<$BlogRSDUrl$>

9.6.06

Crónica 6 

Castrati Portugas

Durante o período barroco, um pouco por toda a Europa, os castrati dominaram os palcos das cortes e dos teatros públicos, levando as audiências ao delírio com as suas acrobacias vocais. Só a França, detentora de uma tradição operática própria, escapou a essa invasão. No entanto, os castrati eram contratados para a Capela Real de Versalhes, cantando nas obras sacras. A sua visibilidade como super-estrelas da ópera, algumas com o estatuto de mito, como é o caso de Farinelli, faz-nos por vezes esquecer que as primeiras funções dos castrati se encontram no campo da música religiosa. A Capela Sistina empregava-os pelo menos desde meados do século XVI, o mesmo acontecendo com algumas catedrais espanholas ou na capela da corte de Munique no tempo de Orlando di Lassus.
Em Portugal o uso de castrati na música religiosa e na ópera encontra-se sobretudo documentado a partir do reinado de D. João V, na sequência do processo de italianização da vida musical portuguesa. Mas é provável que estes não fossem uma novidade. O castrato romano Floriano Flori, que chegou a Lisboa em 1719, foi um dos primeiros a ser contratado para a Patriarcal, seguindo-se a importação regular deste tipo de cantores nos reinados de D. José e D. Maria I e durante a regência D. João VI. Para a Ópera do Tejo foram contratados alguns dos mais célebres castrati a nível europeu como Giziello, Cafarelli ou Carlo Reina. Este último ficou ao serviço da corte até ao final do século XVIII. Foi o destinatário de várias obras de compositores portugueses e dos napolitanos David Perez e Niccolò Jommelli, que o menciona na correspondência trocada com o director dos teatros reais portugueses. Após a abertura do Teatro de São Carlos, em 1793, ficou célebre a rivalidade entre o castrato Crescentini e a soprano Angelica Catalani.
Mas teriam também existido castrati portugueses? Os documentos da época indicam que sim. Os Estatutos do Seminário da Patriarcal, a principal escola de música em Lisboa antes da criação do conservatório, mencionam que a idade de admissão dos alunos deveria ser de 8 anos, podendo ser admitidos posteriormente no caso de já saberem música ou se fossem “castrados, com voz de soprano ou alto”. O Livro de Matrículas faz menção a nove castrati, todos admitidos antes de 1760. Três deles eram naturais de Lisboa, dois de Miranda [do Douro] (S. Pedro de Serracinos), dois de Setúbal, um de Viseu e outro de Tavira. Destes, José de Almeida, Joaquim de Oliveira e Camilo Cabral prosseguiram a sua formação em Nápoles no Conservatório de Santo Onofrio a Capuana.
Ao contrário dos seus colegas italianos nenhum deles fez uma brilhante carreira operática, mas tiveram cargos profissionais respeitáveis no âmbito da música sacra ou do ensino. Camilo Cabral, que também foi compositor, tornou-se um dos mestres do Seminário da Patriarcal, Joaquim de Oliveira, José de Almeida e João Peres Nunes foram cantores na Patriarcal e José Rodrigues na Capela Real. Alguns dos seus colegas tiveram porém de contentar-se com o lugar de Moços de Sacristia. No caso de Domingos Martins o Livro de Matrículas menciona que “saiu para a Sacristia, soube música e acompanhamento”, mas não deveria participar “nas cantorias por ser desafinado”.
A menção explícita a castrati portugueses é muito reduzida face ao avultado número de cantores da Capela Real e da Patriarcal, na sua maioria italianos. Está ainda por esclarecer se os nomes portugueses que aparecem entre os naipes de soprano e contralto eram castrados ou falsetistas.

Cristina Fernandes

Arquivos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?