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28.4.06

Crónica 3 - Programa Seara de Sons Antena 2 - Rossini 

Rossini no São Carlos e “a pobre Clementina”

Durante os anos 20 do século XIX, Rossini foi o compositor preferido do público do Teatro de São Carlos. Crónicas e outros relatos da época referem invariavelmente a música do compositor italiano como o principal modelo do gosto, em detrimento de Mozart ou mesmo do português João Domingos Bomtempo. As primeiras obras de Rossini apresentadas em Lisboa foram L’Italiana in Algeri e Tancredi na temporada de 1815-16. Em 1819 estreava-se La Cenerentola, La Gazza Ladra e O Barbeiro de Sevilha, óperas compostas apenas dois ou três anos antes.
A presença de Rossini nas programações do São Carlos tornou-se cada vez mais frequente, atingindo o auge em 1826 com um total de oito óperas. Entre elas inclui-se a primeira audição de Adina, uma encomenda do filho do Intendente Geral da Polícia, Diogo Inácio de Pina Manique. Além da imprescindível reposição do Barbeiro, em 1825 foram levadas à cena novas produções de Bianca e Falliero, L’Inganno Felice, Il turco in Italia, Aureliano in Palmira, Demetrio e Polibio e La Scala di Seta. De todas elas foi O Barbeiro aquela que atingiu maior popularidade, vindo a ser programada em cerca de 70 temporadas desde a estreia portuguesa até à actualidade.
Foi também no âmbito de uma representação do Barbeiro de Sevilha, em 1849, que ocorreu um dos mais curiosos episódios da história do São Carlos. Relatado por Francisco da Fonseca Benevides no livro que publicou em 1883 acerca do teatro lisboeta, ilustra quer a atitude frívola e implacável do público e da orquestra, quer um modelo de recepção do espectáculo operático bem longínquo do actual. O relato tem também implícita uma atitude misógina para com a cantora Clementina Cordeiro, que teria falta de encantos femininos., bem como o enraizado descrédito perante os intérpretes nacionais.

“Foi n’esta época que se deu um engraçado episódio com Clementina Cordeiro, a unica dama lyrica que produzu até hoje o conservatório de Lisboa! Tendo debutado de prima-donna na Parisina em 1845, não tinha manifestado grandes qualidades nem de voz, nem de canto, nem de plástica, baixando logo aos papéis de comprimaria e sendo alvo das troças do pouco patriotico público de São Carlos. Uma noite, em que se cantava O Barbeiro de Sevilha, lembraram-se alguns dos janotas da epocha de pedir bis à ária da velha que cantava Clementina; esta acedeu a tão inesperado triumpho: mas oh surpresa! Da segunda vez que cantou a ária não poude jamais entoar! A orquestra, de antemão combinada com os taes janotas, havia tocado hum tom acima! Acolhido o episodio com delirantes gargalhadas, novos, numerosos e imperativos bis obrigaram a pobre Clementina a cantar terceira vez a ária de Bertha do Barbeiro; se na primeira repetição não pudera affinar por muito alta tessitura, agora também não podia affinar, porque estava baixa demais; os maganões da orquestra haviam tocado hum tom abaixo! A hilaridade do público attingiu então o apogeo do delírio; este ridículo mas engraçado episódio foi o maior sucesso que athe hoje tem tido o conservatorio de Lisboa, na sua produção de cantoras para o theatro lyrico!”

Cristina Fernandes

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