<$BlogRSDUrl$>

31.10.04

Editorial de 27 de Outubro do Público - CCB 

Reproduzo aqui, com a devida vénia, o editorial de José Manuel Fernandes no Público de 27 de Outubro, creio que o tema é suficientemente importante para ficar aqui registado. Quem não leu pode aqui reencontrar o assunto, que tem uma aguda actualidade com a nomeação de Guta Moura Guedes para o lugar ocupado anteriormente pelo Dr. Miguel Lobo Antunes, pelo Dr. Motta Veiga e pelo Dr. Miguel Vaz.
H.S.



Terramoto no Centro Cultural de Belém
Quarta-feira, 27 de Outubro de 2004

O CCB tornou-se num lugar central da vida cultural de Lisboa porque os seus programadores gozavam de liberdade criativa - uma liberdade que Fraústo da Silva foi pondo em causa, culminando numa onda de demissões

O Centro Cultural de Belém nasceu envolvido em polémica (devo ter sido dos raros portugueses que apoiaram desde o início o projecto e a sua localização) mas foi rapidamente adoptado pelos lisboetas, primeiro, pelos portugueses, depois, e até pelas elites culturais que tanto o desprezaram. Tornou-se num pólo de atracção da cidade, ajudou a animar a zona de Belém/Jerónimos e, gradualmente, conquistou também um lugar importante, se não mesmo insubstituível, na oferta cultural da capital, inovador, arrojado, capaz de simultaneamente promover eventos de massas - como a celebrada "Festa da Música" - como de montar exposições de vanguarda.

Mais eclético, até por dimensão e vocação, do que Serralves, sobreviveu às polémicas iniciais (algumas bem justificadas, como a derrapagem nos custos de construção), viveu períodos conturbados de gestão, teve e tem apertos financeiros, mas tornou-se uma referência. Para isso muito contribuíram algumas das pessoas que dirigiram a sua programação, com destaque natural para Miguel Lobo Antunes, que lhe conferiu uma indiscutível identidade. A marca de qualidade que foram criando permitiu que, mesmo quando alguns saíram e outros entraram, o CCB sempre tenha resistido aos vaticínios de decadência ou provincianismo.

Durante boa parte deste trajecto a instituição foi presidida por Fraústo da Silva, alguém que era visto como um gestor correcto mas longe do que era a essência do Centro, a sua programação cultural. Essa imagem está hoje irremediavelmente prejudicada. Depois da saída de Miguel Lobo Antunes, cuja forte personalidade e competência o tornavam intocável, o presidente quis ter um protagonismo para o qual não nem vocação nem competência. Pior: começou a querer impor o seu gosto pessoal a algumas escolhas artísticas, intrometendo-se em áreas que não lhe competem e chegando ao ponto de dar ordens que implicavam a mutilação de obras de arte (passou-se com uma performance).

O clima de ingerência e choque, onde o elo mais fraco era sempre o do administrador com o pelouro cultural - o sucessor de Miguel Lobo Antunes, Mota Veiga, assumiria esses choques ao sair - ganhou agora novas proporções ao verificar-se que o presidente entrou em ruptura com os outros dois administradores e, surpreendentemente, foram estes a ser obrigados a sair, abrindo uma crise que está a desfazer a equipa de assessores da área da programação cultural - quando a programação cultural é o coração e o rosto da instituição.

Ora a evolução positiva que permitira ao CCB libertar-se de imagem de "elefante branco" criada aquando da sua construção e que para muito contribuiu a gestão desastrada do secretário de Estado da Cultura de então - um Santana Lopes que sempre mostrou alguma ambivalência ao relação ao projecto lançado por Teresa Gouveia - corre o risco de se inverter. Paradoxalmente, ou talvez não, no exacto momento em que Santana Lopes está de regresso ao poder, agora como primeiro-ministro.

Como é natural, ninguém acredita em coincidências. E como só pode acontecer face aos desenvolvimentos dos últimos dias, há todos os motivos do mundo para temer um futuro conturbado, incaracterístico, desvirtuado na sua essência para um Centro que é, por mérito próprio, um dos ex-libris de Lisboa. Continuará a ser depois deste terramoto?

José Manuel Fernandes

30.10.04

A não perder hoje 

VIII Festival Internacional de Música de mafra

Les Veuilleurs de Nuit. Alice Pierot - violino. Sonatas do Rosário, de Biber. 30 de Outubro – 16h.
O genial austríaco em obras de uma beleza sublime. Os intérpretes têm todas as características para fazer um concerto de alto nível.



29.10.04

Apelo a Santana Lopes 

Tal como o meu ilustre colega Fraústo da Silva, presidente do CCB, venho dirigir-me directamente a vossa Excelência, Sr. Presidente do Conselho, para resolver um problema que aflige os melómanos nacionais e as nossas finanças públicas. Venho por este meio solicitar que substitua o maestro Zoltan Peskó na direcção da Valquíria de Wagner no CCB, que se prevê para daqui a uns tempos! É que o referido maestro ganha 12500€, 2500 contos nem mais nem menos, por concerto. Nestes concertos diverte-se a destruir a música que tão laboriosamente compositores tiveram um trabalhão para escrever, como os célebres concertos para violino de Chopin, tão do seu agrado. Seria muito mais estimulante ter uma maestrina, uma santanete da batuta, mais ou menos madura, na direcção da orquestra e cantores. O efeito no pior dos casos seria mais ou menos o mesmo, com a vantagem de se distrair o público e os músicos. Poderia até poupar no cachet e diminuir o défice.
Subscreve-se atenciosamente um seu admirador convicto.
Henrique Silveira

P.S. Segue imagem do "maestro" para melhor apreciação da situação.


Rosário Tavares 

A nossa fotógrafa e pintora Rosário Tavares tem neste momento patente ao público uma belíssima exposição de pintura na Galeria Abraço ao Poço do Borratem, no final da rua da Madalena, bem junto da praça dos Restauradores. Aqui fica uma imagem da "Just Woman..."


Recomendo, Segunda a Sexta, 14:00 às 19:30, e Sábados das 10:00 às 14:00.
Rua do Poço do Borratem, 39, Lisboa.

Henrique Silveira

Agradecimentos 

Venho agradecer a todos os que me desejaram um bom aniversário. Sobre o Vasco Garrido, pelas prendas incríveis, acabo por descobrir que me detesta! Os 25000 volumes da obra de AMSeabra são o pior pesadelo que alguma vez se poderia desejar a alguém! Pior que isso só o Santana ficar mais de seis meses no governo... Mas um obrigado pelas Valquírias, agora o Böhm e o Solti é que talvez não sejam os meus preferidos nesta obra.
Espero que a Clara continue nos seus afazeres académicos e que regresse ao blogue depois de defender uma tese que, se espera, revolucione para sempre as literaturas comparadas! Um obrigado à Clara também, pela poesia que nos tem dado e pelo encanto com que olha para este mundo...
À Mª Helena P. R. e aos amigos que me escreveram emails o meu maior obrigado pela lembrança.

Henrique Silveira

28.10.04

España marca! 

O Governo espanhol tem como presidente um licenciado em direito mas nos seus ministros conta com sete doutorados (um em Princeton), um fulano com três cursos superiores e diversos mestres.
Aqui em Portugal temos duas doutoradas, uma na educação e outra no ensino superior isto no meio dos cábulas do carreirismo político, geralmente rapazes com o curso de direito.
Como noutras áreas a Espanha marca. É ver os meninos da escola portugueses a aprender com os mestres espanhóis nas cimeiras ibéricas.
Pode-se ser brilhante sem ter curso superior, ou sem doutoramento, mas o exemplo português ultrapassa todas as tais "marcas"...

Henrique Silveira

P.S. Em França contam-se 11 doutorados e professores universitários no governo. Na medicina e áreas afins temos, por exemplo, médicos doutorados (3). Muitos dos membros do governo têm currículo em diversas áreas profissinais afins do ministério onde estão colocados, ou seja, sabem do que fazem e até já tiveram de trabalhar. A França também marca...

O crânio 

Cientistas descobrem crânio de Gomes da Silva!

Quando li o artigo no barnabé e vi a imagem acima pensei que se tratava do crânio de Gomes da Silva. É que o ministro é conhecido pelo "crânio" em círculos próximos de Santana Lopes, este epíteto reconhece a sua enorme habilidade política e inteligência notável.
Gomes da Silva corre o risco de ser considerado um dos melhores ministros de todos os tempos em Portugal, o que é obra.
Mera ilusão, afinal era a caveira de um hominídeo qualquer da Indonésia. Claro que era impossível: o crânio achado era demasiado grande!

Henrique Silveira

Mil presentes para o Henrique 


Hoje é dia de aniversário. Não do aniversário do Crítico (blogue), mas do Crítico Henrique, o ilustríssimo Crítico dos Críticos que lhe deu vida. Uma actividade que lhe tem multiplicado os amigos e os inimigos. Uns e outros quiseram assinalar a data enviando os mais fantásticos presentes. Aqui fica uma pequena lista, que certamente irá crescer ao longo do dia…

Presentes enviados pelos amigos:

- Bolo de aniversário gigante recheado de Valquírias. As Valquírias (giraças, esbeltas e elegantes, não as tradicionais avantesmas…) vão saindo do bolo ao som da respectiva Cavalgada, cantando divinamente sob a direcção de Böhm, Solti ou qualquer outro grande maestro.
- Assinatura vitalícia para o Festival de Bayreuth.
- Um Curtal.
- Colecção das melhores interpretações do Prelúdio e Fuga BWV 552, de J. S. Bach, e dos melhores artigos analíticos sobre esta obra transcendente pelos mais credenciados musicólogos e matemáticos (para o Henrique se certificar que a sua análise vai superar tudo o que já foi feito)
- Convite para escrever um artigo em parceria com Sokal.
- Proposta da Assírio & Alvim para publicação integral da obra poética do tio avô Leite de Faria.
- Recital por A. Brendel (em homenagem ao Henrique, o pianista prontificou-se a tocar amordaçado a fim de evitar os grunhidos que tanto o irritam).

Presentes enviados pelos inimigos:

- Bolo de aniversário gigante recheado de Valquírias decadentes e gordalhufas, a desafinar sob a batuta de Zoltan Peskó.
- Integral da obra coral de Bach em interpretações com um cantor por parte.
- Compilação em 25000 volumes de todos os textos publicados na imprensa por A. M. Seabra, desde o tempo em que era um “menino de coro” da crítica e da sociologia até à actualidade.
- Convite para ocupar o cargo de Presidente da Associação Portuguesa de Discípulos de Boaventura Sousa Santos a troco de um chorudo ordenado.
- Antologia de gravações ao vivo dos piores momentos do Coro do São Carlos.
- Recital de Vengerov com programa só de “encores”, incluindo a “Meditação” da Thais, de Massenet, e outras piroseiras do género.

Da parte que me toca não tenho nenhum presente mirabolante para oferecer ao Henrique. Apenas triliões de parabéns e a minha eterna amizade.

Vasco Garrido


PARABÉNS A VOCÊ ! 

Este é um dia que justifica que a blogger mais desaparecida dos últimos tempos reapareça.

É que faz anos o Henrique.

Muitos parabéns, Henrique!!

E muitos anos de vida. Com as pessoas e as mil coisas que amas.





Clara

27.10.04

A nova administradora para a área cultural do CCB 



Guta Moura Guedes
(Foto Máxima)

Ver artigo de Guta Moura Guedes sobre o nosso país.

26.10.04

O crítico que é fã 

Tal como um árbitro que inicia um jogo a favorecer uma equipa, tal como um juiz que é amigo de uma das partes, o crítico que é fã de um determinado intérprete é a negação total da crítica. De visão totalmente tapada pela sua devoção ao intérprete, ao artista, o "crítico fã" não critica, não aponta linhas de guia para o ouvinte, não relativiza as interpretações. A obra de arte vista sem olhar crítico passa a ser um mero altar onde o "crítico fã" expõe as suas devoções, mostra as suas fraquezas.
Não acho mal que existam "críticos fãs" ou fãs que criticam. Fãs antes de serem críticos ou mesmo críticos que são fãs. Eu sou fã de Brendel, adoro Brendel, penso que Brendel é o modelo de pianista supremo, um artista, um esteta, moderado e contido, lê de forma intelectual as obras, sem esquecer a poesia. Valoriza a obra. Valoriza o compositor, no fundo o verdadeiro génio por detrás do intérprete. Isso não me impediu de ouvir Brendel, no seu último concerto entre nós, com alguma dose de cepticismo, com os sentidos bem despertos, com a cabeça. Não sei se consegui, mas relativizei. Comigo os vintes estão reservados aos deuses, não aos mortais. Por isso quando leio uma crítica de um crítico fã só me posso rir e dizer de mim para mim: Isto não é crítica isto é uma declaração de fé. Note-se que sou fã de Brendel, mas evito que essa devoção se propague aos textos. Mesmo quando escuto Brendel em Lisboa, ou noutro sítio qualquer, que o tenho ouvido noutros locais. Mesmo em Viena ou numa aldeia perdida do Tirol do Sul. Um crítico que é fã não critica, exibe o seu amor. E nota-se que Brendel é um grande pianista, um dos maiores mesmo. Eu até gosto mesmo muito de Brendel, mas mesmo assim critico Brendel. Não me venham dizer que um crítico que é fã pode ser crítico, eu próprio, mesmo quando critico Brendel, continuo a tentar ser crítico. Creio que não consigo sê-lo, confesso isso de mim para mim. Mas um crítico que é fã, e poderia dar exemplos, muitos mesmo, é melhor mas não muito melhor que um crítico que tem uma pedra no sapato. Ou no rim. Um crítico que tem uma pedra no sapato é, no entanto, muito pior que um crítico que é fã, mesmo o crítico que é fã de uma cantora que é o pior exemplo de fã que conheço, crítico ou não. Como é possível ser o primeiro um pouco melhor que o outro, quando o outro é muito pior que o primeiro? Claro que é possível, basta começar a pensar. Mas o segundo é também muito melhor que o primeiro. Serão iguais ou totalmente diferentes, sempre um pior que o outro até ao infinito, de facto iguais... Posso mesmo dizer que gostando muito de Brendel, detesto Vengerov. E porquê? Porque quando ouvi Vengerov o achei muito exibicionista e com mau gosto. Passei a detestar Vengerov. Quando ouvi Vengerov pela segunda vez estava com uma pedra no sapato relativamente a Vengerov. E porquê? Porque tinha achado as histórias de Vengerov lamentáveis, o vibrato excessivo, a exibição de talento desnecessãria à economia das obras. Lamentável mesmo. Mas isso fará de mim um ouvinte com pedra no sapato? Não sei. Só sei que um crítico que é fá não pode criticar, pode apenas elogiar. E isso é mau, mesmo que se goste muito de Brendel, ou não, ou de Boulez. Mas isso leva-nos por outro caminho, sempre que se fala de Boulez fala-se de transparência. Não é uma crítica, é um esteriótipo. Todo o crítico, seja ele fã ou com pedra no sapato, ou mesmo um crítico que não esteja em nenhuma das categorias acima, ou ao lado, não deixa de elogiar a transparência de Boulez. Mesmo os fãs de Boulez, ou críticos que detestam Boulez, conheço vários, mesmo mais dos que os exemplos de críticos que são fãs e poderia dar mesmo muitos exemplos. Lamentável mesmo. Artigos que têm saído na imprensa recente, na lamentável imprensa portuguesa. Nesses jornais ditos de referência, que se encontram em quiosques, jornais fáceis de encontrar em qualquer lugar, jornais de fim de semana e mesmo diários, jornais onde escrevem críticos que são fãs, ou que têm pedras no sapato, ou nos rins, ou mesmo no cérebro, como o célebre crítico que critica tudo, ou mesmo o crítico que sempre que critica algo fora da sua área, que são todas, diz que é sociólogo. Enfim, o crítico que é fã é um chato, enche páginas e páginas de jornais com críticas que não são críticas mas que são elogios. Émulos é o que eles são todos, uns dos outros e todos de nenhuns e deles próprios, porque os críticos que são fãs, e eu sou fã de Brendel, não são fãs coisa nenhuma, são fãs deles próprios. Repare-se que sou fã de Brendel embora o critique severamente por grunhir em concerto. Mas um crítico que é fã não critica, elogia-se a si, à sua projecção no alvo da sua idolatria. É assim o crítico que é fã, ou que tem pedras nos dois sapatos, ou mesmo num só, nos rins ou na cabeça. Repito-me, mas não tanto como os críticos que são fãs, que a cantora é muito boa, e bonita, que os dedos do pianista são fantásticos e toca muito bem e deu uma lição e têm muito bom gosto e são bons, porque são bons, são mesmo muito bons, e vestem bem, e são simpáticos, mesmo que sejam muito simpáticos ou antipáticos, são bons, muito bons mesmo, e fica aqui o registo, são bons, para que se diga que não se disse que eram realmente bons, olímpicos, superlativos e bons, cantam muito bem e tocam melhor, são exigentes consigo e têm uma grande técnica, são artistas de grande nível, são realmente bons, e gostamos imenso deles, quem não gosta é mau, mesmo muito mau que eles são realmente muito bons, e o concerto foi extraordinário e bom, realmente bom, excelente, e o público delirou com o excelente e bom que eles eram, divinos de bons e excelentes e superlativos e óptimos, bons artistas, eles são capazes de tudo na perfeição da sua arte boa e pura e são filiados em correntes estéticas muito profundas, descendem directamente do rei David, de Moisés, de Zeus e são filhos de Prometeu, as musas empalidecem ao escutá-los, são bons, bons, muito bons, realmente bons, fantásticos, divinais, nós ficámos rendidos, nós os grandes críticos que somos fãs destes magníficos intérpretes excelentes, radicalmente bons, porreiros, elegantes e bons, bons, mesmo super bons, excelentes, óptimos, chatos de bons, realmente apocalípticos de excelentes e hiper super magnificentes dizem-nos os magnos e magníloquos críticos com magniloquência, sobre humanos, lindos, belíssimos eles e tudo o que fazem, excelentes, gentis e bons, Orpheu dorme nos seus braços embalado com os eflúvios da sua excelsa e onírica arte boa, o gosto deles é a pedra essencial de qualquer ser humano digno desse nome e todos os outros, a verdadeira pedra filosofal, a quimera, os que não gostam estão excluídos do paraíso da bondade da verdadeira arte, párias do verdadeiro sentido do belo, labregos afastados da suprema arte dos intérpretes dos quais somos fãs, artistas excelentes e bons... e poderia continuar a repetir o que um crítico que é fã poderia dizer e poderia escrever nas páginas infinitas do seu infinito jornal onde poderia tecer laudas e mais laudas, eternas laudas, requiem eternum e etc, etc, etc... Mesmo assim prefiro um crítico que é fã, porque se ama a si e ao objecto do seu elogio, do que um crítico com pedras onde quer que seja, o que não quer dizer que um seja melhor que o outro, ou pior, ou igual. O crítico com pedra no cérebro odeia-se, odeia todos e não se projecta em ninguém e note-se que eu detesto Vengerov. Note-se que adoro o Brendel que grunhe, um grande pianista mas que grunhe, grunhe. Isso fará de mim um crítico que é fã, ou terei pedras algures?


"Há demissões que honram os demitidos" 

Pinho Vargas ao Público sobre demissão de Adelaide Rocha e Miguel Vaz.
Eu acrescento "Há demissões que em nada honram quem demite". Adelaide Rocha responsável pela saúde financeira no CCB. Miguel Vaz, o sereno programador que escolheu António Pinho Vargas, que se preparava para apresentar uma excelente programação para 2005. Programação posta em causa pelo presidente do CCB que tem a ideia que o CCB é uma espécie de capoeira para um só galo. Esquece-se o senhor que não gere uma capoeira, gere um equipamento caríssimo, pago pelos portugueses, para prestar serviços culturais. Um projecto de glória pessoal arruína um ano de trabalho. Jorge Gil e o seu filho já se distanciaram da organização dos novos concertos "Em órbita" que ficam no tinteiro, um exemplo entre muitos. Mas o presidente está satisfeito, correu com a gente sensata que existia na casa.

Sem fazer analogias ou paralelismos isto lembra-me a história do Arcebispo de Granada que dizia durante anos a Gil Blas (seu secretário): Diz-me quando estiver a ficar senil, avisa-me para não fazer figuras tristes. Quando o bispo ficou gágá, e começou a dizer disparates nos sermões, Gil Blas disse-lhe, foi despedido nesse preciso momento!


24.10.04

Eu é que sou o presidente da junta! 

Fraústo da Silva professor catedrático jubilado (por ter atingido o limite de idade) do Instituto Superior Técnico, mostra que ainda é um peixe de águas profundas. Basta ler o artigo para perceber como o presidente do CCB se movimenta.

Henrique Silveira

23.10.04

Kissin Excelente - Orquestra muito boa no concerto em mi bemol maior e medíocre no concerto em sol maior de Beethoven 

No primeiro programa, quinta feira passada, o fraseado de Kissin não esteve propriamente ao seu melhor nível, com alguns problemas, muito localizados, de fluidez nas passagens muito rápidas, problemas que se notaram, sobretudo, no terceiro concerto dos três primeiros que tocou neste ciclo.
Hoje na Fundação Gulbenkian escutámos um Kissin perfeitamente superlativo, um Kissin que lutou muito contra a orquestra no rondo do concerto em sol maior. Uma orquestra totalmente desastrada no mais delicado concerto de Beethoven. O rondo do concerto opus 58 foi o pior momento dos dois programas, a orquestra entrou no terceiro andamento de forma pesada e sem qualquer chama, factor que já se tinha notado antes, por exemplo, nos compassos 52 e 53 do primeiro andamento onde se notaram gravíssimos problemas de acerto entre cordas e sopros, falta de exactidão e de coesão. Os sopros foram, aliás, completamente infelizes neste concerto, para mim o mais belo de Beethoven, que preenchia a primeira parte do programa de hoje.
Volto ao rondo do quarto concerto de Beethoven: Kissin tentou dar um andamento vivo (vivace) mas a orquestra tentava puxar para trás, uma terrível luta que Kissin chegou a perder no momento em que deu notas erradas e perdeu (instantaneamente) a concentração. Uma orquestra a carburar mal atrapalha claramente qualquer solista mesmo que seja um dos melhores do mundo. Consequência: uma primeira parte muito boa por parte por parte do pianista e fraca (relativamente) por parte da orquestra. Se a orquestra Gulbenkian quiser fazer digressões e gravações com este ciclo tem de preparar melhor esta obra ao nível do acerto rítmico e da coesão. Nem todos os públicos são tão generosos (ou ignorantes) como o de Lisboa...

Com respeito ao concerto em si bemol maior, conhecido impropriamente como "Imperador", tivemos Música a sério. O prazer de ouvir um grande solista numa obra espantosa com uma orquestra bem preparada e a tocar empolgada foi notável. Finalmente a impressionante capacidade técnica de Kissin veio ao de cima. Uma capacidade de articular com um detalhe incrível todas as notas, por mais difícil que fosse a passagem, é certo que à custa de marcar o tempo com um rigor cartesiano, às vezes muito matemático e pouco poético. Mas é a lei das coisas, é quase impossível fazer todos os detalhes com perfeição técnica absoluta e ao mesmo tempo tocar com o sentimento dos poetas. Kissin é um assombro técnico, quando está no máximo da forma, e foi um assombro escutar o recorte do concerto em si bemol maior, pena uma única nota errada no terceiro andamento e um ponto em que foi irregular no dedilhar, senão teria sido quase sobre humano. Uma nota trocada pode ser agradável, lembra-nos a condição humana do intérprete.
Os andamentos lentos, mesmo que um pouco frios, acabaram por nos trazer a poesia que faltou nas passagens mais rápidas. A orquestra neste quinto concerto esteve irrepreensível (cuidado clarinetes com a concentração no segundo andamento, evitem notas trocadas por distracção). Foster foi muito correcto na leitura do texto de Beethoven e conseguiu entusiasmar a orquestra. Não ouvimos o pianista a "carregar com a orquestra às costas". Excelente música num programa memorável, sobretudo, pela segunda parte. A Fundação Gulbenkian está de parabéns por este momento e o público teve o privilégio de ouvir uma das melhores interpretações ao vivo do concerto em mi bemol maior de que há memória desde o célebre concerto de Viena com Michelangeli e Giulini. Sem exagero...



22.10.04

O fotógrafo, o ruído de alta frequência, os telemóveis e as tosses 

Mais um concerto de bom nível na Gulbenkian. Um pianista de grande qualidade e uma orquestra a subir um pouco. Foster, o maestro, continua a precisar de uma visita ao alfaiate, aliás devia aprender com o pianista Kissin, pois este até poderia aparecer descalço com um farrapo à cintura que já tem qualidade musical para essas excentricidades. Mas não, Kissin aparece com uma casaca de fino corte e integra-se democraticamente na orquestra com a qual toca. Enfim... Mas já me chamam crítico de moda e passo ao assunto que me trouxe cá, o concerto de ontem com os três primeiros concertos para piano e orquestra de Beethoven.
Hoje farei apenas uns comentários telegráficos, mais sobre Foster e a orquestra do que sobre o pianista.
Na primeira parte, concertos 2 e 1, achei a orquestra pesada, o fraseado muito denso, muito pouco clássico, pouco maleável, pouco musical, claramente abaixo do piano.
No concerto número três, que preenchia a segunda parte, penso que Foster melhorou aspectos plásticos, as madeiras estiveram irrepreensíveis, talvez um grito forte do oboé no rondo final tivesse passado um pouco das marcas. Até as trompas estiveram muito razoáveis. O problema foi a direcção de Foster, a articulação do concerto em dó menor deveria ser muito mais subtil, mais elegante. O primeiro andamento, um allegro com brio, foi tocado sem qualquer brio, nem allegro moderato seria, parecia um andante, foi lento, pesado, empastelado, com tendência para carregar as tintas, mas sem atingir qualquer espécie de dramatismo. A piorar as coisas Foster chegou a alterar o texto do concerto, não em termos de notas mas em termos de indicações da partitura. Chegou ao extremo de transformar um decresc rematado com um ff num tremendo crescendo rematado por um fortíssimo que, deixando de ser inesperado, não teve o menor efeito retórico, o genial de Beethoven transformado pela leitura de Foster no banal, influências do musical americano que tem andado tão presente neste início de temporada? As notas com pontos em cima, do Largo, foram feitas como se tivessem suspensões!
O peso dos primeiros andamentos dos três concertos foi exagerado. A situação foi salva nos andamentos finais porque o pianista entra a solo e, qual locomotiva a todo o vapor, Kissin não deu hipótese a Foster, e orquestra, de fazer a coisa andar para trás...
Sobre Kissin, apenas acrescento que estava à espera de melhor, mas no próximo sábado remato este raciocínio após escutar os concertos 4 e 5. A fluência nas passagens estremamente rápidas foi perturbada aqui e ali por alguma trapalhice na articulação e o fraseado teve uns elementos de exuberância juvenil, efeitos mais para chamar a atenção das capacidades técnicas, do que escritos na partitura e desnecessários na economia das três obras. Exuberância impossível de escutar num pianista pensador como Brendel... Muito evidente no rondo do concerto em dó menor. Curiosamente gostei muito da articulação do andamento lento deste concerto, mas ficaram arestas por limar neste largo para se chegar ao excelente.

Nota-se uma evolução notável nestes concertos de Beethoven, que atingirá o clímax intelectual no quarto concerto e o máximo da força no quinto.

As condições de audição na Gulbenkian foram pertubadas em larga medida por um fotógrafo na galeria lateral da sala, que deve ter disparado umas centenas de vezes o obturador da sua ruidosa máquina, nos pianíssimos era certo: clic, clic, clic. De vez em quando lá vinha outro ruído desta zona da sala, uma espécie de crec, crec, crec, do equipamento do fotógrafo e um arrastar de objectos, depois ouvia-se o tripé a ranger e o senhor a bichanar à sua acompanhante. Muito desagradável, penso que poderia comprar uma máquina cem por cento silenciosa, existem no mercado.
Por outro lado existe um ruído de alta frequência, um zumbido horrível que destrói qualquer possibilidade de fruição musical com concentração. A primeira parte do concerto ressentiu-se desse ruído irritante, será o ar condicionado?
Tosses aos milhares e três toques de telemóvel, não está mal, não senhor.


21.10.04

Os críticos 

Depois de emails e conversas com críticos indignados com o meu texto sobre críticos, depois de o próprio público me ter enviado emails, depois dos músicos me terem escrito dizendo-me que nunca tinham interpelado algum crítico, quer por escrito quer directamente, admito que não coloquei no texto alguns tipos de críticos. Não falei do crítico "rapaz sorridente" que elogia tudo o que ouve. Esqueci-me do crítico científico que tem um doutoramento em desconstrução da crítica no século XIX e que tenta aplicar o que estudou, sem qualquer hipótese de passar pelo lápis azul do editor de cultura do jornal onde escreve. Existe o crítico que escreve sobre as roupas dos cantores e dos seus afaires. Existe também o crítico que elogia os amigos e diz mal de tudo o resto, a não ser que seja impossível. Existe o crítico que quer fazer carreira ou se candidata a um tacho, existe o crítico paranóico, o crítico inseguro, o puto candidato a crítico ou seja o menino de coro da crítica que não distingue uma nota preta duma branca, o crítico entusiasta, o crítico que tem medo de dizer que o "rei vai nu", o que apenas diz "o rei vai nu" mesmo quando este anda vestido, o crítico misterioso que ninguém conhece... Enfim muito mais haveria por dizer. Como o Vasco garrido diz, e bem, cada crítica é uma autobiografia do crítico. Mas o mais divertido de tudo é criticar os críticos, é uma actividade de largo alcance pedagógico, colocar o crítico no papel de criticado. Só pode contribuir para o progresso da arte, e motiva a originalidade e a procura de novos horizontes por parte dos visados...
A nossa equipa está a preparar um ranking dos críticos! Está para breve. Pontos como erudição, clareza, capacidade de análise, síntese, cultura musical, cultura global, sentido crítico, referências, benevolência, isenção, dispersão, capacidade de resistir ao sono num concerto com música de Morton Feldman, concentração e outros factores numa tabela que classificará os críticos portugueses, sem distinção de credo, cor, sexo, raça, idade ou grau académico! Teremos os consagrados e os meninos de coro todos juntos. Haverá grandes surpresas e revelações!

Hoje Kissin na Gulbenkian, 21h, três concertos de Beethoven, três, nem menos um, lá estaremos todos, os críticos, o público e os críticos dos críticos, toda uma jovem equipa de profissionais ao seu dispor que seguirá e analisará os comportamentos com vista à elaboração deste grande estudo!


20.10.04

Thomas Bernhard 


foto Sepp Dreissinger.

Der Abend ist mein Buch 

Der Abend ist mein Buch. Ihm prangen
die Deckel purpurn in Damast;
ich löse seine goldnen Spangen
mit kühlen Händen, ohne Hast.

Und lese seine erste Seite,
beglückt durch den vertrauten Ton, -
und lese leiser seine zweite,
und seine dritte träum ich schon.


Rainer Maria Rilke, 20.11.1897


Os críticos: a palavra a Óscar Wilde 


"O crítico é aquele que sabe traduzir de outra maneira ou com material diferente a sua impressão das coisas belas. A mais alta, assim como a mais baixa, forma de crítica é uma autobiografia."

Oscar Wilde
Prefácio a O Retrato de Dorian Gray

O deplorável público português 

O público, um tema delicado para qualquer crítico oficial.
A tendência geral dos críticos é menosprezar o público, em conversas e na escrita comentam-se os excessos do público, o público que aplaude demais, o público demasiado generoso. Umas vezes o crítico fala da assistência de um concerto como de uma massa de ignorantes. Um bando de acéfalos que vai aos concertos como quem vai a uma espécie de futebol culto. A princípio, quando os membros desse público são novatos, são comedidos, olham em volta para ver como é, batem palmas a medo. Quando se tornam no pior que o público tem, ou seja em pretensos conhecedores que pululam, sobretudo, em concertos de canto e na ópera, quando além de "entendidos" se julgam "habitués" começam a mostrar a massa de que são feitos. Gritam "bravo" a cantoras, "brava" a maestros e orquestras. Passam à categoria de habitués eruditos quando ficam a saber, anos depois de assitir à ópera e aos ditos concertos de canto, que "brava" se diz a uma cantora no singular, "bravo" a um rapaz. Um habitué verdadeiramente conhecedor diz finalmente "bravi" ou "bravos" quando acha que existe uma pluralidade de intérpretes a merecer o estrépido "ribombante" de um urro bem modulado! Um habitué de grande gabarito, uma luminária da arte de se ser habitué sabe até que quando temos várias raparigas a merecer o ululante apelo final se diz "brave". Este último habitué não se nega a acenar com a cabeça durante o concerto e a levantar-se da cadeira ao menor sinal de uma nota sobreaguda em fortíssimo a encerrar qualquer ária. Tenta então gritar "brava" à diva antes dos outros, todos, habitués. Sempre antes do maestro baixar os braços e, sublime consagração, antes de acabarem os últimos acordes da orquestra que podem ser em pianíssimo ou com tambores, tímbales e trombones em três fff (Massenet). Este tipo de habitué gosta muito de se exibir no intervalo emitindo opiniões enrouquecidas (depois da berraria nos aplausos) mais ou menos alarves, que acabam por demonstrar uma total ignorância musical. É evidente que os críticos, membros de uma espécie também cheia de tiques, olham com o mais profundo desdém para este público. O crítico durante o concerto mantém-se hirto, pensa que todo o público o segue com atenção, olha com desprezo para quem bate palmas à sua volta (se está parado), ou então encolhe-se na cadeira com ar infeliz, às vezes levanta-se e vai-se embora sem bater uma palma com um ar tremendamente ofendido. Um crítico muito consagrado, ou que se julga muito consagrado, pode no entanto dirigir a orquestra com ar superior sentado do seu lugar, isto quando não se deixa dormir. O crítico mais convencido pode ainda fazer-se acompanhar de uma partitura que folheia no intervalo com ar entendido e que, depois, serve para se perder durante o concerto. O crítico está sempre em desacordo com o público. Nos intervalos os habitués que o conhecem coibem-se de emitir opiniões de forma demasiado arrogante junto da luminária da crítica e esperam que o crítico dê a sua opinião. O crítico oficial, muitas vezes também não percebe nada do assunto e espera que lhe soprem o que realmente se passou. Outras vezes manda um sorriso sibilino e, qual oráculo, diz uma frase ambígua para despistar. Sempre com o maior desdém pela opinião restante, seja ela de "habitués consagrados", de conhecedores ou mesmo de músicos. O ego do crítico está acima de tudo e de todos. Ele é o detentor da verdade final que mais ninguém domina. Ele tem as chaves do paraíso da crítica, pelo menos assim aparenta mas muitas vezes anda aflito e perdeu as referências ou não sabe mesmo o que dizer ou escrever. No supremo momento da escrita algo lhe há-de ocorrer e ainda tem uns amigos que lhe dizem que o oboé tocou muito bem, ou que a soprano desafinou. Na pior, ou melhor, das hipóteses pode ser que um colega escreva antes e se possa colher alguma inspiração no texto do jornal rival, ou então dizer exactamente o contrário, isto se detestar o colega, geralmente o que acontece. Um crítico odeia sempre o seu colega. É um concorrente, outro detentor da verdade, outro que não sabe fazer nada e se dedica à crítica. Claro que um verdadeiro crítico sabe que nada sabe e nada consegue fazer, mas morreria antes de admitir esse facto básico da teoria crítica moderna! Um conflito de egos em que os músicos também jogam um papel importante, mas fui longe demais, apenas lembro que muitas vezes os próprios músicos intimidam os críticos com cartas e emails (já dominam as novas tecnologias!), ou abordagens directas, o que me leva para o campo dos críticos medrosos que nunca se comprometem mas também nunca têm opinião, no fundo críticos sem vocação, críticos que negam a essência da profissão, a de terem opinião sobre tudo o que sabem e o que não sabem, o crítico medroso apenas finge que tem opinião mas não diz nada, afinal o que os outros críticos dizem em geral.
Sobre os críticos e o público noto o seguinte: o público que enche uma sala para ouvir uma soprano de qualidade a cantar um repertório demasiado ambicioso para as suas capacidades é capaz de deixar a sala a um terço para escutar um dos melhores quartetos de cordas do mundo. Escrevo sobre o quarteto Vermeer que se apresentou na Gulbenkian ontem. Um concerto de nível altíssimo em que se podem discutir opções estéticas, em que se pode falar da falta de potência sonora do segundo violino. Pode-se também referenciar a falta de contraste dinâmico na leitura demasiado plana dos quartetos de Schubert e Mendelssohn (onde faltou algum arrebatamento e pianíssimos ppp). Poderíamos questionar o vibrato excessivo de certas passagens com grande riqueza harmónica em Mendelssohn que poderiam ser mais belas se deixadas a pairar de forma mais limpa da ganga expressiva, tendo ficado empasteladas. Poderíamos comentar a leve descordenação na sustentação da arcada do primeiro violino, ou a leitura não totalmente uniforme, em termos de linguagem global do grupo, com uma viola demasiado exuberante, um primeiro violino com escola russa muito acentuada, um violoncelo a carregar o piano do quarteto em termos de sustentação do conjunto e um segundo violino demasiado discreto. Um concerto em que a fusão não foi tão perfeita como a dissociação individual. Um concerto em que se escutou um excelente quarteto de cordas de Czerny de 1854, com uma linguagem muito clássica em termos de forma musical, já um pouco em desuso ao tempo, mas com belíssimos temas, um tratamento do desenvolvimento rico e uma coda fenomenal no primeiro andamento, um ritmo contagiante nos dois últimos andamentos e um belíssimo andamento lento, muito lírico, muito bem construído, com pontos de inflexão nos locais certos a despertar a novidade e o interesse do ouvinte. Uma surpresa muito boa este quarteto de Czerny que foi estreado, provavelmente, em 2002! Mas estas questões são questões de retórica e de interpretação musical, o que me parece é que o quarteto vermeer tocou o que queria como queria e muito bem, é a sua linguagem, um discurso feito no quase perfeito. Um concerto de nota muito elevada desprezado pelo público face a um concerto de nota apenas boa (mas vulgar) aclamado pelo público e com direito a crítica oficial em todos os jornais importantes! Um concerto normal de um quarteto de cordas, despercebido pelo público e pela crítica e um recital feito por uma cantora "mediática" dois dias antes com direito a antevisões e entrevistas e apelos à claque pelos críticos da praça lusitana nos "jornais de referência"! Afinal o público e os críticos são apenas duas faces da mesma realidade portuguesa. É tudo igual, com responsabilidade diferentes, uns gritam no final, ficam bem dispostos e vão para casa roucos e alegres, outros escrevem nos jornais e andam sempre tristes.
Viva Portugal, viva o Santana Lopes, viva o Pinto da Costa e o Luís Vieira. O público, os críticos, o futebol e os políticos. Somos todos iguais.

Dia 19 de Outubro de 2004, Fundação Gulbenkian quarteto Vermeer, 19h. Um concerto para 17 valores.

Henrique Silveira

P.S. Os músicos estavam bem vestidos, com o seu fato escuro e a sua gravata. Nota para o amigo Vasco Garrido, que aqui mesmo me "elogiou" as críticas de moda relativas às indumentárias dos músicos. Ando a ler Thomas Bernhardt, "irritar é uma arte". Finalmente peço desculpa aos meus amigos críticos pelas generalizações, mas o texto perdia a força se andasse para aí a dizer: excepto Fulano, Sicrano ou Beltrana. Um crítico não pode ter medo dos seus pares, mesmo que sejam amigos, o texto aliás aplica-se a mim próprio. Eu olho com ar de desdém para o público que bate palmas à minha volta! É no fundo, também, uma autocrítica...

19.10.04

Quarteto Vermeer 

A não perder, dentro de uma hora e meia na Fundação Calouste Gulbenkian. Se está próximo da Praça de Espanha, em lisboa, que melhor forma de acabar a tarde, de esquecer a confusão do trânsito, a chuva e o défice, do que mergulhar no ambiente mágico da música de câmara. Schubert, Czerny e Mendelssohn pelo quarteto Vermeer numa sala magnífica, com o público conhecedor dos concertos de música de câmara. Uma celebração da verdadeira música.
Nunca é tarde para amar a música, a arte e o belo.
Por isso vou fechar o computador agora mesmo e dar um pulo à Fundação.

Henrique Silveira

O CrÍtico dos Críticos crítico de moda? 


Lê-se e não se acredita. O Crítico dos Críticos, que ainda agora acabou, neste blogue, de fazer uma crítica à crítica do "jovem espião" da Antena II e de "Sua Eminência" A. M. Seabra, ocupa 10 linhas do texto da crítica à Renée Fleming a falar da indumentária do maestro Lawrence Foster! Depois de em tempos que já lá vão ter andado a chamar "crítico de moda" ao director do jornal Público José Manuel Fernandes e, se bem me lembro, de fazer um reparo à Cristina Fernandes por falar na "crítica oficial" do Público sobre a pirosice do vestido da Gheorghiu, o Crítico dos Críticos agora dedica-se a analisar com requintes de pormenor o vestuário do maestro. Como se isso interessasse para alguma coisa! Estou-me nas tintas para o fato do maestro, da diva ou dos instrumentistas. O que interessa é que toquem ou cantem bem. Mas tenho de admitir que até concordo (aquela "parka" ou lá o que é não lembra a ninguém… será que não provoca desconcentração aos músicos? Será que não transmite más vibrações estéticas e isso se reflecte na interpretação?) e que o Crítico dos Críticos até tem jeito. Podia ter futuro nessa área. Admira-me que não tivéssemos tido um post sobre a ModaLisboa que acabou no domingo.
V.G.


Os candidatos a críticos 

Mais uma vez um reparo (severo) ao juvenil "espião" do (já comentado aqui com agrado) programa de João Almeida e Ana Paula Russo na Antena 2, rádio.
Foi dito que Fleming abordou Händel de forma "estilisticamente correcta" e elogiou a sua "versatilidade". O jovem ou é surdo ou não percebe nada do assunto, Fleming foi desastrosa em Händel, o estilo foi inapropriado, o uso e abuso de vibrato, a incacidade de articular, o estilo do bel canto não se enquadra no barroco, Fleming foi pouco ágil e pesada, tal como o "acompanhamento" da orquestra Gulbenkian. Esteve mal no domínio da respiração, abordar Händel foi o pior do recital (de facto reflexo do excesso de ambição na amplitude do repertório), já comentado como bom aqui, a parte desprezável e verdadeiramente má, que se esquece face aos lados positivos de um concerto de alto nível.

Augusto Seabra no Público de hoje salienta um Verdi mediano e esquece um Puccini quase perfeito. Vá lá, recorda Strauss passando uma esponja sobre a entrada muito má de Fleming no último lied. Numa cantora sem as pretensões de Fleming essa entrada poderia passar ao quociente, aqui estamos a falar de alguém que é rotulada da "mais bela voz do mundo" por alguns membros da claque. A este nível não se pode ter um deslize tão grave e evidente, ainda por cima corroborado por uma actuação irregular em que o muito alto oscilou com o médio. Seabra não o esquece, o pior do recital foi mesmo a demasiada ambição de Fleming ao querer cantar tudo, quando tem uma voz e uma capacidade musical para fazer de forma notável, e única, algum repertório mais limitado.

Fleming não conseguir escurecer a voz é algo simples de explicar: tendo harmónicos muito ricos nos médios e agudos, as cordas vocais e sistema fonético não têm capacidade física de emitir com muita energia os fundamentais e os harmónicos no registo grave, é uma questão física. Seria quase sobre humano uma mulher ter essa capacidade, ainda por cima uma senhora que não apresenta uma caixa de ressonânica muito grande. Era como pedir ao violino que tocasse no registo grave da viola ou do violoncelo, com a mesma sonoridade do instrumento maior. Fleming nunca conseguirá cantar com a voz escura das grandes sopranos dramáticas. Eu creio que a cantora sabe isso melhor que ninguém. Tem também a ver com a dimensão e tensão das cordas vocais. Dizer que "tenta" escurecer a voz é algo que não pode bater certo... Ou se tem a voz densa e escura, ou se vai ganhando esse timbre escuro com a idade e o peso, ou não se tem. Ponto. Pode-se tentar melhorar a potência da emissão nos registos graves, mas o reflexo será sempre uma diminuição de capacidade no registo mais elevado. Só superdotados fisicamente conseguem ter a capacidade de cantar bem nos diversos registos, muitas vezes à custa de corpos com grande volume e caixas toráxicas de grande envergadura. Por essa razão os tenores, ou sopranos, são desencorajados de cantar abaixo de determinadas notas. O timbre escuro tem a ver sobretudo com as cordas vocais, a sua dimensão natural e a capacidade de lhes dar a tensão adequada para os harmónicos e os fundamentais que se pretendem. É natural, o cantor não resolve equações diferenciais para fazer isto. Estes factores evoluem, sobretudo, com a idade.
Se a voz escurecer perde também a ligeireza e a aura diáfana e luminosa dos registos médio e agudo. Nunca se conseguirá ter o melhor dos dois mundos, apenas em raríssimos caos. Vickers (tenor) Flagstad, Nilson, exemplos de vozes densas mas que não brilharam no bel canto!


18.10.04

Renée Fleming na Gulbenkian 

A qualidade do concerto de domingo na Gulbenkian merece algumas notas. Não pretendo fazer crítica sistemática até por razões apontadas noutro post, apenas deixar algumas impressões. Até por pedagogia. Creio que o sucesso foi exagerado e o público demasiado generoso.

O maestro Foster continua com o mesmo casaco, concertos em semanas repetidas e em dias repetidos. Foster enverga uma espécie de parka, ou mesmo um kispo leve que insiste em usar na direcção da orquestra Gulbenkian. Tecido preto, ausência de laço, uma espécie de estilo negligé, que acaba por ser mesmo negligente. Espero que o factor sujidade acabe de de vez com a "moda Outono Inverno Foster", a não ser que tenha vários casacos iguais, mais duas semanas e tudo ficará mais composto... Espero também que o estilo não se aprofunde e se transforme numa espécie de Maisky versão dois, com permanente e fato espacial à Flash Gordon. Foster também anda muito bailarino na sua regência: tivemos direito a sapateado no concerto de ontem, na abertura das Vésperas Sicilianas de Verdi escutámos o tacão maroto do maestro fazendo concorrência ao departamento da percussão. Espera-se que o sindicato dos músicos não levante problemas, mas é espectáculo e o show must go on. O público gosta e aplaude e estamos todos felizes.
A orquestra esteve muito entusiasmada nesta noite de casa cheia, o entusiasmo musical valeu um pouco alguns desacertos e alguma forma de tocar privilegiando os fortíssimos e o género "meia bola e força" em detrimento da subtileza. Mas desta vez estavámos em festa e estes dias também se contagiam aos músicos.
Os violinos têm de ter mais cuidado, desafinações, pizzicatos incertos, entradas pesadas, a entrada do extra de Cilea foi um caos, pareciam gatos a cair em cima de um telhado de vidro a tentarem agarrar-se com as unhas ao mesmo tempo que miavam em desespero de causa. Uma desafinação horrenda, notas trocadas, um ponto mais negro da noite. O concertino Rowlands esteve bem e os seus solos correram, em geral, de forma sensível e com uma bela sonoridade com um belo fraseado, o final da meditação de Tahïs foi menos seguro, mas no balanço uma apresentação muito positiva.
A cantora apresentou-se bem, eu esperava pior, desconfio sempre do marketing e de artistas "Decca". O Händel foi francamente mau, fora de contexto, desapropriado à voz de Fleming, carregado de vibrato e com enormes dificuldades de respiração que arruinaram o final de quase todas as frases, fenómeno que se repetiu em todo o concerto. O estilo da orquestra está demasiado longe do compositor. Era ver as senhoras violoncelistas em vibratos pesadíssimos em todas as notas com mais de um décimo de segundo. Um baixo contínuo de um peso nada barroco. Tudo em esforço. Um ponto contra as escolhas da cantora, que ao pretender cantar tudo arrisca-se a nada cantar.
O Massenet foi razoável, dentro do possível neste compositor. Apenas algumas frases mal terminadas por falta de respiração. Percebeu-se que a dicção e a pronúncia das diversas línguas não são também o forte de Fleming. O Korngold começou por ser o ponto de viragem de Fleming que mostrou boas capacidades de emissão, domínio dos agudos e de sustentação das notas. Strauss em seguida foi muito bom, Cäcillie opus 27, com uma técnica interpretativa de grande nível, emissão a mostrar um belo registo agudo, muito equilibrado, em que os harmónicos se combinam sem predomínio excessivo do corpo ou do metálico. Os médios são muito bonitos e mesmo os sobreagudos têm cor, o que é raríssimo, penso que se trata da presença de harmónicos mais graves uma vez que acima do ré o ouvido humano quase deixa de ouvir os harmónico superiores e a sua produção se reduz significativamente. É esse facto que leva as sopranos a terem, quase todas, um sobreagudo que parece um apito. Não é o caso de Fleming como se percebeu em diversas ocasiões neste recital.
A afinação de Fleming não é perfeita, mas é muito subtil na procura do tom certo, entra geralmente perto da afinação correcta, deixa a voz baixar um pouco e depois sobe, disfarçando eficazmente esta demanda com o vibrato. Todas estas observações são fundamentadas em várias ocasiões do recital, o Strauss foi o ponto mais claro onde se percebeu esta forma de acertar o passo com a música. A noção do tempo de entrada é também inteligente, nunca se notou qualquer tentativa de puxar o tempo para trás, fazendo as cadências da praxe enquanto Foster segurava a nota da orquestra.
A segunda parte começava com Previn e Gershwin, creio que cumpriu bem. O Summertime, no entanto, poderia ter mais força. O belo canto não é o estilo ideal para esta música e a escolha de um repertório muito variado dificultou a mudança aos diferentes estilos. Seguiu-se um Verdi com dificuldades respiratórias, um "al cor" final da primeira estrofe da ária "Mercé, dilette amiche" ficou mesmo a meio por falta de ar. Curiosamente no pior registo da cantora, o grave. A descida terminou em silêncio e faltou som, claramente por falta de ar. As notas mais graves de Verdi, que tão bem definem as grandes cantoras de todos os tempos, o registo quase falado, sentido, muitas vezes raivoso, outras vezes profético ou apologético, evidenciaram os limites da cantora.
Já o "babbino caro" da melhor ópera de Puccini (para mim), Gianni Schicchi, foi praticamente perfeito. Os apianandos muito belos, apenas algumas terminações menos perfeitas e a oscilação na colocação não deram a esta ária a nota vinte. O momento mais alto do recital e que valeria todo o concerto a par do Strauss da primeira parte.
A Canção de Rusalka à Lua, da ópera do mesmo nome de Dvorjak, foi muito razoável, estragada um pouco pela subida final em que a voz de Fleming fugiu no registo médio entrado desafinada nos agudos finais.
Os extras de Cilea e Strauss foram diferentes. Em Cilea, Fleming foi redonda e muito bela no fraseado, em Mörgen de Strauss entrou completamente fora de tom o que estragou imediatamente todos os compassos iniciais do célebre lied de Strauss. Um telemóvel a meio da ária arruinou o resto e acabou com o concerto. O público no final ainda bateu muitas palmas mas a cantora foi-se embora.
Um concerto bom, acabou por não ser o evento histórico que se esperava. O público entrou em delírio e foi para casa feliz. A Gulbenkian está de parabéns pelos nomes sonantes que consegue, marcam a "qualidade" aparente da temporada. Creio que Fleming está demasiado inflacionada para a qualidade que exibe realmente, mas essa discussão iria muito longe.
Creio que o seu principal problema é tentar cantar mais repertório do que consegue, Verdi e Händel claramente a mais neste concerto. O melhor da cantora é a sua inteligência, a sua capacidade de leitura musical, sentido musical e, finalmente, uma voz muito bonita.
O orquestra está a melhorar (é a reentré!) e a tocar com entusiasmo, precisa de melhorar detalhes de afinação, coesão, equilíbrio de sonoridades e paleta dinâmica para atingir um nível semelhante ao final da época anterior.

Henrique Silveira

P.S. Ao contrário do que me propunha, acabei com uma crítica quase geral ao concerto de ontem. Faltou analisar a relação música-texto. A prestação da orquestra na abertura das Bodas de Figaro, e detalhar um pouco mais as referências às obras mais recentes e Massenet...
Em breve continuarei o ciclo "Uma voz por parte em Bach" e ainda o segundo post sobre o Festival de orgão de Lisboa que necessita de uma profunda reflexão sobre a BWV 552. Reflexão que não se consegue fazer em três tempos...

15.10.04

Um concerto banal 

Hoje na Gulbenkian.
CORO DE CÂMARA INFANTIL DA ACADEMIA DE MÚSICA DE SANTA CECÍLIA
LAWRENCE FOSTER (maestro)
LUCY SCHAUFER (meio-soprano)
LILIANA BIZINECHE-EISINGER (meio-soprano)
RICHARD SHAPP (barítono)
MERVON MEHTA (narrador)
Gustav Mahler
Adagietto (da Sinfonia Nº 5)
Eric Zeisl
Requiem Ebraico: Salmo Nº 92, para orquestra, três solistas e coro misto
Leonard Bernstein
Sinfonia Nº 3, Kaddish

Um adagietto executado sem chama nem pathos pelas cordas e harpa. Desafinações aqui e ali nos agudos. Um problema que não existia na orquestra Gulbenkian a ter de ser tratado, com brevidade.
Um requiem ebraico de um compositor judeu fugido da Alemanha. Uma obra menor de um compositor menor. Sem inovação, uns toques "orientais" e uma música de uma banalidade confrangedora. Liliana Bizineche desastrosa, creio que nunca entrou afinada, raramente deu as notas certas, uma interpretação inacreditável. Um barítono banalíssimo, com má articulação. Uma meio soprano (Shaufer) absolutamente mediana, e que ainda escapou ao panorama fracote dos solistas. O coro a fraquejar aqui e ali na afinação e na segurança nas entradas e no ritmo. Uma primeira parte muito duvidosa.

A segunda parte foi preenchida com a sinfonia nº 3 de Bernstein. Um bom compositor de música para filmes, um excelente maestro mas que não me convence como compositor americano "sério". Uma sinfonia cheia de efeitos teatrais com um narrador de voz completamente rouca, pareceu bom actor mas o estado miserável da sua voz (amplificada) fez perder as nuances sonoras de um inglês bem pronunciado. Efeitos, teatralidade, texturas (pós Ligeti), complexidade na estrutura ritmica, mas em termos musicais uma obra pouco inovadora, serôdia. Demasiado barulho na própria partitura. Efeito fácil para o público americano? Na prática hoje aconteceu demasiada gritaria no coro (em versão alargada) a desafinar claramente nos agudos, o que chegou a ser doloroso. Pouca subtileza dinâmica do maestro, pouco equilíbrio na orquestra onde faltaram cordas (violoncelos precisam-se na Gulbenkian) e excesso de violência sonora nos sopros, madeiras e metais todos exagerados.
Não percebo porque razão a orquestra Gulbenkian afina pelo oboé quando está presente um piano. O piano não pode afinar para acompanhar a afinação da orquestra, mas o contrário pode e deve ser feito. Erro técnico? Esquecimento?
O coro de crianças cumpriu muito razoavelmente, com os defeitos inerentes a um coro de crianças. Mas o empenho dos jovens foi enternecedor.
Gostei da tuba e trombones em Bernstein quando mais expostos, gostei menos do peso global dos sopros face às cordas.

Em suma um concerto com alguma competência, uma certa qualidade intrínseca da orquestra e do maestro. Solistas duvidosos e uma cantora desastrosa: Bizineche. Um programa bonito no papel mas que resulta maçador na prática. A primeira parte com um adagietto retirado do contexto da 5ª de Mahler e com a orquestra ainda a frio, uma pequena obra prima que nada tem a ver com o resto das obras em palco. Porque não apresentar as obras primas contemporâneas, onde pára o Berio? Onde vive o Ligeti? Em vez de um clássico "popular" como Bernstein porque não um compositor como Lopes Graça? Em vez de uma obra "judaica" de 1945, absolutamente banal, porque não um Bartók?! Escolhas...
Sobre Foster: interpretações demasiado simplistas, menos equilibradas que no ano anterior em termos sonoros. Espero que vá subindo com a temporada para atingir de novo a nível elevado a que estamos habituados. Menos gestos e mais trabalho de ensaio, casacos com melhor corte e uma indumentária mais apropriada a um maestro frente a cento cinquenta músicos e cantores também se agradeciam.
Um concerto para 11, digamos 12 valores com água benta. Ao menos vem aí o quarteto Vermeer e o Kissin para a semana.

P.S. Sobre a "crítica" feita na rádio antena II, programa da manhã de João de Almeida, sexta feira de manhã, apenas posso considerar que foi totalmente inadequada para o concerto a que assisti hoje (repetição do concerto de ontem). A rever o excesso de entusiasmo juvenil...


Manhãs de Rádio - Antena II 

O programa da manhã na Antena II tem sido uma agradável renovação da rádio pública. João Almeida, Judite Lima e Ana Paula Russo (ordem alfabética de apelido) fazem um programa agradável de ouvir, música bem escolhida, amor pela mesma. Mistura com informações úteis. Frescura, equilíbrio, rádio bem feita, bem comunicada. Empatia com o ouvinte. Alegria. É um prazer escutar os momentos de rádio que eu tenho escutado todas as manhãs.
Reparos: um espaço de três horas retira obras de longa duração, obras como sinfonias e concertos, obras dos quais os autores do programa devem gostar mas que o formato do programa impede.
A voz de João Almeida está mal equalizada (pelo menos hoje estava). Seria preferível escutar a voz do comunicador com menos agudos (uma opinião pessoal), uma voz mais profunda acaba por acariciar o ouvido de quem a escuta, torna-se mais quente. Uma voz demasiado rica em agudos misturados com graves, mas com poucos médios, torna-se um pouco cansativa. Se o programa vem para ficar, e merece-o, o trabalho de equalização deve ser feito com muita atenção e cuidado. Judite Lima tem uma voz, no meu entender, excelente, amável sem ser em excesso, densa e encorpada. Uma voz que inspira confiança. Ana Paula Russo curiosamente, tem o inconveniente de ter uma voz demasiado timbrada, muito rica em agudos. Boa para cantar mas difícil em rádio. Isso e a mania de pronunciar os nomes em "alemanês" fazem com que a cantora pareça um pouco arrogante, coisa que, de facto, não é. Tem de se afirmar pela inteligência e gosto musical, uma vez que a sua voz de cantora é já uma imagem de marca e não pode hoje ser alterada por equalização diferente.

O prazer de escutar rádio regressa nas manhãs da antena 2. O formato ainda talvez deva ser melhorado. É natural que assim aconteça. O tempo em rádio é lento. um programa demora meses a afirmar-se e deixa de ser um programa novo ao fim de um ano. O público conquista-se devagar. Mas João Almeida e Judite Lima sabem isso melhor que ninguém e que há arestas a limar. Não são autistas, sabem escutar o público e isso é muito bom.
As criticas têm de ser melhoradas. Hoje escutei a crítica ao concerto da Gulbenkian de ontem, como vou escutar hoje o concerto, em repetição, tirarei a limpo se esta crítica foi correcta ou se pecou por excesso de benevolência como João Almeida comentou. É preciso relativização, escutar muito, ouvir os melhores intérpretes para poder depois estabelecer comparações. Ter ouvidos e cérebro, recordar que existem mais pessoas a ouvir os concertos. Meditar e saber, conhecer as obras, conhecer os estilos, as técnicas, ler muito, aspectos muito importantes e que não se apreendem em dois dias. Mas há tempo...
Nota muito positiva para as manhãs da A2.

P.S. Bylsma toca a BWV 1006 (originalmente destinada ao violino) em violoncelo piccolo e não em violoncelo! Um instrumento do tempo de Bach que poderia também servir para os jovens aprenderem. É importante reparar na sonoridade mais rica nos agudos e na agilidade maior do instrumento, estas informações às vezes são mais úteis do que dizer que Bylsma é um grande violoncelista ou que Bach era fantástico.


Renée Fleming 

Vai estar na Gulbenkian no próximo domingo, 19h. É importante fixar esta hora, uma vez que, por engano, apareceu na informação inicial da temporada 21h. Os billhetes, o próprio site da Gulbenkian e a publicidade têm a informação correcta.

Não prometo crítica, embora Fleming seja uma cantora extraordinária, e o concerto imperioso.
Os compositores presentes no programa, em geral, não me agradam. Detesto Massenet por exemplo, embora goste de alguma da sua extensa produção em doses extremamente pequenas. Por exemplo o Werther sai um pouco do mau gosto geral do compositor (em minha opinião), uma ópera que ficou entre dezenas que não passaram à história e ao repertório. Acrescento que Puccini, Previn, Gershwin Korngold ou Bernstein não me estimulam. Sobra um pouco de R. Strauss, Verdi e Händel. Qualquer crítica seria imediatamente distorcida por estes preconceitos que admito.

Henrique Silveira

14.10.04

A sondagem e o aviso 

A sondagem feita neste Blogue sobre a passagem de Zoltan Peskó, ex-maestro titular do Teatro Nacional de S. Carlos é esclarecedora.
Creio que apenas conhecedores votaram nesta sondagem, tivemos alguns milhares de visitas (cerca de 2500) nos dias da sondagem, iniciada no dia 6 de Outubro de 2004 e terminada no dia 13 do mesmo mês pelas 24h. No entanto apenas 114 pessoas, eu próprio votei, expressaram a sua opinião. Dessas 114 pessoas 105 acham que Peskó não deve ser nomeado maestro honorário do S. Carlos, 92% dos votantes. Até parece que Fidel de Castro esteve metido nesta votação!
Evidentemente a opinião das pessoas, e sobretudo da crítica, não conta muito para a direcção do mesmo Teatro. Peskó já foi nomeado maestro honorário, seja isso o que for. Independentemente de ser incompetente, de ser incapaz de dirigir uma orquestra sinfónica do princípio ao fim de uma ópera ou num concerto.
Segundo imagino, um maestro honorário é alguém que prestou serviços relevantíssimos, que se destacou por ter prestígio e competência invulgar. Por ser brilhante. Recordo que maestros como Levine não foram nomeados maestros honorários nas melhores orquestras do mundo depois de finalizados os seus contratos. Peskó conta no seu currículo uma das maiores pateadas de todos os tempos no Scala. Uma pateada que abriu mesmo o noticiário da RAI I, televisão. Mas há pior: Peskó tem na sua lista de barbaridades uma das piores interpretações de todos os tempos do Tristan und Isolde, acto a acto em versão de concerto, na Culturgest em Novembro de 2003. Uma leitura sem qualquer capacidade analítica, sem qualquer perspectiva interpretativa de registo, uma leitura a ler as notas e mal, salva no último acto por uma orquestra e cantores que sobreviveram ao maestro por milagre e apesar deste. Uma orquestra que, entretanto, soçobrou terrivelmente no segundo acto pela incapacidade de direcção, de ensaio, de preparação, parecendo que estavam a ler as notas à primeira vista. Peskó foi incapaz de acertar nos tempos, nas entradas, de conduzir o que quer que seja no exigentíssimo segundo acto da tremenda obra de Wagner. Despedimento certo no Scala ou em Londres, honorário em Lisboa.
Se fosse apenas o Wagner, o facto é que este maestro assassinou repetidamente obras de grandes compositores, lembro a Ariadne auf Naxos de Richard Strauss, em que mais um compositor foi maltratado por um maestro incapaz das sonoridades refinadas que se lhe impunham.
O coro de João Paulo Santos (bendita a hora em que foi posto na prateleira dourada) com Peskó no comando da orquestra atingiu níveis de infâmia musical, sempre a coberto da batuta complacente deste húngaro fora de prazo (creio que nunca esteve dentro). Um homem capaz de receber milhares e milhares de contos por récitas de ópera (2500 para estreias e 2000 para récitas normais), mais um vencimento mensal de 800 contos, mais milhares e milhares por concertos onde espalhou a sua total incapacidade de dirigir. Um titular que passava dois meses por ano em Lisboa (com generosidade).
Outros haverá que são ou foram piores, dizem-me. Piores? Mas porquê comparar Peskó com os piores dos piores? Encinar, o anterior titular? Mas andamos a pedir comparações entre indigentes e miseráveis? É evidente que se comparar Peskó com João Paulo Santos temos de dizer que o húngaro ainda conseguia (há uns tempos) dizer se duas flautas em uníssono tocam afinadas. Mas a um maestro pede-se mais do que isso. Pede-se honestidade na sua relação com as obras, pede-se respeito pelo público. Não se pede a um maestro titular que passe os ensaios a olhar para o relógio (como me disse um cantor de ópera dirigido por Peskó e que achou a experiência desconcertante). Não se espera, nem numa república das bananas, que se promova a incompetência ao estatuto de honorária!

Henrique Silveira


12.10.04

De repente a Luz 

Uma sala de um palácio, as abóbadas por cima de nós. Um pequeno grupo de pessoas à espera, menos de duzentas. Um cravo em cima de um estrado. Morcegos pelo ar ainda quente do Verão que aqueceu o palácio durante os últimos meses.
O silêncio, dois homens entram quase a correr, palmas e muito pouco tempo de preparação, parece que estão ávidos de música, o silêncio, a paz breve antes do vulcão despertar. O cravo de Guido Morini ressoa pela sala, sons breves, rendilhados, diáfanos.
A descoberta, o silêncio daquele espaço mágico, poucas pessoas rodeados de milhares de livros encerrados nas suas estantes, livros que cantam a voz do tempo. A alma dos que os escreveram e que, do eterno, adormecidos esperam por nós.
Os morcegos continuam, eles vão acompanhar-nos até ao fim do concerto e, de repente, a luz. Num corpo de braços abertos abre-se a voz do cantor. Abriu-se também a alma dos que o ouviam. Uma voz que não é apenas uma voz, é um canto de um homem que pensa e nos faz amar e sofrer. Pouco mais há a dizer. Os críticos oficiais que critiquem. A viagem que Marco Beasley nos deu não se compadece com críticas. A única forma de a descrever é a poesia do escutar. O cravo esteve inseguro? E depois? Beasley tem pouca voz? Recita e não canta? Não interessa. Quem se preocupa com isso esquece as emoções, a extraordinária força das palavras poéticas que o italiano antigo nos transmite. A música de Monteverdi e seus pares fazem-nos descobrir universos de magia e de êxtase poético que só a música do início de seiscentos sabe transmitir, as emoções, os afectos. O domínio intenso das palavras e do som. Não digo mais nada, não estou para isso. Um dos melhores concertos a que pude assistir em Portugal neste domingo às 19h no Palácio de Mafra. Uma opinião muito particular e pessoal.

Obrigado a Miguel Lobo Antunes por se ter lembrado do Accordone de Marco Beasley e Guido Morini. Só a entrada de Beasley na Cantada de Sances teria valido este concerto, junta-se Monteverdi e Frescobaldi, o Purcell no último extra, as palavras de Tasso e de Dante e não se pode ouvir mais nada durante um mês.

Concertos excepcionais, preços baixíssimos, não percebo porque razão o público não acorreu em massa a Mafra.

11.10.04

Uma mulher tocando música com violone em repouso 


Senhora sentada ao virginal de Vermeer (clique na imagem para melhor definição)

O Violone repousa como um homem fatigado escutando o encanto da espineta acariciada suavemente pela jovem. A moça olha para o pintor, diríamos que perturbada pela entrada deste, a intimidade da sua comunhão com a música foi quebrada. Não, a surpresa não pode ser má, a jovem esboça um meio sorriso muito discreto e dedilha o instrumento sem se deter. O violone continua tombado, um instrumento demasiado forte para fazer conjunto com um suave virginal, tão suave e virginal como o aspecto da donzela. O violone espera pelo resto da família para poder exercitar o seu som masculino, barbudo, paternal, num concerto para as visitas de logo à noite.

Vermeer simplesmente notável.


Derrida 

Já se falou muito de Jacques Derrida. Agora que morreu os encómios são generalizados.
A dimensão de Derrida é enorme pelo que fez, pelo que escreveu, pela influência. Uma espécie de S. Tomás de Aquino. Mas há que não esquecer que o desconstrutivismo enquanto tal e despido de conhecimentos profundos quando aplicado às ciências exactas leva aos disparates ignorantes e ridículos de um Boaventura Sousa Santos que Alan Sokal tão bem demonstrou. Uma das citações de Sokal no seu célebre paper escrito no gozo e que entrou numa das mais respeitadas revistas de sociologia (Social Text) é precisamente o B. S. Santos a par de Derrida e muitos outros nomes seríssimos, ou não, das ciências sociais e exactas.
O desconstrutivismo aparente é afinal uma espécie de pseudo-cultura arrogante e pretensiosa, apenas o espelho de uma ignorância disfarçada de sabedoria que despreza a verdadeira fonte do conhecimento científico:
Um trabalho intelectual profundo e reflectido do Homem sobre o mundo. A relativização dos conceitos. Um trabalho enorme, doloroso mas estimulante e deslumbrante de apreensão prévia de conhecimentos que são património da humanidade.
O mesmo trabalho a que Derrida nunca se deu.

Uma relativização infundada, empírica, superficial, uma desconstrução que apenas arranha levemente a tinta do edifício científico é apenas empirismo aristotélico disfarçado pela ganga gongórica da terminologia sociológica. Li há muito pouco tempo uma antologia do desconstrutivismo em que um dos artigos era sobre a desconstrução do número "pi". A ignorância da autora era tão confrangedora que depois de citar Derrida umas vinte vezes apenas apetecia gritar ou rir à gargalhada... Derrida e a sua nefasta influência num meio de ignorantes que escrevem sobre ciência sem perceberem nada do assunto.

Derrida sim, mas com alicerces, com seriedade. Ou seja: Derrida não!

10.10.04

Poesias epigramáticas de Leite de Faria para música de ... (Ilegível) 


Leite de Faria 1953 (?)

222

Sem notas
em notas
anotas.


234

A morte
da donzela
é a sorte dela.


234

Na areia
chove sempre
a Maré cheia...


445

Naquele dia
vivia em prosa
o Espectro da rosa.


O Fim da Polémica com Duncan Fox 

Gostei muito da segunda resposta do Duncan; elegante, séria e sem demasiadas picardias pseudo-humorísticas motivadas por orgulhos feridos. Mas, por muito bem argumentada que seja, essa resposta continua a deixar-me alguns pontos de desacordo.
Quero esclarecer definitivamente que a minha crítica aos baixos no concerto da Capela Real era virada sobretudo para a ausência da viola da gamba e de um violoncino ou de um violone em sol.

Num quadro de George Adam Arnold o Baixo de Viola à esquerda, um instrumento que não será francês pela forma e pelos ff.

Nada tinha a ver com a presenca do Duncan e de um violone em ré, instrumento que, de verdade, pode não ter sido utilizado na época das obras executadas. Aliás reconheço que a actuação do próprio músico Duncan, nome que na altura do concerto não recordei, foi de óptima qualidade. Notei mesmo que as articulações que ele utilizou foram muito diferentes, se não contrárias, daquelas escolhidas pelos violoncelos. Enquanto Duncan Fox tocava muito articulado e com acentuações muito claras em termos de “arcada boa e arcada má”, os violoncelos andavam “de chinelas”, organizando uma fórmula escolástica tipo “walking bass”, isto utilizando a língua materna do Duncan. O resultado de tudo isto foi uma confusão de articulação de todo o baixo contínuo, onde os violoncelos atrasavam e misturavam e o Violone servia de locomotiva. Um bom trabalho que, infelizmente pelas causas esclarecidas de uma péssima direcção de Stephen Bull e displicência dos restantes baixos, acabou por não se ouvir. Duvido ter sido esta uma uma escolha precisa de concertação já que não reconheço à Capela Real este tipo de capacidade, como já afirmei na minha primeira crítica, a propósito do tratamento do baixo continuo por parte do cravo.
Neste âmbito quero fazer uma pergunta. Dunca Fox declara que o violone era um instrumento, nas suas palavras, desconhecido por Charpentier. Não concordo, Charpentier estudou em Itália, desconhecer o violone seria um absurdo, só um cego ou um surdo não conheceriam um instrumento que surge em incontável iconografia e na instrumentação italiana da época! Mas se assim fosse, queria então saber o que estava a fazer o DF neste concerto, com este programa, com um violone em ré. Um instrumento enorme que nada tem a ver com a viola da gamba, bass de viol, que seria mais apropriada à música francesa?


Aqui vemos o francês Forqueray por Jean-Martial Fredou, Forqueray toca uma viola da gamba francesa. Bem mais pequena que o violone em ré que se vê na pintura de Falcone inserida no texto.

Parece haver uma contradição muito evidente quando se defende uma tese e actuando, de facto e na prática, ao contrário desta.
Aquilo que eu penso é o seguinte: estamos de acordo com o Duncan. A utilização do Violone em ré foi errada, e para isso não interessa a duração da peça (...). Errado foi também o não considerar utilizar no grupo um violoncino e/ou uma gamba. Os erros (graves) já são dois na mesma peça. Não havia nenhum instrumento da família dos alaúdes e este é o terceiro erro na mesma peça de três minutos, um erro por minuto! Demasiados erros, todos ao mesmo tempo, que assim ganham direito a ter lugar na minha prosa bem catalogados debaixo de uma simples palavra “desleixo”, afinal apenas desrespeito pelo público e pelas obras.
Georg Muffat conheceu pessoalmente Lully, Corelli, Charpentier e Biber; ao qual sucedeu na catedral de Salzburg. É provavelmente a mais inportante fonte directa de apoio aos estudos musicológicos do Séc. XVII. No prefácio poliglota à obra que citei descreve, mais ou menos assim, a utilização instrumental nos concertos:
...” querendo ouvir estes concertos, se deverá formar um terceto perfeito e sempre com as partes de violino um, violino dois e baixo contínuo do concertino. Este baixo será melhor tocado num violoncino ou baixo francês. Pelo contrário (no ripieno) deve um violone e contrabaixo ser adicionado ao acompanhamento de um cravo ou da Theorba para uma maior ornamentação da Harmonia...”
Enfim, aqui temos uma indicação do conhecimento e da utilização naquela época quer do baixo francês quer do violone e contrabaixo, estes em agrupamentos maiores. Claro que os agrupamentos variam segundo as ocasiões mas a paleta de instrumentos está lá toda. Relembro a data desta obra teórica: 1701.
Sebastien de Brossard não cita a utilização do Violone na entrada do dictionaire (1701) dedicada a este instrumento, mas na voz dedicada à definição de “Sonata”. Já nesta edição encontramos muitas indicações a propósito da utilização instrumental nas sonatas e sonatas a três. Isto motiva a minha crítica em relação à execução das sonatas de Biber que a Capela Real fez em Coimbra (para não falar da actuação instrumental de Stephen Bull que foi desastrosas...)
É na versão e reedição feita por Brossard por volta de 1710 que encontramos muitas indicações acerca da presença do violone e da sua utilização.
Outras leituras que podem completar esta tese podem vir de autores como o Abade Pluche que, odiando os italianos, fez um importante trabalho de dogmatismo literário tentando codificar o que era verdadeiramente francês na música francesa. A obra é fraca, mas dá informações úteis sobre o assunto que estamos a tratar.
Outras referências são Raguenet e Le Cerf que, tratando de forma especifica da viola da gamba, esclarecem as dúvidas conforme ao dessus de viol(e), basse de viol(e) e fazem particular menção sobre o destaque e favor destes instrumentos na corte de França.
Para acabar quero ser claro: tive a falta de não o ser na primeira crítica. Por isso já pedi as minhas desculpas. Agora que a “polémica” teve lugar já parece ver alguns pontos de concordância entre nós. Tal como D.F: enuncia na sua segunda resposta. Continuo a estar convencido da validade da minha crítica, assim como continuo feliz por ver que D.F. parece estar longe de outras discordâncias, demonstrando os seus dotes de coerência e honestidade.
Como disse no princípio do post gostei desta troca de opiniões e do que escreveu D.F., parece ter uma justa e saudável paixão pela sua profissão, conjugada com uma dedicação que, justamente, são para ele razão de orgulho. Não desconhece o assunto, ao contrário de alguns dos seus colegas, embora algumas vezes tenha demonstrado um pouco de sectarismo a nível profissional.
Obrigado pela sua intervenção.
Para acabar, outras perguntas. Porquê um músico que demonstra qualidades e dedicação deixa a sua imagem degradar-se tocando com agrupamentos que demonstram contrariar todas as suas convicções? Será Portugal um país de poucas oportunidades, os músicos que têm de sobreviver acabam por optar por soluções menos dignas da sua capacidade profissional? Será que a Capela Real mesmo assim é melhor do que tocar com um grupo pimba ou num casino qualquer?
M. P.

Udite Amanti 

Este agrupamento feminino que se apresenta hoje, sábado Às 15h no Festival de Mafra fez-me lembrar, de repente, o célebre quadro de Tintoretto: Mulheres Tocando Música.


9.10.04

O Criativo de Factos Políticos 

Portugal é um país pequeno. Muito pequeno. No entanto existe uma opinião pública e uma indústria ligada à comunicação social.
Esta indústria necessita de factos, os chamados factos políticos, quanto mais quentes, mais sórdidos, mais polémicos, melhor. Os piores instintos desta sociedade simiesca em que vivemos são despertados pelo lado sórdido, chocante, mórbido, pelo choque, pela ânsia de espanto e de sensação. A curiosidade humana não resiste a um acidente com mortos e carros espatifados, as pessoas param. Um atropelado ou um trucidado por um comboio são pitéus a que o nosso povo não resiste. É humano, dirão.
Relativamente aos poderosos, aos detentores de cargos políticos, aos ricos, nota-se que os membros da classe média, e o povo em geral, se pelam por ver os primeiros em trajes menores, de chinelos, dentro das suas casas pirosas, para servirem de modelo. Por outro lado ver os ricos e poderosos a cairem em desgraça é também apetitoso, é o momento em que a curiosidade popular se regozija com as desgraças alheias, em que a inveja rasteira se compraz com a queda dos anjos que servem de modelo noutras ocasiões.
Infelizmente os modelos, os tais "ricos" os "famosos", as tais "celebridades" são modelos de mediania e de mediocridade exemplares. Basta olhar para a classe política portuguesa, basta atentar na cultura da pretensa elite. Elite? Sim, a elite que na Renascença encomendava quadros a Rafael, que dava a Leonardo todas as condições para criar, aliás com pouca produtividade para os usos da época. A mesma elite que patrocinava as artes, que discutia Dante em Florença. Que fundava a ópera nesta cidade. A elite que mantinha uma vida cultural riquíssima em Veneza. Com que orgulho os burgueses de Veneza mantinham a sua actividade musical, a sua Capela de S. Marcos com os seus coros múltiplos, os seus orgão, os seus músicos. Os dois Gabrieli, Monteverdi, Vivaldi entre tantos outros como Schütz, que tanto devem a Veneza. A elite que pagava a cientistas, a astrónomos, que fundava academias e sustentava universidades.

Frederico o Grande por Mercier

Frederico o Grande: Ah, chegou o velho Bach! Político português médio: Quem é Bach?
Hoje em dia a "elite" portuguesa é o Jardim Gonçalves, o Belmiro de Azevedo, o Paes do Amaral, o Balsemão e espécimes afins. Na classe política a "elite" são os ministros, ex-ministros e futuros ministros, mais alguns "senadores". Quando Mário Soares é visto como uma referência do estado democrático, um ex libris do Portugal do final do século XX e início do século XXI está tudo dito. Junte-se ao Soares o actual presidente, o primeiro ministro e outros líderes políticos, o Alberto João, o Valentim Loureiro, o Narciso Miranda, a Fátima Felgueiras, e percebe-se a situação triste deste pobre país.
Os fazedores da política portuguesa os chamados "Criativos Políticos" são o Luís Delgado, o Marcelo Rebelo de Sousa, o Boaventura, o José Manuel Fernandes, o Vilaverde Cabral, o Pulido Valente, a Constança, o Carlos Magno, a Sousa, o Tipo do Laço, o Vicente (uma estrela apagada cuja saída do PS deu direito a notícias na penúltima página)...Já a canalhada do Barnabé entre outras amostras mais ou mesmo do mesmo calibre como o Seabra, afinal todos bloquistas, ainda estão na fase de candidato a Criativo de Factos Políticos! Não é preciso ser um grande analista político (i.e. Criativo de Factos Políticos) para perceber que entre os inventores da coisa política também estamos em franca penúria. Os chamados comentadores políticos têm de criar os factos políticos, que não existem na realidade, para se alimentarem a si e a quem lhes paga uma vez que o produto natural não existe. Santana Lopes é demasiado cuidadoso, dentro da sua mediocridade, para oferecer notícias, é aquilo a que se chama um esperto sem ser inteligente, um habilidoso sem ser hábil.
Mas, felizmente para os Criativo de Factos Políticos, existem ainda personalidades tão pouco dotadas que dão espaço para a criação dos tais factos. Os inventores de factos políticos têm enormes carências culturais, veja-se o Mega culto Prado Coelho que é um mau inventor de factos políticos e prefere comentar os factos inventados pelos outros quando não discorre sobre os problemas existênciais originados pelo movimento ou inacção do seu próprio umbigo. Amaral Dias pertence a esta categoria de comentadores de Factos Políticos frios, não é um Criativo, é um Dissecador de Factos Políticos. Os Criativos abusem da indigência dos compradores. Mas uma coisa têm: são mesmo criativos, é a sua maior qualidade a par de parecerem bem na televisão (com excepção do José Manuel Fernandes com a sua imagem de marca oleosa e camisas berrantes mas que não cria muitos factos), eles são pomposos, são imperiais, apresentam-se credíveis e sempre isentos, até o Delgado gosta de parecer isento por mais absurdo que isto possa parecer! Outro aspecto é falarem sempre de coisas imaginadas como se tratasse da realidade pura, da mesma realidade das pessoas que trabalham, que têm de produzir conhecimentos e riqueza. O que é importante é que não se perceba que estão a manipular o real e a subverter todos os princípios da liberdade de expressão, ou do acesso das pessoas à informação. Acrescenta-se a esta situação o jogo dos espelhos em que assessores, políticos, jornalistas e Criativos Políticos convivem todos, todos tentando obter dividendos, todos dormindo (em sentido figurado e real), bebendo e comendo uns com os outros. Todos tentando manipular todos. Nenhum consegue tirar grandes dividendos porque estão todos demasiados metidos no jogo e são todos muito fracos para perceber o que se passa realmente.
Grandes ajudantes dos Criativos de Factos Políticos são os protestantes crónicos, os tipos do aborto, os bloquistas, os dez manifestantes anti-touradas, os tipos anti-aborto, os três sindicalistas à porta do ministro Y, os quinze manifestantes anti propinas, os magistrados que querem dar nas vistas, o Procurador com as suas respostas, reparo que Barrancos e Sampaio já deram o que tinham a dar, eles não pagam a multa e já ninguém leva a sério os discursos do presidente. Mas ainda sobram imensos grupos folclóricos que chamam as Televisões sempre que querem e que fomentam a criação de Factos Políticos.
Falemos agora dos irrelevantes (nem conseguem ser medíocres) do tipo de Rui Gomes da Silva, um rapaz impulsivo, provavelmente cheio de boas intenções, incapaz de se conter dentro dos limites das suas funções. Geralmente não se dá por ele, não serve para nada ao contrário de Marques Mendes nas mesmas funções, Silva é bom rapaz e amigo de Santana Lopes. Enganam-se os que pensam que Silva é um peso morto, não o é em absoluto, estes políticos são de uma utilidade extrema para um bom inventor político: servem como gatilho, como pequena chama que se transforma em fogo depois de bem regada pela gasolina do comentário do "Criativo de Factos Políticos" na sua coluna no DN ou do Público ou mesmo com as honras do Expresso. O fogo transforma-se num tremendo holocausto quando o assunto passa, facilmente, para a televisão. Claro que a TSF tem o exclusivo que foi dado duas horas antes pela Antena 1. O facto dissipa-se lentamente nos blogues, arrastando-se por mais alguns meses.
Normamente uma criatura tão irrelevante, como o ministro Silva, nunca arrancaria de Marcelo Rebelo de Sousa mais do que uma farpa, uma bandarilha. Marcelo nunca se daria ao trabalho de massacrar este Silva por mais de um minuto. Mas acontece que Gomes da Silva é ministro da república portuguesa, ou seja os seus comentários não são comentários, são o discurso do poder. O que diz, o que quer que seja, sobre comunicação social é imediatamente pressão do poder sobre a suposta "imprensa livre". O Silva é um joker que o "Criativo de Factos Políticos" tem à mão sempre que a coisa amorna. Depois das colocações de professores era necessário algo, Gomes da Silva dá (presume-se que involuntariamente) uma mãozinha à malta da SONAE, da IMPRESA, da MEDIA CAPITAL, da PT e das suas congéneres com umas bocas irresponsáveis e irreflectidas.
Marcelo um génio táctico, ainda falta provar se é génio estratégico, percebeu de forma aguda os dividendos que poderia tirar das espumantes declarações de Silva. "Retirou consequências políticas". O facto político deixou de ser apenas sonhado, imaginado, fabricado para ser repercutido pelos seus pares sempre prontos para ampla divulgação e cobertura. O facto político deixou de estar apenas na cabeça de Marcelo. Não era apenas uma fria vichyssoise que se serve como a facada dada a Santana. Era um Facto Político quente, pulsante, era de carne e osso. O sonho de Marcelo tornava-se realidade, o próprio Marcelo corpo e espírito, passava a ser o "Facto Político". O comentador transformado no comentário ou o contrário, parece Piradello mas é Portugal. A cereja em cima do bolo é um toque de mestre: a benção do patrono da nulidade portuguesa. Uma benção que cai do céu sobre o Corpus Factus. O presidente chama Marcelo, tudo à mistura com indignação e palmas de meio PSD. Marcelo aclamado pela esquerda. Marcelo o "Facto Político" o Himself made Fact made Himself. Marcelo a vítima das tropelias do poder! Marcelo o amordaçado! Marcelo o independente!

Seria realmente ridículo se isto não representasse a tragédia de Portugal, sem reformas e com 9% de analfabetos e um milhão de alcoólicos no dealbar do século XXI.
O financiamento à arte e à cultura privada agora retém 25% na fonte para financiar os gastos de um governo que não apoia a cultura, que desinveste na Universidade, que abandona o ensino à mais pobre das indigências. O mesmo governo que é incapaz de reformar, que tem como critério para escolhas de ministros o facto de se ser amigo do primeiro ministro.
Santana de caminho fica arrumado. Gomes da Silva naturalmente teria de ser demitido mas Santana é amigo do ministro e não tem capacidade de manobra porque não tem legitimidade eleitoral, não tem a legitimidade do mérito e não tem o apoio do próprio partido.
Afinal o único inteligente é o Marcelo. Marcelo reserva moral da Nação! Marcelo Presidente de todos os Portugueses! E eis Marcelo o candidato natural se Cavaco não avança.

P.S. O tipo do laço é o Nocolau Santos.

6.10.04

Crítica da crítica da crítica da crítica da ... 

Mais uma vez Duncan Fox envia um email sobre crítica de M.P. ao concerto da Capela Real. Mantendo o espírito aberto que sempre nos motivou reproduzimos aqui o texto do músico, com a devida vénia. Cremos que é interessante perceber qual a instrumentação correcta, para os baixos e o resto, na música francesa, alemã e italiana; esta utilzação da instrumentação para os períodos em questão será importante em termos de autenticidade histórica. Claro que muitas vezes tem se partir para o compromisso, como também se fazia no barroco. Bach provavelmente foi forçado a utilizar uma voz por parte, algumas vezes, em Leippzig até 1730, mas porque não tinha meios, é a falta de meios que o leva a desistir das cantatas prematuramente, é provavelmente a falta de meios que o leva a um estado de abandono quase total da composição por dois anos. Hoje em dia transforma-se a desgraça de Bach numa teoria musicológica, no fundo uma fraude que serve credibilizar apenas a poupança de dinheiro nos contratos utilizando menos cantores e dispensando coros o que acaba por dar melhores rendimentos aos maestros, precisamente os autores dessa teoria absurda. Mas acima de tudo o mais importante será a interpretação autêntica, será o sentido musical. Segundo M.P. isso faltou no concerto da Capela Real. Gostava de saber a opinião de Duncan Fox sobre esse assunto, para mim mais importante.

Esperamos que o inglês original do nosso amigo Duncan não obste a uma leitura por parte da nossa audiência. Embora dirigido a mim, como "editor" deste blogue o conteúdo do texto é dirigido na maior parte a M.P.
Agradeço ainda a disponibilidade do Duncan em nos escrever.

Henrique Silveira



Dear Henrique

I find it a little bit difficult to see precisely what M.P. disagrees with in my message. He does not appear to say that it was wrong to use the D violone in Biber, nor can I find a clear statement that he believes that it is historically correct to use a G violone rather than a violoncino, French bass, or viola da gamba in 17th century French music. We both have already stated in our different ways that the instruments used in the bass section in the Charpentier (about three minutes in duration) were not correct. I hope his reply is not an example of what the British call "spin"- of which one of the most notable characteristics is the ability to seem to say something without actually saying it. I will assume that what he is telling me is that I was wrong to question the wisdom over his remark that I should have been using a violone (now violone in G)in the Charpentier.

I have already investigated parts of the texts to which M.P. refers, despite having, as he correctly divined, a somewhat inadequate library. I spent some time examining Brossard's definition of the term "violone" in his dictionary and find my case strengthened by it. Similarly, I read some of the Muffat text that he refers to and while finding nothing to defeat my case, found one passage that appears to clearly defend it. However, I would prefer to make a complete reading of the relevant parts of these sources before again putting forth any opinion (if anybody is still interested).
Having done this I will, I hope I will either try to show why I still believe I was right, or admit that I was wrong, in which case M.P. will have the pleasure of knowing that he has done something constructive (or shall we say didactic) in this area in which we share a considerable wish to improve.
Thankyou for what I see as your positive interest in criticism.

Incidently, despite speaking and reading Portuguese, my writing ability is not good and I have no doubt that you are much better off with my English.

Best wishes,
Duncan



5.10.04

Os Maestros na reserva, de coro, titulares, honorários, principais e convidados 

Na coluna lateral pode responder a uma questão que tem a ver com a inflação de maestros do Teatro Nacional de S. Carlos.
Os maestros no S. Carlos proliferam, é uma verdadeira enxurrada. Será sina o estado gastar uma fortuna a sustentar maestros que não são vistos no Teatro Nacional de S. Carlos durante meses, como o antigo titular, Zoltán Peskó? Maestro que além do ordenado mensal de 800 contos ainda recebe mais de dois mil contos por estreia e dois mil contos por récita. Isto sendo absolutamente incompetente para o cargo e não vivendo em Lisboa nem passando cá um décimo do seu tempo profissional.
Entretanto o antigo maestro de coro, João Paulo Santos (curiosamente referido ainda como actual maestro de coro titular no site do S. Carlos!), foi passado para a prateleira dourada com um ordenado luxuoso depois de passar anos a arruinar o coro do Teatro Nacional, tem um título novo do género "director de estudos musicais" ou coisa assim e ainda ficou "chefe da banda do palco" (se não estou em erro) um título que deve acumular mais uns cifrões à carteira de alguém que nem sabe dirigir uma banda de palco nem consegue perceber se dois cantores estão a cantar afinados. Com o afastamento do antigo maestro de coro foram contratados dois novos maestros para o substituir! São excelentes, mas o dinheiro não é elástico e o país está em dificuldades.
Finalmente o maestro titular do Teatro, o inefável Peskó, outro que geralmente se perde em concerto, e em ópera, dando entradas ora adiantadas ora atrasadas porque se perde constantemente na partitura, corre o risco (corremos nós) de passar a maestro honorário, com o final do seu contrato de titular, posição onde passará a ganhar mais um chorudo ordenado para nada fazer.
Finalmente serão contratado novos maestros, talvez um novo "titular" e ainda outro "principal" ou algo que o valha. Uma longa fila de italianos, japoneses, húngaros, e rapazes de outras nacionalidades, alguns bons outros nem por isso, no horizonte?
Junte a isto dezenas de convidados, alguns são de altíssimo nível, mas todos com contratos para umas récitas que são muitas vezes o ordenado mensal do presidente da república e veja o nível de custos em maestros do TNSC!
Será que a tutela não se apercebe deste número crescente de maestros com custos cada vez maiores?
Entretanto falam-se em cortes para a produção. O que é óbvio é que com tantos maestros será cada vez mais difícil escutar boa ópera em Lisboa.
Pode votar na coluna do lado.


4.10.04

Excesso de feriados 

O 25 de Abril, o 10 de Junho, o 1 de Dezembro e o 5 de Outubro, quatro feriados que poderiam ser todos reunidos num único, o feriado das Revoluções Diversas, Dia de Portugal, de Camões e Poetas Afins e Outros Escritores e das Comunidades e Etc.



Assim tive uma ponte em que fui obrigado a não trabalhar: fecharam-me a Universidade! Isto numa fase em que necessitava de dar as aulas para manter os programas em curso e as turmas alinhadas.
Já bastava o próprio dia 5 de outubro, que é o dia em que uns velhos gagás do PS fizeram uma revolução há uns anos atrás. Agora vou ter de andar a recolocar aulas nos tempos mortos dos estudantes, que é o que fazemos no Técnico quando temos feriados e pontes.

Entretanto hoje a notícia é que a presidência recorre a uma velha arrecadação do palácio de Belém para fazer um museu da própria presidência! A tralha republicana numa velha arrecadação. Acho bem, a inutilidade, a incompetência reunida dos políticos que ocuparam o lugar desde 1910, tudo bem juntinho na velha arrecadação do palácio. Sampaio também ofereceu um busto.

A RDP sai à rua para avaliar dos conhecimentos presidenciais dos cidadãos, vê-se que é ponte e as notícias são escassas. A pergunta da jornalista feita aos incautos e raros passeantes na tarde ensolarada da ponte era: "qual o primeiro presidente de Portugal?"
Às respostas erradas perguntava: "e o nome de Manuel Arriga não lhe diz nada? É que esse é que foi o primeiro presidente!"
Felizmente a irrelevância do tema justifica de certa forma a ignorância da jornalista e dos transeuntes. O primeiro presidente foi Teófilo Braga. Exerceu o cargo de facto mas ilegalmente, uma vez que a revolução republicana não foi legitimada pelo sufrágio popular. Os partidos monárquicos foram ilegalizados e impedidos de participar nas eleições, ao contrário do partido republicano durante a monarquia. Nota-se que o cargo de presidente só foi formalizado depois da primeira constituição republicana em 1911. Nos anos seguintes o partido republicano fragmentou-se, os partidos que surgiram não só repetiram os defeitos dos partidos monárquicos como os ampliaram em larga escala. Os anos após o 5 de Outubro foram de caos, de confusão, de retrocesso, deram mesmo origem ao golpe de 28 de Maio de 1926 e a uma ditadura provinciana e tacanha, demasiado longa para não parecer um sonho cheio de nevoeiro e de espectros de dinossauros excelentíssimos. Seguiu-se uma partidocracia e uma democracia que não valoriza o mérito. Agora só me falta acrescentar uma boa gargalhada pela república, pelos políticos e por jornalistas que vão fazer perguntas para a rua sem saberem as respostas, pela ponte e pelo resto, que amanhã ainda é feriado.

Arquivos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?