<$BlogRSDUrl$>

27.5.06

Crónica 5 

Lojas de Partituras nos finais do séc. XVIII

Encontrar uma loja de partituras em Lisboa neste início do século XXI converteu-se numa árdua tarefa. O último reduto a disponibilizar um sortido razoável de peças para os vários instrumentos, música de câmara, orquestra, obras pedagógicas e livros sobre música fechou há alguns meses e nos últimos tempos muitos terão sido os músicos, estudantes ou simples diletantes a encontrar as enormes portas de madeira na Calçada do Sacramento encerradas, sem mais dar acesso ao último lugar de residência da centenária Valentim de Carvalho.
A edição musical (assunto ao qual regressaremos em futuras crónicas) e o comércio de partituras tiveram em Portugal uma história descontínua, com pequenas clareiras de florescimento. Proponho hoje uma viagem no tempo, à última década do século XVIII, e uma visita imaginária às várias lojas de música de Lisboa, a quem o crescente desenvolvimento da prática musical doméstica por amadores e profissionais teria conferido uma certa vitalidade.
Em 1792, os franceses Pedro Anselmo Maréchal e Domingos Milcent tinham aberto na Rua das Parreiras, junto à Igreja de Jesus, a Real Fábrica e Armazém de Música, responsável pelas primeiras edições do Jornal de Modinhas. Três anos depois os dois sócios separaram-se. Milcent estabeleceu-se na Rua de São Paulo, prosseguindo a edição do Jornal de Modinhas e a venda de música de salão. Marechal abriu no Chiado a Real Impressão de Música, onde era possível encontrar árias dos principais compositores italianos da época, em especial de Paisiello e Cimarosa, composições próprias e música de tecla de Clementi, Haydn, Mozart ou Pleyel. Ainda junto ao Chiado, em frente à Igreja dos Mártires, o fagotista alemão João Baptista Weltin, membro das orquestras da Real Câmara e do Teatro da Rua dos Condes, tinha uma loja de instrumentos que também vendia partituras. Mais à frente, no Calhariz, o livreiro João Baptista Reycend alargava também o seu negócio à música impressa.
Mas a loja que parece ter proporcionado aos lisboetas uma maior quantidade e diversidade de produtos, incluindo instrumentos, foi o Armazém do trompista alemão João Baptista Waltmann, situado na Rua de São Paulo. Colega de Weltin nas orquestras da corte e do Teatro da Rua dos Condes, Waltmann anunciava regularmente as suas novidades na Gazeta de Lisboa. Vendia árias italianas, missas de Haydn, Richter ou Gossec, sinfonias de Mozart ou Pleyel em partitura de orquestra. Chegou também a publicar um Jornal de Modinhas Novas, dedicadas às senhoras, e foi o responsável pelas primeiras edições portuguesas das Sonatas de Mozart para piano e para violino e outras peças de câmara. Foi também o primeiro a vender metrónomos em Lisboa, anunciando essa novidade na Gazeta de 6 de Dezembro de 1824 e fornecendo aos clientes folhetos explicativos acerca desses instrumentos que “regem da maneira mais positiva os andamentos da musica; bem como servem para regular com exactidão a instrucção das Marchas nos Corpos de Infantaria.”

Cristina Fernandes

Arquivos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?