<$BlogRSDUrl$>

30.9.04

Lá estarei na ópera de Stefano na Figueira de Foz! Crítica para Sexta... 

Amanhã, ou melhor, ainda hoje lá estou, na Figueira da Foz, para ouvir de Stefano Puccini, La Bohème. Auditório Santana Lopes da Figueira!

Por incrível que possa parecer a frase acima apenas tem um erro! É que de acordo com o Gágázine da 2: o compositor de la Bohème é um tal Stefano Puccini que parece que seria primo do verdadeiro Puccini, um tal de Giacomo.
Pelo menos assim estava escrito a toda a largura do ecrã por debaixo da entrevista ao director do S. Carlos, Paolo Pinamonti. Outra hipótese de erro seria o nome do auditório; ainda tive esperança que fosse o Auditório Manuel Santana Lopes, não, é mesmo Pedro! Este não é erro, pelo menos de português, é apenas erro de casting.

Para quem deve dar um exemplo é obra! Isto numa televisão nacional e não na televisão pirata de Ranholas ou outra equivalente da TV cabo como a RTN. Num suposto Gágázine cultural.


28.9.04

Um país de aldrabões? 

Neste concurso dos professores apareceram inúmeros candidatos doentes a pedirem destacamento por razões específicas. O número duplicou relativamente ao ano anterior.
Para isenção de 50% do IRS basta um atestado médico que diga que se tem uma deficiência elevada. O número destes deficientes duplicou em poucos anos. Muitos são polícias no activo e responsáveis das finanças. Alguns até parece que são deficientes a mais de 90%.
Portugal um país de doentes?

Eu com este Santana Lopes também ando deprimido, será que isso me dá razão para um desconto no IRS?


Festival de Orgão I 

Assisti a três concertos deste Festival. O de abertura pareceu-me um pouco confuso em termos de ideia de programa, é certo que era dedicado a um único tema, o Te Deum, mas com demasiada mistura de estilos, desde o barroco ao pré-contemporâneo, recuso-me a classificar Stanford como contemporâneo, e de intérpretes: João Vaz, António Duarte tocaram orgão a solo (e à vez) e a parte vocal ficou a cargo de Voces Caelestes (coro e solistas) com direcção de Sérgio Fontão. Mas é uma opinião pessoal discutível, a variedade pode justificar-se por se tratar de um concerto de abertura, festivo e com abordagens diversas, quase como um resumo do que se vai seguir.
A Sé estava cheíssima de público, o que mostra a qualidade do Festival e a divulgação feita. Mostra ainda a sede de cultura da população, que com entrada livre acorre em massa e ávida de música de qualidade. Nota positiva ao público que se portou com a dignidade que estes concertos merecem e escutou atentamente as obras batendo palmas apenas no final, como pedido inicialmente. A praga dos telemóveis a fazer-se sentir apenas uma vez. A minha opinião é que um toque de telemóvel num concerto devia dar direito a prisão, mas...
Dispensava-se o discurso do cónego Pereira da Silva, simpático e atencioso para o Festival. Louva-se a atitude do patriarcado ao incentivar de forma tão calorosa o Festival, quando a igreja católica pensa em proibir a música nos seus templos em concerto. Mas foi repetitivo, o texto está na íntegra no programa do festival e, portanto, fastidioso.

Destaco a voz da solista Marisa Figueira no conjunto dos solistas pela consistência, segurança, timbre e força. O conjunto solista poderia estar melhor integrado em termos de conjunto e às vezes as vozes mostraram-se algo agrestes. O coro esteve empastelado e pouco acutilante na entradas no Te Deum de Scarlatti (e mesmo em Mendelssohn) com desafinações aqui e ali; deveria transmitir mais felicidade e pathos barroco. Os agudos, muito elevados por força do orgão ser moderno e afinado muito alto, sairam difíceis nas vozes resultando muito despidos e duros. Curiosamente em Mendelssohn (Te Deum) o coro voltou a estar pouco alegre, o Te Deum é júbilo mas esse júbilo não transpareceu. Uma interpretação certinha e sem muita chama de Fontão. Notei tempos muito mortos, pouca acentuação e pouca clareza. A dicção em latim esteve razoável, no inglês de Stanford esteve péssima, o que parece surpreendente. Mas não esqueço que o latim foi língua de igreja durante dois mil anos e as obras compostas em latim o foram declaradamente para a igreja, no entanto a obra de Stanford é apenas uma peça de circunstância para uma coroação real. Não sei se estes efeitos influem na percepção do texto, creio que sim.

Mas o concerto acabou por ser agradável, Domenico Scarlatti tem um Te Deum com uma escrita espantosa a oito vozes mais baixo contínuo. Eu tinha apenas consultado anteriormente em manuscrito num documento que existe no arquivo da Sé de Lisboa. A audição da obra suplanta a mera leitura em muito. Percebe-se, ouvindo, o resultado notável de um contraponto pairante e etéreo, produto da escola romana onde Domenico esteve antes de Lisboa, um contraponto leve de escutar e ao mesmo tempo denso na técnica e na textura escrita. Sem esquecer que a obra tem um ritmo dançante patente nos seus ritmos ternários verdadeiramente transbordantes. Ouvi-lo no local próprio, cantado no coro alto da Sé, onde a acústica foi pensada para a música, é realmente excelente, mesmo com os defeitos citados. Foi nesta obra que a interpretação esteve melhor preparada. Scarlatti é um génio e torna-se muito difícil explicar os efeitos que tem música deste alcance nos estados de alma. Apenas ouvindo. Saí do concerto com alegria, mesmo com os pontos a melhorar, penso que o concerto foi razoável.

Henrique Silveira

27.9.04

Capela Real em Coimbra 

Encontro-me por casualidade em Coimbra neste fim de semana, onde decorreu esta noite um Concerto da Orquestra "Capela Real".

Em programa música de Charpentier, Biber e Carlos Seixas.

Admito que fui a este concerto como quem vai para o patíbulo já que estava a espera de assistir a um dos piores concertos dos últimos anos; enfim, a Capela Real nos últimos anos tem dado argumentos para se estar sempre à espera do pior.

Afinal não foi péssimo; só foi mau.
O que salvamos deste concerto é a sensação de que se o grupo foi menos desafinado do que em outras ocasiões mas além disso pouca coisa ou nada.
Sinto-me até constrangido e peço desculpa, estou a tentar de ser o mais humano possível mas, contudo, não consigo esquecer as coisas más que a Capela Real continua a mostrar desde a sua fundação.

O facto, parece-me, é que quando se aborda um repertório tão variado como o da música pré-clássica seria necessária uma grande capacidade de saber dizer através da leitura musical e da oratória quais as vertentes, quais as ideias, de um mundo de invenção retórica, musical, emocional; queremos saber distinguir as diferenças e as razões que fazem a música Francesa tão diferente da música Alemã. As diferenças de tratamento harmónico, de tessitura e de utilização da orquestração. As Diferenças!
Para além disso a música deveria dar-nos prazer para além de todas as considerações teóricas.
A Capela Real conseguiu uma espécie de globalização nivelada para baixo de tudo isto; desde Charpentier, até Seixas e Biber este agrupamento manifesta uma abordagem absurdamente pobre de todo o material musical e instrumental.
Um exemplo paradigmático disto foi a primeira peça; o Prelúdio do Magnificat de Charpentier; parecia uma Missa dos Mortos e cheguei a perguntar-me se por acaso os músicos desta orquestra tinham claras na cabeça as duas perguntas que, penso eu, um músico deveria fazer a si mesmo quando aborda uma interpretação: o que significa "Magnificat"? quem é Charpentier? ou o que quer dizer-nos, quais são os "affectos"?

É claro que a Capela Real foge de todas as mais elementares leis da "prattica".
Som sempre igual, fraquinho e monótono durante todo o concerto, sem variação alguma que não a dada pela desafinação, mesmo assim, como expliquei mais acima, foram menos pronunciada do que em outras ocasiões mas que, por absurdo que possa parecer, a falta da desafinação total acabou por aumentar a monotonia.
Nas intenções musicais passa-se a mesma coisa, parece que os músicos da Capela Real têm um treino especial para desenvolver frases castradas e castrantes, sem nunca demonstrar um momento de orgulho, de alegria, jóia, e personalidade. Sem programa à nossa frente não se poderia adivinhar quem eram os compositores da noite bem como reparar se existe alguma diferença entre os mesmos.

Em primeiro lugar os protagonistas!
Stephen Bull; é uma anedota, um enorme bluff (talvez nem isso já seja). É possível que tudo aquilo que ele faz quando pega no violino seja tirar sons horríveis? Sem nenhum momento de música o Director da Capela Real limita-se a dar instruções elementares aos músicos que dirige. Há alguma razão para continuarmos a ouvir um violinista que toca tão desafinado? Afinal ele é o Director Musical deste grupo desde que conhecemos a Capela Real; ele esteve a dirigir e a tocar a solo; desde sempre e sempre da mesma forma péssima.
Claro que se o chefe for tão mau não podemos esperar que o resto da banda tenha capacidade maior; enfim, se aceitam ser dirigidos por uma anedota tão enorme devem reconhecer-lhes capacidades que os outros não conseguem. De facto o resto dos músicos que integram a Capela Real demonstra dar razão a esta hipótese.
As sonatas de Biber, provavelmente arranjadas pelo "director" tiveram verdadeiros momentos de arrepio, uma dor quase física para os ouvidos e ouvintes. Não é aceitável.

O cravista Rui Paiva é um organista honesto, alguma crítica reputa-o de excepcional mas isto apenas por Portugal ser num país que não está interessado em ter uma coerência cultural e estética. Quando Paiva passa ao cravo resulta ser do mais deprimente que nos é dado a ouvir.
Nem um momento de inspiração, nem uma cadência, nunca uma ornamentação que nos surprendesse um pouco; não precisariamos de uma cadência maravilhosa ou ornamentação inspirada, gostávamos apenas de ouvir uma para amostra! Mas não, não houve um momento que ultrapassasse o aborrecimento.
O concerto de Seixas foi um mero exercício de secretaria assim como ao longo do programa foi o trabalho de cravo no baixo continuo. Tudo tão vulgar que depois de alguns momentos esquecemos da presença de um cravo no concerto.
Conheço as regras que poderiam justificar uma atitude musical naquele sentido. Gostava de saber se Rui Paiva também as conhece, já que nunca ouvi dele outra forma de tocar em anos de carreira.
Talvez tenhamos de ser mais pacientes, já que como ele salienta na abertura do seu próprio curriculum, é licenciado en Engenharia Electrotécnica, aspecto fundamental da arte de tocar o orgão e o cravo e muito relevante para um programa musical...

Outra secção que não me parece fazer sentido são os baixos, ou melhor, os violoncelos; parece que se está na escola com os alunos mas sem o professor. Parece que ficam como que perdidos e sem personalidade própria, repetindo sempre, digo sempre, o mesmo esquema. Num baixo continuo!!?? Qualquer nota com a mesma intensidade (ou não intensidade)!!?? Sempre o mesmo som, sempre as mesmas fórmulas de baixo que anda por grau conjunto ascendente e com a mesma fármula que parece tirada do livro ?"O meu primeiro violoncelo barroco?". Ainda por cima não houve presença de nenhum violone ou viola de gamba num programa que incluía Charpentier e Biber. Já tenho visto alguns dos músicos da Capela Real (Miguel Ivo Cruz e um contrabaixista do qual não relembramos o nome) tocarem violones e gambas quando integrarem outros agrupamentos. Para não falar da falta de uma theorba ou instrumento do género.
Assumimos que esta seja então uma escolha artística dos directores deste agrupamento.

Os violinos, como disse, não estiveram tão desafinados como de costume mas notei, mais uma vez, falta de unidade sonora, falta de coesão num concerto que não teve nenhuma mudança dinâmica ou de humor. Um concerto com um som despersonalizado e sem alma que não fez o menor sentido.

A musica Barroca vive principalmente de momentos de alta invenção; lamento por estes músicos mas parece-me que não percebem o que fazem e se perceberem por certo não devem gostar nada.

Em resumo; um concerto que se limitou a ser não catastrófico, evitando apenas as habituais desafinações horripilantes. Contudo, salienta-se, que sem as desafinaçoes do costume um concerto da Capela Real torna-se num acontecimento de alto aborrecimento.

Solistas e Maestros com escolhas erradas a nível musical e altamente soporíferos.
Igreja de Santa Justa com um terço dos lugares preenchidos.

M.P.

Sem alternativa 

Portugal pode ter oposição, coisa que não existia há mais de dois anos, mas continua sem alternativa... fora ou dentro do governo.


24.9.04

Alegoria do mau governo 



Ambrogio Lorenzetti pintou em 1338 as Alegorias do Bom e do Mau Governo, um grande conjunto de frescos destinados ao Palazzo Pubblico de Siena, uma das primeiras obras da história da pintura com conteúdo civil, filosófico e político. Por ironia do destino os frescos relacionados com o "mau governo" são os que se encontram hoje mais danificados. Imagine-se se Lorenzetti tivesse vivido em Portugal no dealbar do século XXI… Não teria mãos a medir com tanta inspiração! Quantos quilómetros quadrados de paredes iria precisar para ilustrar os efeitos do mau governo?

O Currículo é uma miragem de onde não se vê qualquer margem 

O currículo do banqueiro ideal:
Secretário(a), licenciado(a), deputado(a) e ministro(a).

Qualidades essenciais para se ter um lugar na Administração de um banco público, mesmo que se tenha sido um dos piores ministros(as) de que há memória. Mesmo sem se perceber nada do negócio bancário. É que o currículo em Portugal é meramente uma questão de perspectiva.

É Portugal em acção!



Viva Portugal!

H.S.

D. Afonso VI e Sampaio 

Um amigo meu ficou indignado com a comparação de Sampaio com D. Afonso VI, que supostamente seria diminuído mental e impotente. Telefonou-me e disse: "estás a exagerar, talvez o Sampaio seja pior que o Thomaz, mas ir ao D. Afonso VI? É um exgero, deixa de escrever isso no blogue que eu deixo de te ler!" Estava mesmo indignado, ainda por cima é do PS e as eleições andam a enervá-lo, como se o pinóquio não tivesse a coisa no papo. A minha resposta foi calma: "Não te esqueças que o D. Afonso VI foi julgado de forma insidiosa, mas o ponto importante é que tinha como primeiro ministro o Castelo Melhor." Resposta do meu amigo: "Já percebi, tens razão!" E desligámos o telemóvel de forma amigável.

Henrique Silveira

23.9.04

Cortes no S. Carlos 

Corre a notícia em Lisboa que os cortes na cultura vão ser tremendos, o S. Carlos poderá ter um corte orçamental quase da ordem dos 50% no orçamento de produção.
Esta é uma notícia em primeira mão e que ainda não saiu na imprensa, não está ainda confirmada. Quase todas as produções teriam de ser canceladas. Isto depois de Couto dos Santos na Casa da Música, que também está ligado à Compta a tal empresa das colocações de professores...
A ser verdade, espero que não e ainda se está a tempo de corrigir, teremos um dos períodos mais negros para a história da música em Portugal. Aliás os dias de hoje são do mais profundo desgaste para este governo e para o PSD. O que se passa na educação é uma das maiores vergonhas da história recente portuguesa e deve-se por inteiro a Durão Barroso, a David Justino, aos secretários de estado antigos e modernos e à actual gestão Lopes e tia Seabra que afinal é irmã do padre e ainda não se apercebeu da magnitude da tragédia desde que entrou em funções, alguma alma caridosa ensine à senhora o que é um computador. Funcionários superiores do ministério ligados ao PS juntam as flores para o ramalhete final de incompetentes (já duvido que seja apenas incompetência) e mostram a total falência do sistema alternante de bloco central. O que pior poderia acontecer? Não há terceira via viável... É Portugal em Acção!


Santana Lopes no seu melhor é o pesadelo de Portugal.

São os violinos de Chopin a trabalhar. Junta-se a isto Sampaio o pior presidente eleito de todos os que a democracia electiva nos deu, desde o Manuel Arriaga ao Eanes e Soares passando pelos da ditadura. Bem pior que qualquer monarca incluindo as D. Marias (I e II), D. Miguel e D. Pedro IV, D. Afonsos (V e VI). Volta D. Sebastião estás perdoado, O nevoeiro é bem denso!


22.9.04

Debaixo de água 

Quando se é professor há catorze anos numa casa como o Instituto Superior Técnico passam por nós centenas de alunos por ano. Milhares ao longo dos anos. Não me esqueço das minhas aulas de análise matemática IV numa sala do pavilhão central com cerca de setenta lugares sentados onde me apareceram, contei uma vez, cento e quatro alunos, ficavam em pé ao fundo da sala, outros sentados no chão nos corredores laterais. Eu tentava mandá-los para outras turmas, tentava desdobrar as aulas mas sempre sem sucesso. Hoje, felizmente, a situação no meu Instituto parece ter evoluído positivamente, julgo que nada disso acontece hoje. Podemos orgulhar-nos de ter uma casa bem organizada em que a dedicação é a palavra chave e em que os recursos humanos, muitas vezes sobrecarregados, são utilizados de forma racional na investigação e no ensino. Conseguimos acordar com os alunos a propina máxima, numa negocição em que foi usada a inteligência e todos sairam a ganhar. Todo o dinheiro obtido com essa propina foi exclusivamente utilizado com a melhoria da situação dos próprios alunos o que se constata com as salas de estudo, por exemplo. A utilização dos dinheiros suplementares é atribuída com a participação dos alunos nos mecanismos de decisão. Por consequência não existe contestação às propinas no Técnico. Isto se esquecermos os grupos da esquerda folclórica, cuja influência é mínima na comunidade dos 10000 alunos da casa. Basta ver que no ano passado a reunião do conselho directivo onde se discutia a propina foi invadida por menos de cinquenta estudantes. O presidente do IST, o professor Matos Ferreira, acabou a conversar com os alunos de forma calma e pacífica e agitação ficou por aí. Claro que os dois ou três estudantes mais activos do bloco de esquerda chamaram as televisões que deram a notícia como se de uma revolução se tratasse.
Divago, não queria escrever sobre isto tudo. O que se passa é que encontro antigos alunos em toda a parte, uns são donos de empresas, outros vão a concertos, outros encontro-os no LUX, outros na praia, encontrei um antigo aluno a atender no Continente, queria desistir do curso e tinha começado a trabalhar. Estive a conversar com o rapaz muito tempo, felizmente voltei a vê-lo no Técnico uns meses depois e contou-me que tinha regressado ao curso e estava a correr tudo melhor. Aqui há uns tempos, nos anos de uma amiga num restaurante chinês, tudo estaria bem, se não tivesse cedido à tentação degradante, produzida por alguns eflúvios intoxicantes, de cantar o "Love me tender", ou uma coisa assim do Elvis, no karaoke do restaurante a pedido da aniversariante e do grupo animado em que eu me encontrava. Sou surpreendido no final da interpretação, que me dispenso de autocriticar, com uma sonora ovação e imensas palmas da única mesa que ainda resistia além da nossa. A ovação constava de sonoros "ÁLGEBRA" entrecortados com "ANÁLISE", as cadeiras que eu tinha leccionado aos rapazes e raparigas da tal mesa que eu tinha inadvertidamente deixado de observar criteriosamente antes de me meter em figuras tristes. Acabou tudo numa enorme gargalhada.
Comecei ontem um curso de mergulho, tinhamos de dizer o nome, a idade, a profissão e outros dados para nos ficarmos a conhecer no início. Começa uma jovem por dizer que era engenheira civil, eu lá digo que sou professor no Técnico e imediatamente a rapariga que tinha falado antes disse: eu bem que o estava a conhecer, fui sua aluna! Outros rapazes que não tinham falado ainda: "e eu também fui seu aluno", "eu também sou do Técnico", etc, etc, etc. Enfim, há uns dez antigos alunos do Técnico no grupo. Mas isso tem vantagens, no fim da aula disseram-me que eu podia copiar no exame final! Não sei se aproveite...

21.9.04

Humor musical 


Como tinha prometido aqui ficam algumas sugestões de livros que aliam a música ao humor, alguns meramente lúdicos, outros com claros objectivos pedagógicos dirigidos ao melómano com cultura musical média, mas que podem também servir de aprazível divertimento para os mais "especialistas" ou para os músicos (profissionais e amadores). Sem preconceitos, pondo a nu situações caricatas, extravagantes ou mesmo ríduculas que tantas vezes se encontram associadas aos vários tipos de actividade musical ao mesmo tempo que elucidam o leitor sobre história da música, teoria musical, técnicas de composição, correntes estéticas ou simples curiosidades. "How to stay awake during anybody’s second movement", "When the Fat lady sings" ou "How to listen to modern music without earplus" são apenas alguns dos títulos mais sugestivos. No que diz respeito a antologias com as tradicionais anedotas (sobre compositores, maestros, virtuosos, sopranos, violas, etc.), algumas verídicas, outras nem tanto, e citações de compositores e intérpretes aconselha-se, por exemplo, a compilação da Classic FM, efectuada por Henry Kelly e John Foley: "Musical Anecdotes" (ed. Hooder & Stoughton).
V.G.




20.9.04

Peter Schreier em Schwarzenberg 

O Festival Schubertiade este ano, entre grandes momentos, contou com Peter Schreier. Como estava por perto não pude perder o grande tenor. Peter Schreier cantou em Portugal no Festival de Sintra, mas como na ocasião eu estava na Turquia perdi o concerto, acabei por ouvir um recital espantoso em Schwarzenberg.
A primeira impressão foi dada pelo espaço e pelo público.
O Vorarlberg não é propriamente a região mais cosmopolita da Áustria, encravada entre o Liechtenstein, o lago Constança com Bregenz a quinze quilómetros, a Suiça, o Sul da Baviera e o monte Arlberg, esta região por detrás das montanhas é considerada algo rústica pelos austríacos de outras regiões, sobretudo pelos tiroleses que, diga-se em abono da verdade, também são considerados algo rudimentares pelos compatriotas vienenses. É na terra onde nasce o Reno, entre montes alpinos, que decorre o festival Schubertiade, um dos eventos mais importantes da música de câmara e do lied a nível mundial. Um sonho para qualquer apreciador destes géneros que deixam as salas principais de Portugal às moscas.
Não é o caso de Schwarzenberg, uma pequena vila com não mais de mil habitantes, a sala está esgotada, nota-se que toda a gente se veste com grande rigor para os concertos. Gente de toda a parte. Vêm da Alemanha, da Suiça, do Liechtenstein e das redondezas, outros vêm do "estrangeiro", como da Itália, de Portugal como três de nós ou ainda de Graz, ainda na Áustria e que para os locais já fica um pouco fora de mão, é o caso do meu amigo Fripertinger que é professor de música e flautista nesta cidade.
Duas trompas no pátio exterior da lindíssima sala, um celeiro muito bem reconstruído como auditório, chamam o público.
O tempo está excelente, o sol declina sobre as montanhas ao longe, pássaros de final de Verão sobrevoam os campos, as vacas pastam ao longe, parece o cenário das últimas canções de Strauss, estamos a 700 metros de altitude e o fresco da noite que se anuncia convida a entrar.
Consulto o programa, um livro encadernado com capa dura e a reprodução de uma pintura com Franz Schubert na mesma. Impressionante, 382 páginas de texto apenas sobre um Festival. Alemão e mais nada, felizmente não no dialecto local impossível mesmo para os vienenses, como me disseram entre risos.

O estado de alma daquela gente ao saborear as palavras de Schreier e dos grandes poetas Eichendorff, Rückert, Kerner, L'Egru ou Heinrich Heine entre outros é digno de se apreciar. Mas nada melhor do que dar o programa todo:

Liederabend (Canções ao entardecer)

Peter Schreier - Tenor
Camillo Radicke - piano


Johannes Brahms
Deutsche Volkslieder:
Sagt mir, o schönste Schäfrin mein; Erlaube mir, feins Mädchen; Die Sonne scheint nicht mehr, Feinsliebchen, Schwesterlein, Wie komm ich denn zur Tür herein

Felix Mendelssohn Bartholdy
Minnelied, Im Frühling, Der Mond, Pagenlied, Lieblingsplätzchen, Reiselied, Schilflied, Gruß, Auf Flügeln des Gesanges

Robert Schumann
Meine Töne still und heiter, Sängers Trost, Der Himmel hat eine
Träne geweint, Aufträge

"Dichterliebe"
Ciclo sobre palavras de Heinrich Heine

O pianista muito jovem esteve geralmente bem, notou-se alguma preocupação em tocar de forma muito certa, entrando bem a tempo, evitando antecipar as sílabas de Schreier, mas também não caindo na tentação de tocar à defesa seguindo a palavra em vez de a sublinhar. Arte subtil e difícil, soar forte sem abafar o cantor, manter a suavidade do toque e reforçar as componentes harmónica e a tensão mais dramática ou um maior lirismo dos textos. Não foi tão convincente no Brahms inicial, que carecia de maior frescura popular. Mas foi impressionante no Schumann, teria sido quase perfeito se nos últimos compassos do Amor de Poeta não tivesse falhado desastrosamente um acorde que estragou completamente a expressão profunda do fim do ciclo. Uma nota trocada aqui e ali teriam sido esquecidas, naquele final aquele erro teve uma repercussão avassaladora. Felizmente Schreier deu três extras e acabámos por esquecer aquele remate tão desastrado compensado por um forte abraço do cantor logo após o final do programa regular. O pianista ficou muito desanimado e nem queria agradecer as palmas mas Schreier chamou-o e obrigou-o a agradecer de braço dado.

Quando Schreier abriu a boca no início do recital eu nem queria acreditar no que ouvia. A última vez que tinha ouvido o cantor tinha sido numa excelente Viagem de Inverno, na qual Schreier dava sinais de cansaço e a voz já não mostrava uma grande frescura, valendo a composição e a interpretação. A tessitura do ciclo é também muito abaixo dos lieder que escutámos agora, o que justifica a diferença. Schreier sempre foi muito superior no registo mais elevado. Espantosamente o grande cantor alemão nascido antes da II Guerra, em território entregue à antiga RDA, conserva uns agudos de uma frescura impressionante. Uma segurança no ataque verdadeiramente aterradora com uma capacidade de afinação quase incrível, sem procurar tactear a sustentação, tudo sai com uma segurança e uma clareza ímpares. A dicção é perfeita, dispensa a consulta de folheto, todo o texto se entende de uma forma perfeita. A voz é brilhante, diria mesmo rutilante, a idade, vai fazer setenta no próximo ano a 29 de Julho, é a ideal para a expressão, o domínio poético e da palavra, mas como é difícil manter uma voz tão perfeita com esta idade! Parece que em Peter Schreier, como foi com Kraus, a idade não tem efeito sobre a voz. Schreier continua a ser um dos maiores tenores de hoje e espero que assim continue por muito tempo.
Peter Schreier apenas deu sinais de cansaço já no final do recital, longuíssimo, em duas notas do registo mais grave nas quais a emissão fugiu um pouco. Foi alegre e jovial na música de cariz mais popular de Brahms, requintado em Schumann com um recorte literário profundo em que o texto ganhou texturas poéticas impossíveis num cantor com menos inteligência e experiência de vida. Foi delicado e fino em Mendelshonn. Um recital do mais alto nível a que pude assistir na vida e que fica para sempre na minha memória. De tal forma que nem consigo descrever a emoção de escutar a interpretação musical e poética destes grandes nomes da cultura universal. Apenas escutando e calando, recordando em silêncio, pela noite de lua cheia do início de Setembro, a noite que caiu sobre este memorável concerto...

H.S.

19.9.04

Faleceu Adelino Tacanho 

O director do Festival de Música dos Capuchos durante 21 edições faleceu recentemente. Fica aqui a nota com as condolências à família e amigos.
Muitas vezes pude apreciar os concertos do Festival e o amor e dedicação que Adelino Tacanho punha na organização do mesmo.
Constato também que o Município de Almada é um deserto em termos musicais. A Câmara desta cidade não tem a menor sensibilidade para o fenómeno da música erudita. O vereador da cultura revelou recentemente ser um enorme ignorante em termos de cultura musical e os seus assessores culturais (que deveriam ter esses conhecimentos) também revelaram uma ignorância rasteira, e mesmo estupidez, ao desprezarem uma temporada de concertos com alguns dos maiores nomes da música como Enrico Onofri e Rinaldo Alessandrini a custos muito inferiores a qualquer grupo de terceira escolha para uma festa popular!
É neste contexto triste que a morte de Adelino Tacanho se revela como mais uma machadada terrível para a cultura portuguesa. Era alguém que sabia o que fazia e ao qual a Câmara de Almada podia ter recorrido para suprir a pobreza cultural dos seus responsáveis, pelo mérito e qualidade que publicamente se reconhecia a este habitante do concelho da margem sul do Tejo. Poderia ter sido utilíssimo numa programação cultural condigna de uma população de centenas de milhar de habitantes ao exemplo do que faz Sintra, para não ir muito longe.
Fica a lembrança de Adelino Tacanho.

Henrique Silveira

18.9.04

Volta Manuel Monteiro estás perdoado! 

Couto dos Santos à frente da Casa da Música??? É o que se diz por aí, não sei se saiu confirmação.
Volta Manuel Alves Monteiro, estás perdoado, perdoadíssimo, mesmo a 10200 euros mês qualquer Alves Monteiro (que é bom gestor disso não há dúvida), ou mesmo qualquer anónimo, ou qualquer boneco inanimado, seria melhor que Couto dos Santos que sempre foi homem de aparelho e de intriga sem currículo, basta ver como chegou a ministro.

Portugal com Santana Lopes é a anedota contínua. Será que Sampaio teve uma iluminação ao deixar um rapaz com muito ar entre as orelhas ser primeiro ministro? Seria para arruinar de vez a carreira política do menino birrento? É certo que Santana Lopes depois destes dois anos nunca mais será nada de importante na vida, também nunca foi. Mas será que o "presidente" não viu que isso implica destruir completamente o país?

Mas Sampaio continua a surpreender pelas suas importantes descobertas, a última é a de que o sistema administrativo é "um sorvedouro de tempo e de dinheiro". Mas que brilhante, digno do melhor Américo Thomaz, ou até de Manuel de Arriaga. Eu não fazia a menor ideias de que assim acontecia, obrigado senhor presidente...

P.S. - Não só se confirma Couto dos Santos como se soube que não vai ser remunerado. Pelo menos aparentemente. Correcto, de qualquer modo Couto dos Santos prevê-se totalmente incapaz de gerir um equipamento como a Casa da Música. Salvam-se os dedos.


Electroacústica: um último esclarecimento 


Lamento profundamente que um post que apenas pretendia ser um texto bem humorado e uma pequena caricatura de situações que frequentemente ocorrem no campo da electroacústica e de outros géneros musicais minoritários junto do público fosse tão mal interpretado e levado demasiado a sério. Não era nenhum ataque pessoal, não tinha segundas intenções e muito menos uma crítica. Fiz aliás questão de deixar claro que não ia fazer crítica ao Música Viva por não me sentir à altura de tal tarefa. Para não gerar mal entendidos (já sei que o nosso pequeno meio musical tem a mania da perseguição) disse também não ter nada contra a electroacústica e reconheci o seu importante papel na criação musical actual e futura. Os leitores estão no seu direito de não achar graça ao meu texto (provavelmente o meu sentido de humor não é tão bom como eu gostaria ou então é demasiado subtil para ser entendido por pessoas pouco perspicazes ou que vêem más intenções em tudo). Também estão no direito de achar o texto inútil, mas intriga-me como é possível confundir um post despretencioso e brincalhão de carácter pessoal (se sou conservador e preconceituoso é problema meu) com os posts de crítica "a sério" que se escrevem neste blogue. Acho que a diferença entre os dois tipos de abordagem é bem clara para qualquer leitor atento. Não tenho culpa que as pessoas levem à letra o que pretende ser ironia e caricatura.
Os blogues são meios abertos a múltiplas formas de expressão. Nem todos os posts que se publicam no Crítico são crítica no sentido estrito do termo. Há lugar para outros registos a não ser que o meu amigo Henrique (a quem agradeço ter-me defendido) decida o contrário no futuro. Ao Carlos Araújo Alves do Ideias Soltas aconselho a leitura de alguns bons livros de humor musical. Num próximo post (estou fora de Lisboa e não tenho comigo as referências bibliográficas exactas) indicarei algumas sugestões concretas, incluindo sobre o melindroso tema da música contemporânea.

Vasco Garrido

17.9.04

Quizz musical - O currículo do maestro 

Recordo com saudades as vaias do Alla Scala. Recordo em particular uma vaia tão grande que foi tema de abertura dos telejornais italianos e fez com que a Luisa Miller de Verdi estivesse arredada do Alla Scala por muitos e bons anos. Não foi há muito tempo, os "artistas" envolvidos, o maestro em particular, têm imensa cobertura por aqui.
Dou um prémio a quem contar a história toda. Não sei porque motivo me lembrei hoje desta velha história, talvez porque um amigo me tenha recordado que esse maestro tem um grande currículo. Claro que tem, recebeu uma das maiores vaias da história da ópera e até abriu o telejornal da RAI 1! Se isso não é currículo o que será currículo?

Henrique Silveira

Algures num celeiro alentejano 

Meados de Setembro, lá estava esta preciosidade de 1955, escondida e bem preservada, já lá não está...



Festival de Orgão de Lisboa 

O VII Festival Internacional de Orgão de Lisboa começa hoje com Vozes Caelestes, João Vaz e António Duarte. Os dois directores musicais estarão no orgão da Sé de Lisboa.
Vou tentar escutar.

Alguns dos mais belos orgão do mundo por intérpretes de nível elevado, alguns concertos são mesmoa não perder.

Amanhã a Capela Real com Rui Paiva no orgão e Pedro Lopes no oboé na igreja de S. Roque. A direcção é de Stephen Bull que também estará no violino. Se a Capela Real encarar este concerto com seriedade, respeito pelo público e pelos compositores pode ser que seja um concerto razoável. Pede-se, pelo menos, um trabalho cuidado de afinação e de coordenação das arcadas nos violinos. Pede-se, pelo menos, homogeneidade na concepção artística das obras e algum estudo. Não custa muito, apenas trabalho, e ainda têm dois dias para poder preparar um concerto com alguma dignidade.


Alves Monteiro sai da Casa da Música depois de ganhar o triplo do que a lei estipula 

Era esperado, agora é oficial, pedido de demissão a 6 de Setembro saída a 16, na véspera da estreia da ópera e quando ainda faltam eternidades para o final das obras... O mais atribulado processo de um equipamento cultural português continua. Precisamente no Porto onde se gabam muito de, nebulosoas, capacidades de trabalho e de espírito empreendedor mas onde afinal se faz muito pouco.
O folhetim continua, o dinheiro continua a ser gasto, até quando?

Segundo o relatório do Tribunal de Contas, e o Jornal de Notícias em Julho, cito:

O presidente do Conselho de Administração da Casa da Música ganha 10 200 euros por mês, quase o triplo do que a lei estipula. Dos três presidentes da Porto 2001/Casa da Música remunerados, Alves Monteiro é o que aufere um vencimento mais elevado, mas todos receberam ordenados acima do legalmente estipulado, segundo o Tribunal de Contas.

Há quem diga que Alves Monteiro apenas esteve um breve período de 14 meses na instituição, ele afirma que fez tudo o que queria! Claro, ganhou o tripo do que devia e saiu três vezes mais depressa para ir para outra empresa das muitas a que se dedica. É um artista nacional dos muitos que abundam por aí. Alves Monteiro ganhava mais do que o director do Teatro Nacional de S. Carlos, o lugar de maior prestígio e responsabilidade nas artes tuteladas pelo Estado. Alves Monteiro ganhava isso para dirigir um estaleiro de obras, uma vez que a programação esteve a cargo de outros. Foi um bom ordenado para coordenar um estaleiro...


16.9.04

Ainda o electroacústico 

Não percebo as alergias do nosso pequeno meio. Parece que tudo tem de ser um ataque pessoal, uma picardia, uma picadela no outro. As pessoas não são livres de dizer o que pensam de forma descontraída que a censura das elites pensantes e dos livres pensadores, tudo menos livres, afinal cheios de complexos e de falsas intelectualidades, se insurge indignada.
Surge isto a propósito de um post sobre a música electrocústica que o meu amigo Vasco Garrido aqui colocou e que suscitou o seguinte post do blog "Ideias Soltas". Não acompanhei o Festival, estive retirado a descansar no Alentejo. Estou-me nas tintas para a música electroacústica, não sou obrigado a compreender ou mesmo a gostar. Um dia quando tiver mais tempo talvez gaste algum desse tempo com o investimento nesse género.
A crítica a este tipo de música para mim é difícil senão mesmo impossível, isto admitindo que estamos em presença de música, pelo menos numa perspectiva convencional. Critica-se no "Ideias Soltas" este blogue e eu próprio em particular, sem fundamentação alguma, por não fazer "crítica isenta", quando aqui nunca se fez outra coisa: crítica isenta e livre, deliberadamente livre e franca. Essa observação é incompreensível, vinda de alguém que estimo muito e que conheço e não pode deixar de ficar registado e marcada.
Critica o "Ideias Soltas" Vasco Garrido por este escrever 60 linhas sem conteúdo, mas a crítica de Ideias Soltas é feita sem fundamentação, sem exemplos, sem desmontar o texto do Vasco. Não é assim que se critica um texto. Se não gostou do que leu, caro Carlos Araújo Alves, diga porquê. Provavelmente porque Vasco Garrido tem razão e o amigo não gostou...
É que é esse o trunfo deste blog: a isenção. Não pertencer a lobbies, não estar dependente do "meio musical" para o sustento e ganha pão. O ser independente de amiguismos e de intrigas. O ser totalmente indiferente à opinião e à vaidade dos medíocres e afins. Ou não tivesse este blog mais de cem mil leitores até hoje, sempre da mesma forma, embora tenha começado como uma brincadeira não sonhando as repercussões que viria a ter, sempre sem vassalagens e sem servir interesse ocultos. Sempre na procura do belo e da qualidade, sem fantasmas.

Penso que o mesmo se passa com o Vasco Garrido, de quem já discordei e algumas vezes e concordei noutras e que sabe muito mais de música electroacústica do que o Carlos Alves ou muitos dos que passaram pelo Festival Música Viva. Em liberdade de consciência e sem pensar que qualquer texto que seja deva ser entendido como um acto de perseguição ou tenha interesses por detrás. Sobre este texto do Vasco que li depois do meu regresso de férias acho-o bem divertido, brincalhão, a piscar o olho ao leitor e a chamar a atenção para um género de música que de outra forma passaria despercebido.

Fica o Carlos convidado para um almoço para falarmos de crítica isenta e do Festival de Gaitas do Fundão, que pelo vistos é tão do seu agrado... e até do meu. Acho que vou lá dar um pulo no Domingo.

Henrique Silveira

P.S. Colocado a 17 de Setembro: parabéns ao Ideias Soltas pelo ano de actividade. Interessante mesmo que certas observações sejam irreflectidas. Continuo a lê-lo e espero o tal almoço onde também se pode comemorar o aniversário, isto depois de explicar a Carlos Araújo Alves o sentido da palavra isenção.

Um primo e um péssimo presidente 

Hoje Manuel de Arriaga Brum da Silveira, primo do meu bisavô, também republicano e maçon, vai para o Panteão. Felizmente não vou estar na fantochada, nem para ouvir o coro do S. Carlos. Foi um péssimo governante e inspirou a ditadura de Pimenta de Castro, o caos, a anarquia. Não se sabe bem porquê lembraram-se da múmia do advogado de qualidade e político incompetente, o primeiro presidente eleito, num governo que se saldou por fome, centenas de mortos e milhares de feridos em revoluções e nenhum progresso para o país. Não terminou o mandato, o primeiro de muitos. Hoje em dia tem um digno sucessor em Jorge Sampaio. Percebe-se porque razão vai para o Panteão. Foi tão incompetente como os políticos de hoje e nasceu nos Açores.

Henrique Silveira


Perto de Bregenz 

É óptimo acordar às sete da manhã e ver isto da janela:


15.9.04

Não percebo 

Como Bettino Craxi, socialista italiano, pode ser considerado um proscrito na Itália e um herói na Tunísia. Deve ser das diferenças culturais.


Fotos crítico


14.9.04

Próximos posts 

Fica prometida a crónica da Itália e Áustria, com críticas à Ópera "Giulio Cesare in Egitto" de Antonio Sartorio, ao concerto de Peter Schreier nas Shubertiade e a um recital de uma soprano chinesa, Chu Tai-Li, no Castelo Stenico a 28 de Agosto.
Fica ainda por terminar a discussão sobre "uma voz por parte" que continuarei neste mês de Setembro com mais dois posts.
Vejo com bom grado que Vasco Garrido assegurou alguns textos neste Blogue. Li com prazer o texto sobre a música electroacústica, festival a que não assisti por ter mais do que fazer, como comprar vinho no Alentejo e passear no meu carro com cinquenta anos.
Espero com veemência o Festival de Mafra e o início da temporada Gulbenkian. Recomendo ambos e escreverei sobre os mesmos detalhadamente neste espaço, quando a ocasião chegar.
O Festival de Mafra nasce da vontade da directora do Convento de Mafra, Margarida Montenegro e do director artístico Miguel Lobo Antunes, numa equipa que consegue milagres de programação, provavelmente com custos muito baixos. A programação deve imenso ao amor à música e às artes e espera-se que assim continue por muitos anos, com o mesmo empenho e o mesmo nível.
Sobre a Gulbenkian já bati na (quase) ausência de música antiga do programa, é tempo de olhar para o lado positivo. A Gulbenkian é uma espécie de super ministério da cultura, e o programa reune nomes impressionantes do panorama musical mundial. Os bilhetes estão à venda e é tempo de esgotar as salas da Fundação, não apenas com os nomes sonantes, mas também com agrupamentos de qualidade transcendente e que, sendo menos mediáticos, acabam por não ter as salas cheias como mereceriam.

P.S. O texto acima não quer dizer que ache a música electroacústica desinteressante, má, de menor qualidade. Nada disso, apenas que não sei muito sobre o assunto e que prefiro fazer outra coisa a estar a ouvir algo que não me estimula. Confesso que talvez devesse fazer um esforço, uma tentativa de compreensão do universo. Mas porque razão?

Garcia Pereira na Casa do Alentejo 

Regresso aos meus leitores, após regresso de mais umas pequenas mini-férias no Alentejo, onde me recolhi a Vila Viçosa durante as Tradicionais festas dos Capuchos. Com passagem pelo Redondo, Borba, Estremoz e Reguengos (terras necessárias ao reestabelecimento de qualquer adega desfalcada). Vila Viçosa, terra com nove conventos e vinte e uma Igrejas, vizinha dos Montes Claros juntamente com Estremoz e Borba. Os campos de Montes Claros onde demos uma valente tareia nos espanhóis durante as guerras da Restauração. Nem a propósito estava na minha caixa de correio o seguinte anúncio:

O Grupo dos Amigos de Olivença realiza no corrente ano o Ciclo de Conferências «PORTUGAL, OLIVENÇA E A DINÂMICA PENINSULAR».

No âmbito do Ciclo, no próximo dia 22 de Setembro de 2004, às 18:30 horas, na Casa do Alentejo (Lisboa), o Doutor A. Garcia Pereira, Advogado, Professor Universitário e Político, proferirá a palestra «As relações entre Portugal e Espanha e o quadro de integração europeia - integração, cooperação ou submissão?».

O Ciclo de Conferências - espaço aberto a opiniões representativas dos diversos sectores culturais e políticos da vida nacional - pretende propiciar e promover o debate sobre as relações Portugal-Espanha, suscitando também uma aproximação à «Questão de Olivença».

Rua Portas S. Antão, 58 (Casa do Alentejo), 1150-268 Lisboa - Olivença na Net

Ou email:
olivenca@olivenca.org

Tlm. 96 743 17 69 - Fax. 21 259 05 77


Espero aparecer por lá para ouvir Garcia Pereira. Gosto imenso de cromos e o Garcia Pereira é um dos cromos mais coloridos, divertidos e interessantes, deste Portugal a preto e branco.

Henrique Silveira


13.9.04

Alguns poemas de Tolentino 


Os versos

Os versos assemelham-se a um corpo
quando cai
ao tentar de escuridão a escuridão
a sua sorte

nenhum poder ordena
em papel de prata essa dança inquieta

Da verdade do amor

Da verdade do amor se meditam
relatos de viagens confissões
e sempre excede a vida
esse segredo que tanto desdém
guarda de ser dito

pouco importa em quantas derrotas
te lançou
as dores os naufrágios escondidos
com eles aprendeste a navegação
dos oceanos gelados

não se deve explicar demasiado cedo
atrás das coisas
o seu brilho cresce
sem rumor

O Dia de Ontem

Não gostava de comparações
tudo lhe parecia outra coisa
a realidade do mundo
as neblinas pelos atalhos
essas palavras que nos gelam

No fundo só a repetição lhe fazia pavor
ao resto dedicava
uma piedade insolúvel
fossem hesitações, malogros
coisas que tanto se temem

mas se perdia a coragem
era um náufrago no limite das forças
com a cara presa na água
boiava horas e horas
até o irem buscar

José Tolentino Mendonça


11.9.04

A electroacústica e a crítica 


Sou um amante de música antiga (a caminho de uma depressão profunda porque os concertos da próxima temporada se contam pelos dedos — Huum… Acho que vou enviar a conta do psicólogo à Gulbenkian ou à PT que acabou com os concertos Em Órbita!), mas sou também um espírito aberto e curioso. Por isso tenho ido espreitar alguns dos concertos desse peculiar microcosmos que é o Festival Música Viva, autêntico círculo de “musica reservata” instalado em pleno Teatro Aberto. Mas não vou fazer aqui crítica. Além de não me apetecer é uma área que não domino e para a qual tenho insuficientes pontos de comparação. Não adianjta dizer que a obra X era uma seca interminável ou que a obra Y tinha uns sons fantásticos resultantes da distorção da onda Z, muito menos que a interpretação da Orquestra de Altifalantes foi mais inspirada no concerto das 18h30 do que no das 22h. Ainda se fosse electroacústica barroca ou maneirista! Aí talvez escrevesse qualquer coisita. Felizmente os compositores desse tempo não podiam dispôr de modernices tecnológicas para disfarçar a falta de talento (e isto não é nenhuma ofensa para os actuais, em todas as épocas há bons e maus compositores, quem não deve não teme…). Não me interpretem mal. O Música Viva é um festival muito meritório, não tenho nada contra a electroacústica (bem pelo contrário) e compreendo que é uma área revolucionário e fascinante (talvez mais para quem compõe do que para quem ouve…) e que à semelhança do que acontece em todos os períodos se produzem centenas de obras medíocres ou medianas e só algumas escassas dezenas que têm realmente valor artístico e ficam para a posteridade.
A imprensa oficial, além de antecipações, também não costuma dar grande cobertura crítica a estas coisas. O Público publica hoje entrevista e crítica a Trevor Wishart (pois, o costume… joga-se pelo seguro, é mais fácil e menos arriscado falar de um compositor plenamente afirmado com grande carreira internacional… estou para ver se vai sair algum comentário crítico às obras em estreia ou ao trabalho daqueles compositores de nomes obscuros que não se sabe muito bem quem são…). E quem poderia em Portugal fazer crítica de música electroacústica com verdadeiro conhecimento de causa? Mesmo no plano académico internacional a análise deste tipo de manifestação sonora tem ainda um longuíssimo caminho a percorrer. É um campo com meio século de história mas ainda demasiado experimental, onde vale tudo e onde é muito fácil ludibriar o ouvinte, os colegas mais ingénuos, os musicólogos e os críticos com artifícios técnicos e teorias estéticas.
Como para qualquer outra área, é preciso alguém que domine a matéria “por dentro e por fora”, o que num campo tão específico e complexo provavelmente só acontece com os próprios compositores. Ora, como é sabido os compositores costumam ser perigosos como críticos porque raramente conseguem ser imparciais. Pior a emenda que o soneto! Musicólogos? Quantos são especialistas em música contemporânea (já nem digo electroacústica) e quantos se vêem nos concertos? Instrumentistas? Só aparecem quando têm que tocar. No caso da música electrónica como a maior parte das obras prescindem dos instrumentos acústicos as hipóteses reduzem-se ainda mais… O A. M. Seabra? Não, muito obrigada. Já estamos fartos de textos pedantes tão intragáveis como algumas composições electroacústicas.
E quem se interessará em Portugal por ler críticas de música electroacústica? Compositores estrangeiros com carreira feita que visitam festivais como o Música Viva devem estar-se nas tintas. Quando muito têm uma pontita de curiosidade: “vamos lá ver que banalidades dizem estes provincianos sobre as minhas obras…” Se forem compositores portugueses o caso muda de figura. Dão imensa importância a qualquer frasezita despretenciosa que apareça na imprensa, mesmo que até nem confiem nos críticos. Quanto ao número de leitores é relativamente fácil de calcular: o compositor, a mãe do compositor, o namorado(a) (mulher ou marido, se for o caso), os organizadores do concerto ou festival, meia dúzia de colegas compositores (dos quais pelo menos metade têm a ambição secreta de que a crítica diga mal…), dois ou três alunos se o compositor for professor, dois ou três amigos também ligados à música, um ou dois colegas ou amigos do crítico com mais propensão para a música contemporânea que por acaso compraram o jornal naquele dia, com sorte alguns curiosos (que raramente ultrapassam a meia dúzia). Total = entre as 15 e as 25 pessoas. E o Wishart ainda diz que "os computadores estão a redemocratizar a nova música"...
Posto isto acho que vou pôr um CD e ouvir um pouco de Bach. Não! Para provar que não sou assim tão conservador como estão para aí a pensar vou antes ouvir uns motetes da “Ars Subtilior” escritos por uns tipos dos finais do século XIV que eram quase tão esotéricos como os electroacústicos de hoje.

Vasco Garrido

9.9.04

Explosão demográfica 

Eminente professor de Stanford vai pronunciar uma palestra sobre explosão demográfica no auditório da FLAD nesta quinta feira por volta das 17:30.
O Prof. Paul Ehrlich é um ecólogo mundialmente reconhecido que nos anos 60 alertou o mundo para o problema da explosão demográfica. Ele recebeu o equivalente do prémio Nobel para a biologia (the Crafoord Prize of the Royal Swedish Academy of Sciences).


"Nada é mais difícil de exprimir do que as obras de arte — seres vivos e secretos cuja vida imortal acompanha a nossa vida efémera."

"Aos simples fiéis a Arte exige tanto como aos criadores"

R. M. Rilke

5.9.04

Arco do Vinho 

Sabe-se como sou exigente com a alimentação, o vinho e os charutos. Nos primeiros dois capítulos estou servido com o Arco do Vinho ali mesmo no CCB. Cultura musical no CCB espera-se no futuro com Pinho Vargas como novo consultor musical e Miguel Vaz na Administração, os próximos meses são uma prova de fogo para se aquilatar da nova gestão. Cultura gastronómica essa já existe e muito bem representada por uma das melhores casas do país na área.


Clicar

Duas perguntas a Attilio 


Depois de ouvir a ópera de Antonio Sartorio, Giulio Cesare in Egitto no Festival de Música Antiga de Innsbruck, falei com Attilio Cremonesi o maestro que também fez o contínuo num dos dois cravos usados pelo agrupamento Cetra de Basileia. Conversámos algum tempo, não resisto aqui a contar as respostas que Attilio deu a duas das minhas questões.
A primeira teve a ver com a total ausência de cadências feitas pelos cantores, o que numa ópera de 1676 é algo estranho. E repare-se que Cremonesi inventou muito nas partes do contínuo e na instrumentação usada chegando a colocar no número 50 da ópera uma parte concertata a dois cravos! Por outro lado a ornamentação das árias da capo ou com ritornellos (refrões) sucessivos foi muito parca. Parece-me uma carência musicológica e mesmo musical que se afasta da lógica da ária da capo. Por outro lado deparei-me com muita exuberância na escrita instrumental (toda reconstruída pelo maestro) e muita secura vocal. A resposta foi dúbia, "não se sabe bem qual a ornamentação usada na época", "ainda estamos numa fase muito prematura para se poder pensar numa interpretação com cadências escritas por mim ou improvisadas pelos intérpretes", finalmente um definitivo: "nós fazemos música historicamente informada, não fazemos história da música"...

Depois, já em conversa mais informal, falámos da história de uma voz por parte em Bach, a resposta não poderia ser mais vaga: "eh, bem, enfim, há realmente teorias, o Parrot, hum, hum, o americano*, bem não sei bem, depende da obra enfim..."

* - O americano é o Rifkin

Cremonesi é um bom maestro, seguro, toca bem o cravo, é musical, a Cetra tocou afinadíssima com raríssimas excepções. Cremonesi foi muito exacto e a interpretação teve uma energia e um vigor extraordinários, mas faltou um pouco mais de erudição e autenticidade histórica na abordagem de uma ópera de 1676. Um gigante em crescimento, um místico, "a shooting star" como pretendem fazer crer alguns círculos, ou um jovem talentosos e dinâmico? Fico-me pela segunda parte. É claro que farei uma crítica detalhada à ópera de Sartorio quando tiver um pouco mais de tempo.

O Regresso 

Em Lisboa, depois destes dias de Alpes, Áustria e Itália. Depois de alguma música.
Escrevo tocado com algo que vi ontem. Saí cedo da cidade onde fiquei, perto da fronteira entre a Itália e a Áustria para apanhar o meu voo em Bologna. Pensei passar por Pádua (Padova), perto de Veneza, porque tinha todo o dia para apanhar o avião da Portugália às 18h45m e apenas 250 quilómetros para percorrer. O caminho pela autoestrada de Brenner é terrível, milhares e milhares de loucos italianos a acelerar quer em carros mínimos quer em bólides potentíssimos, "tedescos" de idade mais ou menos avançada (os mais idosos tiram férias em Setembro porque já não têm as crianças e o clima na Itália é melhor) nos seus carros "tedescos" a velocidades baixíssimas na faixa da esquerda tudo mesclado com camiões às centenas. Assim vou pela SS47 directo a Pádua ver o Santo António de Lisboa que morreu nessa cidade, evito também a A1 de Milão para Roma a mais infernal auto-estrada da Europa ocidental. A estrada para Pádua tem muito pouco movimento e dá-me a certeza de chegar a tempo sem uma "coda" de 150 km, como presenciei uma vez na autoestrada de Brenner. Depois um pouco de recolhimento, de meditação, de paz, só me fariam bem e Bologna já fica perto. Os dias terríveis da Ossétia, o fogo na biblioteca de Weimar tinham-me deixado algo abalado e triste.
Tomo o meu capuccino com croissants numa esplanada de Trento manhã bem cedo, segue-se um breve almoço, muito antecipado, em casa de amigos e arranco para Padova pelo meio dia.
Chegada a Pádua pelas 13h45m depois de cento e vinte quilómetros de uma calma e boa estrada quase sempre em via rápida e sem carros nenhuns. Estaciono junto do centro perto do Jardim botânico e a cinco minutos a pé do Santo.
A surpresa chega com a Basílica, gerida por franciscanos, tudo é gratuito, museu, vida do santo, relíquias... Relíquias? Sim, o Santo António foi esquartejado, o túmulo situado no templo deve conter apenas ar ou um pedaço de uma tíbia para não dizer que foi tudo saqueado, o Queixo do Santo, Dedos do Santo, Língua do Santo, Aparelho Fonético do Santo, tudo embalado em recipientes de vidro, com muito ouro à volta e exibido festivamente pelos franciscanos. Noutras igrejas outros pedaços do nosso Fernando são alegremente mostrados para gáudio do povo e da sua crendice, com o beneplácito da Igreja Católica. Depois milhares de ex-votos são exibidos junto do túmulo, existem uns papelotes na entrada do Templo onde se escrevem pedidos para o Santo que depois são introduzidos debaixo do túmulo por uma fenda própria... Um casino diria eu, o sentido italiano do termo: uma confusão; mas ao mesmo tempo a palavra com o seu sentido em português. Nenhum recolhimento, barulho, crendice superstição, tudo sob o olhar benevolente dos franciscanos, pelos quais nutro aliás uma grande simpatia. Mas tudo feito sem decoro, o ouro, a riqueza, a superstição. O máximo é atingido quando vejo um monge idoso de barba branca a dar a sua benção cronometrada com a mão bem assente na cabeça de cada crente ajoelhado depois de estar numa bicha de duas horas.
Saí e dei um salto à basílica de S. Giustina, um dos mais belos e luminosos edifícios da Itália do Norte e cuja origem tem 1600 anos existindo ainda uma capela da altura da fundação, sendo a reconstrução do século XII. Um enorme edifício silencioso. Falei com um velho beneditino com mais de oitenta anos, sequíssimo de carnes e de olhos azuis tremendamente penetrantes, hábito preto. O fratelo perguntou-me de onde eu era. Eu respondi que vinha de Lisboa ao que ele me disse: É verdade! Tu já tens o Santo, é o vosso Santo, mas aqui podes estar à vontade, esta é a tua casa...


4.9.04

Recordando Anna Amalia 



Duquesa de Sachen-Weimar-Eisenach, Anna Amalia (1739-1807) era filha do Duque Karl I de Brunswick e sobrinha de Frederico o Grande. Casou aos 16 anos com o Duque Ernst August Konstantin de Sachen-Weimar. Este faleceu dois anos depois e Anna Amalia encarregou-se da regência até 1775, ano em que esta foi ocupada pelo seu filho mais velho. Amante das artes e das letras, que promoveu com incansável entusiasmo, a duquesa era também intérprete (de instrumentos de tecla) e compositora — não confundir com a sua tia Anna Amalia (1723-1787), Princesa da Prússia, irmã de Frederico O Grande, também ela instrumentista, compositora, mecenas e detentora de uma biblioteca musical valiosíssima com numerosos manuscritos autógrafos de J. S. Bach e obras de compositores como C. P. E. Bach, Graun, Handel, Telemann, Stölzel, Hassler ou Palestrina.
Aluna de Ernst Wilhelm Wolf, a mais destacada figura musical de Weimar nesse tempo (e mais tarde seu Kappelmeister), reunia assiduamente na corte intelectuais, poetas e músicos, amadores e profissionais, transformando-a num activo centro de discussão e prática musical. A biblioteca existia já desde 1691, mas foi sob a direccção de Anna Amalia que a partir de 1766 passou a ocupar o impressionante salão rococó, que se convertiria na sua imagem de marca.

Entre os membros desta "corte das musas", como lhe chamou Wilhelm Bode, encontravam-se Wieland, Herder e Goethe, em Weimer desde 1775. Uma das grandes paixões do escritor, Charlotte von Stein, casada e mãe de sete filhos, era dama de companhia de Anna Amalia e filha do mestre de cerimónias da corte, possuindo também aptidões musicais (na área do canto) e literárias. Em 1776 escreveu "Rimo", uma peça humorística sobre Goethe e as mulheres da corte, e em 1792 "Dido", tragédia em prosa com várias alusões à sua ruptura com Goethe.
Anna Amalia teve um papel importante na reunião da poesia do "Classicismo de Weimar" com a música da época ao promover a estreia em 1770 do mais famoso "singspiel" de J. A. Hiller, "Die Jagd", e da "Alceste", de Anton Schweitzer com libreto de Wieland (1773). Os nomes destes compositores não nos dizem hoje muito, mas foram duas importantes figuras no desenvolvimento inicial da ópera alemã. Anna Amalia continuou a promover a tradição do "singspiel" com interpretações das suas próprias composições sobre textos de Goethe, entre os quais o "singspiel" "Erwin und Elmire". Escreveu também canções, sonatas para tecla e música de câmara, algumas esteticamente próximas da Empfindsamkeit. As enciclopédias falam de competência técnica e de espontaneidade da invenção, mas nunca tivemos oportunidade de ouvir nenhuma das raras gravações das suas obras.
Em 1788, dois anos depois de Goethe ter partido para Itália, Anna Amalia segue os seus passos. Durante os dois anos da viagem, as suas cartas dão-nos vivos retratos de Veneza, Roma, Nápoles. Em Roma o escritor coloca-a em contacto com outra importante mulher na sua vida: a pintora Angelica Kauffmann, que tinha em comum com a duquesa uma imensa paixão pela música — dotada de uma bela voz, hesitou entre as duas artes durante anos. Kauffmann seria uma preciosa ajuda para a Duquesa na localização de livros, partituras, antiguidades, gravuras e pinturas que esta adquiriu para as suas já valiosas colecções em Weimar.
A partir de 1797, o próprio Goethe, que mantinha o cargo de director dos teatros da corte, se encarregou do desenvolvimento e gestão da Biblioteca tendo aumentado o seu fundo em centenas de obras, algumas delas irremediavelmente perdidas no incêndio de quinta-feira à noite.

Vasco Garrido


3.9.04

O luto continua 


Pelas vítimas da Ossétia do Norte. A dor, a revolta, o silêncio. Requiem aeternam dona eis, Domine.

Pelo incêndio na Biblioteca da Duquesa Anna Amalia (a célebre promotora da "corte das musas") em Weimar. Lutero, Goethe (incluindo a maior colecção do "Fausto"), Schiller… preciosas obras únicas dos séculos XVI a XVIII e também muitos manuscritos musicais reduzidos a cinzas ou ensopados pela água.

2.9.04


"Man has places in his heart which do not yet exist, and into them enters suffering in order that they may have existence"


Léon Bloy

Música em Setembro 


Depois da estivação a vida musical começa pouco a pouco a despertar, mas com propostas muito específicas. Música electroacústica (mas não só…) a partir de segunda-feira, dia 6, no Teatro Aberto, no festival Música Viva; o VII Festival Internacional de Órgão de Lisboa a partir do dia 17. No Porto, a 16, a Casa da Música promove a estreia mundial de uma co-produção internacional: a ópera Philomela, encomendada ao compositor James Dillon pelo festival Théâtre & Musique de Paris.

GUME 


A noite que governa a minha vida
deixa-me ver o tempo inexistente:
porvir devir lembrança expectativa
desfazem-se no vácuo do presente

Figura do futuro absorvida
como vaga pela praia permanente
aurora ou outra imagem suicida
por que te sinto em mim se o tempo mente?

Vivo no gume abstracto em que perdidos
os fantasmas embatem, nas areias
da madrugada errantes procurando
a fronteira que os mata

Gastão Cruz
In As Leis do Caos

Arquivos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?