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28.1.05

Medée - Medea - I - Aspectos musicais 

Gostei muito desta Medea encenada pelo Teatro São Carlos; desde já dou os meus parabéns á Direcção do Teatro por ter trazido a Lisboa, pela primeira vez ... uma obra tão cheia de dramatismo e tão marcante a nível musical. Fiquei surpreendido pelas soluções que Cherubini utilizava no final do Sec. XVIII, a tessitura densa das cordas os desenhos harmónicos sempre a fluir pelas veias dramáticas, uma verdadeira personagem com voz e força próprias com soluções nunca banais embora às vezes um pouco demoradas.
Percebo por que razão nos círculos da intelectualidade da época esta obra tenha sido recebida como uma verdadeira ópera revolucionária. O tecido harmónico e melódico são trabalhados de maneira extremamente eficaz, sublinhando de maneira impressionante cada momento da Ópera.
Aqui, infelizmente, entra na cena o lado de realização e interpretação musical. Uma obra como esta deveria ser trabalhada com uma enorme qualidade a nível musical, musicológica, expressiva e estética. A densidade da escrita, por um lado, precisa de um trabalho muito apurado no sentido de deixar a partitura respirar; com as articulações claras e, quando necessário, exasperadas; por outro lado o gosto pela beleza sonora e nunca banal, ou passiva, deveria constituir a força do andamento dramático que acompanha a ópera do principio até o fim.
Por isso acharia importantíssimo eliminar os clichés de um certo tocar “a la Mozart” que tem sido o fundamento homicida e destrutivo de toda a música dos anos 50,60 ou 70. Uma forma de tocar que nada tem a ver com a exacta forma de abordar o próprio compositor austríaco.
Bom, aqui com os meios célebres que temos na orquestra lisboeta, era claro que nada disso poderia ter acontecido. Tudo o que é banal e vulgar teve na passada terça feira a sua quinta essência. Desde a Abertura, que poderia ter sido muito bela, se bem tocada, encontrámos uma orquestra a nadar contra a maré gerada por si própria; violinos aos gritos com entradas em série, “todos por um e cada um para si”! Capazes, em momentos delicadíssimos, de conseguir sons que produziam o gelo na sala, para continuar a onda gelada que tem varrido o país, continuando depois ao longo da ópera. Acompanhamentos sem jeito, sem participação, sem qualidade, com som feio; os sopros com um som maciço, mas sem densidade nenhuma, cada um a tentar tocar mais forte que os colegas, como se o tocar forte pudesse hoje em dia impressionar alguém!
Tudo o que é ordinário, datado, obsoleto, teve o sua auge nesta estreia; a flauta, à qual é entregue um solo com um significado muito claro, foi tocado num registo bonitinho, sem transmitir qualquer mensagem, deixando-nos numa desolação total. Imagino a flautista toda orgulhosa com este solo tocado sem qualidade; enfim o que podemos esperar de uma orquestra que, depois de dez anos, ainda procura conseguir as notas e a afinação. Depois de tanto tempo estaríamos à espera de poder falar de fraseados, força interpretativa, personalidade sonora, percepção dos momentos crucias; não! O máximo que se espera é que se consigam as notas certas, que ilusão e que desilusão. Em vez de falarmos de arte continuamos a falar de solfejo e afinação!...
Na abertura do segundo acto os violinos repetem-se, “errare humanum est, perseverare diabolicum” assim escuso-me de criticá-los. Só posso dizer que comentar esta vulgaridade é pior do que comentar qualquer coisa verdadeiramente má. Abro uma única excepção ao solo do fagote que, esse sim, foi muito bom: com sentido da frase, com apoios certos no som quando a tonalidade muda para maior e fraseados que tinham em conta quase tudo a nível do discurso e da interacção com a cena, com “port de voix” talvez um tudo nada desapropriados neste tipo de música, mas que dão a sensação de um trabalho tudo menos que vulgar por parte do fagotista Carolino Carreira, ao menos pensou o que queria dizer e fê-lo com convicção! Este fagotista tem demonstrado grande desenvolvimento nos últimos anos, o seu trabalho já foi notado antes neste blog pelo Henrique Silveira e quase sempre pelo lado muito positivo (uma vez por um deslize pequeno). Bravo!
O coro continua a melhorar sob o signo do novo Maestro o que parece já não ter a ver com o entusiasmo, creio que muito, gerado com o afastamento de João Paulo Santos; as melhorias, embora menos evidentes do que no início, são regulares em cada actuação, uma aposta ganha se o processo não parar por aqui.
AnnaMaria del’Oste é uma cantora da qual nunca gostei; demasiado ligada à necessidade de posicionar as notas, acaba para se afastar do contexto, acaba por não dar a menor ideia da tragédia que está para vir. A um certo ponto pareceu-me também muito desconexa relativamente à orquestra e isto confirmou a minha opinião anterior.
Da senhora Dimitra Theodossiu não posso dizer senão bem, muito bem mesmo, com uma presença vocal dramática das melhores que se podem ouvir no mundo (no tipo de repertório que lhe é congénito); tem uma fantástica presença na cena final e no terceiro acto de uma obra que lhe pede muito a nível vocal. A única coisa a criticar seria a tendência que teve para exagerar nas liberdades, coisa que, num certo ponto, acabou para transtornar o coro e a orquestra, conjuntos estes que, dada a sua fraqueza estrutural, acabam para entrar em confusão muito facilmente.
Estas são primeiras impressões que poderão ser desenvolvidas pelo Henrique Silveira, uma vez que ele também irá ver o espectáculo; aproveito para lhe deixar também o domínio absoluto da crítica sobre a encenação de que, moderadamente, gostei.

M.P.


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