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18.3.05

Joaquim 

Em Setembro do ano passado, no dia seguinte ao da minha chegada, após uma ausência minha de quase 3 meses, o meu querido e meio louco jardineiro, o Joaquim, veio ver-me logo de manhã, quando cheguei ao escritório às 7 horas. Durante quase três meses ele não apareceu aqui porque eu não estava cá.

Antes da minha partida, estando eu com os olhos cheios de lágrimas, e que na realidade escorriam na sua cara, pedi-lhe que tomasse conta das rosas que aqui tínhamos plantado. Se elas secassem, eu secaria também, disse-lhe. Ele assegurou-me que lhes daria água pois se as nossas rosas morressem o seu coração secaria com as suas raízes.

E assim foi, o Joaquim não voltou a aparecer para regar as nossas rosas durante quase três meses.

Felizmente, apesar da falta de água pois este período coincidiu com os meses de seca, outros asseguraram que as nossas rosas se mantivessem verdes, cheias de botões gordos, amarelos e encarnados. E eu estava feliz por o ver pois o Joaquim era meu amigo desde que me lembro de existir. Nessa altura ele tomava conta não só do jardim da nossa Casa como também do nosso cão, um enorme pastor alemão que tinha nascido uns dias antes de mim. Eu adorava-o por ser ele a tratar de todas essas coisas de que eu gostava e seguia-o durante horas observando-o nas suas tarefas diárias. A hora de dar comida ao Kaiser era sagrada e o cheiro da relva cortada é ainda hoje um dos meus cheiros preferidos.

Mas só vinte e muitos anos depois, quando o reencontrei, o apreciei devidamente. Durante os últimos dois anos, sempre que aqui passava uns meses, ele vinha ter comigo todas as manhãs muito cedo e conversávamos durante dez ou quinze minutos, ele com a sua velha e simples sabedoria e extraordinário sentido de humor.

Sinto a sua falta, fez esta semana seis meses que ele morreu, subitamente, cinco semanas após a minha chegada em Setembro. Nessa manhã falámos tanto, falou-me tanto de si, de como era há trinta anos, de mim em pequena, recontou-me a sua vida toda. Como disse o seu filho, estava a despedir-se e eu não podia imaginar. De vez em quando ainda olho melhor para o rosto de algum velho magro que passe quase a correr na rua, de camisa por fora das calças e chapéu, à espera que seja ele.

S. Saraiva

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