
28.6.11
Apenas alguma exactidão
Texto Publicado originalmente no jornal "O Diabo"
Henrique Silveira – crítico
Sinfonia nº2 em dó menor, Ressurreição, de Gustav Mahler. Orquestra Sinfónica de S. Francisco, Coro Gulbenkian, direcção de Michael Tilson Thomas, Laura Claycomb, soprano, Katarina Karnéus, meio soprano. Coliseu dos Recreios cheio. Encerramento da temporada 2010/2011 da Fundação Gulbenkian.
A gigantesca sinfonia Ressurreição é uma das obras maiores do repertório sinfónico, uma obra de grande envergadura da orquestra reforçada com metais e percussões suplementares. Começada em 1888 e acabada em 1894, revelou as hesitações de um jovem compositor sobre a sua arte a forma, exemplo disso é o primeiro andamento, cuja concepção seria originalmente a de um poema sinfónico independente Totenfeier, Rito fúnebre, e que depois de muitos avanços e recuos veio a ser o primeiro andamento, allegro maestoso, desta obra grandiosa e trágica que incorpora ainda um poema de Des Knaben Wunderhorn no quarto andamento Urlicht, Luz Original, o ciclo de poemas populares alemães. A obra gira em torno da morte e da vida para além desta. Não tem a menor inspiração na religião católica mas sim na crença, do judeu Mahler, numa Ressurreição post-mortem.
Mahler afirmou que um das chaves da sua música era a exactidão, a outra chave era o que estava para além das notas. Michael Tilson Thomas recorreu a uma leitura muito suave, com gestos difusos e pouco acentuados à frente da “sua” orquestra. Numa acústica miserável como a do Coliseu é quase deitar-se música para o lixo a execução de uma obra tão complexa e contrastante como esta sinfonia. Os fortíssimos soam débeis e os pianíssimos e os detalhes perdem-se. O que seria o lado mais interessante da leitura de Thomas: os detalhes, ficaram reduzidos à anemia sonora. Por outro lado a géstica muito difusa do maestro trouxe algumas inexactidões em algumas entradas a começar pelo início que deveria trazer um grande impacto e uma enorme tensão e que, por falta de exactidão, se saldou por algum desconchavo. O segundo andamento, o Andante Moderato, foi talvez o melhor momento da sinfonia, com predomínio para a suavidade do ritmo de dança e o diálogo entre os instrumentos.
O scherzo, terceiro andamento, baseado na melodia do Sermão de Santo António aos peixes, uma canção que Mahler escreveu ao mesmo tempo que compunha a sinfonia, foi fluido, quase como o fluxo de água e do discurso do Santo, faltando tensão nos pontos de clímax.
Os andamentos finais com partes vocais, foram diversos, Urlich, teve a exaltação mística, mais própria do lado apolíneo de Thomas, enquanto ao andamento com o poema Ressurreição de Klopstock faltou de novo tensão. O coro ouviu-se com dificuldade e não houve grande nuance, mais uma vez por culpa da acústica da sala, mas a afinação pareceu-me perfeita. As solistas cumpriram com esforço para vencer o vazio acústico da sala, tendo eu apreciado vivamente o timbre escuro de Katarina Karnéus sendo Laura Claycomb um pouco estridente na emissão. Apesar disso musicalidade e sentido da poesia foram a tónica destas cantoras.
Quem foi o maestro preparador de coro? Ninguém sabe, nem no programa vem mencionado nem agradeceu em palco, mais uma deselegância e falta de informação do programa.
Uma interpretação relativamente exacta mas sem muito para além das notas.
***
Henrique Silveira – crítico
Sinfonia nº2 em dó menor, Ressurreição, de Gustav Mahler. Orquestra Sinfónica de S. Francisco, Coro Gulbenkian, direcção de Michael Tilson Thomas, Laura Claycomb, soprano, Katarina Karnéus, meio soprano. Coliseu dos Recreios cheio. Encerramento da temporada 2010/2011 da Fundação Gulbenkian.
A gigantesca sinfonia Ressurreição é uma das obras maiores do repertório sinfónico, uma obra de grande envergadura da orquestra reforçada com metais e percussões suplementares. Começada em 1888 e acabada em 1894, revelou as hesitações de um jovem compositor sobre a sua arte a forma, exemplo disso é o primeiro andamento, cuja concepção seria originalmente a de um poema sinfónico independente Totenfeier, Rito fúnebre, e que depois de muitos avanços e recuos veio a ser o primeiro andamento, allegro maestoso, desta obra grandiosa e trágica que incorpora ainda um poema de Des Knaben Wunderhorn no quarto andamento Urlicht, Luz Original, o ciclo de poemas populares alemães. A obra gira em torno da morte e da vida para além desta. Não tem a menor inspiração na religião católica mas sim na crença, do judeu Mahler, numa Ressurreição post-mortem.
Mahler afirmou que um das chaves da sua música era a exactidão, a outra chave era o que estava para além das notas. Michael Tilson Thomas recorreu a uma leitura muito suave, com gestos difusos e pouco acentuados à frente da “sua” orquestra. Numa acústica miserável como a do Coliseu é quase deitar-se música para o lixo a execução de uma obra tão complexa e contrastante como esta sinfonia. Os fortíssimos soam débeis e os pianíssimos e os detalhes perdem-se. O que seria o lado mais interessante da leitura de Thomas: os detalhes, ficaram reduzidos à anemia sonora. Por outro lado a géstica muito difusa do maestro trouxe algumas inexactidões em algumas entradas a começar pelo início que deveria trazer um grande impacto e uma enorme tensão e que, por falta de exactidão, se saldou por algum desconchavo. O segundo andamento, o Andante Moderato, foi talvez o melhor momento da sinfonia, com predomínio para a suavidade do ritmo de dança e o diálogo entre os instrumentos.
O scherzo, terceiro andamento, baseado na melodia do Sermão de Santo António aos peixes, uma canção que Mahler escreveu ao mesmo tempo que compunha a sinfonia, foi fluido, quase como o fluxo de água e do discurso do Santo, faltando tensão nos pontos de clímax.
Os andamentos finais com partes vocais, foram diversos, Urlich, teve a exaltação mística, mais própria do lado apolíneo de Thomas, enquanto ao andamento com o poema Ressurreição de Klopstock faltou de novo tensão. O coro ouviu-se com dificuldade e não houve grande nuance, mais uma vez por culpa da acústica da sala, mas a afinação pareceu-me perfeita. As solistas cumpriram com esforço para vencer o vazio acústico da sala, tendo eu apreciado vivamente o timbre escuro de Katarina Karnéus sendo Laura Claycomb um pouco estridente na emissão. Apesar disso musicalidade e sentido da poesia foram a tónica destas cantoras.
Quem foi o maestro preparador de coro? Ninguém sabe, nem no programa vem mencionado nem agradeceu em palco, mais uma deselegância e falta de informação do programa.
Uma interpretação relativamente exacta mas sem muito para além das notas.
***
Etiquetas: Coro Gulbenkian, Crítica de Concertos, Gulbenkian, Mahler
2.5.11
O Esplendor da Juventude
Publicado originalmente no jornal "O Diabo"
Henrique Silveira – crítico
Gustav Mahler Jugendorchester com direcção de Philippe Jordan, tenor Burkhard Fritz e barítono Thomas Hmpson, Domingo 17 de Abril, Fundação Gulbenkian, Adagio da Sinfonia nº 10 e Canção da Terra de Gustav Mahler.
No centenário da morte de Mahler a orquestra juvenil que se refunda todos os anos com mais de uma centena dos jovens músicos mais prometedores da Europa volta à sua digressão de Páscoa. Portugal participou com Pedro Fernandes na trompa e Filipe Alves no trombone. Note-se a elevada proporção de jovens de países da mesma ou menor dimensão que a nossa, como Bélgica, Eslováquia ou Estónia, que contribuem com mais músicos. Por outro lado a Espanha tem um largo número de cordas na orquestra e Portugal tem zero músicos neste sector. É um barómetro de como vai mal o ensino da música em Portugal.
O concerto começou com o desesperado adagio da sinfonia que Mahler nunca veio a concluir. O Adagio seria o primeiro andamento. A obra foi tocada com um amor pela música que chegou a ser avassalador, é certo que alguns pizzicati saíram pouco exactos, é certo que, numa tessitura muito ingrata, as violas estiveram quase perfeitas com excepção de uma desafinação pontual, é certo que algumas entradas não foram milimétricas nos metais graves, mas a beleza da entoação, o equilíbrio notável de uma formação tão jovem com uma grande densidade nas cordas, em maior número do que numa formação habitual, e um belíssimo som nas madeiras, deixaram o público de rastos. A direcção muito inspirada e poética de Jordan, apenas com as mãos, criou momentos de grande intensidade dramática e também de grande lirismo. Mahler confrontado com a traição de uma mulher, que nunca o entendeu, e a doença mortal despediu-se desta terra com estes compassos tão bem entendidos por estes jovens, notável.
A Canção da Terra, de facto são seis canções sinfónicas agrupadas numa obra coerente, foi o corolário perfeito este concerto especial. A obra tem uma grande intensidade e exige um grande tenor, com agilidade, potência e brilho; um tenor completo, que seja capaz de um bom piano e de fortíssimos rutilantes, de poesia, de ironia e de virtuosismo. Fritz, um alemão do norte, começou frio e com dificuldades vocais de emissão e entoação na primeira canção mas à medida que aqueceu mostrou ter todas as qualidades mencionadas acima, precisa apenas de melhorar no domínio da suavidade vocal.
Thomas Hampson que, no meu entender, nem tem uma voz muito bela em termos de timbre, construiu uma narrativa coerente e empolgante, perfeito na dicção e na forma de dizer poesia, Hampson foi o poeta chinês que Mahler transformou em música. Com domínio total do papel, e da respiração, foi apenas um pouco ácido nos graves em termos de afinação, teve confiança total na emissão. Acabou numa “Despedida”, último lied do ciclo, tão bela que atingiu o indizível e nos comoveu, mostrando uma qualidade superlativa.
E o encanto da juventude perdurou na nossa memória e levou-nos aos tempos de Mahler e da sua vida tão complicada quando foi bela a sua música. Bravo jovens músicos.
*****
o - Mau, * - sofrível, ** - interessante, *** - bom, **** - muito bom, ***** - excepcional.
Henrique Silveira – crítico
Gustav Mahler Jugendorchester com direcção de Philippe Jordan, tenor Burkhard Fritz e barítono Thomas Hmpson, Domingo 17 de Abril, Fundação Gulbenkian, Adagio da Sinfonia nº 10 e Canção da Terra de Gustav Mahler.
No centenário da morte de Mahler a orquestra juvenil que se refunda todos os anos com mais de uma centena dos jovens músicos mais prometedores da Europa volta à sua digressão de Páscoa. Portugal participou com Pedro Fernandes na trompa e Filipe Alves no trombone. Note-se a elevada proporção de jovens de países da mesma ou menor dimensão que a nossa, como Bélgica, Eslováquia ou Estónia, que contribuem com mais músicos. Por outro lado a Espanha tem um largo número de cordas na orquestra e Portugal tem zero músicos neste sector. É um barómetro de como vai mal o ensino da música em Portugal.
O concerto começou com o desesperado adagio da sinfonia que Mahler nunca veio a concluir. O Adagio seria o primeiro andamento. A obra foi tocada com um amor pela música que chegou a ser avassalador, é certo que alguns pizzicati saíram pouco exactos, é certo que, numa tessitura muito ingrata, as violas estiveram quase perfeitas com excepção de uma desafinação pontual, é certo que algumas entradas não foram milimétricas nos metais graves, mas a beleza da entoação, o equilíbrio notável de uma formação tão jovem com uma grande densidade nas cordas, em maior número do que numa formação habitual, e um belíssimo som nas madeiras, deixaram o público de rastos. A direcção muito inspirada e poética de Jordan, apenas com as mãos, criou momentos de grande intensidade dramática e também de grande lirismo. Mahler confrontado com a traição de uma mulher, que nunca o entendeu, e a doença mortal despediu-se desta terra com estes compassos tão bem entendidos por estes jovens, notável.
A Canção da Terra, de facto são seis canções sinfónicas agrupadas numa obra coerente, foi o corolário perfeito este concerto especial. A obra tem uma grande intensidade e exige um grande tenor, com agilidade, potência e brilho; um tenor completo, que seja capaz de um bom piano e de fortíssimos rutilantes, de poesia, de ironia e de virtuosismo. Fritz, um alemão do norte, começou frio e com dificuldades vocais de emissão e entoação na primeira canção mas à medida que aqueceu mostrou ter todas as qualidades mencionadas acima, precisa apenas de melhorar no domínio da suavidade vocal.
Thomas Hampson que, no meu entender, nem tem uma voz muito bela em termos de timbre, construiu uma narrativa coerente e empolgante, perfeito na dicção e na forma de dizer poesia, Hampson foi o poeta chinês que Mahler transformou em música. Com domínio total do papel, e da respiração, foi apenas um pouco ácido nos graves em termos de afinação, teve confiança total na emissão. Acabou numa “Despedida”, último lied do ciclo, tão bela que atingiu o indizível e nos comoveu, mostrando uma qualidade superlativa.
E o encanto da juventude perdurou na nossa memória e levou-nos aos tempos de Mahler e da sua vida tão complicada quando foi bela a sua música. Bravo jovens músicos.
*****
o - Mau, * - sofrível, ** - interessante, *** - bom, **** - muito bom, ***** - excepcional.
Etiquetas: Crítica de Concertos, Gulbenkian, Mahler
5.2.10
Para que serve ele?
Este post é escrito após o concerto de 4 de Fevereiro de 2010 na Gulbenkian.
Em conversas com muitos melómanos que assistem aos concertos na Gulbenkian é costume dizer-se: "O Foster até é bom, mas não é um grande intérprete de Mozart, está fora do melhor repertório do maestro..." ou "O Foster até que dirige bem mas não é um especialista em Strauss"... ou "O Foster é um excelente maestro mas é demasiado pesado para Mendelssohn"... "A música contemporânea não é o forte de Foster, ele é muito bom noutros repertórios"... ou ainda "O Foster não é historicamente informado"...
Vem isto a propósito de um concerto a que assisti ontem. Mais uma vez observei a direcção do maestro americano em Mahler. Mais precisamente em "A Trompa Mágica do Rapaz"...
Foster dirige de uma forma assaz peculiar, circular, impreciso, o seu timming é ao compasso, nunca antecipa os movimentos e as entradas, quando não anda atrás da orquestra é porque está a tempo com a mesma. Este sintoma é, infelizmente, sinal de que Foster não dirige, Foster vai com os acontecimentos, Foster é dirigido pela obra e conduzido pela orquestra. A sua géstica é assaz deselegante, uma espécie de mistura entre um pasteleiro amassando a massa do bolo, um sinaleiro que levanta o braço esquerdo para mandar parar um trânsito há muito estacado e, a espaços, um toureiro de mãos atrás das costas depois de espetar uma bandarilha. A sua mão esquerda, de polegar invariavelmente esticado, vai pedindo boleia aos músicos da orquestra à procura da carrugem certa onde nunca entra.
Esta incapacidade de controlar os acontecimentos, a circularidade imprecisa do gesto, a errática escolha das entradas, o fecho do movimento, quando o som já lá chegou, e até expirou, são apenas sintomas de algo muito pior: uma falta de qualidade que se vem instalando e repetindo sistematicamente.
A mediocridade das suas direcções em obras mais complexas surge de forma confrangedora. Ontem, em Mahler, eu atingi o ponto de não retorno, ontem acabou o benefício da dúvida há espera de Godot há demasiados anos. Mais uma vez Foster foi grosseiro, óbvio e pouco subtil. A construção do som foi deficiente, a direcção foi superficial e não atingiu o âmago. Não foi irónica na espantosa crítica de Mahler aos críticos e perdida num óbvio, pesado e amalgamado (no mau sentido) conjunto, nunca se escutou o rouxinol, apenas os outros comparsas, e nem as quintas e as quartas sairam perfeitas e a tempo. Foster não foi trágico quando o menino morre de fome, não foi inspirado nem incisivo nem cíclico no sermão de Santo António. Com Foster não há planos sonoros, com Foster não há transparências, sobra apenas um caldo de notas onde, com muita sorte, os instrumentos entram a tempo e acabam juntos.
Com Foster não há equilíbrio, há apenas empastelamento numa espécie de corrida de carrossel ao som de um realejo. Pizzicati transformados em harpejos, entradas esborrachadas, som pouco coeso, estes os cartões de visita de uma direcção Foster quando dirige uma obra um pouco mais complexa e com mais detalhe do que "num mercado persa". É caso para dizer que este carrossel precisa de inspecção...
Mais uma vez não existiu densidade nas cordas. Afinal como se explica o critério da colocação dos contrabaixos longe dos fagotes e dos trombones do lado esquerdo da orquestra? Qual a razão do naipe dos segundos violinos, já de si pobre em som, ficar do lado direito a projectar o som para dentro da orquestra quando os violoncelos podem, com vantagem acústica, ser colocados na mesma posição sem perda de som?
Enfim mais um concerto perdido com uma direcção errática e sem critério, incerta, apenas movimento, apenas exterioridade sem a menor consequência numa riqueza musical apenas entrevista em memórias de Bruno Walter, de Szell, de Kubelik, de Boulez, alguns que me ocorreram entre largas dezenas de bons exemplos entre os quais não pontifica Foster. Grosseiro e pobre. Triste Mahler nas mão de semelhante banda de feira. E se há bons músicos nesta orquestra!? claro que há, mas com Foster temos sorte se, rapidamente, a massa se for mexendo.
Alguém dizia no fim: "Realmente o Foster não é um mahleriano". Mas afinal ele é quem musicalmente? Um especialista em Franz von Suppé? Um dedicado intérprete de Chabrier? Um grande intérprete de valsas? Um magistral director de Enesco? Um mestre da "americanada" vigorosa? Um emérito especialista em música de circo? Um Masseneano? Um dedicado especialista em música judaica? Um especialista em obras tipo: "pagode chinês" ou "bacanal" do Sansão e Dalila? Afinal para que serve ele musicalmente?
Ontem, para mim, o copo cheio finalmente transbordou e cheguei à, tantas vezes adiada, conclusão: Lawrence Foster está demasiado acomodado na Gulbenkian, demasiados anos, demasiada rotina, e nem sequer consegue vestir-se em condições para se apresentar em palco e respeitar o público, coisa que se perdoaria sem piscar os olhos a um grande artista mas que não se desculpa a quem não consegue dirigir ao mais alto nível compositores como Mahler.
P.S. Parabéns a Pedro Pacheco que conseguiu reunir energias para conseguir vestir o colete branco que respeita a casaca. Finalmente o cinturão negro de cabedal debaixo da respectiva barriguinha sobressaliente fica a bom recato. O seu a seu dono! Pacheco está mais confiante musicalmente e nota-se que bastou uma mínima mudança na aparência para aumentar a sua confiança e o seu brio profissional. E que me desculpe a brincadeira...
Em conversas com muitos melómanos que assistem aos concertos na Gulbenkian é costume dizer-se: "O Foster até é bom, mas não é um grande intérprete de Mozart, está fora do melhor repertório do maestro..." ou "O Foster até que dirige bem mas não é um especialista em Strauss"... ou "O Foster é um excelente maestro mas é demasiado pesado para Mendelssohn"... "A música contemporânea não é o forte de Foster, ele é muito bom noutros repertórios"... ou ainda "O Foster não é historicamente informado"...
Vem isto a propósito de um concerto a que assisti ontem. Mais uma vez observei a direcção do maestro americano em Mahler. Mais precisamente em "A Trompa Mágica do Rapaz"...
Foster dirige de uma forma assaz peculiar, circular, impreciso, o seu timming é ao compasso, nunca antecipa os movimentos e as entradas, quando não anda atrás da orquestra é porque está a tempo com a mesma. Este sintoma é, infelizmente, sinal de que Foster não dirige, Foster vai com os acontecimentos, Foster é dirigido pela obra e conduzido pela orquestra. A sua géstica é assaz deselegante, uma espécie de mistura entre um pasteleiro amassando a massa do bolo, um sinaleiro que levanta o braço esquerdo para mandar parar um trânsito há muito estacado e, a espaços, um toureiro de mãos atrás das costas depois de espetar uma bandarilha. A sua mão esquerda, de polegar invariavelmente esticado, vai pedindo boleia aos músicos da orquestra à procura da carrugem certa onde nunca entra.
Esta incapacidade de controlar os acontecimentos, a circularidade imprecisa do gesto, a errática escolha das entradas, o fecho do movimento, quando o som já lá chegou, e até expirou, são apenas sintomas de algo muito pior: uma falta de qualidade que se vem instalando e repetindo sistematicamente.
A mediocridade das suas direcções em obras mais complexas surge de forma confrangedora. Ontem, em Mahler, eu atingi o ponto de não retorno, ontem acabou o benefício da dúvida há espera de Godot há demasiados anos. Mais uma vez Foster foi grosseiro, óbvio e pouco subtil. A construção do som foi deficiente, a direcção foi superficial e não atingiu o âmago. Não foi irónica na espantosa crítica de Mahler aos críticos e perdida num óbvio, pesado e amalgamado (no mau sentido) conjunto, nunca se escutou o rouxinol, apenas os outros comparsas, e nem as quintas e as quartas sairam perfeitas e a tempo. Foster não foi trágico quando o menino morre de fome, não foi inspirado nem incisivo nem cíclico no sermão de Santo António. Com Foster não há planos sonoros, com Foster não há transparências, sobra apenas um caldo de notas onde, com muita sorte, os instrumentos entram a tempo e acabam juntos.
Com Foster não há equilíbrio, há apenas empastelamento numa espécie de corrida de carrossel ao som de um realejo. Pizzicati transformados em harpejos, entradas esborrachadas, som pouco coeso, estes os cartões de visita de uma direcção Foster quando dirige uma obra um pouco mais complexa e com mais detalhe do que "num mercado persa". É caso para dizer que este carrossel precisa de inspecção...
Mais uma vez não existiu densidade nas cordas. Afinal como se explica o critério da colocação dos contrabaixos longe dos fagotes e dos trombones do lado esquerdo da orquestra? Qual a razão do naipe dos segundos violinos, já de si pobre em som, ficar do lado direito a projectar o som para dentro da orquestra quando os violoncelos podem, com vantagem acústica, ser colocados na mesma posição sem perda de som?
Enfim mais um concerto perdido com uma direcção errática e sem critério, incerta, apenas movimento, apenas exterioridade sem a menor consequência numa riqueza musical apenas entrevista em memórias de Bruno Walter, de Szell, de Kubelik, de Boulez, alguns que me ocorreram entre largas dezenas de bons exemplos entre os quais não pontifica Foster. Grosseiro e pobre. Triste Mahler nas mão de semelhante banda de feira. E se há bons músicos nesta orquestra!? claro que há, mas com Foster temos sorte se, rapidamente, a massa se for mexendo.
Alguém dizia no fim: "Realmente o Foster não é um mahleriano". Mas afinal ele é quem musicalmente? Um especialista em Franz von Suppé? Um dedicado intérprete de Chabrier? Um grande intérprete de valsas? Um magistral director de Enesco? Um mestre da "americanada" vigorosa? Um emérito especialista em música de circo? Um Masseneano? Um dedicado especialista em música judaica? Um especialista em obras tipo: "pagode chinês" ou "bacanal" do Sansão e Dalila? Afinal para que serve ele musicalmente?
Ontem, para mim, o copo cheio finalmente transbordou e cheguei à, tantas vezes adiada, conclusão: Lawrence Foster está demasiado acomodado na Gulbenkian, demasiados anos, demasiada rotina, e nem sequer consegue vestir-se em condições para se apresentar em palco e respeitar o público, coisa que se perdoaria sem piscar os olhos a um grande artista mas que não se desculpa a quem não consegue dirigir ao mais alto nível compositores como Mahler.
P.S. Parabéns a Pedro Pacheco que conseguiu reunir energias para conseguir vestir o colete branco que respeita a casaca. Finalmente o cinturão negro de cabedal debaixo da respectiva barriguinha sobressaliente fica a bom recato. O seu a seu dono! Pacheco está mais confiante musicalmente e nota-se que bastou uma mínima mudança na aparência para aumentar a sua confiança e o seu brio profissional. E que me desculpe a brincadeira...
Etiquetas: Crítica de Concertos, Foster, Gulbenkian, Mahler, Orquestra Gulbenkian
20.3.07
O drama de um maestro maior do que o tempo
O tempo é o motor do amadurecimento, da razão, sem tempo nada se pode fazer, tempo é a argamassa com que um maestro molda uma obra. Uma sinfonia de Mahler como a sexta, Trágica, é feita de tempo, o tempo necessário para percorrer os grandes arcos, os espaços infinitos dos céus sobre os Alpes e do Tempo da Vida e da Morte.
As montanhas que esta sinfonia evoca sempre que a ouvimos são também as montanhas de um Tempo que já não volta, a Morte levou Mahler, as suas filhas, a sua mulher, levou as suas angústias e as suas superstições, o tempo do relógio eliminou a terceira pancada no último andamento, vítima ela também de outro Tempo, esse que Mahler queria suspender. Montanhas dos Alpes para onde partirei dentro de pouco tempo para passeios pelos degelos da Primavera, para música e para mergulhar, eu também, no Tempo que me é dado pressentir através das prquenas alucinações da Eternidade que Mahler nos deixou, como diria outro senhor do Tempo: "Eternidade, essa palavra terrível"...
Zilm é um grande maestro, ele próprio é fisicamente enorme. Zilm gosta dos grandes arcos sinfónicos: Mahler é, para ele, o elemento onde se sente em casa, e a Trágica, sinfonia mais do tempo que do espaço, uma das formas de tocar a eternidade e o sagrado, suspendendo por instantes o tal Tempo que Mahler queria suspender também na sua vida, fugindo da morte quando caminhava demasiado conscientemente na sua direcção.
Realizando uma concepção sombria, num fluxo contínuo paradoxalmente recheado das hesitações inerentes ao sofrimento, Zilm transportou-nos por uma viagem para além do tempo. Regressando sempre às origens, relendo os manuscritos e as notas originais de Mengelberg e de Walther, Zilm estuda até à exaustão a obra antes de entrar em contacto com uma orquestra.
Desta feita o encontro decorreu nos seis dias de ensaio que teve com a Orquestra Nacional do Porto, reforçada de muitos elementos para abordar Mahler na Casa da Música, Sábado passado. Eu pergunto aos programadores e aos directores: será que seis míseros dias são suficientes para preparar uma obra maior do que o Tempo?
Zilm fez o possível, fez até o impossível, a Nacional do Porto correspondeu com o possível. Seis dias para montar uma obra que é uma peça de resistência do repertório máximo de uma orquestra, provavelmente pela primeira vez, exigiriam mais da orquestra, até pela dimensão sagrada da obra que transcende um trabalho vulgar de funcionário, exigindo a dimensão máxima de um artista: o lado trágico; no fundo a dimensão máxima do que significa o Tempo para os mortais.
O resultado foi bom, poderia ter sido excelente se o tempo fosse outro. A acústica pobre e muito fria da Casa da Música, que engole as cordas da orquestra ao nível de um poço sem fundo, poderia e deveria ser muito mais trabalhada para o equilíbrio ser maior. O andamento lento, com uma das mais belas melodias de todos os tempos foi a maior vítima desse tempo escasso que fez perder o sentido do Tempo que Mahler nos queria transmitir.
Que belas ideias destruídas por falta de concentração e de categoria nos violinos distraídos nas entradas a dar notas erradas em passagens fáceis onde se notou de forma aguda o pouco tempo de ensaio da obra que, se é difícil para uma orquestra de nível mundial, será transcendente para a ONP com meia dúzia de ensaios.
O resto até foi bom, algumas vezes muito bom. Acentuações muito belas na entrada incisiva no primeiro andamento. Coerência dos metais, com um belíssimo naipe de trompas olimpicamente dirigido por um solista brilhante e empenhado. Madeiras quase perfeitas, com uma ou outra excepção e com umas poucas distracções no primeiro clarinete. Percussão magistral nos tímpanos mas golpes de martelo pífios devido ao instrumento ridículo empregue que mais parecia um martelinho de S. João do que um percutor de força telúrica que esmaga e destrói ("um som poderoso e curto de grande volume, não ressonante e não metálico"), que faz parar o coração. Chocalhos fora da sala a conferir um efeito mágico. Uma obra que quase soçobrava por um primeiro trompete desastroso que, mesmo quando não errava, era vulgar.
Notou-se que a ONP tem carisma, tem corpo, tem força para voos mais altos, mas o tempo foi o grande inimigo da obra, o mesquinho tempo do relógio que não concedeu mais ensaios e forçou Zilm a atacar apenas os pontos cruciais da obra nos ensaios, descurando obrigatoriamente as passagens mais fáceis que, paradoxalmente ou talvez não, resultaram sempre pior.
Zilm, mercê da sua géstica sóbria que é eficaz e sugestiva na sua economia de movimentos, mercê também da sua atenção ao conjunto e ao detalhe, aglutinou tudo, o que estava perfeito e o que resultava imperfeito. Zilm foi conseguindo produzir um som coerente que culminou nas passagens dos solos de trompa na belíssima cantilena do andante: que poesia, que legato, que brilho sonoro obtido pelo solista.
Um concerto que no seu momento mais trágico, o desolado final funéreo, não teve o respeito pelo tempo necessário para a meditação transcendente do silêncio final, interrompido, este também, por espúrias palmas precipitadas, fora de tempo e fora do Tempo.
Um concerto que, apesar do pouco tempo de preparação, acabou por ser um concerto fora do nosso Tempo, um concerto cheio de imperfeições mas também muito belo pela concepção sempre sombria, trágica e muito poética de Zilm. Saí a pensar: este maestro é muito maior do que o tempo que lhe deram.
As montanhas que esta sinfonia evoca sempre que a ouvimos são também as montanhas de um Tempo que já não volta, a Morte levou Mahler, as suas filhas, a sua mulher, levou as suas angústias e as suas superstições, o tempo do relógio eliminou a terceira pancada no último andamento, vítima ela também de outro Tempo, esse que Mahler queria suspender. Montanhas dos Alpes para onde partirei dentro de pouco tempo para passeios pelos degelos da Primavera, para música e para mergulhar, eu também, no Tempo que me é dado pressentir através das prquenas alucinações da Eternidade que Mahler nos deixou, como diria outro senhor do Tempo: "Eternidade, essa palavra terrível"...
Zilm é um grande maestro, ele próprio é fisicamente enorme. Zilm gosta dos grandes arcos sinfónicos: Mahler é, para ele, o elemento onde se sente em casa, e a Trágica, sinfonia mais do tempo que do espaço, uma das formas de tocar a eternidade e o sagrado, suspendendo por instantes o tal Tempo que Mahler queria suspender também na sua vida, fugindo da morte quando caminhava demasiado conscientemente na sua direcção.
Realizando uma concepção sombria, num fluxo contínuo paradoxalmente recheado das hesitações inerentes ao sofrimento, Zilm transportou-nos por uma viagem para além do tempo. Regressando sempre às origens, relendo os manuscritos e as notas originais de Mengelberg e de Walther, Zilm estuda até à exaustão a obra antes de entrar em contacto com uma orquestra.
Desta feita o encontro decorreu nos seis dias de ensaio que teve com a Orquestra Nacional do Porto, reforçada de muitos elementos para abordar Mahler na Casa da Música, Sábado passado. Eu pergunto aos programadores e aos directores: será que seis míseros dias são suficientes para preparar uma obra maior do que o Tempo?
Zilm fez o possível, fez até o impossível, a Nacional do Porto correspondeu com o possível. Seis dias para montar uma obra que é uma peça de resistência do repertório máximo de uma orquestra, provavelmente pela primeira vez, exigiriam mais da orquestra, até pela dimensão sagrada da obra que transcende um trabalho vulgar de funcionário, exigindo a dimensão máxima de um artista: o lado trágico; no fundo a dimensão máxima do que significa o Tempo para os mortais.
O resultado foi bom, poderia ter sido excelente se o tempo fosse outro. A acústica pobre e muito fria da Casa da Música, que engole as cordas da orquestra ao nível de um poço sem fundo, poderia e deveria ser muito mais trabalhada para o equilíbrio ser maior. O andamento lento, com uma das mais belas melodias de todos os tempos foi a maior vítima desse tempo escasso que fez perder o sentido do Tempo que Mahler nos queria transmitir.
Que belas ideias destruídas por falta de concentração e de categoria nos violinos distraídos nas entradas a dar notas erradas em passagens fáceis onde se notou de forma aguda o pouco tempo de ensaio da obra que, se é difícil para uma orquestra de nível mundial, será transcendente para a ONP com meia dúzia de ensaios.
O resto até foi bom, algumas vezes muito bom. Acentuações muito belas na entrada incisiva no primeiro andamento. Coerência dos metais, com um belíssimo naipe de trompas olimpicamente dirigido por um solista brilhante e empenhado. Madeiras quase perfeitas, com uma ou outra excepção e com umas poucas distracções no primeiro clarinete. Percussão magistral nos tímpanos mas golpes de martelo pífios devido ao instrumento ridículo empregue que mais parecia um martelinho de S. João do que um percutor de força telúrica que esmaga e destrói ("um som poderoso e curto de grande volume, não ressonante e não metálico"), que faz parar o coração. Chocalhos fora da sala a conferir um efeito mágico. Uma obra que quase soçobrava por um primeiro trompete desastroso que, mesmo quando não errava, era vulgar.
Notou-se que a ONP tem carisma, tem corpo, tem força para voos mais altos, mas o tempo foi o grande inimigo da obra, o mesquinho tempo do relógio que não concedeu mais ensaios e forçou Zilm a atacar apenas os pontos cruciais da obra nos ensaios, descurando obrigatoriamente as passagens mais fáceis que, paradoxalmente ou talvez não, resultaram sempre pior.
Zilm, mercê da sua géstica sóbria que é eficaz e sugestiva na sua economia de movimentos, mercê também da sua atenção ao conjunto e ao detalhe, aglutinou tudo, o que estava perfeito e o que resultava imperfeito. Zilm foi conseguindo produzir um som coerente que culminou nas passagens dos solos de trompa na belíssima cantilena do andante: que poesia, que legato, que brilho sonoro obtido pelo solista.
Um concerto que no seu momento mais trágico, o desolado final funéreo, não teve o respeito pelo tempo necessário para a meditação transcendente do silêncio final, interrompido, este também, por espúrias palmas precipitadas, fora de tempo e fora do Tempo.
Um concerto que, apesar do pouco tempo de preparação, acabou por ser um concerto fora do nosso Tempo, um concerto cheio de imperfeições mas também muito belo pela concepção sempre sombria, trágica e muito poética de Zilm. Saí a pensar: este maestro é muito maior do que o tempo que lhe deram.
Etiquetas: Casa da Música, Crítica de Concertos, Mahler, Morte, Orquestra Nacional do Porto, Tempo, Zilm
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