
28.9.07
Prommers em Londres
Este ano já acabaram, mais uma vez lá fui, assisti a um Crepúsculo dos Deuses com Runnicles a dirigir.
O que mais me inspira neste Festival, um dos mais antigos em permanência na Europa, organizado pela BBC e assente no gigantesco Royal Albert Hall, é o público, creio que é aqui que se encontra o verdadeiro inglês, Londres já não é uma cidade inglesa mas os proms são um dos redutos do inglês que conhecemos dos livros, o inglês consevador que no Inverno veste tweed. Não o inglês primitivo que vai de férias para o Algarve, ou o inglês bêbedo que destrói pubs. É um tipo bem divertido de observar.
Nos intervalos encontramos os bares subterrâneos cheios de amigos que vão aos proms e que foram aos proms desde sempre e que sabem do assunto, gostam de música e bebem mais um pint de cerveja e discutem os cantores e a direcção, discutem a partitura e o texto, uma espécie de sociedade exclusiva, uma espécie de elite, um grupo de fanáticos religiosos não lhes fica atrás, são uma espécie de donos do festival, eles sentem-se assim.
Ao meu lado ficou um escritor, encontrei-o por acaso na fila dos prommers, e ofereci-lhe o bilhete que tinha a mais, por acaso para os melhores lugares (sentados) da sala, hesitou em aceitar, disse-me que gostava muito de ficar na arena onde sentia inspiração para escrever durante as quase cinco horas do Crepúsculo, no ano passado durante a Valquíria tinha escrito um caderno inteiro, e mostrou-me os cadernos que usava, para ele o que perdia de oportunidade da concentração artística na escrita, e de pertencer a uma casta especial de sofredores, ganhava no conforto de um bom assento e boa visibilidade. Foi olhado com grande desconfiança pelos outros prommers da bicha como se tratasse de um traidor, de uma espécie de vendido que saía da verdadeira elite para se render aos confortos burgueses dos outros, aqueles que se sentam para escutar cinco horas de Wagner!
No intervalo de uma hora, após o primeiro acto, sentei-me a comer e beber uma refeição ligeira, uma salada e uma cerveja, como não poderia deixar de ser. Isto apesar do conselho de um wagneriano de Bayreuth que se tornou também meu amigo, alemão de gema e grande bebedor de cerveja:
"Antes ou durante Wagner nunca se deve beber cerveja!
Os actos são demasiado longos e as bexigas demasiado pequenas! Evitar os líquidos é um dos principais argumentos para uma apreciação da obra wagneriana! É também um dos principais problemas em Bayreuth, com todos estes senhores de idade avançada, as bolsas permitem-lhes vir aqui, mas as próstatas não lhes dão descanso, seria melhor o inverso...
Depois, ao jantar que se segue a Wagner, a cerveja é bem vinda e até o próprio Wagner a bebia sem complexos."
Devo dizer que o conselho é sábio, a celebração wagneriana tem destas coisas e os neófitos são rapidamente instruídos pelos mais velhos, ou por experiências próprias dolorosas. Qualquer teatro wagneriano tem de ter magníficas instalações, e Bayreuth não descura esse aspecto... Quando soa a fanfarra, que anuncia os quinze minutos para o início de qualquer acto, dá-se a corrida aos subterrâneos de Bayreuth e, no caso deste Verão, aos subterrâneos do Royal Albert Hall...
Estava eu sentado calmamente a ler o programa (bem feito) e a beber a minha cerveja anti-regulamentar, quando um prommer me perguntou se podia sentar na minha mesa e, depois de um natural assentimento quase tácito, se sentou ao meu lado sem complexos. Meia idade, bengala e coxeando imenso. Perguntou-me se estava a gostar, dei-lhe algumas opiniões e ele começou a falar de gravações, eu tenho umas doze gravações do Ring, creio que ele deve ter uma trinta (nem sei se há tantas, creio que não, mas parecia pelas citações), o homem, consultor do governo local de Londres, tinha estado em todo o lado, Bayreuth à cabeça, tinha ouvido todos os grandes wagnerianos dos últimos quarenta anos e sabia tudo o que havia para saber, felizmente brilhei ao citar-lhe o livro de Brian Magee que ele ainda não tinha lido, mas que conhecia e que iria comprar. Depois de uns vinte minutos de conversa perguntou-me de onde eu era, eu disse-lhe que era português e ele começa a falar em português, dizendo que estava um pouco enferrujado uma vez que não falava há mais de vinte anos. Era um prommer, um prommer astuto para variar: por causa da bengala estava sentado na fonte e não em pé, como a maioria dos outros prommers, muitos dos quais preferem ficar de pé na arena pela atmosfera, dizem eles que é única, de pertencer a um grupo que se tortura de forma persistente para assistir a todos os concertos do festival, alguns dos quais francamente maus. Prommers que, na sua maioria, têm dinheiro e idade para assistir aos concertos bem sentados mas que insistem em se massacrar em condições impróprias para fruir da música. Diga-se, de passagem, que os prommers são altamente estilizados nos seus rituais, são clientes habituais do festival e o silêncio é realmente sagrado durante a música.
À saída do Royal Albert Hall, eram umas dez e meia da noite, eu tinha de estar em Paddington para apanhar o comboio para Oxford perto da meia noite, creio que era o último. Um trajecto de dez minutos de táxi e muito perto. Infelizmente a fila dos táxis era colossal e de táxis nem um à vista, passavam todos cheios, felizmente o espírito prático inglês veio ao de cima, um médico de Reading, de meia idade, e um dramaturgo que tinha trabalhado para a BBC, agora reformado, e que se dedica à escrita sobre fonética em Shakespeare, organizaram um táxi para a estação de Paddington e eu alinhei na coisa, como não tínhamos todos trocos eu e o dramaturgo pagámos o táxi e o médico pagou um chá na estação de Paddington.
Também eles sabiam muito de música mas não eram tão assertivos como o consultor da bengala. Punham hipóteses, lançavam argumentos, discutiam as raízes do teatro em Wagner, comentavam o concerto. vinham de longe de propósito para o Wagner, não são prommers regulares, nem sequer são prommers, sabem escolher e não vão a todas, escutam sentados, são verdadeiros amantes de música.
O concerto, esse, não foi grande coisa...
P.S. Segue um texto do Norman Lebrecht, escrito em 2003, sobre os Prommers e que descobri depois de escrever este texto. É realmente cortante e vai muito mais longe do que a minha sensação sobre o assunto. Mas Lebrecht está em Londres. A ler todos os artigos de um verdadeiro crítico.
Prommers ruin the Proms
By Norman Lebrecht / August 6, 2003
Arriving 80 minutes early at the Royal Albert Hall, I applied an orthnithologist's eye to the preparatory rituals of the Prommers, those hardy perennials who stand up throughout the summer concert season (as distinct from weaker breeds who slump in upholstered tip-ups).
Prommers are a motley lot in drab plumage. They do not appear to belong to the young, ethnic-minority and underprivileged classes that the BBC wants to attract. Nor are they musical virgins, eager to be initiated in the joys of western civilisation by the benevolent patronage of a public-funded cultural organisation.
On the contrary, judging by their overheard chatter, Prommers are perma-fixed in their musical prejudices and hissingly intolerant of newcomers who commit the dreadful faux pas of clapping between the movements of a symphony or concerto. Intent on their hobby, they are the kind of creature you might see on a Sunday morning at a steam railway depot, or perhaps in the administrative office of a remote Salvation Army station.
Their rituals are unchanging. Hours before each concert they mill around the dust-choked construction area behind the RAH. At the first spots of rain they migrate beneath the hall's awnings. When the rear doors are unlocked by a red-coated flunkey - the RAH is the last public utility in levelled-down Blairland to retain smartly outfitted ushers - they parade with remarkable decorum to fixed, though unmarked places in the belly of the hall.
An invisible hierarchy prevails. By some means, whether by queuing longest or attending most nights in the week, certain internally recognised leaders of the flock take up uncontested positions at the brass front rail of the arena, within spit-shot of the orchestra. A second group, less exalted, occupies the bank of seats around the central fountain. The rest of the Prommers stand unsupported by a wall or furniture for upwards of an hour at a time, a form of torture that is banned by the United Nations Human Rights Convention. The summer heat, intensified by the crush of several hundred pungent bodies, can be intolerable -even in the hall's new air-conditioning system.
So why do they do it? Not for lack of money, nor (I believe) primarily for love of music. Prommers purchase a £160 season ticket which gives them admission to the arena for 73 concerts over eight weeks. That sounds a better deal than it really is. In between the limelight performances are many concerts which are made of BBC polyfilla and played without much brio. Attending the lot is an unmusical act. Serious music lovers browse the Proms brochure and select the best, saving money and avoiding many nights of mediocrity.
But Prommers are not motivated by economy or excellence. Their instinct is tribal and seasonal, immune to reason. It is a form of masochism that is endemic to summer music festivals. Rich Americans pay fortunes each summer to sit on hard benches at Bayreuth for five hours at a stretch and have their intelligence insulted by Wolfgang Wagner's latest nihilist-chic producer.
At Bregenz, in Austria, patrons are warned to bring insect repellent and not to yawn too widely for fear of ingesting a cloud of mosquitoes. At Savonlinna, in Finland, you can sit in an open courtyard in pouring rain while an orchestra plays in sodden clothes and singers sneeze between arias. At Aix-en-Provence, the heat is Vesuvian. In the Arena di Verona, the top rows require seat-belts for the vertiginous. Some of the cavernous fringe venues at Edinburgh would not be passed fit for food storage.
The festival spirit demands human sacrifice. If the music is good, worshippers feel rewarded. If not, they still return the following year. The sacrifice is not unique to classical music. At rock festivals, fans congratulate one another on 'surviving' the mud and slime. Early on Sunday morning, I saw thousands flocking to Lords three hours before the start of play, knowing that they would be lobster-broiled on sizzling bleachers while watching a cricket match that England were bound to lose. Where, you wonder, is the dividend?
The origin of these summer traditions is a primal herd instinct, the urge to join with others in a festive act. When asked in a 2001 BBC survey why they chose to stand, most Prommers (38%) replied 'because of who I was with.' Others cited the 'atmosphere'. These are herd reactions, innocent as chewing cud. But mass ritual can turn sinister when combined with feats of endurance that engender a sense of superiority - of being part of an elite that embraces pain. The Prommers have more in common than they might acknowledge with the Shi'ites of Iran who whip themselves with chains until the blood flows. In political terms, a sense of superiority bred by common or caste suffering is the foundation of fascism. The classic text on this phenomenon is Elias Canetti's Crowds and Power.
Now I am not suggesting that boring old Prommers manifest any form of totalitarian tendency. They are, to all appearances, uninspiringly decent, law-abiding individuals whose only excess is to bawl silly chants into the BBC's ever-live microphones. Conductors welcome their English eccentricity as an antidote to the overcaution that is killing their art. On the Last Night of the Proms they cheerlead a carnival atmosphere.
Nevertheless, notwithstanding their transparent commitment, the Prommers are becoming detrimental to the populuist purpose of the Proms. The unpublished 2001 BBC survey reveals a more upbeat demographic than the one I observed -60% of Prommers were supposedly under the age of 35, 42% were women, 40% lived outside London. But the survey does not distinguish between the hard core of season-ticket Prommers and the casual rush of one-offs, who are admitted 15 minutes before each concert if space permits.
It is the phalanx 525 every-nighters who constitute the problem. They form an elite at the heart of the Proms, an aging praetorian guard whose dominance of the arena actively deters the young and curious. They brandish resentment at the seated majority and squatters' rights at the BBC, asserting a spurious ownership of 'their' Proms.
It is about time the BBC got a grip and culled these cuckoos in its nest. All it needs to do is to restrict the sale of half its season tickets to the under-30s, a reform that would instantly rejuvenate the standing mob and abolish some of its sillier customs. The Prommers are becoming a tiresome nuisance, an impediment to the admirably populist mission of this largest and most engaging of music festivals. They have had a good run. Let them give way to humbler, younger and needier seekers of music on a summer's night.
O que mais me inspira neste Festival, um dos mais antigos em permanência na Europa, organizado pela BBC e assente no gigantesco Royal Albert Hall, é o público, creio que é aqui que se encontra o verdadeiro inglês, Londres já não é uma cidade inglesa mas os proms são um dos redutos do inglês que conhecemos dos livros, o inglês consevador que no Inverno veste tweed. Não o inglês primitivo que vai de férias para o Algarve, ou o inglês bêbedo que destrói pubs. É um tipo bem divertido de observar.
Nos intervalos encontramos os bares subterrâneos cheios de amigos que vão aos proms e que foram aos proms desde sempre e que sabem do assunto, gostam de música e bebem mais um pint de cerveja e discutem os cantores e a direcção, discutem a partitura e o texto, uma espécie de sociedade exclusiva, uma espécie de elite, um grupo de fanáticos religiosos não lhes fica atrás, são uma espécie de donos do festival, eles sentem-se assim.
Ao meu lado ficou um escritor, encontrei-o por acaso na fila dos prommers, e ofereci-lhe o bilhete que tinha a mais, por acaso para os melhores lugares (sentados) da sala, hesitou em aceitar, disse-me que gostava muito de ficar na arena onde sentia inspiração para escrever durante as quase cinco horas do Crepúsculo, no ano passado durante a Valquíria tinha escrito um caderno inteiro, e mostrou-me os cadernos que usava, para ele o que perdia de oportunidade da concentração artística na escrita, e de pertencer a uma casta especial de sofredores, ganhava no conforto de um bom assento e boa visibilidade. Foi olhado com grande desconfiança pelos outros prommers da bicha como se tratasse de um traidor, de uma espécie de vendido que saía da verdadeira elite para se render aos confortos burgueses dos outros, aqueles que se sentam para escutar cinco horas de Wagner!
No intervalo de uma hora, após o primeiro acto, sentei-me a comer e beber uma refeição ligeira, uma salada e uma cerveja, como não poderia deixar de ser. Isto apesar do conselho de um wagneriano de Bayreuth que se tornou também meu amigo, alemão de gema e grande bebedor de cerveja:
"Antes ou durante Wagner nunca se deve beber cerveja!
Os actos são demasiado longos e as bexigas demasiado pequenas! Evitar os líquidos é um dos principais argumentos para uma apreciação da obra wagneriana! É também um dos principais problemas em Bayreuth, com todos estes senhores de idade avançada, as bolsas permitem-lhes vir aqui, mas as próstatas não lhes dão descanso, seria melhor o inverso...
Depois, ao jantar que se segue a Wagner, a cerveja é bem vinda e até o próprio Wagner a bebia sem complexos."
Devo dizer que o conselho é sábio, a celebração wagneriana tem destas coisas e os neófitos são rapidamente instruídos pelos mais velhos, ou por experiências próprias dolorosas. Qualquer teatro wagneriano tem de ter magníficas instalações, e Bayreuth não descura esse aspecto... Quando soa a fanfarra, que anuncia os quinze minutos para o início de qualquer acto, dá-se a corrida aos subterrâneos de Bayreuth e, no caso deste Verão, aos subterrâneos do Royal Albert Hall...
Estava eu sentado calmamente a ler o programa (bem feito) e a beber a minha cerveja anti-regulamentar, quando um prommer me perguntou se podia sentar na minha mesa e, depois de um natural assentimento quase tácito, se sentou ao meu lado sem complexos. Meia idade, bengala e coxeando imenso. Perguntou-me se estava a gostar, dei-lhe algumas opiniões e ele começou a falar de gravações, eu tenho umas doze gravações do Ring, creio que ele deve ter uma trinta (nem sei se há tantas, creio que não, mas parecia pelas citações), o homem, consultor do governo local de Londres, tinha estado em todo o lado, Bayreuth à cabeça, tinha ouvido todos os grandes wagnerianos dos últimos quarenta anos e sabia tudo o que havia para saber, felizmente brilhei ao citar-lhe o livro de Brian Magee que ele ainda não tinha lido, mas que conhecia e que iria comprar. Depois de uns vinte minutos de conversa perguntou-me de onde eu era, eu disse-lhe que era português e ele começa a falar em português, dizendo que estava um pouco enferrujado uma vez que não falava há mais de vinte anos. Era um prommer, um prommer astuto para variar: por causa da bengala estava sentado na fonte e não em pé, como a maioria dos outros prommers, muitos dos quais preferem ficar de pé na arena pela atmosfera, dizem eles que é única, de pertencer a um grupo que se tortura de forma persistente para assistir a todos os concertos do festival, alguns dos quais francamente maus. Prommers que, na sua maioria, têm dinheiro e idade para assistir aos concertos bem sentados mas que insistem em se massacrar em condições impróprias para fruir da música. Diga-se, de passagem, que os prommers são altamente estilizados nos seus rituais, são clientes habituais do festival e o silêncio é realmente sagrado durante a música.
À saída do Royal Albert Hall, eram umas dez e meia da noite, eu tinha de estar em Paddington para apanhar o comboio para Oxford perto da meia noite, creio que era o último. Um trajecto de dez minutos de táxi e muito perto. Infelizmente a fila dos táxis era colossal e de táxis nem um à vista, passavam todos cheios, felizmente o espírito prático inglês veio ao de cima, um médico de Reading, de meia idade, e um dramaturgo que tinha trabalhado para a BBC, agora reformado, e que se dedica à escrita sobre fonética em Shakespeare, organizaram um táxi para a estação de Paddington e eu alinhei na coisa, como não tínhamos todos trocos eu e o dramaturgo pagámos o táxi e o médico pagou um chá na estação de Paddington.
Também eles sabiam muito de música mas não eram tão assertivos como o consultor da bengala. Punham hipóteses, lançavam argumentos, discutiam as raízes do teatro em Wagner, comentavam o concerto. vinham de longe de propósito para o Wagner, não são prommers regulares, nem sequer são prommers, sabem escolher e não vão a todas, escutam sentados, são verdadeiros amantes de música.
O concerto, esse, não foi grande coisa...
P.S. Segue um texto do Norman Lebrecht, escrito em 2003, sobre os Prommers e que descobri depois de escrever este texto. É realmente cortante e vai muito mais longe do que a minha sensação sobre o assunto. Mas Lebrecht está em Londres. A ler todos os artigos de um verdadeiro crítico.
Prommers ruin the Proms
By Norman Lebrecht / August 6, 2003
Arriving 80 minutes early at the Royal Albert Hall, I applied an orthnithologist's eye to the preparatory rituals of the Prommers, those hardy perennials who stand up throughout the summer concert season (as distinct from weaker breeds who slump in upholstered tip-ups).
Prommers are a motley lot in drab plumage. They do not appear to belong to the young, ethnic-minority and underprivileged classes that the BBC wants to attract. Nor are they musical virgins, eager to be initiated in the joys of western civilisation by the benevolent patronage of a public-funded cultural organisation.
On the contrary, judging by their overheard chatter, Prommers are perma-fixed in their musical prejudices and hissingly intolerant of newcomers who commit the dreadful faux pas of clapping between the movements of a symphony or concerto. Intent on their hobby, they are the kind of creature you might see on a Sunday morning at a steam railway depot, or perhaps in the administrative office of a remote Salvation Army station.
Their rituals are unchanging. Hours before each concert they mill around the dust-choked construction area behind the RAH. At the first spots of rain they migrate beneath the hall's awnings. When the rear doors are unlocked by a red-coated flunkey - the RAH is the last public utility in levelled-down Blairland to retain smartly outfitted ushers - they parade with remarkable decorum to fixed, though unmarked places in the belly of the hall.
An invisible hierarchy prevails. By some means, whether by queuing longest or attending most nights in the week, certain internally recognised leaders of the flock take up uncontested positions at the brass front rail of the arena, within spit-shot of the orchestra. A second group, less exalted, occupies the bank of seats around the central fountain. The rest of the Prommers stand unsupported by a wall or furniture for upwards of an hour at a time, a form of torture that is banned by the United Nations Human Rights Convention. The summer heat, intensified by the crush of several hundred pungent bodies, can be intolerable -even in the hall's new air-conditioning system.
So why do they do it? Not for lack of money, nor (I believe) primarily for love of music. Prommers purchase a £160 season ticket which gives them admission to the arena for 73 concerts over eight weeks. That sounds a better deal than it really is. In between the limelight performances are many concerts which are made of BBC polyfilla and played without much brio. Attending the lot is an unmusical act. Serious music lovers browse the Proms brochure and select the best, saving money and avoiding many nights of mediocrity.
But Prommers are not motivated by economy or excellence. Their instinct is tribal and seasonal, immune to reason. It is a form of masochism that is endemic to summer music festivals. Rich Americans pay fortunes each summer to sit on hard benches at Bayreuth for five hours at a stretch and have their intelligence insulted by Wolfgang Wagner's latest nihilist-chic producer.
At Bregenz, in Austria, patrons are warned to bring insect repellent and not to yawn too widely for fear of ingesting a cloud of mosquitoes. At Savonlinna, in Finland, you can sit in an open courtyard in pouring rain while an orchestra plays in sodden clothes and singers sneeze between arias. At Aix-en-Provence, the heat is Vesuvian. In the Arena di Verona, the top rows require seat-belts for the vertiginous. Some of the cavernous fringe venues at Edinburgh would not be passed fit for food storage.
The festival spirit demands human sacrifice. If the music is good, worshippers feel rewarded. If not, they still return the following year. The sacrifice is not unique to classical music. At rock festivals, fans congratulate one another on 'surviving' the mud and slime. Early on Sunday morning, I saw thousands flocking to Lords three hours before the start of play, knowing that they would be lobster-broiled on sizzling bleachers while watching a cricket match that England were bound to lose. Where, you wonder, is the dividend?
The origin of these summer traditions is a primal herd instinct, the urge to join with others in a festive act. When asked in a 2001 BBC survey why they chose to stand, most Prommers (38%) replied 'because of who I was with.' Others cited the 'atmosphere'. These are herd reactions, innocent as chewing cud. But mass ritual can turn sinister when combined with feats of endurance that engender a sense of superiority - of being part of an elite that embraces pain. The Prommers have more in common than they might acknowledge with the Shi'ites of Iran who whip themselves with chains until the blood flows. In political terms, a sense of superiority bred by common or caste suffering is the foundation of fascism. The classic text on this phenomenon is Elias Canetti's Crowds and Power.
Now I am not suggesting that boring old Prommers manifest any form of totalitarian tendency. They are, to all appearances, uninspiringly decent, law-abiding individuals whose only excess is to bawl silly chants into the BBC's ever-live microphones. Conductors welcome their English eccentricity as an antidote to the overcaution that is killing their art. On the Last Night of the Proms they cheerlead a carnival atmosphere.
Nevertheless, notwithstanding their transparent commitment, the Prommers are becoming detrimental to the populuist purpose of the Proms. The unpublished 2001 BBC survey reveals a more upbeat demographic than the one I observed -60% of Prommers were supposedly under the age of 35, 42% were women, 40% lived outside London. But the survey does not distinguish between the hard core of season-ticket Prommers and the casual rush of one-offs, who are admitted 15 minutes before each concert if space permits.
It is the phalanx 525 every-nighters who constitute the problem. They form an elite at the heart of the Proms, an aging praetorian guard whose dominance of the arena actively deters the young and curious. They brandish resentment at the seated majority and squatters' rights at the BBC, asserting a spurious ownership of 'their' Proms.
It is about time the BBC got a grip and culled these cuckoos in its nest. All it needs to do is to restrict the sale of half its season tickets to the under-30s, a reform that would instantly rejuvenate the standing mob and abolish some of its sillier customs. The Prommers are becoming a tiresome nuisance, an impediment to the admirably populist mission of this largest and most engaging of music festivals. They have had a good run. Let them give way to humbler, younger and needier seekers of music on a summer's night.
Etiquetas: Lebrecht, prommers, Proms
26.9.07
Lixo Universal
Não falo da Igreja Universal do Reino de Deus, falo mesmo da Universal com Decca, DG e outras etiquetas.
Hoje leio mais um email do esforçado e profissional Paulo Ochoa e vejo mais quatro "highlights", os destaques para estes meses da programação da Universal.
Começamos com o desgraçado do Pavarotti, com os "homens de negócios" da Universal a cavalgar em cima do morto. Segue-se uma Bartoli a esganiçar-se aos berros numa Maria Malibran qualquer que ninguém sabe como cantava e que provavelmente nos faria arrepiar os cabelos ainda mais do que o novel vibrato (volta Natália de Andrade) da Cecilia e os produtos discográficos desta multinacional. Temos, logo a seguir, mais um quinto de Beethoven pela Hélène Grimaud, deve ser o centésimo milésimo, com a direcção de Vladimir Jurowski e a belíssima Staatskapelle de Dresden mas com a formação completa e um vibrato de arrepiar ainda mais os meus pobres cabelos, a interpretação volta a ser pomposa, falsamente heróica e pouco inovadora; com o erro técnico de ter demasiada potência nos graves do piano, provavelmente para dar uma sensação de densidade que resulta em empastalemento do som. Onde estão os técnicos do "som Decca"? Ou foram todos despedidos ou morreram ou estão reformados e as gravações parecem feitas por "free-lancers" contratados do pop-rock... O último disco destes "highlights" é um não menos batido concerto para violino de Mendelssohn por Daniel Hope que descobriu uma nova versão "Urtext", neste caso o tal Hope deve tocar sozinho a versão "urtext" onde se destaca nos tímbales, e gravada em multipista, porque não há qualquer referência, (nem no site da Universal, nem no email) a orquestra ou a maestro! Creio que esta é a centésima quinquagésima milésima ducentésima duodécima gravação do concerto mártir de Mendelssohn e a interpretação não podia deixar de ser incrivelmente arrebicada e de mau gosto, apesar dos tais tímbales. E fica a informação que se trata da Orquestra de Câmara da Europa e o maestro é Hengelbrook, o vibrato volta a ser arrepiante: lamechas, lamuriento e de mau gosto.
A multinacional passa ao lado de todas as propostas inovadoras que se têm feito no domínio na interpretação nos últimos quarenta anos e está francamente fossilizada no lixo "vibrante" que tenta recrear hoje Mendelssohn, Beethoven e o chamado "belcanto" à moda dos anos sessenta do século passado. Produtos passados e sem interesse, sem inovação interpretativa, sem chama nem vida, recriações requentadas do mesmo que tem sido feito nos últimos cem anos. Não há pachorra para tanta falta de qualidade, mesmo quando o embrulho duma Bartoli e a sua falsa chama de "artista muito séria pouco dada às solicitações do mercado" tenta dar alguma credibilidade a um conteúdo miserável.
Acresce a isto uma foto da Bartoli quando tinha menos 15 anos e menos 30 quilos e está tudo dito sobre os pesos "light" que resultam destes "highlights". Conclusão, recomendo que não se compre nada disto. Bola preta à Universal nesta "reentré", como lhe querem chamar.
O trabalho desta companhia é bem diferente de uma Carus, entre tantas outras, uma editora pequena que todos os meses aparce com novidades muitíssimo mais interessantes do que os produtos de marketing que são produzidos por uma companhia que não tem o menor respeito pelos intérpretes, pelo público e pela história das marcas que representa e dirigida por meros empresários, sem a menor noção do que é a qualidade musical. Lembrei-me da Carus a propósito da nova edição do Paulus de Mendelssohn, uma gravação extraordinária, de uma profundidade tremenda, de uma meditação interna e uma musicalidade e força que nos transportam a outro universo, que nada tem a ver com a Universal, um universo exaltante em que a obra recupera toda a sua energia através de uma leitura sem concessões de Frieder Bernius, esse sim um grande dirigente, servido por solistas de altíssimo nível com Kiehr, Güra e Volle, um coro notável (talvez o melhor dos intérpretes aqui reunidos) e a Deutsche Kammerphilharmonie de Bremen, a anos luz de distância do Mendelssohn manhoso da Universal do Daniel Hope e de um maestro qualquer escolhido para o acompanhar. Quando há discos destes para adquirir não faz sentido gastar um cêntimo nos produtos Universal, é o chamado dinheiro deitado para o balde do lixo, era preferível que esta multinacional saísse do mercado discográfico dito clássico, a sua política editorial é uma fraude e só serve para fomentar o mau gosto dos papalvos, cada vez menos felizmente que o público não é estúpido, que seguem os produtos Decca, DG e outros, pela sua história e prestígio.
Bem tem razão o Norman Lebrecht ao dizer que a indústria morreu. A ler o seu livro, também fortemente recomendado.
Hoje leio mais um email do esforçado e profissional Paulo Ochoa e vejo mais quatro "highlights", os destaques para estes meses da programação da Universal.
Começamos com o desgraçado do Pavarotti, com os "homens de negócios" da Universal a cavalgar em cima do morto. Segue-se uma Bartoli a esganiçar-se aos berros numa Maria Malibran qualquer que ninguém sabe como cantava e que provavelmente nos faria arrepiar os cabelos ainda mais do que o novel vibrato (volta Natália de Andrade) da Cecilia e os produtos discográficos desta multinacional. Temos, logo a seguir, mais um quinto de Beethoven pela Hélène Grimaud, deve ser o centésimo milésimo, com a direcção de Vladimir Jurowski e a belíssima Staatskapelle de Dresden mas com a formação completa e um vibrato de arrepiar ainda mais os meus pobres cabelos, a interpretação volta a ser pomposa, falsamente heróica e pouco inovadora; com o erro técnico de ter demasiada potência nos graves do piano, provavelmente para dar uma sensação de densidade que resulta em empastalemento do som. Onde estão os técnicos do "som Decca"? Ou foram todos despedidos ou morreram ou estão reformados e as gravações parecem feitas por "free-lancers" contratados do pop-rock... O último disco destes "highlights" é um não menos batido concerto para violino de Mendelssohn por Daniel Hope que descobriu uma nova versão "Urtext", neste caso o tal Hope deve tocar sozinho a versão "urtext" onde se destaca nos tímbales, e gravada em multipista, porque não há qualquer referência, (nem no site da Universal, nem no email) a orquestra ou a maestro! Creio que esta é a centésima quinquagésima milésima ducentésima duodécima gravação do concerto mártir de Mendelssohn e a interpretação não podia deixar de ser incrivelmente arrebicada e de mau gosto, apesar dos tais tímbales. E fica a informação que se trata da Orquestra de Câmara da Europa e o maestro é Hengelbrook, o vibrato volta a ser arrepiante: lamechas, lamuriento e de mau gosto.
A multinacional passa ao lado de todas as propostas inovadoras que se têm feito no domínio na interpretação nos últimos quarenta anos e está francamente fossilizada no lixo "vibrante" que tenta recrear hoje Mendelssohn, Beethoven e o chamado "belcanto" à moda dos anos sessenta do século passado. Produtos passados e sem interesse, sem inovação interpretativa, sem chama nem vida, recriações requentadas do mesmo que tem sido feito nos últimos cem anos. Não há pachorra para tanta falta de qualidade, mesmo quando o embrulho duma Bartoli e a sua falsa chama de "artista muito séria pouco dada às solicitações do mercado" tenta dar alguma credibilidade a um conteúdo miserável.
Acresce a isto uma foto da Bartoli quando tinha menos 15 anos e menos 30 quilos e está tudo dito sobre os pesos "light" que resultam destes "highlights". Conclusão, recomendo que não se compre nada disto. Bola preta à Universal nesta "reentré", como lhe querem chamar.
O trabalho desta companhia é bem diferente de uma Carus, entre tantas outras, uma editora pequena que todos os meses aparce com novidades muitíssimo mais interessantes do que os produtos de marketing que são produzidos por uma companhia que não tem o menor respeito pelos intérpretes, pelo público e pela história das marcas que representa e dirigida por meros empresários, sem a menor noção do que é a qualidade musical. Lembrei-me da Carus a propósito da nova edição do Paulus de Mendelssohn, uma gravação extraordinária, de uma profundidade tremenda, de uma meditação interna e uma musicalidade e força que nos transportam a outro universo, que nada tem a ver com a Universal, um universo exaltante em que a obra recupera toda a sua energia através de uma leitura sem concessões de Frieder Bernius, esse sim um grande dirigente, servido por solistas de altíssimo nível com Kiehr, Güra e Volle, um coro notável (talvez o melhor dos intérpretes aqui reunidos) e a Deutsche Kammerphilharmonie de Bremen, a anos luz de distância do Mendelssohn manhoso da Universal do Daniel Hope e de um maestro qualquer escolhido para o acompanhar. Quando há discos destes para adquirir não faz sentido gastar um cêntimo nos produtos Universal, é o chamado dinheiro deitado para o balde do lixo, era preferível que esta multinacional saísse do mercado discográfico dito clássico, a sua política editorial é uma fraude e só serve para fomentar o mau gosto dos papalvos, cada vez menos felizmente que o público não é estúpido, que seguem os produtos Decca, DG e outros, pela sua história e prestígio.
Bem tem razão o Norman Lebrecht ao dizer que a indústria morreu. A ler o seu livro, também fortemente recomendado.
Etiquetas: Bartoli, Daniel Hope, Hélène Grimaud, Lebrecht, Pavarotti, Universal
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