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30.6.06

Ana Rocha em Londres escreve sobre Tosca para "O Crítico" 

Tosca” ou antes “Scarpia”?

por Ana Rocha*
Fotos de Catherine Ashmore



No dia 23, na terceira récita da Tosca na Royal Opera House de Londres, o público hesitou em aplaudir mais a arte de Angela Gheorghiu ou a de Bryn Terfel.
Contando com golpes de teatro magistrais (um “thriller” musical), numa acção concentrada em que política, sexo, violência, conspiração e mentiras se cruzam numa teia crua, as três personagens principais pagam com as suas vidas a avaliação errada que fizeram das suas posições na sociedade da época. Obedecendo a uma das leis da tragédia clássica, a acção decorre num só dia, na noite de 17 para 18 de Julho de 1800. Inspirado na pintura de Tiziano (para a cena inicial que decorre na Igreja de Sant’ Andrea della Valle) tanto quanto na peça de teatro de Victorien Sardou (obra estreada em Paris pela mítica Sarah Bernhardt), Puccini intercalou cenas de amor profano com cenas de amor sacro como aquela da devoção católica em que Tosca reza e coloca flores aos pés da Madonna.



Sob a direcção de Antonio Pappano, Bryn Terfel interpreta o papel acabado e perfeito de Scarpia, o siciliano que em 1800 aterrorizou os republicanos de Roma até à vitória de Napoleão em Marengo. Impondo-se desde a sua primeira aparição em cena, Terfel foi um desmesurado e maligno tirano, um homem poderoso que, nas palavras da personagem, pretende os favores sexuais da Tosca por escasso tempo, e que acaba por ser assassinado por essa mulher que nunca conseguirá possuir. Na sua quinta ópera, Puccini fez uma exposição perfeita da terrífica e sádica figura de Scarpia, o barão corrupto que governa Roma, uma cidade transformada num caos de violência em 1800, depois de uma série de invasões e de ocupações. Ele é um “outsider” em Roma que não quer sujar as suas mãos de forma directa, contactando com os seus esbirros através do seu “bargelloSpoletta, papel cantado por Enrico Faccini, um barítono nascido em Lucca. A ciência do fraseado e a forma de conduzir a voz, de timbre sombrio, sempre com gosto requintado, estão na posse de Terfel. A sua caracterização e desenvolvimento de uma personagem de enorme complexidade cénica, vocal e psicológica – marcada por repetições ritualísticas do ponto de vista musical - anunciam-se mal o barítono surge no palco, num acorde impressionante que já foi caracterizado por Ruggero Raimondi como um acorde “miguelangelesco”, palavras apropriadas numa altura em que milhares de turistas fazem longas filas de espera à porta do British Museum para entrarem em “Michelangelo, Closer to the Master”, a exposição dos 90 desenhos de Miguel Ângelo que sobreviveram à ordem dada pelo artista para a sua destruição.



Até ao seu assassinato, o percurso de Scarpia é muito lógico através da gama de sentimentos que surgem na figura do libidinoso, do sátiro, do beato e do polícia que esmaga uma vítima como Cavaradossi, um jacobino e “livre-pensador”. Ele faz sofrer Tosca com o seu desejo e manipulação, congeminando como irá possuí-la enquanto Cavaradossi é torturado. As dificuldades residem na tensão contínua da vocalidade de Scarpia, uma tensão que se expõe com a sucessão da nota do “Mi” natural, cantada de forma forte e declamada, e do “legato” da ária “Gia mi struggea l’amor della diva” do “Ré bemol” ao “Fá” natural. Recriando os trejeitos de Titto Gobbi, Terfel tem uma presença felina carismática, com um olhar que angustia.



Em 1964, Gobbi foi o Scarpia na mítica produção de Zefirelli para o Covent Garden, com a Tosca cantada por Maria Callas, aquela mulher que, tal como a figura da Cleópatra de Shakespeare, “having lost her breath/ she spoke and panted/ that she did make defect perfection/ and breathless, pour breath forth” (“Antony and Cleopatra”, segundo acto). Entre a assistência, alguns dos mais velhos (há um estudo que refere uma média de 59 anos de idade para o público que habitualmente frequenta o auditório de Covent Garden, valha o que valer o número seco fornecido pela estatística…) terão estado na Tosca de 1964 dirigida por Carlo Felice Cillario e cantada por Renato Cione no papel de Cavaradossi, uma produção que a Royal Opera House vendeu recentemente à Ópera de Chicago, desejosa de acolher esta relíquia operática. É sabido como as produções de Zefirelli são acarinhadas pelo público norte-americano.



Esta nova produção da Royal Opera House foi concebida por Jonathan Kent, o homem que dirigiu o prestigiado Almeida Theatre de Londres durante doze anos. Por decisão de Kent, Angela Gheorghiu é caracterizada como uma jovem sonhadora, quase uma miúda romântica, num contraste deliberado com a heroína muito violenta e dilacerada de Maria Callas e de Raina Kabaivanska. Os ingleses que já aclamaram a soprano romena como Violetta, Liú e Mimi, voltaram a celebrá-la na sua arte de “recitar-cantando” em “Vissi d’ arte”, a ária lentamente destilada que separa o mundo harmonioso e artístico em que vive Floria Tosca das realidades brutais e políticas do mundo de Scarpia. Por curiosidade, note-se que a 14 de Janeiro de 1900, foi também uma romena, Hariclea Darclé (uma intérprete cujas capacidades teatrais eram superiores às canoras segundo a crítica da época) a primeira soprano a cantar o papel de Tosca.
Aplausos também não faltaram para a prestação do tenor argentino Marcelo Alvarez, um Cavaradossi que começou de forma tímida a Recondita armonia, crescendo para o III Acto numa linha de canto melancólica que se incendiou com E luccevan le stelle.
Até ao próximo dia 8 de Julho, no palco da Royal Opera House irão alternando com Angela Gheorghiu, Bryn Terfel e Marcello Alvarez outros cantores nos papéis principais desta ópera de Puccini. O maestro Paul Wynne Griffiths substitui Antonio Pappano nos dias em que cantam Catherine Naglestad, Samuel Ramey e Nicola Rossi Giordano, o segundo elenco da Tosca, a ópera que Puccini escreveu contra todos os conselhos dados pelos seus amigos que eram hostis à crueza, ao anti-clericalismo e à imoralidade do libreto que Giuseppe Giacosa e Luigi Illica escreveram a partir da peça de Sardou.

* - Crítica do Expresso

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