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18.3.05

Concerto em Badajoz com Marco Beasley e Guido Morini 

Quinta feira, fim de tarde muito quente em Badajoz. Depois de um agradável passeio com amigos pela zona histórica da cidade encaminhamo-nos para uma pequena Igreja de um convento de Clarissas. Freiras por detrás das grades do coro. As mesmas freiras que têm um sucesso espantoso com o seu livro de receitas que já vendeu mais de 200000 exemplares.
Público numeroso enchendo a Igreja.

O programa Ex tenebris vita.
Obras de Grandi:
Cantabo Domino
O quam Pulcra est (motetes)
Sances:
Stabat Mater
Frescobaldi:
Varie partite sopra il passacaglio
Aria de Romanesca
Alessandro Scarlatti:
Tenebrae facta sunt
B. Strozzi:
Sino alla morte
Anónimo:
De Profundis (gregoriano melismático)
Frescobaldi:
Aria de Romanesca
Frescobaldi:
Altre partite sopra il passacaglio
Sances:
Cantade sopra il passacaglie
Monteverdi:
Si dolce è 'l tormento
Stefani:
Amante felice
Anónimo:
De Profundis (gregoriano melismático)
Monteverdi:
Nigra sum
Monteverdi:
Laudate Dominum (um dos muitos da Selva Morale, este para voce sola)
M. Beasley:
Alleluja: amnis spiritus (parafrasi gregoriana)
Monteverdi:
Jubilet tota civitas

Marco Beasley entre o registo sacro e o profano. O programa longuíssimo e sem intervalo é escolhido de uma forma muito coerente permitindo a Beasley descansar nas partitas de Frescobaldi. Um programa devotado à Semana Santa, mas com música profana Três obras já foram interpretadas em Mafra: cantade sopra il passacaglie, dolce è 'l tormento, Amante felice na voz e as partitas de Frescobaldi.
O primeiro aspecto interessante é a ressonância da voz de Beasley num espaço relativamente pequeno e com reverberação, como a Igreja do convento de Santa Ana em Badajoz. Beasley encheu completamente o espaço com a sua voz natural e a sua tremenda intuição musical.
Já muito foi escrito e dito sobre a escola, ou a falta desta, deste cantor meio italiano, meio inglês. O que é certo nas interpretações de Beasley é o sentimento, o affeto que sai do seu peito, que transborda do seu coração e toca fundo. Em Beasley nada soa a falso. A sua voz parece ser uma emanação do canto tradicional do povo, mas Beasley não é apenas o lado popular, ou intuitivo, da música de Frescobaldi, Sances ou Monteverdi. A ornamentação, os golpes de garganta, os trémulos são refinados. Marco Beasley é certamente um estilista e um esteta na forma como canta. É notável a despreocupação em que, contidamente, canta em pianíssimo, deixando a sonoridade do cravo entrar em ressonância com a sua voz, sem se preocupar com desnecessárias projecções, sem entrar na vaidade oca dos cantores vindos da ópera. Segundo todos os estudos seria impossível cantar da forma ágil e ornamentada do final do maneirismo com uma sonoridade muito intensa e Beasley afirma-o de forma clarividente. Quando é necessário puxar pela voz, como fez no final, na Tarantella tradicional da Semana Santa que deu como extra, Beasley não se fez rogado e o seu cantar claro e fortíssimo ficou como a última lembrança do recitar cantando "Ex tenebras vita".
Ontem, em particular, estava inspiradíssimo, o Stabat Mater de Sances foi declamado e cantado de uma forma muito bela, todas as palavras foram sublinhadas musicalmente de acordo com o texto, tremia quando o texto tremia e entristecia quando o texto declarava uma tristeza sem par. A invocação da Mãe de Cristo no momento da nossa morte, em que o invocante implora o paraíso, foi um momento de uma clareza e de uma beleza sonora sublime. O paraíso estava ali ao alcance da mão.
Devo dizer que os textos sacros foram, no meu entender, superiores aos profanos. Parece que Beasley entrou em sintonia com o espaço. Os trechos de canto gregoriano foram, nesse particular, elementos de uma intensa ligação do cantor ao espaço sagrado e um especial momento de intensidade dramática. Devo ainda acrescentar que prefiro Beasley nos compositores mais arcaicos: a sua voz clara e sem vibrato, a sua afinação em tons puros, dá uma cor tonal aos compositores mais antigos que raramente se encontra nos cantores mais convencionais.
No profano destaco um extraordinário "Sinno alla Morte" de Strozzi, que voltou a ser tocante de transcendência musical e de força de sentimento. Prefiro mil vezes um Beasley, com todos os defeitos que se lhe apontam, do que cantores com, pretenso, estilismo mas frios. A música antiga não é uma peça de museu, um objecto de laboratório musicológico, um estudo frio para um artigo científico. A música é, acima de tudo, arte, paixão, amor. Os intérpretes devem estar informados e estudar o passado e a forma como se cantava no tempo (supondo que se sabe) mas esquecer o coração é esquecer a música. A música sem coração deixa de estar viva e música morta não é música.

Uma interpretação notável de peças de Frescobaldi a solo, por Guido Morini, viva, apaixonada, quente e ao mesmo tempo sonora e requintada. Muito superior à última interpretação do cravista que apreciámos (Festival de Mafra). Guido Morini é uma inteligência musical na arte de acompanhar Beasley mas não o é menos a solo.

Um concerto sem mácula, um concerto de Paixão. A Paixão de Cristo que se preparou e a Paixão pela música e pela vida. Ex Tenebris vita. Bravi!...

Henrique Silveira

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