<$BlogRSDUrl$>

21.10.05

Porque voto em Alegre e Cavaco 

Acabo de ler o Post do Henrique Silveira sobre os índices e andei a dar uma vista de olhos. Isso acabou por me levar a escrever este post, alguns dirão que é um post contraditório, eu não penso assim...

"Portugal não é um país de corruptos!" Dizia Cavaco Silva há alguns anos. De facto Portugal é um dos países mais corruptos da OCDE, e dentro dos países da primeira trintena do HDI onde figura em 27º lugar atrás da Eslovénia, Singapura e Grécia, salva-se pela maior corrupção da Grécia e da Itália mas somos ultrapassados pelos Barbados e pelo Chile! Acabamos por ficar em 26º lugar e num dos piores lugares da UE. Se não somos um país de corruptos pelo menos seremos dos mais corruptos da União. Em alguma coisa seremos os primeiros.

Por estas razões as duas candidaturas de dois dos principais responsáveis por esta democracia não me estimulam. Provaram anteriormente que são ambos decadentes exemplos de incompetentes políticos e com deficiente prolegomniação temporal. Mal vai o país que não consegue gerar novas dinâmicas, novas axiomáticas, que não renova os seus postulados. A desconstrução de Derrida não se aplica ao Portugal estagnado hodierno, não existem exercidos de subversão, estaremos em estado de cristalização, reflexões oníricas serão sempre votadas ao ostracismo, um solipsismo neo-cartesiano serôdio instalou-se em todos os sectores. A demonstração verborrêica sobre postulados vagos apenas nos remete a um neo-cinismo interno e pessoal, a um debate sofista. Lacan bem nos preveniu para esta carência absoluta de sageza indemonstrável nos paradigmas teóricos e os discursos paupérrimos dos dirigentes sem preparação reafirmam essa mesma proposição. Nada nos salva desta hermenêutica de vagos âmagos sem retroversão, temos apenas círculos impuros e vícios elípticos numa caldeira prepotente de retornos incomensuráveis numa ideologia do nada, numa praxis do quotidiano sem remissão em que apenas o mesquinho interessa, o nepotismo, facilitando a vida ao descendente, ao neto, numa contemporânea recriação de um Portugal do antigo regime pré-convencional, ou como preferir pré-cartista, em que a vida pública era apenas uma via de entesouramento dos bens colectivos, de amealhamento fiduciário sem a merecida fidúcia onomástica, ou melhor dizendo etimológica. Prelentórios de um tempo de gongorismos fáceis acabamos por cair em tradições miríficas de oportunismos constantes disfarçados de argumentos com lógica retorcida e enviesada, basta escutar o bonzo comentador para se entender esta pseudo retórica inconstante ao sabor de prolegómenos movediços.

Após esta reflexão sobre as raízes da não inscrição no devir histórico destes tempo de indefinição nada melhor do que recordar que nem dez anos de esquecimento fazem esquecer os dez anos de cavaquismo em que Soares se tornou popular por ser a força de bloqueio ao Cavaco, depois do candidato mais antigo ter sido um dos piores primeiros ministros de todos os tempos em Portugal, apenas superado por Santana Lopes algum tempo depois.
Alegre é um dos chamados senadores do regime, mas nunca lhe conhecemos qualquer preparação para qualquer cargo de liderança que não seja escrever uns versos pouco épicos mas sempre lidos com voz oriunda de fraga profunda.
O que me leva para as escolhas: Cavaco, Alegre, Soares, Sousa, Louçã, outro?
Sei que se Cavaco não ganhar à primeira (o mais provável é mesmo ganhar) terá provavelmente Alegre na segunda volta. Sondagens o dizem e o facto de Soares ser o candidato do PS só lhe vai tirar mais votos, como se provou nas últimas autárquicas. Quem é de esquerda, conceito a cair em desuso mas que utilizamos por razões operacionais, terá de entregar a sua fidúcia a Alegre para punir o PS e o mitólogo Sócrates. Os vinte e poucos por cento residuais que ficam para Soares, vindos dos militantes, boys e familiares não são um integral suficiente para superar Alegre que terá o voto dos onirismos da esquerda nauseados da política e dos partidos e que querem dar o seu voto, útil ou inútil, a alguém em quem confiam e que não está em estado de geriodemência (pelo menos aparentemente, veja-se Sampaio que também não aparenta à primeira vista estar gagá).
Assim já decidi: na primeira volta terei de escolher um candidato folclórico, Cavaco passará sempre à segunda volta se não for eleito à primeira! O meu candidato folclórico poderá ser um dos que obtenha assinaturas para concorrer, ou até Alegre, Soares que também é candidato folclórico já não incomoda e é o político com piores credenciais, o exemplo último do político que nunca fez nada na vida, e é apoiado pelo mesmo aparelho que deu lugares a Fátima Felgueiras. Alegre, que até por ser rimoso, merece o benefício da dúvida apesar da impreparação para o lugar, além disso na remotíssima hipótese de ser eleito poderá incomodar o Sócrates, o que não é de todo mau: é um Alegre sempre furioso e que nunca se cala.
Mas na segunda volta o que fazer? Temos Cavaco e Alegre. Aqui terei de votar Cavaco. Reconheço a sua posição esquerdista, e volto a afirmar que esta nomenclatura é apenas operacional, reconheço o fraco estatuto intelectual e a sua total incompreensão filosófica do real, do surreal e do subreal. Cavaco é péssimo, todos o sabemos. Cavaco cospe o bolo rei. Cavaco é o senso comum, é o chico esperto lusitano.
Mas Cavaco tem um mérito insubstituível: Cavaco pode incomodar Sócrates, e substantivamente mais do que Alegre. E, se eu fosse o profeta, diria que Sócrates é o toucinho. Ora o toucinho deve ser fumado...

J.T. Castanheira


Arquivos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?