
26.1.07
Hermenêutica
Como pode um catedrático e ainda por cima secretário de Estado da cultura usar esta expressão que quer dizer: "interpretação de textos antes da compreensão" ou se quisermos ser bondosos "interpretação pré-compreensão", será que o senhor secretário de Estado e catedrático sabe do que está a falar? Ou está a atirar palavras caras para cima dos jornalistas e do público que lhe paga o lugar quentinho na Ajuda? Terá lido a palavra "hermenêutica" recentemente nalgum calhamaço e terá gostado do termo que agora o usa a torto e direito, a propósito quando tem sorte e a despropósito quando calha...
O que é certo é que além de um cinzentismo inacreditável, que resulta, por um lado, da debilidade política dentro do governo, sem a menor expressão junto do PS, como ex-comunista desgarrado, por outro lado resultante da própria atitude pessoal perante a coisa pública que devia tutelar, o secretário revela-se em toda a sua nudez pela exposição de um gigantesco vazio de ideias, projectos e reflexões. O uso de expressões como "hermenêutica pré-compreensão" revela uma fraqueza e falta de coragem política que se esconde atrás de artificialismo e de uma cortina de palavras ocas, disparatadas, sem nexo, como escudo ininteligível relativamente ao real.
Infelizmente para o próprio, fica o registo, apesar de boas intenções e de ideias que lhe vislumbrava à priori, o vácuo infeliz de uma cortina de palavras sem nexo.
Fica aqui a minha previsão: os dias de Pinamonti no S. Carlos estão contados. Se nenhum factor exterior ao palácio da Ajuda surgir entretanto, será um aparatchnik que virá a ser o novo director artístico. Tudo isto se depreende do discurso do Sr. Hermenêutica e esta é a minha hermenêutica do que tem vindo a ser dito, escrito e feito, pelos senhores que se julgam poder na área da cultura.
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Hermenêutica da pré-compreensão
As palavras chaves descoficadoras são: "hermenêutica da pré-compreensão", notável o poder clarificador de sua Excelência o Secretário de Estado.
Espero mesmo que seja o próprio a traduzir os libretos das óperas de "estrangeiro" para português. Com esta hermenêutica linguística teríamos o povo a aderir à ópera em massa, em massa, em massa, senhores ouvintes. Tudo, claro está, numa hermenêutica pré-compreensão que nunca passaria daí.
Um texto de grande clareza, em que diz imensa coisa que ainda não se sabia, como essa da hermenêutica e de se afirmar que a cultura pode ser "um factor de desenvolvimento regional". O resto está um bocado batido mas é sempre interessante ver a hermenêutica pré-decisão post-ontológica do político molestado, quase ofendido, pelas opiniões alheias à sua cogniscência e ao seu delírio de omnipotência, gerindo 0.4% do orçamento de Estado e pouco mais de 0.1% do PIB...
Isso passa-lhes, ou numa remodelação ou numas eleições futuras.
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25.1.07
Libertem o anarca
Libertem o Aleijadinho!
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24.1.07
Sequestro de Rute Monteiro
Segundo o Olavo Aragão a jornalista portuguesa foi raptada por terroristas que a capturaram por causa do seu colete.
As imagens são confrangedoras. De forma inacreditável a imprensa portuguesa não pega no dossier Rute Monteiro isto porque os jornalistas se dedicam a assuntos bem mais desinteressantes e, provavelmente, menos reais.
É óbvio que no vídeo não lhe cortaram a cabeça, o que é um bom sinal. Mas será que temos todos as cabeças bem assentes no corpo? Pedro Bolèo novel crítico do público parece ter a cabeça menos atarrachada do que a jornalista raptada. Com que então a crítica ao concerto do agrupamento Al Ayre Español com direcção de Eduardo López Banzo afirma que Handel é bem profano devido aos ornamentos!! Bolèo diz que sim, alegremente, a tudo. Para isso não era precisa a crítica, bastava ter um programa automático de dizer bem ou contratar um daqueles membros do público que gritam bravo ao menor sinal e se alevantam da cadeira para a berraria do final de qualquer concerto, para escrever umas frases poéticas sobre a "estrela da companhia", expressão que Bolèo deve ter descoberto recentemente e que emprega com exuberância ao longo do texto...
(continua)
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O problema aqui é a realidade, a ilusão, a memória, a invenção e o tempo. Valores éticos, condenações, juízos de valor. Mas, de facto, tudo totalmente errado. Condena-se alguém (Luís Carmelo) que "inventou um facto para supostamente promover um livro". Esse facto não é real, afirma-se.
As minhas questões centram-se sobre o conceito de real. A partir do momento em que o facto se torna aparente, e é recriado/imaginado por nós na nossa mente, passa a ser real. O mundo, tal como existe, é apenas uma representação proveniente da nossa consciência desse mundo, quer ele exista ou não na realidade, coisa que não interessa muito afinal, o que interessa é ontologia. Será o mundo real? Interessa essa questão? Indivíduos como somos, utilizamos a realidade em nosso proveito, inventamos a realidade.
Noutro caso concreto em apreço, considera-se como factor negativo da oportunidade de se "inventar" um facto de "sequestro" de um jornalista a situação do pretenso sequestro de uma criança de cinco anos, isto admitindo que existe na consciência de uma maioria de indivíduos em Portugal que se aperceberam da notícia. Neste caso os formalistas condenam um pai adoptivo com base em juízos abstractos. Serão esses princípios, que formam a base do juízo, reais? A Lei é real? Será uma representação de um ideal? Ou uma aproximação muito falível desse ideal? Ou nem sequer se aproxima desse ideal se acreditarmos que o mundo como tal é apenas uma ilusão? Por outro lado se acreditarmos que o ser humano é intrinsecamente mau, como o nosso pessimista de serviço, Schopenhauer, tão bem o colocou, uma Lei emanada do homem (no sentido de humanidade mas sempre com h minúsculo) será sempre intrinsecamente má, longe dos reais valores éticos, da abnegação, da renúncia, da arte de atingir o nonumenal que passa pela arte de esquecer a Lei dos homens (ou apenas de esquecer, como louvava Nietzsche), uma Lei sempre errada, sempre conducente ao primitivismo, ao egoísmo, à maldade. Uma lei humana defenderá eternamente o mesquinho e vil egoísmo, enquanto o homem for homem.
Voltamos então ao ponto do comentário pedido: como comentar algo que é apenas virtual? Porque razão a invenção de uma realidade paralela é eticamente errada? Será errado promover um livro à custa da indignação alheia? Não acho. Tão egoísta é o burlador como o burlado caro Rui. Além disso que belas reflexões essa invenção de um real paralelo não suscitou?
Sentir-me-ei enganado? Claro que não, a realidade, sob que forma for, nunca nos pode enganar. Podemos mudar de ideia ao mudar a nossa representação, mas o engano como acto ético valorativamente errado nunca poderá estar presente numa representação do mundo, válida como outra qualquer.
E voltemos à criança, que no fundo é a única realidade que ainda está em contacto com a natureza íntima das coisas, próxima do estado natural, recém saída do uno criacional. Interessa-te Rui a felicidade de uma criança? A mim interessa e muito. É nessa felicidade que reside a esperança de um homem que pode vir a conhecer o caminho da eterna renúncia, longe da mesquinhez e do egoismo de ti, do Carmelo e de mim. Sem nos apercebermos...
E volto ao Nonnumenal depois desta digressão pelo "real", volto à música, que nos aproxima do infinito, a música e o amor como dizia o nosso pessimista de serviço. Faz-nos regressar à inocência criacional.
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23.1.07
Depoimento de Paolo Pinamonti
Eu, Paolo Pinamonti, na qualidade de Director do Teatro Nacional de São Carlos, encomendei a Emmanuel Nunes uma ópera em Fevereiro de 2002. A encomenda foi aceite pelo compositor.
Posteriormente, contactei a Fundação Calouste Gulbenkian e a Casa da Música para parceiros da encomenda e para co-produtores. É com satisfação que registo que este projecto, por minha iniciativa e do São Carlos, se realiza com o apoio de duas importantes instituições musicais portuguesas e do IRCAM de Paris.
Na qualidade de Director do Teatro Nacional de São Carlos tenho a responsabilidade de programar a actividade do Teatro e de avaliar as condições técnicas e artísticas de realização de cada projecto. Sempre foi assim e assim será de futuro, de resto, no âmbito do exercício normal das minhas competências. Entre Janeiro de 2003 e Setembro de 2004, a estreia da ópera foi adiada três vezes sucessivas a pedido do próprio compositor. Depois de ter sido concordada a nova data de 22 de Novembro de 2006, enviei ao compositor uma proposta de contrato, a 1 de Fevereiro de 2006, na qual, naturalmente, se encontravam definidas as datas para entrega dos materiais musicais. O compositor não assinou o contrato – até à data este permanece por assinar – e, mais uma vez, foi adiada a data de estreia. Depois de tantos adiamentos, foi meu entendimento que a estreia da ópera de Emmanuel Nunes teria de reunir todas as condições para se estrear no nosso Teatro, no final de Janeiro de 2008.
Lamento profundamente as afirmações proferidas pelo compositor Emmanuel Nunes ao jornal Público, nas quais transparece ter informações privilegiadas quanto a futuras mudanças na política do São Carlos.
Paolo Pinamonti
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20.1.07
Emanuel o Aldrabão!
O que é certo é que Stockhausen em 2006 bem disse que não fazia a menor ideia de quem era Emanuel Nunes e que quem conhecia era Jorge Peixinho, que infelizmente tinha morrido. Não consta que Stockhausen seja infeliz no seu desconhecimento de Nunes ou que seja pior músico e intelectual por essa gravíssima lacuna. Eu concordo, eu não daria um chavo para assistir a uma ópera de Emanuel Nunes que não sei quem é, e se ópera não estivesse acabadinha com as partes vocais completas ainda menos pagaria um tostão ao senhor Emanuel. Acho essa história da ópera do Nunes uma rábula mal contada por parte do "grande compositor". Parece-me que o Stockhausen também não conhece o secretário Vieira de Carvalho que, pelos vistos, é amigo do peito de Nunes e que deve achar que a ópera está terminadíssima, agora que passaram mais um meses e estamos a entrar em 2007.
É realmente uma grande perda a morte de Jorge Peixinho. Segue texto da parte da entrevista sobre o assunto para memória futura.
O director [do Teatro Nacional de São Carlos] decidiu que a [minha] ópera não estaria terminada
Prevista para Novembro passado, a estreia da ópera que Emmanuel Nunes compôs a partir da obra de Goethe Das Mädchen foi adiada para 2008. O compositor explica porquê.
A que se deveu o facto de a estreia da ópera não ter acontecido?
Deveu-se pura e simplesmente à maneira de trabalhar do ainda director da Ópera de Lisboa [Teatro Nacional de São Carlos], Paolo Pinamonti. Mais concretamente, à sua falta de deontologia. Por razões de ordem política e contratual, de cantores, encenador, etc., sem o meu conhecimento, o director da Ópera de Lisboa decidiu que a ópera não estaria terminada. E em Março de 2006, i.e., sete meses antes da data prevista para a estreia, o mesmo director não tinha um único contrato de cantores, nem tinha encenador, e dizia, como podia, que o compositor não poderia acabar a obra. O compositor soube disto através de um agente.
De um agente de um músico?
De um agente de espectáculos de Londres, a quem um cantor que devia cantar a minha ópera perguntou se era verdade que a ópera de Emmanuel Nunes não podia ser terminada. Eu soube, portanto, por um método aplicado. Sem entrar em detalhe, tenho só duas coisas a dizer - primeiro: a maneira como fui tratado pelo director da Ópera de Lisboa chega para que eu exija condições mínimas de deontologia; segundo: como eu não pertenço nem apoio nenhum partido político, sinto-me muito mais à vontade para dizer o seguinte: a única pessoa oficial que considerou o problema da minha ópera, e que apoiou como pôde a questão de que ela deverá ser feita, foi o Mário Vieira de Carvalho, secretário de Estado. E digo isto porque, da minha parte, não é, de modo nenhum, um aspecto partidário; é simplesmente uma constatação. Foi ele que permitiu que a ópera não fosse definitivamente abandonada. Portanto, permito-me considerar esse ponto como importante. À parte isso, como é óbvio, manteve-se o apoio incondicional, a mim, da Fundação Gulbenkian e do Remix Ensemble/Casa da Música. A ópera é uma encomenda tripartida do Teatro Nacional de São Carlos, Gulbenkian e Remix/Casa da Música, em que o Remix tem uma parte importante na realização da ópera, como ensemble.
E a ópera já estava concluída na altura?
A ópera não estava concluída. À parte o material dos cantores, estava tudo pronto e acordado com o maestro Peter Rundel, com o Remix e com a Gulbenkian, com as pessoas que tocam directamente, portanto. Não havia material de cantores, porque o senhor director se recusa a fazer audições.
Prefere fazer convites?
Faz. E como quem escreveu a ópera fui eu, e quem a dirige é o Peter Rundel, e ambos precisamos de audições... Seis meses antes da estreia, não havia um único contrato de cantores.
Acordou-se uma nova data, depois da intervenção do secretário de Estado.
Das intervenções!
E já foram feitas as audições?
Não!
Mas estão previstas?
Penso que sim, na medida em que penso que o São Carlos mudará de política brevemente. As datas são 25, 27 e 29 de Janeiro de 2008.
Etiquetas: Crítica, Emanuel Nunes, Fait divers, ópera, Política, S. Carlos, Vieira de Carvalho
19.1.07
Sequestros
Uma jornalista sequestrada por supostos terroristas nem sequer foi notícia nas televisões. Um escândalo, é Portugal no seu melhor...
Etiquetas: Criança, Fait divers, Mundo, Política, Sequestro, Vida
16.1.07
Parabéns
Como crítico não posso deixar de pedir mais análises profundas a óperas e demais interesses, a motivações de autores e intérpretes, mais críticas com reflexão e menos exaltações e erupções. Quando João Galamba de Almeida resolve criticar a sério, analisar e aprofundar, sem esquecer as divagações psicanalíticas, consegue ser muito bom. Quando diz que comprou um disco novo e que está extasiado por uma diva qualquer é apenas banal.
Mas é um estilo que temos de respeitar: um blogue é altamente pessoal. Manter um blogue é um acto privado, não público. Quem gosta vai espreitar, quem não gosta vai ler outros blogues, não precisa de abrir. Enfim: gosto, por isso vou lendo.
Etiquetas: Aniversário, Crítica, Efemérides, Fait divers, ópera, Tempo
15.1.07
Ordem alfabética implica: Salazar Ganhou
É pena, resulta da estupidez da omissão inicial e da revanche que isso provocou nas pessoas pela tentativa de manipulação da história que isso representou.
É óbvio que eu votaria no D. João II (penso sempre nele em primeiro lugar), no Infante, em Pessoa ou no Luís Vaz, uma vez que Vieira ficou de fora (a hesitação seria maior); Afonso Henriques deixa-me desconfortável, sem ele nada disto teria sido como foi, Gama definiu duas eras: antes de Gama e depois de Gama, Magalhães contribuiu para um mundo diferente, o mundo em que hoje vivemos... é difícil.
Infelizmente Salazar ganhou a primeira fase e vai ganhar previsivelmente a segunda e, para tentar manipular de novo, parece que a contagem volta ao zero.
Salazar é, para mim, um português sem dúvida importante na história portuguesa, pelo mal e pelo bem, mas menoríssimo face à ilustre companhia.
Etiquetas: Crítica, D. João II, Fait divers, Mundo, O Maior Português, Política, Salazar, Tempo
13.1.07
Vaias a Saramago e Corghi - Pseudo Polémica
O que é facto e tenho relatos primários de duas pessoas que assistiram e me contaram em primeira mão, sendo uma delas Dirk d'Ase: a vaia foi gigantesca, Saramago ficou com ar de quem ia ter um ataque, os "buus" e os assobios não pararam e os autores tiveram de sair do palco. Os cantores foram recebidos com bastantes aplausos e até alguns bravi.
Nas outras récitas provavelmente não foi assim, é que tanto Corghi como Saramago não voltaram ao palco.
E quando falei em "um musicólogo desenterrar a obra daqui a mais de cem anos" seria na perspectiva de a levarem à cena. Deveria ter dito "um director de teatro com vocação de musicólogo"...
É claro que existe sempre um especialista desconhecido que espera por nós para fazer uma comunicação sobre uma bosta qualquer numa obscura reunião, e logo de semiótica, na Universidade de Cueiri di Cima. Quando falei no desenterramento não me referia a estudos académicos. Sabe-se da apetência pela irrelevância de muitos académicos sempre prontos a estudar qualquer assunto que mais ninguém ainda pegou, por ser precisamente o mais obscuro e com menos interesse para o resto do mundo.
Mas não me apetece "pseudo-polemizar" em torna da porcaria de uma "pseudo-ópera", já perdi demasiado tempo com o assunto e hoje estou de péssimo humor com uma enxaqueca insuportável.
Etiquetas: Alla Scala, corghi, Crítica de Ópera, dissoluto assolto, Fait divers, ópera, saramago
12.1.07
Comemorações e aforismos
2008 - Ano internacional da Batata (ONU).
2008 - Centenário do regicídio em Portugal.
Paulo Macedo vale muito mais o que ganha do que o primeiro ministro. Se mais não fosse provou-o pela missa que mandou rezar, alheio à turba multa do politicamente correcto, às PIDES dos costumes "democráticos", agindo por convicções profundas, de consciência tranquila. E porque não se escandalizam os senhores do costume contra a maçonaria, e os lobbies variados que de forma secreta e insidiosa por aí polulam e poluem, corrompendo e destruindo beatamente este país? Uma missa é aberta a todos e a mensagem de Cristo é de paz e de inclusão. Até o cromo do Hugo Chávez concorda...
E ao mesmo tempo evitava horas extraordinárias nos serviços contribuindo para a redução do défice!
A vida não se relativiza, o nosso regime é herdeiro de um crime, quem condena a morte de Saddam também deveria condenar a mentira desta república herdeira dos crimes da morte de D. Carlos e de seu filho.
Quem espera sempre alcança.
Quem espera desespera.
A memória é o pior inimigo do mentiroso, logo deveria ser o pior inimigo do político, mas a falta de memória nos outros acaba por ser o seu melhor aliado.
Etiquetas: Efemérides, Fait divers, Morte, Paulo Macedo, Política, Vida
7.1.07
Saramago e Corghi em Milão
O que teria acontecido? Nada se soube em Lisboa creio eu, de qualquer forma como estava fora do país não sei se os jornais reportaram. O que posso informar é que a ópera foi muito mal recebida na estreia e que não só Corghi como o próprio Saramago foram vaiados alegremente pelo público do Alla Scala, informação bem mais importante do que as vaias a um tenorzeco. Não sei se será bom ou mau, sabe-se como o público do Alla Scala é temperamental e muitas vezes retrógrado; ser vaiado até pode ser agradável mesmo num contexto de uma programação, na altura, dedicada à música contemporânea...
O que eu sei é que o pobre do Saramago, o mesmo que disse "ir ao Alla Scala é como receber o Nobel outra vez", ficou banzado com a recepção de uma obra que tanta água benta recebeu em Lisboa... Parecia que ia ter um ataque cardíaco em pleno palco quando lá foi para ser, putativamente, aplaudido...
As críticas foram mistas, uns disseram que Letonja tinha estado soberbo, outros que Letonja tinha destruído a subtileza dos tecidos de Hindemith [em Sancta Susanna], alguns disseram que Corghi era excelente e Saramago confuso, ainda outros afirmaram que Saramago era bom mas que a música não levava a lado nenhum.
Eu penso que nem a música é grande coisa nem o libreto presta para alguma coisa e que a Ópera passará a ser mais uma curiosidade para musicólogos desenterrarem daqui a mais de cem anos.
Fica aqui relevado o esquecimento com um pedido de desculpas aos leitores pela tardia lembrança.
Etiquetas: Alla Scala, corghi, Crítica de Ópera, dissoluto assolto, Fait divers, ópera, saramago
Bravo Atlético

Etiquetas: Fait divers
Sopranos Dramáticos & Beleza
Estive a ler um blog que muito prezo; isto apesar de uma filosofia totalmente distinta da minha em termos de apreciação e posição face à música: eu estou-me nas tintas para as divas e os divos, as tricas e os mexericos do Alagna e da Callas, aquele e mais aquele intérprete, mais um disco com compilações e umas coisas que se passaram no Met e na Bastilha; privilegio a música pela música, a concepção global, a estrutura, a emoção do conceito e da criação operática enquanto obra de arte total, música, teatro, movimento, arte plástica, sempre e numa perspectiva global, sempre pondo a representação viva acima do produto congelado... por mais belo que este seja.Assim não posso de deixar passar sem uma "bengalada amiga" o post Sopranos Dramáticos & Beleza desse blog, um excerto:
O soprano dramático - Isolda, Brunnhilde, Elektra, Turandot - tem como principal atributo o volume vocal.
A voz tem de ser grande e ampla, penetrante e densa. Requer-se robustez e envergadura físicas.
Raramente encontramos um timbre sedutor num soprano dramático - Flagstad é uma excepção!
O mor das vezes, dada a natureza das exigências descritas, esta categoria de sopranos peca pela bestialidade [sublinhado meu] da compleição física...
Não é verdade que um soprano dramático tenha como atributo vocal maior o "volume vocal", é evidente que o registo de peito deve ser muito escuro no timbre e capaz de grande pujança sem deixar de ser capaz de matizes e cores, devendo ser aveludado mesmo (ou sobretudo) no pianíssimo. Os agudos devem ser rutilantes, dignos, consistentes e metálicos, mas de um metal ourífero quase cúprico revelando uma grande riqueza de harmónicos, muito equilibrados em toda a extensão, sobretudo na fundamental e nas duas seguintes componentes da decomposição espectral, revelando ainda uma grande linearidade da resposta (harmonicidade) mesmo nos pontos de maior tensão das cordas vocais e de maior esforço do peito e diafragma. Todos os registos são utilizados pelos compositores, todos os cambiantes são enunciados pelas paletas de Wagner ou de Strauss, todas as suas heroínas dramáticas vão da exaltação ao âmago do sofrimento, do despojamento à fúria mais sublime. Geralmente a agilidade não se coaduna com este tipo de vozes, mas houve grandes sopranos dramáticos capazes também de alguma coloratura. É verdade que a envergadura física pode ajudar, mas é preciso não esquecer que os grandes sopranos dramáticos se revelam na sua maioria depois dos quarenta anos.
Por outro lado a beleza física dos grandes sopranos não é para aqui chamada, são mulheres completas, actrizes, mães, mulheres maduras, que atravessaram na sua maioria das vezes o curso dos anos antes da afirmação como grandes sopranos dramáticos.
O uso do termo "bestialidade física" para caracterizar Martha Mödl, Régine Crespin, Kirsten Flagstad (que ao menos escapa pelo timbre), ou até Birgit Nilsson é no mínimo excessivo e deselegante, uma afirmação machista e misógena e sem a menor relevância para a arte que foram capazes de nos transmitir e, apesar do João Galamba de Almeida dizer que o timbre é geralmente pouco sedutor, gosto do timbre de todas. Opinião pessoal e altamente subjectiva, como todas as opiniões.
Deixo um magnífico retrato de Flagstad quando jovem, uma mulher lindíssima, quer se imagine a sua figura quer se escute a sua voz, e não apenas no timbre. E mais não digo que não vale a pena.
Etiquetas: Fait divers, ópera, soprano
6.1.07
Contra a Passagem do Tempo
Etiquetas: Ano novo, Fait divers, Tempo.
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