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25.4.06

Crónicas 1 e 2 - Seara de Sons - Programa I e II - Te Deum 

Te Deum de fim de ano

A tradição de cantar o Te Deum no dia 31 de Dezembro como acção de graças pelo ano que passou foi ao longo de várias décadas uma das cerimónias litúrgico-musicais mais imponentes da Lisboa setecentista. Importantes obras de carácter festivo, com grandes efectivos vocais e instrumentais, foram compostas para esta ocasião, que decorria num verdadeiro cenário teatral. As igrejas eram decoradas com armações de veludo, seda e damasco e o codificado ritual religioso assumia uma pompa coreográfica de grandeza e esplendor.
O Te Deum no último dia do ano era habitualmente interpretado pelos Jesuítas na suas igrejas principais, realizando-se em Lisboa na Igreja de São Roque. Depois da promoção da Capela Real a Patriarcal em 1716 e do grande investimento de D. João V na importação dos modelos cerimoniais e musicais romanos, o Rei Magnânimo determinou em 1718 que esta cerimónia fosse celebrada à maneira de Roma a expensas do Patriarca. Para essa ocasião o carmelita Frei Antão de Santo Elias compôs um Te Deum “a quatro coros com diversos instrumentos”, cuja execução foi descrita nos relatórios que o Núncio Apostólico enviava de Lisboa para Roma:

“A Musica foi a melhor que se pôde fazer, e com a quantidade possível de instrumentos e trombetas, correspondendo alternativamento ao Coro dos Músicos doze grupos de Frades de várias Religiões e de meninos estudantes cantores, dispersos entre o povo da Igreja, os Frades entre os homens e os meninos entre as Mulheres, regolando-se cada um pelo seu Mestre de Capela.”

Archivio Segreto Vaticano, Segretaria di Stato, Portogallo, vol. 75, ff. 4-5, 3 de Janeiro, 1719

Esta descrição remete para uma obra policoral de amplas dimensões e pressupõe uma distribuição dos vários intervenientes por diferentes pontos da igreja que teria em mente o uso da espacialização sonora como componente estética. Esta dimensão não tem sido por enquanto estudada mas parece ter sido frequente ao longo da primeira metade do século XVIII. A sua prática vem ao encontro da adopção por alguns compositores portugueses das técnicas policorais do Barroco colossal romano (conforme eram praticadas por Benevoli, Pitoni ou Carissimi). Estas continuaram a dominar as obras dos anos seguintes em cerimónias cada vez mais sumptuosas que chegavam a durar duas ou três horas. Infelizmente a maior partes destas partituras perderam-se no Terramoto de 1755. Em 1720 a Gazeta de Lisboa Ocidental de 4 de Janeiro referia “um Te Deum a quinze coros, divididos por cinco coretos, composto por Cristovão da Fonseca, padre jesuíta na Casa Professa de São Roque.
Foi também neste contexto que em 1734 nasceu o monumental Te Deum de António Teixeira, para cinco coros, oito solistas e orquestra, ou o Te Deum a quatro coros de Domenico Scarlatti, cuja partitura infelizmente se perdeu.

CRÓNICA II (continuação da anterior)

No último programa falámos da tradição de cantar o Te Deum no dia 31 de Dezembro na Igreja de São Roque, em Lisboa, durante o reinado de D. João V. Esta cerimónia de acção de graças pelo ano que passou era uma das mais imponentes da Lisboa setecentista, realizando-se a partir de 1718 segundo os modelos musicais e rituais romanos por ordem do Rei Magnânimo. Na segunda metade do século XVIII, a tradição manteve-se, continuando a dar origem a importantes obras musicais escritas pelos principais compositores portugueses da época.
Em 1752, dois anos depois da morte de D. João V, o Te Deum do último dia do ano foi da autoria de João Rodrigues Esteves, que tinha sido bolseiro do Seminário da Patriarcal em Roma e a quem a Gazeta de Lisboa não poupa elogios, afirmando que “ havendo já feito outra composição musica do mesmo Hymno, nesta parece que se excedeu a si mesmo, tanto na Ciencia, como no bom gosto.” (Gazeta de Lisboa, 1-1-1752; Suplemento Num. 52, 1039-1040)
Após a expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal e da entrega da Igreja de S. Roque à Misericórdia, a tradicional cerimónia de fim de ano passou a realizar-se na Capela Real da Ajuda. O espaço seria mais exíguo e o gosto musical tinha mudado em direcção aos estilos do pós-barroco mas manteve-se o fausto da cerimónia, à qual continuavam a assitir a corte, os Grandes do reino e elementos do corpo diplomático, entre os quais o Marquês de Bombelles, embaixador francês em Lisboa:

“Quando nos levantámos da mesa fomos ao Palácio da Ajuda para assistir ao Te Deum cantado em Acção de Graças pelos favores espalhados por Deus sobre o Reino de Portugal no decurso do ano de 1786. (…)
O Te Deum executado esta noite foi composto por um jovem português; tanto o conjunto da peça como os seus detalhes honram o talento do autor. A Capela da Rainha, apesar de muito pequena, é melhor proporcionada do que o resto do Palácio. O galão de ouro sobre damasco carmesim brilha por toda a parte. (…)
Este Te Deum e toda a despesa a que ele obriga fazem-se a expensas do Patriarca, que deste modo oferece à Rainha o seu presente de Ano Novo. Sua Majestade fica numa tribuna com as Princesas da Família Real. O Príncipe do Brasil e o irmão ficam numa tribuna ao lado mas não entram nem saiem pela mesma porta por onde passam a Rainha e as Princesas.”
[Diário do Marquês de Bombelles, 31 de Dezembro de 1786; p. 73:]

As grandes texturas policorais (decorrentes da estrutura do texto litúrgico) da primeira metade do século XVIII são agora normalmente reduzidas a dois coros e solistas, servindo de veículo a linguagens musicais mais próximas do estilo galante ou do classicismo. Foi para os últimos dias dos anos de 1769, 1789 e 1792 e para a Capela Real da Ajuda, que João de Sousa Carvalho compôs os seus três Te Deum, para dois coros, solistas e orquestra, assim como outros compositores ligados à Capela Real e Patriarcal, como por exemplo Jerónimo Francisco de Lima, António Leal Moreira, Marcos Portugal ou o cantor e compositor italiano José Totti.
O último Te Deum de Sousa Carvalho, recorre a cinco solistas e duas orquestras, para além de dois coros, contando com longas árias solísticas de inspirado recorte melódico, ágeis figurações de coloratura e uma sintaxe musical de pendor clássico.

Cristina Fernandes


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