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30.8.05

Leituras em África I - Código Da Vinci e O Medo de Existir 


Ontem a ouvir a reportagem do Rui Lagartinho na RTP sobre a leitura de Verão lembrei-me de alguns posts que quis escrever sobre as minhas leituras recentes, não “de Verão” porque eu não tiro férias de Verão, mas “de África”, pois é durante as minhas longas estadias em África que actualizo a minha leitura. Achei curioso falarem do Código da Vinci e confesso que era um livro que eu não conhecia até há dois meses atrás, e confesso mais, achei que não perdia nada se continuasse a não conhecer. Este foi um dos posts que pensei enviar-te de Angola em Julho. Quando o livro saiu e “toda” a gente não falava de outra coisa, quando passeava pela praia e uma em cada duas pessoas tinha o Código da Vinci à frente da cara pensava, de um modo presunçoso, “se tanta gente gosta de o ler não pode ser um livro fantástico”. Dois anos depois (penso que o livro foi lançado há dois anos) decidi comprá-lo, tinha chegado a hora de o ler. Achei que se assemelha a Crichton ou aos “comuns” escritores de best sellers norte americanos. São livros que são fáceis de ler, que envolvem o leitor num enredo de acção, mistério, suspense, bem escritos. A parte negativa no Código da Vinci, do meu ponto de vista, está relacionada com o fantástico da história, o modo de fantasiar, de fazer a acção desenvolver-se tão rapidamente, envolver tantas personagens num policial com a presunção de estar contar uma história oculta do Cristianismo. Até pode ser verdade que Madalena tenha sido mulher de Jesus Cristo e tenham tido um filho, com descendentes até hoje (a parte genética só se transmite até à quinta geração, acho!!!) desde sempre pus em causa todos os dogmas da igreja, sobretudo a católica, ao ponto de me achar agnóstica, embora consciente de que me é confortável acreditar que existe um Deus, ou vários, conforme cada um de nós queira acreditar, poderá ser um Deus Grande e um Deus das Pequenas Coisas como Arundhati Roy lhe chama, ou os vários Deuses do Gregos, ou ainda das sociedades Animistas Africanas. Portanto a minha crítica ao Código da Vinci não se prende com a questão religiosa. Acho apenas que produto foi bem vendido, mas não é ali, com aquela leitura, que qualquer questão ou dúvida me foi levantada. Também não penso melhor ou pior da Igreja Católica como instituição ou dos seus ramos (poderei chamar “ramo” à Opus Dei? Se não é ramo o que é?). Aquele livro, da forma como nos apresenta as coisas, não tem credibilidade nenhuma, pelo menos aquela que lhe querem dar. É um livro de ficção bem escrito com um enredo demasiado fantástico, não só no que respeita à história dos descendentes de Cristo, seus rituais mas também na acção policial, na fuga, no modo como os “heróis” escapam de tudo num estilo James Bond e, dentro do mesmo género, há melhores, “The Rule of Four” por exemplo, que li no ano passado, em Inglês e cujo título em Português desconheço. Por outro lado perguntei-me se este livro poderia ter algum papel educativo, no sentido de ajudar as pessoas a questionarem o que sempre consideraram como verdadeiro, da mesma forma que a revista Maria tem o seu papel positivo na sociedade na parte das perguntas e dúvidas que as pessoas podem colocar (espero que a revista seja consciente e tenha pessoas válidas a dar as respostas...). Como será que o cérebro de 400.000 mil portugueses (no mínimo, o número de exemplares vendidos) processou o texto?

Alargo-me demais e divagueio. Faz-me lembrar a crítica de José Gil aos Portugueses no seu muito bem escrito “O Medo de Existir”, livro que li também durante a última estadia em Angola e quero reler, talvez mais do que uma vez, só então escreverei sobre as dúvidas que me levantou e outras que certamente levantará.

S. Saraiva

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