
9.6.14
Norma ou o império do mau gosto
Etiquetas: Coro do S. Carlos, Crítica aos programadores, Crítica de Concertos, Crítica de Ópera, Orquestra Sinfónica Portuguesa, S. Carlos
10.6.13
Meio Otello
Etiquetas: Coro Gulbenkian, Crítica, Crítica de Concertos, Crítica de Ópera, Foster, Gulbenkian, Orquestra Gulbenkian, Ot, Verdi
28.6.11
Um feliz aniversário
Henrique Silveira – crítico
Concerto de aniversário da Orquestra Metropolitana de Lisboa, 9 de Junho no Grande Auditório do CCB com casa a três quartos, abertura Egmont, concerto op. 64 para violino e orquestra de Mendelssohn com Augustin Dumay no violino, sinfonia nº6, pastoral, de Beethoven; direcção de Michael Zilm.
Este concerto foi uma celebração de aniversário que reuniu Zilm de novo à Metropolitana de Lisboa, o trabalho que este director tem realizado com a orquestra tem sido de grande nível e as suas qualidades são evidentes, foi mais uma vez com grande prazer que assistimos à sua direcção eficaz e directa, sem gestos excessivos mas com evidente paixão e um profundo conhecimento das partituras que acompanha e dá segurança aos músicos. Zilm trabalha o incontornável Beethoven com uma excelência rara, todos os detalhes da partitura estão lá: todos os crescendos e diminuendos, todos as acentuações, com Zilm não há pequenas e grandes notas. Mas o mais importante é a poesia que coloca no fraseado e a qualidade da massa e da coesão sonora e orquestral. É uma lição ver Zilm dirigir e isso reflecte-se na prestação orquestral.
Assim Egmont, apesar de uma entrada desatenta da orquestra acabou com grande força e energia, própria de Beethoven.
Seguiu-se um concerto de Mendelssohn com um homem também muito ligado à Metropolitana, Dumay, tem uma excelente técnica do violino e um grande som, apenas tenho a apontar a falta de nuance no seu som, Dumay toca entre o meio-forte e o fortíssimo, abusando da sonoridade e sendo às vezes demasiado agreste na sua sonoridade que poderia ser mais aveludada nos momentos de maior recolhimento. De resto dois andamentos rápidos com grande força e energia e um andamento central com uma excelente entoação mas com alguma falta de matizes subtis.
A obra final, a “Pastoral” de Beethoven teve da parte de Zilm algum deleite no som, gostámos do segundo andamento, “cena à beiro do regato”, em que o fluir dos violoncelos em soli e restantes cordas, embalou o canto das madeiras, seguiu-se uma “alegre reunião de camponeses” divertida e vigorosa interrompida por uma violenta “tempestade” e rematada por um andamento final em que as sombras se dissiparam e a alegria regressou após a violência da tempestade. A orquestra correspondeu bem às solicitações do maestro e houve ligação.
A leitura de Zilm apenas pecou por alguma parcimónia nos tempos, faltando um certo elemento de surpresa e tensão, por outro lado a leitura agreste de Dumay e alguns deslizes pequenos nas trompas impediram que este concerto fosse perfeito, ficando ao nível do muito bom.
Espera-se que a Metropolitana continue por muitos anos, para além dos 19 anos festejados, livre de problemas financeiros que ainda a afectam e que continue a contribuir para a música em Portugal como o tem feito até aqui.
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Etiquetas: Beethoven, Crítica de Concertos, Orquestra Metropolitana, Zilm
Apenas alguma exactidão
Henrique Silveira – crítico
Sinfonia nº2 em dó menor, Ressurreição, de Gustav Mahler. Orquestra Sinfónica de S. Francisco, Coro Gulbenkian, direcção de Michael Tilson Thomas, Laura Claycomb, soprano, Katarina Karnéus, meio soprano. Coliseu dos Recreios cheio. Encerramento da temporada 2010/2011 da Fundação Gulbenkian.
A gigantesca sinfonia Ressurreição é uma das obras maiores do repertório sinfónico, uma obra de grande envergadura da orquestra reforçada com metais e percussões suplementares. Começada em 1888 e acabada em 1894, revelou as hesitações de um jovem compositor sobre a sua arte a forma, exemplo disso é o primeiro andamento, cuja concepção seria originalmente a de um poema sinfónico independente Totenfeier, Rito fúnebre, e que depois de muitos avanços e recuos veio a ser o primeiro andamento, allegro maestoso, desta obra grandiosa e trágica que incorpora ainda um poema de Des Knaben Wunderhorn no quarto andamento Urlicht, Luz Original, o ciclo de poemas populares alemães. A obra gira em torno da morte e da vida para além desta. Não tem a menor inspiração na religião católica mas sim na crença, do judeu Mahler, numa Ressurreição post-mortem.
Mahler afirmou que um das chaves da sua música era a exactidão, a outra chave era o que estava para além das notas. Michael Tilson Thomas recorreu a uma leitura muito suave, com gestos difusos e pouco acentuados à frente da “sua” orquestra. Numa acústica miserável como a do Coliseu é quase deitar-se música para o lixo a execução de uma obra tão complexa e contrastante como esta sinfonia. Os fortíssimos soam débeis e os pianíssimos e os detalhes perdem-se. O que seria o lado mais interessante da leitura de Thomas: os detalhes, ficaram reduzidos à anemia sonora. Por outro lado a géstica muito difusa do maestro trouxe algumas inexactidões em algumas entradas a começar pelo início que deveria trazer um grande impacto e uma enorme tensão e que, por falta de exactidão, se saldou por algum desconchavo. O segundo andamento, o Andante Moderato, foi talvez o melhor momento da sinfonia, com predomínio para a suavidade do ritmo de dança e o diálogo entre os instrumentos.
O scherzo, terceiro andamento, baseado na melodia do Sermão de Santo António aos peixes, uma canção que Mahler escreveu ao mesmo tempo que compunha a sinfonia, foi fluido, quase como o fluxo de água e do discurso do Santo, faltando tensão nos pontos de clímax.
Os andamentos finais com partes vocais, foram diversos, Urlich, teve a exaltação mística, mais própria do lado apolíneo de Thomas, enquanto ao andamento com o poema Ressurreição de Klopstock faltou de novo tensão. O coro ouviu-se com dificuldade e não houve grande nuance, mais uma vez por culpa da acústica da sala, mas a afinação pareceu-me perfeita. As solistas cumpriram com esforço para vencer o vazio acústico da sala, tendo eu apreciado vivamente o timbre escuro de Katarina Karnéus sendo Laura Claycomb um pouco estridente na emissão. Apesar disso musicalidade e sentido da poesia foram a tónica destas cantoras.
Quem foi o maestro preparador de coro? Ninguém sabe, nem no programa vem mencionado nem agradeceu em palco, mais uma deselegância e falta de informação do programa.
Uma interpretação relativamente exacta mas sem muito para além das notas.
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Mestre de capela incógnito
Henrique Silveira – crítico
Programa de encher o olho com abertura de Fidelio, recitativo e ária de concerto Ah! Perfido!... e sinfonia nº9 em ré menor, tudo obras de Beethoven, na Fundação Gulbenkian a 3 de Junho com casa cheia, direcção de Bertrand de Billy. Coro e orquestra Gulbenkian. Solistas: Adina Aaron, soprano, cantou ária e sinfonia, Adrineh Simonian, meio soprano, Charles Reid, tenor e Boaz Daniel, barítono.
A primeira parte era apenas um aquecimento, a abertura de Fidelio foi tocada com energia e convicção mas com um vibrato nas cordas algo excessivo. Seguiu-se uma obra da juventude de Beethoven, inspirada fortemente no modelo mozarteano. A soprano Adina Aaron mostrou uma voz muito bonita, com grande densidade nos graves e brilho nos agudos, foi enérgica e entusiástica. No entanto, a sua interpretação pecou por ser demasiado enfática e melodramática e por abusar de um vibrato pesadão e de um estilo mais apropriado ao romantismo tardio do que a Beethoven. O seu entusiasmo juvenil levou-a a perder a linha do tom num momento crucial do allegro final e a gritar de forma excessiva. Mais contenção e domínio da respiração também se exigem. Adina Aaron mostrou que tem um grande futuro como cantora verdiana, repertório que, aliás, já aborda.
A nona sinfonia de Beethoven começou de forma agreste com um falhanço brutal da segunda trompa logo na entrada e uma interpretação pesadíssima e muito arrastada do allegro ma non troppo, un poco maestoso que mais parecia a marcha fúnebre de um paquiderme falecido no jardim zoológico do que um andamento que deve ser rápido mas não demasiado. Notei que o naipe de trompas esteve particularmente inseguro, sobretudo as trompas graves, andando a 4ª trompa sempre a coxear atrás das notas ao longo de toda a sinfonia.
Depois de um scherzo com energia e muito bem sublinhado pelos sopros e onde as cordas foram particularmente coesas passámos para o andamento lento que se queria poético mas que nos pareceu apenas rotineiro: faltou definição nos planos sonoros, nas articulações e nos jogos de subtileza.
O final, com o grandioso hino à alegria de Schiller, foi tocado com empenho e denodo quer pela orquestra, quer pelo gigantesco coro Gulbenkian. No meu entender em número excessivo para a obra e as dimensões da sala e orquestra. O que se notou aqui foi a falta de preparação dos detalhes, sobretudo nas partes muito rápidas, que acabaram por ser ofegantes e tumultuosas, em vez de serem enérgicas e com grande precisão. Penso que faltaram ensaios para se apurar com perfeição esta obra que é de um enorme grau de dificuldade técnica e artística.
Os solistas estiveram relativamente bem, mas sem se poder afirmar que foram perfeitos, o que atendendo à dificuldade das suas partes já é um feito.
O maestro que preparou o coro nem veio agradecer ao palco, nem figura qualquer menção sobre o seu nome e currículo no programa. Quem foi? Fica uma palavra para o seu trabalho de qualidade ao conseguir dar coesão a um grupo tão grande de cantores.
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4.6.11
Os Três Pintos
Henrique Silveira – crítico
Die Drei Pintos é uma ópera que Carl Maria von Weber não conseguiu acabar e que foi completada e reinventada por Gustav Mahler. Versão de concerto a 27 de Maio na Fundação Gulbenkian com casa pouco acima de meia, direcção de Lawrence Foster. Coro e orquestra Gulbenkian. Solistas: Philippe Fourcade, barítono em Pantaleone de Pacheco e no estalajadeiro, Peter Furlong, tenor em Don Gomez de Freiros, Michaela Kaune, soprano em Clarissa, Simona Ivas, meio soprano em Laura, Marius Brenciu, tenor em Don Gaston Viratos, Martin Snell, baixo em Don Pinto de Fonseca, Dora Rodrigues, soprano em Inez, Job Arantes Tomé, barítono em Ambrósio e Fernando Luís no papel falado do narrador que representou Gustav Mahler. David Pountney na concepção e autoria da narração.
Sendo uma ópera cómica em três actos, passada em Espanha, com diálogos em alemão, foi considerado que seria melhor fazer uma narração resumida do que acontece na cena entre as partes musicais, a narração foi criada por David Pourtney, inglês. A sua explicação no programa é rudimentar, estando mesmo ausentes o texto desta e a biografia do autor, facto lamentável que aliás se tem vindo a somar a erros de palmatória nos textos dos mesmos. A tradução do texto narrado por Fernando Luís foi, no mínimo, rústica; serve de exemplo a utilização de “senhorio” em vez de “estalajadeiro”, simplesmente ridículo e limitado!
Com um elenco prometedor de início, tivemos um Fourcade com uma voz encorpada e correcto no papel de estalajadeiro e posteriormente no pai de Clarissa a heroína. Peter Furlong o tenor que ama Clarissa e que, por razões nebulosas, não a pode cortejar começou titubeante na entoação mas depois encontrou-se com o decorrer da obra, mostrou uma boa voz muito lírica e tipicamente alemã. A sua amada, Clarissa, aqui por Michaela Kaune, entrou muito fria e a arrastar as frases musicais, mas depois aqueceu e conseguiu corrigir algum ácido nos agudos e mostrou uma voz encorpada e densa, com musicalidade e sentido musical, pena alguma dificuldade em largar as notas a tempo. Simona Ivas, Laura criada da anterior, tem uma voz muito bonita e colocada, é musical, mas padece de potência e os agudos são pobres em harmónicos, o que não é estranho uma vez que se trata de um meio soprano e o papel vai algumas vezes a um registo desconfortável para este tipo de voz. Marius Brenciu, no papel motor da acção em Don Gaston, foi a grande desilusão, agarrado à leitura do papel, correndo atrás das notas e sem graça na interpretação, denotou uma preparação francamente insuficiente, quando tentou brilhar a voz partiu-se nos agudos e foi confrangedor ouvir gritos em vez de canto. Martin Snell, no papel cómico de Don Pinto, não teve graça nenhuma e andou também a ler o papel, não cumpriu objectivos mínimos, mesmo cantando as notas todas. Dora Rodrigues esteve muito bem no papel de Inez, lírica e musical. Job Tomé foi mais uma vez uma revelação, divertido, preparado, não se deixando dominar pela música, cantando o falsete com comicidade, foi simplesmente perfeito. A narração de Fernando Luís foi clara e precisa, representando com convicção o papel do autor que finalizou a composição e pondo em contrapondo a relação de Mahler com o neto de Weber e sua Mulher, Marion, com que teve uma relação complicada que envolveu traição, intriga e amor.
A direcção de Foster foi mais clara que o habitual e o conjunto manteve-se coeso, não percebo apenas o passar da batuta para a mão esquerda para depois andar aflito sem saber onde a colocar! A orquestra esteve a elevado nível e apenas a falta de aprumo de alguns músicos também se lamenta, não é próprio ver fivelas de cintos com as competentes banhas abdominais sobrepostas em traje de casaca, para evitar isso existem coletes brancos ou faixas brancas.
O coro preparado por Jorge Matta esteve a um elevado nível, mais uma vez foi lamentável a não inclusão do seu trabalho no programa da Gulbenkian, um erro grave e uma desconsideração imerecida para aquele que é o grande motor do coro Gulbenkian; ao contrário de todas as grandes casas, a começar pelo Festival de Bayreuth, onde o maestro de coro aparece sempre em grande destaque e com direito a importante biografia em todos os programas.
A ideia da narração foi realizada com cuidado e foi mais eficaz que os diálogos em alemão que não têm sentido na versão de concerto.
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O Fagote de Veludo
Henrique Silveira – crítico
Carl Maria von Weber: andante e rondó húngaro para viola e orquestra, op. 35, concertos para Fagote e orquestra op. 75 e concerto nº2 para clarinete e orquestra op. 74. Beethoven: concerto para violino op. 61. Samuel Barseguian na viola, Ricardo Ramos no fagote, Esther Georgie no clarinete e Frank Peter Zimmermann no violino. Quinta 19 de Maio na Fundação Gulbenkian com casa meia, direcção de Lawrence Foster. Orquestra Gulbenkian.
A obra inicial fez-me lembrar esta anedota: “Como se sabe quando a viola está fora de tom? É quando o arco se move!” E assim foi: o solista mostrou sonoridade fraca e esteve constantemente desafinado, foi pouco interessante em termos musicais com um fraseado altamente monótono. Sofri particularmente com as cordas ré e lá. Um mau início.
O belo concerto de Weber para fagote foi uma revelação. O solista português Ricardo Ramos foi muito afirmativo, confiante, com uma sonoridade cheia e aveludada, rico nos graves e médios e brilhante nos agudos. A sua musicalidade foi evidente na poesia do segundo andamento e foi poderoso no terceiro. O seu som firme e bonito serviu uma inteligência musical que deu interesse e surpresa às frases de Weber e disfarçou com ligeireza uma única hesitação no primeiro andamento. Uma grande elegância no legato e um staccato muito claro foram elementos técnicos que me impressionaram vivamente.
Já Eshter Georgie no clarinete desiludiu. A obra de Weber não é compatível com um staccato trapalhão, articulações erráticas e falta de brilho sonoro, muito evidente nas sextinas finais. Dir-se-ia que Georgie é incapaz de forte e fortíssimo. Improvisando nas ornamentações no primeiro andamento, facto que não repetiu nos seguintes, teve como elementos fortes uma grande doçura no som, belíssimos pianíssimos e um poético segundo andamento que compensou, de certa forma, os defeitos dos andamentos rápidos.
O concerto de violino de Beethoven teve um Zimmermann que me pareceu cansado de tocar em público. Vim a saber posteriormente que estava indisposto. Os pontapés no chão ao mesmo tempo que toca desequilibram e descontrolam o som, facto que ocorreu diversas vezes. No entanto deu o mote à orquestra nas articulações enérgicas e nas arcadas decididas e o seu som é belíssimo. O primeiro andamento, que costuma ser arrastado até à exaustão por solistas menos dotados, foi um modelo de energia e propulsão. Percebe-se que mesmo adoentado Zimmermann é um grande músico.
A direcção de Foster foi errática e imprecisa, uma espécie de mistura de gestos de sinaleiro com a violência de um “diestro tourero”, mas a eficácia é reduzida para tanto espalhafato e de Weber a Beethoven houve desencontros. Pede-se ainda mais atenção ao contrabaixo que no concerto para clarinete de Weber, terceiro andamento, teve uma falsa entrada em fortíssimo em vez de piano: uma sapatada musical que fez saltar o público da última fila!
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20.5.11
Uma boa rotina
Henrique Silveira – crítico
Danças húngaras nº1, 3 e 10 de Johannes Brahms, concerto nº2 para violino e orquestra de Béla Bartók com Hae-Sun Kang como solista, Suite para orquestra opus 27, Suite Villageoise, de George Enesco e Moldava de Bedrich Smetana. Sexta 6 de Maio na Fundação Gulbenkian com casa meia, direcção de Lawrence Foster.
Um programa de obras ou compositores ligados pelo senso comum ao nacionalismo musical, bem concebido à partida, pena a fraca a adesão do público.
As danças húngaras de Brahms foram abordadas com energia musical, gostei da densidade das cordas que encheram a sala na dança nº1, no entanto os pizzicati de violinos e violas precisam de mais apuro rítmico. Gostei também da liderança que o primeiro contrabaixo induziu no seu grupo.
Seguiu-se um concerto de Bartók, uma peça de resistência do repertório do violino e uma obra de grande fôlego. Kang, uma coreana especialista em música contemporânea, esteve quase sempre tecnicamente a um bom plano, com uma excepção na cadência onde teve uma falha clamorosa, mas foi gélida na interpretação, neste particular esperava mais do segundo andamento, andante tranquilo, com tema e variações em que o lirismo esteve muito arredado, Bartók não pode ser visto como uma peça para violino e electrónica... Não sei se por falta do maestro ou da solista o terceiro andamento, allegro molto, foi muito lento e arrastado, assim considero que este concerto acabou por ter uma interpretação pouco inspirada.
Depois do intervalo apresentou-se Foster com um compositor em que é especialista, o romeno Enesco, mais uma vez energia e clareza simples na interpretação de uma obra sobrecarregada de orquestração, uma obra que usa das cores orquestrais para criar uma paleta de efeitos evocativos, do campo às brincadeiras das crianças, uma velha casa de infância, um rio sob a lua e danças rústicas. Uma palavra para Pedro Ribeiro, solista em oboé, que tocou destacado da orquestra numa varanda sobre a plateia da Gulbenkian para criar o efeito evocativo da distância, um solo quase perfeito com um belíssimo som e projecção e muita poesia. Esta suite de Enesco foi o ponto alto do concerto.
A orquestra esteve em bom plano com uma belíssima sonoridade.
Seguiu-se um dispensável Moldava, que evoca o rio Checo, de Smetana. Parecia um rio carregado de lama e detritos de tal forma pesado e arrastado, com acompanhamento paquiderme nos contrabaixos, com destaque negativo para a lenta e penosa coda final. Foster, mais uma vez, mostrou ser capaz do pior e do melhor.
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10.5.11
A Paixão
Henrique Silveira – crítico
Johann Sebastian Bach, Paixão Segundo S. João. Amsterdam Baroque Orchestra and Choir, direcção de Tom Koopman. Teresa Wakim, soprano, Maarten Engeltjes, contratenor, Tilman Lidchi, tenor e Klaus Mertens, baixo. Segunda 18 de Abril na Fundação Gulbenkian com casa cheia.
Aquela que é encarada como música de indignação e revolta perante a morte, numa grande intensidade dramática, foi tratada de uma forma invulgarmente doce por Tom Koopman. Surpreendeu logo de início o tratamento de uma suavidade etérea que alternou o piano com o forte nas interjeições do coro: Senhor, Senhor, Senhor, Nosso Senhor, que abre a obra e que em vez de ser violenta foi despojada e transparente em todas as suas linhas. Essa leitura ponderada e transparente, deixando a música respirar de forma serena em todas as suas dissonâncias, foi levada ao extremo em toda a obra, deixando Bach falar através das harmonias e da retórica interior à música. Perdeu-se o drama mas ganhou-se paz. A Paz de Cristo que reina no final quando tudo está consumado e uma lindíssima viola da gamba dialoga com um contralto, interrompida por uma alla breve que nos dá por finda a luta de Cristo na Terra.
Um coro de uma qualidade superlativa moveu-se com virtuosismo ao longo dos coros, corais e turbas da obra, mostrando vozes individuais de elevado nível e um conjunto de uma grande homogeneidade. Perfeito no contraponto e seguríssimo nas entradas.
Tanto o Evangelista, Lidch, como o Cristo, Mertens cantaram também as árias de tenor e baixo. Irrepreensível o tenor foi sublime nos recitativos. Mertens teve apenas um ligeiro problema ao deixar escapar a linha numa das árias. Um pouco mais hesitantes de início foram o contratenor e a soprano mas melhoraram ao longo da noite.
Instrumentistas quase perfeitos onde brilhou a flauta de Hazelzet e um extraordinário Jaap ter Linden no violoncelo e na viola da gamba.
Apenas alguma ligeireza no acompanhento dos recitativos, onde o órgão de Koopman, que também dirigia, foi algo superficial, fizeram com que este concerto não tivesse sido um marco interpretativo.
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o - Mau, * - sofrível, ** - interessante, *** - bom, **** - muito bom, ***** - excepcional.
P.S. Mais uma vez pouco espaço para uma crítica que se queria muito mais longa...
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2.5.11
O Esplendor da Juventude
Henrique Silveira – crítico
Gustav Mahler Jugendorchester com direcção de Philippe Jordan, tenor Burkhard Fritz e barítono Thomas Hmpson, Domingo 17 de Abril, Fundação Gulbenkian, Adagio da Sinfonia nº 10 e Canção da Terra de Gustav Mahler.
No centenário da morte de Mahler a orquestra juvenil que se refunda todos os anos com mais de uma centena dos jovens músicos mais prometedores da Europa volta à sua digressão de Páscoa. Portugal participou com Pedro Fernandes na trompa e Filipe Alves no trombone. Note-se a elevada proporção de jovens de países da mesma ou menor dimensão que a nossa, como Bélgica, Eslováquia ou Estónia, que contribuem com mais músicos. Por outro lado a Espanha tem um largo número de cordas na orquestra e Portugal tem zero músicos neste sector. É um barómetro de como vai mal o ensino da música em Portugal.
O concerto começou com o desesperado adagio da sinfonia que Mahler nunca veio a concluir. O Adagio seria o primeiro andamento. A obra foi tocada com um amor pela música que chegou a ser avassalador, é certo que alguns pizzicati saíram pouco exactos, é certo que, numa tessitura muito ingrata, as violas estiveram quase perfeitas com excepção de uma desafinação pontual, é certo que algumas entradas não foram milimétricas nos metais graves, mas a beleza da entoação, o equilíbrio notável de uma formação tão jovem com uma grande densidade nas cordas, em maior número do que numa formação habitual, e um belíssimo som nas madeiras, deixaram o público de rastos. A direcção muito inspirada e poética de Jordan, apenas com as mãos, criou momentos de grande intensidade dramática e também de grande lirismo. Mahler confrontado com a traição de uma mulher, que nunca o entendeu, e a doença mortal despediu-se desta terra com estes compassos tão bem entendidos por estes jovens, notável.
A Canção da Terra, de facto são seis canções sinfónicas agrupadas numa obra coerente, foi o corolário perfeito este concerto especial. A obra tem uma grande intensidade e exige um grande tenor, com agilidade, potência e brilho; um tenor completo, que seja capaz de um bom piano e de fortíssimos rutilantes, de poesia, de ironia e de virtuosismo. Fritz, um alemão do norte, começou frio e com dificuldades vocais de emissão e entoação na primeira canção mas à medida que aqueceu mostrou ter todas as qualidades mencionadas acima, precisa apenas de melhorar no domínio da suavidade vocal.
Thomas Hampson que, no meu entender, nem tem uma voz muito bela em termos de timbre, construiu uma narrativa coerente e empolgante, perfeito na dicção e na forma de dizer poesia, Hampson foi o poeta chinês que Mahler transformou em música. Com domínio total do papel, e da respiração, foi apenas um pouco ácido nos graves em termos de afinação, teve confiança total na emissão. Acabou numa “Despedida”, último lied do ciclo, tão bela que atingiu o indizível e nos comoveu, mostrando uma qualidade superlativa.
E o encanto da juventude perdurou na nossa memória e levou-nos aos tempos de Mahler e da sua vida tão complicada quando foi bela a sua música. Bravo jovens músicos.
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o - Mau, * - sofrível, ** - interessante, *** - bom, **** - muito bom, ***** - excepcional.
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27.4.11
O mini mercado
Henrique Silveira – crítico
O supermercado da música, como era chamada à Festa da Música, desapareceu. Hoje os Dias da Música no CCB passaram a ser uma espécie de minimercado. Felizmente algum do espírito manteve-se e o público continua a acorrer, em menor número do que nos velhos tempos, mas continua generoso com os artistas.
O público é um dos aspectos mais fascinantes deste evento: a acrescentar ao clássico ruído dos sacos plásticos, das tosses e das crianças aos gritos, temos agora a novidade das cavalgaduras a mandar mensagens escritas. Enfim: o trivial.
Fica a crítica à contratação de uma orquestra checa, vinda de Brno, que não mostrou ter qualidade suficiente em cotejo com as orquestras portuguesas e que terá sido um dos números mais elevados na coluna das despesas. Se a mesma tivesse sido eliminada do programa sobraria muito dinheiro para contratar mais e melhores solistas.
Passamos em revista os cinco concertos a que assistimos após selecção prévia daquilo que pensámos ser o mais interessante e de maior qualidade musical
1. Concerto de Estreia – Orquestra Filarmónica de Brno
Sexta-feira, dia 15, 21h. Paraísos artificiais de Luís de Freitas Branco, Rapsódia em Blue de George Gershwin e Sinfonia do Novo Mundo de Antonin Dvorjak. Solista em piano Jorge Moyano e direcção de Svárovský. Sala quase cheia.
A leitura do poema sinfónico de Freitas Branco foi básica, alguma cor inicial depressa se desvaneceu caindo a interpretação numa mediania que deixou a obra morrer. Uma leitura quase à primeira vista que não dignificou a orquestra.
Seguiu-se uma pesada Rapsódia em Blue com um surpreendente, pelo swing e flexibilidade, Jorge Moyano que mostrou grande musicalidade.
Finalmente uma fraca nona sinfonia de Dvorjak em que os melhores instrumentistas foram o timpaneiro e o corne inglês. Toda a orquestra fraquejou: som grosseiro nos metais, primeiro violino com vibrato caprino, clarinete rachado, trompas graves num absoluto descalabro, falta de equilíbrio e despautério sonoro, sem planos de cor, enfim uma pobre imagem do que uma orquestra checa faria com uma obra tão emblemática do seu património musical. Uma desilusão.
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2. Concerto a dois Pianos
Sábado, dia 16, 16h, Marta Zabaleta e Miguel Borges Coelho, pianos, em Visions de l’Amen, de Olivier Messiaen. Sala quase cheia.
As visões do místico e católico Olivier Messiaen para dois pianos são pequenas obras primas de metafísica.
Os pianistas tocaram de forma plenamente conseguida, com uma coesão estilística e dando o sentido do sublime que há nesta obra. Densos e dramáticos nas sonoridades que explorara as ressonâncias e os harmónicos dos pianos, atingiram a perfeição no “Amen do desejo”, no “Amen do Juízo final” e no “Amen da consumação”.
Apenas a sala desadequada ao som majestoso dos dois pianos de concerto, com um pé-direito baixíssimo e muito acanhada, destruiu a fruição do concerto. É miserável dar aos pianistas e ao público semelhantes condições.
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3. Quarteto Prazak
E este quarteto checo tocou a Suite lírica de Alban Berg e “Cartas íntimas”, o quarteto de cordas nº 2 de Janácek.
Este quarteto é um pouco rústico na sua sonoridade mas é capaz de momentos de grande transcendência e paixão na sua abordagem vigorosa da interpretação.
Na Suite Lírica destaco os brilhantes allegro misterioso e o presto delirando, verdadeiros ícones da produção do compositor e tocados de forma notável pelo quarteto.
Já o quarteto de Janácek teve o constante problema da desafinação do primeiro violino, o que deu algum ácido ao andamento final. Provavelmente calor excessivo na sala e cansaço contribuíram para este lado menos bom. No entanto no moderato, terceiro andamento, atingiu-se a paixão e sentiu-se o profundo amor de Janácek.
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4. Orquestra Sinfónica Metropolitana
Erich Korngold, concerto para violino op. 35, Kurt Weill, Suite da Ópera dos Três Vinténs para orquestra de sopros. Solista em violino: Jack Liebeck, maestro Cesário Costa. Sala meia.
Um solista com um belíssimo som e um grande lirismo, sem cair no mau gosto no ultra-romântico concerto de Korngold. Bom acompanhamento da orquestra, com boa definição de planos sonoros e de cores, pelo maestro Cesário Costa.
Seguiu-se uma interessante suite de Weill, belíssima música tocada com interesse e muito cuidado pela orquestra onde brilharam clarinetes e saxofones e onde todos os músicos estiveram bem. Não é propriamente uma linguagem fácil, a do modernismo erudito com laivos do cabaré. O seu balanço muito especial foi sendo encontrado ao longo do concerto.
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5. Quarteto Brodsky
Andamento para quarteto de Webern, 1905, três peças para quarteto de cordas de Stravinsky e quarteto de Ravel. Sala quase cheia.
Sonoridade grosseira, excesso de som e vibrato agressivo do primeiro violino. Falta de refinamento em Ravel e virtuosismo fácil foram a tónica deste concerto, em que escapou um pouco o andamento lento de Ravel. As notas foram tocadas, os tempos eram os certos mas foi faltando a este quarteto um primeiro violino que se fundisse no grupo. Quando isto acontece está tudo dito, em vez de um quarteto temos um trio mais um.
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o - Mau, * - sofrível, ** - interessante, *** - bom, **** - muito bom, ***** - excepcional.
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17.4.11
Dias da música - Portugueses
A crítica aos conco concertos sairá neste blog dentro de uma semana, depois de sair na terça feira no jornal.
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Entre a concisão e a entropia
Henrique Silveira – crítico
Orquestra Gulbenkian com Sequeira Costa em piano e direcção de Joana Carneiro.
Helix de Esa-Pekka Salonen, concerto para piano e orquestra nº1 de Sergei Rachmaninov e Concerto para orquestra de Béla Bartók. Sala a três quintos.
Quando assisti à estreia de Helix, nos proms de 2005 em Londres, achei a mesma um exercício sobre aceleração do tempo, com alguma técnica mas sem grande arte. Uma obra, sobrecarregada orquestralmente onde nem Gergiev lhe conseguiu dar alguma cor. Na Gulbenkian a interpretação foi tão trapalhona do ponto de vista rítmico que a princípio nem reconhecia a música. Uma obra tratada de forma displicente e... está tudo dito.
Seguiu-se a obra dos dezasseis anos de Rachmaninov. Sendo certo que revista mais tarde, mostra claramente uma invenção natural e juvenil com uma riqueza que às vezes, embrenhado nos seus problemas psicológicos, o compositor não conseguiu obter em obras posteriores. Aqui brilhou Sequeira Costa que, retirado dos afazeres profissionais e de uma agenda pesada de recitais e concertos tem agora uma espécie de segunda juventude: mais de oitenta anos dão-lhe uma segurança artística, uma confiança na sua arte e uma profundidade insuperáveis. A orquestra acompanhou relativamente bem com alguns atrasos de marcação sobre o piano no primeiro andamento e um grosseiro solo de fagote: som roufenho a tapar o piano e sem sentido da linha musical, o solista tem grandes qualidades e apenas precisava de ter tido mais trabalho e atenção; faltou também maestrina para moderar a fúria fagotística.
A lição de Sequeira Costa foi notável, senhor de um toucher denso e cheio obtendo fortíssimos sem martelar, senhor de um fraseado de uma elegância e de uma concisão absolutas, sem recurso a efeitos espúrios e rodriguinhos pseudo românticos, consegue segurar a linha da música de uma forma perfeita sem nunca a quebrar. O andante cantabile foi de uma enorme poesia e o Allegro Scherzando final demonstrou uma técnica invejável. Descendente em linha recta de Lizst e Hans von Bullow, através do seu professor Vianna da Motta, escutar Sequeira Costa é um privilégio raro em tempo de coqueluches superficiais.
Seguiu-se o concerto para orquestra de Bartók. É uma obra de uma grande densidade musical, requintada e brilhante na orquestração e tecnicamente muito difícil.
As minhas referências para esta obra são Karajan em disco e Boulez e Rattle ao vivo, sempre com a Filarmónica de Berlim. A Gulbenkian sai prejudicada na comparação logo no início, pois não tem o mesmo efectivo nas cordas, o que prejudica claramente o mel que deveria sair dos violinos e violas em grave e mesmo dos violoncelos ou o peso dos contrabaixos, tanto mais que alguns naipes surgem em divisi.
No meu entender a maestrina deveria ser menos exuberante na géstica, o que gera problemas de comunicação e entropia musical. Seria necessário mais eficácia e menos desenfreamento gesticular, mais atenção aos detalhes, mais direcção das entradas e controle dos equilíbrios e planos sonoros e menos transe frenético e menos direcção dos solos e das linhas óbvias. No entanto o resultado final, muito por mérito da orquestra, foi razoável.
*** (Pelo Sequeira Costa)
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Nota - Escutámos a versão de 7 de Abril, Quinta-feira.
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16.4.11
Nota sobre concerto de abertura dos dias da música
A orquestra até tem boa fama local, na República Checa, mas a forma como se apresentou foi a roçar o lamentável.
Penso que a direcção do CCB deve indicar à direcção da formação checa que está muito insatisfeita com os resultados e que isso deve ser comunicado aos músicos, de forma a que não tenham um comportamento menos profissional nos concertos que se seguem.
Portugal não pode ser visto como uma colónia de férias paga com dinheiro do FMI em que se dão umas notas esborrachadas e se bebem uns copos e se apanha sol e já está!... o público português merece ainda respeito.
Isto mesmo que o público não se dê ao respeito e aplauda com bravos e de pé quem esteve a gozar com o pagode durante hora e meia.
Escapou Jorge Moyano que esteve ao seu melhor nível numa brilhante rapsódia em Blue de Gershwin.
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10.4.11
O Teatro de Mehta
Henrique Silveira – crítico
Orquestra do Maio Musical Florentino, direcção de Zubin Mehta, novo Palácio das artes de Budapeste. Aberturas de Verdi, Vésperas Sicilianas, Luísa Miller e A Força do Destino na primeira parte, segunda parte com a Sinfonia nº1 de Mahler e extras: dança húngara nº5 de Brahms e Intermezzo da Cavalaria Rusticana de Mascagni. Concerto a 2 de Abril, sala cheia com 1700 lugares.
A primeira parte serviu para aquecer e encher. As aberturas de Verdi foram tocadas com alguma paixão, talvez com a excepção da Luisa Miller um pouco mais arrastada do que seria espectável. Gostámos sobretudo do primeiro clarinete, simplesmente brilhante nos seus solos e de um apropriado Cimbasso italiano no naipe dos trombones a fazer a parte mais graves. Os vinte e cinco minutos iniciais passaram depressa.
A sinfonia nº1 de Mahler é música de menor fluência para a orquestra italiana do que o idiomático Verdi. Aqui devia sentir-se a batuta de um grande maestro. Infelizmente a sucessão de erros técnicos e artísticos deixou muitas dúvidas da actual qualidade da orquestra e, sobretudo, das qualidades de Mehta em Mahler. Desafinações nos primeiros violinos nas notas mais agudas, sforzandi anémicos, falta de equilíbrio sonoro entre metais graves e resto da orquestra, trompas graves com som feio, um solo de contrabaixo tocado com notas ao lado no quarto andamento, vibrato caprino na primeira flauta, notas erradas massacrando a harmonia nas trompas e falta de som nos violinos foram constantes em Mahler.
No entanto, o mais constrangedor foi o teatro expressivo de Mehta, com amplos e belos gestos, mas com pouca eficácia e sem se dar ao trabalho de dar entradas. Isso foi notório nos momentos mais líricos, em que o maestro fazia uma pantomina muito inspirada mas da orquestra saia um som descoordenado e pouco poético.
O primeiro andamento não teve nem mistério nem clímax, e acabou a arrastar-se penosamente sem capacidade de arranque no final. É espectável o público ficar sem fôlego mas apenas os músicos ficaram ofegantes. O segundo andamento foi frouxo e monótono. O terceiro foi trapalhão e desinteressante. O quarto foi o pior, o famoso Frère Jacques foi destruído pelo contrabaixo seguindo-se uma inenarrável confusão e descoordenação, cuja única explicação será a falta de trabalho e falta de ensaios. O final foi agressivo e pesado e a poesia nunca esteve presente, o barulho e as notas erradas das trompas foram tónica e dominante.
Gostámos muito do naipe dos fagotes, dos clarinetes e das violas. Os violinos com um concertino com pouca personalidade, o solista em flauta com um som horrendo e um mau e desatento naipe de trompas foram o pior da orquestra, o resto foi sofrível. A orquestra de Florença esteve a um nível inferior ao exigível numa formação com a sua história.
Após aplausos entusiásticos misturados com poucos, mas audíveis, apupos Mehta teve o descaramento de dar dois extras: uma banalíssima e desinteressante Dança Húngara de Brahms, com muito pouca cor e pouco contraste e um belíssimo intermezzo de Mascagni que mitigou um pouco o sofrimento. Mehta fez o seu teatro e lá vai andando ao seu ritmo de cruzeiro desfrutando de uma fama e de um mediatismo que não tem paralelo com o trabalho produzido. Mahler escreveu que a chave da sua interpretação era a exactidão e o que estava para além das notas e, neste caso, não se obteve nem uma coisa nem outra.
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16.3.11
O substituto
Abertura da Flauta Mágica de Mozart, Canções de um Viandante de Gustav Mahler e Sinfonia nº 15 de Chostakovich. Orquestra Gulbenkian com direcção de Ainars Rubikis e o barítono Georg Nigl. 24 de Fevereiro, Fundação Gulbenkian. Sala a quatro quintos.
Yakov Kreizberg por motivo de “força maior” não veio dirigir a Orquestra Gulbenkian nesta semana de Fevereiro, foi subtituído pelo jovem Rubikis, nascido em Riga em 1978, terra de grandes músicos e de grande tradição. O concerto iniciou-se por uma esquecível abertura de Mozart, onde a falta de domínio da linguagem mozarteana por parte de maestro e orquestra, e a total trapalhada e desacerto nas entradas constituiram uma entrada displicente. Salvou-se o clarinete, com sonoridade clássica, de Esther Georgie.
Seguiu-se um barítono a cantar Mahler que, apesar de atacar os agudos quase impossíveis da partitura e de uma boa forma de dizer a poesia em alemão, foi atraiçoado por uma má técnica vocal, um stress vocal excessivo nos fortíssimos, em que abusou da gritaria, e um mau domínio do diafragma e da respiração. Foram frequentes as frases acabadas em perda e desafinação quando lhe faltou o fôlego, tudo fruto de má coordenação do diafragma e dos pontos de respiração. Foram demasiados defeitos graves e, apesar de ter começado nos pequenos cantores de Viena, uma má escolha da direcção artística da Gulbenkian.
A segunda parte teve a última sinfonia de Chostakovich com Allegretto, Adagio, Allegretto e Adagio - Allegretto. Apesar de falta de coordenação nas entradas dos metais e da falta de comunicação entre trompas (bem) e trombones (menos bem) sobretudo nos Adagios, apesar de alguns pizzcati descoordenados nas cordas, apesar de entradas fraquinhas nas madeiras agudas e apesar de uma resposta lenta ao gesto do maestro por parte da orquestra, foi uma leitura interessante, embora mais pelo lado doce e subtil do que pelos momentos mais duros e agrestes do ácido humor de Chostakovich. Divertidas citações de Rossini e negras as citações de Wagner que o compositor vai amenizando ao longo do último andamento acabando de forma mágica nas belas e etéreas percussões finais. Muito empenhados todos os solistas com destaque para o violoncelo. O maestro esteve empenhado e atento mas o seu gesto nem sempre foi eficaz na comunicação com os músicos.
O final da obra foi belíssimo, Estaline já estava morto e Chostakovich pode despedir-se deste mundo sem peias estéticas, caminhando para as estrelas.
Orquestra: a melhorar a atenção e coesão nas entradas em andamentos lentos e o aprumo patente na falta de verniz nos sapatos que já mereciam uma visita ao sapateiro.
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10.3.11
Sofia – A Hora da Alma
Sofia Gubaidolina, a grande compositora russa nascida em 1931 na cidade tártara de Chistopol, esteve em Lisboa. O programa da sua visita foi preparado por Filipe Pinto Ribeiro, pianista que estudou em Moscovo e profundo conhecedor da música russa fundador do Schostakovich Ensemble, e incluiu quatro concertos, a projecção de um documentário e um encontro com a compositora.
Todos estes eventos tiveram lugar no Centro Cultural de Belém. Em particular assistimos ao “... Para Gubaidulina” um concerto de câmara no dia 9 de Fevereiro no Pequeno Auditório esgotado. Escutámos o Schostakovich Ensemble nas seis bagatelas de Webern, tocadas com precisão e alma.
Já o quinteto de Schostakovich op. 57, teve uma interpretação muito vigorosa, talvez excessivamente pesada, sobretudo no som das cordas, por vezes em desequilíbrio numa tentativa de puxar pelo som, um pouco dentro da escola russa actual de cordas. Penso que teria sido mais interessante uma leitura mais irónica e menos densa.
O prato forte, porque todos esperavamos, era a segunda parte do concerto com abras da compositora russa. Depois do notável exercício sobre a última fuga de Bach, excelente tocada, mais uma vez com precisão e alma, tivemos uma notabilíssima execução do “funânbulo” para piano e violino. Tatiana Samouil esteve notável no violino e Filipe Pinto Ribeiro foi magistral na forma como criou sonoridades sombrias e misteriosas com um copo de água a roçar a cordas do piano e na forma como tocou o final da obra ao teclado. A incisão e o lado obsessivo do violino, estranhamente evocativo, lembraram um quadro de Chagall, simplesmente notável a obra e a execução.
A obra mais exigente veio finalmente com a presença de sete violoncelos em palco, um solista: Nicolas Alstaedt, membro do Schostakovich ensemble e seis convidados: V. Bartikian, R. Reis, J. Lake, T. V. Pereira e M. Kiska. A própria compositora e Filipe Pinto Ribeiro tocaram aquafones, instrumentos com varetas de metal e um ressoador com água accionados por arcos. Faltou precisão aos tutti dos violoncelos mas percebeu-se a notável e etérea construção de Gubaidolina onde o tema do Dies Irae se vai insinuando de forma persistente até à dissolução final. Apesar de algumas pequenas falhas um excelente concerto. Público em delírio. Foi a Hora da Alma.
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Al-Kindi
Henrique Silveira – crítico
Al-Kindi ensemble com direcção de Julien Weiss, coro Munshiddin e Derviches da Irmandade Qaderi de Aleppo na Síria com direcção do Sheikh Habboush e Coro Bizantino Tropos de Atenas com direcção de Konstantinos Angelidis.
31 de Janeiro, Fundação Gulbenkian. Sala esgotada.
Al-Kindi foi um sábio árabe do século nono de Bagdade que introduziu a filosofia grega no mundo árabe. Um nome que é também a paráfrase de um grande concerto na Gulbenkian reunindo diversos mundos no mesmo palco e tendo como tema Maria mãe de Jesus (considerado um Grande Profeta pelo Islão), que se celebrou num Stabat Mater estilizado entre gregos e árabes.
Um longo concerto com música árabe e bizantina, uma revelação de grande beleza das relações entre a complexa estrutura dos coros bizantinos na sua enorme riqueza modal, notável sobretudo em “Theotoke Parthene” nos oito modos bizantinos, paleta incrível da gama de recursos vocais e musicais da música grega, e o mundo árabe com o extraordinário e famoso Al-Kindi do suíço Weiss, radicado na Turquia e entretanto convertido ao islão, e que reune os melhores intérpretes em flauta, Rebab, Percussão e no canto de Bekir Buyukbas, um autêntico poeta na forma como diz e canta o árabe clássico.
O Sheikh Habboush da irmandade Qaderi (Sheikh quer dizer numa tradução livre: homem sábio ou, de outra forma: ancião) é um homem da mais profunda tradição musical da Síria, mais melódico e doce do que Buyubkas, recriou pela sua voz no nosso imaginário as viagens ao Oriente em que genuínos derviches giram até ao transe místico ao som encantatório dos instrumentos tradicionais, onde pontifica a Cítara de Weiss.
Negativa apenas a ausência do oud de Qadri Dalal (habitual neste projecto) e de um coro bizantino reduzido a metade do seu efectivo. Será que a Gulbenkian para poupar nos cachés apenas nos deu a conhecer metade do projecto ecuménico de Weiss? Ou será que os músicos optaram por viajar em formação reduzida? O que é certo é que o peso sono dos oito bizantinos na sala da Gulbenkian foi insuficiente para o espaço e que o alaúde árabe é indispensável num concerto de música tradicional deste universo sendo a sua ausência lamentável.
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Crédito a vinte anos
Henrique Silveira – crítico
Sinfonia nº 9, em Ré maior – Gustav Mahler. Orquestra Filarmónica de Los Angeles com direcção de Gustavo Dudamel
22 de Janeiro, Fundação Gulbenkian. Sala esgotada.
Dudamel é um maestro jovem, ainda na casa dos vinte anos, e nesse ponto reside a sua maior força e o seu maior defeito, controlando a partitura de cor, sabendo os pontos chave das entradas, dos tempos e dos lugares, domina a milionária orquestra de Los Angeles, da qual é titular, não se deixando dominar pela mesma. É notável a empatia que os músicos estabelecem com o seu maestro e a forma como respeitam a sua direcção. Tudo gira em torno do seu gesto vigoroso, determinado e perfeito. Dudamel é técnica natural e é arrojo expressivo.
Um fruto do sistema venezuelano, que torna jovens excluídos em músicos, Dudamel acabou por se tornar num produto do “star sistem”, suprema contradição. O excesso, o entusiasmo, a subversão do “clássico tornado rock”, como vem em todas as folhas de programa onde Dudamel aparece, o excesso sonoro e a origem humilde formam uma mistura que deixa os americanos à beira de um ataque de histeria e serve às mil maravilhas a Universal na promoção do seu “produdo”. Felizmente Dudamel é um pouco mais do que isso.
Nesta nona de Mahler, além do virtuosismo técnico e da beleza sonora e qualidade da orquestra, aspectos evidentes, foi óbvia a falta da compreensão profunda do Mahler final, um Mahler sombrio e depressivo que, lido de forma exuberante e linear por Dudamel, foi muitas vezes banal e pouco refinado. Soube por isso a pouco a falta de minúcia no detalhe da metamorfose do belo no horrível, metáfora tão evidente nas trompas que se cruzam do som natural ao som com surdina e atravessam a fronteira do etéreo para o mais horrível sofrimento em poucos segundos. Essa má passagem no primeiro andamento foi o paradigma de Dudamel, superficial, pouco gradual, evidente como um mágico que deixa perceber os truques.
Se somarmos a isto a falta de sentido do sarcasmo e da ironia num Ländler grosseiro, e a falta da sustentação do som nos violinos nas passagens mais expostas nos agudos em pianíssimo, com excesso de stress no som, abusando agressivamente do vibrato em todas as cordas, sobretudo no rondo, acabamos num Mahler técnico superficial. Mahler disse que “a música está para lá das notas” e Dudamel ainda não percebeu bem isso.
Talvez dentro de vinte anos esteja pronto para esta música e isso compreendeu-se no Adagio conclusivo, onde Dudamel tocou a estrela onde Mahler vive. E que belo final onde após o último som morrer a sala esperou um minuto e, milagre único nesta noite até as tosses se calaram, pelo gesto redentor e apaziguador do maestro a fechar o gesto.
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Esa Pekka Salonen em Lisboa
Philharmonia Orchestra, Coro Gulbenkian, Attila Fekete, tenor, e Michele Kalmandi, barítono. Direcção de Esa-Pekka Salonen no Coliseu dos Recreios de Lisboa a 13 de Janeiro. Casa a 90%.
Na acústica péssima do Coliseu dos Recreios foram interpretados o Mandarim Maravilhoso e a Cantata Profana de Béla Bartók e a Sagração da Primavera de Igor Stravinsky. Deve-se dizer que este programa é um tremendo tour de force por páginas da maior dificuldade técnica da história da música. Com armadilhas rítmicas em tempos irregulares, entradas sucessivas dos instrumentos em ritmos alucinantes, todo este programa punha à prova a capacidade de resistência à pressão de maestro e músico em duas horas de concerto.
Se o Mandarim Maravilhoso foi um extraordinário jogo de clareza e transparências nos diversos planos sonoros em que todos os instrumentos brilharam, a Cantata Profana teve muito mais difícil apreensão pelo público. A orquestra acotovelava-se no palco onde celesta, piano, órgão, harpa e diversos altifalantes disputavam o espaço. Os altifalantes devem-se ao facto de na acústica do Coliseu nem o coro conseguir ouvir a orquestra nem a orquestra o coro, criando-se dificuldade de coordenação e comunicação insanáveis. O som do coro parecia vindo do fundo de um poço.
Mas quando se tem Salonen nem tudo está perdido e o maestro finlandês conseguiu estar em todos os pontos essenciais da partitura, com uma atenção aos detalhes, às entradas de vozes e instrumentos, com uma capacidade de comunicação através da minúcia não fabricada ou falsa de um gesto ao mesmo tempo essencial e completo. Creio que esta capacidade de comunicação, uma grande musicalidade e uma capacidade de análise e conhecimento das partituras faz deste maestro uma tremenda força que é capaz nas mais adversas circunstâncias transformar o impossível no belo. Um modelo copiado por seguidores mas quase impossível de seguir na sua eficácia.
Os cantores solistas fizeram o possível por se ouvir no inferno acústico do Coliseu, com algumas reservas em alguns agudos do tenor que saíram partidos.
A Sagração da Primavera foi um coroar perfeito do trabalho de Salonen, os aspectos rítmicos foram realizados de forma superlativa, numa direcção que mais uma vez privilegiou o detalhe, a clareza, a elegância e o equilíbrio em detrimento do lado mais selvagem da partitura.
Os pontos altos foram a clareza e a qualidade sonora geral, trabalhados com grande detalhe, a suavidade e ao mesmo tempo a densidade dos metais, a pujança e energia das cordas. Sublimes os pianíssimos quase inaudíveis da orquestra e em particular dos trompetes.
A orquestra dos tempos de Walter Legge continua a sobreviver com mais ou menos dificuldades, os contratos agora são precários e os músicos nem sequer têm ordenado fixo, mas o brio, a qualidade profissional e a entrega são totais.
Brilhante também a bela exposição sobre a orquestra, um projecto da Philharmonia, patente no Museu do Design de Lisboa. A não perder.
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