Requiem aeternam
(Um pouco de bem-aventurança
e de alerta circunscritivo
aos que, ainda, andam por cá)
I. “Humanidades”
Jesus foi filho de carpinteiro
E de doméstica, impoluta
Do Tempo tingido num tinteiro.
Depois, morreu na cruz do absurdo
Da humanidade dissoluta
A pretender-se corpo inteiro.
Ele nasceu pobre e ao surdo
Doou a palavra benfazeja,
Porventura tumular,
Com o poder de calar
Os doutores da Sua Igreja.
II. “Decálogo”
Jesus foi filho de carpinteiro
E de doméstica, impoluta
Do Tempo urdido num tinteiro.
Depois, morreu na cruz do absurdo
Da humanidade dissoluta
A pretender-se corpo inteiro.
Ele nasceu pobre e ao surdo
Doou a palavra benfazeja
E o sal do mar, a poder calar
Os doutores da Sua Igreja.
01/09/2008
Tomás de Oliveira Marques
III. “Ad hominem”
(Na senda de “Invidia”, de George Steiner)
Jesus morreu na cruz,
Giordano Bruno
Cecco D’Ascoli
E tantos, tantos outros,
Arderam na fogueira
Da sede de Ser
Fogo e não fagulha,
Muito menos poeira.
Do primeiro, fez-se luz
E sombras a desbravar
O brilho nos outros rasteiro.
Dos outros, a má sorte
Que lhes coube da vida
E ao primeiro não se deu
A seguir à sua morte.
Eis os factos a encimar
As colunas do quotidiano
Da Besta em nós
Escondida e conseguida
Nas mentes a maleita
Da eternidade
Tão baça e diminuída
Pelas lentes próprias
Da formiga
Em si resumida
Ao carreiro e à colheita.
Tudo isto a ser dito
No medo de se acabar
O nosso cego apego
Às histórias de encantar.
15/09/2008
Tomás de Oliveira Marques
IV.
“Quo Vadis”
Ao longo do abismo
Que fulge do chão
E não tem fim
O DESESPERO
Em carne viva
Da presa que corre
À frente das presas
DO PREDADOR
Em nós implacável
O cego encalço
Nos restos, nos ossos,
DA COMPAIXÃO
Em si esgotada
Nas escarpas do ego
A não valer nada
A REMISSÃO.
V.
“Epílogo”
(O poeta é um fingidor...)
Para onde vais?
De onde vens?
Do fundo dos tempos
À luz das estrelas
Hirto hás-de arfar
Deante do vácuo
De orelhas alçadas
E o rabo a abanar
Como os cães.
10/09/2008
Tomás de Oliveira Marques