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22.1.05

Medeia 

“O Cume da música dramática” assim a Ópera Medeia de Cherubini foi definida por um compositor que raramente costumava fazer elogios, Johannes Brahms.
Estreada a 13 de Março de 1797, memorizem a data, sob a direcção de Giovanni Battista Viotti, aquele que escreveu listas intermináveis de concertos para violino, Medea foi um estrondoso sucesso de público e crítica.
A sua música resumiu perfeitamente a maturidade do gosto neoclássico que se tinha concretizado ao longo da Revolução Francesa. Este exemplo de Opéra-Empire era perfeita para o panorama político que estava para vir; nobreza clássica dos Gregos trabalhada no mármore da mais sólida dramaturgia musical, enorme recurso vocal e utilização maciça dos meios sinfónicos.
Com esta ópera, Luigi Cherubini cria a síntese perfeita entre a declamação de Gluk e a Ópera Napoleónica da qual esta ópera é, de facto, o protótipo; tudo isto passando através do filtro neoclássico da Clemência de Tito de mozartiana memória, esta última considerada o momento áureo da ópera séria do final do século dezoito.
A admiração que Beethoven teve pela música de Cherubini, e pela Medeia em particular, é compreensível desde o princípio da abertura da ópera, que tem o mesmo denominador comun das grandes obras do grande génio de Bona: a Força.
É uma obra prima de orquestração e de sabedoria harmónico-contrapuntistica que resume em si a experiência do ambiente sentimental pré-romântico da segunda metade do sec. XVIII (das sonatas de Carl Philipp Emanuel até às Sinfonias em tonalidade menor de Haydn e às grandiosas cenas patéticas de Gluck) e a entrega, emadurecida, com uma nova magna eloquentia directamente nas mãos de Beethoven.
Médée assim representa um vértice no processo de consolidação da ópera francesa a frente do super poder da ópera italiana. Não pareça estranho que autor desta transformação seja o italiano Cherubini, já que sendo natural de Florença, entrou muito cedo em contacto com o ambiente francês ainda antes do período da revolução; Méhul, Lesueur, Gretry e Cherubini constituem a geração dos herdeiros directos de Gluck.
A grandeza de Cherubini foi ter conseguido dar uma força, uma potência expressiva até aqueles tempos quase nunca ouvida. Relembram-se? No princípio pedi para apontar a data da estreia; não obstante os obstáculos causados de um lado pelo texto de François-Benoit Hofmann, uma espécie de “nobra lama”, e de outro lado pelas contínuas paragens causadas pelos diálogos e pelos recitativo no estilo da grand opéra, a concepção é quase sinfónica, onde o canto é desencadeado pela força e pelas tensões acumuladas no tecido instrumental; o paradigma é a aria de Néris onde o fagote obbligato faz quase de espelho à elegia do canto.
Cada acto é introduzido por um prelúdio de tipo sinfónico; este sinfonismo inquieto, nervoso, onde a energia que vem da orquestra com aqueles ensembles monumentais substitui a grandiosidade de Gluck e, pela primeira vez, transporta no melodrama uma urgência trágica desconhecida ou, melhor, corrupta na forma da Grand-Opera! Estamos no paradoxo da genialidade; uma ópera hipertrágica como Medeia faz de hipérbole da forma Grand-Opéra.
Dentro deste imenso material o papel da voz protagonista ganha um papel papel inovador e revolucionário; o soprano dramático deve ter a capacidade do dominar os agudos e ao mesmo tempo ter uma enorme força interpretativa, uma capacidade de dominar o texto quase selvagem, constituindo o protótipo da heroína operática para todo o século XIX, da Leonore de Beethoven passando pela “Vestale” de Spontini, pela Norma até os mais complexos papeis de Verdi e até de Wagner.
Médée constitui para todo o período oitocentista um mito inatingível. Uma ópera cujo vulcânico “magma musical”, demasiado rico de concentração expressiva, nem sempre foi percebido pelo público hedonista dos teatros.

M.P.

P.S. Prometemos um crítica da estreia da Medeia de Cherubini, na próxima terça feira no Teatro Nacional de S. Carlos, uma vez que o Henrique Silveira não vai estar presente na estreia, encantado, como já nos disse, pelo quarteto Borodin no mesmo dia e hora na Fundação Gulbenkian. Será interessante o debate entre a minha visão e a do crítico habitual deste blogue. Esperamos que a orquestra esteja à altura da partitura, o solo de fagote, a prestação dos violinos, o canto,... a concepção de Letonja, serão motivo de análise.

M.P.

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