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28.4.06

Concerto da Metropolitana 

Hoje na Sociedade de Geografia de Lisboa apresentou-se a Orquestra Metropolitana em concerto.
Devo dizer que a prestação da orquestra dirigida por Michael Zilm me surpreendeu pela positiva. Com excepção do Bach, que considero desadequado realizar por uma formação deste tipo apesar da poesia que Zilm conseguiu transmitir nos andamentos finais do Concerto Brandburguês nº1 em Fá Maior, onde tivemos direito à graça de ter violinos no segundo trio (nas repetições) em harpejos...
De facto o Mendelssohn do concerto em Sol menor opus 25 para piano e orquestra por uma Eleonora Karpukhova sensível, clara, de um legato e de um fraseado notáveis, subtil e poética, foi conduzido por Zilm em grande estilo.
A filigrana do Concerto para orquestra de câmara em Mib maior de Stravinsky foi plenamente explanada pelos solistas da Orquestra Metropolitana num concerto que terminou em beleza com a Sinfonia Italiana de Mendelssohn. Recordo com prazer a beleza etérea do segundo andamento, o belíssimo andante com moto e a doce suavidade do terceiro andamento, con moto moderato, que Zilm dirigiu sempre de forma sensível e com uma produção sonora de grande beleza sem nunca cair na monotonia produzindo jogos de sonoridades e de enunciados temáticos de grande unidade interpretativa e de articulação muito trabalhada. O andamento final foi um culminar propulsivo e entusiástico de uma obra conduzida com maestria. Um belo concerto de uma orquestra em franco progresso. Escutei esta mesma sinfonia pela Gulbenkian que me pareceu ter uma interpretação bem mais cinzenta, apesar de um último andamento também feito com entusiasmo. Neste caso a Metropolitana superou claramente a Gulbenkian nos andamentos lentos em que a capacidade de direcção, poesia, erudição e subtileza de Zilm conduziram a obra para pontos difíceis de explorar por maestros menos profundos.

Pontos altos: produção sonora nas cordas e sopros. A direcção inspirada e motivadora de Zilm. Entusiasmo e musicalidade da resposta da orquestra perante as solicitações de Zilm. Flautas em grande no presto da Italiana, clarinete, oboé e fagote com prestações muito boas. Gostei em particular do fagote pela segurança e técnica. O concertino também me impressionou pela sua qualidade (apesar de discordar um pouco da forma como abordou o concerto de Bach nas articulações e no uso das cordas múltiplas). O primeiro trompa em Bach e Stravinsky é também um excelente músico.

Pontos a melhorar: alguma desafinação nos baixos (violoncelos e contrabaixos), que se notou no concerto de Brandeburgo no.1 de Bach e no concerto para piano de Mendelssohn. Segundo trompa ainda terá de trabalhar muito para conseguir tocar sem falhas o mesmo concerto de Bach, mas está a subir de forma desde a última vez que o escutei.

Crónica 3 - Programa Seara de Sons Antena 2 - Rossini 

Rossini no São Carlos e “a pobre Clementina”

Durante os anos 20 do século XIX, Rossini foi o compositor preferido do público do Teatro de São Carlos. Crónicas e outros relatos da época referem invariavelmente a música do compositor italiano como o principal modelo do gosto, em detrimento de Mozart ou mesmo do português João Domingos Bomtempo. As primeiras obras de Rossini apresentadas em Lisboa foram L’Italiana in Algeri e Tancredi na temporada de 1815-16. Em 1819 estreava-se La Cenerentola, La Gazza Ladra e O Barbeiro de Sevilha, óperas compostas apenas dois ou três anos antes.
A presença de Rossini nas programações do São Carlos tornou-se cada vez mais frequente, atingindo o auge em 1826 com um total de oito óperas. Entre elas inclui-se a primeira audição de Adina, uma encomenda do filho do Intendente Geral da Polícia, Diogo Inácio de Pina Manique. Além da imprescindível reposição do Barbeiro, em 1825 foram levadas à cena novas produções de Bianca e Falliero, L’Inganno Felice, Il turco in Italia, Aureliano in Palmira, Demetrio e Polibio e La Scala di Seta. De todas elas foi O Barbeiro aquela que atingiu maior popularidade, vindo a ser programada em cerca de 70 temporadas desde a estreia portuguesa até à actualidade.
Foi também no âmbito de uma representação do Barbeiro de Sevilha, em 1849, que ocorreu um dos mais curiosos episódios da história do São Carlos. Relatado por Francisco da Fonseca Benevides no livro que publicou em 1883 acerca do teatro lisboeta, ilustra quer a atitude frívola e implacável do público e da orquestra, quer um modelo de recepção do espectáculo operático bem longínquo do actual. O relato tem também implícita uma atitude misógina para com a cantora Clementina Cordeiro, que teria falta de encantos femininos., bem como o enraizado descrédito perante os intérpretes nacionais.

“Foi n’esta época que se deu um engraçado episódio com Clementina Cordeiro, a unica dama lyrica que produzu até hoje o conservatório de Lisboa! Tendo debutado de prima-donna na Parisina em 1845, não tinha manifestado grandes qualidades nem de voz, nem de canto, nem de plástica, baixando logo aos papéis de comprimaria e sendo alvo das troças do pouco patriotico público de São Carlos. Uma noite, em que se cantava O Barbeiro de Sevilha, lembraram-se alguns dos janotas da epocha de pedir bis à ária da velha que cantava Clementina; esta acedeu a tão inesperado triumpho: mas oh surpresa! Da segunda vez que cantou a ária não poude jamais entoar! A orquestra, de antemão combinada com os taes janotas, havia tocado hum tom acima! Acolhido o episodio com delirantes gargalhadas, novos, numerosos e imperativos bis obrigaram a pobre Clementina a cantar terceira vez a ária de Bertha do Barbeiro; se na primeira repetição não pudera affinar por muito alta tessitura, agora também não podia affinar, porque estava baixa demais; os maganões da orquestra haviam tocado hum tom abaixo! A hilaridade do público attingiu então o apogeo do delírio; este ridículo mas engraçado episódio foi o maior sucesso que athe hoje tem tido o conservatorio de Lisboa, na sua produção de cantoras para o theatro lyrico!”

Cristina Fernandes

25.4.06

Crónicas 1 e 2 - Seara de Sons - Programa I e II - Te Deum 

Te Deum de fim de ano

A tradição de cantar o Te Deum no dia 31 de Dezembro como acção de graças pelo ano que passou foi ao longo de várias décadas uma das cerimónias litúrgico-musicais mais imponentes da Lisboa setecentista. Importantes obras de carácter festivo, com grandes efectivos vocais e instrumentais, foram compostas para esta ocasião, que decorria num verdadeiro cenário teatral. As igrejas eram decoradas com armações de veludo, seda e damasco e o codificado ritual religioso assumia uma pompa coreográfica de grandeza e esplendor.
O Te Deum no último dia do ano era habitualmente interpretado pelos Jesuítas na suas igrejas principais, realizando-se em Lisboa na Igreja de São Roque. Depois da promoção da Capela Real a Patriarcal em 1716 e do grande investimento de D. João V na importação dos modelos cerimoniais e musicais romanos, o Rei Magnânimo determinou em 1718 que esta cerimónia fosse celebrada à maneira de Roma a expensas do Patriarca. Para essa ocasião o carmelita Frei Antão de Santo Elias compôs um Te Deum “a quatro coros com diversos instrumentos”, cuja execução foi descrita nos relatórios que o Núncio Apostólico enviava de Lisboa para Roma:

“A Musica foi a melhor que se pôde fazer, e com a quantidade possível de instrumentos e trombetas, correspondendo alternativamento ao Coro dos Músicos doze grupos de Frades de várias Religiões e de meninos estudantes cantores, dispersos entre o povo da Igreja, os Frades entre os homens e os meninos entre as Mulheres, regolando-se cada um pelo seu Mestre de Capela.”

Archivio Segreto Vaticano, Segretaria di Stato, Portogallo, vol. 75, ff. 4-5, 3 de Janeiro, 1719

Esta descrição remete para uma obra policoral de amplas dimensões e pressupõe uma distribuição dos vários intervenientes por diferentes pontos da igreja que teria em mente o uso da espacialização sonora como componente estética. Esta dimensão não tem sido por enquanto estudada mas parece ter sido frequente ao longo da primeira metade do século XVIII. A sua prática vem ao encontro da adopção por alguns compositores portugueses das técnicas policorais do Barroco colossal romano (conforme eram praticadas por Benevoli, Pitoni ou Carissimi). Estas continuaram a dominar as obras dos anos seguintes em cerimónias cada vez mais sumptuosas que chegavam a durar duas ou três horas. Infelizmente a maior partes destas partituras perderam-se no Terramoto de 1755. Em 1720 a Gazeta de Lisboa Ocidental de 4 de Janeiro referia “um Te Deum a quinze coros, divididos por cinco coretos, composto por Cristovão da Fonseca, padre jesuíta na Casa Professa de São Roque.
Foi também neste contexto que em 1734 nasceu o monumental Te Deum de António Teixeira, para cinco coros, oito solistas e orquestra, ou o Te Deum a quatro coros de Domenico Scarlatti, cuja partitura infelizmente se perdeu.

CRÓNICA II (continuação da anterior)

No último programa falámos da tradição de cantar o Te Deum no dia 31 de Dezembro na Igreja de São Roque, em Lisboa, durante o reinado de D. João V. Esta cerimónia de acção de graças pelo ano que passou era uma das mais imponentes da Lisboa setecentista, realizando-se a partir de 1718 segundo os modelos musicais e rituais romanos por ordem do Rei Magnânimo. Na segunda metade do século XVIII, a tradição manteve-se, continuando a dar origem a importantes obras musicais escritas pelos principais compositores portugueses da época.
Em 1752, dois anos depois da morte de D. João V, o Te Deum do último dia do ano foi da autoria de João Rodrigues Esteves, que tinha sido bolseiro do Seminário da Patriarcal em Roma e a quem a Gazeta de Lisboa não poupa elogios, afirmando que “ havendo já feito outra composição musica do mesmo Hymno, nesta parece que se excedeu a si mesmo, tanto na Ciencia, como no bom gosto.” (Gazeta de Lisboa, 1-1-1752; Suplemento Num. 52, 1039-1040)
Após a expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal e da entrega da Igreja de S. Roque à Misericórdia, a tradicional cerimónia de fim de ano passou a realizar-se na Capela Real da Ajuda. O espaço seria mais exíguo e o gosto musical tinha mudado em direcção aos estilos do pós-barroco mas manteve-se o fausto da cerimónia, à qual continuavam a assitir a corte, os Grandes do reino e elementos do corpo diplomático, entre os quais o Marquês de Bombelles, embaixador francês em Lisboa:

“Quando nos levantámos da mesa fomos ao Palácio da Ajuda para assistir ao Te Deum cantado em Acção de Graças pelos favores espalhados por Deus sobre o Reino de Portugal no decurso do ano de 1786. (…)
O Te Deum executado esta noite foi composto por um jovem português; tanto o conjunto da peça como os seus detalhes honram o talento do autor. A Capela da Rainha, apesar de muito pequena, é melhor proporcionada do que o resto do Palácio. O galão de ouro sobre damasco carmesim brilha por toda a parte. (…)
Este Te Deum e toda a despesa a que ele obriga fazem-se a expensas do Patriarca, que deste modo oferece à Rainha o seu presente de Ano Novo. Sua Majestade fica numa tribuna com as Princesas da Família Real. O Príncipe do Brasil e o irmão ficam numa tribuna ao lado mas não entram nem saiem pela mesma porta por onde passam a Rainha e as Princesas.”
[Diário do Marquês de Bombelles, 31 de Dezembro de 1786; p. 73:]

As grandes texturas policorais (decorrentes da estrutura do texto litúrgico) da primeira metade do século XVIII são agora normalmente reduzidas a dois coros e solistas, servindo de veículo a linguagens musicais mais próximas do estilo galante ou do classicismo. Foi para os últimos dias dos anos de 1769, 1789 e 1792 e para a Capela Real da Ajuda, que João de Sousa Carvalho compôs os seus três Te Deum, para dois coros, solistas e orquestra, assim como outros compositores ligados à Capela Real e Patriarcal, como por exemplo Jerónimo Francisco de Lima, António Leal Moreira, Marcos Portugal ou o cantor e compositor italiano José Totti.
O último Te Deum de Sousa Carvalho, recorre a cinco solistas e duas orquestras, para além de dois coros, contando com longas árias solísticas de inspirado recorte melódico, ágeis figurações de coloratura e uma sintaxe musical de pendor clássico.

Cristina Fernandes


Concertos de Domingo na Festa da Música - III 

Concerto 82
Pequeno Auditório 16h15
Carlos Mena contratenor
François Fernandez viola de amor
Ricercar Consort
Philippe Pierlot direcção
Vivaldi: Stabat Mater em Fá menor RV 621
Vivaldi: Concerto para viola de amor em Ré menor F II nº 2
Vivaldi: Nisi Dominus RV 608

Assisti ao Stabat Mater de Vivaldi com Carlos Mena. Devo dizer que a repetição do concerto de há três anos talvez fosse desnecessária uma vez que poderíamos ter aproveitado para escutar Mena noutro repertório. Mais uma vez o cantor e o agrupamento de Pierlot foram notáveis. Mena está cada vez mais refinado e com mais estilo.
Um grande contratenor num momento memorável de maturidade e qualidade vocal. Voz de grande beleza tímbrica, de naturalidade musical e de expressividade. Domínio do texto do Stabat Mater transmitindo profunda emoção. O Ricercar consort mostrou-se à altura do acontecimento, moldando-se com plasticidade ao dizer e à retórica de Mena. Uma conjugação de cultura musical, cultura literária e técnica perfeitas.
Um dos grandes concertos deste ano. N.T. 18, N.A. 18.

Concerto 107. Sala La Pouplinière 18h15
La Venexiana
Claudio Cavina direcção
Scarlatti: Salve Regina em Lá menor
Scarlatti: Stabat Mater

Um dos textos litúrgicos (a par do Stabat Mater) mais belos que existem. Claudio Cavina, contratenor, e Roberta Mameli, soprano, apresentaram o Salve Regina de D. Scarlatti. A interpretação algo a frio não foi totalmente conseguida, com ligeiros desacertos de afinação. No entanto o texto do Salve Regina foi cantado com invulgar religiosidade e emoção.
O ponto mais elevado viria a seguir com o extraordinário Stabat Mater a dez vozes e baixo contínuo, escrito ainda em Roma, segundo Claudio Cavina ou ainda Jürgen Jürgens supõem, parece que surgem outras teorias mais recentes, como o musicólogo J.P. Alvarenga nos explicou que, provavelmente, terão base documental mais forte e atribuem esta obra a Lisboa em 1721. Em Lisboa existe uma cópia do Te Deum a oito vozes mais b.c., que imagino ser contemporânea do compositor, na Sé Patriarcal de Lisboa onde tive o prazer de a consultar.
Agradeço ainda a João Pedro d'Alvarenga que me recordou que a cópia de lisboa não era do Stabat Mater que confundi com o Te Deum. Acrescenta o musicólogo: "Subsistem seis cópias setecentistas, mas na Áustria, na Alemanha (duas), em Itália (duas) e nos EUA. Por outro lado, crê-se agora que este Stabat Mater possa ter sido escrito para a Patriarcal de Lisboa, possivelmente em 1721."

É uma obra complexa de sentimento, religiosidade e de técnica composicional. As vozes cruzam-se em múltiplas combinações. Os quatro sopranos, dois contraltos, dois tenores e dois baixos têm partes complexas que apenas coros muito bem preparados ou solistas de alto nível podem abordar. É um texto virtuosístico escrito de forma "antiga" mas utilizando todos os recursos conhecidos por Scarlatti que domina com habilidade polifonia e contraponto, recorrendo a dissonâncias para gerar desconforto e dor ou fazendo pausas súbitas para explorar as ressonâncias dos grandes espaços eclesiais onde se celebraria a liturgia criando efeitos de um dramatismo surpreendente.
Claudio Cavina recorreu a uma interpretação cheia de sentimento e religiosidade, lenta, quase solene, explorando até ao extremo a beleza sonora do conjunto instrumental: teorba, violone e orgão no baixo contínuo; e o conjunto vocal da Venexiana, agora a dez vozes, o dobro da formação usual.
Devo dizer que todos os cantores foram superlativos e estiveram em perfeita sintonia. Dez vozes em equilíbrio perfeito. Timbres muito belos nos sopranos, no segundo contralto, Cavina realizou o primeiro contralto também de forma superior, nos tenores e nos baixos. Um Stabat Mater perfeito. Pena a sala ser demasiado pequena para a força polifónica de um orgânico tão superlativo. Pena também a ausência de reverberação da sala.
Após o concerto Claudio Cavina quase nos garantiu que gravaria este Stabat Mater naquilo que será uma gravação antológica certamente.
Um dos melhores concertos da Festa da Música, quer pela interpretação, quer pela qualidade da música. N.A.: 20, N.T. 18.
Má nota para o programa que nos diz que Scarlatti tinha a paixão pelo jogo e que passou por dificuldades financeiras, boatos provavelmente falsos e dos quais não existe a menor documentação coeva.

Concerto 108. Pierre Hantaï cravo. Obras variadas de Bach.

O programa mais uma vez não correspondeu ao que Hantaï tocou. Sei que tocou o prelúdio e fuga BWV 902 anunciados e uma suite inglesa BWV 807 e mais qualquer coisa no início. O extra foi o início da partita nº6.
Hantaï começou irritado, desconcentrado, a fazer fita olhando com ar de mau para o público.
Passou o tempo todo a bater no cravo e no teclado como se estivesse em fúria. Conseguiu um excelente primeiro andamento da suite inglesa e um extra convincete.
Nunca criou magia, tentou improvisar, rechear a música de acordes e de ornamentações subtis e densas mas falhou sempre na técnica; a parte artística sofreu naturalmente com o dia não de Hantaï, acabaram por ser demasiadas notas erradas, notas esmagadas e passagens pouco limpas para se obter qualquer fruição estética, ao nível do banal.
Um recital fraco para Pierre Hantaï o que foi uma pena, uma vez que falhei o Dido e Eneias que tinha recomendado aqui e que tinha previsto inicialmente. N.T. 12, N.A. 13.

24.4.06

Stabat Mater 

Segundo Claudio Cavina um dos mais belos textos literários em termos de poesia pura, em termos de expressão de emoções, religiosidade, e em termos simbólicos:

Stabat Mater dolorosa,
juxta crucem lacrimosa,
dum pendebat Filius.

Cujus animam gementem,
contristatam ac dolentem,
pertransivit gladius.

O quam tristis et afflicta
fuit illa benedicta
mater unigeniti!

Quae moerebat et dolebat,
et tremebat dum videbat,
nati poenas incliti.

Quis est homo qui non fleret,
Christi Matrem si videret
in tanto supplicio!

Quis non posset contristari,
piam matrem contemplari,
dolentem cum filio?

Pro peccatis suæ gentis
vidit Jesum in tormentis,
et flagellis subditum.

Vidit suum dulcem natum,
morientem, desolatum,
dum emisit spiritum.

Eia Mater, fons amoris,
me sentire vim doloris,
fac ut tecum lugeam.

Fac ut ardeat cor meum,
in amando Christum Deum,
ut sibi complaceam.

Sancta Mater istud agas,
crucifixi fige plagas,
cordi meo valide.

Tui nati vulnerati
tam dignati pro me pati
poenas mecum divide.

Fac me vere tecum flere,
crucifixo condolere,
donec ego vixero.

Juxta crucem tecum stare
te libenter sociare
in planctu desidero.

Virgo virginum praeclara,
mihi iam non sis amara,
fac me tecum plangere.

Fac ut portem Christi mortem,
passionis fac consortem
et plagas recolere.

Fac me plagis vulnerari
cruce hac inebriari
ob amorem filii.

Inflammatus et accensus
per te, Virgo, sim defensus
in die judicii.

Fac me cruce custodiri,
Morte Christi praemuniri,
confoveri gratia.

Quando corpus morietur,
fac ut animae donetur
paradisi gloria.

Amen.


Tankas 

A tanka ou tanca é um primo do Haiku, neste caso em versos de métrica 5-7-5-7-7 mas escritos em três linhas. Poesia subjectiva sobre sentimentos ao contrário do Haiku que deve ser escrito no presente e ser estritamente objectivo sem nunca esquecer a natureza, real e não imaginada ou correspondendo a sentimentos, e de métrica 5-7-5. Para mais informações ver http://www.kakinet.com/.



ho ni tsutau
namida nogowazu
icchaku no suna o shimeshishi hito o wasurezu

Nas mãos, um punhado de areia.
Lágrimas a escorrer pelas faces.
Como te esquecer?

aozora ni kie yuku kemuri
sabishiku mo kie yuku kemuri
warenishi niruka

Fumaça que se desfaz no céu azul
Fumaça que se desfaz melancolicamente --
Meu espelho

tomo ga mina ware yori eraku miyuru hi yo
hana o kai kite
tsuma to shitashimu

Quando todos os amigos
Parecem me superar, compro flores
E o íntimo reparto com minha mulher.

furusato no namari natsukashi
teishaba no hitogomi no naka ni
so o kiki ni yuku

Sotaque da minha terra
Vou à estação ouvi-lo
em meio ao povo

tôkai no kojima no iso no shirasuna ni
ware nakinurete
kani to tawamuru

Pequena ilha ao leste do mar
Brinco à luz da areia com um caranguejo
A face molhada de lágrimas.

ono ga na o honoka ni yobite
namida seshi
jûshi no haru ni kaeru subenashi

Não há retorno à primavera
Dos 14 anos que me chama
Com lágrimas nos olhos

kanashiki wa,
(ware mo shikariki)
shikaredomo, utedomo nakanu ko no
kokoro naru.

Triste o coração infantil que não chora:
Nem repreendendo, nem batendo
(também fui assim).

asobi ni dete kodomo kaerazu,
toridashite
hashirasete miru omocha no kikansha

Meu filho foi brincar
e ainda nao voltou
Me divirto com o trenzinho!

yoru osoku
tsutome saki yori kaeri kite
ima shinishi chou ko o kaki idaku

Retornando noite alta do trabalho
Agasalho forte ao peito o filho
Que há pouco esfriou para a vida

inochi naki suna no kanashisa yo
sara sara to
nigireba yubi no aida yori otsu

A areia fugindo vazia
Entre o vão dos dedos:
Inanimada tristeza!


Tancas extraídas de Takuboku Ishikawa, "Tankas"
Tradução: Masuo Yamaki e Paulo Colina. Edição original de Roswitha Kempf Editores
4a edição, 1991, por Massao Ohno Editor e Aliança Cultural Brasil-Japão


Concertos de Domingo na Festa da Música II 

Concerto 66. Grande Auditório 13h30.
Philippe Jaroussky contratenor
Laurence Paugam violino
Ensemble Matheus
Jean-Christophe Spinosi direcção
Vivaldi: Sinfonia da ópera “Griselda” RV 718
Vivaldi: “Sorge l’irato nembo” ária (II. 4) da Ópera “Orlando furioso” RV 728
Vivaldi: “Sol da te”, ária (I. 12) da Ópera “Orlando furioso” RV 728
Vivaldi: Concerto para dois violinos RV 513
Vivaldi: “Vedrò con mio diletto”, ária da Ópera “Il Giustino” RV 717, I. 7
Vivaldi: “Se in ogni sguardo”, ária da Ópera “Orlando finto pazzo” RV 727, I. 5

Esta estética não me atrai muito, já comentei aqui um concerto deste agrupamento e deste contratenor. Creio que a imprensa francesa entra rapidamente em histeria. Jarousky tem um longo caminho a percorrer em termos estéticos e de domínio do seu instrumento. Mais uma vez nas árias de bravura torceu-se todo e o público entrou em histeria. No caso das árias lentas mais uma vez foi mais comedido e demonstrou musicalidade e arte. Spinosi esteve igual a si próprio com uma direcção feita de cabriolas e pulos. No concerto de Vivaldi para dois violinos, apesar de alguma crítica mais encomiástica, não nos deu uma interpretação transcendente, descontados os efeitos e os exageros interpretativos, com crescendos violentos e ataques mais ou menos agressivos e pianos súbitos cada três compassos e trancadas com o arco nas cordas e etc, fica uma interpretação monótona que nem sequer atingiu a beleza da véspera no concerto La Notte.
As árias mais fáceis e com música mais pobre mas com mais efeitos espectaculares foram mais aplaudidas. O público mais uma vez entrou em delírio. A palhaçada compensa.
Se o concerto da véspera tinha tido o superlativo misturado com o efeito rasca, no concerto de domingo a impressão geral foi de monotonia. Concero para 13 de nota artística e 15 na técnica.
Uma palavra para o incrível flautista Jean Marc Goujon, carismático e feiticeiro, uma técnica superlativa e uma capacidade de sedução sem limite. O flautista de Hamelin deve ter sido antepassado de Goujon.

Concertos de Domingo na Festa da Música I 

Concerto 79. Pequeno Auditório 11h30
Núria Rial soprano
Giovanna Pessi harpa
Ricercar Consort
Philippe Pierlot viola da gamba e direcção
Bach: Cantata “Weichet nur, betrübte Schatten” BWV 202
Handel: Concerto para harpa, duas flautas de bisel e cordas Op. 4 nº 6

No programa logo a abrir "Núria" com acento no "u", depois no interior "Rial" passa a "Real" e o "Nuria" perdeu o acento, onde ficamos?

Uma cantata de Bach em que a cantora demonstrou sensibilidade e musicalidade, mas em que faltou corpo aos débeis agudos de Rial. A respiração poderia ser mais controlada também, cortar frases para respirar exige critério interpretativo o que nem sempre foi o caso.
O ensemble de Pierlot mostrou-se muito coeso e com uma sonoridade muito bela. Excelente a prestação em oboé de amor de Patrick Beaugirard, demonstrando que quanoo se sabe e se estuda e se têm qualidades é possível tocar um instrumento tão ingrato de forma perfeita.
Giovanna Pessi foi muito aplicada no seu concerto de harpa, mas infelizmente numa das passagens a solo, a terceira secção do primeiro andamento, enganou-se e perdeu-se inventando frases inteiras para regressar finalmente à melodia. Chegámos a temer que pudesse vir mesmo a parar, tal a atrapalhação. Falha de memória? O que é certo é que o concerto estava a correr de forma poética e bela. A partir desse ponto Giovanna passou a tocar a medo acabando por se libertar apenas no final do longo primeiro andamento. A parte restante do concerto de harpa foi muito elegante no fraseado e na ornamentação muito refinada escolhida pela harpista.
A cantata de Handel decorreu normalmente sem uma grande intensidade emotiva por parte de Nuria Rial mas com intervenções notáveis de Pierlot na viola da gamba.
Um concerto para 15 valores numa apreciação global.

Nota curiosa - Pierlot esqueceu-se do arco da sua viola aquando da sua reentrada em palco para a cantata de Handel, e foi a correr aos bastidores; voltou, alguns minutos depois, visivelmente atrapalhado. Deve ter-se esquecido do lugar onde tinha deixado o arco, inédito e pitoresco.

23.4.06

O melhor concerto 

Jean Tubéry, La Fenice, ensemble vocal de Namur.
Celebrate this Festival!
E celebrou-se a música no melhor concerto a que assisti nesta edição. Foi no Sábado, concerto nº 27.

O melhor concerto a que assisti hoje, Domingo: Venexiana, Stabat Mater de Domenico Scarlatti.

Piores concertos a que assisti:
Corboz à frente da Sinfonia Varsóvia e Ensemble Vocal de Lausane, pior nota artística: 0. O concerto com pior interpretação e mais desagradável a que assisti. Totalmente errado em termos estilísticos. Veja-se a diferença de escola, estilo, capacidade de absorção e de inteligência entre dois homens da mesma geração: Corboz (n. 1934) é um fóssil, Peter Neumann (n. 1940) tem a perfeita noção do que deve ser uma interpretação viva e historicamente informada da música barroca.
Ensemble Barroco de Limoges, violoncelo e director: Christophe Coin em música alemã, pior nota técnica. Quem tem um nome a defender deve evitar ser displicente e pouco profissional. Podem fazer muito mais.
Pior concerto em termos médios: Tallis Scholars (repertório alemão) 9 valores de nota técnica e 5 de nota artística, infelizmente já não passam daquilo.



Mais dados:

Provavelmente a melhor Festa da Música em termos organizativos e em termos de horários cumpridos e com um número de concertos muito equilibrado para uma cidade com dimensão de Lisboa. Apenas a capacidade das salas deixou a desejar, mas é o CCB que temos, 2 auditórios com cerca de 450 a 600 lugares viriam substituir algumas das salas utilizadas com benefício para público e instituição. A circulação foi muito boa, excelente ideia abrir a circulação em torno do pequeno auditório.

A qualidade dos programas de sala talvez tenha sido o aspecto mais descurado. Pouca informação, desgarrada e em alguns casos errada. Notas fora de contexto sobre compositores poderiam ter sido evitadas. Exemplo: notas sobre Almeida em concerto do Concertus Köln, absolutamente fora de contexto. Boatos não fundamentados sobre o vício de jogo de D. Scarlatti dados como certos nas notas de programa, segundo Pierre Hantaï, com quem falei, isso é um disparate. Andamentos errados em diversos concertos (Water Music por exemplo) ou trocas entre árias e recitativos noutros. Atribuição do título de contraltos aos tenores que fizeram as Lições das Trevas de Couperin, falei com um dos visados que estava visivelmente contrariado.

A qualidade dos agrupamentos escolhidos foi superlativa em muitos casos e nesse aspecto a Festa da Música foi ao melhor nível. A todo o momento havia concertos de altíssima qualidade a decorrer. Superlativa a confluência para o Solomon de Handel de músicos que formaram uma grande orquestra barroca com um instrumental quase wagneriano (passe a extravagância da comparação). Grandes ensembles e em grande forma.
Capítulo negativo: acho que se continuou neste ano a insistir no erro de se convidarem agrupamentos de baixa qualidade e formados em cima do joelho, mas evitei esses concertos e não sei se houve boas surpresas.

Perdi também concertos que devem ter sido extraordinários por uma questão de escolha, da qual me arrependi depois. Sei que o Dido e Eneias de Purcell, (Pierlot e Ricercare Consort) a que não assisti, foi muito bom pelo que me disseram. Perdi com muita pena outros concertos.
Outro aspecto negativo é o número exagerado de concertos com instrumentos modernos e predominância do piano sobre os instrumentos de tecla para os quais foi construída a música, mas há quem goste...

A análise concreta aos concertos ouvidos hoje será feita mais tarde.

Desilusões e confirmações 

As duas desilusões até este momento, em concertos escutados por mim, nesta Festa da Música no CCB:

Christophe Coin com solistas do ensemble barroco de Limoges e um oboé péssimo.
Parecia que nem ensaiaram. Uma criança desatou a chorar, é compreensível, ser exposta a tal tormento, talvez o único na sala com sentido crítico! Dupla bola preta... 5 valores em 20...
Tallis Scholars em repertório alemão: Linha vocal agressiva, total ausência de retórica e de ligação entre texto e música, algo essencial na música de Schütz, Praetorius e Bach. Sopranos penetrantes como apitos, vozes masculinas desafinadas, linha uniforme sem surpresa nem engenho, os piores vícios da escola inglesa sem a virtude da pureza do som e da linha, um grupo que aparece francamente envelhecido na sua constituição e na sua visão da música antiga. Muito má dicção, ausência de sibilantes no latim e no alemão. Pronúncia alemã inconcebível, de gargalhada, só num filme do Peter Sellers se encontra uma caricatura assim. Leben pronunciado como Liben, etc, etc, etc... Alegria e tragédia: a mesma entoação a mesma uniformidade interpretativa. Uma seca das antigas. Bola preta. 7 valores...
Tripla bola preta para o público inculto que aplaude tudo o que lhe põem à frente. Péssimo para a qualidade musical e para os próprios músicos. Os bravos histéricos e as palmas de pé para toda a porcaria que se apresenta exactamente da mesma forma para o concerto superlativo ou para o médio. As criancinhas de colo às 23h também se lamentam, a essa hora devem estar na caminha e não a sofrerem num concerto junto com os pais e a fazerem sofrer quem quer escutar música sem berraria. O pior da Festa da Música é a mentalidade de supermercado que se gera. O melhor é mesmo a Música e a Festa em redor da mesma.

As grandes confirmações são (para ser altamente rápido vou dar notas artísticas e técnicas para se entender a minha opinião sem rebuços, depois escreverei um pouco mais sobre cada concerto):
Ensemble Pierre Robert, com Desenclos na direcção. Lições das Trevas de Couperin superlativas. Nota artística 19, nota técnica 18.
Skip Sempé, Julien Martin no flauta de bisel, Josh Cheatham na viola da Gamba.
Nota técnica 18, nota artística 18. Sempé ao nivel 19 no cravo solo em Couperin.
La fenice, na 18, nt 18, no concerto com música inglesa popular e de corte. No concerto com música de Purcell (mais o ensemble vocal de Namur) o grupo atinge o 20 na nota artística e 18 na técnica (e por causa da parte vocal que a parte instrumental esteve ao nível 20). Simplesmente esmagador no conceito e na verdade artística da interpretação da música e na criação do evento do concerto, em tudo o que tem de hipnotismo e magia, misturado com sensibilidade, respeito pelo público, empatia e encenação. Simplesmente mágico. Ninguém deveria perder este ensemble notável.
Rias Kammerchor, Akademie für Alte Music Berlin, Daniel Reuss, Solomon de Handel. nt 17 (solistas irregulares), na 18.
Phillipe Jaroussky, contratenor. Irregular, parece que começou agora a estudar Handel e nota-se falta de maturidade. Timbre feio nas árias de bravura, mostra ainda falta de domínio da técnica nas passagens mais complexas. Nas árias lentas mostra grande sensibilidade e musicalidade, maior domínio e um largo futuro à frente se doseado com cultura. Em Vivaldi, uma ária de lamento, extra programa, foi excelente. Nas árias de bravura é irritante. Resumo: Handel bravura, na 12, nt 13. Handel, árias lentas, na 16, nt 17. Vivaldi na 17, nt 18. Flauta Jean Marc Goujon, um músico de grande carisma, fantástico na técnica, hipnótico na arte. Tocou o Concerto La Notte em pianíssimo do princípio ao fim, mas em infinitos cambiantes, um domínio inconcebível do instrumento e da arte de Vivaldi. Simplesmente inacreditável, o melhor foram as incríveis pausas! na 20, nt 20. Ensemble Matheus muito bom tecnicamente, notáveis os cambiantes do início da abertura de "La Fida Ninfa" nt 19. Jean-Christophe Spinosi, uma espécie de palhaço de batuta na mão, direcção visualmente apalermada e apatetada. Se não existissem ensaios aquilo deveria ser um desastre uma vez que a sua técnica de direcção não é clara nem codificada, é uma improvisação de momices. No entanto toca bem violino (quando larga a batuta) e tem ideias originais: umas vezes saem pérolas, outras desastres. Em La notte foi notável, na abertura de Vivaldi começou perfeito e acabou a tocar de forma imbecil com uns crescendos que não lembram ao diabo, consequência na=14 (anda entre 8 e 19).
Escutei o final do terceiro acto de Saul de Handel, pareceu-me menos equilibrado entre coro e orquestra (neste caso o Collegium Cartusianum é pequeno e o coro grande) do que no concerto do Solomon. Mas escutei apenas 35 minutos o que é insuficiente para uma apreciação mais profunda.
Amanhã há mais.



22.4.06

Dois concertos diferentes 

Concerto 1, Divino Sospiro, música entre o boa e o muito boa de compositores portugueses e um italiano (D. Scarlatti) com adaptação de um inglês (Avison), ver post mais abaixo...
Este concerto foi bom artísticamente e tecnicamente. Orlanda Velez Isidro cantou muito bem Francisco António de Almeida. Creio que a sala intimidou os músicos a princípio, o concerto foi em crescendo e acabou muitíssimo bem. Enrico Onofri mostra um domínio e uma pulsação verdadeiramente idiomáticas, motivador e motriz. Falei com Gaetano Nasillo (violoncelista do grupo nesta FM) que me disse que raramente sentiu tanto entusiasmo como nestes dias em que trabalhou com o Divino Sospiro.

O concerto 2, música de dois dos maiores compositores da história e em obras superlativas (mais detalhes no mesmo post) teve um coro excelente e uma orquestra boa em instrumentos modernos. Infelizmente uma direcção pesada, paquidérmica, própria do romantismo, ultrapassada, desinformada historicamente, solistas fracos, bons para coralistas mas incapazes para voos mais altos, apenas a decifrar o texto em vez de interpretar, arruinaram um concerto que o público brindou com ovação estrondosa.
Nota técnica média: 12
Nota artística: 5

Concerto nº 3: Não assisiti. Um jantar que tardava e uma Sinfonia Varsóvia em instrumentos modernos deixaram-me sem vontade para ouvir mais interpretações desinformadas, apesar de Oleg ser um grande violinista... em violino moderno. É o primeiro desvio à lista inicial.

H.S.

21.4.06

Crónicas - E o Vento levou a Tocata de Sousa Carvalho… ! 

A meu pedido Cristina Fernandes, musicóloga e crítica, aceitou divulgar as suas crónicas para a rádio aqui neste blogue. Achamos interessante deixar uma versão mais permanente e duradoura do que a audição, instantânea e efémera, no programa de rádio "Seara de Sons", que passa aos sábados pelas 12h na Antena 2. As crónicas foram escritas para rádio, devem ser fáceis de apreender pelo ouvinte e curtas, sem os longos considerandos que um artigo de jornal, ou numa revista especializada, implicam.
A primeira publicação diz respeito à confusão que existe sobre a Tocata e Andante em Sol menor de João de Sousa Carvalho, perdão de Mattia Vento. Vem a propósito desta Festa da Música no CCB, onde a obra figura (concerto 73) como sendo de João de Sousa Carvalho.
A audição desta crónica foi no dia 7 de Abril de 2006. É a crónica nº 14. As crónicas de 1 a 13 serão publicadas numa série diária. Depois será publicada cada crónica uma semana depois de ter ido para o ar.

H.S.

E o Vento levou a Tocata de Sousa Carvalho… !

Muitos dos ouvintes que nos escutam terão identificado a peça que acabámos de ouvir como a Tocata em Sol menor de João de Sousa Carvalho (1745-1798), supostamente uma das obras mais famosas da literatura portuguesa para cravo do século XVIII. No entanto, há vários anos que se sabe de fonte segura que ela não foi escrita pelo compositor português, mas sim pelo napolitano Mattia Vento, nascido em 1735 e falecido em 1776.
A Tocata em Sol menor, bastante popular entre os estudantes de piano dos conservatórios, foi publicada com atribuição a Sousa Carvalho por Santiago Kastner em 1935 no 1º volume dos Cravistas Portugueses na editora Schott. No prefácio o musicólogo classifica-a como “uma peça de muito esplendor”, afirmando ainda que o “andamento lento (apesar de todos os italianismos tão lusitano!) (…) é extremamente delicado no seu colorido.” Kastner atribui-a a Sousa Carvalho pelo facto de se encontrar no meio de um volume onde consta numa das páginas o título “Sonatas e Tocatas del Signor Giovanni Sousa Carvalho”, mas na verdade a referida peça encontra-se inserida neste manuscrito sem indicação de autor.
Sobre esta atribuição precipitada, construiu-se um dos grandes equívocos da história da música portuguesa. Sousa Carvalho foi durante décadas considerado o mais importante compositor português de música para tecla da segunda metade do século XVIII, quando na realidade sobrevive apenas uma única Sonata da sua autoria. Trata-se da Sonata em Ré Maior publicada por Gerard Doderer em 1972, juntamente com a Sonata em Fá Maior, uma obra que também não foi composta de raiz pelo compositor português. Conforme João Pedro d'Alvarenga explica num artigo publicado em 1995 na Revista Portuguesa de Musicologia a Sonata em Fá Maior é um arranjo (ou, se quisermos, uma recomposição) efectuada a partir de um Concerto atribuído a Pietro Alessandro Guglielmi e de um Concerto anónimo.
Quanto à famosa Tocata em Sol menor faz parte de uma colecção de Seis Sonatas para Cravo com acompanhamento de Violino ou Flauta alemã, dedicadas a Miss Blosset, compostas por Mattia Vento e impressas em Londres pelo autor em 1767. A existência na Biblioteca Nacional de alguns exemplares da publicação londrina e de cópias com a identificação correcta, faz supôr que esta tivesse circulado em Portugal nos finais do século XVIII com a identificação do autor verdadeiro.
No entanto, a edição de Kastner e a subsequente ênfase da literatura musicológica nesta obra contribuiu para que fosse objecto de várias gravações e interpretações ao vivo com a errada atribuição a Sousa Carvalho. Mesmo depois da publicação do Catálogo da Obra de Sousa Carvalho, realizado por Carlos Santos Luís, e do já citado artigo de João Pedro Alvarenga, onde se esclarece todo este imbróglio, a Tocata em Sol menor continua ainda hoje a ser associada a Sousa Carvalho. Ainda acontece, por exemplo, numa recente gravação pelo pianista Constantin Sandu, na etiqueta Numérica, ou no programa proposto pela pianista Carla Seixas para a Festa da Música.
A terminar esta crónica deixo-vos com a Sonata em Ré Maior, na interpretação de János Sebestyén, a única que foi realmente composta por Sousa Carvalho.

Cristina Fernandes

20.4.06

121 anos na gaveta 

Não vou perder muito tempo:
Enredo abominável em termos literários e teatrais: O Pai Tirano com o Vasco Santana ironiza na perfeição grande parte do enredo, juntam-se umas cenas de capa e espada e em vez de "Alvíssaras: o Menino Chegou" temos "Hossana ..." No fim aparece a polícia e não vai tudo preso porque ninguém se lembrou de colocar um telefone em cena.

Música profissional mas enfadonha, desinteressante. Trombones nos locais certos (dando compassos de espera suficientes para conversar e contar piadas que se poderão escutar nos camarotes que ficam por cima do lado direito do teatro, um vício metálico que data do tempo do Cruges) e muitos tímbales... Tónica e dominante, dominante e tónica, uma relativa menor e já está, pum pum para pum pum pum! E quando se espera que a acção progrida lá vem mais uma ária deste e daquele. Até Massenet fez melhor.

Orquestra roufenha, desconcentrada de uma música que é um castigo mas que merecia maior concentração. É verdade que estão vestidos de gatos pingados mas podiam velar um pouco melhor o morto.

Encenação estática: é maravilhoso ver uma cena de cólera e acção, de raiva e fúria com quatro cantores especados em palco em tiradas tonitruantes sem olhar uns para os outros, a dizer que se matam e vingam e o diabo a sete, virados para a plateia feitos estátuas e depois escutar Luís Guilherme cantar: acalmai-vos senhores! Enquanto a orquestra arpeja e ofega! De rir às gargalhadas não fosse ter de aturar a coisa há mais de três horas e ter uma dor na perna que já não se aguenta. Uma Adelaide Vidal figura George de Sand que aparece inconsequentemente no início dos actos. Um coro de pastores aparece com figurinos de nobres figuras do século XVI, serão pastores em trajes de gala?

Um tenor berrador no papel principal (Kostyantyn Andreyev em Jovelin) pujante mas canastrão e pouco subtil, uma cantora destimbrada no principal papel (Katia Pellegrino em Laureane), de onde escapam uns agudos bonitos. Um conjunto de apoio muito seguro, com Fardilha (Alvimar) em lugar de grande destaque e Guilherme (Ars) a cantar sempre em forma na medida do que a música lhe deu para cantar... Um razoável Bois-Doré (feito por Leo AN) e um Mario muito franzino vocalmente mas correcto (Marina Comparato). O Adamas (de Medioni) foi fracote (algo desafinadote) sendo os demais papeis demasiado pequenos para grandes encómios. Pode dizer-se que o naipe de solistas cumpriu na margem escassa que a música dá. Valeu a pena escutar a força e composição vocal de Fardilha (Alvimar), infelizmente o personagem não evoluiu nada (nenhum evoluiu) do princípio para o fim da obra em quatro actos.

O bailado foi o pior, figurinos aberrantes, coreografia pedestre, elementar, escolar e convencional, música insuportável e bailarinos que nem sequer eram capazes de levantar os braços ao mesmo tempo. Interminável e horrendo, o pior da noite. O coreógrafo tripla bola preta foi Ron Howell.

Uma ópera demasiado longa e convencional com encenação convencional, direcção rigorosa de Renzetti no capítulo vozes e indiferente no capítulo orquestral. Coro razoável com direcção de Andreoli. Música profissional mas aborrecida. Bailado péssimo em todos os capítulos. Má direcção de actores, encenação indiferente de Mauro Avogadro sem desconstruir o kitsch que uma obra destas encerra. Cenários visualmente funcionais mas altamente convencionais em termos teatrais, papel pintado que sobe e desce e uma cortina semitransparente que deixa ver o que se passa por trás quando o fundo fica iluminado. Luzes indiferentes mas profissionais.

Em jeito de conclusão: louva-se o Teatro de S. Carlos que repõe uma obra portuguesa esquecida, o risco foi assumido. Mercê de uma encenação demasiado convencional, uma orquestra pouco interessada, uma direcção de actores/cantores pouco convincente e um bailado abominável em todos os sentidos a ópera perdeu a cor (pouca) que poderia ter. Escapou o coro (louvado seja Deus) e a regularidade dos cantores solistas. Percebe-se porque ficou na gaveta estes anos. O produto é português, a produção é esforçada e digna mas o resultado final é maçador. A mesma ópera com cortes (muitos, variados e longos) teria sido muito mais interessante. Espera-se que volte daqui a trinta anos, sem este bailado. A Serrana, por exemplo, é uma obra muito mais consistente e merece voltar mais depressa à cena.

Conclusão sobre a CNB: E andamos nós a pagar milhões de euros para a Companhia Nacional de Bailado fazer uma porcaria destas? Um trabalho pouco profissional que o TNSC não merecia e o público muito menos, uma vergonha.

19.4.06

Lisboa tem um casino 

Do negócio do casino, bem no centro de uma zona que se pretendia nobre e onde agora vão passar a ver-se mamas ao léu, lantejoulas e plumas, ninguém fala, ninguém questiona.

Agora do Berardo que mostra as suas obras ao povo ninguém elogia! Todos dizem mal, todos questionam.
Pergunto, se aquilo não presta e ninguém daria um tostão para ver, como foi dito pelo anterior presidente do CCB, como se justifica que a colecção contenha Mirò, Dali, Vieira da Silva, Chagall? Isto entre centenas de outros notáveis artistas. Será que a colecção não presta mesmo? Almada Negreiros é menor? Amadeo é um pintor da treta? Os modernistas não valem um chavo? 860 obras para animar o CCB por dez anos a custo zero não contam? Já se imaginou quantas exposições se podem fazer com 860 obras de arte? E permutas?

Será que vale a pena sacrificar o centro de exposições temporárias? Numa abordagem inicial diria que sim mas, por outro lado, porque não fazer uma extensão do CCB no Pavilhão de Portugal da Expo? Poder-se-ia instalar o Museu (permanente) Berardo no CCB (onde se mostrariam algumas dezenas de obras mais significativas) e/ou no Pavilhão de Portugal. Poderia também ser instalado neste Pavilhão um Centro de Arte que poderia expor, quer a colecção Berardo (em rotação), quer as exposições temporárias que vão desaparecer do CCB enquanto não existirem outros módulos.
Os dinheiros do Casino não servem também para isso?

Será que o que move esta gentinha contra o comendador Joe Berardo e o seu "mau gosto" é o mesmo complexo da classe de pseudo-intelectuais de esquerda que faz de J.P. George uma espécie de herói de moca arreganhada contra Margarida Rebelo Pinto. Em todo o lado a mesma inveja, a mesma sanha. Um Berardo rico nascido na Madeira tem ser banido a todo o custo, tal como a levezinha Margarida Rebelo Pinto que vende mais livros a dormir a sesta do que muito escritor sério a vida inteira.

Lisboa tem um Casino mas o Parque das Nações tem casas a mais, um Pavilhão de Portugal de Álvaro Siza Vieira para as moscas e uma marina cheia de lodo infecto.

Está tudo louco? 

Não percebo, nem quero perceber, como um jornal como o "O Público" coloca na sua secção de cultura (versão on-line) a infeliz morte e o consequente e subsequente funeral de um jovem participante em telenovelas.

18.4.06

Ignorância ou casmurrice 

Nos programas da Festa da Música (concerto 73) ainda figura a Tocata e Andante [em sol menor] como obra de João de Sousa Carvalho quando já se provou (creio que por João Pedro Alvarenga) que é obra de Mattia Vento, compositor oriundo de Nápoles onde nasceu em 1735, tendo falecido em 1776.
O erro de atribuição deve-se a Santiago Kastner que provavelmente até sabia desse lapso. É uma pena que jovens intérpretes que deveriam ser esclarecidos, e instituições como o CCB, contribuam para o perpetuar da ignorância.

Festa da Música III - Domingo 


65. Grande Auditório 11h45
Simone Kermes soprano
Myung-Hee Hyun soprano
Franz Vitzthum contralto
James Oxley tenor
Markus Brutscher tenor
Harry van der Kamp baixo
Torben Jürgens baixo
Kölner Kammerchor
Collegium Cartusianum
Peter Neumann direcção
Handel: “A Morte de Saul”, terceiro acto da Oratória “Saul” HWV 53

Alternativa:

79. Pequeno Auditório 11h30 (!)
Núria Rial soprano
Giovanna Pessi harpa
Ricercar Consort
Philippe Pierlot viola da gamba e direcção
Bach: Cantata “Weichet nur, betrübte Schatten” BWV 202
Handel: Concerto para harpa, duas flautas de bisel e cordas Op. 4 nº 6
Handel: Cantata “Tra le Fiamme” HWV 170


66. Grande Auditório 13h30 (Por curiosidade)
Philippe Jaroussky contratenor
Laurence Paugam violino
Ensemble Matheus
Jean-Christophe Spinosi direcção
Vivaldi: Sinfonia da ópera “Griselda” RV 718
Vivaldi: “Sorge l’irato nembo” ária (II. 4) da Ópera “Orlando furioso” RV 728
Vivaldi: “Sol da te”, ária (I. 12) da Ópera “Orlando furioso” RV 728
Vivaldi: Concerto para dois violinos RV 513
Vivaldi: “Vedrò con mio diletto”, ária da Ópera “Il Giustino” RV 717, I. 7
Vivaldi: “Se in ogni sguardo”, ária da Ópera “Orlando finto pazzo” RV 727, I. 5

105. Sala La Pouplinière 15h00 (!)
Pierre Hantaï, Cravo
Bach: Prelúdio e Fuga em Sol maior BWV 902
Bach: Suite Inglesa n° 2 em Lá menor BWV 807

Alternativa, para quem gosta de grande espectáculo:
67. Grande Auditório 15h00 (2h20)
Susan Gritton soprano
Marianne Beate Kielland meio-soprano
Thomas Walker tenor
David Wilson-Johnson baixo
RIAS-Kammerchor
Akademie für Alte Musik Berlin

Daniel Reuss direcção
Handel: “O Messias” HWV 56


82. Pequeno Auditório 16h15 (! Uma sala a condizer melhor com o repertório)
Carlos Mena contratenor
François Fernandez viola de amor
Ricercar Consort
Philippe Pierlot direcção
Vivaldi: Stabat Mater em Fá menor RV 621
Vivaldi: Concerto para viola de amor em Ré menor F II nº 2
Vivaldi: Nisi Dominus RV 608

107. Sala La Pouplinière 18h15 (!)
La Venexiana
Claudio Cavina direcção
Scarlatti: Salve Regina em Lá menor
Scarlatti: Stabat Mater


69. Grande Auditório 20h00 (!)
Romina Basso: Dido
Furio Zanasi: Eneias
Núria Rial: Belinda
Damien Guillon: Feiticeira
Céline Scheen Segunda Mulher, Bruxa
Alex Potter Segunda Bruxa, Espírito
Malcolm Bennett: Marinheiro
Ricercar Consort
Collegium Vocale Gent
Philippe Pierlot direcção
Purcell: Dido e Eneias


85. Pequeno Auditório 21h00 (se der tempo para ir do grande auditório para o pequeno)
Martin Sandhoff flauta travessa
Cordula Breuer flauta travessa
Jörg Buschhaus violino
Markus Hoffmann violino
Thomas Müller trompa
Renée Allen trompa
Concerto Köln
Telemann: Excertos de “Tafelmusik”, para duas flautas
Almeida: Oratória “La Giuditta”
Handel: Suite nº 1 para orquestra em Fá maior de “Water Music” HWV 348

Ficam por escutar grandes artistas mas...
Provavelmente ainda irei mudar de ideias, desistir de alguns concertos em cima da hora ou ir a outros, não previstos, de acordo com a disponibilidade.

17.4.06

Festa da Música II - Sábado 

Nota: não procuro o intérprete português porque posso escutar os portugueses todo o ano, procuro a excelência da interpretação e as obras que me atraem mais. Rejeito qualquer interpretação em piano ou em instrumentos modernos, não por fundamentalismo mas por desinteresse, os concertos em Portugal com instrumentos originais são muito raros e tenho muito mais empenho em ouvir intérpretes de excelência em instrumentos antigos. Além disso as obras foram escritas para instrumentos que nada têm a ver com os modernos. Grandes intérpretes que já ouvi muitas vezes não me sugerem tanto interesse como intérpretes que ainda não escutei.
Pelo exposto esta escolha é altamente pessoal.
A itálico menciono boas hipóteses para audições à mesma hora (ou sobrepostas) dos concertos que escolhi

46. Sala La Pouplinière 10h30 !
Ensemble Pierre Robert
Marcel Beekman contratenor alto
Jean-François Novelli contratenor alto
Florence Bolton viola da gamba
Frédéric Desenclos órgão e direcção
Couperin: Les Leçons de Ténèbres du Mercredi saint

Alternativas para quem não gosta de acordar cedo, que consideramos interessantes:
20. Pequeno auditório 11h30
Martin Sandhoff flauta travessa
Cordula Breuer flauta travessa
Jörg Buschhaus violino
Markus Hoffmann violino
Thomas Müller trompa
Renée Allen trompa
Concerto Köln
Telemann: Excertos de “Tafelmusik”, para duas flautas
Almeida: Oratória “La Giuditta”
Handel: Suite nº 1 para orquestra em Fá maior de “Water Music” HWV 348

38. Sala Infanta Maria Bárbara 11h30
Christian Moreaux oboé de amor
Solistes de l’Ensemble Baroque de Limoges
Christophe Coin violoncelo, viola da gamba e direcção
Telemann: Ouverture à sept em Ré maior TWV 55: d6
Bach: Concerto Brandeburguês nº 5 em Ré maior BWV 1050
Bach: Concerto para oboé de amor em Lá maior, a partir do “Concerto para cravo em Lá maior BWV 1055”

39. Sala Infanta Maria Bárbara 13h00 (!)
Skip Sempé cravo
Julien Martin flauta de bisel
Josh Cheatham viola da gamba
Couperin: Concerto nº 4 dos “Concerts Royaux”
Couperin: Prelúdio nº 5 em Lá maior de “L’Art de toucher le clavecin”
Couperin: Les Ondes, Rondó da 5ª Ordre do “Premier Livre de Pièces de clavecin”
Couperin: Les Baricades Mistérieuses, Rondó da 6ª Ordre do“Second Livre de Pièces de clavecin”
Marais: Prélude, Allemande la Magnifique e Sarabande, excertos do “Troisième Livre de pièces de viole”
Telemann: Duas Fantasias para flauta de bisel solo
Telemann: Sonata em trio para flauta de bisel, viola da gamba e baixo contínuo dos “Essercizii Musici”

14h - Repouso da cabeça e dos ouvidos, almoço.

7. Grande Auditório 15h45 - 2h50 (Termina 18h35m)
Susan Gritton soprano
Marianne Beate Kielland meio-soprano
Emma Bell soprano
Thomas Walker tenor
David Wilson-Johnson - baixo
RIAS-Kammerchor
Akademie für Alte Musik Berlin
Daniel Reuss direcção
Handel: Oratória “Solomon” HWV 67

18h35m Repouso...

52. Sala La Pouplinière 19h45
The Tallis Scholars
Peter Phillips direcção
Praetorius: Magnificat I
Praetorius: “O bone Jesu”
Hassler: “Ad dominum cum tribularer”
Schütz: “Die mit Tranen saen”, “Sellig sind die Toten”
Bach: Motete “Komm, Jesu komm!” BWV 229

Alternativas:
43. Sala Infanta Maria Bárbara 19h30
Solistes de l’Ensemble Baroque de Limoges
Maria-Tecla Andreotti flauta
Gilles Colliard violino
Christophe Coin violoncelo e viola da gamba
Jan-Willem Jansen cravo
Couperin: “La Françoise”, Sonata da 1ª Ordre de “Nations”
Couperin: “Rittrato dell’ Amore”: Concerto nº 9 dos “Goûts réunis”
Couperin: Suite nº 2 de “Pièces de viole”
Rameau: “La Forqueray, La Cupis, La Marais”, Concerto nº 5 de “Pièces de clavecin en concert”

8. Grande Auditório 19h45 (! Provavelmente superior a Tallis Scholars mas repertório demasiadamente delicado para sala tão grande e já escutado pelos mesmos intérpretes anteriormente, no entanto é recomendado aos leitores a esta hora ou no dia seguinte no Pequeno Auditório)
Carlos Mena contratenor
François Fernandez viola de amor
Ricercar Consort
Philippe Pierlot direcção
Vivaldi: Stabat Mater em Fá menor RV 621
Vivaldi: Concerto para viola de amor em Ré menor F II n° 2
Vivaldi: Nisi Dominus RV 608


53. Sala La Pouplinière 21h15 (! provavelmente escutarei este concerto no dia seguinte, se aguentar esperar...)
La Venexiana
Claudio Cavina direcção
Scarlatti: Salve Regina em Lá menor
Domenico Scarlatti: Stabat Mater
Nota: Este sei que é Domenico porque falei com o Claudio Cavina, no texto original do CCB fala-se neste concerto apenas em Scarlatti...



44. Sala Infanta Maria Bárbara 21h00
Ensemble 415
Chiara Banchini violino e direcção
Vivaldi: Sonata para dois violinos e baixo contínuo em Ré menor Op. 1 nº 8 RV 64
Vivaldi: Sonata para dois violinos sem baixo contínuo em Fá maior RV 68
Vivaldi: Sonata para violoncelo e baixo contínuo em Sol menor RV 42
Vivaldi: Sonata para dois violinos e baixo contínuo em Ré menor Op. 3 nº 12 RV 63 “La Follia”


27. Pequeno Auditório 23h00 (!)
La Fenice
Chœur de Chambre de Namur
Jean Tubéry direcção
“Celebrate this festival!”
Purcell: “Celebrate this festival” – Ode para o aniversário da Rainha Mary
Purcell: “Man that is born of a woman” - Ode para o funeral da Rainha Mary

Alternativa:
54. Sala La Pouplinière 22h45 (!)
Pierre Hantaï cravo
Bach: Prelúdio e Fuga em Sol maior BWV 902
Bach: Suite Inglesa nº 2 em Lá menor BWV 807




Festa da Música I - Sexta Feira 

Este post é um prólogo. Colocarei uma antologia dos melhores concertos em previsão. Na sexta feira decorrem poucos eventos, logo será a oportunidade soberana para assistir a agrupamentos e intérpretes que nos dias seguintes seriam francamente desinteressantes no barroco, como a sinfonia Varsóvia com direcção de Peter Czaba e com Anne Queffélec no piano e Raphaël Oleg no violino. Michel Corboz também é geralmente desinteressante no repertório barroco mas recomenda-se na sexta feira, à falta de algo mais estimulante, como curiosidade.
Os concertos vêm numerados pela ordem anunciada pelo CCB, coloco um ponto de exclamação se prevejo um concerto, à partida, com grande interesse do meu ponto de vista pessoal. No caso de não colocar nenhum ponto de exclamação poderemos ter mesmo assim um belíssimo concerto. O bold representa interesse acrescido.

1. 18h00 !
Orlanda Velez Isidro, soprano
Fernando Miguel Jalôto, cravo
Divino Sospiro
Enrico Onofri direcção

Almeida: Abertura da Oratória “La Giuditta”
Almeida: Cantata “A quel leggiadro volto” para soprano, cordas e baixo contínuo
Anónimo (atribuído a Seixas): Concerto para cravo, cordas e baixo contínuo
Scarlatti/Avison: Concerto grosso nº 5 em Ré menor, baseado em Sonatas de Scarlatti


2. 19h30 75’
Ensemble Vocal de Lausanne
Sinfonia Varsovia
Michel Corboz direcção
Bach: Missa em Lá maior BWV 234
Handel: Dixit Dominus HWV 232


3. 21h45
Anne Queffélec piano
Raphaël Oleg violino
Sinfonia Varsovia
Peter Csaba direcção
Bach: Concerto para piano em Fá menor BWV 1056
Bach: Concerto para violino em Mi maior BWV 1042
Handel: Music for the Royal Fireworks HWV 351


13.4.06

Discos de Páscoa em cima de uma secretária 

Em cima da secretária aquilo que estou a ouvir, pelas mais diversas razões, todos acima ou igual a 4 estrelas:

Carissimi - vanitas vanitatum
chœur de chambre de namur
la fenice
jean tubery
Escutei parcialmente mas parece-me excelente.
(Um disco cypres - 2005)

Heinrich Schütz
Musicalische Vesper
Symphoniae Sacrae
Psalmen Davids
Kölner Kammerchor - Collegium Cartusianum
Dir Peter Neuman (disco MDG - 2003)
Altamente recomendado.

O Dulcissima Maria
Pietro Pace (1559-1622)
Il quinto libro de Moteti
Série Sacro & Profano
Complesso Di Musica
dir. Marco Mencoboni
Ed. E lucevan le stelle - 2002/3 (?)
Altamente recomendado.

Georg Philip Telemann
Die gekreuzigt Liebe TWV 5:4
(Uma Paixão de Cristo)
Michael Scholl
Editora Amati - 2003
Música comovente por um génio maior da música, uma gravação ao vivo.
Um agrupamento, um coro razoáveis, vozes correctas, música deslumbrante.

Georg Philip Telemann
Ein Fest Burg (Música vocal e instrumental)
Dir. Reinhold Friedrich
Vocalensemble Rastatt
Les Favorites
SWR 2005
Mais música de qualidade ímpar por Telemann, surpreendentes quer a música de funeral, quer as cantatas e os corais.

Wintereise de Schubert
Mathias Goerne - Alfred Brendel
Ao vivo no Wigmore Hall
Decca 2004
Um disco imprescindível - um documento único com música sublime e levada ao limite, Goerne, na minha opinião, vai na linha de Hotter...

Psalm Davidici qui poenitentiales nuncupantur
Andrea Gabrieli
Netherlands Chmber Choir
Huelgas Ensemble
Dir. Paul van Nevel
Ed. Globe - 2001
Altamente recomendado.

Theodora HWV 68 de Händel
Johanette Zomer ed al.
Kölner Kammerchor - Collegium Cartusianum
Dir Peter Neuman (disco MDG - 2000)

Giacomo Carissimi
Hassler Consort
Dir. Franz Raml
Oratorios and Motetes
Historia de Job, Historia de Ezechis, Judicium Salomonis
Disco MDG - 1998
Disco muito bom.

Rebel (1666-1747)
L'Assemblée des Honnestes Curieux
Amandine Beyer - violino
Sonatas para violino e baixo contínuo
Um disco altamente recomendado.

Marien Vesper
Chiara Margarita Cozzolani (1602-cerca de 1677)
Orlando di Lasso Ensemble
Thorofon - 2000
Um disco extraordinário, uma grande compositora.

Salvatore Sacco (1572 - cerca 1622)
Missa de 1607
Templum Musicae
dir. Vincenzo Donato
ASV 2006
Mais um disco imperdível.

Brahms
Quinteto com piano op. 34
Andreas Steier e Quarteto de Cordas de Leipzig
MDG 2004
Um disco de altíssima qualidade.

Beethoven
Trio op. 11 e trio op. 38
Clarinete violoncelo e piano
Florent Héau (clr.), Jérôme Ducros (piano), Henri Demarquette (cello).
Um disco interessante da Zig Zag, 2004. Recomendado.

Música Portuguesa para quarteto de cordas
Quarteto Lacerda
Vianna da Motta, Luis de Freitas Branco e Francisco de Lacerda
Ed. Diálogos, 2006
Um disco indispensável para quem aprecia música portuguesa de grandes compositores.

Dimitri Shostakovitch
Integral dos quartetos de cordas
Quarteto Danel
Ed. FL 2005
Um album excelente que recorre às fontes originais. Indispensável

Ainda tenho por aqui mais CD's mas não faço mais comentários porque ainda não os escutei com a atenção devida, aliás os anteriores ainda não foram totalmente dissecados. Outros não merecem o esforço da escrita...

12.4.06

Fumar 

Leio que "se devem respeitar os direitos dos fumadores e não fumadores", devo dizer que a expressão "direitos dos fumadores" é um eufemismo de merda. Fumar não é um direito quando implica fumar para cima do próximo, não existe essa coisa dos direitos do fumador, existem direitos e esses direitos são sempre direitos das pessoas, de todas. Numa alegoria pouco subtil direi que o direito de fumar para cima do próximo se assemelha ao direito de mijar nos cantos ou de bater no próximo.
Nem sequer é líquido que fumar seja um direito quando implica apenas o próprio fumador num local privado mesmo que ao ar livre, tal como me parece que não existe direito ao suicídio.
E falo contra mim que fumo cachimbo e charutos e fumo cada vez menos por uma questão de tolerância e respeito pelos verdadeiros direitos dos outros.

7.4.06

Michael 

Michael, 89 anos, nasceu em 1921 em Frankfurt, um homem alto, de mais de um metro e noventa, seco, nodoso. Foi enviado para a frente russa de onde desertou por não conseguir enfrentar as atrocidades do exército alemão, um caso raro ou, segundo ele, nem por isso, passou por terríveis provações até chegar à Prússia Oriental onde se misturou com as vagas de refugiados que fugiam ao exército russo, acabou por fugir num barco para a zona ocidental da Alemanha.
Tinha estudado direito, dominava línguas, tornou-se intérprete junto do exército americano. A sua paixão por música levou-o a trabalhar para diversas salas de concertos para poder ouvir Beethoven, Mozart, Wagner.
Continuou a estudar direito que acabou, tinha estudado piano ainda em casa de seu pai, abastado advogado, a mãe que cantava no coro da Igreja luterana tinha-lhe ensinado os rudimentos musicais, mortos os pais e destruída a casa num bombardeamento, a música era a única recordação da mãe que perdera.
O seu percurso extraordinário levou-o a ser amigo do chefe do naipe de percussão de uma orquestra, Peter, nascido em Breslau cidade alemã que ficara para a Polónia, e que tinha perdido tudo na guerra, incluindo a mulher e os filhos.
Para fazer um concerto em Munique, em 1950, Peter estava preocupado, precisava de um percussionista para tocar apenas algumas notas numa estreia de uma obra de um compositor contemporâneo e não tinha músicos disponíveis. Michael disse que podia tentar, afinal sabia de música e tocar piano, tendo sido um aluno brilhante, infelizmente há mais de dez anos que não via um teclado. Peter contratou Michael para o concerto, o secretário da orquestra concordou, não havia mais ninguém.
A coisa correu bem, Michael no local certo lá deu as pancadinhas no triângulo, que era o único ponto em que eram necessários sete percussionistas em toda a obra.
Mas tomou-lhe o gosto, o maestro era Eugen Jochum, e Michael encantou-se, o maestro gostou e deu os parabéns ao jovem advogado pela calma no momento do ataque! Trabalhava agora como estagiário num advogado de Muniche e nesses anos duros todo o dinheiro extra era bem vindo. Começou a ser contratado mais vezes, passou a tocar celesta (entretanto voltara a tocar piano) e acabou por ser admitido na orquestra como percussionista, um caso único. Soube da gravação de Solti para a Decca da Walküre de Wagner, e acabou em Viena a tocar bigorna por 30 segundos!
Conheci-o numa das minhas viagens, ele já estava reformado, em Bayreuth, a assistir ao festival, sem bilhete ia para a bilheteira às seis da manhã, vestido de cerimónia e obtinha sempre entrada à custa das desistências de última hora. Às quatro da tarde era a récita, era preciso força! Um jovem filósofo alemão que publicou: Musik in der Deutsche Philosophie, e também habitual das bilheteiras de última hora em Bayreuth enviou-me um email, que vi hoje.
Michael morreu, paz à sua alma.


Paixão sem grande paixão 

Uma paixão Segundo S. Mateus de Bach morna na Gulbenkian, com uma segunda parte mais agradável do que a primeira. Um tenor nas árias de arrepiar, no mau sentido... Na ária Geduld, etc... tive de tapar os ouvidos, mais valia o senhor ter ficado calado como o Cristo que a ária comenta, foi preciso paciência (geduld geduld) para aturar aquele tenor que felizmente só canta duas árias...
O restante naipe de cantores muito bom, um alaúde notável, um coro razoável mas mastodôntico de sessenta cantores e a gritar demais em demasiados pontos a começar pelos corais. Bons solos de violinos e sopros apesar dos instrumentos modernos. Faltaram à chamada: oboés de caça, viola da gamba e mais um órgão...

Recomenda-se porque "do mal o Mena" e ainda há um bom Cristo, um bom evangelista (a precisar de mais qualidade nos agudos e no domínio plástico da retórica) e um excelente barítono (na partitura vem escrito baixo) para árias e Pilatus e Pedro e Judas... Um soprano que me encantou pela sensibilidade e pelos pianíssimos...
E amanhã complemento este post com os nomes de todos e os pontos onde a coisa foi melhor e pior e porquê...


A pequena banalidade do quotidiano, simplesmente genial.


6.4.06

Sic transit gloria mundi 

Hoje na Gulbenkian a Paixão Segundo S. Mateus de Bach, por Michel Corboz e associados.
Em anteriores apresentações da obra o maestro resolveu colocar o intervalo não se sabe bem onde, e não no local apropriado que é após o final da primeira parte.
Lá estive, nos diversos dias, a bater palmas (poucas que mais não eram merecidas) no sítio certo apesar dos "chius" dos que compram o programa mas não sabem que Bach é mais forte do que os caprichos de um qualquer maestro, por muito bom que seja ou tenha sido.
Felizmente parece que desta feita o intervalo cabe no local certo, entre a primeira e a segunda parte. Que seja o bom presságio, e tudo aparenta que sim, e não apenas uma das muitas distorções que uma obra como esta pode sofrer...

Entretanto chegou-me a confirmação de que vou estar em Bayreuth mais uma vez para seis óperas, o Ring completo na nova encenação, o Holandês, que falhei o ano passado e o Tristan que revejo com um maestro da "casa" mas numa encenação repetida.
Também estarei (início de Julho) em Aix-en-Provence para mais um Ouro do Reno, com a Berliner e o Rattle; servem de aperitivo a Bayreuth. Em S. Carlos o Ouro do Reno será em Maio e a encenação de Vick deverá ser um "case study". O tempo passa devagar e vai chovendo...
Ficam prometidos, aqui e agora, críticas, comentários e relatos aos leitores deste blogue sobre estes assuntos.

5.4.06

Concerto no CCB 

Centro Cultural de Belém no Grande Auditório, 5. Abril 2006 pelas 21:00h. Obras de Igor Stravinski:
Feu d'artifice, op. 4 e Le Sacre du Printemps
E de Piotr Ilitch Tchaikovski:
Sinfonia n.º 5 em Mi Menor, op. 64

Maestro Manfred Honeck

Sem fazer crítica exaustiva dou a minha opinião pessoal:

Gostei muito: A orquestra atingiu o máximo apuro técnico possível com esta formação e estes instrumentistas. Belíssimas madeiras, clarinete com grande poesia em Tchaikovsky, bela requinta e clarinetes baixos, fagote sem medo mostrou denodo na entrada da Sagração, restante naipe muito denso a criar texturas muito ricas e belas, flautas, oboés e corne inglês em muito bom plano. Cordas muito esforçadas, primeiros violinos muitíssimo bem afinados e mostrar coesão, belo trabalho dos concertinos actuais. Concertino concentrado e enérgico, chegando ao ponto de conseguir corrigir o seu naipe em erros graves (de tempo, na Sagração). Metais muito bem tecnicamente, alguns ligeiros problemas no solo de trompa no segundo andamento de Tchaikovsky não retiram muito brilho ao primeiro trompa que acabou em beleza. Ouvir o naipe das trompas da OSP é actualmente um prazer, talvez o melhor naipe em Portugal, coesas, equilibradas e nunca em excessos sonoros em que outros incorreram. Trombones e tuba exemplares nas entradas e nos aspectos puramente técnicos. Naipe de contrabaixos muitíssimo bom, belo final do primeiro andamento da quinta de Tchaikovsky. Excelente o entusiasmo global na Sagração. Excelente trabalho na percussão na primeira parte. Os tímpanos estiveram excelentes em todas as obras envolvidas.

Achei razoável: segundos violinos algo inseguros, pizzicatos difusos, sonoridade menos rutilante na Sagração por parte dos trompetes. Cordas em geral coesas mas sem grande energia e com sonoridade relativamente indiferente. Pouca energia nos tutti em toda a secção de cordas em que faltou brilho, a correcção foi aqui a palavra chave. Na Sagração os momentos mais complexos do ponto de vista rítmico foram fracos, pode-se dizer que houve mesmo desacertos graves e tempos completamente à deriva entre as diferentes secções.

Detestei: Excesso sonoro, ruído mesmo, dos trombones em Tchaikovsky. O erro deverá ser do maestro que não teve a percepção do que se ouvia na sala, mas ver as cordas e madeiras com música de grande importância a serem tapadas por notas de acompanhamento nos trombones durante toda a quinta de Tchaikovsky foi altamente desagradável. Quase que dei graças aos céus por o compositor ter deixado o naipe de fora durante grande parte do segundo andamento. Um pizzicato no segundo andamento de Tchaikovsky foi um desastre. Em geral o excesso de sonoridade dos metais (excluindo em geral as trompas) em todo o concerto foi para mim o pior. A bola preta neste aspecto vai para os trombones. Arrogantes e confiantes na sua técnica (o que é bom) e no excesso de dinâmica (o que é péssimo). Na minha opinião arruinaram grande parte das suas intervenções por exagero de zelo sonoro.

Concepção do maestro: tecnicamente muito empenhada, capaz de gerar entusiasmos, motriz e energética mas algo brutal. Pedir-se-ia mais contenção. Não apreciei por aí além a concepção algo agressiva de Tchaikovsky, já em Stravinsky a sua ideia foi mais arrojada e a obra presta-se mais a uma atitude selvagem, é a essência última da obra, de facto. O facto de não ter apurado mais os equilíbrios, as filigranas, os padrões, não lhe tira o mérito de ter extraído grande energia da orquestra no seu todo. O excesso de barulho nos metais retirou encanto ao trabalho de conjunto e é sua falta integral. Entretanto pareceu-me algo complexo nas indicações aos músicos e, talvez por isso, se tenham passado algumas coisas ao lado.

Organização: bola preta para a Frente de Casa que deixou entrar público atrasado durante toda a primeira parte. Os arrumadores chegaram ao extremo de conduzir pessoas aos lugares bem na frente da plateia já durante a cena do sacrifício da Sagração, 40 minutos bem entrados no concerto! Falta de conhecimentos e da cultura de um concerto sinfónico. Simplesmente a lamentar.

Concerto para 13 valores na segunda parte, se esquecermos os desacertos rítmicos na Sagração podemos dizer que um 14 será a nota da primeira parte.
Um concerto apesar de tudo agradável e francamente positivo, muito melhor do que o Futebol...


4.4.06

Um mau aldrabão 

Um bom aldrabão nunca conta apenas uma mentira, geralmente mascara-a com a verdade. Para a mentira ser completa terá de ter sempre algo de verdade, já dizia o poeta (António Aleixo) e continua a ser assim.
Se o aldrabão fingir uma pose serena consegue os seus efeitos de forma ainda mais eficaz. Vejamos o exemplo: No post pretendia-eu-serenamente-retomar de João Pedro George, pode ler-se a dado passo:

A crítica jornalística, em geral, utiliza termos abstractos (mas com uma aura técnica), termos opacos que permitem todas as interpretações. Por exemplo: José Mário Silva, na Casa Fernando Pessoa, veio outra vez com a história de que a crítica dele ao livro do Nuno Costa Santos era negativa. Para o justificar, referiu a expressão «poemas escritos no fio da navalha». No sábado, ao ler a crónica da Clara Ferreira Alves, sobre o último livro de Gabriel García Marquez, deparo-me com isto: «andar sobre o fio da navalha é o trabalho do génio». Repito: termos abstractos, opacos, passíveis das mais diversas e contraditórias interpretações. É assim que se faz uma carreira de crítico nos jornais.

Um bom exemplo de um candidato a aldrabão? Será o texto acima uma boa peta bem contada? Vamos ver com maior detalhe o que George omite: navalha que está quase sempre romba, era o que vinha escrito na crítica do DN, será que Clara Ferreira Alves diz o mesmo de Garcia Marquez? Parece que não! O facto de José Mário Silva ter afirmado que Nuno Costa Santos era um "quase poeta" é apropriadamente esquecido pelo putativo aldrabão que se revela na sua plenitude rasca de fraco mentidor, um bom aldrabão nunca se deve deixar enredar tão facilmente na teia das suas omissões. O lado negativo da crítica é absolutamente omitido pelo pseudo crítico George para distorcer a verdade e afirmar que Silva critica positivamente o amigo Santos. Temos aqui um exemplo pedagógico do que dizia o poeta. Será que o próprio George acredita no que diz?

Agora notamos que José Mário Silva e Nuno Costa Santos não são, nem nunca foram, colegas no mesmo jornal, apesar do que George diz e reafirma sistematicamente ao longo dos seus textos, apesar de lho ter sido dito na cara por José Mário Silva perante mais de uma centena de pessoas na Casa Fernando Pessoa, ficando o candidato a sociólogo-crítico visivelmente incomodado e sem palavras de resposta e se percebermos que o pseudo-crítico ficou com o blogue "Esplanar" depois de se ter incompatibilizado com Nuno Costa Santos, fundador do mesmo blogue, e depois de todos os outros membros terem saído, percebem-se os verdadeiros motivos de George, bem longe do "amiguismo" entre Silva e Santos, têm origem no ressentimento e no "inimiguismo" de George por Santos. Segundo sei o Santos está-se nas tintas para o George que não passa de uma espécie de borbulha prestes a rebentar, mas entre a amizade e o ódio julgará o leitor qual o sentimento mais nobre e o que inspira maior confiança.

Felizmente que, apesar do poeta, se apanha mais depressa um mentiroso do que um coxo.

Agora que "já gastei demasiada cera com tão vil defunto" volto à música. Recebi umas dezenas de CD's. Espero fazer aqui algumas críticas.

3.4.06

E contamina-se? 

Raul Vaz na Antena 1, hoje: "não tem intervido". Depois do Seabra em letra de forma no "O Público" e o seu "intervido" será que vamos começar a ouvir e a ler: "tenho ouvisto"?
Será que sou eu que estou enganado e ter intervindo nesta matéria é apenas um erro meu?...



Concerto de Paul van Nevel e do Huelgas Ensemble 

Algures no tempo o sino vai batendo, os pássaros gritam lá fora, um Land Rover com cinquenta anos e cheio de pó pede-me auxílio num telheiro esquecido de quinta, na mesa os testes dos meus alunos são outras tantas chamadas ao tempo presente que sinto ausente, no portátil música numa partitura que espera, um livro, parece que até são dois, escondido meio acabado, outro mal começado, artigos científicos por acabar, algures Buxtehude, Ad Pedes, clama do alto dos seus trezentos e vinte e seis anos de composição, um relógio num tic tac monótono lembra tias velhinhas, e um cuco que não volta mais, um cuco que me obrigava a esperar em casa dos meus bisavós, na altura da tia Hilda, tempos infinitos pelo passarinho que me fascinava, e que eu esquecia sempre, ocupado com alguma brincadeira naquele lugar encantado de velharias, de fotos de carbonários e de velhos ilhéus que lembro hoje e que nem sei se existiram. Domingo de Primavera, Sol no pátio, ervas verdes entre as pedras e ao longe o sino, mas que sino é este? Será sino de mortos ou de quaresma? Calor, um bafo húmido e abafado de chuviscos ainda de sexta feira, um comboio, e o sino que não se cala, pego nos testes, como detesto os testes, e lá os vejo, a pouco e pouco, demorados estes testes, entre um cachimbo que se apaga e o sino que toca. Alunos do Técnico a fazerem testes quinzenais, como se fossem miúdos do liceu... Mas são os tempos, Bolonha vem aí, temos de agarrar o tempo, globalização e a treta neo-liberal, sobram os testes já vistos, e os cães que ladram e o Sol regente do sino e do calor, senhor também de um concerto que virá no fim da tarde. Um Land-Rover que se põe a trabalhar calmamente num telheiro e um sino que não se cala e chega uma tia que nos diz: olha, lá anda a procissão do Senhor dos Passos na aldeia. Felizmente não tenho internet nesta tarde de Sol e de passos mas alguns geradores eólicos já se pressentem da janela onde me sento a ver o pomar em flor do outro lado da linha do comboio, serão ameixoeiras? Parecem, daqui onde me lembro desta tarde quente de Primavera, sinos em flor para os passos dos pés do Buxtehude, trezentos e vinte e seis anos atrás, afinal o tempo ainda é o mesmo, nunca saiu daqui, e o Paul van Nevel no seu concerto majestático de domingo ao fim de tarde, mais tarde, contribuiu para isso. As palavras para a crítica ficaram no Sol, no sino e no Senhor dos Passos, nada mais há para dizer. Lamentações de Jeremias fora da Igreja que as viram nascer para um punhado de gente que, num Domingo ao fim de tarde, não lamenta o Sol regente perdido ou ganho algures no tempo.


1.4.06

Concerto na Gulbenkian 

O concerto de ontem na Gulbenkian, onde pude escutar o concerto de Bruch para violino e orquestra (não escutei a primeira obra por ter chegado atrasado), a sinfonia italiana de Mendelsohn, e o duplo de Brahms para violino, violoncelo e orquestra, contámos com a orquestra Gulbenkian e

Gustavo Dudamel (maestro)
Pinchas Zukerman (violino)
Amanda Forsyth (violoncelo)

Um concerto com lados positivos e negativos:
Em Bruch, Zukerman mostrou uma facilidade técnica extraordinária, uma sonoridade espessa e transbordante, uma energia e um sentimento poderosos. A orquestra esteve coesa, as cordas apresentaram-se muito densas e com uma belíssima sonoridade. Pode-se dizer que houve poesia, sobretudo no segundo andamento, e energia no último.
No caso da sinfonia italiana de Mendelssohn a coisa já não foi tão clara. Por um lado o maestro comunicou entusiamo e energia, por outro lado tratou a obra de forma superficial, o segundo andamento de uma beleza etérea foi monótono e deu-nos uma sensação delicodoce que não deveria estar presente no Mendelssohn como é visto hoje.
Por outro lado o Scherzo foi uma seca, tudo menos um scherzo (significa jogo, brincadeira), tocado de forma lentíssima, apagada, sem brilho, desiludiu. O maestro deve ter tentado criar uma antítese do scherzo com o terrível andamento final, o presto, dificílimo para as madeiras, terrível para flautas e clarinetes, acabou por ter uma leitura fogosa, brilhante mesmo, e aqui Dudamel redimiu-se. Creio que o jovem maestro tem técnica, vigor e energia, sabe-a transmitir, mas por outro lado falta-lhe alguma maturidade. Mesmo no presto notou-se alguma superficialidade. Devo dizer que não gostei também de alguns sforzandi algo excessivos (sobretudo no primeiro andamento da sinfonia italiana).
E a peça de resistência apresentava-se com o duplo de Brahms para violino, violoncelo e orquestra. Um concerto de peso em que a violoncelista se mostrou algo insegura no início, em que os tempos andaram algo desacertados e em que se notou uma visão demasiado agressiva da música de Brahms, quer por parte dos solistas quer por parte do maestro. O pormenor dos sforzandi que em Mendelssohn já tinham sido excessivos tornaram-se aqui quase grotescos. Não gostei em particular das articulações de Forsyth e muito menos do vibrato agressivo. Brahms é um compositor de luzes e sombras onde conta muito a subtileza e a contenção. Sem uma mão madura e forte que dirija este Brahms final, muito sombrio e denso, acabamos por ter uma caricatura. De certa forma foi isso que aconteceu, por muitos bravos que se gritassem no final aos solistas saí da Gulbenkian desconsolado.

P.S. Um extra de Kodály não acrescentou grande coisa para lá da técnica perfeita dos dois solistas.


Amiguismo? 

Um raciocínio à la George:

Valter Hugo Mãe e Eduardo Pitta são amigos, tão amigos que estão juntos no blogue "Da Literatura", virtualmente juntos todos os dias lado a lado, a escreverem no mesmo blogue. Um é o editor da minha genial crítica "Polvos e Lombardos" exercício olímpico de denúncia cultural, social e pessoal de Wolfgang Amadeus Mozart e de Johann Sebastian Bach, homens que usaram nos suas obras trechos de outras suas composições e se repetiram imenso, o que é péssimo! Em D. Giovanni chega-se mesmo a citar Così Fan Tutti em passagens inteiras, e pior: Mozart copia descaradamente Martin y Soler, dois compositores o primeiro francês e o segundo espanhol, que compunham sempre juntos... Bach nas suas missas breves utiliza material das suas cantatas, uma vergonha! E, pior do que isso, utiliza composições inteiras de Vivaldi, e de outros compositores, chegando a roubar um primo: Walther, transcrevendo passagens inteiras para o orgão e chegando a transformar um concerto para quatro violinos de Vivaldi num de quatro cravos da sua autoria! Ninguém sabia disso mas eu, depois de passar quatro anos a estudar a obras completas de Mozart e Bach descobri este facto infame que denuncio aqui e agora. Já sei entretanto que, por Pitta e Mãe serem amigos no mesmo blogue, terei óptimas críticas literárias no "Da Literatura", quer do crítico Pitta quer do crítico e editor Mãe, estes últimos muito amigos entre si , porque coabitam no mesmo corpo, e estão muito juntos sob a forma de Mãe, este crítico fará uma crítica excelente do livro e recomendá-lo-á aos leitores para que o editor Mãe receba umas massas e eu também...
Sou mesmo bom, e presto um serviço público, primeiro nunca ninguém descobriu isso nos compositores citados e na minha tese brilhante consigo mesmo enunciar as passagens copiadas, segundo denuncio a fraude, terceiro dou a conhecer Martin e Soler, compositores de que ninguém ainda ouviu falar, e embora goste da obra de Martin, que descobri ser Franck Martin um amigo de Soler, não o quero conhecer em pessoa, poderia influenciar o meu juízo crítico..., o meu segundo texto no livro será mesmo sobre este Martin, que avalio enquanto compositor, descubro até que Soler o copiou intensamente, faço a respectiva denúncia. Infelizmente não fui ainda alvo de uma providência caulelar, que maçada!



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