
26.3.10
Niobe
Niobe no S. Carlos: Deprimente, soturno, penoso. Menos de 250 pessoas na sala, número oficial. Próximo Domingo (récita sem assinatura) estão previstas menos de 60 (cada lugar ocupado deve ficar ao Estado mais de 1800 euros)! Confesso que se percebe este desfasamento do público. Eu cumpri a minha penitência da quaresma, talvez de dez quaresmas...
O "Intermezzo" foi simplesmente lamentável, Stockhausen com 23 anos já compunha obras menos datadas do que aquela porcaria...
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19.4.09
Parabéns a Mário Vieira de Carvalho Uma carta recebida por leitor identificado!
Sr. Crítico dos Crítico, condeno o seu blogue por dizer mal do sr. professor doutor académico Mário de Veira de Carvalho e venho escrever-lhe pedindo que coloque no seu blogue este email.
"assinado e tal e tal"
A propósito desta Agrippina no S. Carlos endereço daqui os meus cumprimentos a Mário Vieira de Carvalho, pelo contributo do ex-secretário de Estado da cultura na actual situação do Teatro Nacional de S. Carlos pondo na rua um director pouco presente e pouco competente, pouco esforçado e mau profissional: Paolo Pinamoni, substituindo-o por esta luminária da cultura europeia que é Christoph Dammann.
Mário Vieira de Carvalho depois da obra que fez, amplamente reconhecida, ainda se dá ao luxo, incomoda-se e dá-se à canseira de botar bitaites e recados e de andar a escrever nos jornais e mandar emails. É preciso ter coragem, força de carácter, perseverança e energia pela causa pública. É obra!
Entretanto Mário Vieira de Carvalho desdobra-se e faz queixas ao provedar da rádio pública queixando-se do actual director adjunto da Antena 2 na perspectiva de que uma rádio deve ser um repositório musicológico-hermenêutico. Gostava imenso de ter o privilégio de poder escutar uma rádio dirigida pelo senhor hermenêutica em pessoa. Porque não convidá-lo a dirigir a Antena 2 durante um mês? Pela experiência do S. Carlos creio que seria outra obra para ficar no orgulho nacional.
Finalmente deploro a actual direcção da rádio pública: multiplicar as transmissões em directo? Apoiar os artistas e músicos portugueses em concertos e mais concertos? Subir as audiências no primeiro trimestre de 2009 para o maior valor de sempre da rádio clássica? Horror dos horrores isso é popularizar a rádio, banalizá-la, destruir a sua herança... O ideal era ter uma rádio académica-musicológico-hermenêutica em que todo o dia se enaltecessem as virtudes musicológicas de Mário Vieira de Carvalho e os méritos da demissão de Paolo Pinamonti e as excelsas virtudes de Christophe Dammann à frente do Teatro de S. Carlos. Proponho mesmo que João Almeida seja demitido e a Antena 2 se passe a chamar "Rádio Hermenêutica, a verdadeira rádio académico-musicológica".
A Mário Vieira de Carvalho, a esse especialista em rádio, a esse inato director de teatros de ópera, a esse polemista excelso, ficam os meus sinceros parabéns!
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31.7.08
Depois de Jericó o artístico Dammann
Constato sem surpresa a repetição de erros de palmatória. Se antes havia a desculpa de o novel director artístico Christoph Dammann ter sido nomeado pelo doutor Vieira de Carvalho e pela doutora Pires de Lima e de parte da concepção ser ainda de Pinamonti, ficamos agora a saber que afinal os erros eram mesmo deste artístico Dammann.
Quando regressar em força ao blogue, e à actividade crítica, depois do périplo por Bayreuth que se segue a este Médio Oriente esgotante mas mágico (o regresso total será pelos idos de Setembro) espero poder ter tempo para apontar com detalhe e de forma exaustiva os erros de Dammann.
Entretanto Portugal visto daqui, do Monte das Oliveiras parece-me tão distante. Vou mas é dar um pulo ao American Colony onde me espera um narguilé que eu sei que não existe...
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19.5.08
Kumba à Academia
Penso que a nossa Academia das Ciências, sob a direcção excelsa de Adriano Moreira, é algo conservadora na admissão de novos sócios correspondentes. A recente nomeação de Mário Vieira de Carvalho (a par de Fernando Henrique Cardoso), leva-me, numa reflexão profunda, sem qualquer malícia ou comparação descabida, a propor a contratação para sócio correspondente desse grande filósofo da lusofonia (ou talvez mesmo como sócio honorário a par de Mário Soares) que dá pelo nome de Doutor Kumba Ialá, um antigo presidente soberano da Guiné Bissau eleito democraticamente e deposto em golpe de estado, que escreveu um tão belo e claro livro de pensamentos filosóficos, onde destaco a citação:
«A beleza de uma mulher elegante, é a atrapalhação do cabrão do macaco da Indochina!»
[Doutor Kumba Yalá, Os Pensamentos Políticos e Filosóficos, Bissau, Editora Escolar, 2003, p.51]
Note-se vírgula que obnubila a pontuação saramaguiana, essoutra luminária académica ornada com o Nobél da Academia Sueca. Kumba pode não ter sido ornado com a Academia Sueca mas joga muito bem à dita e é um intelectual de grande fôlego e rasgo, capaz de raciocínios hermenêuticos que deixam a anos-luz os hermeneutas nacionais.
O homem é formado em teologia, e segundo a wikipédia: Ele estudou Teologia na Universidade Católica Portuguesa de Lisboa e em seguida estudou filosofia. Em Bissau, Ialá estudou Direito. Ele fala português, crioulo, espanhol, francês e inglês e pode ler em latim, grego e hebraico [!!!]. Após completar seus estudos, ele trabalhou como professor de Filosofia. Creio que depois dessa grande obra da Academia que é esse magnífico e excelso Acordo Ortográfico, só mesmo Kumba Ialá pode prestigiar a Academia de Lisboa...
Segue um soneto de Bocage:
De insípida sessão no inútil dia
Juntou-se do Parnaso a galegage;
Em frase hirsuta, em gótica linguage,
Belmiro um ditirambo principia.
Taful que o português não lhe entendia,
Nem ao resto da cômica salsage,
Saca o soneto que lhe fez Bocage,
E conheceu-se nele a Academia.
Dos sócios o pior silvou qual cobra,
Desatou-se em trovões, desfez-se em raios,
Dando ao triste Bocage o que lhe sobra.
Fez na calúnia vil cruéis ensaios,
E jaz com grandes créditos a obra
Entre mãos de marujos e lacaios.
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13.2.08
As escolhas de Sócrates Pinto de Sousa
A primeira diz que se tratou de um engano, o ministro a escolher seria António Pinto Ribeiro, que esteve na Culturgest e que está ligado actualmente à Gulbenkian. Programou o "Estado do Mundo", que comemorou os cinquenta anos da Fundação, aliás de forma muitíssimo conseguida. Uma troca telefónica teria passado o convite ao advogado ligado a causas de direitos dos cidadãos. Depois de aceite o convite a situação seria demasiado escabrosa para Pinto de Sousa voltar atrás... Enfim, se não é verdade, este boato será assassino.
A segunda ouvi hoje numa reunião, aqui no Técnico, a dois colegas que estiveram na estreia da ópera de Emmanuel Nunes, "Das Märchen, um saiu e outro resistiu. Perguntou-me o colega que resistiu:
- Ficaste até ao fim?
Eu, respondi que sim, que apesar de cruelmente torturado tive de ficar. Ele respondeu:
- Então eras candidato a ministro, parece que a escolha recaiu sobre os que conseguiram resisitir até ao fim. Um leque muito restrito de pessoas. Felizmente nem tu nem eu fomos escolhidos. O tal Pinto Ribeiro também parece que resistiu, o próprio Vieira de Carvalho saiu a meio da transmissão em directo para Faro, o que contribuiu para a rápida demissão.
Eu acrescentei:
- Ainda bem que tivemos sorte.
Estes boatos, ou anedotas, demonstram a falta de ligação deste ministro à área da cultura. Talvez seja uma vantagem, ao menos Pinto Ribeiro conhece os direitos dos cidadãos, o que talvez o afaste de políticas de caserna de cariz estalinista dos anteriores titulares.
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29.1.08
O Milhão de euros de Das Märchen
Eu teria outras prioridades, teria feito uma encomenda menor, teria limitado os recursos disponíveis à priori. O S. Carlos dirigido por Pinamonti, a Gulbenkian e a Casa da música não o fizeram à partida. Creio que Pinamonti, por conversas tidas, não alinhava na megalomania de Nunes e que restrigiria fortemente o orçamento da produção, num equilíbrio muito sensato daquilo que deve ser a gestão artística na medição do criador com o público receptor e pagante. Esta arte não é apenas uma pura concepção radical: é paga com dinheiro do contribuinte. A ópera de Nunes não é uma lata cheia de "Merda d'Artista" paga às custas do autor ou um urinol de Duchamps que custou meia dúzia de dólares na loja de ferragens da esquina. Não é constituída por uns minutos de silêncio que custaram zero ao criador. Além disso estas obras não chateiam nada e Das Märchen...
É evidente que um compositor sem provas dadas no domínio operático teria de ser objecto de um escrutínio. Brahms um compositor de génio nunca compôs ópera. Existem géneros inacessíveis aos criadores de áreas afins, na poesia há quem consiga escrever sonetos de improviso e quem nem sequer se aproxime do género.
Não estamos a falar de uma encomenda a um jovem, uma oportunidade merecida. Estamos a falar de um compositor de 67 anos consagrado que nunca escreveu ópera. Se tivesse dez óperas no currículo, se tivesse ensaiado o género por si, sem a almofada do Estado Português, será que alguma vez teria arriscado?
Creio que existe um grande erro de base no contrato inicial, deixar Nunes em rédea livre com o seu ego redundou num desastre. Pinamonti cometeu o erro crasso de se levar nas cantigas de encomendar uma ópera a Nunes. Depois foi devorado pela serpente.
Mas voltando ao assunto base: o milhão de euros (não acredito que seja tão pouco mas...), é mal gasto porque gasto sem mecanismos de gestão artística coerentes e não assegurando o interesse de quem encomenda. No fundo o Estado, acautelando apenas o ego do artista, e sem probidade malbaratou este dinheiro. Se Pinamonti tivesse ficado no lugar a coisa teria sido muito diferente, estou em crer. Entretanto a gestão autista deste secretário hermenêutico transformou o que poderia ser algo interessante num projecto mastodôntico e rotundamente falhado.
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28.1.08
Das Märchen - Intelectual ou Intestinal?
Sobre obra de arte tem-se escrito muito, tem-se afirmado que se "é obra de arte não se pode criticar", "não se entende à primeira", é "preciso dar tempo", "quem somos nós para falar do génio?", "mesmo que a obra do Nunes seja uma seca ele é um génio".
Concordo em abstracto com essa efabulação de que aquilo é... uma obra de arte. É tão evidente que não vou contestar ou refutar o óbvio, Das Märchen parece ser, sem sombra de dúvidas, uma obra de arte. A sentença de que não se pode criticar uma obra de arte musical logo depois de a escutar pela primeira vez, escutar com atenção, note-se, mesmo que se percebam os referentes e os conteúdos da obra, já é outra coisa.
O Urinol de Duchamps será passível de critica logo depois de observado? Ou será que "Merda d'Artista" de Piero Manzoni é um conceito à prova de crítica logo depois da lata aberta? Nunes está nos antípodas destas provocações, mas não será a sua obra também uma provocação profunda? Será que o próprio acredita na obra? À partida eu diria que sim ou que o autor se andava a enganar a ele próprio e aos outros. Infelizmente, parece que a obra é para ser tomada a sério: pelas entrevistas e pelo trabalho que lhe dedicou, a "ópera" Das Märchen não tem uma ponta de provocação nem de auto ironia. Aquilo pretende ser um marco na sequência, diz Nunes, de "Berg, Wagner ou Debussy"...
Evidentemente que todas as obras referenciadas, provocações ou não, são obras de arte. Mesmo nos casos extremos a comunidade aceitou-as como peças de arte e devotou a duas destas obras extensos ensaios, quer em termos estritamente artísticos, quer em termos filosóficos, num esforço hermenêutico profundo e sério. A sociologia e a teoria da estética devotam longas perorações a obras como Merda d'Artista ou ao tal urinol de Duchamps... mas estamos nas artes plásticas, na música apenas Cage se aproximou deste nível de apropriação e de provocação, no entanto as provocações de Cage ganharam estatuto de consagração e acabaram por entrar no panteão. Sobre o Duchamps e o seu Urinol sempre vamos tendo o Pinoncelli de marreta em punho!
Será que os simples ouvintes, pobres diabos que não estudaram, não podem ter opinião sobre Das Märchen? Parece que não: foram proibidos pelos exegetas e proibicionistas do politicamente correcto da estética, pelas estátuas de bronze de bonzos que chiam nos gonzos. É evidente que os críticos não podem discorrer sobre a mesma obra, pela simples razão de que não estudaram o Nunes a compor a sua obra e não são capazes de a perceber. Aliás, ninguém é capaz de a perceber, só o Nunes que é um génio. Raciocínio brilhante o destes bonzos. Mas como eu não obedeço a bonzos, mesmo que chiem nos gonzos...
É necessário dizer que, simplificando um pouco as coisas, a arte sofre uma clivagem: a) ou tudo é possível, e toda a "Merda d'Artista" se aceita como acto criador, no fundo a essência do pós-moderno, algo que se aceita nas artes plásticas ou até na música: Duarte Rocha e a Sinfonia dos Brinquedos é um exemplo. b) Arte profundamente técnica, altamente intelectualizada, para consumidores eleitos, levada ao limite da formalização e oscilando entre regras tradicionais profundamente enraizadas e dominadas com rigor (simplificademante penso aqui em Alexandre Delgado no nosso meio) ou as técnicas ditas "novas", uma espécie de novo academismo, cujo pecado original, ou acorde germinal, diria eu parafraseando o Augusto Seabra e lembrando uma conferência do António Pinho Vargas, é, basicamente, a insegurança de Schönberg, que resolveu provar que a sua nova técnica de composição também obedecia a regras e a princípios teorizáveis e enquadráveis numa complexidade que, aliás, é apenas aparente a quem não domina os fundamentos. O apogeu desta forma de ver a música dá-se, a meu ver, com o serialismo integral (que entretanto foi morrendo em estertores mais ou menos fortes) e com a visão de serializar tudo, de enquadrar nas oitavas as durações, os timbres, de amaldiçoar a liberdade criadora num espartilho infernal de regras, de dividir logaritmicamente os sons em todos os seus parâmetros, dissecar as sucessões harmónicas, estabelecer paralelos entre a oitava de doze sons e tudo o resto, usando como fundamento teórico o conceito de divisão da escala, logaritmicamente, em doze sons temperados por igual. Esquecendo imediatamente todas as outras subdivisões possíveis e as possibilidades infinitas de explorar um espectro contínuo, que levaria à dissolução de todas as regras seriais, de todas as escalas e de todas as classificações que passariam a ser, por definição, infinitas. Foi criado assim na música ocidental dita intelectual e culta, um conjunto de regras de ligação e de encadeamento que bastaria aplicar, cegamente, para obter uma "obra de arte". É assim que em 1955 Stockhausen cria Gruppen para três orquestras. É assim que Boulez baseado em ideias de Messian cria os seus serialismos, que abandona posteriormente e que se vão mantendo sob forma de resquícios na sua música e na de outros compositores.
Felizmente a arte pode manifestar-se apesar dos espartilhos (lembrar como Bach apesar da numeralogia, ou talvez por esta, cria obras de uma beleza transbordante e de uma força eterna - v.g. fuga BWV 552) e Gruppen para três orquestras é um conceito maravilhoso à beira de um abismo e resulta como uma obra prima geratriz de um novo modo de pensar e criar, talvez o seu génio esteja mesmo no seu espartilho numa simbiose que nesse momento foi fecunda no compositor. Permitiu a Stockhausen balizar-se nesse momento. Aos outros, estas regras foram sendo muito difíceis de apreender, porque quase sempre mal explicadas pelo compositor-demiurgo e, porque, é necessário explicar, os outros não estudaram a matemática necessária (que até é elementar) à sua apreensão. O que se passou no IRCAM (Institut de Recherche et Coordination Acoustique/Musique) sob a tutela estética de Boulez chegou a ser mais pesado pelo nevoeiro plúmbeo de um neo-academismo recheado de formalismos onde que prende o candidato a compositor numa teia de "ismos" que o castram e o formatam em modelos composicionais complexos que resultaram (e talvez ainda resultem v.g. Pedro Amaral) num tipo de obra: uma composição intelectual, pensada, profunda, cheia de um manancial matemático (elementar) de simetrias, de séries de tons, de células, de durações, de jogos simbólicos com os timbres, de jogos entre suspensões, alturas, timbres e dinâmicas.
Infelizmente muitas das criações saídas do IRCAM (e não penso sequer em compositores portugueses), apesar destes rótulos Intelectuais, acabam por ser Intestinais, (aqui não confundir com visceral porque visceral foi o Scelsi).
Existem, hoje em dia, várias ilhas separadas por fossos profundos: o público que pouco domina destes conceitos, os compositores destas escolas, que pouco sabem de matemática (que não é a sua área de formação mas que deveria ser profundamente estudada, "La musique, une pratique cachée de l'arithmétique" de Leibnitz, v.g. Mersenne, Helmholtz, John William Strutt, etc etc etc) e que a olham num registo quase transcendente mas que está ao nível da mera codificação e permutação e algumas operações elementares e, finalmente, dos cientistas, dos matemáticos e dos acústicos que mexem nas chamadas "electrónicas em tempo real" ou noutras "coisas complicadas" ditas com um ar mais ou menos esotérico pelos locutores da Antena 2.
É evidente que os matemáticos ou não percebem nada de música e ficam de lado ou percebem um pouco e riem-se das efabulações científicas destas teorizações, muitas vezes ao nível de uma espécie de alquimia revestida de uma aparência cientificante. Os matemáticos e os outros cientistas em geral não se dão ao trabalho de desmontar todas estas teorias científico-exotérico-complexificantes que permitem estreias mundias, teses de doutoramento, bolsas e mais bolsas e muitas novas técnicas, muito próprias e pessoais, algumas vezes consideradas quase secretas, de composição (poderia citar aqui, mas não o faço, dois exemplos de compositores que me disseram que tinham a sua própria técnica, "nova", de composição mas que não podiam revelar como era!...). O exemplo de outsider de Xenakis caiu também na tentação de utilizar os tais conceitos matemáticos, como era engenheiro e Politécnico (especialista em betão armado) tinha um olho em terra de cegos e foi deificado por uma turba de seguidores. As suas teorias não são tão elementares no conceito matemático como as de Boulez e de Stockhausen no anos cinquenta e sessenta mas creio que isso não lhe trouxe melhores ou piores obras por isso.
As técnicas usadas por Emmanuel Nunes radicam nestes anos cinquenta e sessenta: sucessões, relações cíclicas entre os sons, estruturas harmónicas de base, decomposições em harmónicos (simples consequência da teoria das séries de Fourier) que depois servem de núcleos germinais, permutações, retroversões, inversões. No fundo o Emmanuel Nunes de hoje parece estar ainda nos anos cinquenta e sessenta. Na sua Das Märchen consigo observar gestos seriais (evidentemente muito distantes das concepções originais dos seus patronos), vejo-as transpostas a recorrerem, sinto que os acordes e os "clusters" se repetem sistematicamente, sei que a obra é fechada (cabe toda dentro da partitura sem capacidade para renovação a cada interpretação). Parece-me que compreendi como se constrói uma obra intelectual deste tipo... É evidente que precisava de ouvir mais vezes, que ter a partitura na mão, de estudar, para poder acrescentar mais profundidade a estas simples linhas dispersas. Mas não estou com pachorra para o investimento, primeiro: não tenho (nem quero ter) acesso à partitura, segundo: não tenho pachorra para ouvir aquilo na íntegra nem mais uma vez. Já senti, à náusea, a repetição exaustiva do mesmo material, manipulado computacionalmente, repetido friamente e sem emoção. Sinto o corte e costura marcado nos ouvidos e ressoando no cérebro. Sinto a artificialidade sem vontade, sem nada para dizer, criando efeitos e mais efeitos, fazendo chocar permutações. Os grandes meios que Nunes utiliza em Das Märchen apenas lhe permitem a multiplicação de meios de recombinar o material, de meter mais contrafagotes e clarinetes contrabaixos em notas amplificadas pela aparelhagem do IRCAM (uma mesa de mistura, amplificador e colunas...), num cliché insuportável e repetitivo, sem a menor contenção, numa tal violência sonora que se torna óbvio que nada há a dizer. O jogo instrumental é quase infinito mas o efeito é sempre o mesmo, frio, artificial.
Uma música que me suga a vontade, a força, que me deprime e me deixa doente. Uma música que me retira as energias e cria uma profunda descrença no mundo, me deixa infeliz, uma música sem amor. Eu sei que estas linhas são subjectivas mas não quero deixar de partilhar aqui o que sinto ao escutar esta coisa/ópera.
Quando leio Bach e o escuto sinto as raras vezes que utiliza as notas profundas do ré grave para baixo, que quando são enunciadas têm significado retórico tão intenso que levam o ouvinte a estados profundos de emoção e interioridade (por exemplo na Paixão segundo S. Mateus a raridade do dó grave que, quando surge, é esmagadora v.g. coro final). Em Bach o significado da contenção e o efeito que a sua ruptura ocasional pode criar é máximo. Bach é púdico na utilização dos grandes meios. O próprio Wagner é púdico na exploração das grandes massas e dos grandes efeitos, ele, como ninguém na sua desmesura genial, percebia o efeito da tensão criada com poucos meios e a forma de ir acrescentando poder ao discurso recorrendo a sábias e contidas aplicações das grandes forças, v.g. Cavalgada onde a orquestra vai sendo aumentada até ao clímax final que depois, pouco a pouco, se distende, v.g. Coro dos peregrinos do Tännhauser, que cresce e decresce até à dissolução, etc, etc,etc.
Em Nunes nada disto existe, Nunes é desmesurado no gratuito da massa e do volume, é desmesurado no grave bizarro e no agudo estridente, desmesurado até ao despudor, flautins em agudíssimo sobre contrafagotes e clarinete contrabaixo amplificados, quatro horas... o jogo formal existe, a permutação, o acorde fundador, o tentar imitar e citar Wagner nas ideias cénicas (tão óbvio que nem cito: ouro, rio, fogos mágicos, etc...) e também no acorde germinal (v.g. o acorde germinal do Ouro do Reno). A nota grave que contém toda a obra! Tão profundamente grave que encerra todas as notas no espectro audível dos seus harmónicos e gera o cluster que depois será explorado em múltiplas recombinações gerando toda a obra. E, de caminho, massacrando o ouvinte até à exaustão. Lindo conceptualmente (mas simples porque se a nota for suficientemente grave e produzida por um instrumento de sopro cónico contém trivialmente todas as outras nos seus harmónicos audíveis) mas não funciona na prática.
Creio que o grande equívoco é ver Das Märchen como uma obra monolítica em estado bruto: uma partitura megalítica e um ponto no espaço e no tempo, um ponto de quatro horas de música, uma obra de arte e ponto. Mas aquilo não é suposto ser uma ópera?! Ópera é teatro em música. Pode ser mais, pode até ser menos (v.g. Neither de Morton Feldman) mas não é, certamente, apenas uma partitura. Mas, mesmo como partitura e não como teatro, Das Märchen é mais música para ser vista (lida e estudada em pauta) e não para ser escutada, porque é incapaz de se transmitir numa recepção clássica que não seja para iniciados (eu diria profissionais) nos conceitos e nas técnicas do compositor e, mesmo assim, numa perspectiva cerebral.
Das Märchen emerge como um objecto intelectual que esquece a emoção: um exercício de técnica composicional. Para mim é uma profunda desilusão, desprovida de ligação ao real, desprovida de elementos do sensorial. Uma combinação orquestral (e apenas orquestral) de sons, mais ou menos, laboriosamente juntos. É evidente que existem momentos de grande beleza, sobretudo no segundo acto, texturas complexas nas cordas, logo após o início, e pouco antes do início do inenarrável e "exasperante" (como eu concordo com o Seabra neste ponto) postlúdio, mais uma vez, repetitivo ad nauseam. Para mim existem uns bons 15 minutos aproveitáveis em toda a ópera, o que não é dispiciendo... Existem no seu interior muitas obras fragmentárias que poderiam dar peças musicais variadas de curta duração, esteticamente pouco inovadoras, repetitivas, mas nunca uma ópera enquanto obra de arte total, algo que falha estrondosamente. Sim, Das Märchen é uma obra de arte, nunca será uma obra de arte total, e se uma é fraca a outra é inexistente, por falta de domínio do autor dos mecanismos complexos do que é o objecto cénico. É evidente que uma belíssima encenação, não a presente, poderia tornar o embrulho um pouco menos horrendo, mas os pecados teatrais são seminais: O Conto não é uma obra de arte total. Se no meio da sua megalomania o compositor tivesse entregue o libretto e a concepção dramatúrgica a um um bom escritor com domínio teatral, em vez de tentar armar-se em Wagner, produzindo um texto incoerente e incompreensível, talvez a obra padecesse de menos erros básicos, mas o facto concreto é que não o fez e o desastre foi o resultado.
Depois destes considerandos muito breves há que ver o aspecto da escrita vocal, tortuosa, sem prosódia, mal escrita tecnicamente, incantável, violentíssima para os cantores perdidos nos sobreagudos das sopranos, sem capacidade de compreensão. Toda a ópera parece escrita na língua incompreensível dos tais fogos-fátuos e não no belíssimo alemão de Goehte. Se juntarmos a isto a escrita inacreditável para o coro, muitas vezes em linhas paralelas saídas do computador (que isso de pena já era) do "génio". Será que o Emmanuel Nunes escreveu a linha do coro para os meninos da escola primária? Apesar de fraquíssimo o Coro do S. Carlos talvez conseguisse cantar algo ligeiramente mais sofisticado. Dá a impressão que escreveu aquilo "a despachar" para ter a coisa pronta a tempo da estreia ou que, então, não domina sequer a arte de escrever para voz. Creio que este será o pior ponto desta "ópera".
Finalmente Nunes não tem a menor noção do teatro: para Nunes apenas conta a sua ideia criadora de um objecto intelectual, Nunes está acima da prosódia, do teatro, do público, nada disso interessa, o rio não flui, a tristeza de Lilia não transparece, a alegria do desfecho não se vislumbra, o bailado não tem ritmo, a mesma cama informe de sons, geralmente num volume violento e sem contenção, desliza ao longo de toda a obra. Nunes não usa o ritmo, acontecem coisas na orquestra e nas vozes mas o que transparece é um estatismo absoluto.
Para Nunes o que interessa é a partitura. A obra de arte está acima do receptor que, sem capacidade para o entender, é desprezado e escorraçado. Assim aconteceu em todo o país com o tremendo fracasso da transmissão para os cine-teatros que viu o público a fugir em debandada e a jurar a pés juntos que "ópera como esta nunca mais". Emmanuel Nunes e o hermenêutico Secretário de Estado mais o Christophe Dammann erigiram este monumento ao autismo artístico e político.
Saber se o libreto faz o menor sentido, se o texto se compreende, se a orquestra tapa o canto e o discurso, não interessa. O que interessa é a tal "obra de arte" na senda de "Berg, Wagner e Debussy". Realmente a modéstia não falta a Emmanuel Nunes.
É verdade que Nunes tem obras de rasgo, no meu entender sempre ao nível instrumental puro. É mentira que eu tenha dito que esperava uma grande "porcaria" desta ópera, como já li. Espero que quem diz isso mostre os textos onde escrevi isso antes de escutar esta obra.
Esperei, sem grande entusiasmo, uma primeira ópera de um compositor que, para mim, é estimável. Ouvi com enorme paciência e concentração e fui brindado com uma tortura incessante. Creio ter compreendido os mecanismos da obra na medida das minhas capacidades e da minha resistência física e psicológica. Tecnicamente considero esta obra deficiente nos aspectos cénicos, na escrita vocal, na prosódia e no libreto.
Musicalmente a partitura de Nunes é um jogo formal de combinação e recombinação, de efeitos e de clichés, repetitiva e sem renovação ou capacidade de intrigar, surpreender, de criar tensões nos pontos chave, de encantar. Uma construção retorcida, longe da realidade, de um homem desmesurado, megalómano e narcisista. Uma obra que procura o igual do artista, aquele que domina a sua linguagem. Caberá ao crítico, amador como eu, criticar esta obra? Estou, felizmente, fora do meio musical e dou-me ao luxo de dizer o que penso. Quem me quiser ler pode fazê-lo, eu não o aconselho nem peço que venham aqui. Ler um bom livro ou ouvir boa música é algo muito mais meritório do que estar aqui, a mortificar-se, a ler as minhas gralhas e estes textos escritos ao sabor do pensamento. No fundo estas reflexões servem de meu diário. Um dia voltarei a ler estes textos e vou divertir-me com aquilo que pensava há uns anos atrás. Talvez até mude de opinião, o que será normal.
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27.1.08
Das Märchen: O desastre
Repetição à exaustão de clichés e de efeitos sonoros explorados ad nauseam, utilização sistemática das mesmas fórmulas, sem a menor originalidade ou capacidade de ruptura.
Absoluta incapacidade de comunicar com o objecto receptor da obra.
Ausência da menor noção de dramaturgia e de fluxo dramático.
Ausência da noção da prosódia, não há a menor relação entre a música, o texto e a encenação.
Falta de capacidade de escrita para voz humana, repetição massacrante de sobreagudos nas vozes femininas, numa nota sustentada em sobreagudo "resolvida" por notas descendentes rápidas para logo regressar ao mesmo ponto de "tensão" eu diria de exaustão.
Incapacidade de compreender o que representa em ópera a legibilidade do texto (tão cara a Wagner ou a Alban Berg). O texto é impossível de apreender se não lido, devido à inacreditável sobreposição de elementos, orquestra em fortíssimo e amplificada sobre a voz dos cantores e actores, e linha vocal tão distorcida que se perde completamente o sentido das palavras em alemão. Escutei sem olhar as legendas e não percebi nada do que os cantores cantavam, com a excepção da voz grave do homem da lâmpada. O defeito não é meu: uma habitante de Berlim não percebeu patavina do texto em alemão!
Volume sonoro intolerável e agressivo, quatro flautins em superfortíssimo no extremo agudo e amplificados foi mesmo um ponto de dor e deveria ser objecto de medição pelas autoridades. (ASAE onde andas tu quando és necessária)
Duração infinita da obra, simplesmente insuportável, sobretudo devido à mediocridade da música. A duração torna-se torturante e incapacitante de qualquer tolerância, a miséria musical da obra atingiu, em mim, a dor física e o vómito: no dia seguinte acordei com vómitos e dores horríveis nas articulações devido à tensão e ao sofrimento que a obra me causou. É, também, uma medida da megalomania e desmesura do compositor, Emmanuel Nunes, que não tem qualquer respeito pelo público a quem se destina aquilo que, supostamente, deveria ser teatro. Wagner escreveu obras bem mais curtas, o Siegfried e a Valquíria são mais curtas, o Crepúsculo anda pela mesma duração. Neste "Conto", Nunes atingiu quatro horas, os actos, dois, são intermináveis e insuportáveis. Na primeira obra operática atira-se para uma duração wagneriana, mas Wagner era um génio e Nunes está a anos luz.
Eu diria que esta obra abre novos parâmetros de autismo devido ao desfasamento total do compositor relativamente ao mundo real, o mundo do público, e à estética. A obra não é contemporânea no verdadeiro sentido, é uma obra formada de elementos oriundos dos anos cinquenta e sessenta do século XX, é uma obra sem rasgo, uma repetição sistemática de acordes e elementos seriais, uma obra sem forma, sem corpo e sem estrutura, uma obra autista e fechada, não transgressora, reaccionária. Uma desgraça que custou mais de um milhão de euros. Uma obra megalómana e mediocre que custou (entre outras coisas) o lugar a Pinamonti. Uma ofensa ao público e a quem paga impostos. Uma obra à qual se percebem os referentes, Boulez e Stockhausen, mas que nem de perto se aproxima. Onde está a luminosa e genial claridade e complexidade de Licht? Onde está a qualidade da música de Boulez? Não será em "Das Märchen", uma obra condenada a cair no esquecimento, uma primeira montagem e já está, é o meu vaticínio depois de sair desta estreia. Uma obra bem inferior às do Keil e do Machado.
Lamentáveis as críticas entretanto saídas nos jornais, sem se comprometerem, sem meterem as mãos na massa, são críticas empasteladas, viscosas, que serpenteando quais enguias, fogem descaradamente ao assunto. Uma chega ao ponto de afirmar: "Quem escreveu estas palavras foi Goethe (1749-1832), o autor do conto original em que se baseia a ópera Das Märchen, e uma das figuras centrais do primeiro romantismo alemão" (Pedro Bolèo no "O Público"). Romantismo alemão? Goethe? Não quererá dizer antes: classicismo de Weimar? Ainda se falássemos de Werther, mas Das Märchen não me parece uma obra do romantismo...
Por outro lado sairam da sala muito mais de metade das pessoas da assistência (número apontado pelo "O Público") que enchia o S. Carlos no início. Saíram pelo menos dois terços, com muita tolerância...
Enfim, estas são ideias gerais que me acompanharam nesta estreia. Serão desenvolvidas posteriormente. A composição mereceu da minha parte um seis (de zero a vinte) na Antena 2, onde a comentei no programa "Preto no Branco". Hoje, domingo, às 13h. Mas há ainda muito a dizer desta produção...
Zero de prazer na audição, seis na classificação da composição. Voltarei ao tema.
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11.12.07
Rigoletto no S. Carlos - A vergonha continua
Se ontem a coisa me soou horrenda, hoje, com a partitura na mão pude constatar in loco o assassinato à música do Verdi quase nota por nota. É evidente que nesta produção simplesmente abominável em termos musicais e cénicos há culpados. Na parte musical o principal culpado é sem a menor sombra de dúvida o director musical, um russo que chama Alexander Polianitchko. Acima dele o culpado só pode ser quem contratou um maestro sem qualquer capacidade para a direcção de ópera, sem experiência em ópera italiana e que nunca tinha dirigido um Rigoletto. O S. Carlos continua um teatro para experiências votadas ao fracasso, sendo o público a cobaia desta pouca vergonha e tendo como veículo o dinheiro dos nossos impostos.
Um director tecnicamente incompetente
O director em cima do pódium não sabe dirigir este Rigoletto, ponto. Não dá entradas claras, não tem tempos claros, não tem gestos compreensíveis, não acompanha os músicos, não lhes dá segurança: quando os cantores entram em devaneios de tempo não é capaz de clarificar, não tem a menor capacidade para impor tempo e ritmo, quer a cantores quer aos instrumentistas. Por consequência a orquestra anda constantemente atrás e à frente dos cantores, entra atrasada nos recitativos, não consegue sequer acompanhar a tempo e contratempo o canto. Por outro lado pretender falar em pathos, em desenho do som, em interpretação, no meio desta anedota, é impossível. Se a orquestra e cantores conseguem chegar ao fim com esta direcção é um feito de alto nível. Como falar de acentuação, de linha, de fraseado? É tudo um salve-se quem puder, dar as notas e já está. Este director tem uma postura feia em palco, de braços constantemente dobrados e fechado, curvado sobre uma partitura que não domina. Incapaz de traço, incapaz de definir e de recortar, incapaz de gesto amplo e claro, é uma caricatura má de um mau director de orquestra. Se o seu trabalho de ensaio fosse bom poderia compensar, mas tudo está descosido, empastelado e arrastado. Nota-se que não existe a menor coerência interpretativa.
Em termos técnicos está tudo dito: este maestro é incapaz para esta ópera.
Escolhas de tempos, o pior de Polianitchko
O Rigoletto é uma ópera sôfrega, é uma ópera agitada, é uma espiral que converge para um clímax, tem uma coerência lógica no seu romantismo exacerbado. Uma maldição, a maldição da pobreza, da deformidade, da doença, da maldade e do ressentimento, a maldição da "vendetta" que vai ocupando o espírito atormentado e tresloucado de um homem obsessivo. O Rigoletto, olhado para a partitura, é uma voragem, uma vertigem de música. Muita dela genial, de um nível absoluto. Verdi estava cansado de cantores a parar constantemente para exibir belas notas, a arrastar e atrasar para frases terminais. Nada disso acrescentava coerência e vida a um teatro, a um destino cénico inexorável: o cumprir da verdadeira maldição que paira sobre Rigoletto e sobre todos os desgraçados deste mundo, mesmo quando se vingam a vingança recai sempre sobre os próprios. A vertigem da música espelha-se nos tempos escritos na partitura e anotados com indicações metronómicas muito precisas. Allegro, allegreto, vivacissimo, agitatto, allegro vivo (138 ou 144), e até o moderato é num quaternário definido a 100 semínimas por minuto, o que pode ser bastante ofegante. O final do primeiro acto é a um tempo incrível de 100 mínimas por minuto.
A cena 4 do primeiro acto é, por exemplo, para ser feita num allegro a 120 e depois num allegro vivo a 138. A direcção do pseudo-maestro levou a coisa quase a metade do tempo resultando numa pastelada inenarrável que culminou com um allegro moderato assai "donna, questo fiore..."(96) a ser feito em tempo de adagio (!!!), sendo o piu mosso (138 e 120) feito a um tempo a rondar o andante tranquilo... Quando entramos no vivacissimo em C cortado (mínima=144), que coroa a 5ª cena e que deveria ser vertiginoso, com a despedida do Duque, parece que a vertigem congelou numa pacata marcha fúnebre sem carácter nem estilo, sem articulação ou respiração, sem acentuação ou ritmo. O final do primeiro acto é um paradigma do que afirmo, um allegro assai vivo quaternário (mínima=100), é feito a arrastar e com a articulação asmática e aflitiva a roçar o andante moderato. A raiva de Rigoletto ao ver que a filha não estava lá, e nesta encenação nunca poderia ter visto fosse o que fosse mas isso será para amanhã, era ao tempo de um andante moderato. As palavras mais suaves de que me lembro são incompetência, ignorância e insensibilidade.
Seria fastidioso enumerar todos os pontos onde a direcção errou de forma crassa nos tempos pedidos por Verdi, pela música e pelo sentido dramático. Polianitchko arrastou, parou, decaiu, morreu, puxou a música para trás, mesmo quando o sentido do canto e da melodia pediam mais e mais. O final do segundo acto foi igual ou pior ainda. Naquela procissão interminável, naquele engarrafamento de notas só me apetecia gritar (e gritei), tal foi o sufoco a que este incompetente sujeitou a música de Verdi. E o cúmulo foram as seis badaladas da meia noite?! Seis badaladas? Pergunta quem me lê. Sim, as seis badaladas da meia noite, na estreia e hoje, e na partitura vêm as seis notas na campana? Claro que não, estão lá escritinhas, umas atrás das outras, doze notas, e Verdi para evitar mal entendidos e "campanistas" míopes, colocou um visível "12" por cima do grupo. Foi o paradigma, tudo feito a metade do tempo e nem as desgraçadas badaladas da meia noite escaparam, reduzidas a metade que a malta espera demasiado tempo a ouvir as doze. Dramaturgicamente ridículo... como é possível esta m.?
Mandem vir o mestre da banda do Busseto que tenho a certeza que saberia dar muito maior força, cor e brilho à música sôfrega e palpitante de Verdi neste extraordinária ópera que se chama Rigoletto.
Comentário sobre a política de sujeitar cantores novos a maestros deste calibre
Tenho pena deste segundo elenco, tenho pena também de Chelsey Schill no primeiro elenco. Acho verdadeiramente vergonhoso sujeitar cantores inexperientes como Carla Caramujo, que até nem esteve mal em Gilda e parece ser promissora, a uma direcção destas. A insegurança, a falta de rumo, a ausência de qualquer indicação de estilo ou escola, a insensibilidade para o canto e as suas respirações, a incapacidade de gestão dos tempos e do rubato, a incapacidade e insensibilidade do director para os recitativos, sempre feitos sem a menor noção da palavra, a escolha arrastadíssima dos tempos, a complacência com excessos idiotas, como os de Pirgu na estreia a cantar do princípio ao fim em fortíssimo, sem qualquer nuance ou estilo, até a voz estalar nos agudos da "La donna...", podem levar ao destruir antecipado de carreiras que, com uma direcção competente e firme, poderiam atingir brilho e superar-se. Assim tivemos um grupo de jovens cantores aflitos para não falhar, sem saberem bem o que fazer. Um exemplo foram as inenarráveis cadências, feitas sem nexo nenhum, as cenas de conjunto, em que todos fugiam de todos, uns dos outros e dos instrumentos da orquestra, todos perdidos uns dos outros e todos a desafinar e longe de qualquer sentido estético, dramático ou musical (o espantoso quarteto no final, um dos mais belos exemplos do génio de Verdi nesta ópera, foi completamente e barbaramente destruído em ambos os dias pelo maestro e pelos cantores e resultou numa papa infame). É um erro enorme expor assim jovens artistas a uma direcção sem nível deste russo chamado Polianitchko. É um erro grave programar concertos da treta e dar aos jovens cantores árias difíceis e ingratas sob direcções canhestras. Acabem com as experiências no Teatro de S. Carlos!
Até um Renzetti provou ser muitíssimo mais capaz do que este bando de rapazes sem barba que agora bate a batuta por estas bandas, isto desde que o Sr. Hermenêutica se tornou no chefe da banda...
Um erro de casting que Christophe Dammann cometeu e que é imperdoável. O novo director artístico do S. Carlos não tem a menor sensibilidade para o que é dirigir um teatro como o nosso. Talvez por estar em part time e não se aperceber, talvez por não ter capacidade ou inteligência para mais, fica o benefício da dúvida.
Continua...
The worst of this performance of the Rigoletto in the S. Carlos Theater of Lisbon was the conductor - Alexander Polianitchko. A dreadful "director", with dragged tempi, imprecise, with bad gesture, musically insecure, with poor knowledge of Verdi and the score, not capable of reading the music or define a line, with poor rhythmic sense and no charisma.
To be continued...
Etiquetas: Alexander Polianitchko, Christoph Dammann, Crítica de Ópera, S. Carlos, Sr. Hermenêutica
10.12.07
Rigoletto no S. Carlos, o Horror
Certamente um dos piores Rigolettos de todos os tempos no S. Carlos, de onde regresso agora da estreia. O pior de tudo foi a direcção inacreditável de Alexander Polianitchko mas as vozes abomináveis, a orquestra inenarrável, o coro infernal, a interpretação péssima, a representação inexistente, a soma de erros crassos, tudo contribuiu para uma noite das mais negras de todos os tempos no Teatro de S. Carlos. Simplesmente horrível. Eu julgava que o mínimo já tinha sido atingido há muito tempo, enganei-me redondamente, a incompetência (tal como a estupidez) é insondável. Pior que isto no nosso teatro nacional, o teatro da capital da cimeira de Lisboa (ridículo não é?), só o Cura a dirigir a nona de Beethoven, mas em concerto, não em ópera.
A coisa é tão má que até na tradução surgem pérolas como "tesouro impagável" e não "tesouro sem preço", como se a Gilda fosse para seu pai um "tesouro impagável", eu sugiro a tradução "tesouro muita pândego"...
Amanhã vou ao segundo elenco, pior deve ser impossível, a esperança é a última a morrer, espero que os jovens cantores consigam superar um pouco tudo o que é péssimo nisto.
Uma crítica detalhada depois de amanhã, aqui neste blog.
Hoje houve pateada, fraca, mas já é um começo.
Stamping with the feet in Portugal after a scenic performance means that the show was horrific. The worst part was the conductor, Alexander Polianitchko. Unbelievable. More details next Wednesday here.
Note - hissing or booing is better for the performer, stamping with the feet is really bad in Portugal.
Etiquetas: Alexander Polianitchko, Rigoletto, S. Carlos, Sr. Hermenêutica, Stamping with the feet
15.11.07
Ordem e Caos - Razão e Emoção
Tenho sido acusado, justa ou injustamente, de escrever com demasiada paixão e, às vezes, sem razão. Vou tentar ser desapaixonado sobre um assunto que não pode deixar indiferentes em termos de razão e de emoção os portugueses amantes de música.
Começo pela Sinfónica Portuguesa. Esta orquestra tem uma história recente, recebe fundos do Estado Português de onde retira quase exclusivamente o seu orçamento. Tem também uma história de desconsideração enorme por parte dos poderes públicos, sem condições para ensaiar, sem meios, sem maestro titular desde a saída de Soltan Péskó que deixou aliás uma memória de péssima qualidade artística. Depois de outros maestros titulares sem a menor marca ou valor a orquestra está neste momento entregue aos bichos, sem uma política efectiva de gestão artística, que se arrasta com a contratação deste novo director artístico do teatro nacional de S. Carlos que tem a tutela da orquestra sinfónica portuguesa, e que trabalha em part time em Lisboa. O desleixo relativamente à OSP é tão grande que nem sequer um concertino principal (1º violino solista e chefe de naipe dos violinos) tem neste momento.
Não existe qualquer razão emocional que ligue os portugueses a esta orquestra dirigida inicialmente por Álvaro Cassuto. É considerada nacional e internacionalmente, muito justamente, como uma orquestra fraca e pouco empenhada.
Esta orquestra custa ao erário público português muitos milhões de euros, creio que só em vencimentos e reforços atinge os 3 milhões, importância mínima para uma verdadeira orquestra sinfónica e um desperdício neste caso. Dedica-se a fazer algumas óperas, cada vez menos, que necessitam de recursos muito menores do que o seu efectivo, ficando muitos músicos em casa. Faz ainda alguns concertos muito esporadicamente e em número muitíssimo menor que qualquer orquestra sinfónica nacional. Não tem uma temporada de concertos coerente. A sua qualidade é muito baixa e isso nota-se quando os maestros são também eles de qualidade muito baixa, como neste ano com um rapaz alemão do qual não me recordo o nome e com um José Cura em que se atingiu o nível da indigência musical num concerto pretensamente de "gala" e que foi mais um concerto de miséria. Uma orquestra incapaz de tocar as notas da nona de Beethoven apesar da falta de direcção de José Cura não pode ostentar o nome de orquestra. Orquestra significa organização, significa concerto de personalidades e de valências musicais artísticas, e o que temos com a OSP é uma desorganização, uma desestruturação orgânica, é um agrupamento em fase de disrupção. Hoje a OSP é desagregação, é falta de motivação. O desrespeito por parte da tutela da cultura leva à desculpabilização dos músicos pela falta de qualidade artística do seu trabalho e a um desinteresse de muitos dos músicos pelo seu trabalho e pela música.
Esquecem-se no entanto que a música e o respeito pelo público e por si próprios estão acima da real desvalorização do papel da orquestra por parte dos poderes públicos que até são tutelados por professores catedráticos e não apenas por jovens turcos carreiristas oriundos das juventudes partidárias...
Qual a solução para este problema? Penso que a solução é simples. A OSP não tem qualquer património, não criou afectos ou empatias com o público. Os concertos no CCB estão às moscas, apesar de chuvas copiosas de convites, mesmo quando dirigidos por maestros de qualidade que por vezes disfarçam a real dimensão do problema com uma semana de ensaios mais ou menos atribulados. Quando aparece uma "estrela" lá se vai ao concerto e este enche, devido ao nome da estrela e, em muitos casos, para tirar os vestidos da naftalina, isto acontece sobretudo no velho teatro. O público lá vai aquentando a orquestra para ter o prazer de escutar uns dós de peito do tenor ou uns sobreagudos da diva, que nisto do gosto lusitano que quanto mais berrar o tenor ou mais guinchar a diva mais palmas e bravos levam, e têm de ser agudos, que baixos e contraltos não têm nunca o mesmo sucesso em Portugal do que os seus comparsas que andam no arame das notas perigosas...
Por outro lado a esquizofrenia de uma orquestra sinfónica sem sede, sem espaço, sem director, que não se sabe se é de ópera ou sinfónica, leva a uma permanente indefinição.
Recordo o exemplo da Metropolitana de Lisboa, que sob a direcção de Michael Zilm e de outros bons maestros e a uma política inteligente e apaixonada de Gabriela Canavilhas, apesar da tradicional barragem de críticas que muitos "melómanos" e outros maldicentes lusos lhe levantam, tem levado a um aumento de qualidade efectivo desta orquestra e a um aumento real de qualidade.
Mas nada se faz sem cortar, sem doer, a metropolitana tem despedido músicos, alguns até com capacidades, mas que provaram ao longo do tempo ser incapazes de manter um nível elevado sabe-se lá porque razões.
Extinção da OSP, a única solução
É neste contexto que penso que a solução seria acabar com a OSP. A extinção desta orquestra é a única solução que vejo no horizonte. O plano seria muito simples, criar uma orquestra de ópera, com cerca 40 músicos abaixo do efectivo da actual, que se especializasse em ópera e, em menor escal, bailado. A simples razão de se fazer Wagner com menos 19 cordas do que o previsto na partitura "porque não cabem no fosso" é razão mais do que suficiente para pensar numa orquestra muito mais económica. Nas grandes produções em que é necessário uma orquestra grande, a nova "Orquestra do S. Carlos" seria reforçada com músicos pagos específicamente para a tarefa. Poupar-se-ia ao erário público muitos milhões de euros em vencimentos, contribuições, reformas e segurança social.
Na contratação de músicos para esta orquestra seria dada prioridade aos músicos da actual OSP que mostrassem qualidade para tocar. Quem seria o júri destas contratações? Seriam músicos de elevadíssimo padrão internacional a presidir ao júri, exemplo Rattle, Abbado, Haitink, Gardiner. Não haveria a menor ingerência do poder político nesta questão, nem delegados do Secretário de Estado nem membros nomeados pela OPART, ou por nomeação do director artístico. Pedir-se-ia ao maestro de nomeada, presidente dos júris, que decidisse dos diferentes avaliadores para avaliar os instrumentistas. Cada painel teria que ser formado por músicos de nacionalidades diferentes (para evitar enviesamentos estilísticos, regionais ou outros), este maestro nomearia os especialistas dos diversos instrumentos para fazer as avaliações para cada naipe. Esta orquestra teria reavaliações obrigatórias a cada três anos.
Teria de ser nomeado um director artístico presente e permanente. Este esquema permitiria poupar dinheiro em vencimentos de forma a pagar um vencimento decente ao director para atrair gente de qualidade elevada e não um simples Peskó (que mesmo assim ganhava 4000 euros por mês mesmo quando não punha cá os pés), ou mesmo um Ranzetti ou, pior, um destes rapazes saídos do conservatório que têm aparecido sem qualquer noção do que é gerir o tremendo caldeirão de personalidades que é uma orquestra. Os vencimentos dos músicos da orquestra seriam mais elevados do que os actuais em cerca de vinte por cento. Mesmo triplicando o vencimento do titular e pagando mais vinte por cento aos músicos da nova orquestra poupar-se-ia uma soma de cerca de quinhentos mil euros por ano, o suficiente para pagar uma renda de uma sede e pagar todos os extras e mais alguns, com um aumento extraordinário de qualidade.
O problema é que mesmo pagando o triplo, hoje, creio que não há nenhum maestro de craveira internacional que aceite vir dirigir a Sinfónica Portuguesa. É evidente que a nova orquestra da ópera do S. Carlos teria de ter uma política claríssima de procura da qualidade, a partir da sua criação, o que já poderia ser estimulante para um maestro de elevado nível. Noto que ao vencimento do titular acrescem sempre os cachets dos concertos e óperas que dirige, já o foi assim no tempo de Peskó...
O coro do S. Carlos seria refundado a partir do nada, já que o que
"existe" é menos que nada, com um juri internacional para o qual convidaria (para presidir) Eberhard Friedrich, para mim o melhor maestro de coro de ópera do mundo.
Primeiros Violinos: actual 19, nova orquestra 12: -7
Segundos Violinos: actual 17, nova orquestra 10: -7
Violas: actual 15, nova orquestra 8: -7
Violoncelos: actual 11, nova orquestra 6: -5
Contrabaixos: actual 9, nova orquestra 4: -5
Flautas: actual 4, nova orquestra 3: -1
Oboés: actual 4, nova orquestra 3: -1
Clarinetes: actual 4, nova orquestra 3: -1
Fagotes: actual 4, nova orquestra 3: -1
Trompas: actual 6, nova orquestra 3: -1
Trompetes: actual 4, nova orquestra 3: -1
Trombones: actual 4, nova orquestra 3: -1
Tuba: actual 1, nova orquestra seria extra: -1
Percussão: actual 4, nova orquestra 1 (só tímpanos): -3
Harpa: actual 1, nova orquestra seria extra: -1
Existem outros modelos, de forma ainda mais radical poder-se-iam reduzir as madeiras a pares ou, noutro sentido, poder-se-iam manter tuba e harpa. É evidente que aqui escrevo em abstracto, não tenho razões de queixa artísticas, quaisquer que sejam, dos instrumentistas em particular.
A esta nova orquestra seria dado o edifício da CNB como sede, que seria totalmente remodelado. O bailado seria transferido para outras instalações a construir de raiz na área envolvente do teatro Camões.
Portugal ficaria sem orquestra sinfónica nacional. Por enquanto sim. Quem questiona isto tem como resposta duas perguntas:
Será que Portugal tem uma Orquestra Sinfónica Nacional? Aquela que tem o nome de Orquestra Sinfónica Portuguesa é motivo para orgulho?
Dispenso-me de dar uma resposta.
Etiquetas: OPART, Orquestra Sinfónica Portuguesa, S. Carlos, São, Sr. Hermenêutica
3.11.07
Este governo...
A marca na cultura é nomeação continuada de personalidades de vulto com sentido crítico e espírito de iniciativa, e não lambe-botas acéfalos, para os mais variados lugares, e destaco dentre os nomeados pela bola de cristal de "Hermenêutica & Pires", essa bela dupla, o Henriques do museu de Arte Antiga, uma luminária do saber ocidental e capaz de juízos de valor independentes e profundos. Mas como já falei demasiado de cultura passo aos tais exemplos:
1. Carlos Araújo Alves dá notícias de uma conferência sobre ensino artístico organizada pelo governo onde não foram convidados artistas ou pedagogos ligados às artes! Apenas os serventuários e apaniguados do costume, ou serão as tais luminárias com sentido crítico e pensamento independente? Será que o Henriques do MNAA lá foi?
Os organizadores foram Cultura, Educação e Estrangeiros.
2. Manuel Cintra Torres disserta sobre o novo contrato de concessão do serviço público, não há link que valha, por isso transcrevo parte do texto de Torres. Não comento, o texto fala por si:
a No contrato de concessão do serviço público de TV agora em consulta pública o monstro governamental terá quase uma dúzia de canais. Estaline e Jdanov, nas suas campas, e Caracas, Harare e Pyongyang roem-se de inveja ao lerem este caderno de encargos televisivo do Governo Sócrates.
Ele prevê a possibilidade de canais adicionais, um infanto-juvenil e outro de conhecimento. Para quê? Manuel Falcão, ex-director da 2:, comentou que essas programações já são hoje obrigação da RTP, pelo que a proposta do ministro Santos Silva visa consagrar que a RTP1 e a RTP2 tenham "cada vez menos conteúdos de serviço público". O Governo pretende da RTP serviços mais comerciais e com mais audiência para as mensagens do Governo na RTP1 e 2.
O documento só obriga a RTP1 a passar um documentário e uma grande reportagem por mês. Mas não impõe limites a noticiários obscurantistas e programas comerciais sem valor acrescentado de serviço público; permite que publicidade e televendas ocupem espaços diários muitíssimos superiores aos que o canal terá de dedicar a documentários, reportagens e outras áreas em que os privados têm menos ou nenhumas obrigações.
O documento, como outros antes, tem um truque: diz o que a RTP deve dar, mas não diz o que ela não deve dar, abrindo portas à programação comercial e até à propaganda (informação "devidamente contextualizada"). Tal como a ERC, o Governo propõe uma avaliação quantitativa do cumprimento do contrato, isto é, basta um programa apresentar-se como de um género para "ser" desse género, mesmo que o conteúdo não seja de serviço público.
O documento arrasa a relação da concessionária com a programação da sociedade civil, que foi uma das maiores conquistas da TV pública desde o 25 de Abril. Por um lado, mantém a fachada da relação da RTP2 com as organizações não-governamentais (ONG), hoje muitas dezenas com acordos assinados com a RTP. Depois de 2003 houve dois debates diários na 2: (Causas Comuns e Tudo em Família), mas a direcção da RTP2 nomeada em tempos deste Governo reduziu-os a um (Sociedade Civil). E agora? Hipocritamente, o novo contrato promete "espaços regulares de debate" que assumam "a pluralidade e a representatividade das organizações" da sociedade civil (nº 11.f), mas o contrato proposto por Santos Silva dá a machadada final à participação da sociedade civil no serviço público ao estabelecer uma periodicidade quinzenal para esses espaços de debate (nº14.b). Quinzenal! São quase cem as ONG que nele participam por acordo assinado com a RTP - de quantos em quantos anos participarão neste espaço quinzenal? O Governo alinha com a via da actual direcção da RTP2, que a vai transformando num generalista tipo de RTP1 com controlo das vozes vindas de fora do Governo e do sistema.
O Governo Sócrates tem tiques autoritários e controleiros, odeia manifestações, tem nojo do jornalismo independente, faz uso sistemático da propaganda e, como se vê no novo contrato de concessão, detesta o debate e a sociedade civil. Nunca esperei que este Governo do PS viesse a ser tão reaccionário.
O outro exemplo vem das Obras Públicas, o mais boçal dos ministros deste governo, o tal Lino que é engenheiro da Ordem e do Técnico, e que arrota uns bitaites sobre o "deserto" da margem sul depois de uma almoçarada, vem dizer que ainda não leu o estudo sobre Alcochete, que não tem tido tempo e que recebe muitos estudos por dia no ministério. Cito as frases de Lino, dignas da antologia da bestialiada e da alarvidade política, acho que ele faria muito melhor a si, ao governo, ao José Sousa e ao país, em vez de arrotar postas de pescada, se dedicasse apenas a arrotar literalmente depois (e antes) das tais almoçaradas, que tem imenso tempo para praticar, ficava-lhe melhor e era menos afrontoso para a inteligência dos que lhe pagam o ordenado de ministro, já que a sua...
O ministro das Obras Públicas, Mário Lino, disse que ainda não leu o estudo da Confederação da Indústria Portuguesa (CIP) que aponta Alcochete como melhor localização para o novo aeroporto de Lisboa, mas afirmou que lhe dará "uma vista de olhos". A fonte é o "O Público":
"Ainda não tive tempo de ler o estudo", afirmou Mário Lino, acrescentando que "certamente" lhe dará "uma vista de olhos". "O ministério recebe todos os dias muitos estudos (...) e não tenho tempo para estar a ler"...
Brilhante, Sic Transit Gloria Mundi.
Etiquetas: Carlos Araújo Alves, Fórum de Educação Artística, José Sócrates, Mário Lino, Pires de Lima, Sr. Hermenêutica
23.10.07
O Horror
Mas se o homem não sabe arranhar duas notas de seguida, desafina como um marinheiro depois de uns bons tragos de rum, grita como um possesso, tem a voz mais feia do que o trovão e demonstra o mesmo tipo de sensibilidade musical do que a maioria dos cantores do coro do S. Carlos, como se portará no confronto com Vaneev? (o Scarpia do primeiro elenco).
Entretanto a tal Chelsey Schill que mostrou voz esganiçada, agreste e sem corpo vocal, cantou pessimamente na nona de Beethoven, sem sequer conseguir articular as notas como estão escritas, é a tal cantora que vem cantar tudo e mais alguma coisa, desde a Gilda até à serpente do Nunes. Talvez não se saia mal na serpente...
O horror de uma temporada péssima parece antecipar-se depois dos dois horrendos concertos iniciais a que assisti. O serviço público está arredado do S. Carlos. Os programas são mal concebidos, sem lógica e sem qualquer concepção estética. Os maestros são escolhidos a dedo como más experiências, como se a OSP e o palco do S. Carlos servissem apenas para a miudagem andar a reinar "ao maestro" - algo que está na moda em Portugal actualmente. Os cantores são mal escolhidos, fraquíssimos, mal preparados e mal ensaiados. Os compositores portugueses desrespeitados, as obras mal preparadas e desvalorizadas por direcções incompetentes.
Há limites para a pouca vergonha e a desfaçatez. O S. Carlos recebe milhões dos contribuintes, e cobra bilhetes para ser actualmente palco de experiências imaturas da rapaziada, sem cura mas com hermenêutica incluída.
Espero que me engane mas o próximo ano será sempre a decair.
Entretanto para as óperas de Rachmaninoff ainda não está anunciado director musical, há várias hipóteses: a timpaneira da orquestra, o concertino, os cantores em rotação, enquanto não cantam pegam na batuta, uns na primeira parte outros na segunda, alguns rapazes simpáticos de Heildelberg, ou de outra cidade com um nome catita e sem orquestra sinfónica, o segurança que está na porta dos artistas, o segurança que está na porta da casa de banho do restaurante, os empregados do restaurante (ao menos sabem usar laço ou gravata), o João Paulo Santos, o próprio Sr. Hermenêutica, o Augusto Manuel Seabra, o Hermitage, a ministra da cultura, o Mário Lino, o Burmester, eu próprio, alguns amigos meus que estão a precisar de umas massas, etc..
Etiquetas: Christoph Dammann, José Cura, S. Carlos, Sr. Hermenêutica
20.10.07
Andou o Beethoven a escrever música para isto
Devo dizer que sofri com a nona de Beethoven, sofri como nunca tinha sofrido num concerto desde a Noite Transfigurada e o 2º Acto do Tristan na Culturgest. Uma vergonha, nunca pensei que uma obra pudesse sair tão vilipendiada, tão destruída, quer pela "direcção" de José Cura, quer pela orquestra sinfónica portuguesa, quer pelo coro, quer pelos solistas. Não escapou um, de alto a baixo.
Raramente fico sem palavras quando se trata de dizer mal, neste caso até tenho medo de começar a escrever, estou verdadeiramente sem palavras para comentar tamanho atentado à música, ao profissionalismo e tanta falta de respeito pelo público (que paga), pela música e, mesmo, pela memória de um grande entre os grandes compositores.
Entre aquilo a que se ouviu e a nona de Beethoven tocada de forma profissional não existe qualquer ponto de contacto. Tenho uma lista imensa de erros técnicos e falhanços básicos clamorosos, desde afinação, coesão, entradas erradas, solos errados, passagens inteiras dadas em notas erradas, cantores a fingir que cantavam o que está escrito sem nada que ver com o texto musical, som horrível, violinos muito fracos, violoncelos desafinados nos agudos, metade da orquestra perdida da outra, um scherzo que parecia o circo Chen, desacertos rítmicos constantes, pulsação irregular, instrumentos que nem sequer se davam ao trabalho de entrar, outros que entraram nas pautas, articulação esfarrapada, sforzandi dados ao acaso e quando se podia, os sopros que deveriam ter entrado na segunda afirmação do presto que inicia a parte coral ficaram nas lonas e o coro aos berros e a cantar ao lado.
Vejamos apenas alguns exemplos no primeiro andamento (a confusão foi tal no scherzo que basta indicar como exemplo o andamento inteiro): a flauta nem sequer as notas a contratempo no final (compassos 511 e 512) conseguiu dar e continuou de forma inenarrável até ao final da obra. Os sopros deixaram de se ouvir após os compassos 480 ou porque não tocaram ou porque se deixaram abafar pelas cordas, as fusas sairam uma trapalhada pegada nos compassos 401 e seguintes com as flautas a primarem pela asneira e depois pela ausência, o som foi feíssimo sempre que os violinos passavam do lá, exemplo comp. 297 e seguintes, também nos compasso 137, 363 (e em muitíssimos outros pontos) e sempre que em sfz em passagens rápidas com agudos, exemplo nos compassos 419, 420 e seguintes que soou horrível, etc, etc, etc.
Não existe sequer uma leitura da obra para se poder começar a falar de interpretação, um puro e simples desastre completo que começa numa direcção inexistente de Cura que nem sequer sabe mexer os braços de forma independente. Não me alongo mais, faltam-me os termos e posso ir longe de mais na enumeração do top da asneira, se falei da flauta foi como exemplo, o desastre foi total: a trompa, os clarinetes a tocar nas pausas, o oboé de som manhoso e pífio, é injusto para os que não cito... Ressalvo apenas os tímpanos e percussão, quase sempre certos, e os trombones que aparecem no final, numa intervenção breve mas conseguida.
O pior dos solistas foi Duisburg, um suposto baixo, que não consegue sequer acertar no tom das notas, e que arruinou completamente todo o recitativo de entrada na parte vocal. Desastroso e anedótico, se não fosse trágico, o que cantou pouco tem a ver com o que Beethoven escreveu, um cantor a cantar assim chumbaria no conservatório...
Os outros ainda tentaram mas não conseguiram.
Tenho também vergonha por este público que ficou a aplaudir e até a gritar alguns bravos quando não haveria melhor ocasião para patear e apupar. Eu não o fiz porque tive os bilhetes de graça e é considerado de mau tom apupar quem nos oferece os bilhetes, embora não seja considerado de mau tom aplaudir. Garanto que se tivesse pago bilhete teria apupado e batido com os pés e, embora seja contra a prática da balística com tomate extra maduro, acho que os adeptos deste legume tão saudável bem poderiam hoje ter feito juz à pontaria.
Apelo 1: sr. Hermenêutica estava na assistência, sei que sabe e aprecia música, espero que tome providências para mudar isto. O S. Carlos está a entrar numa espiral de decadência acelerada, e eu sei que o sr. Hermenêutica sabe desse facto, porque até percebe do assunto e ouviu muito boas orquestras na antiga RDA. Não deve ser isto que quer.
Apelo 2: O sr. Cura se quer fazer experiências de direcção de orquestra que as faça com o seu dinheiro e não contribua ainda mais para o descrédito da sinfónica que ostenta o bom nome de Portugal e é paga com o dinheiro dos contribuintes.
Acho que devo escrever isto também em inglês para aparecer nos motores de busca sobre o Cura, o que se passou hoje foi demasiado escandaloso...
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15.10.07
Escândalo no S. Carlos?
Parece que a portuguesa foi tocada na versão "hino", aquela que todos conhecemos.
Parece que o tenor (fui informado posteriormente que foi o tenor e não o barítono) escalado para o programa não sabia ou não pode cantar aquilo que lhe estava destinado e o programa foi reduzidíssimo.
Contaram-me, por telefonema recebido ontem, estas situações.
Alfredo Keil merecia muito mais.
Continua a bandalheira pós Pinamonti? Será que estamos entregues aos bichos?
Espero por mais dados para me pronunciar mas este início de gestão da OPART começa a revelar-se uma catástrofe e uma pouca vergonha.
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4.9.07
Férias
Mário Vieira de Carvalho, o senhor hermenêutica pode deixar de dormir descansado, ele e os do costume...
Prometo uma crónica sobre Eduardo do Prado Coelho, sobre Dalila Rodrigues e sobre o resto. Podcasts de dois minutos serão adicionados todas as semanas.
Voltam também as críticas e uma resenha de alguns concertos a que assisti nos Proms de Londres, em Itália e em Portugal entre conferências, chuva e inundações em Oxford e banhos mais agradáveis...
Mando daqui da borda da piscina um abraço a todos os leitores, o tempo está excelente em Portugal e a piscina a 30 graus. Até para a semana.
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11.7.07
Ligo a Antena 1 e lá está ele
Fui à procura no portal e nada...
Logo a seguir veio o comandante da força Bravo em Timor, retive mais ou menos isto: "estamos a passar um momento de que nós refutamos de alguma sensibilidade e estamos a lidar com a situação de acordo com isso". Não haverá aí um Sampaio para dar um raspanete ao guarda?
E o sr. Secretário de Estado, já considerou dar umas lições de hermenêutica aos GNR's? Qualquer dia teríamos os guardas intelectuais a dizer: "afirmativo, temos aqui um problema de hermenêutica pré-compreensão, mas a força estava pronta, o curso pré-hermêutica dado na secretaria de Estado da cultura preparou a força para estas situações, tivémos de aplicar uns tabefes aos meliantes, para lhes ensinar a não citar Deleuze e Derrida enquanto saqueiam lojas, é claramente um problema de hermenêutica pré-compreensão, os indíviduos infractores não fazem a menor noção dos conceitos pós modernos, temos de refutar estas situações..."
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29.6.07
S. Carlos
O S. Carlos afasta-se da sua verdadeira missão procurando programar concertos de câmara, concertos de coro, concertos disto e daquilo, número de espectáculos a subir 27%. Aquilo que é apresentado pela Opart como um grande ganho de actividade e que é apenas ter quatro ópera encenadas para o grande público, uma ópera em estreia para o pequeno público, uma sessão de ópera em versão de concerto, que já no tempo de Pinamonti era uma falácia para meter na temporada lírica e que continua agora, e uma ópera para as crianças.
O Siegfried vai para Outubro ou Novembro, por razões de agenda de cantores e encenador e sai desta temporada.
É necessário dizer que o aumento de actividade anunciado com pompa e circunstância pela Opart e pelo secretário de Estado resulta da diminuição do número de verdadeiras produções operáticas de qualidade, cinco encenações de peso é um número vergonhoso para qualquer capital europeia, é pobre é miserável, apesar dos agentes infiltrados no jornal "O Público" que contam sete, sete, senhores, encenações! Julgava que para dar a volta aos números bastava o secretário de Estado a dizer na conferência de imprensa que Pinamonti tinha "40 récitas e que agora havia 50 récitas, logo um aumento de 10"! Contando bem Pinamonti tinha 43 e agora há 42, e se contarmos a encenação barata para as crianças com cantores de quinta categoria temos 48, logo ou há uma diminuição de uma ópera ou um aumento de cinco, algo que nada tem a ver com as "cinquenta récitas de agora" e as "dez a mais" anunciadas antes. Parecia ser uma questão de hermenêutica, como assinalei a sua Excia na conferência de Imprensa, o que causou uma surpreendente gargalhada na sala e uma resposta balbuciante de que as estatísticas contavam pouco, quando antes tinham sido invocadas pelo próprio Sr. secretário de Estado. Mais detalhes nos artigos que escreverei nas várias revistas onde colaboro.
Uma encenação, muito por baixo, custa 600.000 euros e dá para fazer uns 500 concertos de câmara com artistas portugueses e de qualidade internacional reduzida, se forem duetos a cinquenta contos cada músico dá para 1200 concertos, que aumento de produtividade! É necessário dizer que há muitos anos que a temporada não contava um número tão baixo de encenações. Mas será que alguém quer no S. Carlos uma Gulbenkian de terceira, uma Metropolina de segunda, um CCB de segunda. Não será que o público quer é um teatro de ópera? Creio que com este número de encenações deveríamos ter uns duzentos concertos de câmara a mais, uns cinquenta concertos de orquestra sinfónica e uns coros. Já que se cortou tanto na produção poder-se-ia ter muitíssimo mais lied, o que está dentro da linha de um teatro operático, mas nem sequer esse vertente foi muito reforçada, com cinco encenações sobraria dinheiro para uns 120 recitais de lied com cantores razoáveis a nível internacional e um ou dois com cantores de altíssimo nível. Além disso acho péssima a ideia de fazer concertos de coro, expor as vergonhas públicas do S. Carlos é mau, se o coro fosse de qualidade a ideia era boa, assim será apenas mais um fracasso, deve-se apostar na qualidade e não na mediocridade. Deixo de barato a ideia de fazer espectáculos com ranchos folclóricos, isso sim, seria um aumento de produtividade notável! Diversificar e fazer tudo menos ópera.
Um pouco mais a sério: quatro óperas encenadas para o grande público, ópera popular, pouco profunda, numa visão esteticamente enviezada, sem ópera alemã, sem opera barroca: de Offenbach os Contos de Hoffmann, de Verdi o Rigoletto com 11 récitas(!!), de Puccini a Tosca (também com 11 récitas) e de Mozart a Clemência de Tito que, francamente, não é sequer uma das melhores produções do grande Mozart, e para o pequeno público de Emanuel Nunes vem Der Märchen, uma carta fechada e, pelo que já se escutou, intragável e, provavelmente, um desastre financeiro.
Cantores de segunda, jovens, e muitos portugueses, é evidente que, com três produções novas se podem ter encenadores razoáveis, mas mesmo assim a aposta é também em alguma juventude e os directores musicais são também de qualidade muito mediana. Entretanto a temporada é apresentada de forma truncadíssima em termos de cantores que ainda nem sequer devem ter sido contratados.
Boas notícias: a Opart permite programação plurianual, o presidente do conselho da Opart parece competente e com os números que tem conseguiu passar uma imagem de grande produtividade e realização que deixou os jornalistas presentes calados, mas só o tempo dirá se este modelo resulta. Esta actividade toda é apenas uma cosmética que resulta da redução da produção operática, podia ser pior.
Infelizmente a parte artística não me parece grande coisa, culpa de Damann em part time entre Colónia e Lisboa até Setembro de 2008, o que no meu entender é mais um escândalo e um desperdício de dinheiros públicos. Talvez Damann consiga com mais tempo fazer melhor, mas a primeira impressão de análise no papel e não na conversa tida com o alemão, é que esta temporada é um triunfo das teses do Sr. Hermenêutica: ópera barata e popular, cantores portugueses, e muitas récitas da Tosca e do Rigoletto que é disso que o povo gosta.
Agora uma nota final: Com a Opart e Vieira de Carvalho a intervir directamente temos a ópera ainda mais cara do mundo! Quinze milhoes e meio de euros a dividir por cinco encenações são: mais de cinco milhões de euros por ópera! Um milhão de contos por produção! Notável, dava para fechar a Opart e mandar vir as produções do Convent Garden em tournée, provavelmente daria para 10 produções e poupava-se uma data de dinheiro em ordenados...
Etiquetas: Christoph Dammann, OPART, S. Carlos, Sr. Hermenêutica
28.6.07
São Carlos
Etiquetas: Christoph Dammann, S. Carlos, Sr. Hermenêutica
7.6.07
O talento da manipulação
O jornalista pergunta: Como?
Hermeneuta: Sobretudo com a redução de quadros dirigentes.
J. Foram despedidos?
H. Não: há menos directores de serviços, menos directores gerais.
J. E foram para onde?
H. Continuam a trabalhar, grande parte deles com funções diferentes.
J. A ganhar menos... Se ganham o mesmo, não houve poupança.
H. Os termos dos vencimentos estão regulados. Não dou mais detalhes.
Genial, fica ao leitor a hermenêutica, sem necessidade de recorrer à arte das cifras exóticas.
Mais à frente o senhor Hermeneuta, que sendo catedrático de musicologia e licenciado em direito, parece que nunca aprendeu a fazer contas:
"O S. Carlos custa 38.000 euros por dia. Cada assinante por oito óperas recebe 2.500 de subsídio do Estado, o que significa seis salários mínimos nacionais. É o teatro de ópera mais caro da Europa."
Vejamos as falácias das divisões na nossa arte de prestidigitação numérica: o S. Carlos fica a menos de 4 milésimos de euro por dia a cada português e a 3 cêntimos de euro por récita por lusitano residente em Portugal e que pode ouvir essas mesmas récitas pela antena 2! O S. Carlos é mesmo barato, o total dos dinheiros públicos gastos na ópera na Alemanha por cidadão é mais de cinquenta vezes mais... E quanto custa o gabinete do Sr. Hermenêutica a cada português? Não será também ele demasiado caro para a produtividade que tem? Fica o repto para se fazerem essas contas.
Admitindo que as divisões do secretário estão certas, recordamos que em orçamento o S. Carlos é um dos teatros de ópera mais baratos do mundo, curiosamente por isso é que sai caro por récita. Para fazer mais produções é necessário dotar as instituições de um orçamento para produções além dos custos fixos. Vieira de Carvalho diz que Lisboa é a cidade com ópera mais cara da Europa. Se a culpa não fosse do governo ainda percebia o lamento, mas como esta situação é integralmente da culpa do executivo não percebo o queixume, ou é pouco inteligente ou é manipulador. Explico a fundamentação do que digo:
O S. Carlos tem 13 milhões de euros por ano, qualquer teatro de capital europeia supera largamente os trinta milhões.
O S. Carlos gasta pelo menos dez milhões em custos fixos. Sobram uns tostões para as tais oito óperas. Imagine-se que com três milhões se fazem oito óperas. Quando dá? 50 euros por ópera por espectador, bem distante do que o secretário anda a apregoar! O público paga mais do que isso por bilhete médio! Imagine-se agora que em vez de oito óperas tinha 32 produções, o quádruplo. Já houve mas no tempo do Salazar, era fascista mas, do mal o menos, gostava de música, fica aqui o lembrete a Teixeira dos Santos e a Sócrates de que o seu modelo gastava umas massas no S. Carlos e ouvia depois o resultado pela Emissora Nacional, Programa 2. O Salazar não era só fazer processos disciplinares e meter malta na cadeia quando diziam mal do Presidente do Conselho numa conversa de amigos presenciada por um qualquer bufo.
Seriam agora necessários 12 milhões para estas 32 produções. Colocamos 13 milhões para se fazerem umas coisas com uns cantores melhores que a Theodossiou. Estes 13 milhões são a parte variável do orçamento, e representam os mesmos cinquenta euros, apenas em custos de produção, por espectador/récita. Gastávamos menos do dobro do orçamento actual e passávamos a ter, em vez de oito miseráveis óperas, 32 óperas por ano, qualquer coisa como 4 estreias nos meses activos da temporada.
Façamos agora as contas à moda do hermeneuta 13 + 10 = 23 milhões. O hermeneuta divide os 13 milhões por 1000 lugares a 90 por cento de ocupação e a uma média de seis récitas, obtém assim cerca de 2500 euros para o ciclo de oito óperas por espectador. Quanto o número sobe para 23.000.000, supomos agora que há 32 produções cada com uma média de sete récitas, existem 1000 lugares e mantém-se os 90% de ocupação. Fica agora a cerca de 110 euros por récita/espectador, longe dos 312.5 do hermeneuta. O que é que isto quer dizer? Subiu-se o orçamento para 23 milhões, ainda assim abaixo do Real de Madrid, de Paris, numa ínfima fracção de Berlim com as suas três óperas, a léguas de Viena, abaixo do teatro de Colónia ou mesmo do pequeno teatro de Mannheim, e o preço desceu para 110 euros. Conclusão: Lisboa, por culpa do governo, tem a ópera mais cara do mundo. É claro que também tem um dos governos mais caros do mundo em termos do que lhes pagamos e do benefício que trazem ao país, zero.
E quanto paga o espectador? 60 euros por bilhete, o subsídio por espectador passaria assim para os 50 euros por récita/espectador! Repare o leitor que este subsídio não é para o espectador ver uma ópera: o bilhete cobre o preço da produção (custo variável), o subsídio é para manter o teatro, a orquestra, o coro, o património, o know how, o prestígio internacional de Portugal. Repare-se que a orquestra não faz apenas ópera. Dividir o orçamento actual do S. Carlos apenas pela ópera é mais uma manipulação.
Como reduzir ainda mais a factura do Estado aumentando o consumo artístico? A solução é incrivelmente simples, reduzir a o número de récitas aumentando o número de produções. Parece impossível? Não, não é impossível, basta construir um teatro moderníssimo com 3000 lugares. Cada produção passaria a ter apenas entre duas a três récitas, os custos variáveis de um teatro de ópera dependem fortemente dos números de récitas. Os cantores solistas e os maestros recebem por récita: um maestro razoável recebe 15.000 euros pela estreia e 10.000 pelas récitas seguintes, um cantor (cachet muito variável) recebe também à récita. Além disso um teatro moderno e funcional passaria ser muito mais eficiente em termos de custos de produção.
Por outro lado dava-se à OSP uma possibilidade de ter uma sede fixa digna. O actual teatro de S. Carlos passaria a fazer festivais e música antiga, uma vez que é uma sala de ópera quase em estado original e de uma beleza única.
A contas actuais, e continuando a fazer os mesmos espectáculos por ano, 50 récitas, em 25 produções, cada uma vista por 5600 pagantes, teríamos muitíssimos mais espectadores. Seria o triplo dos espectadores actuais. Seria possível com custos estatais globais (fixos mais variáveis) que estimo em cerca de 16 milhões, apenas mais três milhões do que o orçamento estatal actual, ter cerca de 25 produções. O custo nesta nova situação seria de 110 euros por espectador, também um terço do actual! E apenas com um investimento anual de mais três milhões de euros e, claro está, um grande investimento num teatro novo de ópera mas que ficaria como obra de arte para o futuro num país que não faz nada a não ser consumir-se e a não deixar registo. Acho bem mais importante um bom teatro de ópera do que o aeroporto da Ota. Antes de criar aeroportos deve-se criar qualidade de vida para os que estão cá e para os que nos visitam, senão esta coisa fica mesmo um deserto...
Em Portugal parece loucura uma obra destas, os liberais e outros imbecis vão logo gritar "aqui d'el rei que se anda a gastar dinheiro dos contribuintes", na Itália e em França não foi loucura e rendeu. Recordo a Bastilha, Aix-en-Provence com o seu novo teatro, Valência (decorre a temporada inaugural) e a renovação do Alla Scala.
Mais uma vez Lisboa fica na cauda do mundo, pelo secretário de estado da cultura que tem, um mero sintoma da indigência nacional, e por tudo o resto, com a cultura sempre no fim de, absolutamente, tudo.
Etiquetas: OPART, Orquestra Sinfónica Portuguesa, S. Carlos, Sr. Hermenêutica, Vieira de Carvalho
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