
10.6.13
Meio Otello
Henrique
Silveira
Crítico
Otello de Verdi e Arrigo Boito, Fundação Gulbenkian, dia 30 de
Maio, sala meia.
Badri
Maisuradze, tenor cumpridor em Otello; Dina Kuznetzova em Desdémona, soprano
aceitável; Lester Lynch em Iago, baixo-barítono péssimo; Zandra
McMaster, meio-soprano razoável em Emilia; Ivan Momirov, tenor de mau gosto em
Cassio; Dietmar Kerschbaum, tenor
medíocre em Roderigo; Nuno Dias em
Lodovico, um baixo esforçado; Luís Rodrigues, barítono demasiado bom
para Montano.
Direcção Musical: Lawrence Foster, brutal; Orquestra Gulbenkian, exibindo muita
qualidade individual apesar de mal dirigidos, Coro Gulbenkian com maestro Jorge
Matta, a nível elevado.
Desta vez tivemos uma verdadeira versão de
concerto, decisão acertada, as semi-encenações pindéricas com poucos ensaios e
cantores mal preparados, como o pseudo-barítono Lynch mostrou na semana
anterior num Falstaff inconcebível, são a receita para o desastre artístico.
Registamos os papeis insignificantes que
Luís Rodrigues tem tido no contexto das grandes instituições em Portugal, é
verdadeiramente infeliz que instituiçãos como o S. Carlos ou a Gulbenkian não
dêem a Luís Rodrigues a oportunidades que este merece. Não conhecemos
pessoalmente o cantor, apenas sabemos que já tem mais de quarenta anos, idade
em que a voz de barítono está no vigor pleno, é um grande professional,
preparando-se com esmero e convicção, conseguindo sempre criar o carácter para
boas representações e tem bom gosto.
Neste caso foi chocante ver como Foster colocou
todo o gato esfolado em primeiro plano a cantar à frente da orquestra e só o
desgraçado do Luís Rodrigues foi colocado junto do coro por detrás da orquestra
que, puxada com denodo pela insensível batuta de Foster, tentava abafar
olimpicamente a voz do cantor português que, felizmente, não se deixou calar. Será
que no confronto com o inenarrável Lynch, um cantor incapaz de criar o tremendo
Iago, se perceberia que a voz de Rodrigues está muito acima? É também chocante
ver um cantor como Lynch, que faria certamente bem o insignificante Montano, a
tentar cantar e compor Iago: sem plasticidade vocal, com agudos possíveis no
limite dos limites da sua pesada voz, já destimbrados, com um mau gosto
meridiano, com gargalhadas grosseiras a despropósito no final das suas
intervenções já desfeito o possível efeito dramático, com a sua afirmação
máxima da maldade no seu “credo”, frouxo e aflito, cantada de forma muito pouco
convincente e sem representação, como quem canta qualquer papel de segunda.
Iago é o motor da acção, o seu papel é
decisivo para insidiar o ciúme e o ódio no coração de Otello. Perante este Iago
qualquer Otello deste mundo perceberia de gingeira as intrigas mal urdidas do
seu alferes e mandá-lo-ia esfolar vivo e atirar do alto do castelo cipriota.
Metaforicamente seria um castigo leve também para quem escolheu este cantor, em
detrimento de dar uma oportunidade a Luís Rodrigues neste papel... Um Otello
sem Iago é meia ópera.
No naipe de cantores encontrámos um Otello,
Badri Maisuradze, um verdadeiro tenor dramático muito composto, infelizmente a
sua voz é algo baça nos médios mas foi notório o seu conhecimento do papel, o
esforço que colocou no canto do italiano, o poder da sua voz e, sobretudo, a
sua interpretação musical. Foi significativa a sua evolução no papel e a sua
qualidade de cantar em todos os registos, do herói guerreiro autoritário, do
amante apaixonado, ao homem roído pelas dúvidas até à loucura homicida e o
arrependimento final. Capaz de apianar e cantar em todas as dinâmicas, apenas
teve dois laivos de mau gosto ao deixar sugestões de uns solucinhos tenoris
que, felizmente, não se notaram em demasia... Felizmente, na falta de Iago,
houve Otello na Gulbenkian.
A
Desdémona de Dina Kuznetsova foi razoável. A sua voz muito quente em todos os
registos é densa e encorpada, é um soprano lírico spinto de agudos fáceis e boa
paleta dinâmica que poderá evoluir para dramático com o tempo. Infelizmente o
seu sotaque tem de ser melhorado no italiano, uma espécie de mix russo-americano não é o ideal para
Verdi. Outro aspecto é a sua máscara, faz uma Desdémona sempre em sofrimento,
como se já soubesse o que lhe vai acontecer desde o primeiro instante, a voz
reproduz esse sofrimento intrínseco. Realiza assim uma composição sem qualquer
evolução. Por outro lado, está muito mais confortável no último acto, onde o
seu papel atinge o clímax, provavelemente porque os sopranos dedicam mais tempo
a preparar a Canção do Salgueiro e o Ave Maria do que tudo o resto e porque
passam a vida a cantar estes trechos de resistência em concertos. Poderia ter
trabalhado mais os actos iniciais.
O Cassio de Momirov teve todos os defeitos
da falta de categoria do cantor, dotado de uma voz que até poderia ser bonita
de tenor a puxar para o lírico, mas que o cantor insiste em afirmar como spinto
(cuja explicação será: voz lírica com muito apoio e projecção), passa então o
tempo a berrar como um possesso, a tentar tapar os outros cantores e a afirmar
tiques de personalidade, prolongando notas em excesso sem compreender que Cassio
é uma vítima inocente e jovial de Iago e que deve manter essa inocência ao
longo da ópera. Momirov tenta cantar o Cassio como um Manrico e toda a
interpretação sai ao lado. Com uma inflexão da carreira, e estudando com
mestres esclarecidos, poderá melhorar de forma notável a sua postura em palco e
a forma como aborda os papeis, porque tem indubitáveis qualidades vocais.
Lawrence Foster não teve a compreensão ou a força para moderar este Cassio,
provavelmente até gostou desta abordagem porque nada fez para calar a berraria
Cassiana!
Gostámos da Emilia de McMaster, muito
competente e de voz bem constituída e muito digna. Gostámos do baixo Dias que
tentou ser um hierático e sério Lodovico, mas não tem peso vocal nos graves nem
idade para encarnar estas personagens. Kerschbaum passou anonimamente em
Roderigo.
O Coro de Câmara Infantil da Academia de
Música Santa Cecilia (poderia ter um nome ainda mais comprido) esteve bem,
tendo sido preparado por Artur Carneiro.
O Coro Gulbenkian esteve muito bem, pujante
nas grandes cenas de conjunto e muito incisivo nos comentários à cena de
loucura pública de Otello no terceiro acto.
Uma palavra especial para a Orquestra
Gulbenkian que, sob a batuta de chumbo de Foster, respondeu muito bem do ponto
de vista individual e dos solos, estes foram quase sempre perfeitos: belíssimo
o clarinete, o oboé, os fagotes, o corne inglês, as trompas e restantes metais
em excelente plano e as cordas estiveram muitíssimo bem. Dedico uma palavra
especial para os notáveis contrabaixos liderados por Sorín Orcinschi e Marc
Ramirez, que beleza sombria nas suas intervenções sinistras! Pensamos que a
superação interna e a liderança, naipe a naipe, foram elementos que valorizaram
este Otello.
Três estrelas
Etiquetas: Coro Gulbenkian, Crítica, Crítica de Concertos, Crítica de Ópera, Foster, Gulbenkian, Orquestra Gulbenkian, Ot, Verdi
28.5.13
Sem faca mas com alguidar
Henrique Silveira
Crítico
Falstaff de Verdi e Arrigo Boito, Fundação Gulbenkian, dia 23 de Maio, sala meia.
Lester Lynch em sir John Falstaff, um baixo-barítono mau no papel; Igor Gnidii em Ford, barítono razoável; Fernando Guimarães em Fenton, tenor razoável; Dietmar Kerschbaum em dr. Caius, tenor medíocre; Paul Kaufmann em Bardolfo, tenor fracote; Nuno Dias em Pistola, baixo baço; Isabelle Cals em Alice Ford, soprano muito bom; Liliana Faraon em Nannetta, soprano bom; Renée Morloc em Ms. Quickly, contralto bom; Zandra McMaster em Meg Page, meio soprano que cumpriu.
Direcção Musical: Lawrence Foster, esforçado mas alheio a Verdi; Orquestra Gulbenkian, esforçados, pouco coesos e mal dirigidos, Coro Gulbenkian com maestro Pedro Teixeira, correctos apesar de se notarem poucos ensaios; Semi-encenação: Rosetta Cucchi, encenação esforçada mas indigente e figurinos fracos.
Uma plataforma por detrás da orquestra, um barril à direita e uma mesa com cadeiras à esquerda, uns cantores que entram e saem, uns que sabem o papel de cor e estão à vontade, outros nem por isso, um coro mal ensaiado que vem de papel e canta na sua posição clássica em duas filas, um sir John Falstaff que não domina o seu papel, tem voz demasiado pesada e sem agudos, é mais a puxar ao baixo rouco do que ao barítono, que não tem desenvoltura nem graça, é incapaz de representar, nem sequer solfeja bem o que está escrito, sem agilidade vocal e finalmente a cantar para dentro de um alguidar que segura no seu colo, onde deveria ter os pés metidos mas onde tem o papel escondido, fazendo rir de escárnio pelo ridículo e não pelo teatro em si, e temos um resumo das desgraças que atormentaram esta pseudo-encenação recheada de equívocos.
Se juntarmos a isto tudo um maestro brutal, que carrega com a orquestra para cima das vozes como os hunos não fizeram sobre Roma, que coloca as trompas a mais de dez metros dos cantores que têm de acompanhar, que foi incapaz de urdir bem urdido um único concertante, que não tem efervescência nem sentido de humor, que torna hunorístisco o que deveria ser humorístico, que coloca a orquestra de tal forma que os instrumentos não se ouvem uns aos outros com fagotes e trompas de um lado e trombones, violoncelos e contrabaixos no outro, condenando à partida a coesão e não compensando com mais ensaios, tudo reforçado por uma posição orquestral desastrosa a cortar o plano sonoro dos cantores e que não aproveitou o fosso da orquestra, algo que poderia ser feito se a encenação não fosse indigente, temos os ingredientes para um quase desastre musical, felizmente evitado pela qualidade, esforço de concentração e direcção interna dos músicos da Gulbenkian que, mesmo assim, não evitaram uma plenitude de pequenos erros, de falta de certeza nos ataques, e de falta de coesão entre as trompas desterradas e os cantores, com exemplos péssimos no primeiro acto de desfasamento entre cantores, já de si descoordenados, e instrumentos.
Apesar de os instrumentistas terem estado bem tecnicamente e, em particular, as trompas e cimbasso excelentes, existem aspectos que só uma direcção e trabalho detalhado podem resolver. A graça do comentário bem medido, a gargalhada que se impõe nas trompas, o fagote que sublinha sir John de forma nais histriónica, nunca tiveram o subtil exagero que só um maestro sensível à obra poderiam dar.
A encenação viveu mal com a indigência de meios que a Gulbenkian colocou à sua disposição, um cantor principal incapaz de fazer um Falstaff, por claro erro de casting e sem saber o papel, arruinou logo à partida qualquer tentativa de fazer teatro, Falstaff sem cantor principal, sem direcção e sem graça é como perdizes à convento de Alcântara mas sem perdizes nem trufas... Poderia ter usado mais as luzes mas não houve desenho de luzes e os figurinos eram de empréstimo, ou aluguer, onde teriam servido as casacas dos cantores e os vestidos das cantoras. Toda a cena foi mal feita, sobretudo quando entrava Lynch, porque tinha de estar a olhar para o barril onde tinha o papel escondido, porque tinha de estar fixo a olhar para o alguidar, onde estava o mesmo papel, ou sem conhecer o seu tour de force do primeiro acto que, apesar de ser uma peça de resistência da ópera, não mereceu o decoro de ter sido decorado.
Alguns cantores foram muito bem no seu papel, sobretudo as mulheres, com Isabelle Cals de voz muito quente e equilibrada nos registos, refinada e com graça na interpretação e mostrando grande domínio do papel, aprendido e rodado noutras paragens, que Foster aqui não ensina nada. Liliana Faraon tem a voz fresca e tem graça, a voz tem algum ácido que acrescenda cor, Renée Morloc esteve excelente e foi divertida na sua densa voz, mais de contralto do que de meio soprano.
Um bom barítono Igor Gnidii, mas resvalando para um lado um pouco grosseiro nos graves guturais, não corrigidos pelo maestro, e um bom tenor português Fernando Guimarães, com a voz algo pequena mas compensando com inteligência, trabalho, boa colocação e agudos fáceis num timbre muito bonito, foram os destaques nos homens. O resto foi mediano sem comprometer mas insuficiente para salvar a récita. A fazer assim mais vale uma pura versão de concerto com alguma dignidade musical.
Uma estrela
Etiquetas: Coro Gulbenkian, Crítica de Ópera, Foster, Gulbenkian, Orquestra Gulbenkian, Verdi
20.5.11
Uma boa rotina
Texto Publicado originalmente no jornal "O Diabo"
Henrique Silveira – crítico
Danças húngaras nº1, 3 e 10 de Johannes Brahms, concerto nº2 para violino e orquestra de Béla Bartók com Hae-Sun Kang como solista, Suite para orquestra opus 27, Suite Villageoise, de George Enesco e Moldava de Bedrich Smetana. Sexta 6 de Maio na Fundação Gulbenkian com casa meia, direcção de Lawrence Foster.
Um programa de obras ou compositores ligados pelo senso comum ao nacionalismo musical, bem concebido à partida, pena a fraca a adesão do público.
As danças húngaras de Brahms foram abordadas com energia musical, gostei da densidade das cordas que encheram a sala na dança nº1, no entanto os pizzicati de violinos e violas precisam de mais apuro rítmico. Gostei também da liderança que o primeiro contrabaixo induziu no seu grupo.
Seguiu-se um concerto de Bartók, uma peça de resistência do repertório do violino e uma obra de grande fôlego. Kang, uma coreana especialista em música contemporânea, esteve quase sempre tecnicamente a um bom plano, com uma excepção na cadência onde teve uma falha clamorosa, mas foi gélida na interpretação, neste particular esperava mais do segundo andamento, andante tranquilo, com tema e variações em que o lirismo esteve muito arredado, Bartók não pode ser visto como uma peça para violino e electrónica... Não sei se por falta do maestro ou da solista o terceiro andamento, allegro molto, foi muito lento e arrastado, assim considero que este concerto acabou por ter uma interpretação pouco inspirada.
Depois do intervalo apresentou-se Foster com um compositor em que é especialista, o romeno Enesco, mais uma vez energia e clareza simples na interpretação de uma obra sobrecarregada de orquestração, uma obra que usa das cores orquestrais para criar uma paleta de efeitos evocativos, do campo às brincadeiras das crianças, uma velha casa de infância, um rio sob a lua e danças rústicas. Uma palavra para Pedro Ribeiro, solista em oboé, que tocou destacado da orquestra numa varanda sobre a plateia da Gulbenkian para criar o efeito evocativo da distância, um solo quase perfeito com um belíssimo som e projecção e muita poesia. Esta suite de Enesco foi o ponto alto do concerto.
A orquestra esteve em bom plano com uma belíssima sonoridade.
Seguiu-se um dispensável Moldava, que evoca o rio Checo, de Smetana. Parecia um rio carregado de lama e detritos de tal forma pesado e arrastado, com acompanhamento paquiderme nos contrabaixos, com destaque negativo para a lenta e penosa coda final. Foster, mais uma vez, mostrou ser capaz do pior e do melhor.
***
Henrique Silveira – crítico
Danças húngaras nº1, 3 e 10 de Johannes Brahms, concerto nº2 para violino e orquestra de Béla Bartók com Hae-Sun Kang como solista, Suite para orquestra opus 27, Suite Villageoise, de George Enesco e Moldava de Bedrich Smetana. Sexta 6 de Maio na Fundação Gulbenkian com casa meia, direcção de Lawrence Foster.
Um programa de obras ou compositores ligados pelo senso comum ao nacionalismo musical, bem concebido à partida, pena a fraca a adesão do público.
As danças húngaras de Brahms foram abordadas com energia musical, gostei da densidade das cordas que encheram a sala na dança nº1, no entanto os pizzicati de violinos e violas precisam de mais apuro rítmico. Gostei também da liderança que o primeiro contrabaixo induziu no seu grupo.
Seguiu-se um concerto de Bartók, uma peça de resistência do repertório do violino e uma obra de grande fôlego. Kang, uma coreana especialista em música contemporânea, esteve quase sempre tecnicamente a um bom plano, com uma excepção na cadência onde teve uma falha clamorosa, mas foi gélida na interpretação, neste particular esperava mais do segundo andamento, andante tranquilo, com tema e variações em que o lirismo esteve muito arredado, Bartók não pode ser visto como uma peça para violino e electrónica... Não sei se por falta do maestro ou da solista o terceiro andamento, allegro molto, foi muito lento e arrastado, assim considero que este concerto acabou por ter uma interpretação pouco inspirada.
Depois do intervalo apresentou-se Foster com um compositor em que é especialista, o romeno Enesco, mais uma vez energia e clareza simples na interpretação de uma obra sobrecarregada de orquestração, uma obra que usa das cores orquestrais para criar uma paleta de efeitos evocativos, do campo às brincadeiras das crianças, uma velha casa de infância, um rio sob a lua e danças rústicas. Uma palavra para Pedro Ribeiro, solista em oboé, que tocou destacado da orquestra numa varanda sobre a plateia da Gulbenkian para criar o efeito evocativo da distância, um solo quase perfeito com um belíssimo som e projecção e muita poesia. Esta suite de Enesco foi o ponto alto do concerto.
A orquestra esteve em bom plano com uma belíssima sonoridade.
Seguiu-se um dispensável Moldava, que evoca o rio Checo, de Smetana. Parecia um rio carregado de lama e detritos de tal forma pesado e arrastado, com acompanhamento paquiderme nos contrabaixos, com destaque negativo para a lenta e penosa coda final. Foster, mais uma vez, mostrou ser capaz do pior e do melhor.
***
Etiquetas: Crítica de Concertos, Foster, Gulbenkian, Orquestra Gulbenkian
5.2.10
Para que serve ele?
Este post é escrito após o concerto de 4 de Fevereiro de 2010 na Gulbenkian.
Em conversas com muitos melómanos que assistem aos concertos na Gulbenkian é costume dizer-se: "O Foster até é bom, mas não é um grande intérprete de Mozart, está fora do melhor repertório do maestro..." ou "O Foster até que dirige bem mas não é um especialista em Strauss"... ou "O Foster é um excelente maestro mas é demasiado pesado para Mendelssohn"... "A música contemporânea não é o forte de Foster, ele é muito bom noutros repertórios"... ou ainda "O Foster não é historicamente informado"...
Vem isto a propósito de um concerto a que assisti ontem. Mais uma vez observei a direcção do maestro americano em Mahler. Mais precisamente em "A Trompa Mágica do Rapaz"...
Foster dirige de uma forma assaz peculiar, circular, impreciso, o seu timming é ao compasso, nunca antecipa os movimentos e as entradas, quando não anda atrás da orquestra é porque está a tempo com a mesma. Este sintoma é, infelizmente, sinal de que Foster não dirige, Foster vai com os acontecimentos, Foster é dirigido pela obra e conduzido pela orquestra. A sua géstica é assaz deselegante, uma espécie de mistura entre um pasteleiro amassando a massa do bolo, um sinaleiro que levanta o braço esquerdo para mandar parar um trânsito há muito estacado e, a espaços, um toureiro de mãos atrás das costas depois de espetar uma bandarilha. A sua mão esquerda, de polegar invariavelmente esticado, vai pedindo boleia aos músicos da orquestra à procura da carrugem certa onde nunca entra.
Esta incapacidade de controlar os acontecimentos, a circularidade imprecisa do gesto, a errática escolha das entradas, o fecho do movimento, quando o som já lá chegou, e até expirou, são apenas sintomas de algo muito pior: uma falta de qualidade que se vem instalando e repetindo sistematicamente.
A mediocridade das suas direcções em obras mais complexas surge de forma confrangedora. Ontem, em Mahler, eu atingi o ponto de não retorno, ontem acabou o benefício da dúvida há espera de Godot há demasiados anos. Mais uma vez Foster foi grosseiro, óbvio e pouco subtil. A construção do som foi deficiente, a direcção foi superficial e não atingiu o âmago. Não foi irónica na espantosa crítica de Mahler aos críticos e perdida num óbvio, pesado e amalgamado (no mau sentido) conjunto, nunca se escutou o rouxinol, apenas os outros comparsas, e nem as quintas e as quartas sairam perfeitas e a tempo. Foster não foi trágico quando o menino morre de fome, não foi inspirado nem incisivo nem cíclico no sermão de Santo António. Com Foster não há planos sonoros, com Foster não há transparências, sobra apenas um caldo de notas onde, com muita sorte, os instrumentos entram a tempo e acabam juntos.
Com Foster não há equilíbrio, há apenas empastelamento numa espécie de corrida de carrossel ao som de um realejo. Pizzicati transformados em harpejos, entradas esborrachadas, som pouco coeso, estes os cartões de visita de uma direcção Foster quando dirige uma obra um pouco mais complexa e com mais detalhe do que "num mercado persa". É caso para dizer que este carrossel precisa de inspecção...
Mais uma vez não existiu densidade nas cordas. Afinal como se explica o critério da colocação dos contrabaixos longe dos fagotes e dos trombones do lado esquerdo da orquestra? Qual a razão do naipe dos segundos violinos, já de si pobre em som, ficar do lado direito a projectar o som para dentro da orquestra quando os violoncelos podem, com vantagem acústica, ser colocados na mesma posição sem perda de som?
Enfim mais um concerto perdido com uma direcção errática e sem critério, incerta, apenas movimento, apenas exterioridade sem a menor consequência numa riqueza musical apenas entrevista em memórias de Bruno Walter, de Szell, de Kubelik, de Boulez, alguns que me ocorreram entre largas dezenas de bons exemplos entre os quais não pontifica Foster. Grosseiro e pobre. Triste Mahler nas mão de semelhante banda de feira. E se há bons músicos nesta orquestra!? claro que há, mas com Foster temos sorte se, rapidamente, a massa se for mexendo.
Alguém dizia no fim: "Realmente o Foster não é um mahleriano". Mas afinal ele é quem musicalmente? Um especialista em Franz von Suppé? Um dedicado intérprete de Chabrier? Um grande intérprete de valsas? Um magistral director de Enesco? Um mestre da "americanada" vigorosa? Um emérito especialista em música de circo? Um Masseneano? Um dedicado especialista em música judaica? Um especialista em obras tipo: "pagode chinês" ou "bacanal" do Sansão e Dalila? Afinal para que serve ele musicalmente?
Ontem, para mim, o copo cheio finalmente transbordou e cheguei à, tantas vezes adiada, conclusão: Lawrence Foster está demasiado acomodado na Gulbenkian, demasiados anos, demasiada rotina, e nem sequer consegue vestir-se em condições para se apresentar em palco e respeitar o público, coisa que se perdoaria sem piscar os olhos a um grande artista mas que não se desculpa a quem não consegue dirigir ao mais alto nível compositores como Mahler.
P.S. Parabéns a Pedro Pacheco que conseguiu reunir energias para conseguir vestir o colete branco que respeita a casaca. Finalmente o cinturão negro de cabedal debaixo da respectiva barriguinha sobressaliente fica a bom recato. O seu a seu dono! Pacheco está mais confiante musicalmente e nota-se que bastou uma mínima mudança na aparência para aumentar a sua confiança e o seu brio profissional. E que me desculpe a brincadeira...
Em conversas com muitos melómanos que assistem aos concertos na Gulbenkian é costume dizer-se: "O Foster até é bom, mas não é um grande intérprete de Mozart, está fora do melhor repertório do maestro..." ou "O Foster até que dirige bem mas não é um especialista em Strauss"... ou "O Foster é um excelente maestro mas é demasiado pesado para Mendelssohn"... "A música contemporânea não é o forte de Foster, ele é muito bom noutros repertórios"... ou ainda "O Foster não é historicamente informado"...
Vem isto a propósito de um concerto a que assisti ontem. Mais uma vez observei a direcção do maestro americano em Mahler. Mais precisamente em "A Trompa Mágica do Rapaz"...
Foster dirige de uma forma assaz peculiar, circular, impreciso, o seu timming é ao compasso, nunca antecipa os movimentos e as entradas, quando não anda atrás da orquestra é porque está a tempo com a mesma. Este sintoma é, infelizmente, sinal de que Foster não dirige, Foster vai com os acontecimentos, Foster é dirigido pela obra e conduzido pela orquestra. A sua géstica é assaz deselegante, uma espécie de mistura entre um pasteleiro amassando a massa do bolo, um sinaleiro que levanta o braço esquerdo para mandar parar um trânsito há muito estacado e, a espaços, um toureiro de mãos atrás das costas depois de espetar uma bandarilha. A sua mão esquerda, de polegar invariavelmente esticado, vai pedindo boleia aos músicos da orquestra à procura da carrugem certa onde nunca entra.
Esta incapacidade de controlar os acontecimentos, a circularidade imprecisa do gesto, a errática escolha das entradas, o fecho do movimento, quando o som já lá chegou, e até expirou, são apenas sintomas de algo muito pior: uma falta de qualidade que se vem instalando e repetindo sistematicamente.
A mediocridade das suas direcções em obras mais complexas surge de forma confrangedora. Ontem, em Mahler, eu atingi o ponto de não retorno, ontem acabou o benefício da dúvida há espera de Godot há demasiados anos. Mais uma vez Foster foi grosseiro, óbvio e pouco subtil. A construção do som foi deficiente, a direcção foi superficial e não atingiu o âmago. Não foi irónica na espantosa crítica de Mahler aos críticos e perdida num óbvio, pesado e amalgamado (no mau sentido) conjunto, nunca se escutou o rouxinol, apenas os outros comparsas, e nem as quintas e as quartas sairam perfeitas e a tempo. Foster não foi trágico quando o menino morre de fome, não foi inspirado nem incisivo nem cíclico no sermão de Santo António. Com Foster não há planos sonoros, com Foster não há transparências, sobra apenas um caldo de notas onde, com muita sorte, os instrumentos entram a tempo e acabam juntos.
Com Foster não há equilíbrio, há apenas empastelamento numa espécie de corrida de carrossel ao som de um realejo. Pizzicati transformados em harpejos, entradas esborrachadas, som pouco coeso, estes os cartões de visita de uma direcção Foster quando dirige uma obra um pouco mais complexa e com mais detalhe do que "num mercado persa". É caso para dizer que este carrossel precisa de inspecção...
Mais uma vez não existiu densidade nas cordas. Afinal como se explica o critério da colocação dos contrabaixos longe dos fagotes e dos trombones do lado esquerdo da orquestra? Qual a razão do naipe dos segundos violinos, já de si pobre em som, ficar do lado direito a projectar o som para dentro da orquestra quando os violoncelos podem, com vantagem acústica, ser colocados na mesma posição sem perda de som?
Enfim mais um concerto perdido com uma direcção errática e sem critério, incerta, apenas movimento, apenas exterioridade sem a menor consequência numa riqueza musical apenas entrevista em memórias de Bruno Walter, de Szell, de Kubelik, de Boulez, alguns que me ocorreram entre largas dezenas de bons exemplos entre os quais não pontifica Foster. Grosseiro e pobre. Triste Mahler nas mão de semelhante banda de feira. E se há bons músicos nesta orquestra!? claro que há, mas com Foster temos sorte se, rapidamente, a massa se for mexendo.
Alguém dizia no fim: "Realmente o Foster não é um mahleriano". Mas afinal ele é quem musicalmente? Um especialista em Franz von Suppé? Um dedicado intérprete de Chabrier? Um grande intérprete de valsas? Um magistral director de Enesco? Um mestre da "americanada" vigorosa? Um emérito especialista em música de circo? Um Masseneano? Um dedicado especialista em música judaica? Um especialista em obras tipo: "pagode chinês" ou "bacanal" do Sansão e Dalila? Afinal para que serve ele musicalmente?
Ontem, para mim, o copo cheio finalmente transbordou e cheguei à, tantas vezes adiada, conclusão: Lawrence Foster está demasiado acomodado na Gulbenkian, demasiados anos, demasiada rotina, e nem sequer consegue vestir-se em condições para se apresentar em palco e respeitar o público, coisa que se perdoaria sem piscar os olhos a um grande artista mas que não se desculpa a quem não consegue dirigir ao mais alto nível compositores como Mahler.
P.S. Parabéns a Pedro Pacheco que conseguiu reunir energias para conseguir vestir o colete branco que respeita a casaca. Finalmente o cinturão negro de cabedal debaixo da respectiva barriguinha sobressaliente fica a bom recato. O seu a seu dono! Pacheco está mais confiante musicalmente e nota-se que bastou uma mínima mudança na aparência para aumentar a sua confiança e o seu brio profissional. E que me desculpe a brincadeira...
Etiquetas: Crítica de Concertos, Foster, Gulbenkian, Mahler, Orquestra Gulbenkian
20.1.09
Excelente Electra na Gulbenkian
Escutei ontem uma extraordinária Electra de Richard Strauss, cantores em elevadíssima forma. Um naipe excepcional de mulheres com Rosalind Plowright em Clitemnestra, Deborah Polaski no papel titular e Stephanie Friede em Crisótemis. As cinco servas - Nadine Weissmann, Simona Ivas, Larissa Savchenko, Sandrine Eyglier e Liliana Faraon - foram todas de alto nível. Nos homens destacaram-se Johan Botha em Egisto e, sobretudo, o belo Orestes de Jochen Schmeckenbecher, correspondendo muito bem Diogo Oliveira, apenas um desastroso Marcos Santos destoou.
Foster esteve bem na música sublime de Strauss e, sem ser quadrado (caso raro), deixou respirar os cantores e usou o rubato como elemento dramático de grande efeito. A orquestra esteve perfeita, acabando alguns ataques (muito evidente no ponto em que trompas e fagotes andaram descoordenados) por serem os únicos pontos, minúsculos aliás, que me deixaram descontente...
Devo dizer que a Electra de Polaski foi de cortar a respiração, a voz de Polaski, tal como a sua portadora, tem rugas. É evidente que sim, mas isso apenas dá mais força, carácter, nobreza e dramatismo à sua construção, simplesmente assombrosa, da heroína trágica. Não perceber isso é estar a milhas do sentido do drama e não ter a menor sensibilidade.
Li uma crítica no "O Público" onde se "crucifica a cantora de quinta feira passada. Eu, que assisti na segunda, dia 19 de Janeiro de 2009, pressuponho que: ou houve uma transição de cento e oitenta graus, algo difícil de entender, ou que quem critica não percebe nada do assunto. Ele há coisas que devem ser objectivas, precisas, que devem corresponder ao que se passa. Outras serão subjectivas. Os critérios subjectivos, não podem nem devem fazer submergir uma crítica. Ler este "crítico", Pedro Boléo, louvar cantores abomináveis que têm passado no S. Carlos (sobretudo no consulado hermenêutico e do sucedâneo na direcção artística) e "massacrar" uma grande senhora como Polaski, parece-me, no mínimo, estranho. Tenho pena de não ter escutado na quinta feira passada para perceber se existiu uma tão grande metamorfose...
De qualquer modo, devo dizer que Electra na Gulbenkian foi um acontecimento de grande nível.
Nota sobre indumentárias: Foster aparece de roupão preto, ou robe de chambre, ou algo assim, amarrotado. Não tem o menor brio na indumentária, e no meu entender, dando um péssimo exemplo aos músicos. Os músicos, por seu turno, usam os mais variados tipos de sapato, uns de vernis, outros de pala, muitos de atacador, solas de borracha, alguns com ar vetusto e pouco limpo. Alguns músicos nem usam cinta nem colete branco e o cinto de cabedal aparece sob as banhas entre a camisa e as calças. As senhoras usam e abusam de calças de mau corte e os penteados são simplesmente nefastos para uma percepção estética da arte de olhos abertos... A visão da Orquestra Gulbenkian é quase a imagem do apocalipse; desordenada, sem brio no traje e sem disciplina na aparência. Basta ver a Filarmónica de Viena ou de Berlim para se perceber a diferença. A própria Sinfonia Varsóvia, uma orquestra de dimensão igual à Gulbenkian, apresenta todos os seus músicos com os sapatinhos polidos. Peço que pelo menos os senhores músicos, se não tratam do penteado ou nem sabem como se deve usar a casaca, pelo menos usem sapatos decentes para enfrentar um palco.
Foster esteve bem na música sublime de Strauss e, sem ser quadrado (caso raro), deixou respirar os cantores e usou o rubato como elemento dramático de grande efeito. A orquestra esteve perfeita, acabando alguns ataques (muito evidente no ponto em que trompas e fagotes andaram descoordenados) por serem os únicos pontos, minúsculos aliás, que me deixaram descontente...
Devo dizer que a Electra de Polaski foi de cortar a respiração, a voz de Polaski, tal como a sua portadora, tem rugas. É evidente que sim, mas isso apenas dá mais força, carácter, nobreza e dramatismo à sua construção, simplesmente assombrosa, da heroína trágica. Não perceber isso é estar a milhas do sentido do drama e não ter a menor sensibilidade.
Li uma crítica no "O Público" onde se "crucifica a cantora de quinta feira passada. Eu, que assisti na segunda, dia 19 de Janeiro de 2009, pressuponho que: ou houve uma transição de cento e oitenta graus, algo difícil de entender, ou que quem critica não percebe nada do assunto. Ele há coisas que devem ser objectivas, precisas, que devem corresponder ao que se passa. Outras serão subjectivas. Os critérios subjectivos, não podem nem devem fazer submergir uma crítica. Ler este "crítico", Pedro Boléo, louvar cantores abomináveis que têm passado no S. Carlos (sobretudo no consulado hermenêutico e do sucedâneo na direcção artística) e "massacrar" uma grande senhora como Polaski, parece-me, no mínimo, estranho. Tenho pena de não ter escutado na quinta feira passada para perceber se existiu uma tão grande metamorfose...
De qualquer modo, devo dizer que Electra na Gulbenkian foi um acontecimento de grande nível.
Nota sobre indumentárias: Foster aparece de roupão preto, ou robe de chambre, ou algo assim, amarrotado. Não tem o menor brio na indumentária, e no meu entender, dando um péssimo exemplo aos músicos. Os músicos, por seu turno, usam os mais variados tipos de sapato, uns de vernis, outros de pala, muitos de atacador, solas de borracha, alguns com ar vetusto e pouco limpo. Alguns músicos nem usam cinta nem colete branco e o cinto de cabedal aparece sob as banhas entre a camisa e as calças. As senhoras usam e abusam de calças de mau corte e os penteados são simplesmente nefastos para uma percepção estética da arte de olhos abertos... A visão da Orquestra Gulbenkian é quase a imagem do apocalipse; desordenada, sem brio no traje e sem disciplina na aparência. Basta ver a Filarmónica de Viena ou de Berlim para se perceber a diferença. A própria Sinfonia Varsóvia, uma orquestra de dimensão igual à Gulbenkian, apresenta todos os seus músicos com os sapatinhos polidos. Peço que pelo menos os senhores músicos, se não tratam do penteado ou nem sabem como se deve usar a casaca, pelo menos usem sapatos decentes para enfrentar um palco.
Etiquetas: Crítica aos críticos, Crítica de Concertos, Crítica de Ópera, Foster, Gulbenkian, Orquestra Gulbenkian
25.5.07
Com atraso mas boa vontade - Salzburg na Páscoa e Lang Lang em Lisboa
Crónicas atrasadas do Festival de Salzburg
Bronfmam perfeito
Dia 1 de Abril. Salzburg, Rattle dirigiu a Filarmónica de Berlim. Tivemos o privilégio de escutar Efim Bronfmam no terceiro concerto de Rachmaninoff.
Espantou o diálogo ímpar entre a orquestra de Berlim e o pianista. Este exibiu um toucher delicadíssimo, de uma suavidade imperceptível no ataque, que mantém, quer nos pianíssimos, quer nos fortíssimos, em que ombreia com a orquestra em termos de pura potência sonora. Belíssimo andamento lento, cheio de poesia com sopros em plano elevadíssimo. Nos andamentos rápidos espantou a coordenação entre o fraseado do pianista e da orquestra, num diálogo igual e excelente.
Bronfmam é um pianista pouco conhecido em Portugal, mais dado aos Pollini, Kissin ou Sokolov que nos visitam regularmente. Tem havido uma tremenda lacuna dos nossos programadores ao esquecerem-se do pianista israelita de origem russa. Ao cuidado da Fundação Gulbenkian, da Casa da Música e do CCB.
Lang Lang: e lá matou o Prokofiev mais uma vez
A 2 de Abril foi a vez de Lang Lang, se apresentar com o terceiro concerto de Prokofiev. Foi dito, pela crítica internacional, que Lang Lang é um pianista virtuoso mas maquinal, a nossa impressão é ainda pior, Lang Lang é uma espécie de boneco articulado que dá pulinhos ao piano e abana a cabeça mantendo sempre um sorriso irritante, olhando para o público de vez em quando sempre com ar de que aquilo é tudo muito trivial e que ele domina a coisa sem necessidade sequer de estar atento ao que toca. Tudo isso seria dispiciendo se o resultado não fosse confrangedor, Lang Lang não tem envergadura física para o volume sonoro necessário a ombrear com uma orquestra de plena formação sinfónica, toca... toca, mas não se ouve. No andamento mais poético, o segundo Andantino, Lang Lang foi frio e não teve capacidade para transmitir a tortuosa linha de Prokofiev. No último andamento aconteceu o pior, Lang Lang chegou mesmo a andar desfasado da orquestra, correndo a um ritmo estranho e despropositado nas partes mais expostas o que a um nível destes é surpreendente. O público foi muito menos caloroso do que com Bronfmam, mas acabou por ser entusiasta, não é só em Portugal que o público é demasiado generoso...
Um concerto que acabou em beleza com a sinfonieta de Janacek, com um impressinante banda suplementar de metais que enriqueceu o som da Filarmónica de Berlim e contribuiu para um final verdadeiramente empolgante.
Os concertos de câmara, aos preços muito mais módicos de vinte euros, no Mozarteum, foram um complemento excelente de um Festival de altíssimo nível.
Para o ano que vem há mais, com a Valquíria como cabeça de cartaz.
P.S.: Vem este texto que reciclei do meu diário a propósito de Lang Lang ontem na Gulbenkian, se Lang Lang assassinou denodadamente o pobre do Prokofiev em Salzburg, ontem o desgraçado do Beethoven foi massacrado, estralhaçado, cortado em postas e espalhado aos quatro ventos. Uma técnica de dedilhação invejável, um sentido rítmico inacreditável (soluçante e sem fluxo discursivo), falta de domínio do pedal (serve mais para bater o compasso), retórica desconexa, soluções extemporâneas apenas pelo efeito fácil e a surpresa de circo, esforçandos apalermados e a despropósito, escalas sem uniformidade feitas a acelerar sem nexo, falta de cultura musical e de sentido estilístico, habilidades de macaco amestrado e gestos inúteis. Depois seguem-se Rubatos imbecis e tempos errados nos solos, cadências foleiras. Falta de som, agressividade nas pancadas dadas no teclado que soam agrestes, trilos que soam a lata a chocalhar. Falta de presença dos dedos no teclados com ataques francamente maus. Pianíssimos que às vezes pareciam dizer coisas bonitas rapidamente assassinados por uma manobra kitsch ou um sforzano caído do céu aos trambolhões.
Simplesmente horrível, um dos piores concertos a que assisti nos últimos anos. Lang Lang bola preta, muito pior do que em Salzburg, Foster colaborou na palhaçada e a orquestra Gulbenkian lá foi andando aos soluços à frente e atrás das excentricidades rítmicas do rapaz, inacreditável a barulheira das trompas no concerto nº 5 de Beethoven, terceiro andamento, autêntica feira popular.
Valeu o facto de tudo ter sido extremamente divertido o que nos fez sair do concerto bem dispostos. Lang Lang pode tocar muito mal, e falo sempre do lado estilístico, mas tem um lado simpático e comunicativo que até depois das maiores asneiras nos deixa felizes. Virá daí a sua popularidade? Isto apesar de ser habitualmente arrasado pela crítica.
Na sinfonia clássica de Prokofiev a coisa correu razoável mas sem fluidez, mostrando a orquestra os seus limites: interpretação pesada, mastigada ritmicamente e com falhas de afinação nas cordas.
Bronfmam perfeito
Dia 1 de Abril. Salzburg, Rattle dirigiu a Filarmónica de Berlim. Tivemos o privilégio de escutar Efim Bronfmam no terceiro concerto de Rachmaninoff.
Espantou o diálogo ímpar entre a orquestra de Berlim e o pianista. Este exibiu um toucher delicadíssimo, de uma suavidade imperceptível no ataque, que mantém, quer nos pianíssimos, quer nos fortíssimos, em que ombreia com a orquestra em termos de pura potência sonora. Belíssimo andamento lento, cheio de poesia com sopros em plano elevadíssimo. Nos andamentos rápidos espantou a coordenação entre o fraseado do pianista e da orquestra, num diálogo igual e excelente.
Bronfmam é um pianista pouco conhecido em Portugal, mais dado aos Pollini, Kissin ou Sokolov que nos visitam regularmente. Tem havido uma tremenda lacuna dos nossos programadores ao esquecerem-se do pianista israelita de origem russa. Ao cuidado da Fundação Gulbenkian, da Casa da Música e do CCB.
Lang Lang: e lá matou o Prokofiev mais uma vez
A 2 de Abril foi a vez de Lang Lang, se apresentar com o terceiro concerto de Prokofiev. Foi dito, pela crítica internacional, que Lang Lang é um pianista virtuoso mas maquinal, a nossa impressão é ainda pior, Lang Lang é uma espécie de boneco articulado que dá pulinhos ao piano e abana a cabeça mantendo sempre um sorriso irritante, olhando para o público de vez em quando sempre com ar de que aquilo é tudo muito trivial e que ele domina a coisa sem necessidade sequer de estar atento ao que toca. Tudo isso seria dispiciendo se o resultado não fosse confrangedor, Lang Lang não tem envergadura física para o volume sonoro necessário a ombrear com uma orquestra de plena formação sinfónica, toca... toca, mas não se ouve. No andamento mais poético, o segundo Andantino, Lang Lang foi frio e não teve capacidade para transmitir a tortuosa linha de Prokofiev. No último andamento aconteceu o pior, Lang Lang chegou mesmo a andar desfasado da orquestra, correndo a um ritmo estranho e despropositado nas partes mais expostas o que a um nível destes é surpreendente. O público foi muito menos caloroso do que com Bronfmam, mas acabou por ser entusiasta, não é só em Portugal que o público é demasiado generoso...
Um concerto que acabou em beleza com a sinfonieta de Janacek, com um impressinante banda suplementar de metais que enriqueceu o som da Filarmónica de Berlim e contribuiu para um final verdadeiramente empolgante.
Os concertos de câmara, aos preços muito mais módicos de vinte euros, no Mozarteum, foram um complemento excelente de um Festival de altíssimo nível.
Para o ano que vem há mais, com a Valquíria como cabeça de cartaz.
P.S.: Vem este texto que reciclei do meu diário a propósito de Lang Lang ontem na Gulbenkian, se Lang Lang assassinou denodadamente o pobre do Prokofiev em Salzburg, ontem o desgraçado do Beethoven foi massacrado, estralhaçado, cortado em postas e espalhado aos quatro ventos. Uma técnica de dedilhação invejável, um sentido rítmico inacreditável (soluçante e sem fluxo discursivo), falta de domínio do pedal (serve mais para bater o compasso), retórica desconexa, soluções extemporâneas apenas pelo efeito fácil e a surpresa de circo, esforçandos apalermados e a despropósito, escalas sem uniformidade feitas a acelerar sem nexo, falta de cultura musical e de sentido estilístico, habilidades de macaco amestrado e gestos inúteis. Depois seguem-se Rubatos imbecis e tempos errados nos solos, cadências foleiras. Falta de som, agressividade nas pancadas dadas no teclado que soam agrestes, trilos que soam a lata a chocalhar. Falta de presença dos dedos no teclados com ataques francamente maus. Pianíssimos que às vezes pareciam dizer coisas bonitas rapidamente assassinados por uma manobra kitsch ou um sforzano caído do céu aos trambolhões.
Simplesmente horrível, um dos piores concertos a que assisti nos últimos anos. Lang Lang bola preta, muito pior do que em Salzburg, Foster colaborou na palhaçada e a orquestra Gulbenkian lá foi andando aos soluços à frente e atrás das excentricidades rítmicas do rapaz, inacreditável a barulheira das trompas no concerto nº 5 de Beethoven, terceiro andamento, autêntica feira popular.
Valeu o facto de tudo ter sido extremamente divertido o que nos fez sair do concerto bem dispostos. Lang Lang pode tocar muito mal, e falo sempre do lado estilístico, mas tem um lado simpático e comunicativo que até depois das maiores asneiras nos deixa felizes. Virá daí a sua popularidade? Isto apesar de ser habitualmente arrasado pela crítica.
Na sinfonia clássica de Prokofiev a coisa correu razoável mas sem fluidez, mostrando a orquestra os seus limites: interpretação pesada, mastigada ritmicamente e com falhas de afinação nas cordas.
Etiquetas: Beethoven, Bronfmam, Crítica de Concertos, Foster, Lang Lang, Orquestra Gulbenkian, Prokofiev
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