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31.5.03

A métrica agora já parece bater (mais) certo, o resultado final: duvidoso, um soneto sobre tipos portugueses.

Título: o amigo do pato bravo!

Prostíbulo do espírito e razão,
Sede de vaidade em fato completo:
Vazio sorrindo, num esgar abjecto,
Fácil oferece apertos com a mão..

Vende-se em rádios e ecrãs: um sabão,
Seu palavreado, sem nexo, infecto...
Arauto de político correcto,
A sua ideologia em disrupção.

Vende ideiais e princípios, p'ra somar:
Votos, prebendas, cargos e dinheiro;
Recebe tudo mas sem nada amar:

Soma contas bancárias no estrangeiro.
Capaz de vender a alma e o pandeiro:
O povo continua nele a votar...

Crítico

(armado em crítico social e de costumes)

30.5.03

Revisto em 31 de Maio de 2003.

A busca do conteúdo.

Não comento, em geral, blogs. Mas existe texto substantivo de abrupto quando fala da escola de jornalismo do Expresso. Não resisto a um pouco de crítica e de comentário.

Não incluo link propositadamente, detesto a moda do linka-me a mim que eu linko-te a ti, coça-me as costas que eu coço as tuas.

A análise que este blog faz das escolas de jornalismo é brilhante. O molde da escola jornalística do Expresso, a sua matriz inspiradora é a fonte original de Marcelo Rebelo de Sousa. O problema é que esta matriz não é reprodutível. É certo que gerou uma plêiade de micro clones, marcelinhos em miniatura: os jornalistas políticos de trazer por casa. Casa, entenda-se: Portugal. Dizendo melhor, jornalistas-políticos de trazer por Portugal. Porquê jornalistas-políticos? Porque os nossos jornalistas não são meros observadores, são factores-inventores de factos políticos. É certo que a mecânica quântica nos ensimou que o observador destrói, intervém na realidade, mas apenas ao nível microscópico do átomo, do núcleo, Ora os os nossos rapazes dos media, gostam de inventar, intervir e não apenas reportar, observar ao nível macroscópico da política. Seria muito difícil reportar sem intervir, até por reacção. Não se lhes pede, no entanto, que intervenham ao nível da invenção deste fenómeno tão luso: o "facto político". Um incidente, não um referente. Um taticismo, nunca uma estratégia, bem típico de Portugal nestes últimos séculos. Repare-se que a criação de "efeitos" pontuais, de curta duração, é fácil; a intervenção ao nível estratégico é muitíssimo mais complexa, e mais imutável. Mais difícil de analisar, mais difícil de alterar, e os rapazes gostam de "mexer na massa", sentem-se importantes. Por outro lado criam instabilidade, a instabilidade é boa para as tiragens, para as audiências. Estamos face a um "lobby" que actua por interesses comerciais e não por interesses éticos. Pior, esquecendo quaisquer referências éticas.

Sem capacidade de análise, agindo apenas pela gestão óbvia do senso comum. Sem critérios de análise científica. Sem referentes culturais, os jornalistas políticos classificam sem argumentação inteligente, usando apenas a casca do discurso do mestre Marcelo, sem apanharem o âmago da questão, a vivacidade do mestre, a sua tortuosidade, que é difícil de mimetizar, e mesmo a sua cultura. Pode-se reparar que Marcelo é capaz de dizer uma coisa e o seu oposto, com diferença temporal limitada, justificando (com argumentos do senso comum) plenamente as opções, deixando os distraídos completamente convencidos da equidade e justeza das argumentações.

Mas Marcelo é pobre, lê demais, não pode ler a fundo, apresenta-se como culto, viajado, professor, jurisconsulto, dormindo pouco, uma espécie de super homem da cultura, da política, do futebol. Apresenta-se capaz de falar sobre tudo e sempre bem. Nunca diz, ou raramente diz, "desse assunto nada sei", Ouve-se, pelo contrário afirmar, "não sou especialista da área mas...", saindo imediatamente uma elocubração enorme sobre o assunto em que o discursante se afirma não especialista! Mas analisemos o seu discurso, exactamente como abrupto viu. Pensamos que esse discurso em geral é sem conteúdo semântico elaborado, apenas procurando classificar a imagem e a gestão mediática. O comentário é apenas ao "facto" político, como episódio, muitas vezes ficccionado, ou com uma teoria de suporte totalmente imaginada, v.g. as sucessivas datas de ataque dos aliados no Golfo, com as mais variadas suposições, tipo plenilúneo, subida/descida do preço do petróleo, discurso do Greenspan a mexer nas taxas de juro, temperatura conjugada com Lua e Ramadão, ainda não falou dos efeitos astrológicos, mas já esteve mais longe. Errando, em todos os casos, de forma estrondosa. Cito apenas factos de política internacional, para eu próprio não entrar na política de trazer por casa.

Onde estão as ideias? Os grandes conceitos? As visões estratégicas? A argumentação? Nada: o zero. Marcelo é uma máscara que comenta e discorre sobre máscaras, que praticam actos imaginários e interpretados imaginariamente. Aliás seria impossível ser de outra forma, o tempo não é elástico, e se Marcelo é bom professor e jurisconsulto, como lhe sobra tempo para ler análise política, filosofia, teoria? Pelo menos de forma séria. Tocqueville? Deixa-o para o Carrilho (outro ...) e o Carlos Magno (este último descobriu, ou redescobriu, este pensador há poucos meses e nunca mais deixou de o citar...)

Marcelo é brilhante, em todo o caso, mas vazio, de teorias, de relações, de conceitos éticos.
Os micro clones de seguidores, jornalistas de segundo plano, o que fazem? Seguem, é o mais fácil, é cómodo, mas sem pensar. Nota-se que Marcelo ainda pensa qualquer coisa, pois a sua inteligência viva é de análise muito rápida. Os jornalistas políticos do burgo nem isso fazem.
O que nos dão então?
- Classificação, senso comum, mediatismo, melhor dizendo: imediatismo e primarismo.

Crítico

Nota final - Abrupto, dê-nos um doce, um texto seu para nos fazer pensar, uma reflexão sobre o mundo de hoje, e os grandes referentes éticos e teóricos do seu pensamento. O liberalismo, a social democracia, o estado providência, o papel do estado na economia de hoje e as relações de interdependência. Não se coloque na posição confortável de apelar aos objectos em extinção, do quais lhe mando um exemplo: o soneto! Dá trabalho, obriga o criador a pensar, o leitor a ler, e a dizer, e a poesia livre, branca, em simples associação de ideias dá muito menos trabalho.

28.5.03

30 de Maio - a) Hoje ando armado em crítico literário, li o "soneto" que escrevi ontem e que me deixou dormir, mas descobri que mais valia ter ficado acordado...

Nota em 30 de Maio - b) emendei um verso, que tinha a métrica errada, ainda não sei se vou polir as sextas sílabas, para estarem todas acentuadas, a acentuação anda toda pela sexta/sétima, além da décima, mas como quase soneto, ou projecto de soneto pode aceitar-se.

Nota em 30 de Maio - c) Nota mais tardia: reparo agastado que rever um soneto para acertar a métrica sem perder a frescura é um processo destrutivo, reconstrutivo, um puzzle muito completo, facto que eu já sabia, mas que custa a recordar. Dentro de uma concisão extrema, o soneto tem de contar uma história, ter princípio, meio e fim, um choque, uma antítese entre a primeira e segunda partes são quase essenciais, neste pré-soneto não consigo encontrar um ponto de viragem, uma ruptura, embora o tenha dividido em três partes: 1ª descrição da figura, 2ª acções da mesma e seus valores éticos, 3ª conclusão em forma de desilusão constatação, crítica etica (último verso).
Cada vez aceito mais que este pseudo-soneto é mau, muito mau. Basta um detalhe métrico e todo o poema está errado e tem de ser escrito tudo de novo. Persistência. No caso de um soneto de paixão é preciso que esta dure.

Texto original do post:

Dedicado aos corruptos, saiu-me um soneto, mauzote, mas um soneto (um ritmo muito sincopado, que não me apetece polir por enquanto)

Título: Prostíbulo

Prostíbulo onde espírito e razão
De vaidade é sede. Fato completo:
Vazio sorrindo, num esgar abjecto,
Corrupto, sisudo, sem coração:

Vende-se na rádio e televisão,*
Seu palavreado, sem nexo, infecto...
Sempre politicamente correcto,
Mas sua lógica é total disrupção.

Vende ideiais, princípios, para somar:
Votos, prebendas, cargos e dinheiro;
Colecciona tudo sem nada amar,

Soma contas bancárias no estrangeiro.
Capaz de vender a alma e o pandeiro:
E o povo continua nele a votar...

*- Ler Té-lé-visão

Hoje volto ao soneto que gostaria de escrever, fiz um teste silábico crescente em 14 versos.
Estou mesmo sem vontade para a música, digo eu escutando Ivor Bolton ao cravo, num disco de 1999, da ASV digital, trancrições de JSBach para tecla de concertos de Vivaldi, Marcello, Ernst e anónimos. Um bom disco: um cravista e músico excelente...

Preparação

Nexo:
Pista,
Lista,
Sexo.

Resista:
Complexo,
Amplexo,
Autista.

Sem vontade
De te amar,
De verdade,

Sem liberdade,
A soçobrar,
Morro ao luar!

Ena, ena, consegui começar em uma sílaba e acabar em quatro, qualquer dia estou nas dez do verso alexandrino. Resta-me continuar a ir buscar coisas ao baú do Leite de Faria.
Outro nome para este blog, o blog do "crítico musical que gostaria escrever um soneto" um destes dias, que já ousou tentar milhões de vezes e nunca conseguiu acabar...

Recuso-me ao banal.
Conheço aqui, nos blogs, pelo menos um blog criado por um artista do venal, do banal, do obsceno, um obcecado por sexo, por obscenidades rituais, quase que catárticas, não nego que tem alguma graça, mas é uma graça oriunda de uma profunda tristeza. Da sua demência, da sua incapacidade de se transcender pelo belo, indo ao horrendo como forma de afirmação. Divertido se não fosse trágico, é pelo lado trágico que eu olho estes desgraçados.

Não, recuso-me a citá-lo.

Poesia enviada por um amigo, inspirado por uma poesia da Maria.

Eu sou a ilusão,
desvario louco, sede de ideal
que vivifica e mata a razão.

Eu sou o sonho,
fonte do bem e do mal,
ingénuo Iago ao meu irmão ponho,
no mesmo acto, esperança e laço.

Eu sou razão de viver,
onírico, leve e cruel passo,
dou morte e faço nascer!

Eu sou fonte de impérios,
de religiões e de credos;
de amores eternos e... menos sérios,
às crianças dou pavorosos medos.

Eu sou pretexto de ganância
na alma ressentida.
Invocado em alegria e tormento:
sonho dos anjos ser ânsia!

Disse o poeta que comando a vida,
mas o meu supremo sentimento
é a felicidade pressentida
de aos despojados dar alento.

Anónimo do século XX

Mais um inédito da minha colecção de poesias manuscritas de Abel Leite de Faria:

Olho-te, és uma face que não vejo,
Um receptáculo da tua alma,
Uma imagem sem par, calma
Mesmo quando te beijo...

Partes...

Triste semblante acossado,
Rosto longínquo, na multidão.
Procuro-te à noite, em vão.
Mas não vejo teu vulto amado...

Partes...

Numa frialdade iluminada
Por um Inverno antigo,
Procuro o teu consolo amigo,
Mas só vejo a fria estrada
Que não me leva a nada.

Partes...
De amar-te perdi as artes.

Abel Leite de Faria (1953)

Começou a berrar com dor de parto
Certa montanha, e fez tamanho estrondo,
Que acudiu muita gente, a qual supondo
Que dali nasceria uma cidade
Maior do que Paris, eis nasce um rato,
Quando por esta fábula discorro,
E observo que o sentido é verdadeiro,
Logo se me afigura autor inchado,
Que diz: «Eu cantarei a horrível guerra,
Com que os filhos da Terra
Sacrílega invasão nos Céus tentaram,
E a Jove assoberbaram.»
Promete grandes coisas, coisas belas;
Que produz? - Bagatelas.


Manuel MAria Barbosa du Bocage


Palavras, poetas, leitores e o mundo

Trombetas de Jericó clamam:
por todos aqueles que te saúdam,
lembram à Orbi os que amam
as linhas pretas escalavradas,
Mós, que a todos mudam,
em rochas duras talhadas,
são assim as palavas amadas:

Ideias em turbilhão, sempre sentidas,
mostram um estranho, mas belo fundo.
Angústia trágica que penetra
nas feridas da imortalidade, doridas.
Asceta na forma, conteúdo de poeta:
é assim a roda do mundo.

Uma poesia encontrada na Antologia da Natália Correia e dedicada a António Botto, não digo o autor para estimular a curiosidade e levar o leitor a consultar a referida antologia, que é mesmo antológica...

Nota de 29 de Maio - Emendei a mesma, uma vez que fui vítima de uma brincadeira da minha secretária que digitou o texto no Word, onde se deveria ler: "macios como rosas" estava escrito "macios como o Fernando Rosas" o que me deixou verde de indignação, ela não pensava que este texto era para publicar, e pensou que eu estava a dar-lhe trabalho para ver como se desenvencilhava com um texto mais "complicado", ou para a acupar.
Cá vai a versão emendada com o meu pedido de desculpas a Fernando Rosas!

Tenho preguiça e sono
a alma e o corpo nu,
Tenho a fobia de cono,
ai quem me dera um fanchono
que me quisesse ir ao cu!
Tenho preguiça e sono
a alma e o corpo nu.

Tenho sono e preguiça
sou um homossexual,
em mim o prazer se atiça
ao ver a potente piça
de um plebeu rude, brutal...
Tenho sono e preguiça
sou um homossexual.

Tenho haréns, tenho serralhos
de másculas mariposas,
Tenho seiscentos caralhos,
uns rijos quais férreos malhos,
outro macios como Rosas.
Tenho haréns, tenho serralhos
de másculas mariposas.

Tenho o corpo enlanguescido
por volúpias siderais.
Tenho o cu prostituído
por mangalhos bestiais.
Tenho o corpo enlanguescido
por volúpias siderais.
Tenho o corpo enlanguescido
por volúpias siderais.

Levai nos vossos traseiros
poetas da nossa terra!
Marzapos são os braseiros
do amor. E, paneleiros,
vereis o que o gozo encerra.
Levai nos vossos traseiro
poetas da nossa terra!

Viva

Viva o grande cabeça de turco, o desalmado.
Viva a grande porta e o grande poeta sagrado.
Viva a vontade de amar quando a morte nos espreita.
Viva a sagrada espelunca.
Viva o grande demiúrgo.
Viva o intangível zaroastro.
Viva a trágica indefinição e a Doce Sedução.
Viva o jogo da indiferença.
Viva a suave Indolência.
Viva o poeta em rimas.
Viva o poeta sem rimas.
Viva a incapaz demência.
Viva o contador pesado.
Viva a inatingível adoração.
Viva a nudez chocante.
Viva a loucura alucinante.

Uma perspicaz proficência
Tenho por ti: alucinação.
E a impossível satisfação
Ao me ser o jogo vedado.

27.5.03

A urgência de escrever um soneto. O fim de tarde, hora de Rilke, concerto bwv 1052 de Bach, uma pilha de CD's em cima da secretária para ouvir, e calma, a calma de um fim de tarde, do fim da Primavera, longo, demasiado longo. Para quando a nocturna escuridão que no abraça no seu embalo protector?
Não, não quero ouvir estes discos, música de cerca de 1240. Umas transcrições para cravo de Bach, os três discos do Cristophe Coin com cantatas de Bach, todos para relembrar, que tenho de falar sobre o assunto, e as partituras, lá me esqueci das partituras, mas o vício, sou acordado por dois vícios, o vício de não cumprir obrigações e o vício do jogo, do jogo da escrita, do soneto, lá volto eu ao soneto... O Bach também escrevia sonetos, claro que sim, muito mais belos do que qualquer um que eu possa escrever algum dia. Enfim dez sílabas, também os há com treze, em catorze versos. Música, ritmo, nada de rimas fáceis, uma teoria, um amor inteiro em catorze versos de dez sílabas, será que o génio vence catorze versos de dez sílabas, acentuadas em pontos chave, e com rimas internas para dificultar ainda mais a coisa. O Bach conseguia, com números dentro das suas obras, cada vez mais difícil, mais belo, mais intrincado, cada vez mais belo, vícios, este do jogo dos sonetos, e o Shakespeare, e o Camões e o Petrarca, e o Manuel Maria, e o Antero. Não me devia ter lembrado destes demiurgos que me espreitam por cima do ombro cada vez que começo um soneto, vou ouvir estes CD's que a minha vida não são só vícios, a noite está a cair, está pelo menos mais escuro agora...
Vem doce noite, embala este Bach que tenho para ouvir, mais a música de 1240. (ou será 1260?)

Sonet 1

From fairest creatures we desire increase,
That thereby beauty's rose might never die,
But as the riper should by time decease,
His tender heir might bear his memory:
But thou, contracted to thine own bright eyes,
Feed'st thy light'st flame with self-substantial fuel,
Making a famine where abundance lies,
Thyself thy foe, to thy sweet self too cruel.
Thou that art now the world's fresh ornament
And only herald to the gaudy spring,
Within thine own bud buriest thy content
And, tender churl, makest waste in niggarding.
Pity the world, or else this glutton be,
To eat the world's due, by the grave and thee.

Shaxpere

Shakespeare (como se esceve hoje)

26.5.03

Na mão de Deus

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva no colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,

Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!

Antero

Os sonetos de Antero de que gosto mais:
Primeiro o Lindíssimo Nocturno, onde o poeta perpassa no poema, sussurros, como passam as águas e as brisas nocturnas, os espíritos e os ideiais. Espírito que flutua por sobre o poema, cavando as palavras imagens de sombra, desilusão e cumplicidade.
Espírito nocturno cujo fogo consumiu em delírio e angústia o poeta filósofo queimando-o até para além da morte e do suicídio, sem nunca matar a sede de ideal, que Antero nos soube dar, a sede e o ideal:

Nocturno

Espírito que passas, quando vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo - triste e lento -
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!

Antero

23.5.03

A obra de arte como realidade caótica.

Cartesianismo, linearidade, um sonho de qualquer crítico.

Pediram-me uma crítica sobre a última Ariana em Naxos do San Carlos. Que fazer, pensei eu, não podia ser "muito extensa", por favor "não sejas fracturante", "pelo menos, demasiado" mas "tens toda a liberdade", não te esqueças que eles "pagam uns bilhetes", ou que "não é conveniente dizer muito mal" afinal temos de apoiar a cultura e andam por lá uns rapazes e raparigas que nos podem se "úteis no futuro", ou o ainda estafado mas sempre repetido: "ainda te fazem uma espera". Olha são duas da tarde, tens até às 15h30m, vê se te despachas...

Onde fica Hoffmansthall, onde fica Strauss no meio disto tudo? Pergunto eu. Onde assenta o debate entre o mundo clássico e o mundo popular, provavelmente contemporâneo. Onde foi o velho Hugo buscar a inspiração? Onde deixar em breves linhas uma citação do Bourgeois Gentilhomme de Molière.

Cantores reaccionários versus actores "prá-frentex", ou esteriotipos versus flexibilidade criadora? O génio de Strauss conservador, contra Hugo o inovador? A orquestra imensa de Strauss contra a orquestra de câmara proposta pelo Hugo? Qual destes mundos representa Hugo, qual destes mundos, ou planos representa Richard? Porquê a necessidade de identificações, de buscas, procuras de referentes? Os referentes existem mesmo? Ou serão apenas âncoras que nós utilizamos para balizar o inabalizável: o génio intuitivo e criador. Muito pensado mas nunca atingido pelo crítico, porque sendo nós destinatários das obras não estamos dentro do cérebro, da ideia do criador, somos sim recriadores, refazedores, logo as nossas balizas são apenas marcos da nossa própria incapacidade de criação da obra estudada. Falo como crítico e como destinatário, porque todos os destinatários da obra são críticos da mesma, senão seriamos todos nós, espectadores, meros seres acéfalos sem sequer capacidade de gostar, de fruir.

Porquê dualidades e antíteses, seremos afinal tão cartesianos, tão maniqueístas que não conseguimos ver a várias dimensões, que não conseguimos ver estruturas muito pouco lineares, que deixam um campo imenso à nossa interpretação. Círculos e parábolas são apenas referentes limitativos de uma realidade caótica, não acrescentam nada aos segmentos em que numa ponta temos um pólo positivo e noutra o pólo negativo.

Fulano esteve bem, sicrano esteve mal, onde está o meio termo, recuso a definição linear, todos estiveram simultaneamente bem e mal, cada um dentro de si, cada um de nós com uma realidade diferente, com uma imagética afectada pela nosso percurso e pela estrutura mental que nos forma.

Lá escrevi umas linhas, nem falei muito de antíteses, nem falei da não linearidade da obra, comentei que fulano ia bm, sicrano ia mal, a orquestra "antespêlo" contrário, e AH! AZAR! Esqueci-me, esqueci-me de falar nas luzes, que tão bem sublinharam a cena da segunda parte, transformado personagens de carne e osso em seres diáfanos e mitológicos, deambulando em universos paralelos, e já cá faltava dizer, num mundo caótico absolutamente não linear.

Que crítica tão má que acabou por sair. Uma porcaria, mas a rapaziada gostou, é o que importa, sinto-me uma prostituta... Ao menos ainda não é desta que tenho uma espera!

Crítico

Soneto (segundo sei inédito, encontrei-o em manuscrito)

S. Martinho do Porto

Suave e inquieto o vosso olhar,
Olha longe de mim e do meu pranto,
Pousado sobre o calmo encanto
Do agitado da ondas a marulhar:

Ao longe um barco voga no mar,
Indiferente ao meu desencanto,
O Sol poente estende o seu manto
Na esteira onde se reflecte vosso olhar.

Mas o meu mal é passageiro,
Um riso ilumina vossa face,
Doce recordação do estro inteiro:

O Sol nos vossos olhos pressagia.
Amor que, p'ra meu engano, renasce!
P´ra logo regressar minha agonia...

Abel Leite de Faria cc de 1950

Soneto

O Palácio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura

Mas já desmaio...exausto e vacilante
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante,
Na sua pompa e aérea formosura

Com grandes golpes, bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas de ouro, com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!

Antero de Quental

Soneto


Sobre estas duras, cavernosas fragas,
Que o marinho furor vai carcomendo,
Me estão negras paixões n'alma fervendo
Como fervem no pego as crespas vagas;

Razão feroz, o coração me indagas.
De meus erros a sombra esclarecendo,
E vás nele (ai de mim!) palpando, e vendo
De agudas ânsias venenosas chagas.

Cego a meus males, surdo a teu reclamo,
Mil objectos de horror co'a ideia eu corro,
Solto gemidos, lágrimas derramo.

Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dizes-me que sossegue, eu peno, eu morro.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

Soneto:

Tu, que, em torpes desejos atolado,
Vergonhosos Prostíbulos frequentas,
Tu, que os olhos famintos alimentas
No cofre, de tesoiros atulhado:

Tu, que do oiro, e da púrpura adornado,
Quase de igual a Júpiter ostentas,
Bebendo as frases vis, e peçonhentas
De bando adulador, que tens ao lado:

Monstros, que desonrais a Humanidade,
Despresando a pobresa atribulada
E trangredindo a a Lei da Caridade,

O Desengano ouvi, que assim vos brada:
Tremei da pavorosa Eternidade,
Tremei, Filhos do Pó, Filhos do Nada.

Manuel Maria Barbosa du Bocage

19.5.03

Ópera em S. Carlos, Ariadne auf Naxos.

O Crítico dos críticos esteve no S. Carlos. Sábado 20h horas. As estreias do S. Carlos, ah as estreias do S. Carlos! A rapaziada toda do costume. A Cristina Fernades do Público, e mais quem? O corpo diplomático em peso, uns chefes de gabinete, uns gajos com massa e os habitués, espécie de troglodita, não propriamente musical, que continua a poluir as estreias do S. Carlos, tipo Grupos de Amigos do S. Carlos, e que também insiste em dar cabo da Antena 2.

O que notámos de especial?

Claro, a ausência do cheiro a naftalina, tão próprio dos anos 80! E tosses? Curiosamente as tosses e catarros não foram muito ferozes. como se sabe a tosse do S. Carlos podia arrumar com a carreira de qualquer tenor mais fracote dos nervos. Mas o público da estreia anda algo foleiro, uns tipos em calças de ganga, com o cabelo irsuto e os dentes estragados. E palmas? Sim claro as palmas a despropósito após um trecho mais inflamado da Zerbinetta, que neste caso devia ir de lambreta, tão má era a sua voz, uma sopraninho ligeira de voz feia e a lembrar uma cana rachada.

Ah, esquecía-me, o Seabra, precisamente de calça de ganga e cabelo irsuto! Batendo palmas da forma esgrouviada que lhe sabemos, assim tipo estertor de asmático epiléptico. O homem não parava quieto na cadeira. Eu não me mexi na minha, uma vez que como o Seabra é o "homem critica tudo o que mexe", poderia ser imediatamente alvo de uma severa admoestação no Público.

Enfim a encenação foi muito jeitosa, melhor no prólogo, demasiado hierática na ópera, propriamente dita. Os cantores eram algo mauzotes, excepção feita à Michele, no papel de compositor na primeira parte. Ao contrário da Cristina Fernandes do Público, achei a Wachutka perfeitamente fabulosa em termos musicais e vocais, mas (aí até concordo) muito pobre como actriz.

A orquestra como quase sempre: muito má! Não há outra palavra, perdõem-me os mais sensíveis. Falta de ensaios, falta de músicos, cordas muito más, desafinação constante nos primeiros violinos, um saco de gatos, desastroso, não percebo como o Peskó, o maestro, não conseguiu pescar muito daquela massa de trinta e seis músicos que deveriam ser o que de melhor tem a Orquestra Sinfónica Portuguesa.

E agora tenho de ir criticar um filme, porra não! Que já estou a ficar como o "homem critica tudo o que mexe", afinal vou comer um sushi, para os lados da Bica do Sapato, caro mas ao menos é higiénico.

Crítico de Música

A. M. Seabra é o pluri-crítico do Público que critica tudo o que se pode imaginar, desde culinária até sociologia, passando por teatro, cinema, ópera, música clássica, desde a antiga à contemporânea, o tal Augusto que gostava de ser chamado de Papa da crítica portuguesa, um homem que sabe de planos americanos e estética pós moderna, um tipo que passa por Boaventura Sousa Santos como por um donut, mas que nunca percebeu o artigo de Sokal.
Seabra é o crítico do público que critica tudo o que mexe, o chefe de fila da rapaziada que alinhava a parte cultural do jornaleco que começou por ser de esquerda, mas vai mudando de director e de linha quando muda, ou se prepara para mudar, o governo...

17.5.03

Benvindos ao novo blog em Português, crítica musical, crítica aos críticos.

Crítico

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