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6.5.06

"Das Zigeunergold" 

Joaquim Casimiro, compositor nascido em 1808, escreveu obras como Um ensaio da Norma, Ópio e Champanhe, A Filha do Ar, A Lotaria do Diabo, além de 97 peças de música sacra e 209 partituras para dramas, oratórias, comédias e farsas. É um dos primeiros autores de revista em Portugal!
Será que este autor tão esquecido não merece uma reabilitação pelo Teatro Nacional de S. Carlos? O seu drama musical "O Ouro do Cigano" não poderia ser alvo de uma reabilitação como foi a da obra Lauriane de Augusto Machado? Uma sugestão para os musicólogos e programadores portugueses. Porque não um Festival Casimiro 2008 para celebrar os duzentos anos de nascimento de Joaquim Casimiro?
Um Festival onde se poderiam escutar em múltiplos concertos obras de um fôlego tão intenso como o Stabat Mater ou mesmo essa maravilha desconhecida que é "A Filha do Ar" ou mesmo: "A Lotaria do Diabo".
Casimiro poderá ser o grande génio português do século XIX, será que ninguém acorda para Casimiro. Será que o drama musical, tão fresco e divertido, em cujos momentos de glória se revê o charme de um Schubert na modulação, a frescura deliciosa de Mendelssohn na orquestração, a etérea loucura de um Schumann nas ideias temáticas, ou mesmo a poderosa utilização de tubas e trombones tão cara ao primeiro Wagner! Casimiro é um génio, fez da mais maravilhosa música que se pôde escutar em Portugal no século XIX. É mesmo esse grande esquecido e aviltado pela história que musicólogos pouco conscenciosos, sabe-se lá movidos por complexos de inferioridade bem lusitanos e por ideias feitas, têm exuberantemente ignorado!
Casimiro é tão bom como Beethoven, Wagner não lhe faz sombra. Pensamos que a descoberta das obras primas de Casimiro, como a Missa d'Arruda, ou o Credo de uma Missa sem Acompanhamento, serão pedradas no charco que agitarão para sempre a musicografia portuguesa. E ai de quem discordar!
Entretanto a obra "Das Zigeunergold" que recorre descaradamente ao modelo alemão e o introduz em Portugal, cujo início Wagner provavelmente copiou e retrata um cigano que gostava muito de ouro, cigano que encontra três lavadeiras de Caneças na Fonte dos Pintos em Entrecampos e lhes rouba os fios de ouro, obra com um bailado delicioso em que as lavadeiras de Caneças encontram pastores bucólicos de Colares com claras referências jocosas, que é uma obra prima verdadeira da história da música, quiçá a maior do bailado clássico, é um drama fantástico. O Rei da Palha, que fornecia os cocheiros de Lisboa de então, vai travar um duelo de morte com o Cigano e descobre-se ao longo da obra que as lavadeiras de Caneças eram afinal príncipes angolanos, coisa espantosa se Casimiro não tivesse atribuído esses papéis a três baixos profundos. Aliás os cantores da estreia, que passou despercebida por ser em plena guerra civil de 1833, eram três cónegos da Patriarcal, miguelistas convictos, uma vez que Lisboa carecia de sopranos na época... No final um cataclismo cómico destrói toda a cena e Casimiro mostra toda a sua pujança como libretista ao escrever a obra em seis línguas a saber: Latim, Alemão, Português, Galaico Português arcaico, Italiano e Sânscrito.
Parece impossivel mas é verdade.

João Tenório Castanheira


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