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23.4.04

Houve Música na Gulbenkian - D. Giovanni notável 


Por culpa deste homem: Lawrence Foster.

Quem ainda não tiver compromissos para sábado às 20h deve correr à Gulbenkian para assistir a uma interpretação admirável (se for igual à de esta noite) de D. Giovanni de Mozart, K. 527.

Sábado, 24 Abr 2004, 20:00 - Grande Auditório

CORO GULBENKIAN
ORQUESTRA GULBENKIAN
LAWRENCE FOSTER (maestro)

KWANGCHUL YOUN (barítono) (Don Giovanni)
MLADA HUDOLEY (soprano) (Donna Anna)
BRUCE SLEDGE (tenor) (Don Ottavio)
REINHARD HAGEN (baixo) (Commendatore)
HEIDI BRUNNER (soprano) (Donna Elvira)
GILLES CACHEMAILLE (baixo) (Leporelo)
LUÍS RODRIGUES (barítono) (Masetto)
LUCY SCHAUFER (soprano) (Zerlina)
WILLIAM HOBBS (cravo)

Wolfgang Amadeus Mozart
Don Giovanni, K.527
(ópera em versão de concerto)

Uma interpretação de Mozart como Mozart merece: com humor, com teatro, com som, com envolvência. Uma regência entusiástica e eficaz, de uma competência total. Foster nem sempre é elegante no estrado, abusa de movimentos às vezes, mas cria uma empatia enorme com músicos e cantores, está em cima do acontecimento com a batuta, com as entradas, controla as dinâmicas sempre pronto a corrigir excessos e procura, acima de tudo, um equilíbrio total dentro da orquestra e entre orquestra e cantores.

Cantoras divinas: uma Dona Ana perfeita, séria sem ser demasiado histérica, uma voz de uma beleza ímpar, uma riqueza tal de harmónicos que é quase um prazer carnal ouvir um instrumento tão belo, encorpada, metálica q.b. uma emissão de um domínio total: um instrumento dominado nos ínfimos detalhes, capaz de variações tímbricas e com uma cor indizível.
Depois alia esta capacidade vocal à inteligência, à interpretação e à beleza. É perfeita e equilibrada em todos os registos. Rendido a Mlada Hudley. Esta cantora já é uma certeza mas se tudo lhe correr bem será um grandes nomes do início do século XXI.

A Dona Elvira, Heidi Brunner, foi também superlativa, um instrumento canoro menos perfeito mas igualmente belo. A perfeição é um dom natural, a capacidade de interpretar e de tirar partido da voz não: a sua menor gama de harmónicos acaba por se revelar um trunfo, pois consegue um despojamento maior do canto nas partes em que chora o seu sofrimento. Sem deixar de ter a voz encorpada mostra um terceiro harmónico menos intenso que Mlada. A intensidade da sua interpretação, sobretudo na última ária, foram de arrepiar, uns graves de grande qualidade saídos do peito de uma forma tão pesada e angustiada que electrizaram. Heidi tem menos potencial canoro que Mlada, menos cor, mas tem uma qualidade interpretativa tão elevada que no balanço geral ficaram em total pé de igualdade.

Kwangchul Youn em D. Giovanni foi correcto.

Bruce Sledge foi um desgraçadinho Don Ottavio com bom nível, impressionou a bela ária do segundo acto, sobretudo pela respiração e fôlego. Bem apoiado é, no entanto, muito preocupado em ser exacto com os tempos, canta tudo muito certinho à batuta, um pouco mais de rubato não ficaria mal, parece ainda pouco maduro em termos de libertação interpretativa e naturalidade, mas ainda é muito jovem tem caminho para evoluir e mostou boas qualidades, voz redonda, colocação e é desempenado nos agudos.

Reinhard Hagen, no comendador foi exemplar vocalmente, um gigante larguíssimo foi uma estátua convincente. Uma voz de baixo mas muito rica de harmónicos: um fundamental profundo ajudado por harmónicos que às vezes quase davam a impressão de estar a cantar na oitava acima.

Gilles Cachenaille, Leporelo, actor exímio, falei um pouco com este cantor no final da ópera, confirmou-me o que eu suspeitava, estava com uma forte alergia, e queixou-se do ar condicionado da Gulbenkian, muitas mucosidades no nariz e garganta afectaram-lhe a articulação de longas frases rápidas e com muita articulação, o que já tinha sido notório. Vocalmente esteve muitíssimo melhor na acção do que nas árias, a primeira, a do catálogo, mostrou que estava com algumas dificuldades. A voz é, no entanto muito bonita, arredondade, aveludada. Espero ver este actor cantor numa encenação, em forma é muito bom.

Lucy Schaufer foi uma Zerlina correcta, divertida, voz razoável mas muito mais magra vocalmente que as suas parceiras, aliás é assim que o papel pede. Podia ter sido mais histriónica musicalmente, como actriz mostrou que numa encenação da ópera deve ser muito convincente no papel.

Luís Rodrigues, Maseto. Bom actor como sempre, mesmo nesta versão semi-representada em concerto. A voz esteve certa, colocada, correcta, bem interpretado. Mas há um evidente problema com Luís Rodrigues, não sei se deve parar um pouco, se deve apostar mais em papéis mais arredondados e aveludados. A suavidade da voz nunca foi o seu maior trunfo, mas a voz de Rodrigues está forçada, diria que quase gutural, um pouco rouca. Creio que tem tido demasiados papéis secundários e semi-principais, tem agarrado todas as oportunidades do nosso mercado escasso, o que o leva a forçar a voz em muitos trabalhos desgastantes. Rodrigues já merecia um papel importante numa ópera de palco em Portugal ou no estrangeiro depois de ter mostrado tão bom trabalho no Teatro Aberto. Se me lê dou-lhe um conselho não pedido, deve tentar arredondar mais a voz, aveludar, trabalhar com menos stress e procurar a suavidade que ontem faltou um pouco.

A orquestra Gulbenkian esteve praticamente perfeita.

Foster mostrou um trabalho de alto nível no baile descompassado! Os duetos, tercetos, quartetos, quintetos, sextetos e septetos (!) dificílimos de trabalhar sairam quase todos impecáveis.

O coro esteve muito bem.

O cravista cumpriu bem.

O que ressalta é um trabalho de conjunto, a musicalidade, o sentido de humor e o génio de Mozart. Quem organizou tudo, quem nos mostrou o melhor Mozart, quem teve a visão de conjunto, quem leu de forma coerente, em sonoridade, em ritmo, em poesia, em amor pela música, em trabalho preparatório?

Foster: um titular a sério, parabéns pela música que nos dás Maestro.

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