
14.5.13
Relógio atrasado em S. Carlos
Henrique Silveira
Crítico
Rigoletto de Verdi e Francesco Maria Piave, Teatro Nacional de S. Carlos, dia 11 de Maio, última récita, sala cheia.
Agostina
Smimmero,
Maddalena, contralto, excelente; Luís Rodrigues, Il Conte di Ceprano,
barítono
(seria um baixo segundo Verdi), bom; Piero
Terranova, Rigoletto, barítono, escapatório; Giovanni Furlanetto,
Sparafucile, baixo, pouco convincente; Romina Casucci, Gilda, soprano,
medíocre; Alessandro Liberatore,
Il Duca di Mantova, tenor, péssimo.
Cantores que
cumpriram sem brilhar devido ao seu pequeno papel:
Mário Redondo, Il Conte di
Monterone, barítono; Marco Alves Dos
Santos, Borsa Matteo, tenor; João
Merino, Marullo, barítono; Leila
Moreso, Giovanna, meio soprano; Ana
Luísa Cardoso, La Contessa di Ceprano, meio soprano, Maria do Anjo Albuquerque, Un Paggio della
Duchessa, Meio Soprano; Simeon Dimitrov,
Un Usciere di Corte, baixo.
Direcção Musical: Martin André, péssimo; Orquestra Sinfónica Portuguesa e Coro
Do TNSC, razoáveis; Encenação e Figurinos: Francesco Esposito, encenação fraca e figurinos maus; Cenografia:
Francesco Esposito e
Mauro Tinti, pindérica; coreografia: Domenico Iannone, houve coreografia? Desenho De Luz: Fabio Rossi, fraca. Programa
de sala: incompleto, pouco informativo e dispensável.
Piero
Terranova em Rigoletto compõe um bom papel e canta esforçadamente sem ter uma
voz grande e densa e os seus graves são pouco convincentes, teatralmente foi
muito esforçado, mostrou métier e o seu trabalho musical foi muito bem
preparado, a sua voz é pouco ágil e no seu “andante mosso agitato” ponto
fulcral da sua composição “cortigiano, vil razza danata” e nos duetos com
Gilda, teve dificuldade em articular semicolcheias e tercinas, como é
experiente esteve-se nas tintas para a direcção pesada de Martin André e entrou
quando quis, às vezes antecipando os tempos de entrada quando o ritmo
avassalador da obra o exigia. Entretanto não se entende como o director
artístico não deu uma oportunidade de um grande papel a Luís Rodrigues, que
estava em palco no papel de pisa palcos como Ceprano que, aliás, realizou
brilhantemente com grande densidade teatral no ponto do primeiro acto em que
interveio e com uma bela voz, bem timbrada, que imediatamente penetra na sala sem
esforço.
A
soprano Romina
Casucci em Gilda
tem a voz feia nos agudos, é muito inexperiente e tem muita falta de confiança
no ataque das notas agudas que saem destimbradas, o domínio dos agudos é muito
mau entrando muito instável e muito pobre de tímbre sempre que a nota está
acima do fá, isso foi notório na ária “Caro nome” em que os saltos de oitava de
fá para fá agudo foram penosos quebrandro as palavras para respirar e ganhar
coragem para o ataque que saiu miserável, o ataque directo ao lá agudo foi desesperante
e não acentuou os lás e sis agudos de passagem depois da segunda suspensão e,
finalmente, fez ainda cadências trapalhonas onde dominou o medo e não a
confiança necessária para este papel. Ao longo da obra manteve-se sempre neste
registo e não vale a pena escalpelizar ainda mais uma interpretação verde.
O
tenor Alessandro Liberatore no Duque de
Mântua, mostrou maus dotes vocais e, sobretudo, um supremo mau
gosto musical e teatral. Esbracejando desbragadamente, o desastre começou na “ballata”
de entrada e prosseguiu o martírio ao longo de toda a ópera. Exibiu agudos em
esforço, soluços de ataque, e foi incapaz de realizar as dinâmicas escritas por
Verdi, notavelmente a total ausência de pianíssimos a três ppp quando canta o
seu amor a Gilda no final do primeiro acto no andantino, “È il sol dell’anima”,
não consegue apianar sobre o fá grave para depois fazer o melisma em salto de
oitava sempre em pianíssimo. Tendo uma voz miseravelmente pequena canta tudo
aos seus fracos plenos pulmões passando por toda a música de Verdi, e por toda
uma paleta de sentimentos, da mesma forma boçal, sem que exista um mínimo de interpetação,
ou direcção por parte do maestro, desta torrente infinita de arrogância da
mediocridade. O cantor exibe ainda uma voz sempre na iminência de partir e
visivelmente cansada, devido ao esforço que imprime ao seu canto. Sob uma
direcção competente poderia melhorar imenso, nem todos podem ter vozes
poderosas, poderia jogar com o claro escuro e apostar nos matizes, aproveitado
algum bom timbre que, no fundo, ainda poderia restar-lhe. Sendo inteligente,
poderia poupar-se para brilhar nos pontos mais exigentes. Mas a direcção pesada
de Martin André é completamente insensível a este domínio, o peso da orquestra
é tão exagerado, mesmo em acompanhamento, que retira ao cantor a possibilidade,
admitindo que teria essa inteligência, de matizar mais a sua interpretação.
Giovanni
Furlanetto em Sparafucile mostrou trabalho digno mas
pouca profundidade de peito e graves pouco densos, o seu fá de saída no
primeiro acto não fez estremecer os corações de tremor pela sua profissão de
assassino professional. João Fernandes faria bem melhor e estou a ver mais
alguns baixos portugueses que fariam, pelo menos, igual.
A
surpresa desta récita, no meio da falta de critério na escolha do elenco,
provavelmente por acaso feliz no meio de escolhas falhadas e erráticas, foi a
grande voz de contralto de Agostina
Smimmero, de uma densidade e profundidade impressionantes, e uma grande
naturalidade musical, fez uma prostituta notável. Tem o inconveniente de um
físico que a desfavorece em termos teatrais; no entanto, se perder peso poderia
perder os dotes vocais e estes são preciosos e raros a nível mundial.
Na
orquestra houve momentos de grande lirismo, apesar de Martin André,
nomeadamente nos belíssimo solos de oboé. Tivessem seguido os cantores a poesia
deste instrumentista e outro galo teria cantado em S. Carlos. O coro, apesar de
algumas “fugas” rítmicas, esteve bem, muito moderado em termos cénicos e
equilibrado vocalmente.
A
direcção musical foi, de novo, muito fraca, André decorou o calhamaço mas não
ganhou muito com isso, decorar para a exibição pura e simples não tem o menor
significado, teria se ponderasse os planos e os equilíbrios, se preparasse
realmente o canto, se entendesse a efervescência e a vivacidade dramática da
partitura. A aceleração vertiginosa da obra em direcção ao clímax não foi
entendida e a direcção pesada e empastelante, grosseira na sua falta de
entendimento das subtilezas, fazem desta direcção um paradigma do que não se
deve fazer em Verdi.
A encenação foi de uma “modernização” banal e tristonha,
direcção de actores ao Deus dará e motos electricas para um duque que tanto é
almirante como motoqueiro em cabedal, tijolos pintados para poupar em cenários
e mobiliário tipo IKEA, em que o palácio do duque e beco escuro e abandonado
têm a mesma realização, (a partitura tem escrita: Sala Magnifica nel palazzo Ducale splendidamente iluminata!) se o
director tivesse poupado na contratação de uma armada de italianos banais como
equipa cénica e tivesse optado por uma equipa nacional, certamente haveria quem
fizesse melhor do que este chorrilho de banalidades, figurinos de loja chinesa
e luzes indiferentes.
Pelo exposto muitos dos protagonistas poderiam
ser feitos por cantores portugueses capazes de fazer igual ou melhor, há uma
meia dúzia de Gildas superiores e há melhores tenores do que este Liberatore, mesmo
num país fraco neste tipo de voz como Portugal. Não se entendem as opções de
Martin André num capítulo que também é um desastre financeiro, pois cachets e a
estada desta armada italiana durante meses em Lisboa, são muito superiores às
dos artistas portugueses. Apostar nesta mediocridade quando há opções melhores
neste tempo de crise, é quase insultuoso para o público pagante e para o
contribuinte que sustenta o S. Carlos.
Eu próprio, juntamente com mais público, vaiei convictamente
o tenor e, sobretudo, o maestro, que também é director artístico e nessa
qualidade ali estava, num gozo da minha liberdade de público que pagou o seu
bilhete, como é natural, nomeadamente nas mais exigentes casas por esse mundo; como
era tradição no S. Carlos, sala sempre muito exigente ao longo da sua história.
A reacção do director, ao fazer gestos desbragados num claro insulto ao público,
que tem todo o direito de mostrar a sua posição e lhe paga o chorudo
vencimento, foi inaceitável e levantou uma pateada merecida.
Etiquetas: Crítica de Ópera, Orquestra Sinfónica Portuguesa, Rigoletto, S. Carlos
14.12.07
Rigoletto no S. Carlos - o Canto
Continuo, depois de dois dias de interregno devido a muito trabalho na universidade, a escrever sobre os cantores que passam pelo Rigoletto no S. Carlos em Lisboa, consegui agora uns minutos.
Esta é uma crítica a um estilo de canto, a uma escola e aos cantores, eles mesmos; sem esquecer que todos os defeitos a apontar surgiram com a complacência de um maestro sem qualquer categoria e que nem sequer rotineiro foi capaz de ser. O que nos trouxe todos os malefícios do canto lírico de escola italiana sem nenhuma das suas virtudes.
Todos os malefícios nenhumas virtudes
O canto lírico italiano tradicionalmente (e simplificadamente) vive entre dois pólos: a música e os compositores, que se queixam imenso dos cantores, e os cantores e o seu ego, que se queixavam dos compositores (vivos na altura e que entretanto morreram, apesar de estes lhes terem escrito música sublime) e dos maestros "puristas" (como o Abaddo) que "nunca respeitam os cantores e a sua expressão", mas que preferem fazer leituras das obras tais como os compositores as escreveram...
Uns querem fazer música, outros querem cantar e exibir os seus dotes vocais. De forma simplista eu diria que existe aqui uma tensão entre arte e circo. Quando um grande cantor reune a sobriedade para conseguir transmitir a música e se esquece dos seu ego atinge-se, no meu entender, um raro equilíbrio.
É evidente que esta tensão tem lados altamente interessantes, quando os cantores têm vozes de grande beleza, quando têm a arte da nuance, do apianando, ou da variação subtil da intensidade, quando dominam a arte da respiração, quando mudam de registo sem diferenças apreciáveis de timbre e de forma suave, quando atacam as notas agudas sem necessidade de apalpar terreno e fazer portamentos, quando conseguem dizer o teatro pelas notas da música, quando fazem belas cadências a propósito do ponto em que estas se inserem na dramaturgia, podem-se esquecer (e perdoar) certos tiques típicos do canto italiano: prolongar as notas terminais para além do razoável, dar notas na oitava acima do que está escrito para se mostrar que se é bom, inventar cadências onde não existem, etc, etc, etc...
O problema é que estes efeitos têm de ser feitos de forma lógica e sendo consequente com alguma tradição (a boa), a interpretação pretendida pelo maestro, a lógica global da obra e a encenação e direcção de actores.
Ter uma "encenação intemporal" e moderna e permitir que os cantores inventem paragens e cadências a despropósito, num estilo completamente ultrapassado e condenado pelo compositor, como no caso do Rigoletto em que Verdi deixou bem explícito que queria a obra respeitada e interpretada de acordo com a partitura tal como escrita originalmente, é um abuso, é incongruente, é despropositado, é pouco inteligente e mesmo tonto e, sobretudo, é anacrónico.
É o que aconteceu neste Rigoletto no S. Carlos. Não existe qualquer força motriz, não existe um devir torrencial para um desfecho fatal, aos cantores tudo é permitido, parar, arrastar a música, os tenores usam e abusam de cadências não escritas, e nem vale a pena dar exemplos, usam-nas em todos os pontos onde uma "tradição" anquilosada e desfazada do real sentido dramatúrgico colocou pontos "apropriados" à paragem: todas as notas sustentadas, notas acima do sol, notas a solo em que a orquestra deixa o cantor só mas onde o tempo não devia ser interrompido. Onde, por exemplo, em Wagner a partitura é sagrada, em Verdi todo o assassinato é permitido. Deixamos de ouvir o compositor e ouvimos umas cadências medíocres escritas e cantadas por cantores de segunda e terceira categoria. No "La donna..." do terceiro acto assiste-se geralmente a uma arrepiante sucessão de cadências não escritas e de notas dadas uma oitava acima apenas para brilho da vaidade de cantores de categoria duvidosa. Um brilho fátuo, nesta interpretação em apreço, pois os cantores que cantaram o Rigoletto em Lisboa não têm sequer capacidade para brilhar nestes artifícios que celebrizaram um Caruso. O mesmo Caruso que repetia a tal ária cinco (e mesmo mais) vezes e se tornou uma imagem de marca de um certo estilo de canto.
Felizmente parece que Caruso, ao contrário da maioria, conseguia brilhar no malabarismo vocal. Entretanto temos miúdos de vinte e tal anos como Saimir Pirgu e Richard Bauer (um pouco mais velho) tenores que apenas nos fazem dar gargalhadas pelo ridículo em que se metem. Cantando sem nuances, sem composição teatral, sem estilo, esfarrapados para dar as notas, estes tenores acabam como caricaturas de tudo o que o canto italiano nos trouxe de mau ao longo de anos e anos. Infelizmente não trazem nada do lado positivo, não têm o sentido cénico, não têm matizados: Pirgu canta tudo em fortíssimo do princípio ao fim, Bauer nem consegue cantar no agudo sem a voz se partir e nunca conseguiu manter a afinação. O exagero leva ao descontrolo vocal e Pirgu, embora tenha uma voz interessante do ponto de vista tímbrico, acaba a dar fífias no si agudo com a voz a partir-se, Bauer nem sequer consegue dar as notas, embora tente (eu diria que é tão mau que nem sequer tem qualidade para atingir a fífia...). A respiração dos cantores é deficiente, arfejam nos pontos errados por necessidade e não por inteligência, arrastam os tempos, prolongam as notas desnecessariamente, acabando a massacrar os ouvintes com exageros de mau gosto e da mais pura e vã exibição de vaidade sem conteúdo. A direcção musical de Polianitchko, complacente e incompetente, não põe ordem, não traz directivas, tudo permite, não realiza trabalho, não produz. Nem o lado belo do canto se afirma, nem a música anda para a frente.
Quando escrevo sobre os tenores poderia dizer o mesmo sobre os sopranos, as Gildas de Chelsey Schill e de Carla Caramujo. A primeira é um erro de casting, a sua voz não tem cor para Gilda, é um soprano ligeiro (muito verde) que se perde muito nos recitativos, também por inépcia do maestro e que apenas quando canta em forte no registo médio consegue mostrar algum encanto. A segunda, Carla Caramujo, foi, no dia a que assisti, uma jovem muito nervosa. A falta de direcção pode causar catástrofes mas a Carla Caramujo conseguiu, felizmente, ir dominando o nervoso de uma estreia no papel perante o público do S. Carlos e mostrou dotes vocais e personalidade que fazem dela uma voz natural para o papel. Teve a força de não se deixar perder na total ausência de direcção musical de Polianitchko. Ambas cairam também no mesmo erro de anacronismo dos tenores, em menor escala, apostando em cantar notas não escritas pelo compositor.
O Rigoletto de Agache foi péssimo: rouco e sem voz, com vibrato entre o caprino e o bovino, sem domínio da respiração, foi um homem cansado sem chama nem cor, teatralmente desastroso. A sua cena ao descobrir Gilda no saco foi de uma insensibilidade desastrosa. Só faltou dizer que depois ia beber um copo para esquecer... A cena magistral escrita por Verdi para o segundo acto foi vandalizada por uma articulação indiferente do lá ri lá lá... Bola preta.
Já Leo An mostrou uma voz muito mais bela e melhor presença cénica mas também pouco convincente. A sua interpretação musical do papel principal foi, mais uma vez, indiferente, limitando-se a enunciar as notas e não a cantá-las com alma e linha.
Malgorzata Walewska foi uma Maddalena em que apenas se ouviam os graves, e roufenhos.
O momento mais belo da ópera, o quarteto do último acto, foi desastrosas nos dois elencos. Cada um para seu lado, sem linha, sem se escutarem uns aos outros e sob uma batuta incompetente e sem noção do tempo, foi uma cacofonia irritante e um verdadeiro anti-clímax.
Vadim Lynkovskiy realizou um Sparafucile indiferente e sem graves.
Marullo de Michael Vier foi convincente e poderoso, gostei francamente.
O Monterone de Luís Rodrigues foi feito aos gritos e sem nuance ou composição.
Os restantes cantores cumpriram de forma mais ou menos indiferente em papéis pequenos em que se notou sobretudo a ausência de trabalho musical e de direcção do maestro.
O coro esteve desastroso nos dois dias a que assisti, no primeiro pior, no segundo esteve infernal na cena da tempestade, feio, desafinado e sem nexo. No primeiro dia a cena do baile no primeiro acto parecia um coro de bêbedos uivantes, tal o desconcerto. No segundo dia a coisa melhorou um pouco, mas a impressão que fica é de um todo muito mal ligado e muito pouco consistente.
Todos os malefícios do canto italiano, nenhuma das suas qualidades, falta de sentido de linha e da frase musical, falta de progressão dramática, interpretações indiferentes, respiração sem nexo, paragens e cadências despropositadas, ausência de beleza vocal. Nunca se atingiu o bom nível, o melhor foi atingido em algumas partes sofríveis de Caramujo (que pode fazer muito melhor) e de Schill (que não tem voz para mais).
Esta é uma crítica a um estilo de canto, a uma escola e aos cantores, eles mesmos; sem esquecer que todos os defeitos a apontar surgiram com a complacência de um maestro sem qualquer categoria e que nem sequer rotineiro foi capaz de ser. O que nos trouxe todos os malefícios do canto lírico de escola italiana sem nenhuma das suas virtudes.
Todos os malefícios nenhumas virtudes
O canto lírico italiano tradicionalmente (e simplificadamente) vive entre dois pólos: a música e os compositores, que se queixam imenso dos cantores, e os cantores e o seu ego, que se queixavam dos compositores (vivos na altura e que entretanto morreram, apesar de estes lhes terem escrito música sublime) e dos maestros "puristas" (como o Abaddo) que "nunca respeitam os cantores e a sua expressão", mas que preferem fazer leituras das obras tais como os compositores as escreveram...
Uns querem fazer música, outros querem cantar e exibir os seus dotes vocais. De forma simplista eu diria que existe aqui uma tensão entre arte e circo. Quando um grande cantor reune a sobriedade para conseguir transmitir a música e se esquece dos seu ego atinge-se, no meu entender, um raro equilíbrio.
É evidente que esta tensão tem lados altamente interessantes, quando os cantores têm vozes de grande beleza, quando têm a arte da nuance, do apianando, ou da variação subtil da intensidade, quando dominam a arte da respiração, quando mudam de registo sem diferenças apreciáveis de timbre e de forma suave, quando atacam as notas agudas sem necessidade de apalpar terreno e fazer portamentos, quando conseguem dizer o teatro pelas notas da música, quando fazem belas cadências a propósito do ponto em que estas se inserem na dramaturgia, podem-se esquecer (e perdoar) certos tiques típicos do canto italiano: prolongar as notas terminais para além do razoável, dar notas na oitava acima do que está escrito para se mostrar que se é bom, inventar cadências onde não existem, etc, etc, etc...
O problema é que estes efeitos têm de ser feitos de forma lógica e sendo consequente com alguma tradição (a boa), a interpretação pretendida pelo maestro, a lógica global da obra e a encenação e direcção de actores.
Ter uma "encenação intemporal" e moderna e permitir que os cantores inventem paragens e cadências a despropósito, num estilo completamente ultrapassado e condenado pelo compositor, como no caso do Rigoletto em que Verdi deixou bem explícito que queria a obra respeitada e interpretada de acordo com a partitura tal como escrita originalmente, é um abuso, é incongruente, é despropositado, é pouco inteligente e mesmo tonto e, sobretudo, é anacrónico.
É o que aconteceu neste Rigoletto no S. Carlos. Não existe qualquer força motriz, não existe um devir torrencial para um desfecho fatal, aos cantores tudo é permitido, parar, arrastar a música, os tenores usam e abusam de cadências não escritas, e nem vale a pena dar exemplos, usam-nas em todos os pontos onde uma "tradição" anquilosada e desfazada do real sentido dramatúrgico colocou pontos "apropriados" à paragem: todas as notas sustentadas, notas acima do sol, notas a solo em que a orquestra deixa o cantor só mas onde o tempo não devia ser interrompido. Onde, por exemplo, em Wagner a partitura é sagrada, em Verdi todo o assassinato é permitido. Deixamos de ouvir o compositor e ouvimos umas cadências medíocres escritas e cantadas por cantores de segunda e terceira categoria. No "La donna..." do terceiro acto assiste-se geralmente a uma arrepiante sucessão de cadências não escritas e de notas dadas uma oitava acima apenas para brilho da vaidade de cantores de categoria duvidosa. Um brilho fátuo, nesta interpretação em apreço, pois os cantores que cantaram o Rigoletto em Lisboa não têm sequer capacidade para brilhar nestes artifícios que celebrizaram um Caruso. O mesmo Caruso que repetia a tal ária cinco (e mesmo mais) vezes e se tornou uma imagem de marca de um certo estilo de canto.
Felizmente parece que Caruso, ao contrário da maioria, conseguia brilhar no malabarismo vocal. Entretanto temos miúdos de vinte e tal anos como Saimir Pirgu e Richard Bauer (um pouco mais velho) tenores que apenas nos fazem dar gargalhadas pelo ridículo em que se metem. Cantando sem nuances, sem composição teatral, sem estilo, esfarrapados para dar as notas, estes tenores acabam como caricaturas de tudo o que o canto italiano nos trouxe de mau ao longo de anos e anos. Infelizmente não trazem nada do lado positivo, não têm o sentido cénico, não têm matizados: Pirgu canta tudo em fortíssimo do princípio ao fim, Bauer nem consegue cantar no agudo sem a voz se partir e nunca conseguiu manter a afinação. O exagero leva ao descontrolo vocal e Pirgu, embora tenha uma voz interessante do ponto de vista tímbrico, acaba a dar fífias no si agudo com a voz a partir-se, Bauer nem sequer consegue dar as notas, embora tente (eu diria que é tão mau que nem sequer tem qualidade para atingir a fífia...). A respiração dos cantores é deficiente, arfejam nos pontos errados por necessidade e não por inteligência, arrastam os tempos, prolongam as notas desnecessariamente, acabando a massacrar os ouvintes com exageros de mau gosto e da mais pura e vã exibição de vaidade sem conteúdo. A direcção musical de Polianitchko, complacente e incompetente, não põe ordem, não traz directivas, tudo permite, não realiza trabalho, não produz. Nem o lado belo do canto se afirma, nem a música anda para a frente.
Quando escrevo sobre os tenores poderia dizer o mesmo sobre os sopranos, as Gildas de Chelsey Schill e de Carla Caramujo. A primeira é um erro de casting, a sua voz não tem cor para Gilda, é um soprano ligeiro (muito verde) que se perde muito nos recitativos, também por inépcia do maestro e que apenas quando canta em forte no registo médio consegue mostrar algum encanto. A segunda, Carla Caramujo, foi, no dia a que assisti, uma jovem muito nervosa. A falta de direcção pode causar catástrofes mas a Carla Caramujo conseguiu, felizmente, ir dominando o nervoso de uma estreia no papel perante o público do S. Carlos e mostrou dotes vocais e personalidade que fazem dela uma voz natural para o papel. Teve a força de não se deixar perder na total ausência de direcção musical de Polianitchko. Ambas cairam também no mesmo erro de anacronismo dos tenores, em menor escala, apostando em cantar notas não escritas pelo compositor.
O Rigoletto de Agache foi péssimo: rouco e sem voz, com vibrato entre o caprino e o bovino, sem domínio da respiração, foi um homem cansado sem chama nem cor, teatralmente desastroso. A sua cena ao descobrir Gilda no saco foi de uma insensibilidade desastrosa. Só faltou dizer que depois ia beber um copo para esquecer... A cena magistral escrita por Verdi para o segundo acto foi vandalizada por uma articulação indiferente do lá ri lá lá... Bola preta.
Já Leo An mostrou uma voz muito mais bela e melhor presença cénica mas também pouco convincente. A sua interpretação musical do papel principal foi, mais uma vez, indiferente, limitando-se a enunciar as notas e não a cantá-las com alma e linha.
Malgorzata Walewska foi uma Maddalena em que apenas se ouviam os graves, e roufenhos.
O momento mais belo da ópera, o quarteto do último acto, foi desastrosas nos dois elencos. Cada um para seu lado, sem linha, sem se escutarem uns aos outros e sob uma batuta incompetente e sem noção do tempo, foi uma cacofonia irritante e um verdadeiro anti-clímax.
Vadim Lynkovskiy realizou um Sparafucile indiferente e sem graves.
Marullo de Michael Vier foi convincente e poderoso, gostei francamente.
O Monterone de Luís Rodrigues foi feito aos gritos e sem nuance ou composição.
Os restantes cantores cumpriram de forma mais ou menos indiferente em papéis pequenos em que se notou sobretudo a ausência de trabalho musical e de direcção do maestro.
O coro esteve desastroso nos dois dias a que assisti, no primeiro pior, no segundo esteve infernal na cena da tempestade, feio, desafinado e sem nexo. No primeiro dia a cena do baile no primeiro acto parecia um coro de bêbedos uivantes, tal o desconcerto. No segundo dia a coisa melhorou um pouco, mas a impressão que fica é de um todo muito mal ligado e muito pouco consistente.
Todos os malefícios do canto italiano, nenhuma das suas qualidades, falta de sentido de linha e da frase musical, falta de progressão dramática, interpretações indiferentes, respiração sem nexo, paragens e cadências despropositadas, ausência de beleza vocal. Nunca se atingiu o bom nível, o melhor foi atingido em algumas partes sofríveis de Caramujo (que pode fazer muito melhor) e de Schill (que não tem voz para mais).
Etiquetas: Crítica de Ópera, Rigoletto, S. Carlos
10.12.07
Rigoletto no S. Carlos, o Horror
Certamente um dos piores Rigolettos de todos os tempos no S. Carlos, de onde regresso agora da estreia. O pior de tudo foi a direcção inacreditável de Alexander Polianitchko mas as vozes abomináveis, a orquestra inenarrável, o coro infernal, a interpretação péssima, a representação inexistente, a soma de erros crassos, tudo contribuiu para uma noite das mais negras de todos os tempos no Teatro de S. Carlos. Simplesmente horrível. Eu julgava que o mínimo já tinha sido atingido há muito tempo, enganei-me redondamente, a incompetência (tal como a estupidez) é insondável. Pior que isto no nosso teatro nacional, o teatro da capital da cimeira de Lisboa (ridículo não é?), só o Cura a dirigir a nona de Beethoven, mas em concerto, não em ópera.
A coisa é tão má que até na tradução surgem pérolas como "tesouro impagável" e não "tesouro sem preço", como se a Gilda fosse para seu pai um "tesouro impagável", eu sugiro a tradução "tesouro muita pândego"...
Amanhã vou ao segundo elenco, pior deve ser impossível, a esperança é a última a morrer, espero que os jovens cantores consigam superar um pouco tudo o que é péssimo nisto.
Uma crítica detalhada depois de amanhã, aqui neste blog.
Hoje houve pateada, fraca, mas já é um começo.
Stamping with the feet in Portugal after a scenic performance means that the show was horrific. The worst part was the conductor, Alexander Polianitchko. Unbelievable. More details next Wednesday here.
Note - hissing or booing is better for the performer, stamping with the feet is really bad in Portugal.
Etiquetas: Alexander Polianitchko, Rigoletto, S. Carlos, Sr. Hermenêutica, Stamping with the feet
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