
28.6.11
Um feliz aniversário
Texto Publicado originalmente no jornal "O Diabo"
Henrique Silveira – crítico
Concerto de aniversário da Orquestra Metropolitana de Lisboa, 9 de Junho no Grande Auditório do CCB com casa a três quartos, abertura Egmont, concerto op. 64 para violino e orquestra de Mendelssohn com Augustin Dumay no violino, sinfonia nº6, pastoral, de Beethoven; direcção de Michael Zilm.
Este concerto foi uma celebração de aniversário que reuniu Zilm de novo à Metropolitana de Lisboa, o trabalho que este director tem realizado com a orquestra tem sido de grande nível e as suas qualidades são evidentes, foi mais uma vez com grande prazer que assistimos à sua direcção eficaz e directa, sem gestos excessivos mas com evidente paixão e um profundo conhecimento das partituras que acompanha e dá segurança aos músicos. Zilm trabalha o incontornável Beethoven com uma excelência rara, todos os detalhes da partitura estão lá: todos os crescendos e diminuendos, todos as acentuações, com Zilm não há pequenas e grandes notas. Mas o mais importante é a poesia que coloca no fraseado e a qualidade da massa e da coesão sonora e orquestral. É uma lição ver Zilm dirigir e isso reflecte-se na prestação orquestral.
Assim Egmont, apesar de uma entrada desatenta da orquestra acabou com grande força e energia, própria de Beethoven.
Seguiu-se um concerto de Mendelssohn com um homem também muito ligado à Metropolitana, Dumay, tem uma excelente técnica do violino e um grande som, apenas tenho a apontar a falta de nuance no seu som, Dumay toca entre o meio-forte e o fortíssimo, abusando da sonoridade e sendo às vezes demasiado agreste na sua sonoridade que poderia ser mais aveludada nos momentos de maior recolhimento. De resto dois andamentos rápidos com grande força e energia e um andamento central com uma excelente entoação mas com alguma falta de matizes subtis.
A obra final, a “Pastoral” de Beethoven teve da parte de Zilm algum deleite no som, gostámos do segundo andamento, “cena à beiro do regato”, em que o fluir dos violoncelos em soli e restantes cordas, embalou o canto das madeiras, seguiu-se uma “alegre reunião de camponeses” divertida e vigorosa interrompida por uma violenta “tempestade” e rematada por um andamento final em que as sombras se dissiparam e a alegria regressou após a violência da tempestade. A orquestra correspondeu bem às solicitações do maestro e houve ligação.
A leitura de Zilm apenas pecou por alguma parcimónia nos tempos, faltando um certo elemento de surpresa e tensão, por outro lado a leitura agreste de Dumay e alguns deslizes pequenos nas trompas impediram que este concerto fosse perfeito, ficando ao nível do muito bom.
Espera-se que a Metropolitana continue por muitos anos, para além dos 19 anos festejados, livre de problemas financeiros que ainda a afectam e que continue a contribuir para a música em Portugal como o tem feito até aqui.
****
Henrique Silveira – crítico
Concerto de aniversário da Orquestra Metropolitana de Lisboa, 9 de Junho no Grande Auditório do CCB com casa a três quartos, abertura Egmont, concerto op. 64 para violino e orquestra de Mendelssohn com Augustin Dumay no violino, sinfonia nº6, pastoral, de Beethoven; direcção de Michael Zilm.
Este concerto foi uma celebração de aniversário que reuniu Zilm de novo à Metropolitana de Lisboa, o trabalho que este director tem realizado com a orquestra tem sido de grande nível e as suas qualidades são evidentes, foi mais uma vez com grande prazer que assistimos à sua direcção eficaz e directa, sem gestos excessivos mas com evidente paixão e um profundo conhecimento das partituras que acompanha e dá segurança aos músicos. Zilm trabalha o incontornável Beethoven com uma excelência rara, todos os detalhes da partitura estão lá: todos os crescendos e diminuendos, todos as acentuações, com Zilm não há pequenas e grandes notas. Mas o mais importante é a poesia que coloca no fraseado e a qualidade da massa e da coesão sonora e orquestral. É uma lição ver Zilm dirigir e isso reflecte-se na prestação orquestral.
Assim Egmont, apesar de uma entrada desatenta da orquestra acabou com grande força e energia, própria de Beethoven.
Seguiu-se um concerto de Mendelssohn com um homem também muito ligado à Metropolitana, Dumay, tem uma excelente técnica do violino e um grande som, apenas tenho a apontar a falta de nuance no seu som, Dumay toca entre o meio-forte e o fortíssimo, abusando da sonoridade e sendo às vezes demasiado agreste na sua sonoridade que poderia ser mais aveludada nos momentos de maior recolhimento. De resto dois andamentos rápidos com grande força e energia e um andamento central com uma excelente entoação mas com alguma falta de matizes subtis.
A obra final, a “Pastoral” de Beethoven teve da parte de Zilm algum deleite no som, gostámos do segundo andamento, “cena à beiro do regato”, em que o fluir dos violoncelos em soli e restantes cordas, embalou o canto das madeiras, seguiu-se uma “alegre reunião de camponeses” divertida e vigorosa interrompida por uma violenta “tempestade” e rematada por um andamento final em que as sombras se dissiparam e a alegria regressou após a violência da tempestade. A orquestra correspondeu bem às solicitações do maestro e houve ligação.
A leitura de Zilm apenas pecou por alguma parcimónia nos tempos, faltando um certo elemento de surpresa e tensão, por outro lado a leitura agreste de Dumay e alguns deslizes pequenos nas trompas impediram que este concerto fosse perfeito, ficando ao nível do muito bom.
Espera-se que a Metropolitana continue por muitos anos, para além dos 19 anos festejados, livre de problemas financeiros que ainda a afectam e que continue a contribuir para a música em Portugal como o tem feito até aqui.
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Etiquetas: Beethoven, Crítica de Concertos, Orquestra Metropolitana, Zilm
22.3.07
Ensaios na Casa da Música
Como no post anterior não fui muito claro, esclareço: Zilm, com a Orquestra nacional do Porto, para montar uma sinfonia como a sexta de Mahler teve seis ensaios contando com o ensaio geral.
Penso que se perdeu uma oportunidade de ouro para a orquestra portuguesa atingir um elevado nível interpretativo, que se percebeu perfeitamente estar ao seu alcance. A ONP poderia ser facilmente uma razoável orquestra no panorama internacional e está alguns furos acima do que tenho ouvido ultimamente à irregularíssima Orquestra Sinfónica Portuguesa que nasceu de forma muito torta, muito por culpa dos pecados originais de Álvaro Cassuto, e que muito tarde, ou nunca, se virá a endireitar.
Orquestras como a do Concertegebouw, que toca esta sinfonia há praticamente um século, ainda têm problemas com a obra quando não fazem uma preparação cuidada. Estranho muito que uma organização como a da Casa da Música não programe um trabalho sério para montar uma obra capital da história da música e de uma complexidade transcendente. Fazer seis ensaios para uma obra destas e com uma orquestra que não tem a obra no repertório é andar a brincar à música e desrespeitar o público, o que assiste e o que paga dos seus impostos.
É mesmo escandaloso e irresponsável que se trabalhe assim: ter uma bitola que nivela por baixo e de forma medíocre desde os concertos da treta até às obras mais importantes e complexas do repertório universal. É também andar a brincar com o dinheiro dos contribuintes.
Por outro lado a tão "gabada" (pelos próprios elementos locais) acústica da Casa da Música é desastrosa para uma orquestra sinfónica. O som das cordas é frio, seco, pouco ressonante, disperso de forma incoerente e decai espacialmente. A acústica é desigual no espectro sonoro e provoca gravíssimos desequilíbrios. Bola preta para a "acústica melhor da Europa" e rebéu-béu-béu, nem sequer é a melhor do Porto. Talvez seja a melhor acústica da Boavista.
Penso que se perdeu uma oportunidade de ouro para a orquestra portuguesa atingir um elevado nível interpretativo, que se percebeu perfeitamente estar ao seu alcance. A ONP poderia ser facilmente uma razoável orquestra no panorama internacional e está alguns furos acima do que tenho ouvido ultimamente à irregularíssima Orquestra Sinfónica Portuguesa que nasceu de forma muito torta, muito por culpa dos pecados originais de Álvaro Cassuto, e que muito tarde, ou nunca, se virá a endireitar.
Orquestras como a do Concertegebouw, que toca esta sinfonia há praticamente um século, ainda têm problemas com a obra quando não fazem uma preparação cuidada. Estranho muito que uma organização como a da Casa da Música não programe um trabalho sério para montar uma obra capital da história da música e de uma complexidade transcendente. Fazer seis ensaios para uma obra destas e com uma orquestra que não tem a obra no repertório é andar a brincar à música e desrespeitar o público, o que assiste e o que paga dos seus impostos.
É mesmo escandaloso e irresponsável que se trabalhe assim: ter uma bitola que nivela por baixo e de forma medíocre desde os concertos da treta até às obras mais importantes e complexas do repertório universal. É também andar a brincar com o dinheiro dos contribuintes.
Por outro lado a tão "gabada" (pelos próprios elementos locais) acústica da Casa da Música é desastrosa para uma orquestra sinfónica. O som das cordas é frio, seco, pouco ressonante, disperso de forma incoerente e decai espacialmente. A acústica é desigual no espectro sonoro e provoca gravíssimos desequilíbrios. Bola preta para a "acústica melhor da Europa" e rebéu-béu-béu, nem sequer é a melhor do Porto. Talvez seja a melhor acústica da Boavista.
Etiquetas: Acústica, Casa da Música, Crítica de Concertos, Orquestra Nacional do Porto, Zilm
20.3.07
O drama de um maestro maior do que o tempo
O tempo é o motor do amadurecimento, da razão, sem tempo nada se pode fazer, tempo é a argamassa com que um maestro molda uma obra. Uma sinfonia de Mahler como a sexta, Trágica, é feita de tempo, o tempo necessário para percorrer os grandes arcos, os espaços infinitos dos céus sobre os Alpes e do Tempo da Vida e da Morte.
As montanhas que esta sinfonia evoca sempre que a ouvimos são também as montanhas de um Tempo que já não volta, a Morte levou Mahler, as suas filhas, a sua mulher, levou as suas angústias e as suas superstições, o tempo do relógio eliminou a terceira pancada no último andamento, vítima ela também de outro Tempo, esse que Mahler queria suspender. Montanhas dos Alpes para onde partirei dentro de pouco tempo para passeios pelos degelos da Primavera, para música e para mergulhar, eu também, no Tempo que me é dado pressentir através das prquenas alucinações da Eternidade que Mahler nos deixou, como diria outro senhor do Tempo: "Eternidade, essa palavra terrível"...
Zilm é um grande maestro, ele próprio é fisicamente enorme. Zilm gosta dos grandes arcos sinfónicos: Mahler é, para ele, o elemento onde se sente em casa, e a Trágica, sinfonia mais do tempo que do espaço, uma das formas de tocar a eternidade e o sagrado, suspendendo por instantes o tal Tempo que Mahler queria suspender também na sua vida, fugindo da morte quando caminhava demasiado conscientemente na sua direcção.
Realizando uma concepção sombria, num fluxo contínuo paradoxalmente recheado das hesitações inerentes ao sofrimento, Zilm transportou-nos por uma viagem para além do tempo. Regressando sempre às origens, relendo os manuscritos e as notas originais de Mengelberg e de Walther, Zilm estuda até à exaustão a obra antes de entrar em contacto com uma orquestra.
Desta feita o encontro decorreu nos seis dias de ensaio que teve com a Orquestra Nacional do Porto, reforçada de muitos elementos para abordar Mahler na Casa da Música, Sábado passado. Eu pergunto aos programadores e aos directores: será que seis míseros dias são suficientes para preparar uma obra maior do que o Tempo?
Zilm fez o possível, fez até o impossível, a Nacional do Porto correspondeu com o possível. Seis dias para montar uma obra que é uma peça de resistência do repertório máximo de uma orquestra, provavelmente pela primeira vez, exigiriam mais da orquestra, até pela dimensão sagrada da obra que transcende um trabalho vulgar de funcionário, exigindo a dimensão máxima de um artista: o lado trágico; no fundo a dimensão máxima do que significa o Tempo para os mortais.
O resultado foi bom, poderia ter sido excelente se o tempo fosse outro. A acústica pobre e muito fria da Casa da Música, que engole as cordas da orquestra ao nível de um poço sem fundo, poderia e deveria ser muito mais trabalhada para o equilíbrio ser maior. O andamento lento, com uma das mais belas melodias de todos os tempos foi a maior vítima desse tempo escasso que fez perder o sentido do Tempo que Mahler nos queria transmitir.
Que belas ideias destruídas por falta de concentração e de categoria nos violinos distraídos nas entradas a dar notas erradas em passagens fáceis onde se notou de forma aguda o pouco tempo de ensaio da obra que, se é difícil para uma orquestra de nível mundial, será transcendente para a ONP com meia dúzia de ensaios.
O resto até foi bom, algumas vezes muito bom. Acentuações muito belas na entrada incisiva no primeiro andamento. Coerência dos metais, com um belíssimo naipe de trompas olimpicamente dirigido por um solista brilhante e empenhado. Madeiras quase perfeitas, com uma ou outra excepção e com umas poucas distracções no primeiro clarinete. Percussão magistral nos tímpanos mas golpes de martelo pífios devido ao instrumento ridículo empregue que mais parecia um martelinho de S. João do que um percutor de força telúrica que esmaga e destrói ("um som poderoso e curto de grande volume, não ressonante e não metálico"), que faz parar o coração. Chocalhos fora da sala a conferir um efeito mágico. Uma obra que quase soçobrava por um primeiro trompete desastroso que, mesmo quando não errava, era vulgar.
Notou-se que a ONP tem carisma, tem corpo, tem força para voos mais altos, mas o tempo foi o grande inimigo da obra, o mesquinho tempo do relógio que não concedeu mais ensaios e forçou Zilm a atacar apenas os pontos cruciais da obra nos ensaios, descurando obrigatoriamente as passagens mais fáceis que, paradoxalmente ou talvez não, resultaram sempre pior.
Zilm, mercê da sua géstica sóbria que é eficaz e sugestiva na sua economia de movimentos, mercê também da sua atenção ao conjunto e ao detalhe, aglutinou tudo, o que estava perfeito e o que resultava imperfeito. Zilm foi conseguindo produzir um som coerente que culminou nas passagens dos solos de trompa na belíssima cantilena do andante: que poesia, que legato, que brilho sonoro obtido pelo solista.
Um concerto que no seu momento mais trágico, o desolado final funéreo, não teve o respeito pelo tempo necessário para a meditação transcendente do silêncio final, interrompido, este também, por espúrias palmas precipitadas, fora de tempo e fora do Tempo.
Um concerto que, apesar do pouco tempo de preparação, acabou por ser um concerto fora do nosso Tempo, um concerto cheio de imperfeições mas também muito belo pela concepção sempre sombria, trágica e muito poética de Zilm. Saí a pensar: este maestro é muito maior do que o tempo que lhe deram.
As montanhas que esta sinfonia evoca sempre que a ouvimos são também as montanhas de um Tempo que já não volta, a Morte levou Mahler, as suas filhas, a sua mulher, levou as suas angústias e as suas superstições, o tempo do relógio eliminou a terceira pancada no último andamento, vítima ela também de outro Tempo, esse que Mahler queria suspender. Montanhas dos Alpes para onde partirei dentro de pouco tempo para passeios pelos degelos da Primavera, para música e para mergulhar, eu também, no Tempo que me é dado pressentir através das prquenas alucinações da Eternidade que Mahler nos deixou, como diria outro senhor do Tempo: "Eternidade, essa palavra terrível"...
Zilm é um grande maestro, ele próprio é fisicamente enorme. Zilm gosta dos grandes arcos sinfónicos: Mahler é, para ele, o elemento onde se sente em casa, e a Trágica, sinfonia mais do tempo que do espaço, uma das formas de tocar a eternidade e o sagrado, suspendendo por instantes o tal Tempo que Mahler queria suspender também na sua vida, fugindo da morte quando caminhava demasiado conscientemente na sua direcção.
Realizando uma concepção sombria, num fluxo contínuo paradoxalmente recheado das hesitações inerentes ao sofrimento, Zilm transportou-nos por uma viagem para além do tempo. Regressando sempre às origens, relendo os manuscritos e as notas originais de Mengelberg e de Walther, Zilm estuda até à exaustão a obra antes de entrar em contacto com uma orquestra.
Desta feita o encontro decorreu nos seis dias de ensaio que teve com a Orquestra Nacional do Porto, reforçada de muitos elementos para abordar Mahler na Casa da Música, Sábado passado. Eu pergunto aos programadores e aos directores: será que seis míseros dias são suficientes para preparar uma obra maior do que o Tempo?
Zilm fez o possível, fez até o impossível, a Nacional do Porto correspondeu com o possível. Seis dias para montar uma obra que é uma peça de resistência do repertório máximo de uma orquestra, provavelmente pela primeira vez, exigiriam mais da orquestra, até pela dimensão sagrada da obra que transcende um trabalho vulgar de funcionário, exigindo a dimensão máxima de um artista: o lado trágico; no fundo a dimensão máxima do que significa o Tempo para os mortais.
O resultado foi bom, poderia ter sido excelente se o tempo fosse outro. A acústica pobre e muito fria da Casa da Música, que engole as cordas da orquestra ao nível de um poço sem fundo, poderia e deveria ser muito mais trabalhada para o equilíbrio ser maior. O andamento lento, com uma das mais belas melodias de todos os tempos foi a maior vítima desse tempo escasso que fez perder o sentido do Tempo que Mahler nos queria transmitir.
Que belas ideias destruídas por falta de concentração e de categoria nos violinos distraídos nas entradas a dar notas erradas em passagens fáceis onde se notou de forma aguda o pouco tempo de ensaio da obra que, se é difícil para uma orquestra de nível mundial, será transcendente para a ONP com meia dúzia de ensaios.
O resto até foi bom, algumas vezes muito bom. Acentuações muito belas na entrada incisiva no primeiro andamento. Coerência dos metais, com um belíssimo naipe de trompas olimpicamente dirigido por um solista brilhante e empenhado. Madeiras quase perfeitas, com uma ou outra excepção e com umas poucas distracções no primeiro clarinete. Percussão magistral nos tímpanos mas golpes de martelo pífios devido ao instrumento ridículo empregue que mais parecia um martelinho de S. João do que um percutor de força telúrica que esmaga e destrói ("um som poderoso e curto de grande volume, não ressonante e não metálico"), que faz parar o coração. Chocalhos fora da sala a conferir um efeito mágico. Uma obra que quase soçobrava por um primeiro trompete desastroso que, mesmo quando não errava, era vulgar.
Notou-se que a ONP tem carisma, tem corpo, tem força para voos mais altos, mas o tempo foi o grande inimigo da obra, o mesquinho tempo do relógio que não concedeu mais ensaios e forçou Zilm a atacar apenas os pontos cruciais da obra nos ensaios, descurando obrigatoriamente as passagens mais fáceis que, paradoxalmente ou talvez não, resultaram sempre pior.
Zilm, mercê da sua géstica sóbria que é eficaz e sugestiva na sua economia de movimentos, mercê também da sua atenção ao conjunto e ao detalhe, aglutinou tudo, o que estava perfeito e o que resultava imperfeito. Zilm foi conseguindo produzir um som coerente que culminou nas passagens dos solos de trompa na belíssima cantilena do andante: que poesia, que legato, que brilho sonoro obtido pelo solista.
Um concerto que no seu momento mais trágico, o desolado final funéreo, não teve o respeito pelo tempo necessário para a meditação transcendente do silêncio final, interrompido, este também, por espúrias palmas precipitadas, fora de tempo e fora do Tempo.
Um concerto que, apesar do pouco tempo de preparação, acabou por ser um concerto fora do nosso Tempo, um concerto cheio de imperfeições mas também muito belo pela concepção sempre sombria, trágica e muito poética de Zilm. Saí a pensar: este maestro é muito maior do que o tempo que lhe deram.
Etiquetas: Casa da Música, Crítica de Concertos, Mahler, Morte, Orquestra Nacional do Porto, Tempo, Zilm
17.2.07
O belo e o possível
Regresso de um concerto: Das Klagende Lied de Mahler com Zilm ao volante. Como é incrível a transfiguração de uma orquestra e de um coro com um maestro que sabe da poda. É evidente que a Gulbenkian não passou a "Grande Orquestra Mundial", que o coro deixou de berrar, que os trombones conseguiram moderar os seus ímpetos belicosos, que o Luxton conseguiu ter entradas limpas mais o seu naipe de trompas, que o equilíbrio tenha sido alcançado com naipes reduzidos de cordas, que o Andreas Schmidt tenha voltado vinte anos atrás e recomeçado cantar bem, que a soprano Oelze tenha ganho voz para encher a sala, apesar do seu belo timbre, que o tenor Trost tenha adquirido categoria. No entanto Zilm domina a obra e tem a música nas veias, os cantores Birgit Remmert e Manuel Ferrer (menino cantor) corresponderam bem, as madeiras estiveram bem, os trompetes, herpas e percussões bem estiveram, assim como as cordas, embora em défice sonoro.
Manuel Ferrer tem de controlar a tendência de cantar balanceando o corpo como se tratasse de um pêndulo, é um erro que se torna num vício difícil de corrigir, por outro lado o registo de peito do rapaz é algo desafinado, trata-se de um jovem de 12 anos, correspondeu de forma notável, o que não impede que fiquem estes apontamentos para correcção futura. O Coro esteve bem, apesar de alguma gritaria desnecessária.
O melhor foi mesmo a concepção de Zilm, coerente, de acordo com a natureza algo escessiva de uma partitura de um jovem compositor, Mahler, à procura do seu caminho, numa cantata dramática e cheia de elementos ultra românticos. Zilm foi enérgico sem perder o pé, corrigindo defeitos de forma subtil, sempre em cima do acontecimento, dando entradas com certeza, ligando a música e as diferentes secções sempre com sabedoria. A impressão geral foi de coerência, de exploração da música de Mahler com aproveitamento perfeito do rubato na vizinhança dos pontos axiais de maior tensão, sendo moderadamente atormentado nas secções mais líricas, o que evitou a queda no mau gosto estilístico. Apenas se lhe pedia uma maior moderação nos excessos sonoros de metais e coro.
Sem construir um belo impossível, a sua arte trouxe o bom sem se torturar na busca do óptimo, sabendo bem onde encontrar o compromisso. À frente de uma grande orquestra Zilm será fantástico, à frente da Gulbenkian foi bom. Um bom concerto, bem melhor do que o das "Grandes orquestras Mundiais" de terça feira última.
O que ouvimos da banda fora da sala, bem longe, pareceu-nos também em bom plano.
Uma nota para Andreas Schimdt, foi um cantor com currículo razoável há muitos anos, agora arrasta-se pelos teatros de ópera, incapaz de afinar no registo grave e médio, foi simplesmente desastroso. Contratar por currículo tem destes inconvenientes, os fiascos, como os últimos festivais de Bayreuth não se incluem no currículo... Tive o desprazer de escutar o cantor nas últimas aparições em Bayreuth, v.g. no Tristan de há dois anos, e ouvi Schmidt ladrar desafinado, acabando por ser substituído depois das primeiras récitas. No ano passado, 2006, já foi outro cantor a ser chamado para o papel de Kurwenal. Na crítica publicada na época, há dois anos, escrevi sobre Schmidt:
Kurwenal – Andreas Schmidt – 00. Péssimo.
"E somos chegados a Kurwenal, um currículo invejável, um nome como Andreas Schmidt numa decadência incrível, nunca pensei que fosse possível em Bayreuth encontrar uma situação tão penosa, seria caricato se não fosse destrutivo para a música de Wagner. Nem uma nota afinada, agudos penosos, geralmente meio-tom a um tom abaixo no ataque das notas, depois glissandos (portamento seria favor) a tentar chegar ao tom certo, depois voltar a descer sem capacidade de sustentar a nota. Respiração penosa, interrupção da frase para respirar ofegantemente, voz feia no todo, horrível nos graves, um barítono a rosnar nos graves, sem linha melódica. Gritou, uivou, mas cantar não cantou. Indigno de Bayreuth, lamentável. Penoso na estreia também, isto segundo a crítica italiana e inglesa. Foi tremendamente vaiado no final do terceiro acto, como não podia deixar de ser."
Que os senhores da Gulbenkian não leiam as minhas críticas ou não lhes prestem atenção, ainda aceito. Mas o Guardian? O Times? O Le Monde de La Musique? Todos os jornais da Bloomberg? Todos os italianos? o Le Temps de Genève? Não interessa que Schmidt seja vaiado em todos os teatros do mundo? Como se pode aceitar que este pobre cantor possa aparecer num palco português. Refugo e mais refugo em termos de solistas é o que temos tido nos concertos regulares da orquestra Gulbenkian. Pede-se mais atenção aos programadores na aceitação de toda a porcaria que os agentes apresentam. Qualquer Luís Rodrigues está milhares de furos acima de um Schmidt sem voz, incapaz de afinar, e em decadência total. É muito bonito dar segundas oportunidades a esta gente, mas o público paga bilhete para ouvir alguém com o mínimo de dignidade e de respeito pela música. Bola preta para esta contratação.
Manuel Ferrer tem de controlar a tendência de cantar balanceando o corpo como se tratasse de um pêndulo, é um erro que se torna num vício difícil de corrigir, por outro lado o registo de peito do rapaz é algo desafinado, trata-se de um jovem de 12 anos, correspondeu de forma notável, o que não impede que fiquem estes apontamentos para correcção futura. O Coro esteve bem, apesar de alguma gritaria desnecessária.
O melhor foi mesmo a concepção de Zilm, coerente, de acordo com a natureza algo escessiva de uma partitura de um jovem compositor, Mahler, à procura do seu caminho, numa cantata dramática e cheia de elementos ultra românticos. Zilm foi enérgico sem perder o pé, corrigindo defeitos de forma subtil, sempre em cima do acontecimento, dando entradas com certeza, ligando a música e as diferentes secções sempre com sabedoria. A impressão geral foi de coerência, de exploração da música de Mahler com aproveitamento perfeito do rubato na vizinhança dos pontos axiais de maior tensão, sendo moderadamente atormentado nas secções mais líricas, o que evitou a queda no mau gosto estilístico. Apenas se lhe pedia uma maior moderação nos excessos sonoros de metais e coro.
Sem construir um belo impossível, a sua arte trouxe o bom sem se torturar na busca do óptimo, sabendo bem onde encontrar o compromisso. À frente de uma grande orquestra Zilm será fantástico, à frente da Gulbenkian foi bom. Um bom concerto, bem melhor do que o das "Grandes orquestras Mundiais" de terça feira última.
O que ouvimos da banda fora da sala, bem longe, pareceu-nos também em bom plano.
Uma nota para Andreas Schimdt, foi um cantor com currículo razoável há muitos anos, agora arrasta-se pelos teatros de ópera, incapaz de afinar no registo grave e médio, foi simplesmente desastroso. Contratar por currículo tem destes inconvenientes, os fiascos, como os últimos festivais de Bayreuth não se incluem no currículo... Tive o desprazer de escutar o cantor nas últimas aparições em Bayreuth, v.g. no Tristan de há dois anos, e ouvi Schmidt ladrar desafinado, acabando por ser substituído depois das primeiras récitas. No ano passado, 2006, já foi outro cantor a ser chamado para o papel de Kurwenal. Na crítica publicada na época, há dois anos, escrevi sobre Schmidt:
Kurwenal – Andreas Schmidt – 00. Péssimo.
"E somos chegados a Kurwenal, um currículo invejável, um nome como Andreas Schmidt numa decadência incrível, nunca pensei que fosse possível em Bayreuth encontrar uma situação tão penosa, seria caricato se não fosse destrutivo para a música de Wagner. Nem uma nota afinada, agudos penosos, geralmente meio-tom a um tom abaixo no ataque das notas, depois glissandos (portamento seria favor) a tentar chegar ao tom certo, depois voltar a descer sem capacidade de sustentar a nota. Respiração penosa, interrupção da frase para respirar ofegantemente, voz feia no todo, horrível nos graves, um barítono a rosnar nos graves, sem linha melódica. Gritou, uivou, mas cantar não cantou. Indigno de Bayreuth, lamentável. Penoso na estreia também, isto segundo a crítica italiana e inglesa. Foi tremendamente vaiado no final do terceiro acto, como não podia deixar de ser."
Que os senhores da Gulbenkian não leiam as minhas críticas ou não lhes prestem atenção, ainda aceito. Mas o Guardian? O Times? O Le Monde de La Musique? Todos os jornais da Bloomberg? Todos os italianos? o Le Temps de Genève? Não interessa que Schmidt seja vaiado em todos os teatros do mundo? Como se pode aceitar que este pobre cantor possa aparecer num palco português. Refugo e mais refugo em termos de solistas é o que temos tido nos concertos regulares da orquestra Gulbenkian. Pede-se mais atenção aos programadores na aceitação de toda a porcaria que os agentes apresentam. Qualquer Luís Rodrigues está milhares de furos acima de um Schmidt sem voz, incapaz de afinar, e em decadência total. É muito bonito dar segundas oportunidades a esta gente, mas o público paga bilhete para ouvir alguém com o mínimo de dignidade e de respeito pela música. Bola preta para esta contratação.
Etiquetas: Crítica, Crítica de Concertos, Gulbenkian, Irritações, Zilm
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