Henrique
Silveira – Crítico
Norma,
ópera composta por Bellini (1801-1835) com libreto de Romani
(1788-1865) em dois actos, Teatro Nacional de S. Carlos, TNSC, 4 de
Junho, estreia. Orquestra Sinfónica Portuguesa (OSP), Coro do Teatro
Nacional de S. Carlos (CSC), direcção de Speranza Scappucci,
maestro de Coro: Giovanni Andreolli. Pollione: Alejandro Rey, tenor
espanhol, Oroveso: Wojtek Gierlach, baixo polaco, Norma: Dimitra
Theodossiou, soprano grego, Adalgisa: Patrizia Biccirè, soprano
italiano, Clotilde: Cátia Moreso, meio-soprano português e Flavio:
Bruno Almeida, tenor português. Versão de concerto, sala a três
quartos.
Uma
nota inicial: fomos a S. Carlos contrariados, não é do nosso agrado
escutar ópera, nomeadamente a belíssima obra de Bellini e Romani,
em versão de concerto, nem é função do TNSC ter uma temporada de
ópera com três versões de concerto. Por isso vetámos as duas
versões anteriores, até por serem de compositores relativamente
menores. A curiosidade venceu no caso desta Norma, primeiro a música
é muito boa, em segundo lugar não escutávamos o soprano grego há
alguns anos. Sempre tivemos dúvidas sobre as suas qualidades e
queríamos comprovar a evolução da cantora, apresentada pelo
consultor artístico Pinamonti como se fosse uma espécie de grande
diva mundial. É certo que uma ópera em versão de concerto nunca
poderá concorrer com o verdadeiro produto teatral, nunca podendo
aspirar a uma total satisfação do público. Norma constituía assim
um grande risco, sendo uma obra complexa do ponto de vista musical e
extremamente difícil para cantores medíocres apenas poderia
resultar interessante com intérpretes superlativos.
Começamos
pela direcção musical. A italiana Scarappuci é franzina mas tem
gestos duros e feios, a sua postura no pódio é agreste e angulosa,
tem o péssimo hábito de bater com o pé, de forma percussiva e
violenta o que é tremendamente incomodativo, quer do ponto de vista
estético, quer do ponto de vista da violenta pancada que se sente
momentos antes de mais um acorde intenso um fortíssimo do coro ou
uma entrada dos metais. Parece que Bellini não escreveu para bombo,
tímpanos e… “sapatadas de maestro” quando assinalou os
compassos da percussão. Acontecem assim sucessivos anticlímaxes nos
pontos em que Bellini procura efeitos de contraste e surpresa,
resulta muito estranho, a meio de um pianíssimo dos violinos,
escutarmos as patadas vigorosas da maestrina antecedendo um forte
súbito que aparece uns instantes depois, estragada a surpresa pela
violenta cacetada. Constatando esta idiossincrasia da senhora logo na
sinfonia inicial percebemos que a elegância musical iria estar
arredada da interpretação pela pose da artista, o que se confirmou
ao longo da noite. Não é com patadas de natureza hípica que se
dirige a extraordinária melodia e o belíssimo legato com que
Bellini, compositor inspiradíssimo, dotou a sua música. Outro
aspecto verdadeiramente negativo foi o facto de a maestrina não
dirigir os cantores mas, pelo contrário, ser dirigida por estes. Uma
coisa é saber escutar as vozes e dar-lhes tempo de respiração,
outra é arrastar e parar a evolução musical sempre que há uma
nota mais aguda em que um tenor vaidoso gosta de se ouvir ou um
soprano de ego monstruoso se quer deliciar deleitada com os seus
dotes de diva. Bellini apenas constrói coloraturas ao serviço do
discurso verbal e do fluxo dramático, não há cadências espúrias,
parar em cada nota mais exibicional, tipo guitarristas a acompanhar o
fadista em cada final de fado, final que se repete centenas de vezes,
dando tempo ao cantor de exibir vaidades pouco consentâneas com as
suas reais capacidades e destruindo a propulsão musical e o discurso
rítmico e melódico, arrasando cantar natural da musicalidade do
poema ao serviço da presunção dos divos é destruir a ideia da
obra e o génio de Bellini. Espalhafato gratuito, deselegância
musical, fortíssimos desproporcionados, falta de equilíbrio dos
planos sonoros, direcção pesadona, arrastamento constante nas
passagens lentas e em muitas que deviam ser rápidas, entradas em
falso, todos estes factos contribuíram para uma confrangedora falta
de nexo musical, de fluxo dramático e de ausência de tensão que
arrasaram negativamente a música de Bellini.
A
soprano Dimitra Theodossiou contribuiu para a enorme falta de gosto
desta Norma. Nem discutimos o facto de parecer um mostruário de
berloques e brilhantes, facto que deixamos para outros críticos mais
mundanos. O que interessa é a falta de qualquer elegância vocal,
agudos pesados e baços e médios feios, vibrato monstruoso e voz
aparentemente envelhecida, a única justificação para as tremendas
dificuldades de respiração poderia ser um problema de saúde que a
soprano pareceu invocar assoando-se de forma falsamente recolhida. É
inadmissível que uma cantora, vendida como se fosse a diva das
divas, se apresente a cantar “casta diva” sem conseguir concluir
de forma fluida uma única frase completa. Respirando a meio das
palavras, sem conseguir sustentar o legato, parando para se deleitar
com alguns agudos, a cantora foi uma sombra musical do que parece ter
sido há alguns anos. Junte-se a isto uma géstica histérica e
desproporcionada, mais a fazer-se ao gosto fácil de um público
pouco exigente, abrindo desabridamente os braços, num estilo que
deixaria Amália Rodrigues corada de embaraço, Dimitra Theodossiou
foi um modelo de exuberante espalhafato quando se pedia contenção,
um personagem sem evolução, que não passou a figura hierática
inicial para a mortal encarnação do frágil eterno feminino no
desfecho fatal a que se condenou. Theodossiou foi uma má Norma que,
mesmo assim, convenceu o ignorante público presente que aplaudiu a
pretensa diva de forma ostensiva.
O
espanhol que cantou Pollione foi grosseiro e incapaz de nuance apesar
da voz grande e do peito farto. Cometeu o erro de entrar no despique
dinâmico com uma sempre pronta para a gritaria Theodossiou no
terceto final do primeiro acto, apagando completamente a voz bonita,
mas pequena, da Biccirè, facto que se repetiu nos duetos com esta,
demonstrando falta de companheirismo e de inteligência artística.
Resulta muito mais musical e lógico no contexto dramático manter o
equilíbrio vocal com a ingénua a quem seduz, depois de ter feito
dois filhos a Norma a quem traiu de forma canalha. Provavelmente o
tenor também não seria capaz de moderar a voz, uma vez que não tem
um grande domínio sobre o seu poderoso instrumento, cantando sempre
em poder e nunca em subtileza, o tenor espanhol precisa de reformar o
seu canto, deve procurar um bom professor de canto que lhe ensine
elegância e subtileza pois a voz, a plenos pulmões, é bela e o
instrumento tem qualidades.
A
Adalgiza de última hora, uma vez que substituiu uma cantora incapaz
que ou foi mal escolhida ou adoeceu (versão oficial), foi correcta.
Tendo a elegância que faltou a todos os outros titulares, Bicciré
foi inteligente, delicada e suave, conseguiu sustentar um dueto de
alto nível com a desbragada Theodossiou que, pelo menos aqui, foi ao
encontro da soprano italiana.
O
cantor polaco Gierlach cantou sistematicamente de pernas abertas e
mostrou-se particularmente boçal do ponto de vista musical, apesar
de mostrar bons agudos e consistência na emissão, precisaria de
outra direcção para moderar a deselegância natural.
Os
portugueses Cátia Moreso e Bruno Almeida estiveram muitíssimo bem,
ela densa e consistente mostrou uma voz aveludada e boa presença,
apesar de uns sapatos ruidosos que faziam estremecer todo o teatro
quando entrava e saía. Bruno Almeida esteve também excelente com
uma voz quente e bonita nos agudos, muito bem colocada, a mostrar um
belíssimo trabalho de fundo.
A
orquestra não comprometeu, mostrando bons sopros e cordas graves, a
banda de palco portou-se de forma regular e o coro foi muito bem
preparado para esta produção por Giovanni Andreolli, apesar de
algum excesso de volume. Rápida e incisiva foi a invocação
“Guerra”, tratou-se de um lenitivo no arrastamento global imposto pela
batuta de chumbo da maestrina.
Nota
muito positiva para o programa de sala com belos textos, apesar de
não existir uma crítica e um distanciamento aos pontos débeis na
dramaturgia, que os há, e ao lado superficial que orientava o
divertimento para as emoções dos burgueses que era a indústria da
ópera no início do século XIX. Existe um lado deliberadamente
kitsch – já no seu tempo – a puxar ao sentimentalismo, em que é
paradigmática, por exemplo, a ária final de Norma destinada à
lágrima fácil, mostrando o saber inteligente de Bellini na sua
relação com o seu público, facto que não é explorado no
programa. Felizmente há outras leituras subjacentes dentro da
partitura e, no capítulo das leituras secundárias, o programa é
muito feliz.
Uma
estrela
Etiquetas: Coro do S. Carlos, Crítica aos programadores, Crítica de Concertos, Crítica de Ópera, Orquestra Sinfónica Portuguesa, S. Carlos
# colocado por HS : 16:01
A grande
fancaria de Verão ou um chorudo subsídio de férias I
Henrique
Silveira
Crítico
A cultura
parece que está em crise em Portugal, não há dinheiro para agentes
culturais, grupos de teatro em risco de extinção, os pintores
morrem à fome, os festivais decaem, os públicos de concertos pagos
desaparecem. A Cornucópia ameaça tornar-se numa companhia amadora,
mas na Amadora houve agitação, foi a “Grande Orquestra de Verão”
(GOV) na Cova da Moura, uma iniciativa directa da Secretaria de
Estado da Cultura e uma ideia com direcção artística de António
Victorino de Almeida.
Tendo sido
anunciada com um orçamento de cerca de meio milhão de euros, não
sei ainda se cumprido, corresponde este Festival a realizar 21
concertos espalhados por todo o país. Reúne diversas orquestras:
Orquestra do Norte, Metropolitana, Filarmonia das Beiras e do Algarve
e ainda bandas da Guarda e da Armada entre outros agrupamentos, todas
elas com o mesmo chapéu da GOV. Se as contas não me falham são
cerca de vinte e três mil euros por concerto.
Em primeira
análise devo dizer que a soma me parece exorbitante, um concerto de
orquestra sem solistas, como é o caso, com transportes incluídos
para qualquer parte do país não fica mais caro que doze mil euros e
se pensarmos que as bandas militares geralmente não cobram pelos
concertos, mais espantosa é a conclusão da exorbitância e, ou as
orquestras estão principescamente bem pagas, o que não seria mau
para essas orquestras, ou a organização do festival se pagou
principescamente bem a si mesma, o que seria excelente para o
compositor Victorino de Almeida.
Peço
desculpa ao Augusto Manuel Seabra, crítico do “O Público”, um
homem de perplexidades permanentes, por estar a ficar como ele
próprio! A perplexidade resulta do facto do director artístico da
GOV utilzar o festival para fazer tocar a sua 5ª Sinfonia op. 167,
em todos os concertos com as orquestra referidas com excepção das
militares, honra lhes seja feita, e ainda outras obras suas nos
concertos de câmara. A juntar ao ramalhete junta-se a repetição à
náusea da sinfonia 40 de Mozart, com a evidente conclusão: enfim,
estão juntos os dois grandes génios compositores da humanidade.
Este festival é um exercício de imaginação na programação, um
exercício de direcção de orquestra e de comunicação, um
exercício de narcisismo merecido e justificado com a sábias
palavras do próprio Almeida, porque quem não pensa como o génio,
ele e o Camilo e já agora o Mozart, pois Victorino gosta de boas
companhias, deve ser estúpido; cito as palavras do ilustre
programador:
“...Como
já dizia Camilo de Castelo Branco, «a estupidez tem intuitos
impenetráveis», pelo que não valerá muito a pena ocupar-nos com
as verdadeiras intenções dos distribuidores de fancaria
intelectual, bastando talvez ter-se a certeza de que não é a
generosidade aquilo que os move. Nem a generosidade, nem a
solidariedade…
A
estupidez talvez até possa ser lúcida – e, deste modo, consciente
ou mesmo astuciosa – pois há tipos de astúcia que são uma forma
de velhacaria… – nas opções que faz e leva a fazer pelo erro,
pela banalidade, rotina e sobretudo pela indigência das ideias, da
estética e dos sentimentos.
Em
Portugal, muitos dos maiores vultos da música têm sido ignorados e
omitidos, nos acessos – efetivamente bloqueados – ao seu
conhecimento...”
Que
demiúrgo! A minha perplexidade deriva do facto de as palavras
“banalidade, rotina, e indigência” e “generosidade e
solidariedade” (para com o grande Victorino) se aplicarem como uma
luva a um conceito em que todos os concertos são iguais e não se
vislumbra uma ideia que não seja a auto-promoção de Victorino de
Almeida, esse grande vulto esquecido, a par de outro... o Mozart.
Estou perplexo pela clarividência e pelas pistas de autocrítica que
Victorino de Almeida faz no texto motivador do Festival. Acto falhado
ou suprema ironia do mestre que acaba por estar a rir-se de todos
nós, pagantes desta grande fancaria de Verão enquanto o sisudo Luís
Miguel Cintra passa fome? Sempre admirei Victorino de Almeida, como
cineasta, escritor, autor de bocas bombásticas, promissor jovem
pianista, autor de programas televisivos; admiro-o ainda mais por se
afirmar como o grande artista destes tempos de crise, isto com a boa
vontade singela do Secretário de Estado da Cultura. Junte-se a isto
um valente subsídio de férias, pago por mim, e quase chego à
idolatria. Ah! Bravo Victorino!
Continua
com análise crítica dos efeitos deste Festival
Etiquetas: António VIctorino de Almeida, Crítica, Crítica aos programadores, Cultura, Estupidez, Fretes, Humor, Secretaria de Estado da Cultura, Vácuo na Cultura
# colocado por HS : 15:55
A grande
fancaria de Verão ou um chorudo subsídio de férias II
Henrique
Silveira
Crítico
Reflectimos
na semana passada nas motivações de António Victorino de Almeida
(AVA) nesta sua iniciativa que constitui o festival “A Grande
Orquestra de Verão”. Continuamos hoje reflectindo nos efeitos
deste programa.
Estamos a
falar de meio milhão de euros gastos pela secretaria de Estado da
cultura em vinte e um concertos espalhados por todo o país, a
programação é directa e governamental (inspiração de José
Estaline?) em tempos de miséria cultural e de crise global. Será
que a cultura pega por osmose? Será que o povo desse Portugal
profundo ao escutar as espantosas melodias e originais harmonias da
quinta sinfonia do mestre AVA, uma e uma única vez, passará a amar
indelevelmente a cultura clássica? Será que a casaca do “maestro”
Victorino funciona como chamariz musical para a juventude excluída
da Cova da Moura? Ou será que a coisa vai lá à bengalada? É que
não vejo mais nenhum motivo para atrair o “povo” à causa
sonora: ouvi dizer directamente bastas vezes ao próprio génio que
ele próprio não tinha os menores dotes de maestro, facto que
confirmei por audição e observação directa, juntamente com a
opinião de muitos músicos que afirmam categoricamente que o
“mestre” tem aptidão muito reduzida para a direcção de
orquestra.
O efeito
efémero de uma festa popular nunca repetida terá algum efeito?
Estará à espera que os desempregados e os pobres desgraçados que
vivem do rendimento social de inserção passem a ir ao S. Carlos
depois da meteórica aparição do arcanjo revelação da arte dos
sons ter tirado a casaca na estrada de Sintra? Espera o mestre que a
senhora reformada de Trás-os-Montes, que não tem dinheiro para o
táxi para ir ao centro de Saúde, passe a ir todos os fins-de-semana
à Casa da Música ouvir o Sokolov e passe a amar o Mozart e, porque
não, o Emmannuell Nunnes? Espera isso depois desse mesmo povo o ter
visto e ouvido AVA a dirigir-se a si próprio e ao Mozart?
Devo dizer
que se fosse eu a ter esse privilégio passaria imediatamente a ser
devoto do Quim Barreiros e do Tony Carreira, mesmo que os abominasse
antes da epifania Victorínica.
A conclusão
é que este é um projecto voluntarista, ingénuo e dirigista do
Secretário de Estado da cultura: é apenas dinheiro esbanjado aos
quatro ventos em tempo de crise grave, o que aumenta a seriedade da
medida, contando com a colaboração de orquestras que não se podem
recusar a participar nesta fancaria intelectual, porque dependem dos
miseráveis subsídios do Estado e precisam de comer as migalhas que
caem do prato do grande artista Victorino de Almeida para continuarem
a vegetar adiando a morte. Orquestras que fazem um trabalho
invisível, mas consistente, de divulgação da arte musical junto
das populações ao longo de todo o ano, Invernos gelados incluídos.
Meio milhão de euros que poderiam aproveitar a programas junto dos
jovens desfavorecidos que gostariam de estudar música, junto de
escolas, orquestra e academias locais e que seriam, por exemplo, bem
gastos numa programação consistente, variada e imaginativa e,
certamente, com o dobro dos concertos.
Victorino
de Almeida fez bem e não o condeno: qual cigarra cantadora
utilizou-se do seu prestígio junto da formiga, o secretário
Francisco José Viegas que, ao contrário da outra, lhe abriu as
portas da despensa e que se mostra absolutamente ignorante e
completamente alheado da realidade. Seria a “Grande Anedota de
Verão” se não fosse tão triste...
Etiquetas: António VIctorino de Almeida, Crítica, Crítica aos programadores, Cultura, Estupidez, Fretes, Humor, Secretaria de Estado da Cultura, Vácuo na Cultura
# colocado por HS : 15:51
Publicado originalmente no Jornal "O Diabo"
Henrique Silveira – crítico
O supermercado da música, como era chamada à Festa da Música, desapareceu. Hoje os Dias da Música no CCB passaram a ser uma espécie de minimercado. Felizmente algum do espírito manteve-se e o público continua a acorrer, em menor número do que nos velhos tempos, mas continua generoso com os artistas.
O público é um dos aspectos mais fascinantes deste evento: a acrescentar ao clássico ruído dos sacos plásticos, das tosses e das crianças aos gritos, temos agora a novidade das cavalgaduras a mandar mensagens escritas. Enfim: o trivial.
Fica a crítica à contratação de uma orquestra checa, vinda de Brno, que não mostrou ter qualidade suficiente em cotejo com as orquestras portuguesas e que terá sido um dos números mais elevados na coluna das despesas. Se a mesma tivesse sido eliminada do programa sobraria muito dinheiro para contratar mais e melhores solistas.
Passamos em revista os cinco concertos a que assistimos após selecção prévia daquilo que pensámos ser o mais interessante e de maior qualidade musical
1. Concerto de Estreia – Orquestra Filarmónica de Brno
Sexta-feira, dia 15, 21h. Paraísos artificiais de Luís de Freitas Branco, Rapsódia em Blue de George Gershwin e Sinfonia do Novo Mundo de Antonin Dvorjak. Solista em piano Jorge Moyano e direcção de Svárovský. Sala quase cheia.
A leitura do poema sinfónico de Freitas Branco foi básica, alguma cor inicial depressa se desvaneceu caindo a interpretação numa mediania que deixou a obra morrer. Uma leitura quase à primeira vista que não dignificou a orquestra.
Seguiu-se uma pesada Rapsódia em Blue com um surpreendente, pelo swing e flexibilidade, Jorge Moyano que mostrou grande musicalidade.
Finalmente uma fraca nona sinfonia de Dvorjak em que os melhores instrumentistas foram o timpaneiro e o corne inglês. Toda a orquestra fraquejou: som grosseiro nos metais, primeiro violino com vibrato caprino, clarinete rachado, trompas graves num absoluto descalabro, falta de equilíbrio e despautério sonoro, sem planos de cor, enfim uma pobre imagem do que uma orquestra checa faria com uma obra tão emblemática do seu património musical. Uma desilusão.
*
2. Concerto a dois Pianos
Sábado, dia 16, 16h, Marta Zabaleta e Miguel Borges Coelho, pianos, em Visions de l’Amen, de Olivier Messiaen. Sala quase cheia.
As visões do místico e católico Olivier Messiaen para dois pianos são pequenas obras primas de metafísica.
Os pianistas tocaram de forma plenamente conseguida, com uma coesão estilística e dando o sentido do sublime que há nesta obra. Densos e dramáticos nas sonoridades que explorara as ressonâncias e os harmónicos dos pianos, atingiram a perfeição no “Amen do desejo”, no “Amen do Juízo final” e no “Amen da consumação”.
Apenas a sala desadequada ao som majestoso dos dois pianos de concerto, com um pé-direito baixíssimo e muito acanhada, destruiu a fruição do concerto. É miserável dar aos pianistas e ao público semelhantes condições.
****
3. Quarteto Prazak
E este quarteto checo tocou a Suite lírica de Alban Berg e “Cartas íntimas”, o quarteto de cordas nº 2 de Janácek.
Este quarteto é um pouco rústico na sua sonoridade mas é capaz de momentos de grande transcendência e paixão na sua abordagem vigorosa da interpretação.
Na Suite Lírica destaco os brilhantes allegro misterioso e o presto delirando, verdadeiros ícones da produção do compositor e tocados de forma notável pelo quarteto.
Já o quarteto de Janácek teve o constante problema da desafinação do primeiro violino, o que deu algum ácido ao andamento final. Provavelmente calor excessivo na sala e cansaço contribuíram para este lado menos bom. No entanto no moderato, terceiro andamento, atingiu-se a paixão e sentiu-se o profundo amor de Janácek.
***
4. Orquestra Sinfónica Metropolitana
Erich Korngold, concerto para violino op. 35, Kurt Weill, Suite da Ópera dos Três Vinténs para orquestra de sopros. Solista em violino: Jack Liebeck, maestro Cesário Costa. Sala meia.
Um solista com um belíssimo som e um grande lirismo, sem cair no mau gosto no ultra-romântico concerto de Korngold. Bom acompanhamento da orquestra, com boa definição de planos sonoros e de cores, pelo maestro Cesário Costa.
Seguiu-se uma interessante suite de Weill, belíssima música tocada com interesse e muito cuidado pela orquestra onde brilharam clarinetes e saxofones e onde todos os músicos estiveram bem. Não é propriamente uma linguagem fácil, a do modernismo erudito com laivos do cabaré. O seu balanço muito especial foi sendo encontrado ao longo do concerto.
****
5. Quarteto Brodsky
Andamento para quarteto de Webern, 1905, três peças para quarteto de cordas de Stravinsky e quarteto de Ravel. Sala quase cheia.
Sonoridade grosseira, excesso de som e vibrato agressivo do primeiro violino. Falta de refinamento em Ravel e virtuosismo fácil foram a tónica deste concerto, em que escapou um pouco o andamento lento de Ravel. As notas foram tocadas, os tempos eram os certos mas foi faltando a este quarteto um primeiro violino que se fundisse no grupo. Quando isto acontece está tudo dito, em vez de um quarteto temos um trio mais um.
**
o - Mau, * - sofrível, ** - interessante, *** - bom, **** - muito bom, ***** - excepcional.
Etiquetas: CCB, Crítica, Crítica aos programadores, Crítica de Concertos, Crítica de Recitais, Dias da Música
# colocado por HS : 17:53
Veio ao CCB, para os dias da música e em tempo de grave crise, uma orquestra completa de Brno. Infelizmente o resultado no concerto de abertura foi fraco.
A orquestra até tem boa fama local, na República Checa, mas a forma como se apresentou foi a roçar o lamentável.
Penso que a direcção do CCB deve indicar à direcção da formação checa que está muito insatisfeita com os resultados e que isso deve ser comunicado aos músicos, de forma a que não tenham um comportamento menos profissional nos concertos que se seguem.
Portugal não pode ser visto como uma colónia de férias paga com dinheiro do FMI em que se dão umas notas esborrachadas e se bebem uns copos e se apanha sol e já está!... o público português merece ainda respeito.
Isto mesmo que o público não se dê ao respeito e aplauda com bravos e de pé quem esteve a gozar com o pagode durante hora e meia.
Escapou Jorge Moyano que esteve ao seu melhor nível numa brilhante rapsódia em Blue de Gershwin.
Etiquetas: CCB, Crítica, Crítica aos programadores, Crítica de Concertos, Dias da Música
# colocado por HS : 10:11