<$BlogRSDUrl$>

21.4.06

Crónicas - E o Vento levou a Tocata de Sousa Carvalho… ! 

A meu pedido Cristina Fernandes, musicóloga e crítica, aceitou divulgar as suas crónicas para a rádio aqui neste blogue. Achamos interessante deixar uma versão mais permanente e duradoura do que a audição, instantânea e efémera, no programa de rádio "Seara de Sons", que passa aos sábados pelas 12h na Antena 2. As crónicas foram escritas para rádio, devem ser fáceis de apreender pelo ouvinte e curtas, sem os longos considerandos que um artigo de jornal, ou numa revista especializada, implicam.
A primeira publicação diz respeito à confusão que existe sobre a Tocata e Andante em Sol menor de João de Sousa Carvalho, perdão de Mattia Vento. Vem a propósito desta Festa da Música no CCB, onde a obra figura (concerto 73) como sendo de João de Sousa Carvalho.
A audição desta crónica foi no dia 7 de Abril de 2006. É a crónica nº 14. As crónicas de 1 a 13 serão publicadas numa série diária. Depois será publicada cada crónica uma semana depois de ter ido para o ar.

H.S.

E o Vento levou a Tocata de Sousa Carvalho… !

Muitos dos ouvintes que nos escutam terão identificado a peça que acabámos de ouvir como a Tocata em Sol menor de João de Sousa Carvalho (1745-1798), supostamente uma das obras mais famosas da literatura portuguesa para cravo do século XVIII. No entanto, há vários anos que se sabe de fonte segura que ela não foi escrita pelo compositor português, mas sim pelo napolitano Mattia Vento, nascido em 1735 e falecido em 1776.
A Tocata em Sol menor, bastante popular entre os estudantes de piano dos conservatórios, foi publicada com atribuição a Sousa Carvalho por Santiago Kastner em 1935 no 1º volume dos Cravistas Portugueses na editora Schott. No prefácio o musicólogo classifica-a como “uma peça de muito esplendor”, afirmando ainda que o “andamento lento (apesar de todos os italianismos tão lusitano!) (…) é extremamente delicado no seu colorido.” Kastner atribui-a a Sousa Carvalho pelo facto de se encontrar no meio de um volume onde consta numa das páginas o título “Sonatas e Tocatas del Signor Giovanni Sousa Carvalho”, mas na verdade a referida peça encontra-se inserida neste manuscrito sem indicação de autor.
Sobre esta atribuição precipitada, construiu-se um dos grandes equívocos da história da música portuguesa. Sousa Carvalho foi durante décadas considerado o mais importante compositor português de música para tecla da segunda metade do século XVIII, quando na realidade sobrevive apenas uma única Sonata da sua autoria. Trata-se da Sonata em Ré Maior publicada por Gerard Doderer em 1972, juntamente com a Sonata em Fá Maior, uma obra que também não foi composta de raiz pelo compositor português. Conforme João Pedro d'Alvarenga explica num artigo publicado em 1995 na Revista Portuguesa de Musicologia a Sonata em Fá Maior é um arranjo (ou, se quisermos, uma recomposição) efectuada a partir de um Concerto atribuído a Pietro Alessandro Guglielmi e de um Concerto anónimo.
Quanto à famosa Tocata em Sol menor faz parte de uma colecção de Seis Sonatas para Cravo com acompanhamento de Violino ou Flauta alemã, dedicadas a Miss Blosset, compostas por Mattia Vento e impressas em Londres pelo autor em 1767. A existência na Biblioteca Nacional de alguns exemplares da publicação londrina e de cópias com a identificação correcta, faz supôr que esta tivesse circulado em Portugal nos finais do século XVIII com a identificação do autor verdadeiro.
No entanto, a edição de Kastner e a subsequente ênfase da literatura musicológica nesta obra contribuiu para que fosse objecto de várias gravações e interpretações ao vivo com a errada atribuição a Sousa Carvalho. Mesmo depois da publicação do Catálogo da Obra de Sousa Carvalho, realizado por Carlos Santos Luís, e do já citado artigo de João Pedro Alvarenga, onde se esclarece todo este imbróglio, a Tocata em Sol menor continua ainda hoje a ser associada a Sousa Carvalho. Ainda acontece, por exemplo, numa recente gravação pelo pianista Constantin Sandu, na etiqueta Numérica, ou no programa proposto pela pianista Carla Seixas para a Festa da Música.
A terminar esta crónica deixo-vos com a Sonata em Ré Maior, na interpretação de János Sebestyén, a única que foi realmente composta por Sousa Carvalho.

Cristina Fernandes

Arquivos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?