
15.11.07
Ordem e Caos - Razão e Emoção
Depois de um jejum penitencial de alguns dias volto ao blogue. Volto para escrever a propósito de concertos desta semana, sobre a Orquestra Sinfónica Portuguesa e a sua falta de rumo e de estratégia.
Tenho sido acusado, justa ou injustamente, de escrever com demasiada paixão e, às vezes, sem razão. Vou tentar ser desapaixonado sobre um assunto que não pode deixar indiferentes em termos de razão e de emoção os portugueses amantes de música.
Começo pela Sinfónica Portuguesa. Esta orquestra tem uma história recente, recebe fundos do Estado Português de onde retira quase exclusivamente o seu orçamento. Tem também uma história de desconsideração enorme por parte dos poderes públicos, sem condições para ensaiar, sem meios, sem maestro titular desde a saída de Soltan Péskó que deixou aliás uma memória de péssima qualidade artística. Depois de outros maestros titulares sem a menor marca ou valor a orquestra está neste momento entregue aos bichos, sem uma política efectiva de gestão artística, que se arrasta com a contratação deste novo director artístico do teatro nacional de S. Carlos que tem a tutela da orquestra sinfónica portuguesa, e que trabalha em part time em Lisboa. O desleixo relativamente à OSP é tão grande que nem sequer um concertino principal (1º violino solista e chefe de naipe dos violinos) tem neste momento.
Não existe qualquer razão emocional que ligue os portugueses a esta orquestra dirigida inicialmente por Álvaro Cassuto. É considerada nacional e internacionalmente, muito justamente, como uma orquestra fraca e pouco empenhada.
Esta orquestra custa ao erário público português muitos milhões de euros, creio que só em vencimentos e reforços atinge os 3 milhões, importância mínima para uma verdadeira orquestra sinfónica e um desperdício neste caso. Dedica-se a fazer algumas óperas, cada vez menos, que necessitam de recursos muito menores do que o seu efectivo, ficando muitos músicos em casa. Faz ainda alguns concertos muito esporadicamente e em número muitíssimo menor que qualquer orquestra sinfónica nacional. Não tem uma temporada de concertos coerente. A sua qualidade é muito baixa e isso nota-se quando os maestros são também eles de qualidade muito baixa, como neste ano com um rapaz alemão do qual não me recordo o nome e com um José Cura em que se atingiu o nível da indigência musical num concerto pretensamente de "gala" e que foi mais um concerto de miséria. Uma orquestra incapaz de tocar as notas da nona de Beethoven apesar da falta de direcção de José Cura não pode ostentar o nome de orquestra. Orquestra significa organização, significa concerto de personalidades e de valências musicais artísticas, e o que temos com a OSP é uma desorganização, uma desestruturação orgânica, é um agrupamento em fase de disrupção. Hoje a OSP é desagregação, é falta de motivação. O desrespeito por parte da tutela da cultura leva à desculpabilização dos músicos pela falta de qualidade artística do seu trabalho e a um desinteresse de muitos dos músicos pelo seu trabalho e pela música.
Esquecem-se no entanto que a música e o respeito pelo público e por si próprios estão acima da real desvalorização do papel da orquestra por parte dos poderes públicos que até são tutelados por professores catedráticos e não apenas por jovens turcos carreiristas oriundos das juventudes partidárias...
Qual a solução para este problema? Penso que a solução é simples. A OSP não tem qualquer património, não criou afectos ou empatias com o público. Os concertos no CCB estão às moscas, apesar de chuvas copiosas de convites, mesmo quando dirigidos por maestros de qualidade que por vezes disfarçam a real dimensão do problema com uma semana de ensaios mais ou menos atribulados. Quando aparece uma "estrela" lá se vai ao concerto e este enche, devido ao nome da estrela e, em muitos casos, para tirar os vestidos da naftalina, isto acontece sobretudo no velho teatro. O público lá vai aquentando a orquestra para ter o prazer de escutar uns dós de peito do tenor ou uns sobreagudos da diva, que nisto do gosto lusitano que quanto mais berrar o tenor ou mais guinchar a diva mais palmas e bravos levam, e têm de ser agudos, que baixos e contraltos não têm nunca o mesmo sucesso em Portugal do que os seus comparsas que andam no arame das notas perigosas...
Por outro lado a esquizofrenia de uma orquestra sinfónica sem sede, sem espaço, sem director, que não se sabe se é de ópera ou sinfónica, leva a uma permanente indefinição.
Recordo o exemplo da Metropolitana de Lisboa, que sob a direcção de Michael Zilm e de outros bons maestros e a uma política inteligente e apaixonada de Gabriela Canavilhas, apesar da tradicional barragem de críticas que muitos "melómanos" e outros maldicentes lusos lhe levantam, tem levado a um aumento de qualidade efectivo desta orquestra e a um aumento real de qualidade.
Mas nada se faz sem cortar, sem doer, a metropolitana tem despedido músicos, alguns até com capacidades, mas que provaram ao longo do tempo ser incapazes de manter um nível elevado sabe-se lá porque razões.
Extinção da OSP, a única solução
É neste contexto que penso que a solução seria acabar com a OSP. A extinção desta orquestra é a única solução que vejo no horizonte. O plano seria muito simples, criar uma orquestra de ópera, com cerca 40 músicos abaixo do efectivo da actual, que se especializasse em ópera e, em menor escal, bailado. A simples razão de se fazer Wagner com menos 19 cordas do que o previsto na partitura "porque não cabem no fosso" é razão mais do que suficiente para pensar numa orquestra muito mais económica. Nas grandes produções em que é necessário uma orquestra grande, a nova "Orquestra do S. Carlos" seria reforçada com músicos pagos específicamente para a tarefa. Poupar-se-ia ao erário público muitos milhões de euros em vencimentos, contribuições, reformas e segurança social.
Na contratação de músicos para esta orquestra seria dada prioridade aos músicos da actual OSP que mostrassem qualidade para tocar. Quem seria o júri destas contratações? Seriam músicos de elevadíssimo padrão internacional a presidir ao júri, exemplo Rattle, Abbado, Haitink, Gardiner. Não haveria a menor ingerência do poder político nesta questão, nem delegados do Secretário de Estado nem membros nomeados pela OPART, ou por nomeação do director artístico. Pedir-se-ia ao maestro de nomeada, presidente dos júris, que decidisse dos diferentes avaliadores para avaliar os instrumentistas. Cada painel teria que ser formado por músicos de nacionalidades diferentes (para evitar enviesamentos estilísticos, regionais ou outros), este maestro nomearia os especialistas dos diversos instrumentos para fazer as avaliações para cada naipe. Esta orquestra teria reavaliações obrigatórias a cada três anos.
Teria de ser nomeado um director artístico presente e permanente. Este esquema permitiria poupar dinheiro em vencimentos de forma a pagar um vencimento decente ao director para atrair gente de qualidade elevada e não um simples Peskó (que mesmo assim ganhava 4000 euros por mês mesmo quando não punha cá os pés), ou mesmo um Ranzetti ou, pior, um destes rapazes saídos do conservatório que têm aparecido sem qualquer noção do que é gerir o tremendo caldeirão de personalidades que é uma orquestra. Os vencimentos dos músicos da orquestra seriam mais elevados do que os actuais em cerca de vinte por cento. Mesmo triplicando o vencimento do titular e pagando mais vinte por cento aos músicos da nova orquestra poupar-se-ia uma soma de cerca de quinhentos mil euros por ano, o suficiente para pagar uma renda de uma sede e pagar todos os extras e mais alguns, com um aumento extraordinário de qualidade.
O problema é que mesmo pagando o triplo, hoje, creio que não há nenhum maestro de craveira internacional que aceite vir dirigir a Sinfónica Portuguesa. É evidente que a nova orquestra da ópera do S. Carlos teria de ter uma política claríssima de procura da qualidade, a partir da sua criação, o que já poderia ser estimulante para um maestro de elevado nível. Noto que ao vencimento do titular acrescem sempre os cachets dos concertos e óperas que dirige, já o foi assim no tempo de Peskó...
O coro do S. Carlos seria refundado a partir do nada, já que o que
"existe" é menos que nada, com um juri internacional para o qual convidaria (para presidir) Eberhard Friedrich, para mim o melhor maestro de coro de ópera do mundo.
Primeiros Violinos: actual 19, nova orquestra 12: -7
Segundos Violinos: actual 17, nova orquestra 10: -7
Violas: actual 15, nova orquestra 8: -7
Violoncelos: actual 11, nova orquestra 6: -5
Contrabaixos: actual 9, nova orquestra 4: -5
Flautas: actual 4, nova orquestra 3: -1
Oboés: actual 4, nova orquestra 3: -1
Clarinetes: actual 4, nova orquestra 3: -1
Fagotes: actual 4, nova orquestra 3: -1
Trompas: actual 6, nova orquestra 3: -1
Trompetes: actual 4, nova orquestra 3: -1
Trombones: actual 4, nova orquestra 3: -1
Tuba: actual 1, nova orquestra seria extra: -1
Percussão: actual 4, nova orquestra 1 (só tímpanos): -3
Harpa: actual 1, nova orquestra seria extra: -1
Existem outros modelos, de forma ainda mais radical poder-se-iam reduzir as madeiras a pares ou, noutro sentido, poder-se-iam manter tuba e harpa. É evidente que aqui escrevo em abstracto, não tenho razões de queixa artísticas, quaisquer que sejam, dos instrumentistas em particular.
A esta nova orquestra seria dado o edifício da CNB como sede, que seria totalmente remodelado. O bailado seria transferido para outras instalações a construir de raiz na área envolvente do teatro Camões.
Portugal ficaria sem orquestra sinfónica nacional. Por enquanto sim. Quem questiona isto tem como resposta duas perguntas:
Será que Portugal tem uma Orquestra Sinfónica Nacional? Aquela que tem o nome de Orquestra Sinfónica Portuguesa é motivo para orgulho?
Dispenso-me de dar uma resposta.
Tenho sido acusado, justa ou injustamente, de escrever com demasiada paixão e, às vezes, sem razão. Vou tentar ser desapaixonado sobre um assunto que não pode deixar indiferentes em termos de razão e de emoção os portugueses amantes de música.
Começo pela Sinfónica Portuguesa. Esta orquestra tem uma história recente, recebe fundos do Estado Português de onde retira quase exclusivamente o seu orçamento. Tem também uma história de desconsideração enorme por parte dos poderes públicos, sem condições para ensaiar, sem meios, sem maestro titular desde a saída de Soltan Péskó que deixou aliás uma memória de péssima qualidade artística. Depois de outros maestros titulares sem a menor marca ou valor a orquestra está neste momento entregue aos bichos, sem uma política efectiva de gestão artística, que se arrasta com a contratação deste novo director artístico do teatro nacional de S. Carlos que tem a tutela da orquestra sinfónica portuguesa, e que trabalha em part time em Lisboa. O desleixo relativamente à OSP é tão grande que nem sequer um concertino principal (1º violino solista e chefe de naipe dos violinos) tem neste momento.
Não existe qualquer razão emocional que ligue os portugueses a esta orquestra dirigida inicialmente por Álvaro Cassuto. É considerada nacional e internacionalmente, muito justamente, como uma orquestra fraca e pouco empenhada.
Esta orquestra custa ao erário público português muitos milhões de euros, creio que só em vencimentos e reforços atinge os 3 milhões, importância mínima para uma verdadeira orquestra sinfónica e um desperdício neste caso. Dedica-se a fazer algumas óperas, cada vez menos, que necessitam de recursos muito menores do que o seu efectivo, ficando muitos músicos em casa. Faz ainda alguns concertos muito esporadicamente e em número muitíssimo menor que qualquer orquestra sinfónica nacional. Não tem uma temporada de concertos coerente. A sua qualidade é muito baixa e isso nota-se quando os maestros são também eles de qualidade muito baixa, como neste ano com um rapaz alemão do qual não me recordo o nome e com um José Cura em que se atingiu o nível da indigência musical num concerto pretensamente de "gala" e que foi mais um concerto de miséria. Uma orquestra incapaz de tocar as notas da nona de Beethoven apesar da falta de direcção de José Cura não pode ostentar o nome de orquestra. Orquestra significa organização, significa concerto de personalidades e de valências musicais artísticas, e o que temos com a OSP é uma desorganização, uma desestruturação orgânica, é um agrupamento em fase de disrupção. Hoje a OSP é desagregação, é falta de motivação. O desrespeito por parte da tutela da cultura leva à desculpabilização dos músicos pela falta de qualidade artística do seu trabalho e a um desinteresse de muitos dos músicos pelo seu trabalho e pela música.
Esquecem-se no entanto que a música e o respeito pelo público e por si próprios estão acima da real desvalorização do papel da orquestra por parte dos poderes públicos que até são tutelados por professores catedráticos e não apenas por jovens turcos carreiristas oriundos das juventudes partidárias...
Qual a solução para este problema? Penso que a solução é simples. A OSP não tem qualquer património, não criou afectos ou empatias com o público. Os concertos no CCB estão às moscas, apesar de chuvas copiosas de convites, mesmo quando dirigidos por maestros de qualidade que por vezes disfarçam a real dimensão do problema com uma semana de ensaios mais ou menos atribulados. Quando aparece uma "estrela" lá se vai ao concerto e este enche, devido ao nome da estrela e, em muitos casos, para tirar os vestidos da naftalina, isto acontece sobretudo no velho teatro. O público lá vai aquentando a orquestra para ter o prazer de escutar uns dós de peito do tenor ou uns sobreagudos da diva, que nisto do gosto lusitano que quanto mais berrar o tenor ou mais guinchar a diva mais palmas e bravos levam, e têm de ser agudos, que baixos e contraltos não têm nunca o mesmo sucesso em Portugal do que os seus comparsas que andam no arame das notas perigosas...
Por outro lado a esquizofrenia de uma orquestra sinfónica sem sede, sem espaço, sem director, que não se sabe se é de ópera ou sinfónica, leva a uma permanente indefinição.
Recordo o exemplo da Metropolitana de Lisboa, que sob a direcção de Michael Zilm e de outros bons maestros e a uma política inteligente e apaixonada de Gabriela Canavilhas, apesar da tradicional barragem de críticas que muitos "melómanos" e outros maldicentes lusos lhe levantam, tem levado a um aumento de qualidade efectivo desta orquestra e a um aumento real de qualidade.
Mas nada se faz sem cortar, sem doer, a metropolitana tem despedido músicos, alguns até com capacidades, mas que provaram ao longo do tempo ser incapazes de manter um nível elevado sabe-se lá porque razões.
Extinção da OSP, a única solução
É neste contexto que penso que a solução seria acabar com a OSP. A extinção desta orquestra é a única solução que vejo no horizonte. O plano seria muito simples, criar uma orquestra de ópera, com cerca 40 músicos abaixo do efectivo da actual, que se especializasse em ópera e, em menor escal, bailado. A simples razão de se fazer Wagner com menos 19 cordas do que o previsto na partitura "porque não cabem no fosso" é razão mais do que suficiente para pensar numa orquestra muito mais económica. Nas grandes produções em que é necessário uma orquestra grande, a nova "Orquestra do S. Carlos" seria reforçada com músicos pagos específicamente para a tarefa. Poupar-se-ia ao erário público muitos milhões de euros em vencimentos, contribuições, reformas e segurança social.
Na contratação de músicos para esta orquestra seria dada prioridade aos músicos da actual OSP que mostrassem qualidade para tocar. Quem seria o júri destas contratações? Seriam músicos de elevadíssimo padrão internacional a presidir ao júri, exemplo Rattle, Abbado, Haitink, Gardiner. Não haveria a menor ingerência do poder político nesta questão, nem delegados do Secretário de Estado nem membros nomeados pela OPART, ou por nomeação do director artístico. Pedir-se-ia ao maestro de nomeada, presidente dos júris, que decidisse dos diferentes avaliadores para avaliar os instrumentistas. Cada painel teria que ser formado por músicos de nacionalidades diferentes (para evitar enviesamentos estilísticos, regionais ou outros), este maestro nomearia os especialistas dos diversos instrumentos para fazer as avaliações para cada naipe. Esta orquestra teria reavaliações obrigatórias a cada três anos.
Teria de ser nomeado um director artístico presente e permanente. Este esquema permitiria poupar dinheiro em vencimentos de forma a pagar um vencimento decente ao director para atrair gente de qualidade elevada e não um simples Peskó (que mesmo assim ganhava 4000 euros por mês mesmo quando não punha cá os pés), ou mesmo um Ranzetti ou, pior, um destes rapazes saídos do conservatório que têm aparecido sem qualquer noção do que é gerir o tremendo caldeirão de personalidades que é uma orquestra. Os vencimentos dos músicos da orquestra seriam mais elevados do que os actuais em cerca de vinte por cento. Mesmo triplicando o vencimento do titular e pagando mais vinte por cento aos músicos da nova orquestra poupar-se-ia uma soma de cerca de quinhentos mil euros por ano, o suficiente para pagar uma renda de uma sede e pagar todos os extras e mais alguns, com um aumento extraordinário de qualidade.
O problema é que mesmo pagando o triplo, hoje, creio que não há nenhum maestro de craveira internacional que aceite vir dirigir a Sinfónica Portuguesa. É evidente que a nova orquestra da ópera do S. Carlos teria de ter uma política claríssima de procura da qualidade, a partir da sua criação, o que já poderia ser estimulante para um maestro de elevado nível. Noto que ao vencimento do titular acrescem sempre os cachets dos concertos e óperas que dirige, já o foi assim no tempo de Peskó...
O coro do S. Carlos seria refundado a partir do nada, já que o que
"existe" é menos que nada, com um juri internacional para o qual convidaria (para presidir) Eberhard Friedrich, para mim o melhor maestro de coro de ópera do mundo.
Primeiros Violinos: actual 19, nova orquestra 12: -7
Segundos Violinos: actual 17, nova orquestra 10: -7
Violas: actual 15, nova orquestra 8: -7
Violoncelos: actual 11, nova orquestra 6: -5
Contrabaixos: actual 9, nova orquestra 4: -5
Flautas: actual 4, nova orquestra 3: -1
Oboés: actual 4, nova orquestra 3: -1
Clarinetes: actual 4, nova orquestra 3: -1
Fagotes: actual 4, nova orquestra 3: -1
Trompas: actual 6, nova orquestra 3: -1
Trompetes: actual 4, nova orquestra 3: -1
Trombones: actual 4, nova orquestra 3: -1
Tuba: actual 1, nova orquestra seria extra: -1
Percussão: actual 4, nova orquestra 1 (só tímpanos): -3
Harpa: actual 1, nova orquestra seria extra: -1
Existem outros modelos, de forma ainda mais radical poder-se-iam reduzir as madeiras a pares ou, noutro sentido, poder-se-iam manter tuba e harpa. É evidente que aqui escrevo em abstracto, não tenho razões de queixa artísticas, quaisquer que sejam, dos instrumentistas em particular.
A esta nova orquestra seria dado o edifício da CNB como sede, que seria totalmente remodelado. O bailado seria transferido para outras instalações a construir de raiz na área envolvente do teatro Camões.
Portugal ficaria sem orquestra sinfónica nacional. Por enquanto sim. Quem questiona isto tem como resposta duas perguntas:
Será que Portugal tem uma Orquestra Sinfónica Nacional? Aquela que tem o nome de Orquestra Sinfónica Portuguesa é motivo para orgulho?
Dispenso-me de dar uma resposta.
Etiquetas: OPART, Orquestra Sinfónica Portuguesa, S. Carlos, São, Sr. Hermenêutica
29.6.07
S. Carlos
É preciso ser claro e curto sobre esta temporada, mais tarde vou escrever com mais detalhe.
O S. Carlos afasta-se da sua verdadeira missão procurando programar concertos de câmara, concertos de coro, concertos disto e daquilo, número de espectáculos a subir 27%. Aquilo que é apresentado pela Opart como um grande ganho de actividade e que é apenas ter quatro ópera encenadas para o grande público, uma ópera em estreia para o pequeno público, uma sessão de ópera em versão de concerto, que já no tempo de Pinamonti era uma falácia para meter na temporada lírica e que continua agora, e uma ópera para as crianças.
O Siegfried vai para Outubro ou Novembro, por razões de agenda de cantores e encenador e sai desta temporada.
É necessário dizer que o aumento de actividade anunciado com pompa e circunstância pela Opart e pelo secretário de Estado resulta da diminuição do número de verdadeiras produções operáticas de qualidade, cinco encenações de peso é um número vergonhoso para qualquer capital europeia, é pobre é miserável, apesar dos agentes infiltrados no jornal "O Público" que contam sete, sete, senhores, encenações! Julgava que para dar a volta aos números bastava o secretário de Estado a dizer na conferência de imprensa que Pinamonti tinha "40 récitas e que agora havia 50 récitas, logo um aumento de 10"! Contando bem Pinamonti tinha 43 e agora há 42, e se contarmos a encenação barata para as crianças com cantores de quinta categoria temos 48, logo ou há uma diminuição de uma ópera ou um aumento de cinco, algo que nada tem a ver com as "cinquenta récitas de agora" e as "dez a mais" anunciadas antes. Parecia ser uma questão de hermenêutica, como assinalei a sua Excia na conferência de Imprensa, o que causou uma surpreendente gargalhada na sala e uma resposta balbuciante de que as estatísticas contavam pouco, quando antes tinham sido invocadas pelo próprio Sr. secretário de Estado. Mais detalhes nos artigos que escreverei nas várias revistas onde colaboro.
Uma encenação, muito por baixo, custa 600.000 euros e dá para fazer uns 500 concertos de câmara com artistas portugueses e de qualidade internacional reduzida, se forem duetos a cinquenta contos cada músico dá para 1200 concertos, que aumento de produtividade! É necessário dizer que há muitos anos que a temporada não contava um número tão baixo de encenações. Mas será que alguém quer no S. Carlos uma Gulbenkian de terceira, uma Metropolina de segunda, um CCB de segunda. Não será que o público quer é um teatro de ópera? Creio que com este número de encenações deveríamos ter uns duzentos concertos de câmara a mais, uns cinquenta concertos de orquestra sinfónica e uns coros. Já que se cortou tanto na produção poder-se-ia ter muitíssimo mais lied, o que está dentro da linha de um teatro operático, mas nem sequer esse vertente foi muito reforçada, com cinco encenações sobraria dinheiro para uns 120 recitais de lied com cantores razoáveis a nível internacional e um ou dois com cantores de altíssimo nível. Além disso acho péssima a ideia de fazer concertos de coro, expor as vergonhas públicas do S. Carlos é mau, se o coro fosse de qualidade a ideia era boa, assim será apenas mais um fracasso, deve-se apostar na qualidade e não na mediocridade. Deixo de barato a ideia de fazer espectáculos com ranchos folclóricos, isso sim, seria um aumento de produtividade notável! Diversificar e fazer tudo menos ópera.
Um pouco mais a sério: quatro óperas encenadas para o grande público, ópera popular, pouco profunda, numa visão esteticamente enviezada, sem ópera alemã, sem opera barroca: de Offenbach os Contos de Hoffmann, de Verdi o Rigoletto com 11 récitas(!!), de Puccini a Tosca (também com 11 récitas) e de Mozart a Clemência de Tito que, francamente, não é sequer uma das melhores produções do grande Mozart, e para o pequeno público de Emanuel Nunes vem Der Märchen, uma carta fechada e, pelo que já se escutou, intragável e, provavelmente, um desastre financeiro.
Cantores de segunda, jovens, e muitos portugueses, é evidente que, com três produções novas se podem ter encenadores razoáveis, mas mesmo assim a aposta é também em alguma juventude e os directores musicais são também de qualidade muito mediana. Entretanto a temporada é apresentada de forma truncadíssima em termos de cantores que ainda nem sequer devem ter sido contratados.
Boas notícias: a Opart permite programação plurianual, o presidente do conselho da Opart parece competente e com os números que tem conseguiu passar uma imagem de grande produtividade e realização que deixou os jornalistas presentes calados, mas só o tempo dirá se este modelo resulta. Esta actividade toda é apenas uma cosmética que resulta da redução da produção operática, podia ser pior.
Infelizmente a parte artística não me parece grande coisa, culpa de Damann em part time entre Colónia e Lisboa até Setembro de 2008, o que no meu entender é mais um escândalo e um desperdício de dinheiros públicos. Talvez Damann consiga com mais tempo fazer melhor, mas a primeira impressão de análise no papel e não na conversa tida com o alemão, é que esta temporada é um triunfo das teses do Sr. Hermenêutica: ópera barata e popular, cantores portugueses, e muitas récitas da Tosca e do Rigoletto que é disso que o povo gosta.
Agora uma nota final: Com a Opart e Vieira de Carvalho a intervir directamente temos a ópera ainda mais cara do mundo! Quinze milhoes e meio de euros a dividir por cinco encenações são: mais de cinco milhões de euros por ópera! Um milhão de contos por produção! Notável, dava para fechar a Opart e mandar vir as produções do Convent Garden em tournée, provavelmente daria para 10 produções e poupava-se uma data de dinheiro em ordenados...
O S. Carlos afasta-se da sua verdadeira missão procurando programar concertos de câmara, concertos de coro, concertos disto e daquilo, número de espectáculos a subir 27%. Aquilo que é apresentado pela Opart como um grande ganho de actividade e que é apenas ter quatro ópera encenadas para o grande público, uma ópera em estreia para o pequeno público, uma sessão de ópera em versão de concerto, que já no tempo de Pinamonti era uma falácia para meter na temporada lírica e que continua agora, e uma ópera para as crianças.
O Siegfried vai para Outubro ou Novembro, por razões de agenda de cantores e encenador e sai desta temporada.
É necessário dizer que o aumento de actividade anunciado com pompa e circunstância pela Opart e pelo secretário de Estado resulta da diminuição do número de verdadeiras produções operáticas de qualidade, cinco encenações de peso é um número vergonhoso para qualquer capital europeia, é pobre é miserável, apesar dos agentes infiltrados no jornal "O Público" que contam sete, sete, senhores, encenações! Julgava que para dar a volta aos números bastava o secretário de Estado a dizer na conferência de imprensa que Pinamonti tinha "40 récitas e que agora havia 50 récitas, logo um aumento de 10"! Contando bem Pinamonti tinha 43 e agora há 42, e se contarmos a encenação barata para as crianças com cantores de quinta categoria temos 48, logo ou há uma diminuição de uma ópera ou um aumento de cinco, algo que nada tem a ver com as "cinquenta récitas de agora" e as "dez a mais" anunciadas antes. Parecia ser uma questão de hermenêutica, como assinalei a sua Excia na conferência de Imprensa, o que causou uma surpreendente gargalhada na sala e uma resposta balbuciante de que as estatísticas contavam pouco, quando antes tinham sido invocadas pelo próprio Sr. secretário de Estado. Mais detalhes nos artigos que escreverei nas várias revistas onde colaboro.
Uma encenação, muito por baixo, custa 600.000 euros e dá para fazer uns 500 concertos de câmara com artistas portugueses e de qualidade internacional reduzida, se forem duetos a cinquenta contos cada músico dá para 1200 concertos, que aumento de produtividade! É necessário dizer que há muitos anos que a temporada não contava um número tão baixo de encenações. Mas será que alguém quer no S. Carlos uma Gulbenkian de terceira, uma Metropolina de segunda, um CCB de segunda. Não será que o público quer é um teatro de ópera? Creio que com este número de encenações deveríamos ter uns duzentos concertos de câmara a mais, uns cinquenta concertos de orquestra sinfónica e uns coros. Já que se cortou tanto na produção poder-se-ia ter muitíssimo mais lied, o que está dentro da linha de um teatro operático, mas nem sequer esse vertente foi muito reforçada, com cinco encenações sobraria dinheiro para uns 120 recitais de lied com cantores razoáveis a nível internacional e um ou dois com cantores de altíssimo nível. Além disso acho péssima a ideia de fazer concertos de coro, expor as vergonhas públicas do S. Carlos é mau, se o coro fosse de qualidade a ideia era boa, assim será apenas mais um fracasso, deve-se apostar na qualidade e não na mediocridade. Deixo de barato a ideia de fazer espectáculos com ranchos folclóricos, isso sim, seria um aumento de produtividade notável! Diversificar e fazer tudo menos ópera.
Um pouco mais a sério: quatro óperas encenadas para o grande público, ópera popular, pouco profunda, numa visão esteticamente enviezada, sem ópera alemã, sem opera barroca: de Offenbach os Contos de Hoffmann, de Verdi o Rigoletto com 11 récitas(!!), de Puccini a Tosca (também com 11 récitas) e de Mozart a Clemência de Tito que, francamente, não é sequer uma das melhores produções do grande Mozart, e para o pequeno público de Emanuel Nunes vem Der Märchen, uma carta fechada e, pelo que já se escutou, intragável e, provavelmente, um desastre financeiro.
Cantores de segunda, jovens, e muitos portugueses, é evidente que, com três produções novas se podem ter encenadores razoáveis, mas mesmo assim a aposta é também em alguma juventude e os directores musicais são também de qualidade muito mediana. Entretanto a temporada é apresentada de forma truncadíssima em termos de cantores que ainda nem sequer devem ter sido contratados.
Boas notícias: a Opart permite programação plurianual, o presidente do conselho da Opart parece competente e com os números que tem conseguiu passar uma imagem de grande produtividade e realização que deixou os jornalistas presentes calados, mas só o tempo dirá se este modelo resulta. Esta actividade toda é apenas uma cosmética que resulta da redução da produção operática, podia ser pior.
Infelizmente a parte artística não me parece grande coisa, culpa de Damann em part time entre Colónia e Lisboa até Setembro de 2008, o que no meu entender é mais um escândalo e um desperdício de dinheiros públicos. Talvez Damann consiga com mais tempo fazer melhor, mas a primeira impressão de análise no papel e não na conversa tida com o alemão, é que esta temporada é um triunfo das teses do Sr. Hermenêutica: ópera barata e popular, cantores portugueses, e muitas récitas da Tosca e do Rigoletto que é disso que o povo gosta.
Agora uma nota final: Com a Opart e Vieira de Carvalho a intervir directamente temos a ópera ainda mais cara do mundo! Quinze milhoes e meio de euros a dividir por cinco encenações são: mais de cinco milhões de euros por ópera! Um milhão de contos por produção! Notável, dava para fechar a Opart e mandar vir as produções do Convent Garden em tournée, provavelmente daria para 10 produções e poupava-se uma data de dinheiro em ordenados...
Etiquetas: Christoph Dammann, OPART, S. Carlos, Sr. Hermenêutica
7.6.07
O talento da manipulação
Vieira de Carvalho continua com um grave problema de lógica, como posso constatar na entrevista no Jornal de Letras de hoje. Vieira de Carvalho, o hermenêuta da Ajuda, atira uns números para o ar, percebe-se que com o OPART poupa-se um milhão e trezentos mil euros. Segue a sequência da entrevista.
O jornalista pergunta: Como?
Hermeneuta: Sobretudo com a redução de quadros dirigentes.
J. Foram despedidos?
H. Não: há menos directores de serviços, menos directores gerais.
J. E foram para onde?
H. Continuam a trabalhar, grande parte deles com funções diferentes.
J. A ganhar menos... Se ganham o mesmo, não houve poupança.
H. Os termos dos vencimentos estão regulados. Não dou mais detalhes.
Genial, fica ao leitor a hermenêutica, sem necessidade de recorrer à arte das cifras exóticas.
Mais à frente o senhor Hermeneuta, que sendo catedrático de musicologia e licenciado em direito, parece que nunca aprendeu a fazer contas:
"O S. Carlos custa 38.000 euros por dia. Cada assinante por oito óperas recebe 2.500 de subsídio do Estado, o que significa seis salários mínimos nacionais. É o teatro de ópera mais caro da Europa."
Vejamos as falácias das divisões na nossa arte de prestidigitação numérica: o S. Carlos fica a menos de 4 milésimos de euro por dia a cada português e a 3 cêntimos de euro por récita por lusitano residente em Portugal e que pode ouvir essas mesmas récitas pela antena 2! O S. Carlos é mesmo barato, o total dos dinheiros públicos gastos na ópera na Alemanha por cidadão é mais de cinquenta vezes mais... E quanto custa o gabinete do Sr. Hermenêutica a cada português? Não será também ele demasiado caro para a produtividade que tem? Fica o repto para se fazerem essas contas.
Admitindo que as divisões do secretário estão certas, recordamos que em orçamento o S. Carlos é um dos teatros de ópera mais baratos do mundo, curiosamente por isso é que sai caro por récita. Para fazer mais produções é necessário dotar as instituições de um orçamento para produções além dos custos fixos. Vieira de Carvalho diz que Lisboa é a cidade com ópera mais cara da Europa. Se a culpa não fosse do governo ainda percebia o lamento, mas como esta situação é integralmente da culpa do executivo não percebo o queixume, ou é pouco inteligente ou é manipulador. Explico a fundamentação do que digo:
O S. Carlos tem 13 milhões de euros por ano, qualquer teatro de capital europeia supera largamente os trinta milhões.
O S. Carlos gasta pelo menos dez milhões em custos fixos. Sobram uns tostões para as tais oito óperas. Imagine-se que com três milhões se fazem oito óperas. Quando dá? 50 euros por ópera por espectador, bem distante do que o secretário anda a apregoar! O público paga mais do que isso por bilhete médio! Imagine-se agora que em vez de oito óperas tinha 32 produções, o quádruplo. Já houve mas no tempo do Salazar, era fascista mas, do mal o menos, gostava de música, fica aqui o lembrete a Teixeira dos Santos e a Sócrates de que o seu modelo gastava umas massas no S. Carlos e ouvia depois o resultado pela Emissora Nacional, Programa 2. O Salazar não era só fazer processos disciplinares e meter malta na cadeia quando diziam mal do Presidente do Conselho numa conversa de amigos presenciada por um qualquer bufo.
Seriam agora necessários 12 milhões para estas 32 produções. Colocamos 13 milhões para se fazerem umas coisas com uns cantores melhores que a Theodossiou. Estes 13 milhões são a parte variável do orçamento, e representam os mesmos cinquenta euros, apenas em custos de produção, por espectador/récita. Gastávamos menos do dobro do orçamento actual e passávamos a ter, em vez de oito miseráveis óperas, 32 óperas por ano, qualquer coisa como 4 estreias nos meses activos da temporada.
Façamos agora as contas à moda do hermeneuta 13 + 10 = 23 milhões. O hermeneuta divide os 13 milhões por 1000 lugares a 90 por cento de ocupação e a uma média de seis récitas, obtém assim cerca de 2500 euros para o ciclo de oito óperas por espectador. Quanto o número sobe para 23.000.000, supomos agora que há 32 produções cada com uma média de sete récitas, existem 1000 lugares e mantém-se os 90% de ocupação. Fica agora a cerca de 110 euros por récita/espectador, longe dos 312.5 do hermeneuta. O que é que isto quer dizer? Subiu-se o orçamento para 23 milhões, ainda assim abaixo do Real de Madrid, de Paris, numa ínfima fracção de Berlim com as suas três óperas, a léguas de Viena, abaixo do teatro de Colónia ou mesmo do pequeno teatro de Mannheim, e o preço desceu para 110 euros. Conclusão: Lisboa, por culpa do governo, tem a ópera mais cara do mundo. É claro que também tem um dos governos mais caros do mundo em termos do que lhes pagamos e do benefício que trazem ao país, zero.
E quanto paga o espectador? 60 euros por bilhete, o subsídio por espectador passaria assim para os 50 euros por récita/espectador! Repare o leitor que este subsídio não é para o espectador ver uma ópera: o bilhete cobre o preço da produção (custo variável), o subsídio é para manter o teatro, a orquestra, o coro, o património, o know how, o prestígio internacional de Portugal. Repare-se que a orquestra não faz apenas ópera. Dividir o orçamento actual do S. Carlos apenas pela ópera é mais uma manipulação.
Como reduzir ainda mais a factura do Estado aumentando o consumo artístico? A solução é incrivelmente simples, reduzir a o número de récitas aumentando o número de produções. Parece impossível? Não, não é impossível, basta construir um teatro moderníssimo com 3000 lugares. Cada produção passaria a ter apenas entre duas a três récitas, os custos variáveis de um teatro de ópera dependem fortemente dos números de récitas. Os cantores solistas e os maestros recebem por récita: um maestro razoável recebe 15.000 euros pela estreia e 10.000 pelas récitas seguintes, um cantor (cachet muito variável) recebe também à récita. Além disso um teatro moderno e funcional passaria ser muito mais eficiente em termos de custos de produção.
Por outro lado dava-se à OSP uma possibilidade de ter uma sede fixa digna. O actual teatro de S. Carlos passaria a fazer festivais e música antiga, uma vez que é uma sala de ópera quase em estado original e de uma beleza única.
A contas actuais, e continuando a fazer os mesmos espectáculos por ano, 50 récitas, em 25 produções, cada uma vista por 5600 pagantes, teríamos muitíssimos mais espectadores. Seria o triplo dos espectadores actuais. Seria possível com custos estatais globais (fixos mais variáveis) que estimo em cerca de 16 milhões, apenas mais três milhões do que o orçamento estatal actual, ter cerca de 25 produções. O custo nesta nova situação seria de 110 euros por espectador, também um terço do actual! E apenas com um investimento anual de mais três milhões de euros e, claro está, um grande investimento num teatro novo de ópera mas que ficaria como obra de arte para o futuro num país que não faz nada a não ser consumir-se e a não deixar registo. Acho bem mais importante um bom teatro de ópera do que o aeroporto da Ota. Antes de criar aeroportos deve-se criar qualidade de vida para os que estão cá e para os que nos visitam, senão esta coisa fica mesmo um deserto...
Em Portugal parece loucura uma obra destas, os liberais e outros imbecis vão logo gritar "aqui d'el rei que se anda a gastar dinheiro dos contribuintes", na Itália e em França não foi loucura e rendeu. Recordo a Bastilha, Aix-en-Provence com o seu novo teatro, Valência (decorre a temporada inaugural) e a renovação do Alla Scala.
Mais uma vez Lisboa fica na cauda do mundo, pelo secretário de estado da cultura que tem, um mero sintoma da indigência nacional, e por tudo o resto, com a cultura sempre no fim de, absolutamente, tudo.
O jornalista pergunta: Como?
Hermeneuta: Sobretudo com a redução de quadros dirigentes.
J. Foram despedidos?
H. Não: há menos directores de serviços, menos directores gerais.
J. E foram para onde?
H. Continuam a trabalhar, grande parte deles com funções diferentes.
J. A ganhar menos... Se ganham o mesmo, não houve poupança.
H. Os termos dos vencimentos estão regulados. Não dou mais detalhes.
Genial, fica ao leitor a hermenêutica, sem necessidade de recorrer à arte das cifras exóticas.
Mais à frente o senhor Hermeneuta, que sendo catedrático de musicologia e licenciado em direito, parece que nunca aprendeu a fazer contas:
"O S. Carlos custa 38.000 euros por dia. Cada assinante por oito óperas recebe 2.500 de subsídio do Estado, o que significa seis salários mínimos nacionais. É o teatro de ópera mais caro da Europa."
Vejamos as falácias das divisões na nossa arte de prestidigitação numérica: o S. Carlos fica a menos de 4 milésimos de euro por dia a cada português e a 3 cêntimos de euro por récita por lusitano residente em Portugal e que pode ouvir essas mesmas récitas pela antena 2! O S. Carlos é mesmo barato, o total dos dinheiros públicos gastos na ópera na Alemanha por cidadão é mais de cinquenta vezes mais... E quanto custa o gabinete do Sr. Hermenêutica a cada português? Não será também ele demasiado caro para a produtividade que tem? Fica o repto para se fazerem essas contas.
Admitindo que as divisões do secretário estão certas, recordamos que em orçamento o S. Carlos é um dos teatros de ópera mais baratos do mundo, curiosamente por isso é que sai caro por récita. Para fazer mais produções é necessário dotar as instituições de um orçamento para produções além dos custos fixos. Vieira de Carvalho diz que Lisboa é a cidade com ópera mais cara da Europa. Se a culpa não fosse do governo ainda percebia o lamento, mas como esta situação é integralmente da culpa do executivo não percebo o queixume, ou é pouco inteligente ou é manipulador. Explico a fundamentação do que digo:
O S. Carlos tem 13 milhões de euros por ano, qualquer teatro de capital europeia supera largamente os trinta milhões.
O S. Carlos gasta pelo menos dez milhões em custos fixos. Sobram uns tostões para as tais oito óperas. Imagine-se que com três milhões se fazem oito óperas. Quando dá? 50 euros por ópera por espectador, bem distante do que o secretário anda a apregoar! O público paga mais do que isso por bilhete médio! Imagine-se agora que em vez de oito óperas tinha 32 produções, o quádruplo. Já houve mas no tempo do Salazar, era fascista mas, do mal o menos, gostava de música, fica aqui o lembrete a Teixeira dos Santos e a Sócrates de que o seu modelo gastava umas massas no S. Carlos e ouvia depois o resultado pela Emissora Nacional, Programa 2. O Salazar não era só fazer processos disciplinares e meter malta na cadeia quando diziam mal do Presidente do Conselho numa conversa de amigos presenciada por um qualquer bufo.
Seriam agora necessários 12 milhões para estas 32 produções. Colocamos 13 milhões para se fazerem umas coisas com uns cantores melhores que a Theodossiou. Estes 13 milhões são a parte variável do orçamento, e representam os mesmos cinquenta euros, apenas em custos de produção, por espectador/récita. Gastávamos menos do dobro do orçamento actual e passávamos a ter, em vez de oito miseráveis óperas, 32 óperas por ano, qualquer coisa como 4 estreias nos meses activos da temporada.
Façamos agora as contas à moda do hermeneuta 13 + 10 = 23 milhões. O hermeneuta divide os 13 milhões por 1000 lugares a 90 por cento de ocupação e a uma média de seis récitas, obtém assim cerca de 2500 euros para o ciclo de oito óperas por espectador. Quanto o número sobe para 23.000.000, supomos agora que há 32 produções cada com uma média de sete récitas, existem 1000 lugares e mantém-se os 90% de ocupação. Fica agora a cerca de 110 euros por récita/espectador, longe dos 312.5 do hermeneuta. O que é que isto quer dizer? Subiu-se o orçamento para 23 milhões, ainda assim abaixo do Real de Madrid, de Paris, numa ínfima fracção de Berlim com as suas três óperas, a léguas de Viena, abaixo do teatro de Colónia ou mesmo do pequeno teatro de Mannheim, e o preço desceu para 110 euros. Conclusão: Lisboa, por culpa do governo, tem a ópera mais cara do mundo. É claro que também tem um dos governos mais caros do mundo em termos do que lhes pagamos e do benefício que trazem ao país, zero.
E quanto paga o espectador? 60 euros por bilhete, o subsídio por espectador passaria assim para os 50 euros por récita/espectador! Repare o leitor que este subsídio não é para o espectador ver uma ópera: o bilhete cobre o preço da produção (custo variável), o subsídio é para manter o teatro, a orquestra, o coro, o património, o know how, o prestígio internacional de Portugal. Repare-se que a orquestra não faz apenas ópera. Dividir o orçamento actual do S. Carlos apenas pela ópera é mais uma manipulação.
Como reduzir ainda mais a factura do Estado aumentando o consumo artístico? A solução é incrivelmente simples, reduzir a o número de récitas aumentando o número de produções. Parece impossível? Não, não é impossível, basta construir um teatro moderníssimo com 3000 lugares. Cada produção passaria a ter apenas entre duas a três récitas, os custos variáveis de um teatro de ópera dependem fortemente dos números de récitas. Os cantores solistas e os maestros recebem por récita: um maestro razoável recebe 15.000 euros pela estreia e 10.000 pelas récitas seguintes, um cantor (cachet muito variável) recebe também à récita. Além disso um teatro moderno e funcional passaria ser muito mais eficiente em termos de custos de produção.
Por outro lado dava-se à OSP uma possibilidade de ter uma sede fixa digna. O actual teatro de S. Carlos passaria a fazer festivais e música antiga, uma vez que é uma sala de ópera quase em estado original e de uma beleza única.
A contas actuais, e continuando a fazer os mesmos espectáculos por ano, 50 récitas, em 25 produções, cada uma vista por 5600 pagantes, teríamos muitíssimos mais espectadores. Seria o triplo dos espectadores actuais. Seria possível com custos estatais globais (fixos mais variáveis) que estimo em cerca de 16 milhões, apenas mais três milhões do que o orçamento estatal actual, ter cerca de 25 produções. O custo nesta nova situação seria de 110 euros por espectador, também um terço do actual! E apenas com um investimento anual de mais três milhões de euros e, claro está, um grande investimento num teatro novo de ópera mas que ficaria como obra de arte para o futuro num país que não faz nada a não ser consumir-se e a não deixar registo. Acho bem mais importante um bom teatro de ópera do que o aeroporto da Ota. Antes de criar aeroportos deve-se criar qualidade de vida para os que estão cá e para os que nos visitam, senão esta coisa fica mesmo um deserto...
Em Portugal parece loucura uma obra destas, os liberais e outros imbecis vão logo gritar "aqui d'el rei que se anda a gastar dinheiro dos contribuintes", na Itália e em França não foi loucura e rendeu. Recordo a Bastilha, Aix-en-Provence com o seu novo teatro, Valência (decorre a temporada inaugural) e a renovação do Alla Scala.
Mais uma vez Lisboa fica na cauda do mundo, pelo secretário de estado da cultura que tem, um mero sintoma da indigência nacional, e por tudo o resto, com a cultura sempre no fim de, absolutamente, tudo.
Etiquetas: OPART, Orquestra Sinfónica Portuguesa, S. Carlos, Sr. Hermenêutica, Vieira de Carvalho
17.5.07
OPART o benefício da dúvida
Nasce torta e tarde e depois de muitas tergiversões do secretário hermenêutico e da ministra que parece andar a leste, ou na Arábia. A direcção parece ser técnica e competente na sua área, para já o benefício da dúvida. Esperam-se os directores artísticos e que a hermenêutica não espete a faca nas costas, pelo menos demasiado depressa, dos nomeados. Sem levantarem ondas, continuando a zelar por uma hermenêutica bem polida, Fragateiro e Pais permanecem colados às cadeiras. Segue notícia da LUSA:
17-05-2007 14:30:00. Fonte LUSA.
Temas: cultura governo teatro música portugal
Cultura: Pedro Santos Moreira nomeado presidente do OPART
Lisboa, 17 Mai (Lusa) - Pedro dos Santos Moreira será o presidente do OPART, Organismo de Produção Artística que tutelará a Companhia Nacional de Bailado e o Teatro de São Carlos, informou hoje o Ministério da Cultura.
A direcção do OPART será também integrada por Carlos Santos Vargas e Henrique Pinto Ferreira.
A mesma nota ministerial anuncia a recondução de Carlos Fragateiro e Ricardo Pais à frente, respectivamente, dos teatros nacionais D. Maria II e São João.
Carlos Fragateiro e Ricardo Pais, que desempenhavam funções de directores, serão a partir de agora presidentes, na medida em que estes dois teatros passam à categoria de entidades públicas empresariais.
Como vogais do Teatro D. Maria II de Lisboa foram nomeados José Manuel Castanheira e Amadeu Basto de Lima.
No Nacional S. João do Porto, os vogais são Francisca Carneiro Fernandes e Salvador Santos.
Santos Moreira, 36 anos, desempenha actualmente as funções de director da Licenciatura em Gestão de Recursos Humanos do Instituto Superior de Ciências Sociais e do Trabalho (ISCTE).
O presidente da OPART é doutorado em Gestão e tem desenvolvido a sua carreira dentro da estrutura do ISCTE.
Quando aos vogais, Carlos Santos Vargas, 40 anos, desempenha desde 2004 as funções vogal do Conselho Directivo do Teatro de São Carlos, e Henrique Pinto Ferreira, 37 anos, era desde Novembro de 2004 director financeiro do Instituto Nacional de Habitação.
NL.
Lusa/Fim NL.
Lusa/Fim
17-05-2007 14:30:00. Fonte LUSA.
Temas: cultura governo teatro música portugal
Cultura: Pedro Santos Moreira nomeado presidente do OPART
Lisboa, 17 Mai (Lusa) - Pedro dos Santos Moreira será o presidente do OPART, Organismo de Produção Artística que tutelará a Companhia Nacional de Bailado e o Teatro de São Carlos, informou hoje o Ministério da Cultura.
A direcção do OPART será também integrada por Carlos Santos Vargas e Henrique Pinto Ferreira.
A mesma nota ministerial anuncia a recondução de Carlos Fragateiro e Ricardo Pais à frente, respectivamente, dos teatros nacionais D. Maria II e São João.
Carlos Fragateiro e Ricardo Pais, que desempenhavam funções de directores, serão a partir de agora presidentes, na medida em que estes dois teatros passam à categoria de entidades públicas empresariais.
Como vogais do Teatro D. Maria II de Lisboa foram nomeados José Manuel Castanheira e Amadeu Basto de Lima.
No Nacional S. João do Porto, os vogais são Francisca Carneiro Fernandes e Salvador Santos.
Santos Moreira, 36 anos, desempenha actualmente as funções de director da Licenciatura em Gestão de Recursos Humanos do Instituto Superior de Ciências Sociais e do Trabalho (ISCTE).
O presidente da OPART é doutorado em Gestão e tem desenvolvido a sua carreira dentro da estrutura do ISCTE.
Quando aos vogais, Carlos Santos Vargas, 40 anos, desempenha desde 2004 as funções vogal do Conselho Directivo do Teatro de São Carlos, e Henrique Pinto Ferreira, 37 anos, era desde Novembro de 2004 director financeiro do Instituto Nacional de Habitação.
NL.
Lusa/Fim NL.
Lusa/Fim
Etiquetas: Cultura, OPART, Sr. Hermenêutica
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