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28.7.03

Parto 

"Parto, de amar esqueci as artes"

Leite de Faria


Eu parto também, uma pequena viagem de 12 dias agora, outra de 21, mais tarde. Não uma partida dos afectos, pelo contrário, um banho de mundo e de paixões. Curiosamente as duas pela Europa Central. Festivais por essa Europa, música, ópera, enfim: o trivial.
Este blogue deixará de ser alimentado, pelo menos com a frequência com que tem sido. De imagens e música haverá muito pouco ou nada.

Continuo a evitar os beijos das hárpias, ao qual se segue rapidamente o seu esgar tenebroso. Não desdenho o beijo de Atenas, procuro-o.


CM

27.7.03

Divisão entre esquerda e direita 


Quem divide o mundo entre esquerda e direita e não vê para além disso é como se tratasse de um crítico de pintura que só visse a duas cores, um melómano que só conseguisse ouvir dois compositores. Um compositor que só usasse duas notas, um poeta que só conhecesse dois sentimentos...

Assim vejo o Mexia e os outros de esquerda e direita e que enxameiam com os seus vícios redutores e maniqueístas esta blogosfera em que, felizmente, existem muitas pessoas sem complexos e livres, miúdos que se estão nas tintas, graúdos que conseguem ver o mundo sem antolhos nem obsessões...


Atenção a Shostakovitch 

No "outro, eu" afirma-se algo displicentemente que os 24 prelúdios e fugas de Shostakovitch têm "só oitenta anos"! Nada de mais errado, foram escritos entre 10 de Outubro de 1950 e 25 de Fevereiro do ano de 1951, precisamente porque o compositor ficou impressionadíssimo com a interpretação de Nikolaieva (nascida em 1924 e falecida em 1993) no concurso de Leipzig de 1950 e que toca precisamente a versão que CVM nos apresenta no seu blogue!
O que reforça, aliás, a ideia base do texto de Vaz Marques, há obras de um outro tempo que nos projectam para o futuro, para o intemporal, um lugar em que o tempo não faz sentido...
Um dia destes vou convidar CVM para uma entrevista numa rádio qualquer, sem anúncios pelo meio!

Cito:

Parece Bach, a princípio. Mas nem tudo é o que parece. É uma peça só com oitenta anos. Quase nossa contemporânea. Vinda de um tempo que nos parece já quase tão distante como o tempo do próprio Bach. O "prelúdio em lá maior" é o sétimo dos 24 Prelúdios e Fugas de Chostakovitch, aqui interpretado por Tatiana Nikolaeva (Melodyia, 1987). O que ainda foi ontem pode ter sido já há muito tempo. O que vem de um tempo longínquo pode soar-nos a amanhã.

Não é importante, mas a precisão e o rigor são muito importantes. Fica aqui o elogio à escolha de CVM, mas também um pequeno reparo

CM

Minotauro do Picasso 


Música que fica enquanto eu parto 


Selecções musicais antes de uma viagem, longa, pela Europa central:

Bellerofonti Castaldi (1585-1649), o arpejo e a cançoneta seguintes devem ser de 1620. Le Poème Harmonique, direcção de Vincent Dumestre.
Castaldi1


E agora de Stefano Landi, a cigarra, com poema de B. Saracelli, Landi trabalhou toda a vida na corte papal dos Barberini, a sua última obra conhecida data de 1638. Fez óperas, cantatas religiosas e estas lindíssimas cançonetas. L'arpeggiata, dirige Christina Pluhar.
Landi

E se eu dissesse que as músicas seguintes, madrigais, pertencem a uma fava do século XVII? 1628. O autor: um mistério chamado Fasolo! Por detrás desta fava um compositor do Papa? Um homem a quem estava vedada a música profana? Mas um erudito e um génio musical, assim o prova a sua música. Le Poème Harmonique, direcção de Vincent Dumestre.
Fasolo

Guillaume de Machaut (1300-1377) pelo Hiliard Ensemble, Ma fin est mon commencement, em que a música começa de uma forma e acaba exactamente com as mesmas notas mas ao contrário, na partitura lê-se em espelho!
Machaut

E Marin Marais? 1656-1728, escreve o III livro das peças de viola, onde se encontram esta gavotte, Paolo Pandolfo e Guido Balestracci em baixo de viola (gamba), Thomas Boysen e Dolores Costoyas em teorba, Mitzi Meyerson em cravo.
Marais

Perdoem-me a fraca qualidade, mas o Sapo limita a velocidade dos downloads a ficheiros com mais de 500k, uma vergonha!
E é tudo até daqui uns tempos...

CM

Os críticos do Público 

Deviam ter mais cuidado com o que dizem, cito o artigo (retirei link, já não funciona) de Lucinda Canelas, em que diz:

Quando Ana Sendas e Gustavo Oliveira se encontram ao som de uma tarantella em que alguém confessa que sente necessidade de morrer ("Homo fugit velut, umbra", tema interpretado pela formação L'Arpeggiata), e Rita Judas se deixa cair nos braços de Stephan Ehrlich, não há espaço para arrependimentos nem redenções.


Comete diversos erros que induzem o leitor em erro! Ninguém diz que tem necessidade de morrer na Passacaglia della Vita, em ritmo de tarantella: "Homo fugit velut umbra", mas sim: todos vamos morrer, traduzir à letra o "bisogna morire" do italiano do século 17 é uma asneira de todo o tamanho. Dizer por outro lado que esta música, e apenas esta, é interpretado pela Christina Pluhar é deixar entender que as outras não são! O que é mais um erro que induz o leitor em erro. Mais atenção, mais preparação é o que se pede ao jornalista, ao crítico, não a habitual ignorância alarve dos jornalistas que os tornam completamente desprezados pelas pessoas de cultura, pelos artistas e pelos leitores. Assim enganam o público que deveriam servir.

Ouvir
Passacaglia

Segue poema:


O, come t’inganni
Se pensi che gl’anni
Non debban finire
Bisogna morire.

È un sogno la vita
Che par si gradita
È breve il gioire
Bisogna morire.

Non val medicina
Non giova la china
Non si puo guarire
Bisogna morire.

Si more cantando
Si more sonando
La cetra o sampogna
Morire bisogna.

Si more danzando
Bevendo, mangiando,
Con quella carogna
Morire bisogna.

I giovan, i putti
E gl’homini tutti
S’han’a finire
Bisogna morire.

I sani, gl’infermi,
I bravi, l’inermi
Tutt’han’a finire.
Bisogna morire.

Se tu non vi pensi
Hai persi li sensi
Sei mort’, e puoi dire
Bisogna morire.

Anónimo, século XVII



A antítese entre o engano, a alegria e a morte, não pode ser traduzida pelo desejo da morte, mas pela sua necessidade final em termos de devir. O poema neste aspecto de contradição, o poder e o desejo, não se pode afirmar sequer barroco, é ainda uma afirmação do final da renascença num maneirismo muito humano, próprio de uma Itália deslumbrante de luz. Ando eu a estudar esta música e este poema há muito tempo e nunca consegui escrever nada porque ainda não me sinto preparado, estou em reflexão, amadurecimento de ideias...

Leituras superficiais de jornalistas imberbes é que não. Porra! Exigência e seriedade no trabalho e não umas bocas escritas em dez minutos, ou então que se calem e deixem de se armar em "coltos".

CM

26.7.03

A propósito da Paixão 

Um Velázquez

Ouvir música em cima, do lado direito, por baixo do Cristo de Velázquez.

Um Cristo de corpo apolíneo, de cabeça pendente e de face oculta, recorta-se no fundo escuro da morte e no limite da visão. O corpo e os membros, suavemente modelados, sem as sombras dramáticas de Caravaggio, recebem uma luz diáfana, proveniente do ângulo superior esquerdo, que se intensifica apenas no branco sensual do perizonium. A cabeça pendente coroada de espinhos, as gotas de sangue junto à face oculta, sinais de mistério e de uma morte dolorosa, compensam o sentido de pacificação, a visão não atormentada e dulcificada que resulta do corpo não suspenso e apenas adossado ao madeiro. Ao perto, a busca dos efeitos secretos, os movimentos largos e impacientes do pincel na modelação magistral de uma cabeça pendente.
Miguel de Unamuno escreveu, a propósito, o El Cristo de Velázquez, e a relação com o convento das beneditinas de San Plácido, em Madrid, deu origem à história do envolvimento de Filipe IV com uma religiosa. Diz a lenda que Filipe a teria mandado pintar como forma de expiação desse enamoramento sacrilégio. As inúmeras e sistemáticas cópias dão-lhe também o lugar de obra-prima. Uma delas, anónima e discreta, suspende-se numa parede das dependências da Igreja de S. Pedro de Miragaia.
CP

Um Buxtehude, o mesmo do texto: "Seiscentos Quilómetros a Pé e uma Filha Feia."
Vale a pena esperar que carregue, lentamente, a partir do mau serviço do sapo.

CM

25.7.03

A Folia em F. Couperin 


Recordo com saudade Werner Icking e o seu arquivo de música online. Projecto que perdura para além da sua morte.

CM


A verdade 


Encontro perdido na meio de uma partitura de Bach, a da paixão BWV 245, estreada na Sexta Feira Santa de 1723, um recitativo, o número 28, logo depois do coral "Ach, grosser König..." Ah Poderoso Rei... pouco depois da atormentada afirmação de Jesus: "Mein Reich ist nich von dieser Welt...", O Meu Reino não é deste Mundo. Um momento sublime do Evangelho de S. João, diz assim o texto, que traduzo do alemão, (porque não sei da Bíblia perdida algures a três metros do chão numa estante):

Disse Pilatos para Ele:
- És então um Rei?
Jesus repondeu:
Tu o dizes, Eu sou um Rei. Nasci e vim ao Mundo para dar testemunho da Verdade. Aquele que estiver com a Verdade, ouvirá a minha Voz.
Falou Pilatos para Ele:
- O que é a Verdade?
E ao dizer isto então saiu e dirigiu-se aos Judeus dizendo para eles:
Não encontro culpas Nele, temos um costume de libertar um preso pela altura da Páscoa, querem que liberte o Rei dos judeus? Então gritaram todos de novo dizendo:
-Não o libertes, liberta Barrabás!


Flagelação de Cristo de Caravaggio

Diz o evangelista nos seis compassos, em meu entender, mais atormentados de toda a Paixão :
Barrabás era um bandido!

Num grito agudo do tenor começado num terrível lá agudo sem preparação.

Então Pilatos tomou Jesus e mandou-O flagelar.
Num ritmo complexo e sincopado, de notas rápidas, com um ritmo bem marcado pelas síncopas do contínuo, orgão e cordas graves.
Em que a palavra "geisselte" surge numa angústia terrífica em sons descendentes muito rápidos em grupos de três notas, num melisma infindo do tenor, mas, ao mesmo tempo, tremendamente breve, marcante como o chicote da flagelação. Um misto de golpes do algoz e da angústia do sofrimento. Tudo é visível e audível nos acordes sofridíssimos do orgão, recuso a palavra dissonante, nada é dissonante em Bach. Uma raiva imensa de Bach traduzindo com dramatismo um Evangelho todo ele Paixão. Revelando a juventude em revolta do compositor, preparando caminho à reflexão introspectiva da Paixão Segundo S. Mateus de 1727.
A tempestade antes da calma.
Esta frase de Bach leva-nos a este ponto do pensamento da calma e da paz com a vida breve mas bela que este mundo nos dá. É a preparação para a verdade que todos temos dentro de nós, mas à qual nenhuma resposta é possível, como na pergunta de Pilatos.

Este momento é um dos pontos chave da nossa civilização. "O que é a verdade?"...
Ouvir
Por Nikolaus Harnoncourt (1993)

CM

24.7.03

Aprecio a ironia! 

Por isso gosto do título do blog Bomba Inteligente. Não há nada mais "inteligente" do que uma bomba, representa precisamente a estupidez americana que chama inteligente a uma bomba que serve para matar pessoas errando descaradamente os alvos. Mata descaradamente, de forma fútil, de forma estúpida, de forma deselegante, qualquer bomba inteligente é representativa de um ego ilimitado e auto suficiente, que não questiona, incapaz de reflexão para além do umbigo. Trágica no seu orgulho de uma total e afrontosa estupidez! Por isso gosto da ironia de quem chama "inteligente" ao seu blog. É um acto, talvez irreflectido, mas que acerta em cheio no conteúdo do que escreve.

Cito o texto que me origina este reparo e que foi dirigido a um blogador, de qualidade, que teve a ingenuidade de pedir uma opinião a quem não sabe dar:

Parece-me tonto que a partir da minha resposta, o autor deste blogue tenha escrito um post, transcrevendo o meu e-mail, criticando dessa forma a opinião que o próprio pediu (senão, para quê enviar o e-mail?). Como não suporto vidrinhos armados em chicos-espertos desde já dedico-lhe um sólido getalife!

Não percebo como se pode escrever a uma criatura como a detentora da prosa acima, erro de ingénuo? Eu escrevi em tempos, a pedir-lhe que escrevesse qualquer coisita mais inteligente, nem queria resposta, era um alerta! A resposta veio "inteligente" julgando que aqui o crítico queria ser citado pela dita cuja! Reflexo de quê, esta resposta? Creio que de uma vaidade exacerbada e estúpida, eu só queria mesmo era algo inteligente que achava ser capaz para além da superficialidade das citações ao seu ambiente!
Nós, no Crítico, queremos tudo, menos ser citados pela Bomba! Nós, do mundo, queremos algo de mais inteligente, e já agora: mais decente.

CM

23.7.03

António Rosado 


Um pianista a caminho de Andrómeda. Um concerto de Ravel em delírio de facilidade, ritmo, sentido melódico, sensibilidade. São assim os superdotados, parece tudo natural, fácil. Falo do Casino do Estoril, Festival do Estoril, 21h30m, 22 de Julho.
António Rosado comandou do piano uma orquestra sinfónica nacional a melhorar vivamente, com pouco ensaios, a tentar ficar para trás nos andamentos rápidos. Rosado não deixou, foi absoluto, totalitário, enérgico, um almirante ao piano!
O início do concerto parecia o desastre iminente, a entrada da orquestra foi desastrosa, o tour de force rítmico entre o piano e a orquestra saiu desacertadíssimo, o maestro bem dava aos braços, mas os músicos não mexiam muito... Rosado não se impressionou, assim que se apanhou a solo: arrastou a orquestra pelos colarinhos, tocou no seu ritmo vertiginosos e conseguiu empolgar os funcionários públicos, ou gatos pingados soi disant, e colocou aquela gente a trabalhar, a suar, e milagre: a música aconteceu. Tirando uns exageros dinâmicos - forte demais no andamento lento - contrariados pelo maestro Miller (muito razoável), umas entradas em falso acoli e a orquestra até cumpriu. Mérito da força interior de António Rosado, da sua energia vital, transbordante até ao âmago do conhecimento e domínio da técnica em Ravel. Pergunto: o que falta a Rosado para mandar esta choldra às urtigas e fazer uma carreira internacional à séria?

CM

21.7.03

Seiscentos Quilómetros a Pé e uma Filha Feia 

Jesus, Vida de minha Vida.
Bach andou seiscentos quilómetros a pé para o escutar, não ficou com o lugar do mestre porque teria de casar com a filha mais velha dele. Eu escuto-o também, sigo Johann Sebastian e ouço reverente a música apaixonada, o mundo mágico do dinamarquês Dietrich Buxtehude (1637-1707), organista em Lübeck.
Falo de uma simples cantata. Após um breve mas intenso prelúdio, uma "ária" sobre um baixo obstinado de oito compassos, a música varia, o baixo não, em obsessão repete-se 41 vezes. O poema de cinco estrofes é cantado de forma variada, seguem-se cinco ritornelli: cantam soprano, contralto, tenor e baixo, a solo e em grupo, os ritornelli são instrumentais.
O baixo obstinado, no violone, no orgão, no alaúde, segue imutável, oito compassos de cada vez, sempre igual, sempre imutável, a esperança, a fé na Redenção, a Fé imutável do crente luterano. Imutável. Imutável, repetido até à exaustão: imutável.
A cantata fecha com uma pequena fuga de 17 compassos sobre um amen, o baixo repete-se mais duas vezes ainda e tudo acaba num encontro final de fé e esperança, de agradecimento mil vezes repetido "tausend, tausendmal sei dir, liebster Jesu, Dank, Dank dafür". Agradecimento a Jesus pelas penas e pelas angústias que passou pela nossa Redenção. O baixo repete-se quase mil vezes, assim parece: o consolo a pé firme na certeza e a repetição dos mil obrigados a Jesus.
O poema é de 1659, o poeta é Ernst Christoph Homburg. A cantata parece ser de 1680 (na versão definitiva).


Dietrich Buxtehude ouve alaúde

Jesu, meines Lebens Leben, Bux WV 62

1. Jesu, meines Lebens Leben,
Jesu, meines Todes Tod,
der du dich vor mich gegeben
in die tiefste Seelennot,
in das äusserste Verderben,
nur dass ich nicht möchte sterben,
tausend, tausendmal sei dir,
liebster Jesu, Dank, Dank dafür.

2. Du, ach, du hast ausgestanden
Lästerreden, Spott und Hohn,
Speichel, Schläge, Strick und Banden,
du gerechter Gottessohn,
nur mich Armen zu erreten
von des Teufels Sündenketten;
tausend, tausendmal sei dir,
liebster Jesu, Dank, Dank dafür.

3. Du hast lassen Wunden schlagen,
dich Erbärmlich richten zu,
um zu eilen meine Plagen,
um zu zetzen mich in Ruh;
achm du hast zu meinen Segen
lassen dich mich fluch belegen;
tausend, tausendmal sei dir,
liebster Jesu, Dank, Dank dafür.

4. Man hat dich sehr hart verhöhnet,
dich mit grossen Schimpf belegt,
gar mit Dornen angekrönet,
was hat dich dazu bewegt
dass du möchtest mich ergötzen,
mir die Ehrenkron aufsetzen;
tausend, tausendmal sei dir,
liebster Jesu, Dank, Dank dafür.

5. Ich danke dir vor Herzen,
Jesu, vor gesamte Not,
vor die Wunden, vor die Schmerzen,
vor der herben bittern Tod,
vor dein Zittern, vor dein Zagen,
vor dein tausendfaches Plagen;
tausend, tausendmal sei dir,
liebster Jesu, Dank, Dank dafür.

Amen

CM

Prelude Classical Awards 2003 

Recordo aqui os prémios prelude klassiekemuziek. Está em holandês, mas o leitor não terá dificuldades em ler o texto, escrito de forma bastante simples, se souber um pouco de alemão melhor, mas toda a gente entende. O holandês falado é muito mais difícil que o escrito e até "pagina" se escreve à portuguesa, mas sem acento!

Bruno Cocset

Artista do ano 2003

Poème Harmonique de Vincent Dumestre

Agrupamento do ano 2003

Ver lista da Alpha

O prémio da etiqueta do ano foi para a Flora.

E eu tenho ainda de ouvir mais uns 70 CD's até sexta, isto dos prémios dá cabo de qualquer um.
CM

20.7.03

Afirma Mexia 

Pedro Mexia afirma:

É justo também referir considerações bem mais negativas sobre os meus poemas aparecidas no Crítico e no quarto do pulha...

Lamento dizer, mas nunca disse mal da poesia do Mexia.
Apenas disse:


- Não conheço a poesia de Mexia.
- A crítica do Expresso à mesma surpreendeu-me.
- Critiquei o Guerra e Pás (GeP) por afirmar que a mesma poesia era boa, mas sem este apresentar fundamentação crítica. Agradeci ao GeP um poema do Pedro Mexia, que colocou no blogue. Eu, aliás, reproduzi esse poema no meu blogue, certamente por não o considerar mau!
- Lamentei ainda não ter lido muitos clássicos, e que teria que ler mais uns Dantes e Petrarcas antes de chegar ao Mexia.


Se isso é tecer considerações bem mais negativas, creio que: ou o ego do Pedro Mexia é muito grande, ou está mal informado.

Estou-me nas tintas para o Pedro Mexia. Tenho cerca de 100 CD's para ouvir e comentar antes de sexta da próxima semana. Bach e outros são para mim mais importantes que o Pedro Mexia, não quer dizer que não o vá ler nas férias. Até tenho alguma curiosidade. Eu gosto muito de Elliot.
Creio que este post desfaz os equívocos de PM. Creio que não se deve preocupar com a minha opinião, pelo menos eu não me preocupo com a dele, mas o respeito e a verdade são fundamentais. Eu respeito Pedro Mexia e, sobretudo, respeito a verdade.

Aprecio ainda a honestidade de PM, quando diz que escreve no blogue por causa dos retornos. Não aprecio tanto o lado autocentrado do blogue de PM. Mas esse é um problema meu...

CM

19.7.03

Atenção Poveiros 

No Festival da Póvoa do Varzim, o concerto de hoje é absolutamente fundamental. O Café Zimermann é um grupo imprescindível. Barafustem, ataquem a porta da Basílica do Sagrado Coração de Jesus, tentem entrar pela porta do padre, ou do sacristão, digam que são amigos do cardeal, enfim: se não estiverem gravemente enfermos cometerão o pior pecado de que há memória ao faltar a este concerto. Se existir uma clareira que seja, na Igreja, lançarei anátemas sobre todos os habitantes do Norte de Portugal.
Hoje, Sábado dia 19 de Julho, encontro marcado com Bach.

Discos:



CM

Povo que lavas no rio - versão completa 


Versão em fado

Povo que lavas no rio
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão
Há-de haver quem te defenda
Quem compre o teu chão sagrado
Mas a tua vida não

Fui ter à mesa redonda
Beber em malga que esconda
Um beijo de mão em mão
Era o vinho que me deste
Água pura em fruto agreste
Mas a tua vida não

Aromas de urze e de lama
Dormi com eles na cama
Tive a mesma condição
Povo, povo eu te pertenço
Deste-me alturas de incenso
Mas a tua vida não

Pedro Homem de Mello


Versão completa

Povo que Lavas no Rio

Povo que lavas no rio
Que vais às feiras e à tenda
Que talhas com teu machado
As tábuas do meu caixão,
Há-de haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde majericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia...
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda,
Beber em malga que esconda
Um beijo, de mão em mão...
Água pura, fruto agreste,
Fora o vinho que me deste,
Mas a tua vida não!

Procissões de praia e monte,
Areais, píncaros, passos
Atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços...
Mas a tua vida, não!

Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama...
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las...
Mas a tua vida, não!

Subi às frias montanhas,
Pelas veredas estranhas
Onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio...
Vi certa curva em teu seios...
Mas a tua vida, não!

Só tu! Só tu és verdade!
Quando o remorso me invade
E me leva à confissão...
Povo! Povo! eu te pertenço.
Deste-me alturas de incenso.
Mas a tua vida, não!

Povo que lavas no rio,
Que vais às feiras e à tenda,
Que talhas com teu machado,
As tábuas do meu caixão,
Pode haver quem te defenda,
Quem turve o teu ar sadio,
Quem compre o teu chão sagrado,
Mas a tua vida, não!

Pedro da Cunha Pimentel Homem de Mello (1904 1984)

18.7.03

Não esquecer: 

Concerto hoje em Coimbra, 21h30, Teatro académico. Obras de Chagas Rosa e, sobretudo, Édipo, a Tragédia do Saber, de António Pinho Vargas!
Dave Holland no CCB.

CM



Horowitz, eu não me esqueço 

Sonata em si bemol D. 960, Improvisos D. 899, D 935, Rondo D. 951, Marchas militares D. 733, Momentos Musicais D 780.
O canto do cisne, a bela moleira, muitos outros lieder em que tocou ao piano com cantores sublimes.
Horowitz schubertiano, não pode ser esquecido. A sua relação tormentosa, neurótica, com a sonata em si bemol D. 960 é uma das relações mais apaixonantes da história da música. Tocando-a frequentemente em casa, raramente em concerto, tocava-a com uma paixão e uma intensidade que a crítica não revia em Schubert, considerado na época como compositor de segundo plano no piano, muito sensivel, mas pouco poderoso, ou intenso.
A gravação da DD não faz juz ao pianista, nem ao relato que se fez do recital em Nova Iorque ( talvez 1953?) em que Horowitz tocou esta sonata de forma diabólica. Mesmo assim, a gravação dos anos oitenta é notável. Falar de Schubert sem referir Horowitz é um exemplo de desleixo crítico. Fica aqui a referência ao mestre.

Maria João Pires, numa escala menor, também não pode ser esquecida.

CM

Goethe e a Matemática 

É muito engraçado que Goethe disserte sobre matemática, mas o que Goethe diz é apenas senso comum, a sua teoria da cor é o maior disparate científico que um poeta poderia ter produzido.
É do mesmo tipo de observação que se encontra em Aristóteles.
Porque não lembrar a opinião de Boaventura Sousa Santos? Também do senso comum, mas mais "moderna".
Isto a propósito do nível a que chegou a pesquisa da Liberdade de expressão que consegue arranjar uma citação divertida, mas pouco interessante, ao livro de von Neumann, e daí? O nível de análise do senso comum.
Há a retirar uma pedagogia, e daí este meu post. A pedagogia é simples, as discussões sobre temas da ciência têm de ser sérias. As argumentações fundamentadas. Se assim não for, não vale a pena debater nada. Citar um poeta GENIAL mas péssimo cientista, numa frase desgarrada com 200 anos, não adianta nada a uma discussão séria. É uma falsa validação, se citasse Figo sobre a descida dos juros valeria mais: Figo vive hoje. Vale tanto como a opinão de um taxista que disserta sobre o futebol e a sociedade e se recusa ao pagamento especial por conta! É a esse nível que situo o LdE: uma espécie de taxista, que tenta fundamentar opiniões com falsa ciência e se recusa a pagar os impostos que deve à sociedade. Impostos decretados pela sociedade, e não apenas por alguns, como falsamente afirma, uma vez que resultam de um governo democraticamente eleito.
Não se podem deixar que afirmações falaciosas e erradas sejam propaladas como verdades, com a repetição começam a parecer verdades aos ouvidos do senso comum.

CM

Cor em Veneza. 




Giovanni Bellini, c.1430-1516
The Madona of the meadow
c. 1505
National Gallery, Londres

Na memória, a sensualidade doce dos rostos eternos de Piero, o seu gosto pela cor e pela luz. Sem passado, porque Bellini nos faz também esquecer delas, as representações ásperas e dolorosas do sagrado. Arte, ciência e poesia na observação e representação da natureza, na simbiose entre figuras e cenário, na relação certa entre o geral e o particular, o principal e o acessório, o tangível e o distante. Pintura, absolutamente, na cor, nos azuis e nos brancos mais tímbricos e refulgentes do que ouro sob a luz, na gama infinita de tonalidades com que constroi a forma, dilui os contornos e modela os volumes mais subtis. Pintura e poesia é a imagem toda. E fica sempre uma impressão forte de melancolia, indizível, que enternece.
Ticiano e Giorgione aprenderam com ele. Veneza ficou com mais cor.

CP

17.7.03

Este blogue tem andado em baixo, mas aparece alguém que nos arrebita! 

Desculpem-me, mas apetece-me falar de mim. É um intimismo que resulta do cansaço e da fragilidade que este gera.
De facto estou fechado em casa, rodeado de partituras, auscultadores nos ouvidos, ou colunas a debitar, livros sobre intérpretes e compositores, e 150 CD's para ouvir até sexta da próxima semana! No meio disto tudo artigos científicos, cachimbo meio aceso, meio apagado, barba e cabelos hirsutos, tudo alimentado a Reserva Especial Ferreirinha, queijo de Azeitão e broa. A frugalidade espartana de um minimalista defunto. Isso e as trufas com ovos mexidos é o que me tem aguentado, esqueço-me de uma perdiz de escabeche que mando vir (quando o trabalho aperta) do restaurante de um amigo e que o Freitas me traz no carro das compras. Esta noite nem fui à cama, mas consegui escrever um texto jeitoso sobre o Te Deum de Marc Antoine Charpentier, e as suas Leçons de Tenèbres, por diversos intérpretes. Marc Antoine Charpentier um compositor genial, um teórico de elevado nível. Descobri mais um compositor francês do final do Lully e contemporâneo de Marin Marais, falarei dele no futuro.
Depois andei pelo Andreia Marcon, excelente copo e garfo, organista italiano, e pela herança de Frescobaldi, Domenico Scarlatti e Alexandro Scarlatti ao orgão. Se existem três bons organistas, dois deles são: Andreia Marcon e Olivier Vernet. Mas regresso ao disco de Domenico Scarlatti, curioso, sonatas de Scarlatti, geralmente tocadas no cravo, magistralmente interpretadas no orgão do organeiro Callido, no Tempio Monumentale di S. Nicoló, Treviso. Um disco Divox antiqua.
Tenho ainda de acabar uns artigos e acetatos para conferências, meu Verão a andar para trás... Festivais por todo o lado, felizmente no final de Julho rumo à Europa Central.

Pacheco Pereira escreve hoje no Público. Reparo com uma certa angústia, que sou catalogado como blog "cultural", gosto do qualificativo, sobretudo das aspas. Claro que José Pacheco Pereira poderia ter escrito que O Crítico é um blogue " ", o que seria mais de acordo com o conteúdo dos textos. Pelo menos dos últimos, mas agradeço do fundo do coração e de consciência limpa ao eurodeputado. Não tenho vergonha nenhuma de agradecer a quem é sério e honrado, a quem não é fácil e vive de acordo com o que pensa. Sem tergiversões. Hoje não falo de defeitos de ninguém, nem dos meus...
São referências como as do dono do Abrupto que nos alegram. Consequência: mais visitas, comentários em casas de banho públicas, senhoras e cavalheiros a debitar sugestões para o email, o que agradeço, e peço perdão por não responder a todos, mas são às dezenas e o tempo escasseia. Mas cada vez menos liberdade de sermos auto-reflexivos...

CM

16.7.03

Compay Segundo 


PRESS RELEASE

Compay Segundo


It is with great sadness that we have learned of the passing of Compay Segundo, who died at his home in Havana, Cuba aged 95. Compay was a music legend who provided a vital link with Cuba’s musical history and was still making music full of passion, wit and energy in his nineties.

Although achieving international recognition through the Buena Vista Social ClubTM album released in 1997 and the subsequent Wim Wenders film of the same name, Compay Segundo had been writing and performing his own compositions since the age of 15. In addition to his abundant musical talent, Compay also invented his own instrument which he called an armónico. This instrument, which is a cross between a guitar and a Cuban tres, was used by Compay throughout his career.

Born Francisco Repilado in Santiago in 1907, he picked up the nickname whilst performing with Lorenzo Hierrezuelo as Los Compadres in the 1940s. Compay was slang for compadre (friend) while Segundo referred to his trademark bass harmony second voice. In 1956 he formed “Compay Segundo y sus Muchachos”and kept the group going, recruiting his son Salvador on double bass.

In 1997 a number of pioneering Cuban musicians were brought together for what would become the phenomenally successful Buena Vista Social ClubTM album. Compay was a key figure in the group and prominently featured in the historical live dates that followed. Wim Wenders’ film that accompanied the tour revealed Compay’s sense of humour, zest for life and the mischievous glint he had in his eyes. Album producer Ry Cooder said of him at the time, “The last of the best, the oracle, the source, the one who represents where it all flows from.”

Compay’s final album, the 2001 release Las Flores de la Vida (Flowers of Life) was met with critical acclaim, a fitting finale to the career of such a well loved and highly regarded performer.

World Circuit’s Nick Gold sums up the thoughts of many: “Our thoughts are with the family and friends of Francisco Repilado, Compay Segundo, amongst the very last of the great pioneers and craftsmen of 20th century popular Cuban music. A unique and charming man who overflowed with talent, artistry and a vital life force. It was an honour and a privilege to have known him.”



The following statements are from Ibrahim Ferrer and Omara Portuondo regarding the sad loss of their friend Compay Segundo:

“Para mí Compay ha sido un hombre de un talento único, un gran creador , una gran figura. Todavía le siento cerca con su instrumento , tocando para todos nosotros . Ahora inevitablemente su ausencia nos deja un enorme vacío , no solo a músicos sino a un país entero y a gran parte del mundo que lo pudo ver y escuchar

Él fue, es y será una persona muy querida y un valor fundamental para nuestra cultura Cubana y del mundo. Compay fue el primero, y siempre será para mi el mejor.”

Ibrahim Ferrer

“Compay was a man of unique talent, a huge creator and an outstanding figure. I can still feel him so close, playing his instrument for us all. Now, his absence inevitably leaves us with this feeling of emptiness, not just to us musicians, but to a whole country and to all those around the world who ever had the chance to watch and listen to him.

He was, is and will be a beloved human being and of essential value to Cuba’s and the world’s culture. Compay was number one, and will always be the best for me.”

Ibrahim Ferrer



"La pérdida es irreparable. Compay era el eterno joven. Tenía un carácter jovial, ameno, lleno de optimismo y decisión. Es admirable todo lo que hizo en favor de nuestra cultura. Su trabajo constante, su dedicación de toda la vida. Si alguien nos contara que una persona de más de noventa años está hechizando al mundo entero con su música, no le creeríamos. Y es totalmente cierto. Su recuerdo y su ejemplo quedarán por siempre en nuestra memoria. Confío en que el mundo también lo recuerde por siempre".

Omara Portuondo

“This is a great loss. Compay was the eternal youngster. He had this cheerful, pleasant spirit, all optimism and decision. What he did for our culture is just admirable, constant work and a lifetime’s dedication. If someone were to tell you that a guy in his nineties was enchanting the whole world through his music, you would not believe it, but it was completely true. We shall always keep his memory and his example. I hope the world remembers him forever.”

Omara Portuondo

Este discute Liberais e não liberais 


Creio que a minha conversa com LdE acaba com um raciciocínio deste: para descrever o sistema económico era necessário ter um sistema de equações com tantas variáveis como o número de agentes. Milhões. Nega ainda LdE o valor dos modelos simplificados no estudo da economia.

Quem é capaz de dizer isto pode dizer tudo, demostra por A+B que ignora o que os cientistas, em todas as ciências exactas e económicas, andaram a fazer nos últimos 350 anos. Nem vou descascar o assunto e a ignorância de quem profere uma enormidade deste calibre. Recomendo o belo artigo sobre teoria económica apontado no título, que explana a LdE, e a todo o bom leitor, o mecanismo de acção de um liberal!
CM

15.7.03

Resposta a Amélia 


Este é o retrato do autor deste blogue!
Tirada no Carnaval último em Veneza.
Antes de um concerto em trajes do tempo da música. Eu usei um modelo do final século XVII. A imagem foi tratada para parecer antiga!
CM

Leibnitz 


Uma caixa com cento e cinquenta CD's 


Chegou hoje, tenho de ouvir tudo até sexta da próxima semana e tirar apontamentos. De preferência comentários críticos...
O sonho de qualquer melómano, o pesadelo de um crítico...
Ir a Coimbra, Festival do Estoril e de Sintra, Viena, Praga, Salzburg, evitar o Seabra, afazeres académicos... I

Enfim muitos coisa fica para o fim de Agosto...

CM

Um Pouco de Música! 

Marin Marais

Le Labyrinthe & autres histoires, pièces de caractère.

Um disco Glossa.
Paolo Pandolfo na viola da gamba, ou basse de viole.

Mitzi Meyreson cravo, Thommas Boysen teorba e guitarra barroca, Juan Carlos de Mulder guitarra barroca, Alba Fresno vila da gamba ou basse de viole, François Fauché declamador, Pedro Esteban, percussão.


Uma surpresa fantástica em Marin Marais, a inteligência da abordagem, da escolha das peças de carácter, a colocação no espírito da obra, a paixão de um jovem pela viola da gamba.

Menos subtileza que Jordi Savall, professor de Paolo, mas mais ingenuidade e paixão, vantagens (?). O
som requintado da gamba de Pandolfo, a ideia do labirinto, a criação de percursos dentro da obra de Marin Marais, homem trágico entre dois tempos e o paralelo dos percursos dentro do labirinto dos jardins do palácio de Versailles, que Marais percorreu. Tudo nos dá uma dimensão profunda e ilimitada, intemporal da música, como totalidade e abrangência. As ressonâncias da sua viola são quase mitológicas.
Um disco quase perfeito, na sua sonoridade, na sua alma, no seu tempo certo.

A não perder.

Recordo que Paolo Pandolfo gravou também as seis suites para violoncelo de Bach em viola da gamba. Obra que também catalogo de imperdoável esquecer...



CM

Final de uma proto polémica 

Desfaço já equívocos: não sou de esquerda, sou monetarista, adepto de um sistema de segurança social, defendo que o estado se deve manter nos sectores que não são apetecíveis, não rentáveis, mas essenciais ao bem estar colectivo e ao desenvolvimento. Mandatado pelo voto colectivo e democrático de toda a população com toda a legitimidade para fazer o que quiser, incluindo colectar, cobrando impostos para redistribuir através do sistema de segurança social, que inclui também educação e saúde. A forma é-me indiferente, pode ser sistema público ou privado, ou misto, mas em que todos, mesmo os desprovidos de meios, possam ter acesso.

Fora destas atribuições o sistema deve ser o mais livre possível.
Não acredito que o capital, quer fiduciário, quer humano esteja acima da vontade colectiva de um povo, o qual forma o estado.
Pretendo que há valores intangíveis do ponto de vista económico, mas essenciais do ponto de vista humano, que num sistema puramente liberal seriam progressivamente desprezados, falo da cultura, do património, quer cultural, quer físico. Estou-me nas tintas para a eficiência da economia, o meu modelo, os países nórdicos, parecem-me ter uma economia bastante eficaz e um governo bem pouco neo-liberal. Parecem-me países onde existe também um imenso respeito pelo indivíduo. Nos Estados Unidos, onde vigora uma economia mais liberal, eu detestaria viver.

Esta discussão é ideológica e colocá-lo no plano científico é falacioso, mesmo os modelos e teorias económicas são sempre contaminadas por ideologias, assim funciona com as teorias neo-liberais. Desse pecado, a falácia, acuso quem pretende ver nas teorias neo-liberais a panaceia que resolve tudo. E que falsamente lhe atribui méritos científicos.

E a discussão encerra aqui, não voltarei a estes assuntos. Refugio-me na poesia e na música. Mas estes "liberais" de pacotilha irritam-me pelo egoísmo individualista, falta de sentido humanista e pretensa cientificidade das suas teorias. Expostas e denunciadas as falácias, continuar a discussão é dar protagonismo a quem não o merece.

Ainda por cima sou elitista, conservador e acredito nos valores cristãos, sou tudo menos socialista. Talvez por isso as minhas opiniões sejam mais incómodas aos adeptos do liberalismo, não vejo o LdE perder tempo com as patetices do blogue de esquerda e de rapazes como o Daniel Oliveira, que ninguém conhece fora dos blogues...

CM


As falácias de LdE 

Demorou, mas saiu. Um artigo tão falacioso, tão cheio de falsas interpretação do que eu afirmo que, desta vez, vou deixar apenas esta pequena nota.

Começo pela pérola final: é fantástica. Denota a maior ignorância da história, aliás própria dos adeptos das teorias liberais, que se percebessem um pouco de história, ou tivessem um pouco de boa fé, já teriam abandonado as mesmas teorias há dezenas de anos. A 1ª Guerra Mundial teria acontecido quer a "Mão Negra" tivesse ou não assassinado Franz Ferdinand. O problema foi o acesso da Alemanha às tais fontes de nega-entropia. A coisa é tão evidente, a morte do Arquiduque foi apenas um fósforo, qualquer outro teria servido. O problema da diminuição do lucro. No império Austro Húngaro a situação é claríssima, tenta-se a guerra como último recurso, uma forma de suster um declínio inexorável.
O bárbaro e macabro atentado de Sarajevo foi bem semelhante ao crime hediondo de 1908 em Lisboa, os socialistas e republicanos consideram ainda hoje um acto heróico, quando é um exemplo de cobardia política e de crime organizado.

Outra questão simples é a seguinte: eu afirmei que a crença de Lde no liberalismo é uma questão de fé. Ninguém conseguiu provar que o liberalismo é melhor ou pior, muito menos LdE que nega o papel da matemática no estudo de sistemas com muitas variáveis, onde a matemática é muito mais necessária! Basta saber um pouco de sistemas complexos e de termodinâmica ou de economia, para perceber que existem bons modelos para fenómenos muito complexos, mas a questão não pode ficar por aqui, no "diz que disse". Teria de ser debatida a sério, em seminários em conferências, não basta vir para a praça pública e com falácias afirmar que a matemática não serve, numa afirmação arrogante de ignorância assumida, LdE parece dizer: não sei usar matemática para provar os meus argumentos e tenho raiva a quem sabe.

Eu deixo claro que, face aos argumentos de LdE, a minha crença num sistema menos liberal não precisa de fundamentação, é a tal questão de fé da qual acuso LdE. Quando LdE tentar provar, (o que duvido que faça) que o seu sistema é melhor usando demonstrações matemáticas, logo o tentarei refutar numa discussão científica séria, que LdE tenta evitar a todo o custo. Mistura na sua argumentação os impostos que ele próprio paga e a educação dos filhos! Isto é argumentação científifca? Se LdE conseguir, com argumentos coerentes e científicos, demonstrar o que diz, serei o primeiro a felicitá-lo.

O ónus da prova fica cam ele. Ele que se tem recusado a discutir seriamente, aliás não pode, essa é a minha questão: a fé, não acredito que LdE consiga provar nada de bom sobre o liberalismo, por isso a sua negação da matemática. Aliás as crenças de LdE são bem patentes ao questionar o papel do estado, entenda-se neste último: os actores das decisões políticas e económicas. Ele não acredita que o estado seja melhor num sistema económico do que os agentes autónomos.

Eu afirmo o contrário, os bancos centrais e os ministérios das finanças têm gabinetes de estudos com especialistas, cientistas, que são de facto muito melhores que os matarruanos dos empresários, consumidores e trabalhadores portugueses, aos quais se deve o atraso estrutural de Portugal. Claro que os cientistas também falham. Mas acredito nas intervenções ao nível das taxas directoras centrais do BCE e da RF, acredito no uso de impostos para moderar ou estimular o consumo, ou em aumentos do défice para investir em momentos de recessão. Acredito em instrumentos legislativos para empurrar a actividade económica para a modernização. Mas isso carece de um estado que saiba e consiga implementar medidas.

Afirma que o modelo do lucro está ultrapassado, não explica porquê nem consegue apresentar melhor! Por ser oriundo da teoria marxista? Mas nega LdE o papel teórico deste pensador? Eu, apesar de não ser marxista, penso que os contributos teóricos desta escola são de valor inestimável. E não se precisa de ser marxista, em termos filosóficos, para o perceber. Onde e quando foi o modelo ultrapassado? A equação não vale? Ou as variáveis mudaram de nome? Parece que LdE tenta apenas baralhar, dizer que as variáveis mudaram de nome, mas o modelo parece bem de pé, pelas próprias palavras de LdE.
Mistura conceitos e fala de impossibilidade físicas com a mesma liberdade com que nega a matemática. Exemplo "a fábrica sem trabalhadores" o sonho de qualquer capitalista, e já agora, parece que é o sonho de LdE. Claro que também não teria consumidores! Mas isso não o apoquenta...

Por outro lado acredito profundamente nas motivações económicas da intervenção política no Iraque, conscientemente ou não, foram decisões de tipo económico que motivaram a intervenção. E curiosamente numa economia que se pretende liberal! Dá LdE um exemplo imbecil: Rumsfeld a falar com Bush, em que me tenta ridicularizar, sem colocar no plano científico a questão, o que também prova a má fé de LdE em termos argumentativos. É ridículo pensar que Bush ou o seu secretário de estado saibam de economia, como é patente. Mas a taxa de lucro diminui, é preciso abrir o sistema para evitar essa diminuição. Obrigado ao LdE por explicar tão bem, involuntariamente, o mecanismo que leva os estados a sair de portas numa tentativa de quebrar a diminuição das taxas de lucro, que se reflectem por uma recessão, face visível do fenómeno. O mecanismo repete-se desde a anterior guerra do Golfo. O mecanismo de resposta resulta! Vai-se buscar energia barata, fora de portas, diminui-se a composição orgânica do capital e aumenta-se a taxa de exploração! q.e.d.

Mais tarde voltarei ao assunto.

Os maiores cumprimentos
(desta feita com u! que a extensão de LdE está a ficar desmedida)

CM

P.S. O modelo apresentado T=E/(C+1) pode ser melhorado, sobretudo na análise dinâmica das variáveis, estou aliás a estudar o assunto, mas não vou expor aqui matéria científica de investigação antes de ser publicada em revistas da especialidade. Se o LdE quiser, poderei enviar-lhe os papers.

14.7.03

Os blogues 


Hoje, eu e o colega do gabinete do lado, discutimos, pela hora de almoço, a teoria e praxis do omeupipi. A nossa conversa decaiu para esta hipótese:

O desmentido em verso e a poesia de resposta, de Vasco Graça Moura e de "Omeupipi", são uma encenação demasiado perfeita...

Quando falávamos destes assuntos, na via pública, calei subitamente o estro, um rapaz com ar distraído acabava de passar por nós. Eu disse com ar conspirativo para o meu amigo, "shhh, cuidado, pode ser um blogador e se ouvir o que dizemos ainda nos vai descrever e à nossa conversa num blogue qualquer!" O meu interlocutor, que não tem um blogue, concordou pensativo. Ar de quem não quer contrariar um doido!

Isto está a tornar-se perigoso. Até para a saúde...

CM

Tom Koopman e Philippe Herreweghe 

Como ela falou deles:

Este é o Tom


Este é o Philippe

(A mandar calar o Seabra)

Já conhecem o Nikolaus Harnoncourt


CM

Crítica à crítica! 

A.M.Seabra regressa à escrita no Público. Uma crónica em que se notam as fragilidades em música deste sociólogo e crítico geral do Público. Nem sequer percebeu que a Orquestra Sinfónica Portuguesa passou um dos piores bocados da sua existência no Requiem de Ligeti. Inexatidão, desafinação absoluta, desacerto total em termos rítmicos. O duplo coro, com o coro da Gulbenkian a ajudar e a safar o péssimo coro do S. Carlos foi o que escapou nesse concerto, os pequenos diapasões também ajudaram.
Capítulo orquestra: notou-se a falta de traquejo no reportório, o tocar a medo, o medo de falhar, uma interpretação frouxa, desenxabida. Os músicos até parece que estudaram, mas faltou a alma mater, a coordenação.
Soltan Pésko é um maestro pouco exigente, facilitista, que não vai ao fundo da questão, não está para se preocupar. Ele talvez até fosse capaz de melhor, mas não é lutador. A orquestra com outros maestros foi francamente superior, basta ter ouvido Jefrrey Tate na nona de Mahler.
Sobra a escrita solística estar datada, claro que está datada, data da escrita da obra, como tudo o resto. Tal como está datada a escrita de Bach.
Fala de "tiques" da escrita vocal, quais? Serão glissandos? Passagens em saltos? De que tipo? Será o uso de largas extensões? Ou serão os contrastes dinâmicos? Agógicos? A coordenação rítmica das entradas das solistas com os sucessivos ataques dos naipes e do coro? Nada, apenas tiques! Como qualificativo crítico uma total e confrangedora falta de concretização, Assim é fácil criticar: "tiques"? "Tá bem"...
Outro naco é "sabendo-se das suas complexidades harmónicas e rítmicas", quais? Pergunto? Nada, qual o problema rítmico, onde surgem complexidades harmónicas? Nada... o que para um crítico como A. M. Seabra é muito pouco.
As minhas questões não são essas. É saber se, apesar da datação, a escrita tem qualidade. Se sobrevive ao teste do tempo. Com Ligeti tenho a certeza que sim, a música é lindíssima, tem uma qualidade impressionante. Por isso, apesar de estar datada, ouço a música de Marin Marais, por Jordi Savall. Por isso ouço Arianna Savall, a cantar de forma notável, Marazolli e Navas. Por terem qualidade ouço as partes solísticas do requiem de Ligetti.

A. M. Seabra quer dizer com "datada" que a música é de qualidade inferior? Se o quer dizer que tenha coragem e o diga preto no branco. Tal como quando diz mal da jovem Arianna Savall, talvez não porque cante mal, mas porque é filha do Jordi Savall?

Consultar enciclopédias é fácil, ser inteligente e disfarçar falta de conhecimentos musicais vai-se conseguindo. Levar os ouvidos ao concerto é mais difícil...

CM

13.7.03

A. Leite de Faria, fase final, surrealista? 


Vi-te sapateira e parei!
Marisco simples, sem nome,
Que a cavalo de uma mesa, se come...
Nem te odiei ou amei,
Regada a vinho branco,
Enjoativa dose que se consome...
Não! Sapateira,
Bicho triste e manco,
A repisar a canseira,
Desta ânsia que é prisão
De uma terrível fome.
Fome tornada convulsão,
Não te adoro...
Horror em autofagia:
Privação!

A terrível lei
Em cima da mesa: A sapateira
Pede que a coma em orgia.
Tu, bicho, escreves poemas?
Não? Então marisco, não temas...
Não é a ti que eu oro.
Não sou eu o teu oráculo.
Sou apenas um receptáculo.
Um palco onde eu próprio moro,
Herói de um espectáculo
Irreal, onde tudo se plagia.

Da saudade o ofício...
Ofereço sapateira em sacrifício.

Descoberta e acordar 

Contrariando a nossa política de não andar a remexer na coscuvilhice da Blogolândia Lusitana recomendamos com veemência, digamos que mesmo com alguma fúria e ênfase:
Meridiano e o Regressado Bicho Escala Estantes.
Com os cumprimentos da "Rémora, deve ser bom" ao Vincent.
Recomendo também estes textos minimais uma vez que existe um verdadeiro blogue sem nada, que só recomendo a título de memória, uma vez que o verdadeiro, o original se suicidou.

12.7.03

Cena do Ódio 


de José Almada Negreiros
poeta sensacionista
e Narciso do Egipto


A Álvaro de Campos a dedicação intensa de todos os meus
avatares. Foi escrito durante os três dias e as três noites
que durou a revolução de 14 de Maio de 1915



Ergo-Me Pederasta apupado d'imbecis,
Ergo-Me Pederasta apupado d'imbecis,
Divinizo-Me Meretriz, ex-líbris do Pecado,
e odeio tudo o que não Me é por Me rirem o Eu!
Satanizo-Me Tara na Vara de Moisés!
O castigo das serpentes é-Me riso nos dentes,
Inferno a arder o Meu Cantar!
Sou Vermêlho-Niagara dos sexos escancarados nos chicotes
dos cossácos!
Sou Pan-Demónio-Trifauce enfermiço de Gula!
Sou Génio de Zaratrusta em Taças de Maré-Alta!
Sou Raiva de Medusa e Danação do Sol!



Ladram-Me a Vida por vivê-La
e só Me deram Uma!
Hão-de lati-La por sina!
Agora quero vivê-La!
Hei-de Poeta cantá-La em Gala sonora e dina
Hei-de Glória desanuviá-La!
Hei-de Guindaste içá-La Esfinge
da Vala pedestre onde Me querem rir!
Hei-de trovão-clarim levá-La Luz
às Almas-Noites do Jardim das Lágrimas!


Hei-de bombo rufá-La pompa de Pompeia
nos Funerais de Mim!
Hei-de Alfange-Mahoma
cantar Sodoma na Voz de Nero!
Hei-de ser Fuas sem Virgem do Milagre,
hei-de ser galope opiado e doido, opiado e doido...
Hei-d' Átila, hei-de Nero, hei-de Eu,
cantar Atila, cantar Nero, cantar Eu!


Sou Narciso do Meu Ódio!
- O Meu ódio é Lanterna de Diógenes,
é cegueira de Diógenes,
é cegueira da Lanterna!
(O Meu Ódio tem tronos d' Herodes,
histerismos de Cleópatra, perversões de Catarina!)
O Meu ódio é Dilúvio Universal sem Arcas de Noé, só
Dilúvio Universal!


e mais Universal ainda:
Sempre a crescer, sempre a subir...
até apagar o Sol!


Sou trono de Abandono, mal-fadado,
nas iras dos Bárbaros meus Avós.
Oiço ainda da Berlinda d'Eu ser sina
gemidos vencidos de fracos,
ruídos famintos de saque,
ais distantes de Maldição eterna em Voz antiga!
Sou ruínas rasas, inocentes
como as asas de rapinas afogadas.
Sou relíquias de mártires impotentes
sequestradas em antros do Vício.
Sou clausura de Santa professa,
Mãe exilada do Mal, Hóstia d'Angústia no Claustro,
freira demente e donzela,
virtude sozinha da cela
em penitência do sexo!
Sou rasto espezinhado d'Invasores
que cruzaram o meu sangue, desvirgando-o.
Sou a Raiva atávica dos Távoras,


o sangue bastardo de Nero,
o ódio do último instante
do Condenado inocente!
A podenga do Limbo mordeu raivosa
as pernas nuas da minh'Alma sem baptismo...
Ah! que eu sinto, claramente,
que nasci de uma praga de ciúmes!
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo e a Alma dos Bórgias a
penar!


Tu, que te dizes Homem!
Tu, que te alfaiatas em modas
e fazes cartazes dos fatos que vestes
p'ra que se não vejam as nódoas de baixo!
Tu, qu'inventaste as Ciências e as Filosofias,
as Políticas, as Artes e as Leis,
e outros quebra-cabeças de sala
e outros dramas de grande espectáculo
Tu, que aperfeiçoas sabiamente a arte de matar.
Tu, que descobriste o cabo da Boa-Esperança
e o Caminho Marítimo da índia
e as duas Grandes Américas,
e que levaste a chatice a estas Terras
e que trouxeste de lá mais gente p'raqui
e qu'inda por cima cantaste estes Feitos...
Tu, qu'inventaste a chatice e o balão,
e que farto de te chateares no chão
te foste chatear no ar,
e qu'inda foste inventar submarinos
p'ra te chateares também por debaixo d'água,
Tu, que tens a mania das Invenções e das Descobertas
e que nunca descobriste que eras bruto,
e que nunca inventaste a maneira de o não seres
Tu consegues ser cada vez mais besta
e a este progresso chamas Civilização!


Vai vivendo a bestialidade na Noite dos meus olhos,
vai inchando a tua ambição-toiro
'té que a barriga te rebente rã.


Serei Vitória um dia -Hegemonia de Mim!
e tu nem derrota, nem morto, nem nada.
O Século-dos-Séculos virá um dia
e a burguesia será escravatura
se for capaz de sair de Cavalgadura!


Hei-de, entretanto, gastar a garganta
a insultar-te, ó besta!
Hei-de morder-te a ponta do rabo
e por-te as mãos no chão, no seu lugar!
Ahi! Saltimbanco-bando de bandoleiros nefastos!
Quadrilheiros contrabandistas da Imbecilidade!
Ahi! Espelho-aleijão do Sentimento,
macaco-intruja do Alma-realejo!
Ahi! macrelle da Ignorância!
Silenceur do Génio-Tempestade!
Spleen da Indigestão!
Ahi! meia-tigela, travão das Ascensões!
Ahi! povo judeu dos Cristos mais que Cristo!
Ó burguesia! Ó ideal com i pequeno
Ó ideal ricócó dos Mendes e Possidonios
Ó cofre d'indigentes
Cuja personalidade é a moral de todos!
Ó geral da mediocridade!
Ó claque ignóbil do Vulgar, protagonista do normal!
Ó Catitismo das lindezas d'estalo!


Ahi! lucro do fácil,
cartilha-cabotina dos limitados, dos restringidos!
Ai! dique-impecilho do Canal da Luz!
Ó coito d'impotentes
a corar ao sol no riacho da Estupidez!
Ahi! Zero-barómetro da Convicção!
bitola dos chega, dos basta, dos não quero mais!
Ahi! Plebeísmo Aristocratizado no preço do panamá!
erudição de calça de xadrez!
competência de relógio d'oiro
e correntes com suores do Brasil,
e berloques de cornos de búfalo!
E eu vivo aqui desterrado e Job
da Vida-gémea d'Eu ser feliz!
E eu vivo aqui sepultado vivo
na Verdade de nunca ser Eu!
Sou apenas o Mendigo de Mim-Próprio,
órfão da Virgem do meu sentir.
E como queres que eu faça fortuna
se Deus, por escárnio, me deu Inteligência,
e não tenho sequer, irmãs bonitas
nem uma mãe que se venda para mim?
(Pesam quilos no Meu querer
as salas de espera de Mim.
Tu chegas sempre primeiro...
Eu volto sempre amanhã...
Agora vou esperar que morras.
Mas tu és tantos que não morres...
Vou deixar d'esp'rar que morras
- Vou deixar d'esp'rar por mim!)
Ah! que eu sinto, claramente, que nasci
de uma praga de ciúmes!
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a alma dos Bórgias a penar!


E tu, também, vieille-roche, castelo medieval
fechado por dentro das tuas ruínas!
Fiel epitáfio das crónicas aduladoras!
E tu também ó sangue azul antigo
que já nasceste co'a biografia feita!
Ó pajem loiro das cortesias-avozinhas!
Ó pergaminho amarelo-múmia
das grandes galas brancas das paradas
e das Vitórias dos torneios-lotarias
com donzelas-glórias!
Ó resto de cetros, fumo de cinzas!
Ó lavas frias do Vulcão pirotécnico
com chuvas d'oiros e cabeleiras prateadas!
Ó estilhacos heráldicos de Vitrais
despegados lentamente sobre o tanque do silêncio!
Ó Cedro secular
debruçado no muro da Quinta sobre a estrada
a estorvar o caminho da Mala-posta!


E vós também, ó Gentes de Pensamento,
ó Personalidades, ó Homens!
Artistas de todas as partes, cristãos sem pátria,
Cristos vencidos por serem só Um!
E vós, ó Génios da Expressão,
e vós também, ó Génios sem Voz!
ó além-infinito sem regressos, sem nostalgias,
Espectadores gratuitos do Drama-Imenso de Vós-Mesmos!
Profetas clandestinos
do Naufrágio de Vossos Destinos!


E vós também, teóricos-irmãos-gémeos
do meu sentir internacional!
Ó escravos da Independência!
Vós que não tendes prémios
por se ter passado a vez de os ganhardes,
e famintos e covardes
entreteis a fome em revoltas do Mau-Génio
no boémia da bomba e da pólvora!


E tu também, ó Beleza Canalha
Co'a sensibilidade manchada de vinho!
Ó lírio bravo da Floresta-Ardida
à meia-porta da tua Miséria!
Ó Fado da Má-Sina
com ilustrações a giz
e letra da Maldição!
Ó fera vadia das vielas açaimada na Lei!
Ó xale e lenço a resguardar a tísica!
Ó franzinas do fanico
co'a sífilis ao colo por essas esquinas!
Ó nu d'aluguer
na meia-luz dos cortinados corridos!
Ó oratório da meretriz a mendigar gorjetas
p'rá sua Senhora da Boa-Sorte!
Ó gentes tatuadas do calão!
carro vendado da Penitenciária!


E tu também, ó Humilde, ó Simples!
enjaulados na vossa ignorância!
Ó pé descalço a calejar o cérebro!
Ó músculos da saúde de ter fechada a casa de pensar!
Ó alguidar de açorda fria
na ceia-fadiga da dor-candeia!
Ó esteiras duras pra dormir e fazer filhos!
Ó carretas da Voz do Operário
com gente de preto a pé e filarmónica atrás!
Ó campas rasas, engrinaldadas,
com chapões de ferro e balões de vidro!
Ó bota rota de mendigo abandonada no pó do caminho!
Ó metamorfose-selvagem das feras da cidade!
Ó geração de bons ladrões crucificados na Estupidez!


Ó sanfona-saloia do fandango dos campinos!
Ó pampilho das Lezírias inundadas de Cidade!


ó trouxa d'aba larga da minha lavadeira,
Ó rodopio azul da saia azul de Loures!


E vós varinas que sabeis a sal
as Naus da Fenícia ainda não voltaram?!
E vós também, ó moças da Província
que trazeis o verde dos campos
no vermelho das faces pintadas!


E tu também, ó mau gosto
co'a saia de baixo a ver-se
e a falta d'educação!
Ó oiro de pechisbeque (esperteza dos ciganos)
a luzir no vermelho verdadeiro da blusa de chita!
Ó tédio do domingo com botas novas
e música n'Avenida!
Ó santa Virgindade
a garantir a falta de lindeza!
Ó bilhete postal ilustrado
com aparições de beijos ao lado!
E vós ó gentes que tendes patrões,
autómatos do dono a funcionar barato!
Ó criadas novas chegadas de fora p'ra todo o serviço!
Ó costureiras mirradas,
emaranhadas na vossa dor!
Ó reles caixeiros, pederastas do balcão,
a quem o patrão exige modos lisonjeiros
e maneiras agradáveis pròs fregueses!
Ó Arsenal fadista de ganga azul e coco socialista!
Ó saídas pôr-do-sol das Fábricas d'Agonia!
E vós também, ó toda a gente, que todos tendes patrões!


E vós também, nojentos da Política
que explorais eleitos o Patriotismo!
Macrots da Pátria que vos pariu ingénuos
e vos amortalha infames!
E vós também, pindéricos jornalistas
que fazeis cócegas e outras coisas
à opinião pública!


E tu também roberto fardado:
Futrica-te espantalho engalonado,
apoia-te das patas de barro,
Larga a espada de matar
e põe o penacho no rabo!
Ralha-te mercenário, asceta da Crueldade!
Espuma-te no chumbo da tua Valentia!
Agoniza-te Rilhafoles armado!
Desuniversidadiza-te da doutorança da chacina,
da ciencia da matança!
Groom fardado da Negra,
pária da Velha!
Encaveira-te nas esporas luzidias de seres fera!
Despe-te da farda,
desenfia-te da Impostura, e põe-te nu, ao léu
que ficas desempregado!
Acouraça-te de senso,
vomita de vez o morticínio,
enche o pote de raciocínio,
aprende a ler corações,
que há muito mais que fazer
do que fazer revoluções!
Ruína com tuas próprias peças-colossos
as tuas próprias peças colossais,
que de 42 a 1 é meio-caminho andado!
Rebusca no seres selvagem
no teu cofre do extermínio
o teu calibre máximo!
Põe de parte a guilhotina,
dá férias ao garrote!
Não dês língua aos teus canhões,
nem ecos às pistolas,
nem vozes às espingardas!
- São coisas fora de moda!
Põe-te a fazer uma bomba


que seja uma bomba tamanha
que tenha dez raios da Terra.
Põe-lhe dentro a Europa inteira,
os dois pólos e as Américas,
a Palestina, a Grécia, o mapa
e, por favor, Portugal!
Acaba de vez com este planeta,
faze-te Deus do Mundo em dar-lhe fim!
(Há tanta coisa que fazer, Meu Deus!
e esta gente distraída em guerras!)


Eu creio na transmigração das almas
por isto de Eu viver aqui em Portugal.
Mas eu não me lembro o mal que fiz
durante o Meu avatar de burguês.
Oh! Se eu soubesse que o Inferno
não era como os padres mo diziam:
uma fornalha de nunca se morrer...
mas sim um Jardim da Europa
à beira-mar plantado...
Eu teria tido certamente mais juízo,
teria sido até o mártir São Sebastião!
E inda há quem faça propaganda disto:
a pátria onde Camões morreu de fome
e onde todos enchem a barriga de Camões!
Se ao menos isto tudo se passasse
numa Terra de mulheres bonitas!
Mas as mulheres portuguesas
são a minha impotência!


E tu, meu rotundo e pançudo-sanguessugo,
meu desacreditado burguês apinocado
da rua dos bacalhoeiros do meu ódio
co'a Felicidade em casa a servir aos dias!
Tu tens em teu favor a glória fácil
igual à de outros tantos teus pedaços
que andam desajuntados neste Mundo,
desde a invenção do mau cheiro,
a estorvar o asseio geral.
Quanto mais penso em ti, mais tenho Fé e creio
que Deus perdeu de vista o Adão de barro
e com pena fez outro de bosta de boi
por lhe faltar o barro e a inspiração!
E enquanto este Adão dormia
os ratos roeram-lhe os miolos,
e das caganitas nasceu a Eva burguesa!


Tu arreganhas os dentes quando te falam d'Orpheu
e pões-te a rir, como os pretos, sem saber porquê.
E chamas-me doido a Mim
que sei e sinto o que Eu escrevi!
Tu que dizes que não percebes;
rir-te-has de não perceberes?


Olha Hugo! Olha Zola, Cervantes e Camões,
e outros que não são nada por te cantarem a ti!
Olha Nietzche! Wilde! Olha Rimbaub e Dowson!
Cesário, Antero e outros tantos mundos!
Beethoven, Wagner e outros tantos génios
que não fizeram nada,
que deixaram este mundo tal qual!
Olha os grandes o que são estragados por ti!
O teu máximo é ser besta e ter bigodes.
A questão é estar instalado.
Se te livras de burguês e sobes a talento, a génio,
a seres alguém,
o Bem que tu fizeres é um décimo de seres fera!
E de que serve o livro e a ciência
se a experiência da vida
é que faz compreender a ciência e o livro?
Antes não ter ciências!
Antes não ter livros!
Antes não ter Vida!


Eu queria cuspir-te a cara e os bigodes,
quando te vejo apalermado p'las esquinas
a dizeres piadas às meninas,
e a gostares das mulheres que não prestam
e a fazer-lhes a corte
e a apalpar-lhes o rabo,
esse tão cantado belo cu
que creio ser melhor o teu ideal
que a própria mulher do cu grande!
E casaste-te com Ela,
porque o teu ideal veio pegado a Ela,
e agora à brocha limpas a calva em pinga
à coca de cunhas p'ró Cunha examinador
do teu décimo nono filho
dezanove vezes parvo!
(É o caso mais exemplar de Constância e fidelidade
a tua história sexual co'a Felisberta,


desde o teu primogénito tanso
'té ao décimo nono idiota.)
'Té no matrimónio te maldigo, infame cobridor!
Espécie de verme das lamas dos pântanos
que de tanto se encharcar em gozos
o seu corpo se atrofiou
e o sexo elefantizado foi todo o seu corpo!


Em toda a parte tu és o admirador
e em toda a parte a tua ignorância
tem a cumplicidade da incompetência
dos que te falam 'té dos lugares sagrados.
Sim! Eu sei que tu és juiz
e qu'inda ontem prometeste a tua amante,
despedindo-a num beijo de impotente,
a condenação dos réus que tivesses
se Ela faltasse à matinée da Boa-Hora!
Pulha! E és tu que do púlpito
d'essa barriga d'Água da Curia
dás a ensinança de trote
aos teus dezanove filhos?!
Cocheiros, contai: dezanove!!!


Zute! bruto-parvo-nada
que Me roubaste tudo:
'té Me roubaste a Vida
e não Me deixaste nada!
nem Me deixaste a Morte!
Zute! poeira-pingo-micróbio
que gemes pequeníssimos gemidos gigantes
grávido de uma dor profeta colossal.
Zute! elefante-berloque parasita do não presta!
Zute! bugiganga-celulóide-bagatela!
Zute, besta!
Zute, bácoro!!
Zute, merda!!!


Em toda a parte o teu papel é admirar,
mas (caso inf'liz)
nunca acertas numa admiração feliz.
Lês os jornais e admiras tudo do princípio ao fim
e se por desgraça vem um dia sem jornais,
tens de ficar em casa nos chinelos
porque nesse dia, felizmente,
não tens opinião pra levares à rua.
Mas nos outros dias lá estás a discutir.
É que a Natureza é compensadora:
quem não tem dinheiro p'ra ir ao Coliseu
deve ter cá fora razões p'ra se rir.
Só te oiço dizer dos outros
a inveja de seres como eles.
Nem ao menos, pobre fadista,
a veleidade de seres mais bruto?
Até os teus desejos são avaros
como as tuas unhas sujas e ratadas.
Ó meu gordo pelintrão,
água-morna suja, broa do outro v'rao!
Os homens são na proporção dos seus desejos
e é por isso que eu tenho a Concepção do Infinito...
Não te cora ser grande o teu avô
e tu apenas o seu neto, e tu apenas o seu esperma?
Não te dói Adão mais que tu?
Não te envergonha o teres antes de ti
outros muito maiores que tu?
Jamais eu quereria vir a ser um dia
o que o maior de todos já o tivesse sido
eu quero sempre muito mais
e mais ainda muito pr'além-demais-Infinito...
Tu não sabes, meu bruto, que nós vivemos tão pouco
que ficamos sempre a meio-caminho do Desejo?


Em toda a parte o bicho se propaga,
em toda a parte o nada tem estalagem.
O meu suplício não é somente de seres meu patrício
ou o de ver-te meu semelhante,
tu, mesmo estrangeiro, és besta bastante.
Foi assim que te encontrei na Rússia
como vegetas aqui e por toda a parte,
e em todos os ofícios e em todas as idades.
Lá suportei-te muito! Lá falavas russo
e eu só sabia o francês.
Mas na França, em Paris - a grande capital,
apesar de fortificada,
foi assolada por esta espécie animal.
E andam p'los cafés como as pessoas
e vestem-se na moda como elas,
e de tal maneira domésticos
que até vão às mulheres
e até vão aos domésticos.
Felizmente que na minha pátria,


a minha verdadeira mãe, a minha santa Irlanda,
apenas vivi uns anos d'Infância,
apenas me acodem longinquamente
as festas ensuoradas do priest da minha aldeia,
apenas ressuscitam sumidamente
as asfixias da tísica-mater,
apenas soam como revoltas
as pistolas do suicídio de meu pai,
apenas sinto infantilmente
no leito de uma morta
o gelo de umas unhas verdes,
um frio que não é do Norte,
um beijo grande como a vida de um tísico a morrer.
Ó Deus! Tu que m'os levaste é que sabias
o ódio que eu lhes teria
se não tivessem ficado por ali!
Mas antes, mil vezes antes, aturar os burgueses da My
Ireland
que estes desta Terra
que parece a pátria deles!
Ó Horror! Os burgueses de Portugal
têm de pior que os outros
o serem portugueses!


A Terra vive desde que um dia
deixou de ser bola do ar
p'ra ser solar de burgueses.
Houve homens de talento, génios e imperadores.
Precisaram-se de ditadores,
que foram sempre os maiores.
Cansou-se o mundo a estudar
e os sábios morreram velhos
fartos de procurar remédios,
e nunca acharam o remédio de parar.
E inda eu hoje vivo no século XX
a ver desfilar burgueses
trezentas e sessenta e cinco vezes ao ano,
e a saber que um dia
são vinte e quatro horas de chatice
e cada hora sessenta minutos de tédio
e cada minuto sessenta segundos de spleen!
Ora bolas para os sábios e pensadores!
Ora bolas para todas as épocas e todas as idades!


Bolas pròs homens de todos os tempos,
e prà intrujice da Civilização e da Cultura!


Eu invejo-te a ti, ó coisa que não tens olhos de ver!
Eu queria como tu sentir a beleza de um almoço pontual
e a f'licidade de um jantar cedinho
co'as bestas da família.
Eu queria gostar das revistas e das coisas que não prestam
porque são muitas mais que as boas
e enche-se o tempo mais!
Eu queria, como tu, sentir o bem-estar
que te dá a bestialidade!
Eu queria, como tu, viver enganado da vida e da mulher,
e sem o prazer de seres inteligente pessoalmente!
Eu queria, como tu, não saber que os outros não valem nada
p'ra os poder admirar como tu!
Eu queria que a vida fosse tão divinal
como tu a supões, como tu a vives!
Eu invejo-te, ó pedaço de cortiça
a boiar à tona d'água, à mercê dos ventos,
sem nunca saber que fundo que é o Mar!


Olha para ti!
Se te não vês, concentra-te, procura-te!
Encontrarás primeiro o alfinete
que espetaste na dobra do casaco,
e depois não percas o sítio,
porque estás decerto ao pé do alfinete.
Espeta-te nele para não te perderes de novo,
e agora observa-te!


Não te escarneças! Acomoda-te em sentido!
Não te odeies ainda qu'inda agora começaste!
Enioa-te no teu nojo, mastodonte!
Indigesta-te na palha dessa tua civilização!
Desbesunta te dessa vermência!
Destapa a tua decência, o teu imoral pudor!
Albarda te em senso! Estriba-te em Ser!
Limpa-te do cancro amarelo e podre!
Do lazareto de seres burro!
Desatrela-te do cérebro-carroça!
Desata o nó-cego da vista!
Desilustra-te, descultiva-te, despole-te,
que mais vale ser animal que besta!
Deixa antes crescer os cornos que outros adornos da
Civilização!


Queria-te antes antropófago porque comias os teus
- talvez o mundo fosse Mundo
e não a retrete que é!
Ahi! excremento do Mal, avergonha-te
no infinitamente pequeno de ti com o teu papagaio:
Ele fala como tu e diz coisas que tu dizes
e se não sabe mais é por tua culpa, meu mandrião!
E tu, se não fossem os teus pais,
davas guinchos, meu saguim!
- Tu és o papagaio de teus pais!
Mas há mais, muito mais
que a tua ignorância-miopia te cega.
Empresto-te a minha Inteligência.
Vê agora e não desmaies ainda!
Então eu não tinha razão?
P'ra que me chamavas doido
quando eu m'enjoava de ti?
Ah! Já tens medo?!
Porque te rias da vida
e ias ensuorar as vrilhas nos fauteuils das revistas
co'as pernas fogo de vistas
das coristas de petróleo?
Porque davas palmas aos compéres e actorecos
pelintras e fantoches
antes do palco, no palco e depois do palco?
Ora dize-Me com franqueza:
Era por eles terem piada?
Então era por a não terem
Ah! Era p'ra tu teres piada, meu bruto?!
Porque mandaste de castigo os teus filhos p'r'ás Belas-Artes
quando ficaram mal na instrução primária?
Porque é que dizes a toda a gente que o teu filho idiota
estuda p'ra poeta?
Porque te casaste com a tua mulher
se dormes mais vezes co'a tua criada?
Porque bateste no teu filho quando a mestra
te contou as indecências na aula?
Não te lembras das que tu fizeste
com a própria mestra de moral?
Ou queres tu ser decente,
tu, que tens dezanove filhos?!
Porque choraste tanto quando te desonraram a filha?
Porque lhe quiseste matar o amante?
Não achas isto natural? Não achas isto interessante?
Porque não choraste também pelo amante?...
Deixa! Deixa! Eu não te quero morto com medo de ti-próprio!
Eu quero-te vivo, muito vivo, a sofrer!
Não te despetes do alfinete!
Eu abro a janela pra não cheirar mal!


Galopa a tua bestialidade
na memória que eu faço dos teus coices,
cavalga o teu insecticismo na tua sela de D. Duarte!
Arreia-te de Bom-Senso um segundo! peço-te de joelhos.
Encabresta-te de Humanidade
e eu passo-te uma zoologia para as mãos
p'ra te inscreveres na divisão dos Mamíferos.
Mas anda primeiro ao Jardim Zoológico!
Vem ver os chimpanzés! Acorpanzila-te neles se te ousas!
Sagra-te de cu-azul a ver se eles te querem!
Lá porque aprendeste a andar de mãos no ar
não quer dizer que sejas mais chimpanzé que eles!


Larga a cidade masturbadora, febril,
rabo decepado de lagartixa,
labirinto cego de toupeiras,
raça de ignóbeis míopes, tísicos, tarados,
anémicos, cancerosos e arseniados!
Larga a cidade!
Larga a infâmia das ruas e dos boulevards
esse vaivém cínico de bandidos mudos
esse mexer esponjoso de carne viva
Esse ser-lesma nojento e macabro
Esse S ziguezague de chicote auto-fustigante
Esse ar expirado e espiritista...
Esse Inferno de Dante por cantar
Esse ruído de sol prostituído, impotente e velho
Esse silêncio pneumónico
de lua enxovalhada sem vir a lavadeira!
Larga a cidade e foge!
Larga a cidade!
Vence as lutas da família na vitória de a deixar.
Larga a casa, foge dela, larga tudo!


Nem te prendas com lágrimas, que lágrimas são cadeias!
Larga a casa e verás - vai-se-te o Pesadelo!
A família é lastro, deita-a fora e vais ao céu!
Mas larga tudo primeiro, ouviste?
Larga tudo!
- Os outros, os sentimentos, os instintos,
e larga-te a ti também, a ti principalmente!
Larga tudo e vai para o campo
e larga o campo também, larga tudo!
- Põe-te a nascer outra vez!
Não queiras ter pai nem mãe,
não queiras ter outros nem Inteligência!
A Inteligência é o meu cancro
eu sinto-A na cabeça com falta de ar!
A Inteligência é a febre da Humanidade
e ninguém a sabe regular!
E já há Inteligência a mais pode parar por aqui!
Depois põe-te a viver sem cabeça,
vê só o que os olhos virem,
cheira os cheiros da Terra
come o que a Terra der,
bebe dos rios e dos mares,
- põe-te na Natureza!
Ouve a Terra, escuta-A.
A Natureza à vontade só sabe rir e cantar!
Depois, põe-te a coca dos que nascem
e não os deixes nascer.
Vai depois pla noite nas sombras
e rouba a toda a gente a Inteligência
e raspa-lhos a cabeça por dentro
co'as tuas unhas e cacos de garrafa,
bem raspado, sem deixar nada,
e vai depois depressa muito depressa
sem que o sol te veja
deitar tudo no mar onde haja tubarões!
Larga tudo e a ti também!


Mas tu nem vives nem deixas viver os mais,
Crápula do Egoísmo, cartola d'espanta-pardais!
Mas hás-de pagar-Me a febre-rodopio
novelo emaranhado da minha dor!
Mas hás-de pagar-Me a febre-calafrio
abismo-descida de Eu não querer descer!
Hás-de pagar-Me o Absinto e a Morfina
Hei-de ser cigana da tua sina
Hei-de ser a bruxa do teu remorso
Hei-de desforra-dor cantar-te a buena-dicha
em águas fortes de Goya
e no cavalo de Tróia
e nos poemas de Poe!
Hei-de feiticeira a galope na vassoura
largar-te os meus lagartos e a Peçonha!
Hei-de Vara Magica encantar-te Arte de Ganir
Hei-de reconstruir em ti a escravatura negra!
Hei-de despir-te a pele a pouco e pouco
e depois na carne-viva deitar fel,
e depois na carne-viva semear vidros,
semear gumes,
lumes,
e tiros.
Hei-de gozar em ti as poses diabólicas
dos teatrais venenos trágicos do persa Zoroastro!
Hei-de rasgar-te as virilhas com forquilhas e croques,
e desfraldar-te nas canelas mirradas
o negro pendão dos piratas!
Hei-de corvo marinho beber-te os olhos vesgos!
Hei-de bóia do Destino ser em brasa
e tua náufrago das galés sem horizontes verdes!
E mais do que isto ainda, muito mais:
Hei-de ser a mulher que tu gostes,
hei-de ser Ela sem te dar atenção!


Ah! que eu sinto claramente que nasci
de uma praga de ciúmes.
Eu sou as sete pragas sobre o Nilo
e a Alma dos Bórgias a penar!...

Afinal em que ficamos? 

Diz LdE que, afinal, a redistribuição dos impostos até nem é má ideia. Para quem não queria pagar impostos, não será contraditório? Por outro lado pega na minha deixa da Rússia para tentar rebater o meu texto. Será o argumento do homem de palha ao contrário? Queremos ou não regulação do estado? Queremos ou não um estado forte que impeça a corrupção, o descalabro urbanístico, o desperdício de recursos e a poluição? LdE ainda tem tempo para se desdizer sobre a matemática, afinal a matemática é importante? Afinal em que ficamos LdE?

Parece-me que estamos conversados. LdE não consegue explicar porque motivo o Liberalismo é melhor para a economia, eu consigo explicar porque motivo é pior do ponto de vista ético. Eu acredito que o Liberalismo é pior para a economia, porque a regulação do estado evita rupturas, porque intervém sobre taxas e impostos de forma a atenuar as crises, porque confere segurança social aos mais desfavorecidos, porque é capaz de endividamento, de investimento maciço em sectores em que a iniciativa privada não tem capacidade ou apetência. Porque evita a especulação. Enfim, porque os aspectos sociais são salvaguardados e porque a economia, como sistema dinâmico discreto que é, entra em regime estacionário com lucros sustentados. Evita-se a auto destruição a que o aumento conjugado da composição orgânica do capital e o aumento da taxa de exploração levam. Teríamos a redução global da taxa de lucro e fim do capital, a entropia máxima para o qual qualquer sistema termodinâmico tende! Qualquer livro de economia básico explica esses efeitos...

taxa de lucro = taxa de exploração/(composição orgânica do capital + 1) ou seja L=T/(C+1)

Num sistema liberal T cresce mais depressa que C ( noutros sistemas também acontece em menor grau, obrigado a vetopolitico por me ter suscitado esta nota de clarificação do meu texto). A exploração (produtividade) que se consegue extrair da mão de obra é limitada por factores físicos e a composição orgânica do capital pode crescer imparavelmente! Esta é uma análise rápida, mas parece óbvia. Mas este assunto não é tão simples como parece. T e C estão ligados por um sistema dinâmico acoplado, cuja modelização é complexa e que depende, claro, de L. O que é óbvio é que, num sistema liberal, o detentor do capital tenderá sempre a recuperar os lucros que vai perdendo, com o aumento da composição orgânica do capital, tentando aumentar indiscriminadamente a da taxa de exploração, argumentando que o lucro está a decair. Isto levará invariavelmente a rupturas sociais!
A "civilização" tem resolvido este problema de forma muito simples: com a guerra! Canaliza o descontentamento para a guerra e tenta cantrariar a equação com a destruição dos recursos dos outros ao mesmo tempo que tenta aumentar os seus. A 1ª gerra mundial é o exemplo acabado para onde o liberalismo levou o mundo. Aumentar a taxa de exploração, reduzir a composição orgânica do capital. Novos mercados, novos trabalhadores, menos composição orgânica nos vizinhos derrotados, mais mão de obra (barata), de forma a ganhar espaço para os capitalistas dos países vitoriosos. Hoje em dia os Estados Unidos esperam sair da recessão com a Guerra do Iraque, um negócio bem ao gosto do liberalismo, com a equação acima bem presente, já há cem anos que é conhecida...

Comprimentos de um humanista, conservador, mas não liberal.

P.S. Dizem os arruaceiros da causa liberal (serão alunos de LdE?) que eu sou socialista, triste maniqueísmo, "se não se é liberal é-se socialista". Felizmente que LdE não é capaz de tais raciocínios (?), senão eu já não estaria a debater o assunto. Os émulos da segunda fornada são sempre uma espécie de anões velhacos, fazem lembrar os tristes seguidores do "Omeupipi" um género de claque infame que ao apoiar LdE só lhe retira credibilidade. Felizmente que eu também não sou socialista. Apenas defendo uma intervenção do estado, bem mais pequena do que em Portugal, mas muito mais eficaz e forte, por razões de bem estar social e de modelo matemático para a economia.
CM

Os Filhos do Liberdade de Expressão 

Diz LdE:

3 – O Crítico acha que a educação não pode estar entregue aos privados. Que legitimidade é que o estado tem para me cobrar impostos para educar os meus filhos?

4 – Porque é que a educação dos meus filhos deve estar sob controlo democrático colectivo de 10 milhões de pessoas?

Percebe-se que não entendeu nada, o estado (num país decente que não Portugal) vem retirar-lhe o dinheiro dos impostos para pagar a educação daqueles que não têm dinheiro para pagar os estudos dos filhos. Porque os pais são uns "analfabetos", ou porque "são incapazes" ou "pouco eficazes" como empresários ou porque a sua qualificação em termos de mão de obra é insuficiente para ser vendida cara no mercado de trabalho.
Para isso existem impostos: para que todos tenham oportunidades.
Acrescento que me estou nas tintas para os filhos do Liberdade de Expressão, estou-me nas tintas para o dinheiro que este gasta em impostos, é um dever social, e se este não o entende assim, problema dele, emigre para um país liberal como a Rússia, um país onde a economia é muito eficaz. Se fugir ao fisco, o meu entender é que deve ser preso.

Estou-me nas tintas porque, independemente do estado lhe fornecer educação para cursos onde a iniciativa privada não entra (o que dá lucro fácil são cursos de papel e lápis), ele terá dinheiro para mandar os filhos para uma escola privada. Eu não me estou nas tintas para os filhos daqueles que nada têm.

Sobre o resto apenas uma resposta: questões de fé! O Liberdade de Expressão acredita numa cartilha, eu acredito noutra. O Liberdade de Expressão afirma que a economia Liberal é mais eficaz, não prova a sua afirmação. São discussões sem sentido, sem base científica. Eu apenas discuti questões de ética. É evidente que quem acredita na democracia acredita que a emanação do voto de todos é mais legítima que a vontade de meia dúzia de detentores do capital. Basta olhar para a orla marítima portuguesa para perceber o que fez a vontade dos "capitalistas" numa economia liberal e sem moderação estatal. Portugal é um bom exemplo de economia liberal na questão do urbanismo: os detentores do capital pagam ao poder moderador para que deixe de moderar, e depois temos o temos. Sem moderação nenhuma seria ainda mais fácil a destruição do património de todos.

Mas os argumentos técnicos, em termos económicos, do LdE são falaciosos e recuso-me a discutir aspectos técnicos sem matemática, como o quer fazer LdE, que nega inclusivamente o papel da matemática na ciência económica. Já o tentei fazer em tempos, e LdE fugiu à questão. Agora pretende que eu fale do assunto, eu que até tive o trabalho de lhe mandar umas bibliografias sobre economia e matemática e lhe recomendei um artigo sobre o assunto. Se quiser convido-o para uns seminários. Cumprimentos.

CM

Os gatos pingados! 


Ontem passava à porta dos artistas do teatro de S. Carlos, ia ao concerto do Festival do Estoril, alguns senhores vestidos de preto, calça preta e camisa preta.
Um deles exclama, para os colegas:
-"Bora, vamos lá velar o morto!"
Risota dos músicos... e lá foram.

Claro que ri muitíssimo, para mim, com esta boca.
Mas pensando bem chego à conclusão que a dignidade de uma orquestra começa pela roupa, e a roupa que os pobres dos homens músicos da OSP usam pode ser muito prática, prática para ensaios, prática para tocar no fosso, mas não é própria para tocar em concerto.


Ele bem vestido, uma rapariga do sindicato tenta tirar-lhe a casaca!
(Com a vénia ao site do S. Carlos de onde retirei esta foto.)

Não se trata de um juiz que no seu gabinete, para trabalhar em sossego, usa um camisola branca e calça de ganga. Trata-se da única orquestra sinfónica que existe em Portugal, e se tem tocado melhor ultimamente também mereceria vestir melhor.
Os fatos de macaco são para os ensaios, por muito práticos que sejam não estão dentro da tradição cultural europeia que a orquestra tem de respeitar, a roupa é um instrumento de representação da função. Temos em Portugal a única orquestra sinfónica do mundo de gatos pingados.
Como apreciador de música e membro do público sinto-me desrespeitado pela esta indumentária casual e sindical. Chamem-me conservador, claro que sou conservador, a nossa tradição cultural também passa pelo trajo e não dispo a tradição por dá cá aquela palha...

A filarmónica de Berlim veste fato e gravata para se apresentar em ensaio geral.

Orquestra Gulbenkian, estes não são funcionários públicos:

E vestem a rigor!
(A vénia ao site da Gulbenkian.)

E o concerto? Foi tão mau, tão mau, tão mau que nem comento muito. Uma cantora que em tempos cantou bem, uns berros desafinados, falta de emissão, um grupo de histéricos aos berros para depois correr em espavento no intuito de beijar a gorda. Ao menos a sinfonia escapou... E velou-se o morto!
CM


11.7.03

Destaques Antena2 e Luna106.2 (esta só na grande Lisboa) 


Na antena2 o meu destaque para:

Música Portuguesa, Sábado 19h30
J. Domingos Bomtempo Variações sobre um tema da ópera La donna del lago * Nella Maissa (pn) 15’ 30’’
J. Braga Santos Três esboços sinfónicos, Op. 34 * Orq. Sinf. da Radiodifusão Portuguesa. Dir. Álvaro Cassuto 10’ 16’’

Ainda Sábado, na Antena2:
22h30 Integrais

J. S. Bach Concertos Brandeburgueses: Nº4 em sol maior, BWV 1049; Nº5 em ré maior, BWV 1050; Nº6 em si bemol maior, BWV 1051 * Musica Antiqua Köln. Dir. Reinhard Goebel
A não perder, boa interpretação.

Música do século XVII na rádio LUNA 106.2.
Domingo às 15h10m

Claudio Monteverdi

CM


Minimalismo extinto? 

Defunto, numa apoteose suicida, minimalismo um dos melhores blogues escritos em Portugal desapareceu, um acto de minimalismo extremo e radical. Deixa-nos em grande tristeza, num estado de abalo muito grande.
Que os teus olhos descansem...

P.S. Ocupei o espaço, um dia, se o minimalista voltar, o espaço é dele. Nunca deixarei que alguém use o mesmo nome em vão.

CM

Continua a discutir-se economia sem matemática 

Em Liberdade de Expressão continuam-se a enunciar "bocas" como se tratassem de verdades absolutas. Debruço-me só sobre uma:

"A intervenção do estado diminui a eficiência da economia".

Gostava que o LdE provasse esta boca. E sobretudo, que definisse "eficiência" e "intervenção".

Se "eficiência da economia" quer dizer "bem estar dos cidadãos" afirmo que o Liberdade de Expressão continua enganado. Não discuto a questão salarial, discuto apenas a questão da intervenção: impostos, retorno dos impostos à sociedade, aspectos filosóficos deste retorno contra a tal "eficiência da economia" que LdE não define. O que se passa é que existem serviços que o estado assegura, importantíssimos do ponto de vista filosófico, com valor fiduciário intangível.
São serviços e bens que:
a) não são apetecíveis em termos económicos para os capitalistas,
b) os capitalistas não são filosoficamente (no meu entender) os agentes apropriados a certas acções, que devem emanar da sociedade no seu conjunto,
c) os capitalistas não conseguem responder a rupturas essenciais em tempo útil, uma vez que estas rupturas criam situações de enorme desequilíbrio entre oferta e procura, gerando especulação e rapina, que em termos sociais e éticos seria criminosa.
Há sectores que não podem estar entregues a simples agentes económicos, que não o estado (o estado no meu entender é e deve ser agente, com legitimidade emanada da sociedade legitimada pelo voto). São, em meu entender: a defesa, a segurança social, a saúde, a justiça, a segurança interna, a gestão de catástrofes, o sistema de ensino, o ordenamento do território, a defesa dos recursos naturais e do ambiente, a conservação do património, a defesa da cultura e da arte, o apoio ao desporto (não lucrativo quer seja de alta ou competição ou juvenil ou ...), e mais haverá.

O liberalismo puro em termos éticos e filosóficos é a selva, seria também a selva urbana, o caos ecológico, o principal problema do capitalista é a sua avidez natural, a sua ganância, a sua falta de ética. Teríamos sociedades de "patos bravos" (Portugal) ou "sicilianas" (Itália, novos estados de leste), onde a autoridade e intervenção do estado é pequena, a corrupção grassa e a selva também se instala.

O liberalismo puro não é democracia, é apenas uma plutocracia em que dirigem os agentes económicos que detém o capital. Filosoficamnte não poderia estar em maior desacordo. O que não quer dizer que o estado seja bom gestor, seja eficaz, seja produtivo. Não é, creio que a solução é um equilíbrio muito delicado entre o papel dos agentes económicos, capitalistas, trabalhadores, consumidores, estado como agente directo e o estado como regulador. Um estado capaz de assegurar os serviços básicos que se esperam do estado, que é a sociedade no seu todo. O estado são os cidadãos, uma verdade que os defensores do liberalismo puro se esquecem, ou fazem por esquecer.

CM

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