seu belo prazer, sem espaço para o teatro, sem espaço para a música. Nesta Walküre o maestro não tem qualquer poder, os cantores não têm poder, os personagens poder algum têm. Uma experiência que é um risco, que tem aspectos positivos mas que vista numa análise rigorosa de todos os seus elementos se revela profundamente triste, uma trivialização do teatro, uma secundarização da música, uma banalização da tragédia, afinal aquilo que poderia salvar uma encenação tão nua, tão despida nos seus elementos cenográficos.

Por outro lado esta revolução no Teatro de S. Carlos, feita em cima dos joelhos, sem uma equipa de técnicos de acústica, sem se medir o novo fosso, melhor nome seria buraco, leva a que a orquestra esteja reduzida a um número insuficiente para as sonoridades graves, nobres e majestosas que Wagner requere. A falta de reverberação e a secura do som produzido são confrangedoras e um buraco mal concebido para a orquestra leva a problemas de comunicabilidade dentro da mesma que colocam a música à beira do abismo a cada instante. O facto de no palco, agora feito plateia, não se ouvir quase nada das sonoridades orquestrais e de os cantores estarem quase sempre de costas para esse local, levando a que também não se ouçam, foi claramente subestimado pelo encenador-rei. Uma suposta tampa acústica que só funciona ao nível psicológico na cabeça do encenador e dos membros da produção, sem testes acústicos rigorosos, demonstra o autismo voluntarista deste projecto de Vick. Ficam algumas ideias, ficam alguns aspectos interessantes, mas este Wagner de Lisboa para mim deixa um sabor amargo de tristeza, de secundarização do mais belo que estes dramas encerram.

Alguém disse (Jorge Calado no Expresso) que era caso para "V de victória, de Valquíria de Vick", eu digo a propósito deste buraco da orquestra, um buraco infecto, mal concebido, onde as tubas têm de tocar com o pavilhão a escassos centímetros do tecto, onde mal cabem 9 violoncelos e cinco contrabaixos, onde o número anunciado pelo maestro Letonja de 13 cordas a menos (sobre as cordas pedidas por Wagner) era falso por defeito, sendo pelo menos 16 os instrumentos a menos sobre o exigível e numa péssima localização:
V de vergonha, V de voluntarismo, V de Vick

Esta Walküre ainda poderá ser corrigida, se o projecto continuar, em 2008 e 2009, o buraco infecto da orquestra terá de ser alargado, a sala terá de ser estudada do ponto de vista acústico por gente competente e atempadamente. Assim como está corremos o risco desta ideia nem sequer passar da linha de partida. Talvez resulte na televisão onde microfones e câmaras podem fazer milagres, no teatro não funciona.

Vick disse que queria democratizar a ópera, levá-la ao público, dessacralizar o acto. Conseguiu-o de facto, os actores/cantores estão próximo do público, figurantes saem das frisas e atiram-se sobre o actual palco, pares aparecem nos camarotes quando surge a Primavera (primeiro acto), estação de renovação e reprodução na Natureza. Os actores vestem trajes comuns, o que está de acordo com a intemporalidade do drama, mas também os aproxima do público. A pergunta ingente é: Mas o que isso adianta para o conceito do sublime, para a cosmogonia wagneriana? Atrevo-me a responder: nada. Esta dessacralização não existe, o que existe é a transformação da magia, do mito, em banalidade. Nada é poesia, tudo é gratuito, nada se esconde. Onde está a politização, a filosofia?

Hunding veste de motoqueiro, Sieglinde é uma mulher romântica, mas actual, que vive uma vida miserável com um homem que não ama e que a força, veste de mini-saia de cabedal e recebe apalpões de Hunding, acomodou-se, já não espera redenção. Quando volta à sala para Siegmund vem vestida de branco nupcial. Siegmund é uma espécie de marginal, longe da sociedade, contra tudo e todos. Wotan um burguês que tem um pavilhão onde pode andar vestido à sua vontade, onde tem a sua mesa de snooker e um bar para beber o seu Grants de zero anos.
Fricka representa todos os estereótipos de mulher rica e poderosa, uma tiara cobre-lhe os cabelos, será uma deusa? Talvez, talvez seja também, e apenas, uma mulher rica e pretensiosa. Felizmente a cantora/actriz Judit Németh compõe uma Fricka deslumbrante de nobreza, mercê da sua presença em palco e da sua vocalidade, que acaba por fazer cair a simpatia numa personagem que Vick pretendia homiziar, aviltar... que paradoxo.
Brünnhilde veste de preto, uma viúva negra. Todos os de raça divina têm uma mancha na face, uma nuvem, uma marca sagrada. Siegmund, Sieglinde, Wotan e Fricka, pares, casais. Curiosamente Brünnhilde e suas irmãs, Valquírias, ela que é filha de Erda a deusa ancestral da Terra e de Wotan, as outras, filhas nascidas também de Wotan e possivelmente com a mesma ascendência materna não têm a marca divina nas suas faces. Uma incongruência que o o encenador continuará ao longo desta primeira jornada da trilogia com prólogo.

Por outro lado os gémeos Siegmund e Sieglinde, parecidíssimos, segundo Hunding e segundo eles próprios, ele pretíssimo e gordíssimo, ela loura e com menos um cento de quilogramas. Se não eram fisicamente parecidos, os actores de Seigmunde e Sieglinde, num erro de casting grosseiríssimo que eu diria até gratuitamente provocatório, pelo menos poderiam ser parecidos nos maneirismos, na forma de andar, na expressão vocal, nos gestos. Mas nada menos convincente, do que este "par" ridículo de gémeos. É evidente que não se trata de uma questão racial, poderiam até ser convincentes se os corpos se se aparentassem, se a caracterização apontasse nessa direcção. Esta redução do teatro wagneriano ao teatro do absurdo e da negação do texto choca-me profundamente. A encenação pode ser subversiva e respeitar o texto, pode ser radical e entender o autor recriando-o, Vick aqui foi apenas grosseiro. É caso para dizer: com Vick o gang de motoqueiros bebe Sagres de litro no casamento forçado de Sieglinde com o seu líder enquanto Wotan, o deus supremo, bebe Grants de supermercado.

Mas serão estes erros o pior desta produção, não, nem por sombras, o pior ainda está para vir... e o melhor também. É evidente que ficam ideias muito interessantes, que Vick sabe colocar os actores em palco, que 360º são desafiantes e ao mesmo tempo problemáticos, mas o pior é mesmo a caracterização dos personagens, facto que debaterei no próximo texto.

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3.3.07

Hoje Walküre 

Hoje de novo a Valquíria de Richard Wagner.
A crítica sairá de domingo para segunda. Espero ter uma acústica um pouco melhor para perceber o que se passa com a orquestra e os cantores.
O teatro é, no meu entender, mais fraco em termos de ideias do que no Ouro do Reno. Para além do espectáculo de ter os cantores a andar por ali na rotunda e uma boa movimentação cénica no início do terceiro acto resta pouco mais; uma paupérrima cena entre Wotan e Fricka e uma cena final pífia. Assuntos a desenvolver nesses textos que se preparam.

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1.3.07

Asneiras Wagnerianas III 

Agora qualquer palerma que saiba fazer uma redacção da terceira classe escreve sobre Wagner.
Na "crítica" que saiu no jornal "O Público" sobre a Walküre, lá vem o habitual comentário imbecil de que Wagner é misógino e trata mal os personagens femininos. Não há pachorra para tanto disparate junto. Wagner nunca detestou as mulheres, Wagner amava profundamente as mulheres, ao contrário de Schopenhauer; talvez odiasse um pouco os maridos dessas mesmas mulheres, apesar de ser amigo da maioria deles e de lhes pedir dinheiro empretado, mas daí a ser misógino...

Os personagens são o que são, Senta e Isolde são diferentes de Brünnhilde ou de Sieglinde, Brünnhilde é capaz de ódio e de amor, de cólera e de despeito e ao mesmo tempo de uma dignidade triunfante na sua tragédia final, é um personagem de uma densidade e riqueza incríveis, uma representação do Homem.
Os personagens masculinos também são tratados de igual modo: Wotan é claramente um espelho de Wagner.
Alberich é um dual negativo e velhaco de Wotan. Para o crítico de trazer por casa isso deve ser porque Wagner era anti-semita e Alberich deve ser uma espécie de judeu (bem como Mime). Obviamente que Siegfried, um cretino jovem que não conhece o medo, e Parsifal, um perfeito e puro idiota, devem ser assim porque Wagner gostava de representar críticos primários, e Beckmesser, esse sabe-se bem, seria um crítico secundário.

Como se pode afirmar que Wagner trata melhor os homens do que as mulheres?
Não há pachora para tanto disparate junto.

Segue a redacção da terceira classe (e estou a ser muito generoso), para quem não leu, mas eu nem sequer tenho paciência para dissecar mais o assunto.

O título poderia e deveria ser:

A Valquíria frágil e resistente - blurp



A Valquíria frágil e resistente

26.02.2007

Wagner é um osso duro de roer. Não tanto pela longa duração dos seus dramas, mas sobretudo pelas contradições que as suas obras encerram e pelas diferentes leituras que possibilitam. A encenação de Graham Vick, estreada neste sábado no Teatro de São Carlos, mostra bem isso. Vick fez uma leitura não linear e plural de A Valquíria, mas escolheu o seu campo de acção, urdindo uma espécie de tragédia grega contemporânea a partir de uma interpretação profundamente humanista deste episódio da Tetralogia. É um facto que Wagner tem nesta parte da sua obra monumental uma relação especialmente ambígua com o que é humano. Por um lado, todos são corruptos e vendidos, as famílias são decadentes, as convenções não prestam, os seus contratos são sujos e impedem a liberdade. Mas por outro lado só no humano está uma hipótese de redenção. A valquíria Brünhilde, a filha de Wotan, o maior dos deuses (ela é metade dele, da sua consciência e da sua vontade), é a personagem que carrega essa possibilidade. Torna--se humana por ter desobedecido ao seu pai e descobre a compaixão e o amor, o seu e o dos outros. Susan Bullock, soprano, construiu o papel mais difícil, mais dinâmico e mais ambíguo da ópera de Wagner: e foi uma Brünhilde que, a pouco e pouco, cresceu no palco, revelando uma verdadeira actriz. Bullock teve grandes momentos, quando a sua voz e os seus gestos passam, com muita sobriedade, da rispidez de deusa para a sensibilidade humana. Graham Vick puxou por isso, evidentemente. Porque lhe interessava descobrir nos mitos o homem comum - a mulher comum, nesse caso - e as suas obsessões, mais do que passar ideais grandiosos em doses cavalares (também há muito disso em Wagner).
A orquestra sinfónica portuguesa teve força nos momentos essenciais, mas Marko Letonja podia ter ido mais longe na "visão" musical de Wagner - pôr realmente a música na cena e estar ainda mais atento aos cantores, que têm difíceis partes vocais e complicadas movimentações, em vez de exigir apenas que eles sigam a orquestra.
O elenco, no conjunto, é de qualidade elevada. As valquírias tiveram uma grande energia e um empenho enorme. E são excelentes vozes. Mikhail Kit foi um Wotan apenas muito bom - cumpriu bem o papel, mas não foi o deus dos deuses que poderia ser. Anna-
-Katharina Behnke (Sieglinde) tem uma grande voz. Foi mais dramática quando não teve medo do excessivo (no terceiro acto, por exemplo) do que nas partes mais contidas e líricas. Ronald Samm esteve muito bem na generalidade, mas foi-se um pouco abaixo vocalmente na parte final. É que este Siegmund exige algum esforço. Maxim Mikhailov foi um bom mau da fita (Hunding), com o seu lado de motard rufião. Fricka foi uma mulher de Wotan bastante convincente, graças a Judith Németh que levou a água ao seu moinho, tal como Fricka o faz na discussão conjugal dos deuses no segundo acto.
As mulheres em Wagner - deusas incluídas - não se pode dizer que sejam muito bem tratadas. Mulher é quase um insulto. A encenação de Vick, freudiana, psicanalítica, mas aberta e até com algum sentido de humor, deu a volta à misoginia de Wagner de uma forma bastante interessante. Mas foi acima de tudo Susan Bullock, com garra de actriz, que mostrou uma personagem feminina dinâmica e complexa. Frágil e resistente ao mesmo tempo.

Pedro Boléo



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26.2.07

Walküre a negação wagneriana 

Chegou-me às mãos o Diário de Notícias de Sábado. Marko Letonja dá uma entevista sucinta mas muito bem conduzida por Bernardo Mariano. Percebi o que me estava a faltar relativamente à audição da estreia. Realmente as cordas foram drasticamente reduzidas.

O pior que soube através da entrevista, a par da lamechice e banalidade de Letonja ao dizer que a obra é patética e emotiva e o mais a quatro, é mesmo o sacrifício irresponsável da música por uma cenografia e encenação que desprezam a partitura wagneriana em toda a sua dimensão. Diz Letonja que segue o Felix Mottl e a edição da Dover, logo a que eu tenho. Se segue essa edição deveria ter constatado que as indicações que lá vêm, e assim se faz em Bayreuth (como Letonja não se cansa de repetir parece que é o seu modelo), são precisamente de 16 primeiros violinos e não de 14, de 16 segundos e não de 12, de 12 violas e violoncelos cada e não de 10 e, finalmente e o pior de tudo, de 8 contrabaixos e não de 5! O número de cordas a menos, relativamente ao indicado, é de 13 instrumentos, uma orquestra de câmara!
Sendo os naipes graves severamente sacrificados, nos divisi a quatro o desequilíbrio é manifesto e, pior, o desequilíbrio global entre sopros e cordas é tremendo. Na plateia, onde me sentei, os desgraçados dos 5 contrabaixos já nem sequer se ouvem.
A construção, de que Letonja fala, a partir dos graves é uma treta, perdoe-se a palavra: é caso para dizer que é apenas quando as tubas entram que se ouvem graves. Quando os sopros reforçam as cordas, como por exemplo os fagotes e clarinete baixo se juntam aos violoncelos, a coisa compõe-se mas não é ideal. Entretanto diz o maestro que as cordas se ouvem muito bem com três ppp. Talvez Letonja as ouça bem no pódio, mas cá atrás ouvem-se os walkie-talkies da produção e um ruído de fundo das máquinas que abafa completamente qualquer hipótese de se ouvirem os tais três ppp.

Pensar que a primeira razão desta reviravolta no palco do S. Carlos era operacional: a orquestra wagneriana não cabia no fosso do teatro!

Finalmente Letonja diz que "Depois - isto pode parecer provocação, até - mas há vários locais na partitura onde a instrumentação se assemelha muito à música de câmara." Não é provocação nenhuma, é uma verdade óbvia e uma banalidade para quem conhece a obra de Wagner. A maior parte da textura é claramente de câmara, e mais, mesmo nos grandes momentos sinfónicos a presença de estruturas camerísticas transparece. Wagner cria tensões e distensões contínuas, sendo que quase todas as distensões são obtidas por efeitos de redução instrumental e de diálogos instrumentais concisos, geralmente surpreendentes nas combinações e cores, na extraordinária simplicidade e engenho em que emprega todo o espectro orquestral ao mesmo tempo que também sabe utilizar as grandes massas e domina com maestria as grandes complexidades orquestrais, sempre doseando os grandes momentos evitando cair no monolitismo que se encontra num compositor menos dotado do que Wagner, como por exemplo Schönberg na sua fase inicial; v.g. Gurrelieder. A criação de tensão em Wagner também não escapa a estas combinações sonoras. Um dos exemplos mais notáveis é a cena da revelação da espada, em que tímbales a solo, cordas graves, trompete baixo e, finalmente, o primeiro trompete constroem um diálogo notável de revelação e descoberta que se distende a meio com uma evocação meditativa de Siegmund e que, de novo, se reacende para culminar com a entrada em anticlímax de Sieglinde que explica tudo e reduz o momento, o que já era óbvio pela música, ao universo das palavras, antes de entrar num novo ponto de grande dramatismo.

Centenas de outros exemplos podem ser apontados, o monólogo de Wotan, que tanto está "contra" toda a orquestra como em pungentes frases completamente a descoberto ou em diálogo com alguns instrumentos, sublinhado aqui e ali por pizzicati ou notas curtas dos sopros, em que a voz, o elemento da orquestra ao qual é permitido falar, estabelece um princípio condutor que transporta o ouvinte espectador a um mundo mágico de evocações, como por exemplo quando surge o tema de Erda, se anuncia o Crepúsculo, se evocam os tratados, ou se prenuncia o fim, entre tantos motivos entrelaçados ou em sucessão. Não é provocação falar de um Wagner de câmara, é uma evidência.

Creio que a direcção peca por não ser arrebatada ou mesmo excessiva, o excesso de paixão nunca é excessivo! Nota-se que Letonja está a jogar à defesa nesta sua primeira Walküre. A orquestra não dá grande segurança, o espaço é muito desconfortável para uma direcção precisa dos cantores, é justificável, mas esta visão também é redutora e empobrecedora. Resta pesar os muitos lados e saber no final se valeu a pena. Ainda é cedo para esse balanço, nem o projecto avançou ainda muito, nem esta Walküre atingiu a sua maturidade musical e teatral.

Letonja afirma, como se de um grande desiderato se tratasse, que não reduziu madeiras e metais! Como se o pudesse fazer, as partes são únicas, cortar nos sopros seria cortar música escrita por Wagner. Pode cortar nas cordas porque na maioria dos casos estão muitos instrumentos a tocar a mesma coisa, não acontece isso nos sopros.
Foi por isso que tivémos seis harpas no Ouro do Reno, é porque nesse drama específico a música de cada harpa está escrita, em linhas individuais, por Wagner. Cortar uma harpa seria destruir o texto musical na sua completude. Na Walküre as harpas dividem-se em dois conjuntos de três harpas, ou em conjuntos menores, mas nunca há mais de duas linhas paralelas, logo vá de cortar um par de harpas. Quando Wagner pretendia as seis, que vêm indicadas na partitura, Letonja põe quatro, apesar do Mottl, apesar de em Bayreuth se fazer com seis, e em Berlim e em Aix e em todo o lado onde se respeita a obra de Wagner. Queixa-se que teve de as mandar tocar mais piano porque estão muito próximas do local de onde dirige, mas aqui também não interessa muito o que o maestro ouve no pódio apenas porque as harpas estão muito próximo das suas orelhas, o que se pretende é um efeito sonoro junto de quem ouve, o público. Se Wagner quer seis harpas devem estar seis. Acrescento que se Letonja as ouviu bem eu não consegui ouvir bem esses instrumentos, nomeadamente na maravilhosa cena da Primavera no primeiro acto.

Fica uma certeza: fazer Wagner com uma orquestra que já não é grande coisa e ainda por cima violentamente amputada do seu efectivo ideal é negar descaradamente o compositor e a sua obra, é destruir o seu ideal sonoro. Há que ser frontal: nestas questões não pode haver compromissos, uma Walküre com uma orquestra desfalcada é uma fraude, é vender gato por lebre.

Outro lado que para mim é revoltante é o facto de em Portugal nunca se fazerem as coisas pela íntegra, há sempre certas razões, há sempre uns burocratas que acham que não se pode fazer como está escrito, por isto e mais aquilo e rebéu-béu-béu, e o espaço é pequeno, e era desconfortável, e era demasiado para as orelhas do maestro ter de ouvir tanto barulho. E não se pode contrariar o Vick que ele é que é o autor do projecto e é o encenador e mais uma série de coisas todas cinzentas e medíocres que se afirmam para justificar o injustificável. E vem um esloveno que nunca dirigiu a Walküre para nos ensinar como deve ser uma orquestra wagneriana e que assim fica muito equilibrado... o mesmo Letonja que assassinou a partitura de Medeia. Ter aspectos de câmara não significa que se faça Wagner com uma orquestra de câmara e a ouvir-se a meio gás.
Que raio de país este de miseráveis meias tintas que nem sequer um Wagner inteiro podemos escutar. Soubesse a maioria do público a que soa um Wagner inteiro e verdadeiro...


P.S. Como poderá o maestro Letonja seguir as indicações da partitura que indica "quatro primeiros contrabaixos" no início do prelúdio e uns compassos mais à frente faz entrar mais quatro, escrevendo "todos os oito contrabaixos" para voltar a retirar quatro contrabaixos mais à frente. Como pode haver uma graduação do peso dos graves se não existe qualquer hipótese de o fazer com apenas cinco instrumentos? Será que primeiro entram os quatro primeiros e depois entra o quinto? Será que ficam todos a tocar, será que entram 3 e depois mais dois? As partes de grande densidade, pathos e energia com os violoncelos e contrabaixos saem desgraçadamente pífias, lembro o tema da rebelião de Siegmund contra Wotan no final do segundo acto sobre o tema da morte: como emprestar força telúrica, drama, angústia? Com um peso orquestral nas cordas graves absolutamente ridículo. Embora tenha ficado num local de acústica muito fraca, parece-me que falta muita massa a esta orquestra enfezada e diminuída nas cordas.

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25.2.07

Walküre - Mais notas curtas 

Porque será que quando os fagotes se juntavam ao naipe dos violoncelos, em passagens que tinham sido abordadas anteriormente apenas por este último naipe, a coisa soava muito menos trapalhona e mais afirmativa? Será que estão os doze violoncelos previstos na partitura no buraco da orquestra? Não creio.
É das poucas vezes que tenho ouvido este naipe em franco desequilíbrio na OSP, desafinações, entradas a medo, passagens muito pouco claras, num naipe que tem de ser de uma segurança notável para transmitir os trechos de sonho que Wagner escreveu como o leitmotiv do amor trágico, por exemplo. Uma situação rara num naipe que costuma ser um dos pontos fortes da orquestra.
Apenas nos solos, e não sei quem os fez porque não consegui ver, o violoncelo foi poético e encantou.

Os contrabaixos mal se ouviam, onde estavam? Quantos eram?
Nota excepcional para o clarinete baixo e os fagotes.

Deixo aqui este ponto que me deixou perplexo, estou como o outro, são coisas da vida.

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Asneiras Wagnerianas II 

No programa da Walküre vem mencionado que as Valquírias são todas filhas de Wotan e Erda. Que são filhas de Wotan é claro, no caso de Erda a questão fia mais fino. A heroína, Brünnhilde, é realmente filha de Erda. Sobre as outras nada é dito, nem na obra nem em qualquer texto, que eu conheça, de Wagner.
Pode-se admitir que talvez sejam filhas de Erda, mas nunca afirmar peremptoriamente que assim é.
Se alguém tiver mais dados sobre o assunto agradecia que mos enviasse.

Quem escreve notas para programas deveria ser mais preciso e usar menos lugares comuns.

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Acústica 

Na estreia da Walküre fiquei na bancada que ocupa o lugar tradicional do palco. A experiência pode ter melhorado marginalmente em relação ao ano passado com uma espécie de tecto de concha acústica que penduraram por cima do palco, mas a acústica naquela posição continua má. A orquestra soa abafadíssima e muito distante e as vozes soam de forma errática. Parece que faltam cordas e os metais pesados soam abafados, será que estão todos lá dentro? As cordas em divisi soaram desastrosas quase sempre por falta de massa sonora e problemas de afinação e coesão. Não creio que a orquestra wagneriana caiba naquele buraco...
Para além disso os cantores passam a maior parte do tempo de costas para a bancada tendencialmente em posições onde se vê o maestro, o que resulta numa qualidade sonora deficientíssima. Wotan na despedida parecia que estava a cantar de dentro da casa de banho da terceira ordem.
Entretanto o pessoal do teatro anda de botas cardadas no sector técnico que fica precisamente por detrás do palco, conversam e last but not the least ouvem-se os walkie-talkies de suas excelências com um volume altíssimo que perturbam de forma muito negativa a audição na bancada de palco. Hoje mais uma bola preta para os serviços da produção do teatro.
A ideia de Vick da democratização do Wagner não resulta, já se provou e volta-se a provar. Os desgraçados das frisas parece que estão nas galés e uma gigantesca árvore em palco corta a visão de metade do sector cénico aos infelizes da sub-cave no primeiro acto. No acto seguinte são bancos, cadeiras e maples que cortam a visão. Falámos com vários amigos que ficaram no sub-solo e queixaram-se amargamente. Entretanto no Ouro do Reno as cenas dos Nibelungos dentro do fosso só as puderam ver na televisão. Mais uma bola preta para a tal "democratização".

Mais detalhes sobre a produção e uma análise mais aprofundada quando tiver oportunidade de poder escutar de um lugar decente, é que ópera não é só teatro e encenação, é também música. A música é aquilo que mais é sacrificado nesta visão egocêntrica de Vick. É muito bonito terem-se caprichos mas sacrificar o público pagante é algo excessivo.

A produção, no entanto, e excluindo as ideias disparatadas de Vick, parece-me bem conseguida e ouviram-se e viram-se coisas bonitas. Os cantores são bons em alguns casos e a direcção de Letonja é muito razoável, creio que está mais no domínio do barco do que Pomaricò. Infelizmente a estreia continua a ser uma espécie de ensaio geral, muita coisa ainda está fora do sítio, ainda aparece trapalhada, entradas em falso, falta de coesão.

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Buffet no intervalo da Walküre 

Na Walküre de hoje fica aqui a minha experiência com o buffet no salão nobre.
Come-se de pé e com muito desconforto, a comida foi banalíssima, os bolos da sobremesa eram demasiados secos e industriais, o bolo de chocolate estava queimado, a tarte de amêndoa tinha a massa sequíssima e os pasteis de nata são um produto pesado que pode ser encontrado em qualquer casa de pasto a cheirar a fritos, os vinhos eram de qualidade muito limitada, o "sumo de laranja" era uma espécie de sumo em pó que temos medo de dar às crianças, não havia talheres para servir a sobremesa e um empregado, de forma prática e despachada, sem qualquer categoria para estar a atender, disse "tire com a mão que não há talheres"! O café final era uma espécie de fraco produto tipo café de hotel e não expresso. Por 25 euros no teatro nacional de S. Carlos espera-se que haja algumas condições. Vou voltar ao teatro para mais uma Walküre mas não repito o buffet, para mim foi bola preta.

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23.2.07

A pressão da nulidade 

A pressão para a nulidade, ou como quem diz, popularidade, chegou para durar aos jornais ditos de referência, mesmo antes dos formatos copiados uns dos outros e todos do Guardian.

Leio um artigo sobre os perigos de Wagner ao volante! Brilhante tema, editores aos pulos de satisfação, popularização do assunto, mistura de pop com rock e Wagner! O sonho de qualquer editor de cultura, nulo e sem vergonha, dos dias de hoje. Eu até imagino o estado de espírito d@ (temos de meter aqui uma coisa politicamente correcta como esta moda do @ para género que não se sabe bem qual é, independemente de não existir em português) pobre de espírito: "é pá! vagner, kum kamandro pá, sto é chato pá, difícil stás a topar, alta koltura pá, não sei so leitor médio consegue aguentar kom eça coisa meu, eu nãn sei nada diço pá, á coisas que fogem hà minha comprenção de editor de koltura médio pá, i se meteçe-mos umas mer das-se aki pràligeirar a koisa meu? tipo umas coisas pop, meu. trivialisáva-mos a coisa pá, tipu embalagem pop meu, com un embrulho pop o povo que lê este paskim talvez já compreendê-se o tal do vagner mais as gordas das valkundias pá que iço dalta coltura é xata pá..."
Nota: Peço desculpa ao anarca pelo roubo do formato linguístico, aliás não percebo como o anarca ainda não é editor de koltura de um jornal de referência. Fica aqui a sugestão.

Não há grande novidade, quem gosta de Wagner há muitos anos sabe desses perigos, os meus amigos sabem desse perigo, sempre que venho a ouvir Wagner a minha condução torna-se ainda mais perigosa do que o costume e o passeio torna-se uma viagem alucinada pelos labirintos oníricos da loucura. Podiam entrevistar-me e eu dizia: "Sinto isso há uns anos, é horrível, estou a pensar visitar os wagnerófilos anónimos. A coisa está a dar cabo de mim, já dei cabo do MGA e do Aston, acabei com o mini de 73. Até o velho Land Rover de 1955, que não passa dos 60 à hora e que não tem rádio, está perigoso desde que inventaram o iPOD. Tenho vertigens, mas o pior nem é a cavalgada, que eu sou muito erudito e aquilo até é só fogo de vista, ou de ouvido, o pior são as Filhas do Reno, muito mau é também o Beckmesser, todo o Rienzi (pela seca interminável leva a estados de desespero), já o Parsifal tem um efeito calmante que adormece ao volante. É claro que os acidentes que se têm tido dependem das interpretações, pela OSP é costume haver ataques de hilariedade e os acidentes são menores, mas quando é o Kna ou o Böhm até já se partem pernas. Os duetos da Nilsson e do Vickers podem ter consequências muito graves e a morte de Isolda ou o Adeus de Wotan têm causado inúmeros acidentes e engarrafamentos na segunda circular."

Segundo o "O Público", existem umas sugestões da cavalgada das Valquírias no primeiro acto da Valquíria!!! Ena, ena! Está-se sempre a aprender.
Explico, não é um cheirinho da cavalgada, é mesmo o Leitmotif íntegro e pujante da cavalgada, e não é no primeiro acto, é no segundo.
O início do segundo acto da Valquíria inclui com tremenda afirmação o tema da cavalgada, em força e mais violento (e aqui há violência, não há que ter medo das palavras) e mais afirmativo do que no início do terceiro acto.

Quem escreve uma coisa dessas nunca deve ter ouvido a Walküre com ouvidos de ouvir e uma paixão sem limites pela música de Wagner.

O resto do artigo deve ser igual, não vale a pena continuar a ler. Já tenho vergonha de andar com o "O Público" debaixo do braço. Eu, que os meus amigos até acham que sou uma espécie de intelectual (não sei bem qual), acho bem mais digno e instrutivo ler o Correio da Manhã. Pelo menos não engana e é um produto bem feito por bons profissionais.

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