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27.3.09

Resumo da Salomé no S. Carlos 

Amy Whinehouse com mais cinquenta quilos, trinta anos, pedrada e com os copos é a megera de serviço no papel de Herodias, Herodes é um velho e tonto pedófilo, Salomé é uma menina pura e doce, de soquetes, vítima de uma família disfuncional. Como Nancy Gustafson tem cinquenta e três anos aquilo não funciona sem uma dupla muda que faz de criança e que representa a menina Salomé.
Mas a cereja no topo do bolo e o motor de toda a acção é o S. João Baptista que rejeita Salomé porque é pederasta e anda atrás do pagem...

Num exercício de (pequena) imaginação pense-se no mesmo feito com Maomé ou com o genro Ali...

É o que eu chamo de encenação panfletária homossexual básica na antítese do texto genial de Oscar Wilde, que prova à saciedade que se pode ser homossexual e ser um génio. Oscar Wilde escreve uma obra em que todas as subtilezas, todas as ambiguidades têm lugar, dando lugar à elegância e à estética: como de outra forma se escreveria o horror da necrofilia senão em Salomé? Sem se ser básico e primário? Apenas Oscar Wilde para o fazer.
O encenador tem um padrão: todas as obras, todos os textos que por acaso lhe passem pelo estreito passam a ser motivo para panfleto. Numa visão deste tipo todo o homem é homossexual, desde D. Giovanni até Casanova, passando por Jesus Cristo, S. João Baptista, o toureiro da Carmen, Otello e Mefistófles, todos querem abafar a palhinha. Nas mulheres as coisas variam mas não andam longe. O encenador olha para a obra não numa perspectiva histórica, intelectual, ou estética, a música não interessa para nada, não interessa se a música de Jochanaan é majestosa e digna (e até intolerante) e a de Salomé é cromática e erótica, sedutora e torsa. O que interessa é servir a ideia pré-concebida do encenador de enfiar o pederasta algures e da vítima abusada alhures. As interpretações são múltiplas, não sou psicanalista, mas ao ver as encenações destes tipos (no sentido tipológico) acho que se podem tirar conclusões bem interessantes sobre os traumas dos encenadores, que tantas dores nos dão ao imolarem no altar dos seus fantasmas as obras primas do génio humano.
Retirando a camada erótica do feminino, eliminando a dança dos sete véus, colocando a carga negativa em Herodes, um simples pedófilo, fazendo de Jochanaan um vulgar pederasta, arranjando uma dupla muda de Salomé (solução banal e recorrente), que faz de conta que é uma criança, a encenadora destrói, do princípio ao fim desta Salomé, uma obra notável, que tinha tudo lá dentro sem precisar do canibalismo pseudo subversivo, deselegante, espelho de uma alma sem cor, sem imaginação no seu excesso panfletário, desta mulher-homem cinzenta e seca, óbvia, primária e transparente que dá pelo nome de Gruber. A encenação não dá lugar à subtileza e à ambiguidade, é um nojo.

Classificação: uma merda para tomates podres e que valeu bem a pateada e os "bus" que brindaram a encenadora quando veio ao palco. Uma das piores encenações que tenho visto no S. Carlos. Por mim fiquei calado e descontente, gélido: é que aquela porcaria já nem sequer serve para incomodar...

Sobre a encenação da Salomé devo acrescentar que o tomate podre se estende ao director artístico Christoph Dammann e, sobretudo, ao hermenêuta que o meteu no S. Carlos: para mim o pior secretário de Estado da cultura que ocupou o lugar desde o 25 de Abril de 1974.

Continua com aspectos musicais.

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