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29.8.04

Concertos e Ópera 

Cá estou na Áustria, a água corre pelas montanhas, e escuta-se o silêncio dos bosques, um silêncio cheio de sons, mas absolutamente silêncio. O silêncio e a voz do veneziano António Sartorio escutado ontem no Lanstheater de Innsbruck e que ainda perdura na memória. Uma ópera notável com um elenco notável. Agora Schwarzenberg para as shubertiade, dia 29 Quatuor Mozaiques.
(Curiosamente tenho acentos e tremas mas nao no "i" e o til nao existe neste teclado...).
31 de Agosto Felicity Lott com Graham Johnson ao piano, finalmente a 1 de Setembro Gruberova com Haider ao piano, nao o político, o pianista Friedrich. E a Áustria continua até 3 de Setembro...

Henrique Silveira

25.8.04

Petrarca 


Petrarca nasceu há 700 anos (a 20 de Julho de 1304) e ainda não tínhamos assinalado a efeméride neste blogue. Mas mal estaríamos se só nos lembrássemos dos "Grandes" a propósito de efemérides. Deveríamos recordar Petrarca todos os dias. Um soneto por dia (ou uma das outras "Rimas") e ao fim de um ano teríamos percorrido todo Il Canzoniere. Sobraria um poema no caso de o ano não ser bissexto como aconteceu com 1348, data da morte da misteriosa Laura de Noves, a quem o Poeta devotou toda a sua arte. Num dos próximos posts falaremos de Petrarca e a música, ou melhor, de música inspirada pela poesia de Petrarca.


Soneto nº 134

Nem tenho paz nem como fazer guerra,
espero e temo e a arder gelo me faço,
voo acima do céu e jazo em terra,
e nada agarro e todo o mundo abraço.

Tem-me em prisão quem ma não abre ou cerra,
nem por seu me retém nem solta o laço,
e não me mata Amor, nem me desferra,
nem me quer vivo ou fora de embaraço.

Vejo sem olhos, sem ter língua grito,
anseio por morrer, peço socorro,
amo outrem e a mim tenho um ódio atroz,

nutro-me em dor, rio a chorar aflito,
despraz-me por igual se vivo ou morro.
Neste estado, Senhora, estou por vós.

Francesco Petrarca
(tradução de Vasco Graça Moura)



24.8.04

Quase de Partida 

Para a Itália e Áustria. Em Innsbruck o Festival de Música Antiga acaba com a ópera de Antonio Sartorio Giulio Cesare in Egitto. Dirige o guru Attilio Cremonesi com um elenco excessivamente bom.
Espero publicar aqui a crítica respectiva.
Espero ainda actualizar o blogue a partir de quinta feira, penso que terei mais facilidade com a Itália e a Áustria do que na Turquia e na Tunísia onde passei algumas das últimas semanas.
Fica a fotografia do Festival, já este ano.


Espero que os co-autores deste blogue continuem a escrever na minha ausência...

D. Giovanni 

Leio com prazer o Abrupto com referências musicais profundíssimas: "Pentiti, scellerato! / No, vecchio infatuato!" do Don Giovanni de Mozart, aqui o texto de Lorenzo da Ponte. Claramente com reflexos filosóficos. A altivez do celerado, a sua coragem, a sua força, mesmo perante o destino mortal que o vai inelutivelmente punir, de forma lógica, a um inferno desejado. O inferno para o qual trabalhou toda a vida e que não nega no momento último. Não se arrependeu, e bem. Afinal quem tinha razão? O celerado afinal é o herói? A música de Mozart sublinha o instante mágico, crítico e derradeiro de uma forma fortíssima, mas também subtil e ambígua. Obrigado pela lembrança, vou agora mesmo ligar o CD e ouvir o Cesare Siepi com a direcção de Furtwängler daquele dia sublime de 27 de Junho de 1957 em Salzburg.~

Siepi

Uma voz por parte IV - Weimar 


Bach não permaneceu muito tempo em Mühlhausen. A cidade sofeu um incêndio devastador em 1707 e ficou arruinada. Bach teria dificuldade em sustentar a sua nova família nesta cidade. A sua fama como excelente organista era já elevada aos 23 anos. Toda a Turíngia, e mesmo a Saxónia, conhecia a fama de Johann Sebastian.
Não espanta a mudança, em 1708, para Weimar, cidade ducal a cerca de sessenta quilómetros da anterior posição. Um estado minúsculo, uma cidade de província, só muito mais tarde Goethe fez de Weimar a capital das letras da Alemanha. Bach não era estranho a Weimar, já em 1703 tinha passado pela orquestra ducal como violinista.
Em 1708 Bach é nomeado organista na corte do duque Wilhelm Ernst.

Em 1714 é nomeado Konzertmeister, ou seja uma espécie de director de orquestra que dirigia a partir do violino. Bach sabia tocar violino, alaúde, os diversos teclados: orgão, cravo..., violoncelo, viola, viola pomposa (este instrumento seria de sua invenção? há controvérsia sobre o assunto), provavelmente alguns sopros e tinha uma "belíssima voz de baixo, sonora e muito extensa". O ordenado de Bach era muito bom em Weimar, começou por 150 florins e foi aumentado sucessivamente, em 1714 estava em 250. Depois atingiu a mesma importância que o ordenado do Mestre de Capela, ou Kapellmeister.
Bach e sua prima Maria tiveram seis filhos em Weimar.

A partir de 1714 Bach fica obrigado, com o novo cargo, a compor uma cantata por mês. O que cumpre, produzindo obras notáveis, as suas primerias cantatas com recitativos e árias à italiana são desta altura.
A orquestra ducal seria constituída por 17 a vinte músicos. Infelizmente não se conhecem os registos do efectivo coral presente no castelo ducal. Mas as cantatas BWV 61 e BWV 147 (uma das mais célebres) compostas em Weimar, contêm coros polifónicos extremamente complexos e, particularmente a 147, instrumentações pesadas. Repare-se que o coral que encerra cada uma das partes da 147 só foi acrescentado alguns anos depois em Leipzig (junto com alguns recitativos) mas as partes restantes exibem uma complexidade de escrita muito elevada, difícil de realizar por miúdos a solo contra uma orquestra de 18 elementos.
As razões que negam a teoria de uma voz por parte em Weimar não se ficam por princípios musicais. O duque era um homem muito cioso do prestígio da sua capela, nunca poupando dinheiro para manter os melhores músicos e pagando-lhes muito bem. Bach viu o ordenado muito elevado quando ameaçou partir. Será difícil imaginar que um homem como Wilhelm Ernst tivesse ao serviço do seu Castelo apenas quatro rapazolas para fazer as partes corais das cantatas de Bach ou de outro compositor qualquer.
Claro que Bach escreveu sobretudo música orquestral para a câmara do Duque. Claro que Bach escreveu cantatas apenas para solistas à maneira italiana, sem coro. Mas as obras que escreve para o coro são mesmo para coro.
O argumento final é o mais simples, Bach abandonou a tradição do Concerto Espiritual alemão quando despiu a linguagem da cantata BWV 106, Actus Tragicus, e adoptou a linguagem do recitativo e ária dos textos Neumeister (1671-1756) pastor em Hamburgo.

Fez a fusão tão tipicamente alemã do coral luterano, harmonizado, com o estilo recitativo/ária. Porquê permanecer fiel ao estilo concerto espiritual com poucas vozes? À moda de Schütz, por exemplo, quando os pequenos efectivos foram usados apenas devido às carências da, entretanto ultrapassada, guerra dos trinta anos. Recordo que os efectivos usados por Schütz antes de 1617 eram enormes, a Saxónia tinha dinheiro para gastar em música, depois de 1618 o dinheiro ia para a guerra e não para os cantores e músicos. Schütz só vem a receber a sua parte dos salários em atraso quando tinha mais de setenta anos e já deveria ter morrido, de acordo com as estatísticas da época!

Obras de Bach em Weimar:
Cantatas de 1715: BWV 132, 152, 155, 80a, 31, 165, 185, 161, 162, 163 (S. Franck).
BWV 182, 12, 172, 21 (provavelmente S. Franck).
BWV 70a, 186a, 147a (S. Franck).
BWV 61, 18 (E. Neumeister).
BWV 54, 199 (G. C. Lehms).
BWV 63 (J. M. Heineccius??)

Bach escreveu mais de trinta cantatas em Weimar, mas sobrevivem as 22 acima mencionadas, algumas delas apenas deduzidas de partituras de Leipzig, caso da BWV 147a.

O orgão foi o instrumento rei de Bach em Weimar: Orgel-Büchlein, quase todos os prelúdios corais que introduziam ao orgão o coral cantado na igreja, quase todos os prelúdios e fugas. O Wohltemperierte Clavier I, o primeiro caderno do cravo bem temperado foi escrito em Weimar mas polido posteriormente diversas vezes.

Nota - A numeração do catálogo das obras de Bach não é cronológica. É organizada por tipos de composição.





23.8.04

Actualização de Links 

Fizemos uma actualização completa dos links deste blogue. Fazíamos gala dos nossos links pré-históricos! Mas há que emendar o que está errado, muitos dos links nem sequer existiam, provavelmente muitos dos links aqui colocados deixarão de funcionar ou correspondem a blogues que já deixaram de ser actualizados ou deixarão de ser dentro de pouco tempo, mas a blogosfera é uma comunidade em rápida evolução e outros surgirão. Quem achar que merece ser citado que nos envie um email personalizado. O nosso critério foi simples, decidimos linkar todos os blogues portugueses com mais de 10 citações diferentes de acordo com o http://www.technorati.com/.

Curiosamente, e só hoje reparámos, os célebres Abrupto e Gato Fedorento nem sequer figuravam nos links antigos. Evidentemente achamos interessante a sua inclusão presente.

Não alterámos o template do blogue, de forma a manter a linha que nos tem identificado com os leitores. Sabemos que existem templates mais práticos, em que se colocam as últimas entradas, mas somos conservadores e não podemos fazer nada quanto a isso. O encarnado voltará ao topo do blog quando deixarmos de estar de luto. Luto pelos maiores que têm morrido. Luto por Portugal, sem governo, sem presidente, sem nexo.


ESPERA 


Horas, horas sem fim,
graves, profundas,
esperarei por ti
até que todas as coisas sejam mudas.

Até que uma pedra irrompa
e floresça.
Até que um passáro me saia da garganta
e no silêncio desapareça.

Eugénio de Andrade

20.8.04

O som das orquestras e o vibrato 


A interpretação de música barroca com vibrato causa hoje arrepios à maior parte dos músicos e melómanos. E não só aos mais puristas ou aos adeptos mais fiéis da recuperação da "praxis" de execução da época. Para além de ser uma incongruência histórica (nos séculos XVII e XVIII o vibrato era usado como ornamento ou apenas como enfatização expressiva de algumas passagens), este não se adequa mais aos padrões de gosto vigentes actualmente. E quanto ao repertório sinfónico romântico e pós-romântico? As HIP (não, não é o nome de nenhum vírus esquisito, apenas a abreviatura de "historical informed performance", designação que se generalizou nos últimos anos e tem a virtude de evitar o termo "autenticidade" que tantos equívocos causou…) têm avançado cada vez mais no tempo, mas poucos se questionarão sobre o uso do vibrato em Berlioz, Wagner, Bruckner ou Richard Strauss, aceitando-o como um dado adquirido e como parte integrante da identidade interpretativa dessa música. No entanto, tem-se chegado à conclusão de que as orquestras no século XIX tocavam com muito pouco ou nenhum vibrato. Segundo Sir Roger Norrington nenhuma orquestra alemã tocava com vibrato antes de 1930! Pelo menos não tocavam com o vibrato contínuo (em todas as notas) que se tormou comum posteriormente. O maestro britânico desenvolve esta ideia num interessante artigo na revista Early Music e fundamenta-a com base em registos fonográficos do início do século XX. Tece também algumas considerações curiosas sobre o advento da moda do vibrato (que, aliás, dá imenso jeito para disfarçar problemas de afinação…), associando-a, por exemplo, ao conceito hollywoodesco do "glamour". Mas a investigação sobre esta questão está ainda a dar os primeiros passos — ainda não se fez uma história do som das orquestras no século XX. Independentemente de se gostar mais ou menos das interpretações do próprio Norrigton, este é um artigo que coloca questões muito importantes, as quais, a longo prazo, poderão vir a transformar substancialmente a abordagem desse repertório. Leitura obrigatória!

V.G.


19.8.04

Não percebo 

Porque razão alguma direita apoia Bush. Penso que se trata de uma resposta pavloviana, acéfala enfim. A direita inteligente não apoia Bush, é francamente impossível. A direita inteligente percebe que uma "estratégia" consistindo na total ausência de estratégia, uma "estratégia" baseada apenas em ideais infantis e não no pragmatismo político, uma "estratégia" sem ser baseada num pensamento amadurecido e profundo das questões, leva à quebra de confiança dos aliados, ao exarcebar do ódio anti americano e ao descalabro económico das operações militares e ao descalabro financeiro global.
A direita inteligente reza para que Bush perca as eleições que vêm aí, é o melhor que pode acontecer aos Estados Unidos, à economia e bem estar mundiais. É o melhor que pode acontecer à direita humanista no mundo inteiro. A política de Bush, conotada usualmente com a direita, e defendida pela direita mais rudimentar, leva ao total descrédito, nas democracias ocidentais, dos reais valores do cristianismo, do humanismo e da liberdade individual.

Bush não tem uma política de direita ou de esquerda, nem sequer tem política ou faz a menor ideia do que é a política. É tempo de a direita que medita pouco perceber que defendendo Bush está a condenar-se ao ridículo.

Kerry é o candidato da direita inteligente. A esquerda em Portugal apoia Kerry apenas porque Bush é apoiado por alguma direita. Mas isto apenas por antítese, por reacção. A esquerda portuguesa é reactiva, para não dizer reaccionária, age de forma a contrariar, por forma a tentar irritar a direita. Não age como motor porque perdeu os modelos, os referentes, nada tem a propor senão utopias e ilusões irreais. Se a direita menos dotada de capacidade de reflexão utilizasse as contradições desta mesma esquerda, que estranhamente apoia um candidato francamente de direita: Kerry, a esquerda perderia todo o espaço de debate.

18.8.04

Uma voz por parte III 

Arcebispo de Mainz, Arcebispo de Trier, Arcebispo de Colónia, o Rei da Boémia, o Conde Palatino do Reno, o Conde Palatino e Duque da Saxónia e o Margrave de Brandenburgo aos quais se juntaram mais tarde o Duque da Baviera (Eleitor da Baviera) e o Duque de Brunswick-Lüneburg (Eleitor de Hanover) tinham o papel de eleger o Imperador, geralmente um Habsburg apenas confirmado pelos restantes. Eram os eleitores do Império Romano, título que perdurou até à sua abolição por Napoleão em 1806.


Mapa da Alemanha em 1788

A Saxónia onde Bach viveu a partir de 1723 tinha capital em Dresden. As cortes alemãs desprezavam a língua local e tentavam arranhar o francês, Bach não escapa a esse hábito, "à la mode" ou melhor dizendo alamodische Zeit, segundo a moda do tempo. Escreve muitas vezes usando palavras francesas nas suas partituras. O "bom dia" passa a dizer-se grosseiramente "Wunschur"!

Eisenach, onde Bach nasceu, situa-se na Turíngia tinha 6000 habitantes, é o coração da Alemanha mais profunda. Florestas e castelos. O seu prestígio derivava do castelo de Wartburg, mais tarde celebrado por Wagner, que se situa nos montes acima de Eisenach. Wartburg que abrigou Lutero nos primeiros dias da Reforma. Uma aldeia pelos padrões de hoje.

O Castelo de Wartburg

Hamburgo tem então pouco mais de sessenta mil habitantes, a cidade hanseática era uma urbe enorme para o padrão da Alemanha despovoada pela sucessão de gerras trágicas que a consumiram no século XVII, com a guerra dos trinta anos à cabeça. Lübeck de Buxtehude tem apenas 30000, antiga capital da Liga está em franco declínio.

Arnstadt onde Bach inicia a sua carreira é uma cidade minúscula com 4000 habitantes, mesmo assim tantos quantos a ilha das Flores hoje. Vinte músicos e um pequeno teatro, um orgão com poucos registos. Uma pequena orquestra, mesmo assim mais do que maioria dos ensembles barrocos de hoje, mesmo os mais avantajados. Música para gáudio do seu príncipe e dos habitantes pagos com os impostos locais e os dinheiros das rendas do príncipe. Concertos públicos pagos ainda vão demorar muitos anos a aparecer.


Mühlhausen, 7000 almas, duas igrejas, muralhas imponentes, cidade governada pelo conselho municipal. Coro polifónico de boa qualidade, primeiras cantatas de Bach com coro! Polémicas constantes entre os dois pastores das duas igrejas, um pietista outro luterano ortodoxo... Bach usa sobretudo a Blasiuskirche com boa acústica, bom orgão e grande tradição vocal.


Bach casa-se nesses tempos felizes de Mühlhausen com a sua prima Maria Barbara na igreja de Dornheim.


Primeiras cantatas com coro? Pergunta o leitor e eu também. Sim, a cantatas BWV 4 poderá ter origem nesta cidade. Duas igrejas, um coro com mais de vinte cantores, uma cantata com extensas partes corais, complexas, contraponto muito elaborado, solistas caros seria impossível numa cidade como esta. Mesmo dividindo o coro pelas duas igrejas temos mais de uma voz por parte. Bach não compõe cantatas apenas em Leipzig, como os adeptos de "uma voz por parte" advogam implicitamente. Bach dispõe de coros antes de Leipzig e escreveu mais de trinta cantatas antes dos seus 38 anos.
Como então executar estas cantatas com base em pressupostos que se verificariam em Leipzig onde supostamente os recursos seriam menores? As sociedades corais eram frequentes. Cem anos antes de Bach, Schütz torna-se conhecido porque tinha uma voz de ouro quando era pequenino e cantava no coro do seu pai em Weissenfels, bem perto das terras de Bach. Porquê então a hipótese de que os extensos, complexos, elaborados, contrapontísticos coros das primeiras cantatas de Bach teriam de ser cantadas com um cantor por parte, quando isso seria muito mais difícil do que ensaiar um coro bem apoiado?
Com uma voz por parte seria quase uma calamidade se um dos cantores de que Bach dispunha se perdesse ou falhasse uma entrada sem o apoio dos colegas do coro.
Nem sequer a parte do soprano nesta cantata está dobrada por nenhum instrumento no cantus firmus composto originalmente por Lutero e usado por Bach na obra. Seria preciso um rapaz com uma segurança enorme para conseguir cantar a longa parte da melodia, bem sustentada sem o apoio de instrumentos a dobrá-lo, isto mesmo considerando que a melodia coral escrita por Lutero era bem conhecida. Além disso qual a razão de prescindir da força de um coro polifónico no louvor de Deus e das suas obras? Porque razão usar apenas o recurso anémico a solistas amadores e muito jovens? Recorde-se que as mulheres nunca cantavam nos coros das igrejas.
Claro que não acredito na teoria de "uma voz por parte" nestas cantatas iniciais.

Nesta cidade Bach publica a sua única cantata a ser publicada em vida "Gott ist mein König, BWV 71". Repare-se no uso da palavra "Motteto" e não "cantata" no frontispício da partitura.

Mais obras de Bach, entre outras algumas perdidas, neste período:

Tocata e Fuga em ré menor, BWV 565.
Prelúdio e Fuga em ré maior, BWV 532.
Passacaglia em dó menor, BWV 582.
Cantatas: Aus der Tiefen, BWV 131 (1707?)
Gottes Zeit ist die allerbeste Zeit, Actus Tragicus, BWV 106.

Continua com Weimar...

17.8.04

Jan Dismas Zelenka 

Nasceu em 1679, em Loudovice na Boémia, filho de um organista, foi educado num colégio jesuíta de Praga. Foi sempre católico e manteve contacto com os jesuítas dos quais recebeu encomendas várias ao longo da vida.
Em 1710 foi para Dresden onde se começou a destacar como contrabaixista desta corte.

Manteve-se em Dresden até ao final dos seus dias em 1745, deslocou-se a Itália, Viena e Praga durante a vida. Foi contemporâneo de Bach. Nunca casou. Ninguém lhe conhece a face, não há nenhuma pintura ou gravura com Zelenka.

Na corte de Dresden obteve em 1730 o posto remunerado de Compositor de Música de Igreja da Corte do Eleitor da Saxónia e Rei da Polónia. Augusto o Forte tinha-se convertido formalmente ao catolicismo para aceitar a coroa, também ela fruto de uma eleição dos nobres da Polónia reunidos na célebre Dieta polaca. O título de rei da Polónia era apenas decorativo uma vez que não detinha quaisquer poderes de facto. Repare-se que Dresden e a Saxónia com Leipzig incluído, onde Bach exercia as funções de Cantor, era um estado eminentemente luterano. Zelenka ficou encarregue de compor a música para as cerimónias católicas. Curiosamente Bach recebeu também o título de compositor da corte de Dresden, título este não remunerado e apenas honorífico, mas essa é uma história que vamos continuar na série "Uma voz por parte".

Em 1723, ano marcante também para Bach, Zelenka compõe obras encomendadas pelos Jesuítas para celebrar a coroação do Imperador Carlos VI, coroação que teve lugar em Praga, capital da Boémia natal de Zelenka. A qualidade da obra musical é tão elevada que Zelenka é celebrado como um dos maiores compositores do seu tempo. Bach apreciava de tal forma a sua obra que mandou um dos seus filhos a Dresden para copiar um Magnificat para ser executado na igreja de S. Tomé de Leipzig.

Nunca constou que Zelenka tivesse falado ou escrito sobre Bach, mas certamente conheciam-se e estimavam-se. Não há documentos que provem que Zelenka conhecesse Bach apesar dos documentos que demonstram que Bach conhecia a obra do colega. A falta de documentação sobre Zelenka não é alheia às devastações causadas pelo horrível bombardeamento de Dresden que destruiu grande parte da sua obra ainda por copiar e por editar o mesmo acontecendo à obra do seu antecessor, Schütz, num dos mais trágicos desastres culturais da história da Humanidade.

São célebres e estão documentadas as deslocações de Bach a Dresden para tocar orgão durante horas em algumas das suas igrejas mais importantes. Estes acontecimentos reuniam multidões de músicos e curiosos ansiosos por escutarem o fenomenal Bach e a sua técnica de digitação incrível que executava as obras mais complexas com uma suavidade e com uma economia de gestos que deixava atónitos os seus contemporâneos e o crítico Johann Adolf Scheibe que descreveu precisamente a técnica superlativa de Bach. O mesmo crítico que primeiro massacrou a obra de Bach e depois se rendeu à música de Bach, mas afasto-me de novo do assunto. Numa sociedade pequena seria impossível Zelenka desconhecer a obra de Bach.

A música de Zelenka é no entanto totalmente diferente da de Bach, não por ser uma música com exclusiva raiz monódica como a de muitos "modernistas" da época. Zelenka era apreciado pelo contraponto tal como Bach o foi. Bach disse inclusivamente que Jan Dismas era um excelente compositor de fugas. A música de Zelenka é diferente porque católica na sua sua essência. O cantus firmus é usado de forma mais directa do que em Bach, não existem corais, mas os coros são muito trabalhados e as árias também. As obras de igreja como salmos e motetes não têm recitativos secos. As missas também não, como é evidente. Zelenka é absolutamente genial no tratamento dramático, diria quase sinfónico avant la letre, das introduções orquestrais, na fusão da orquestra com os coros, exemplo o Gloria in Excelsis Deo da Missa Dei Filli zwv 20, o final é um tour de force deslumbrante com entre as vozes e a orquestra os sopranos a desafiarem à desgarrada os violinos num efeito de extraordinária beleza e efeito de uma alegria transbordante atingindo a emoção desejada com uma eficácia total. Esta utilização quase instrumental das vozes de forma a criarem efeitos e timbres misturando-se no contraponto orquestral é também um dos pontos mais altos da arte de Bach, mas o tom é sempre muito diferente nos dois colegas. Impossível de descrever recomendo a audição para se perceber oa diferenças. Recordo o impressionante Miserere em dó menor (que aparece no último filme de Almodovar) com uma entrada de um dramatismo, esmagadora diria, que antecipa a música religiosa de Mozart em 40 anos. O uso dos metais e sopros é indicador de uma capacidade musical estremamente evoluída e de uma originalidade espantosa.

Zelenka é inovador pelo choque emocional que é capaz de causar, pelas variações harmónicas, pelo uso de acordes complexos que mais tarde se generalizaram. Pelo liberdade com que usa as regras da composição, que dominava profundamente, para chegar ao efeito retórico pretendido. Repare-se no uso dos graves no Salmo 130 "De profundis" zwv 50 ou no requiem em dó menor zwv 48.

Zelenka é sobretudo original e desconcertante, tão desconcertante que muitas vezes diriamos estar a ouvir Haydn ou Mozart em vez de um compositor nascido antes de Bach pouco depois da morte de Schütz.

Zelenka no seu tempo era considerado como um dos maiores compositores, mais do que Bach, hoje volta a renascer das cinzas dos bombardeamentos de Dresden mercê das muitas cópias que colegas, que admiravam a sua obra, faziam.

Recomendo os CDs:

De Profundis Miserere Requiem
Pelo ensemble "Il Fondamento" com direcção de Paul Dombrecht.
ed passacaille 9228

Hasse Zelenka (Música dos dois grandes nomes de Dresden)
Dresdner Kammerchor, Dresdner Barockorchester, dir Hans-Christoph Rademan
ed Raum Klang RK 9702

Missa dei Patris
Barockorchester Stuttgart, Kammerchor Stuttgart, dir Frieder Bernius
Carus 83.209

As interpretações são irregulares, tavez com a excepção do disco da passacaille, mas são documentos muito interessantes para conhecer o esquecido Zelenka.

Encomendei ainda
disco 1 e disco 2, farei brevemente aqui uma crítica destes vários discos.


16.8.04

Últimas despedidas 

Desta cidade tolerável, apenas, pelos amigos que ainda por cá penam. Janto na Casanova, à beira-rio, um carpaccio com ruccola, parmesão, um vinho branco espumoso, um gelado gianduiotti.
E a conversa é demolidora: a cidade fantasma que Lisboa é em Agosto, a falta de oferta cultural, a tacanhez de uma cidade periférica, sem sombra de mudança na nossa vida útil, a crise do petróleo, a apatia do novo governo.
Já pouco sobra. Ao menos há 50 anos, não comíamos carpaccio em frente ao rio, poucos saiam de Portugal, não nos entorpecíamos com consumo, existiam famílias que desfiavam as roupas de filho para filho, mulheres que ficavam em casa, filhos que tinham a certeza de um dia terem um emprego. Riqueza é riqueza, liberdade é liberdade, nada disso é felicidade.
Depois saímos dali antegozando as férias que nos esperam, embarcando a sorrir no individualismo extremo dos tempos: uns em direcção à ilhas, outros rumo ao Périgord.
Depois vos digo se vi cachalotes e vacas a refrescar na praia. Até Setembro!
clara



PARTILHA 

Mindelo, Ilha de São Vicente, Novembro/Dezembro de 1999. Dia de descanso na praia, ao fim de um mês a fazer entrevistas e a recolher dados e demais informações para a tese de mestrado.

Estendi-me na areia para ganhar energias e nem me apercebi que ao meu lado estava um grupo de “meninos de rua” a desafiar-me para brincar, mergulhar, ou simplesmente para trocar um sorriso. Tinham entre os 4 e 8 anos, uma energia infinita, vestiam algo que servia de calções de banho e deitavam-se em cima de cartões de papelão com o triplo do seu tamanho. Sorri para eles mas não avancei mais, continuei a ler o meu livro, a organizar as minhas ideias, a mergulhar e a desfrutar a magnífica vista e silêncio.

As investidas continuaram, meteram conversa comigo, pediram a minha pulseira… dizendo que era só para dar uma voltinha! Aproximaram os seus cartões da minha toalha e ficámos ali um bom par de horas, partilhando o silêncio.

Queria dar-lhes alguma coisa que não a minha pulseira, algo que fizesse com que o dia deles fosse diferente! Contei o dinheiro na esperança de ter o suficiente para comprar gelados para todos eles. Bolas, não chegava!

Quando sai da praia passei pelo bar que se situava em frente, com a ideia de me sentar a beber e petiscar algo, embora não me sentisse muito confortável por o fazer. Deitei um último olhar em jeito de despedida e avancei. Sentei-me na minúscula esplanada, rodeada por um varão que impedia que os “meninos de rua” “incomodassem” quem ali se pudesse sentar.

Dois dos meninos de rua, cujo nome nunca soube, sentaram-se num murinho em frente, muito sossegados, com aquele sorriso genuíno de criança e uma expressão de quem tem todo o tempo do mundo.

Fiquei sem saber o que fazer, já tinha na minha mesa uma tosta mista e uma Coca-Cola e os gelados, a um preço exorbitante, encontravam-se ali na arca frigorífica mesmo ao meu lado. Mal, ou bem, pensei que não podia comprar gelados para aqueles dois, correndo o risco de no minuto imediato ter mais vinte à minha volta, e eu, eu, e eu??

Lembrei-me que tinha no meu saco de praia um pacote de bolachas, por abrir. Tirei-o, chamei-os e disse-lhes tomem é para vocês os dois. Foi o mais crescido que me estendeu a mão, esboçou um sorriso ainda maior e agradeceu, pegou na mão do amigo e voltaram a sentar-se no muro à minha frente. Por essa altura, já o restante grupo jogava futebol na praia com uma bola de cartão. Fiquei atenta para ver o que é que eles faziam com o pacote, cheguei a pensar que o iriam deixar ali, julgando que o que eles queriam era um rebuçado, ou os tais gelados.

Ficaram uns cinco minutos com o pacote na mão, até o decidirem abrir. Foi o mais crescido que mais uma vez tomou a iniciativa, abriu com muito cuidado a embalagem de cartão e posteriormente, ainda com mais cuidado, o invólucro de plástico. Tiraram as bolachas todas, colocaram-nas em cima do colo e uma a uma foram dividindo e guardando-as entre a embalagem de cartão e o plástico. No final cada um deles comeu duas bolachas, olharam mais uma vez para mim, voltaram a sorrir, guardaram as bolachas e juntaram-se aos outros “meninos de rua” a jogar futebol.

Afinal foram eles que fizeram com que o meu dia fosse diferente!

15.8.04

Uma voz por parte II 

O uso e origem da palavra Cantata

A palavra cantata é de origem italiana, algo para ser cantado. A palavra surge em 1620, no obra de Alexandro Grandi. Já desde 1600 várias trechos com melodias diferentes, cantadas a solo mas com o mesmo baixo, eram reunidas neste tipo de obra que ainda não tinha nome estabelecido.
As cantatas poderiam ser de igreja ou profanas, obras poéticas, mini óperas que não se representavam, ou que não se encenavam e teriam uma representação sumária. Obras simples, menos complexas e mais curtas que a oratória e a ópera mas com a mesma raiz monódica. Canto solo acompanhado.

Rapidamente a essência contrastante da acção versus emoção ou recitativo ária é transposta da ópera (Cavalli) e da oratória (Carissimi) para as cantatas destes autores. Muitos outros autores de cantatas brilharam como exemplo Marazzoli, activo em Roma de 1626 a 1662, deixava os seus auditores maravilhados, incluindo o Papa, com algumas das suas 380 cantatas. A geração de Alexandro Sacarlatti (pai de Domenico) vai usar a cantata de forma imparável que se torna definitivamente uma sucessão de recitativos e árias. Alexandro escreveu mais de seiscentas cantatas de Igreja e profanas das quais sobram hoje cerca de 350. É com os compositores do tempo de Sacarlatti que a ária "da capo", literalmente "volta à cabeça", se estabelece na cantata vinda da ópera barroca na qual Sacarlatti também foi mestre. Este tipo de ária tem uma estrutura A-B-A, digamos que terá um trecho musical na tónica A, depois uma secção contrastante B, mudando (ou não) de tonalidade, volta-se a cantar a parte A do início (volta à cabeça), desta feita com outro tipo de ornamentação, em geral mais elaborada.

Os franceses usaram também estilos parecidos, motetes e elevations no século XVII, du Mont, Charpentier, na música religiosa. As próprias leçons de ténèbres podem ser encaradas como uma espécie de cantata em tom sombrio e místico.
A cantata profana francesa data de 1700, era uma espécie de ópera em miniatura para os apreciadores de música poderem executar em casa, isto desde que tivessem um cravo em casa e meios para tocar ou pagar a alguns executantes.

Os efectivos necessários para a execução de qualquer uma destas obras eram em geral diminutos, algumas cordas, cravo no domínio profano, orgão na igreja e um ou dois cantores por obra, sempre a solo ou em duo. De vez em quando um instrumento a solo se por acaso existia disponível um flautista ou um oboista, o baixo contínuo podia ser enriquecido com alaúde ou fagote que tocariam pelas mesmas partes do violoncelo ou mesmo do cravo. Na música religiosa francesa os motetes de Lully ou Delalande exigiam maior instrumentação uma vez que Luís XIV tinha imponentes recursos à sua disposição.

Na Alemanha a cantata de igreja nunca teve esse nome até ao século XIX onde as muitas obras sacras foram designadas por cantatas retrospectivamente. Peça para igreja, sinfonia sacra, salmo, motetto, concerto espiritual eram nomes para obras do tipo cantata de igreja. O próprio Bach nunca chamou cantata a qualquer das suas obras de igreja! Punha apenas o nome do domingo ou da festividade no cabeçalho da partitura ou das partes, chamou outros nomes que não cantata a obras desse tipo como Actus Tragicus ou Oratória da Páscoa. Existiram dois tipos de cantata na Alemanha, as obras de Schütz, Schein, Scheidt, Buxtheude e muitos outros pertencem ao estilo de obra religiosa nativa da Alemanha (não é bem assim como veremos com Schütz) com contraponto, diálogos, ausência de recitativo seco, ou presença de recitativo contínuo com breves sinfonias ou intervenções do coro. As cantatas após 1700 pertencem a um novo estilo mais parecido com a cantata italiana em que a voz solo tem maior preponderância. A data de 1700 é importante, corresponde ao início da publicação da obra de Neumeister, poeta e teólogo, que escreveu sete ciclos de textos para cantatas. Cada ciclo composto de todos os domingos e festividades do ano litúrgico. Estes textos estavam preparados para utilização do recitativo ária. Todos os novos compositores alemães nascidos depois de 1680, Telemann à cabeça com mais de 1400 cantatas, começaram a adoptar os textos de Neumeister e nasceu uma obra muito parecida com a cantata italiana de igreja.


O Inefável Sampaio 

Ontem no meio dos jogos olímpicos as cassetes, a justiça, Sampaio disse algo do género à Antena 1:

"Estou preocupado com a justiça, ainda o ano passado fiz seis ou sete discursos sobre o assunto. Tirem as ilações"...

Américo Thomás não diria melhor.

14.8.04

Uma voz por parte 


Nos próximos posts comentarei o disco "Actus Tragicus" um disco de 2000 do Cantus Kölln com direcção de Konrad Junghänel com quatro cantatas de Bach. Um disco com prémio Télérama, Choc do Le Monde de la Musique e diapason d'or, mas com falta de alma em que raciocínios economicistas e de facilidade de ensaio acabam por falsear uma realidade histórica. Um disco em que se omitiram as partes de corneto e de trombone na cantata BWV 4 mas em que o coro se encontra reduzido a uma voz por parte. Sai mais barato não recorrer ao Concerto Palatino, usual parceiro de Konrad Junghänel, e não usar um coro maior.
Podem-se obter na mesma os prémios todos com uma mistificação.

Mas não vou levantar a ponta do véu. No próximo post uma breve descrição do que é uma cantata de Bach, de quantas escreveu, quantas se conhecem, quantas são mesmo de Bach. Porque razão Bach foi a terceira escolha para Leipzig e a falsa crença de que Bach é um compositor muito produtivo ao longo de toda a sua vida. A "depressão" de Bach aos cinquenta anos será também focada mais para a frente.
Finalmente estudaremos a cantata 4 e as diversas abordagens a esta obra. A cantata BWV 12, que surge no mesmo disco será também dissecada, uma das obras mais sublimes de Bach: "Weinen, Klagen, Sorgen, Zagen".
Finalmente uma breve crítica ao disco.

O Quotidiano do Blogue Crítico 

Estavamos na praia, e se fossemos ao cinema? Telefona-se à Clara que está a trabalhar em Lisboa e combina-se uma ida em grupo. A Clara diz logo que sim, que boa ideia, tenho de ver uns filmes, o do Rei Artur. Nem pensar em ver essa porcaria, olha que tal aquele sobre a Irlanda, parece que se chama "Intervalo" ou isso... A Clara acrescenta: tenho o guia do cinema aqui mesmo aberto e estou ver no King... Está bem marca. Mensagem no telemóvel tudo marcado apareçam no King às 10h. Intervalo. Dez da noite cinema depois de um café. Apresentações e surpresa, o filme aparece em russo! Olhamos uns para os outros, este é o filme? Não será mais uma apresentação? Aparecem letras no ecrã. Não, é mesmo o filme. Gargalhadas. Uns senhores russos provavelmente médicos que trabalham nas obras e que estavam à nossa frente voltam-se para trás com ar muito severo. Pedimos desculpa mas os ataques de riso não paravam. Por sorte o filme era bom, diria mesmo excelente, o "O Regresso" de Andrei Zvyagintsev. Excelente troca a da Clara, mas se fosse um filme de desenhos animados? Ou pornográfico? É assim a Clara. Um dia, depois de uma Ópera no S. Carlos, demos quatro voltas ao Chiado à procura do carro da Clara que ela não se lembrava onde o tinha deixado. Duas horas depois lá estava o carrinho da Clara perto do S. Carlos.

O Regresso
Com: Ivan Dobronravov, Konstantin Lavronenko, Vladimir Garin, 2003, Cores, 105 min.

13.8.04

Ofensas e polémicas e criancices 

Leio estarrecido em My Moleskine a prosa de um fulano, que não conheço:

De feito, pergunta me o Senhor DBH: “como será que chama ao fruto da oliveira?”. Pois cá venho dizer lho sem mais tardança: o fruto da oliveira chama-se oliva. E ensino-lhe mais: o fruto do sobreiro toma o nome correntio de bolota. Com esta informação o Senhor DBH já haverá de poder compor um almocinho variado, para desenjoar da palha.

Peço ao meu amigo Diogo Belford Henriques que não ligue, que não responda, que deixe o texto e o autor de semelhante arrozoado de má educação com as merecidas moscas. É o que merece, desprezo. É o texto de um puto mal educado à procura de atenção. Uma espécie de macaco jovem a provocar os mais velhos, é um costume simiesco, atiram escrementos e depois fugem. Nem percebem que não estamos num jardim zoológico.
Um rapaz que nem sequer entende que apenas merece comiseração e pena.
É que nem os sapatos de Diogo Belford Henriques merecem sujar-se com gente que escreve assim.

Centro Comercial da Mouraria 

Por alguma razão quando sou turista perco-me com mercados, cores e vozearia, agitação e cheiros, mas plantada em Lisboa, seca-me a imaginação e ainda não me tinha lembrado de explorar a India Town cá do sítio.
Entre carros de bebés redondos, mães com bebés ao colo de olhos em bico, indianas vestidas de sari, indianos jovens e de meia-idade que guardam as bancas e pesam a bolsa do cliente, mexo e remexo nos vestidos de algodão bordados a missangas “ made in India”. Leves, vaporosos, frescos, transparentes. São centenas, de todas as cores, verde claro e verde alface, rosa choque e rosa claro, roxo, ocre, turquesa, laranja. O maior problema é ter que me decidir. E ter que regatear, sem jeito, pechinchas que não pagam a matéria-prima e o transporte quanto mais a mão-de-obra. A felicidade do primeiro mundo feita à custa do terceiro.
Momento alto do dia: com tão pouco, o vestido de que não me vou conseguir separar nos próximos dias, sinto-me uma princesa das mil e uma noites.
clara

Bin Laden 

Anunciou que as tréguas acabaram.

1) É altura de se analisar o mercado bolsista mundial e descobrir quem andou a vender nos dias que antecederam este anúncio.
2) O preço alto do petróleo interessa ao mundo árabe na campanha contra o Ocidente.

Outra leitura possível e não incompatível com as anteriores: Bin Laden está a colaborar com a campanha de Bush.

Isto pode ter duas razões:
a) Interesse directo. Bush apoia a política altamente ambígua da Arábia Saudita.
b) Interesse indirecto, a administração Bush é tão incompetente que é preferível combater Bush do que qualquer outro. Basta ver o palco perfeito para a acção dos grupos apoiado por Bin Laden no Iraque, isto no plano ideológico e no plano da acção de guerra.


12.8.04

Défice pode acelerar crescimento 

A Irlanda em 1987 tinha uma dívida pública de 125% do PIB, em 1997 estava em 66% do PIB, sempre com défice, sempre a cortar nos impostos, a aposta foi toda no crescimento económico. Hoje tem dívida pública entre 32% e 34% do PIB segundo as diversas estimativas.

A despesa corrente era de 47% do PIB em 1981, em 1997 passou a ser de 36,5%, diminuiu o peso do Estado na economia, mas o Estado nunca deixou de crescer em termos absolutos.
A receita era de 42,7% do PIB em 1981, sobe para 49,6% em 1983. O Estado Irlandês decide assumir o risco de manter um défice elevadíssimo de 1984 a 1987 para poder baixar os impostos e não deixar crescer a despesa mais do que a inflação (ou pouco acima), por consequência a dívida pública sobe a uns astronómicos 125% do PIB em 1987, ano de viragem em que sucessivos défices elevadíssismo (7% nas correntes 12% no total) começam a ser reduzídos mercê do crescimento que anos de descida de impostos estimulou. Repare-se que de 1984 para 1985 a carga fiscal era reduzida em 3.1% valor astronómico se pensarmos nos montantes da dívida pública da Irlanda e do défice de então. Em 1985 pela primeira vez na história irlandesa as exportações superaram claramente as importações e nunca mais deixou de ser assim. O desemprego desce dos 16% de 1988 para os 4,4% de hoje.

A redução da dívida pública irlandesa não gerou nenhuma crise de excesso de dinheiro em circulação, nos anos de maior crescimento dos anos oitenta a inflação foi baixa, desceu-se dos 20,4% de 1981 para os 1.5% de 1997, primeiro ano de superavit. Hoje em dia a inflação irlandesa está pelos 4.4% valor elevado gerado pela aceleração do consumo e pela redução do desemprego. Prefiro inflação ao desemprego, pelo que sou completamente anti-liberal nesta questão. O desemprego foi reduzido de ano para ano com dezenas de milhares de empregos criados todos os anos. O crescimento andou pelos 4.4 4.5 6.2 7.1 nos anos antes de 1990. Atingiu o valor galáctico de 11.3 e 10.1 em 2000 e 2001 quando se colheram os frutos máximos em termos de uma política de défice sustentado e usado para conseguir uma baixa de impostos muito sensível. Outro factor de grande efeito nesta política foi a qualidade dos serviços do Estado que subiu, bem como a simplificação administrativa que reduziu custos ao Estado e facilitou o desenvolvimento das empresas. Visitei a Irlanda em 1993 e o país respirava confiança no seu crescimento, hoje respira orgulho.

A partir do ponto de viragem de 1987 em que a dívida pública irlandesa atingiu o recorde absoluto face ao PIB, continuaram anos de défice das despesas correntes e baixas de impostos até o ano citado 1997 em que as despesas deixaram de superar as receitas. Os impostos nunca deixaram de baixar em valor percentual face ao PIB. A receita do Estado irlandês é hoje de uns escassos 37.5% do PIB.

Houve défice, houve crescimento da dívida pública, o Estado emagreceu, os impostos baixaram, a dívida foi controlada, o país cresceu, as gerações futuras terão um país melhor.

O erro não é ter défice, o erro é ter desperdício nas despesas correntes.

E assim se desmontou argumentação errada de João Miranda, que se remeteu a um silêncio total sobre este assunto uma vez que a discussão ficou arrumada com a parte teórica dos posts anteriores e o caso prático da Irlanda, sem palavras não é amigo Miranda?

Sobre o JCD eu já tinha percebido a falta de paciência para defender uma posição em que se percebe muito depressa que não se tinha razão, realmente é ingrato defender o indefensável. Eu também não teria paciência para defender um dogma de vontade contra a evidência da realidade.

Tal como nesta questão os liberais em geral usam ideias aristotélicas, dogmas, posições políticas mascaradas de argumentos económicos e convicções e opiniões a que chamam ciência. Lemos isso no Blasfémias, também observamos este tipo de pseudo argumentação na A Causa Liberal. Mas errare humanun est.

Henrique Silveira

Místicas 

”Mas, ó tu, terra de Glória,
Se eu nunca vi tua essência,
Como me lembras na ausência?
Não me lembras na memória,
Senão na reminiscência...”

Camões


"Use siempre hacer muchos actos de amor, porque encienden y enternecen el alma"

“Muero porque no muero
Vivo sin vivir en mí
Y tan alta vida espero
Que muero porque no muero
....
Ay, que larga es esta vida
Qué duros estos destierros
Esta cárcel y estos hierros
En que el alma esta metida!
Sólo esperar la salida
Me causa dolor tan fiero
Que muero porque no muero.
...
Mira que el amor es fuerte;
Vida, no me seas molesta,
Mira que sólo te resta,
Para ganarte, perderte;
Venga ya la dulce muerte,
Venga el morir muy ligero,
Que muero porque no muero”

Santa Teresa de Ávila

Não é por acaso que a mística é sobretudo feminina, que foram mulheres os maiores místicos da história, contestando a ordem estabelecida, a autoridade exterior e a mediação que a Igreja se propunha ser entre o mundo e Deus e inaugurando um canal pessoal e privado de acesso a Deus.
Não falo de uma questão estatística, porque aí serão os homens a vencer, mas se há sector em que se conseguiu maior equilíbrio, maior participação feminina ao longo da história, foi na mística.
Foram três as mulheres que a Igreja reconheceu doutoras: Santa Teresa de Ávila, Santa Teresa do Menino Jesus e Santa Catarina de Sienna, cuja falta de medo e franqueza a levaram a censurar Papas, cardeais, reis e rainhas. E com acesso ao Papa conseguiu que o mesmo regressasse a Roma depois do grande cisma do Ocidente do século XIV.
clara



John Kenneth Galbraith e o Défice 

Um dos maiores economistas de todos os tempos, John Kenneth Galbraith, professor emérito de Harvard, sobre o défice orçamental em 1995:

"O défice orçamental agora está a ser utilizado, como foi assinalado, como um instrumento contra a política pública socialmente necessária, que dessa maneira encontra resistência política. Contra o âmbito mais lato da acção social do Estado está o argumento de que esta faria crescer o défice e a carga fiscal sobre os nossos netos. Isto, será evidente, é uma parvoíce arbitrária e está ao serviço de determinados interesses. Visto propriamente, o défice pode ser um ponto de apoio e de benefício para as gerações futuras: um aumento do bem estar geral e da capacidade de pagamento. Assim acontceu no passado, e o mesmo vai passar-se no futuro."

In "The Good Society"

Exactamente como as minhas contas, não são novidade nenhuma, provam.

11.8.04

A consolação dos aflitos 

Leio na revista do El Pais, numa entrevista de Rosa Montero a Martin Amis que a felicidade permanente seria um estado insuportável, causa mesmo para deserção dos anjos do paraíso:” La felicidad .. es um estado paranoico, porque quando las cosas vienem mal, bajas la cabeça y luchas contra ellas, pero si las cosas te van bien, estás constantemente pensando que un aeroplano va a caer sobre ti. Estás constantemente convocando el desastre”..
E, ainda, a bater na mesma tecla:“ Las personas que ganan la lotería están tiradas tres meses después en sus mansiones atiborradas de tranquilizantes: “ Y ahora qué hago?”, “ Para qué?”
Acabo a entrevista consolada por nunca ter ganho uma lotaria, ou os significados que lhe associem.
clara

O Virus do Nilo 

Tens razão caro JCD, realmente só quem apanhou virus do Nilo é que pode ser liberal puro e duro.
Eu sempre te disse que tinha costela liberal, prudente e humanista. O Estado não deve ser agente activo da economia, deve ser regulador. O que nunca escrevi era que devia sair da saúde, educação (com investigação científica) e segurança social. Os impostos devem servir para pagar isso, a ópera e, já agora, Belgais...
Febre, mas não muita.

O défice não acarreta aumento de impostos no futuro 

O défice pode não acarretar aumento de impostos no futuro. Crescimento 1,5%. Inflacção 2,5%. Taxa de juro 3,5%. Défice inicial 0.5% do PIB. Dívida pública acumulada no início 55% do PIB + défice. Crescimento das despesas correntes do estado 3,75%, ou seja bem acima da inflação. Estado cresce menos que a economia + inflação. Como matemático, não como economista, interessa-me o montante global dos passivos do estado, ou seja défice mais dívida.



Repare-se que a dívida face ao PIB não cresce. O esforço das gerações futuras, em termos de impostos, para pagar a mesma dívida será o mesmo que hoje. Quando a carga fiscal diminuir, o que se consegue com uma aceleração maior do crescimento e se atingir uma situação fiscal não asfixiante, sobra espaço para se retirarem dinheiros das despesas correntes para amortizar a dívida pública.


O factor determinante em todo este raciocínio, é a diferença de crescimento da economia e o factor de crescimento do estado. Esta margem tem de ser melhorada no futuro. O défice é utilizado para acelerar a economia através da baixa de impostos. Baixar os impostos é a melhor forma da economia crescer depressa, veja-se a Irlanda. No exemplo acima a carga Fiscal desceu 1% em 10 anos.
Este método de acelerar a economia é eficaz? Mais eficaz que défice zero? Repare-se que o crescimento mais inflação ficou sempre em 4. Num caso real eu espero um aumento do crescimento equivalente a metade da carga fiscal eliminada o que aceleraria tremendamente o fenómeno, como se vê na tabela seguinte.

Provem-me que com défice zero a economia cresce mais e eu aceito. Mas o facto básico: Défice acarreta aumento de impostos é falso. Depende dos pressupostos. São os tais simplismos em que quem pensa sobre os assuntos duvida. E a matemática é realmente a única forma de se verificar se os raciocínios são ou não correctos. É a ferramenta da ciência, quem o nega não conseguiu passar do aristotelismo.


10.8.04

Stepford husbands 

Quais Stepford wives! O mais interessante do filme, o seu happy end é, afinal, quando se vira o feitiço contra o feiticeiro e se torna real a utopia, o sonho de qualquer mulher: homens com carrinho do supermercado carregados de compras e o mais que se possa imaginar. Moral da história: sem chips nem chibatas as tréguas não existem.

clara


Jaquinzinhos e o défice 

Peço a Jaquinzinhos que refaça as contas das tabelas apresentadas com o crescimento de 3.5% para uma taxa de inflação de 2%. Ou 3% para uma inflacção de 1.5%. (Já o fiz e apresento uma tabela em que mostro que os impostos podem descer se a despesa pública crescer menos que a soma da inflação com o crescimento).

Eu não acredito que a despesa do Estado tenha de crescer, em valores actuais, de forma igual ao crescimento real do país. Essa é uma crença profunda, no futuro do meu país, taxar os cidadãos de um país a mais de cinquenta por cento da sua riqueza produzida é um abuso do Estado. Esse abuso terá de ser corrigido com o crescimento económico e com a redução do OE face ao PIB.

Acredito que a despesa do Estado suba de acordo com a inflacção mas descendo o seu peso sobre o PIB, o que Jaquinzinhos apresenta na sua última tabela, aquilo em que ele não acredita que seja possível..

Acrescento ainda um argumento de peso, como grande parte do Orçamento de Estado português é serviço de dívida, com a redução dos défices para valores inferiores ao crescimento estão-se a pagar aos bancos dívidas contraídas anteriormente e a desonerar os orçamentos seguintes reduzindo enormemente a despesa futura. Factor que JCD despreza totalmente nas suas contas e que constitui o seu maior erro. Peço desculoa pela expressão "erro" mas parece-me que as tabelas não incluindo esses serviços de dívida acabam por não corresponder a qualquer modelo exacto do fenómeno.

Ver a tabela

Crescimento de 3,25% nas despesas públicas anuais. Inflacção do país 2%. Despesa do Estado a crescer mais que a inflação. Crescimento global, com inflação, 3,5%. Assume-se que existe dívida pública anterior, muito baixa, de 0,5 do PIB e que é paga no ano zero. É incorporada na despesa global do Estado, todos os anos, a dívida do ano anterior. Juros de 6 por cento pagos à banca. Valores realistas.
Podem-se reduzir as cargas fiscais no longo prazo, com défice. Atenção que os impostos só crescem se a despesa crescer estritamente mais que o efeito somado da inflação e do crescimento da economia.

E se o Jaquinzinhos quiser terei todo o prazer numa almoçarada para se falar de outros assuntos, de preferência com alguns outros bloguistas de Agosto. Fica o convite. E fica prometido que deixo de tratar o Jaquinzinhos por pequeno-burguês suburbano neste blogue.

P.S. Acrescentado posteriormente. Já li a nova tentativa de JCD de tentar provar que défice implica impostos a subir no post. Existem duas formas de lidar com a dívida pública, a) assumir essa dívida sem orçamentar a sua amortização em anos posteriores. b) Orçamentar o serviço e amortizações da dívida em orçamentos seguintes, o que levará a défices maiores nos anos seguintes.

Um dilema. Felizmente o pacto de estabilidade fixa limites a ambos os valores, 2% para o défice e 60% (ambos sobre o PIB) para a dívida pública. O cobertor sendo curto só tapa um dos lados. Portugal está demasiado perto do limite em ambos os casos.

Na hipótese a) cada défice do ano entraria num poço sem fundo e tentar-se-ia pagar a dívida com o resultado de receitas não orçamentadas ou com o recurso a novas emissões obrigacionistas ou ainda, como tem sido feito pelos nossos governos, privatizando empresas e destinando 40% das receitas dessas privatizações (valor consagrado na Lei) para amortizar a dívida pública.
Parece uma catástrofe financeira em cascata manter uma dívida pública elevada, e é mesmo.
Em Portugal a dívida pública tem sido mantida abaixo dos 60% do PIB, pouco abaixo diga-se, devido a privatizações sucessivas e vendas de bens cujos resultados também entram no OE (60% do valor apurado) para tentar salvar a situação do défice. Mais uma vez o que salva um pouco a situação global é o crescimento económico que, fazendo subir o PIB, faz subir o tecto absoluto da dívida.
Creio que o governo PS tentou o expediente de passar parte do défice para a dívida pública, então a cerca de 55% do PIB, para escapar a sanções da UE. Contabilidade habilidosa.

Pagar os juros e amortizações da dívida pública, incluindo estes valores nos orçamentos subsequentes, e tentando equilibrá-los o melhor possível é, para mim, a forma mais segura de lidar com o problema. Muitos governos fazem-no e o nosso não é excepção. Como é possível fazer isso? Simples, o crescimento económico mais uma vez. Se o crescimento mais a inflacção superarem os juros será bom negócio para o Estado posterrogar os pagamentos das amortizações da dívida para anos seguintes.
Devo acrescentar que o juro pago pelo estado anda pelos 3,5% ao ano, como a inflação mais o crescimento superam, quase sempre, este número é possível sustentar este tipo de política.
O que é certo é que quando a dívida pública atingir o patamar dos 60% do PIB acaba a almofada de absorção. O Estado terá mesmo de transferir verbas do orçamento para reduzir a tal dívida se esta crescer mais do que o PIB. E num aspecto JCD tem razão, só é possível amortizar a dívida pública (de forma absoluta) se as receitas do orçamento superarem as despesas correntes.
Estamos num reino de definições. Eu incluo amortizações, pelo menos algumas, de défices anteriores na despesa do OE seguinte. Se não for hoje será no momento em que a dívida atingir o tecto de 60% do PIB.

Um choque fiscal? Mas um choque fiscal obriga a um défice superior, mais uma vez um cobertor curto. A solução passa por descer impostos gradualmente mantendo défices baixos, mas positivos, senão vamos esperar eternamente sentados à espera da mulher da fava rica e da tal baixa de impostos que nunca virá.

Que mais fazer? A resposta a Jaquinzinhos é simples: vender todas as empresas públicas, CGD incluída. Vender a RTP e as Rádios Públicas. Vender as águas, vender a TAP. Vender terrenos do Estado. Vender imóveis não necessários. Vender o ouro. Tentar vender a ilha da Madeira se possível! Apostar numa fiscalização rigorosa do tecido económico. Gastar mais dinheiro na fiscalização da fraude fiscal. Gastar dinheiro na simplificação administrativa e na redução da burocracia. Reduzir a dívida pública com as receitas extraordinárias e baixar os impostos consequentemente. Esperar crescimento com atracção de capitais estrangeiros. Despedir funcionários públicos para um nível que assegure eficiência à medida que o crescimento absorva o pessoal despedido. Diminuir o peso do Estado como agente económico directo. Mas começar sempre por aliviar a carga fiscal sobre a economia.

Depois de reduzir a dívida e os juros associados manter a aposta na conservação do património, gastar o dinheiro dos impostos não a servir dívidas estruturais, mas na investigação. Gastar dinheiro em projectos de cooperação entre universidades e empresas. Apostar na inovação e em actividades de elevadíssima produtividade e de valor acrescentado elevado. Crescimento baseado na mão-de-obra infantil já passou à história. Tecidos e calçado são produzidos na Índia e na China a uma fracção do que custa aqui. Apostar no meio ambiente de forma a tornar o país interessante para turismo de alta qualidade e para os que cá vivem. Finalmente apostar na cultura, pois um país sem elites não pode crescer. Sim gastar dinheiro na Ópera e em Belgais é essencial à identidade nacional, ao prestígio de Portugal, ao orgulho dos seus habitantes. É dinheiro bem gasto. Dá capital humano. E ninguém substitui o Estado nessas funções. Enfim, olhar para a Irlanda, a Áustria... Nunca esquecer a solidariedade, os impostos são a forma de corrigir desequilíbrios sociais. Todos os seres humanos têm direito à dignidade. A única dignidade que o liberalismo económico, puro e duro, concede às pessoas de fracos recursos e excluídas socialmente é a possibilidade de morrerem na sarjeta, sejam novos ou velhos, doentes ou saudáveis, trabalhadores ou preguiçosos.

Finalmente mostro a tabela em que se vê uma redução drástica da carga fiscal, com inflacção mais crescimento em 4% e sem aumento de impostos para as gerações futuras! Aproveitei as objecções de JCD neste post e agradeço a sugestão de separar os défices, assim mostra-se muito mais claramente o ponto da minha argumentação. Baixei os impostos suportando défices (à la Jaquinzinhos) durante os ciclos de abaixamento dos impostos. Creio que o crescimento teria disparado com este modelo. A carga fiscal teria sido reduzida em 3% ao fim de dez anos. Chamei défice à la crítico a toda a dívida acumulada do Estado somando-lhe sempre para o ano seguinte o novo défice corrente, tudo acrescido dos juros devidos a cada ano, é um valor agregado. Sobe sempre em valor absoluto como JCD dizia, mas mantém o seu rácio com o PIB constante. Como a dívida pública face ao PIB fica constante o esforço que as gerações futuras terão para a pagar é igual ao actual. Consequência final: baixei os impostos no presente e a dívida não vai exigir maior carga fiscal no futuro do que exigiria hoje, QED.

Como expliquei a João Miranda anteriormente, prefiro tirar carga fiscal às empresas assumindo o Estado um défice, do que deixar as mesmas empresas recorrer à banca onde o dinheiro é mais caro. É uma opção estratégica.

O que é certo é que défice hoje não acarreta aumento da carga fiscal no futuro. Posso antecipar queda nas receitas fiscais para acelerar a economia sem hipotecar o futuro. Nota final na polémica: o senso comum é enganador em ciência. Apenas o recurso às equações pode responder a questões da ciência. A economia não é uma questão de opinião.

Algumas respostas 

Resposta a algumas perguntas de João Miranda, como Miranda me fala directamente, assumo o discurso na primeira pessoas respondendo directamente ao meu segundo liberal preferido.

1 - Razão teórica: Os bancos fazem o seu negócio, sem risco, o Estado paga à banca. Com uma redução dos impostos as empresas reduzem a sua necessidade de recorrer à banca numa razão exactamente igual à baixa dos impostos devida a um défice ligeiramente positivo. Outras razões práticas a somar à anterior: Os bancos nunca subirão os juros, uma vez que o Estado se financiou junto da mesma anteriormente, já tem dinheiro empatado no Estado se, de repente, o Estado deixa de se financiar pagando o que deve, a banca terá de procurar negócios de maior risco. A subida dos juros não será problema. O que poderia acontecer seria uma descida dos juros se o Estado deixasse de se financiar. Mas a maior razão é esta: os juros são fixados externamente e uma pequena economia como a nossa nunca poderá sonhar que um pequeno défice possa contribuir para um aumento europeu ou mundial das taxas ou, pelo contrário, para uma diminuição dos mesmos, no caso de deixar de se financiar.

2 - Se for contraído junto de particulares, com taxas de juro apetitosas para os mesmos, estes deixam de consumir e emprestam ao Estado acabando por poupar. É apenas uma questão política, tal como a escolha dos impostos a baixar. O Estado pode sempre financiar-se junto da banca. Já expliquei que consumo excessivo sem capacidade produtiva pode levar a um aumento excessivo das importações.

3- No meu primeiro ano como ministro das finanças tenho uma estimativa da despesa, posso já a ter reduzido relativamente ao ano anterior, apenas arrisco declaradamente ter um défice apostando numa baixa de impostos. Se cobro menos impostos e gasto o mesmo fico a dever mas as empresas com mais dinheiro para investir. É muito mais fácil e directo as empresas terem acesso a esta baixa de impostos do que recorrerem ao crédito com juros mais elevados do que o Estado.

4- O João Miranda nesta pergunta lança a questão mais delicada, a do equilíbrio entre os benefícios entre o dinheiro que se retira da economia e o que se injecta através da baixa de impostos. É o que deixa confuso quase toda a gente que ainda não atingiu o âmago da questão: o aspecto dinâmico e temporal do sistema, nada pode ser visto estaticamente. O défices anteriores não são zero, nunca afirmei isso, afirmei que no meu primeiro ano como ministro das finanças tinha duas hipóteses, deixar o orçamento equilibrado ou reduzir impostos assumindo um défice. A banca tem sempre capital emprestado aos Estados, se reduzir o endividamento do Estado estou a injectar dinheiro na economia através da banca, claro que sim Miranda. Mas dinheiro muito mais caro para as empresas do que através da baixa de impostos, dinheiro que provavelmente a banca investirá em mercados externos e em especulações internacionais no mercado global e não no interno. Eu, como Estado, sou indiferente ao lucro dos accionistas do banco, a maior parte deles estrangeiros, eu quero o crescimento e o bem estar do meu país, por isso prefiro baixar os impostos aos meus concidadãos. A somar a isto o negócio bancário terá mais risco, o Estado paga melhor que as empresas, mais dinheiro significaria juros mais baixos em teoria. Mas mais risco significa juros mais elevados na prática. Por outro lado um país em crescimento, pequeno, numa zona em que os juros são fixados externamente e muitas vezes por factores psicológicos não se pode dar ao luxo de fingir que consegue fazer baixar as taxas de juro reduzindo marginalmente o seu endividamento em algumas centenas de milhões de euros. Que mecanismo lhe sobra para estimular a economia? Injectar dinheiro barato para as empresas nessa mesma economia. Como mostrei com uma simples equação de merceeiro o crescimento paga mais ao Estado do que o juro contraído à banca. Eu arrisco no crescimento com baixa de impostos e com défice pequeno.

5 - O dinheiro pedido à banca é pago com o crescimento que eu estimulei. É aquilo que se chama investimento, peço dinheiro à banca e realizo mais dinheiro do que os juros pedidos. E o que é interessante é que esse dinheiro corresponde a riqueza gerada. Mais do que seria gerada com recurso ao juro bancário directo sempre mais caro para empresas do que para o Estado.

5 - Questão cinco dupla! Falei sempre em valores actuais, pode-se incluir um factor corrector da inflação. Mas acrescento que nunca pagarei aos funcionários públicos mais do que o crescimento real da economia se este for abaixo da inflação, a menos que queira apostar em sectores estratégicos muito limitados, como o ensino universitário. Mais, tentarei reduzir a despesa para continuar a tentar reduzir impostos. A melhor forma será privatizar serviços ineficazes do Estado transferindo os funcionários públicos para as empresas. Como lhe tenho dito acho as ideias liberais muito boas desde que aplicadas com humanismo.

6 - A resposta a 6 vem na pergunta 7 de João Miranda, o ouro é encarado como bem equivalente, ou até mais seguro, que o papel moeda. O que eu afirmei é que é quase impossível retirar dinheiro às empresas e às pessoas, acrescente "sem dar nada em troca". Mas se o Estado quiser pode retirar papel moeda de circulação trocando-o por ouro ou outra coisa qualquer. Pode depois queimar o dinheiro. Pode haver deflação, pode-se proibir até o papel moeda e passamos a usar conchas ou posts em blogs. Claro que Bush pode também mandar umas bombas H para cima de cidades americanas, ou qualquer outra coisa absurda. Pode haver uma destruição cósmica. Mas caro Miranda, deixemos os sofismas e falemos de forma séria.

O importante não é o dinheiro ser sempre o mesmo, o que seria verdade num instante de tempo muito curto, o importante é a riqueza poder aumentar no tempo.

E gostei das suas perguntas.

Henrique Silveira


Factos básicos ou como a bola não é quadrada 


Jaquinzinhos diz-nos que sem défice zero aumentam os impostos. Provo de seguida que é uma afirmação falsa.

Recupero a equação de sustentação do défice:

(1+j)*d = y2(1+c)-y1

Cuja explicação vem no post lincado.
Imagine-se que sou o ministro das finanças, estimo que com os impostos (y1) a 51% do PIB, valor realista em Portugal, tenho o orçamento equilibrado. A taxa que contratei com a banca, em caso de existir défice, é de 4%, com período de carência de um ano. Espero um crescimento de 1.5%. O primeiro ministro prometeu baixar impostos. O que fazer?

a) Assumir uma baixa de 0.5% (relativamente ao PIB) dos impostos, o que corresponde a baixar os impostos cerca de 1% e o primeiro ministro ficar como homem de palavra, mesmo que isso me custe desiquilibrar o OE.

b) Agir como o liberal casmurro, Jaquinzinhos, que tem o dogma que o orçamento tem de ter défice zero.

Se eu baixar os impostos acelero a economia e ajudo a banca nacional. Se não baixar os impostos fica tudo na mesma. Como sou competente faço contas, se os impostos baixam 0.5% a receita passa a ser 50.5% do PIB e não de 51%, o défice passa a ser 0.5% do PIB em vez de zero. Será que com o crescimento de 1.5% consigo baixar os meus impostos e equilibrar o orçamento no ano seguinte, podendo até voltar a baixar os impostos nesse ano?

1.04*0.005=y2(1.015)-0.505

Consigo y2=50.26%, ou seja baixei os impostos no primeiro ano, e consigo baixá-los de novo no segundo ano. O crescimento económico tapa completamente o défice do ano anterior e ainda deixa margem para pagar juros e capital em dívida e para baixar os impostos no ano seguinte. Se o ministro das finanças voltar a aceitar um défice no ano seguinte o processo repete-se. Claro que baixando os impostos o estado está a acelerar a eeconomia e a motivar o crescimento. É aprender com a Irlanda que nunca teve orçamentos equilibrados enquanto cresceu de forma espantosa.

Como se prova que observações dogmáticas são erradas e não são nada factos básicos.
Com crescimentos maiores podemos ter défices muito maiores. Claro que nem o défice proposto por José Sócrates (3%) é sustentável, devido ao pequeno crescimento da nossa economia, nem o défice zero é aceitável.
Défice zero significa impostos altos. A baixa dos impostos passa sempre por aceitar défices para que o choque fiscal estimule o crescimento. Tem de se ter muito cuidado com os impostos a baixar. Eu preferiria baixar IRC e mantendo o IVA e o IRS altos, numa primeira fase. O consumo exagerado numa economia aberta sem capacidade produtiva leva a importações, o incentivo ao investimento numa economia aberta leva a maior competitividade no mercado interno e externo. Não é por acaso que o IVA de 19% existe há muitos anos na Irlanda a par de IRC (equivalente) baixo.

Se diminuir a despesa corrente então será mesmo ouro sobre azul. É aí que o meu lado liberal entra. Penso que o Estado deve sair da economia, mantendo apenas a saúde, a educação e a segurança social e um papel regulador e fiscalizador forte. O Estado não deve ter bancos comerciais, empresas de energia, telecomunicações, rádios, televisões, companhias aérias, etc, etc, etc.


8.8.04

cada vez menos 

Cada vez menos estradas. Carros. Casas. Pessoas e lugares. Informação, relógios, corridas, barulho.
Nessidades, as básicas. Quase nada no corpo. Nem frio nem calor. E uma varanda sobre este lugar: a serra. Por cima azul e silêncio quebrado de manhã pelo galo. À tarde, por cigarras. À noite, por grilos ou cães. Às vezes, no silêncio, uma motoreta. Ruas quase vazias para ir e vir do café, a pé pelo meio da estrada. Fecharem-se os olhos, a ver as luzes espalhadas pela serra. Fecharem-se os olhos, a ver a serra envolta em nevoeiro e pingos de chuva de verão a ressaltar na varanda. Nada que realmente chame. Só estar só sem o estar. Ficar.


clara

Um "tal Rui A" 

Nunca foi minha intenção ofender com a designação "um tal Rui A" um Rui A, que assim assina e que não conheço de outro lugar ou de outro apelido e que não posso designar de outra forma. O "tal" deve-se precisamente ao desconhecimento que tenho de sua excelsa e muito auto-estimada pessoa e ao apelido A, que creio ser uma abreviatura. Devem existir muitos "AA" e assim surge "o tal Rui A" o "tal" que escreve no Blasfémias. Precisamente aquele e não outro dos múltiplos "AA" que povoam o mundo. O "tal" como designativo que pretende precisar o desconhecimento do apelido "A", nunca por familiaridade trataria alguém por "tal". Aliás nunca tratei qualquer ente próximo por "tal", coisa que o Rui A do Blasfémias acha que é o aconselhado.
Se Rui A se ofende com a designação "tal" creio que é demasiado susceptível e que o que lhe desagradou foi ver a sua opinião, e enfatizo a palavra, "opinião" contrariada de forma crítica por alguém que se assume claramente do mesmo espectro político mas não liberal.
Mas não discuto, sou magnânimo, se não gosta do "tal" eu retiro o mesmo e peço-lhe desculpas públicas.

Com respeito à crítica a escritos públicos não lhe posso fazer a mesma promessa. Panfletarismos públicos sujeitam-se a críticas públicas senão passariam por verdades insofismáveis. E peço-lhe que perceba, sem se exaltar, que a crítica se faz aos textos e não às pessoas. Mesmo quando se fala de arruaça, de alarvidade, de taberna, estamos a falar de conceitos com identificação sociológica e não das pessoas.

Quem escreve publicamente sujeita-se ao escrutínio público eu mas também os outros, nada do que escrevi foi ofensivo ou desagradável para Rui A como pessoa que não conheço e creio ser estimável e cordato. Disse no meu post que o poeta Pessoa era grande poeta mas que também escreveu imbecilidades, nomeadamente em termos políticos e sociais. Como qualquer um de nós já disse disparates quando falamos do que não sabemos, como o Rui A do Blasfémias certamente disse, errare humanun est! Afirmei ainda, metaforicamente, que apesar de Pessoa ser um génio poético o que ele escreve sobre outros assuntos não pode ser visto como um texto sagrado.

Apesar do que diz João Miranda, o liberal à portuguesa não é um descendente dos burgueses ingleses e, por mim, continuo a preferir os tories.

Os melhores cumprimentos

Henrique Silveira

Contas fáceis 

Desapareceu a primeira metade deste post por algum problema que não entendi! (Descobri entretanto o motivo, o sinal de menor confunde-se com um código html e trunca o texto, não posso usar o tal sinal mas entretanto o post ficou reduzido ao texto final) Como não estou com paciência para o repor, recordo apenas a equação de sustentabilidade do défice e explico-a:

(1+j)*d menor que y2(1+c)-y1

Em que no primeiro membro temos o serviço da dívida do défice do ano anterior, ano 1, em que j é a taxa de juro que o estado contrata para ter um défice positivo e no segundo membro temos a diferença de taxas de apropriação do estado face à riqueza gerada entre o ano 1 e o ano 2, ou seja o aumento da receita do estado devido ao crescimento do PIB; y1 e y2 representam basicamente os impostos (e outras receitas) face ao PIB e c é a taxa de crescimento do PIB.

Na pior das hipóteses o crescimento compensa o serviço da dívida e temos a equação

(1+j)*d = y2(1+c)-y1

É um balanço delicado, taxas de juro altas e/ou défice alto implicam que o défice só pode ser sustentado por impostos altos ou por grande aceleração do crescimento. Um défice de 1.5% com taxas de juros de 4.5% só poderá ser sustentado com um crescimento ligeiramente superior a 3%. Claro que o défice alto estimula a economia e, se os empréstimos forem contraídos no próprio país, dá lucro à banca e incentiva a poupança se o empréstimo for contraído junto de particulares. Mas num país da zona Euro com crescimentos pouco maiores que 1% teremos muita dificuldade em ter défices sustentados mesmo com taxas de juro muito baixas. Nesse caso creio que um défice de 1% deverá ser o máximo dos máximos de forma a poder sonhar com baixas de impostos, ou seja com a baixa de y2.

Continua o resto do post original ...

Se acreditarmos no engenheiro Sócrates: "com valores de défice de 3% temos défice sustentado", como diria Guterres "é fazer a conta":

1.045*0.03 = 0.5 (1 + c) - 0.5

Supondo a taxa de 0.5 do PIB como receita do OE o crescimento teria de ser 6,27% o que me parece impossível. Com crescimento de 3.5%, o que já é muito optimista, teríamos um défice sustentado apenas se os impostos subissem. Vejamos quanto:

1.045*0.03 = y2 (1.035) - 0.5

y2 = 0.5134

Aumento de impostos em cerca de 2,7%. O que é um montante gigantesco para a economia e que levaria à estagnação do país e não ao crescimento. Não, no engenheiro Sócrates não voto para primeiro ministro.
Mas se o crescimento fosse apenas de 1 a 2 por cento? Tem sido menos em Portugal nestes anos de recessão. Faça o leitor a conta mas o aumento dos impostos, anual note-se, seria de mais de cinco por cento ao ano para evitar um o descalabro total das contas públicas. A asfixia total da economia pelo Estado. Afinal o que PS nos deu nos dois últimos anos do mandato de Guterres, outro engenheiro.

Nem exagero de défice zero, nem défice elevado. Onde está a virtude? Nos dois por cento, máximo, do Pacto de Estabilidade e Crescimento. Crescimento e redução ligeira de impostos, o que se quer mais? Intervenção do estado a diminuir na economia de forma gradual mas com segurança social, educação, saúde, segurança, justiça, negócios estrangeiros, representação do país, defesa, regulação e fiscalização dos agentes económicos nas mãos de todos nós, ou seja nas mãos do Estado. Como na Suécia por exemplo.

As insónias do João Miranda 

Leio um post das 4:06 da manhã de João Miranda. Volto a ver piadolas de mau gosto misturadas com alguns argumentos e muita ignorância.

Factos globais que se aplicam à terra, são observações.

O ser humano apropria-se da energia que a terra recebe para a transformar em riqueza. Transforma matérias primas em riqueza. Também aprende e inova. Recebe energia de boa qualidade? Sim, claro, já o tinha dito antes. Dissipa energia de má qualidade. O balanço chama-se nega-entropia, ou informação, ou riqueza que é a mesma coisa. A terra perde energia, perde matérias primas, fica mais pobre, claro que sim. O homem apropria-se e dissipa, mas guarda algo para si e chama a esse algo riqueza. A terra não é um sistema fechado em termos económicos. Nem em termos físicos. Nunca falei da Terra como sistema que recebe mais energia do que emite, a minha formação básica em física, que um doutoramento em matemática não fez esquecer, impedir-me-ia de dizer uma asneira dessas, o que disse, e que explico melhor é: o ser humano apropria-se da energia de boa qualidade que cá entra. A terra perde sempre em termos de qualidade energética e em termos de matérias primas. A entropia aumenta sempre em sistemas fechados mas na terra também aumenta sempre, mesmo que se trate de um sistema aberto, o que é outra asneira de Miranda. É um facto conhecido, basta ver a poluição que se acumula na terra, basta ver a produção acompanhada com a produção colossal de resíduos que ficam retidos na terra.

Não existem dois défices, um solar e um económico, existe um: o défice dos orçamentos de estado que se discutia. A energia solar entra nos impostos quer o Miranda queira fazer ou não chacota com isso, basta pensar numa indústria com uma das maiores produtividades a nível mundial! A produção de energia eléctrica em barragens, pense-se nos impostos que a energia dá ao Estados. Directamente através das moléculas de água que o Sol evaporou, que cairam sob a forma de chuva e que foram engrossar os caudais dos rios. Dirá Miranda com o seu habitual simplismo: "A água nas barragens não aumenta de ano para ano! O Sol é sempre o mesmo! ah ah ah, logo não há crescimento a partir da energia solar!". Sim, o Sol é o mesmo, mas há cada ano que passa mais barragens, mais geradores eólicos, mais aproveitamentos de matérias primas, maior produção de vegetais, cereais, animais. Mais consumo energético, maior produção com maior consumo de matérias primas. Crescimento demográfico, inovação, com maior riqueza a ser gerada anualmente. Tudo, rigorosamente tudo, ou seja toda a humanidade e seu crescimento, alimentada pelo Sol e pelo próprio espírito humano e pela sua inovação. Dir-me-há Miranda: "Mas se nem toda a humanidade vai à praia! Como é possível?". Eu depois explico Miranda, eu depois explico... E perdoe-se-me o tom jocoso, é que não resisti a desmontar o tipo de piadolas que constituem uma denonestidade intelectual típica de João Miranda.

A riqueza mede-se em unidades monetárias.
É impossível retirar massa monetária de circulação a não ser em situação de catástrofe global.

As unidades monetárias em circulação aumentam sempre.

Quando aumentam mais do que a riqueza dá-se inflacção. Nem o Greenspan lhe pode valer, reduzir a massa monetária em circulação seria tirar dinheiro às pessoas e às empresas. Duvido que um liberal, ou outro qualquer acredite nessa possibilidade. Mudar o nome da moeda e reduzir o seu valor nominal não é retirar massa monetária de circulação.

A taxa de lucro decresce precisamente devido ao crescimento da economia e ao crescimento do conhecimento humano. A taxa de lucro tem mais dificuldade em crescer na zona Euro do que na China, por isso há deslocalização! É mais um facto básico da vida. A taxa de exploração cresce mas o seu crescimento tem limites físicos, o conhecimento não tem. Não perceber isso, e usar esse argumento é não perceber nada e fingir que se percebeu.

Sobre Vénus: invocar um planeta onde não há seres humanos e sistema económico é a gracinha de quem quer ganhar uma discussão séria a todo o custo sem usar argumentos válidos. Para mim é a cereja no topo do bolo porque revela o verdadeiro pensamento do autor. As piadolas excitam a turba dos chicos espertos que rodeiam a trupe liberal e que são incapazes de outro tipo de raciocínios. Denotam mais uma vez a desonestidade intelectual de João Miranda. Os tais miúdos de riqueza recente, ignorantes que, apesar das gravatas, se comportam como os carroceiros dos quais descendem em linha recta. Piadolas primas do arroto e da gargalhada alvar de taberna. João Miranda já nos tinha habituado, continua sem melhoras.

Finalmente um facto indesmentível: existe crescimento económico global e real. A Humanidade cresceu desde a idade da pedra e produz mais riqueza hoje do que produzia há um milhão de anos. Logo os défices podem ser cobertos com os impostos resultantes do crescimento económico. Isto a nível global.

A nível local ainda é mais certo, se o país crescer o défice de um ano será coberto, total ou parcialmente, depende do défice, com os impostos do ano seguinte, que até dão para pagar os juros se o défice for baixo.

Simples? Vá se lá explicar isso a um liberal de cabeça dura! Mas se os leitores quiserem as equações eu também as posso dar.

Henrique Silveira

7.8.04

O erro de Miranda 

Miranda em Blasfémias diz que uma economia fechada não pode ter défices o que pressupõe que a massa monetária global em circulação é constante e que a riqueza acumulada por toda economia global é constante. Nada de mais errado, a massa monetária global em circulação aumenta sempre, essa constatação é reflexo do segundo princípio da termodinâmica, aliás deu prémio Nobel da economia.

Outro facto muito interessante e que revela ignorância crassa de Miranda é que a Terra não é um sistema económico fechado! A terra recebe energia do Sol, essa energia é transformada em riqueza através da agricultura, através dos ciclos hidrológicos. Gera electricidade, gerou riquezas minerais que ainda não foram exploradas. Essas riquezas, mesmo as que estão sepultadas no âmago da Terra entram todos os anos em circulação aumentando a riqueza do sistema económico global. É tão simples que uma criança entende. Pensar que o défice é impossível globalmente é também um erro em termos dinâmicos. O défice de um vulgar orçamento de estado é apenas o crédito sobre um crescimento espectável da riqueza do país respectivo, se o défice for sustentado. Outro aspecto da riqueza global que vai crescendo resulta do conhecimento. Em termos de conhecimento e inovação a Terra como sistema económico não é certamente um sistema fechado! É certo que o ser humano dissipa energia, energia degradada, calor, que significa uma redução da riqueza disponível. Mas o balanço é claramente positivo. Por esse motivo quase todos os países da terra crescem em termos económicos e muito poucos, por razões várias, muitas vezes conjunturais, decrescem.

A riqueza mundial também aumenta. O problema é esse, se a massa monetária aumenta sem correspondência à riqueza dá-se aquilo que se chama inflacção, mesmo assim um fenómeno global, por causa do tal 2º pricípio. Pode ser fortemente reduzido, nunca eliminado.

Existem défices apenas porque se gasta mais do que se recebe num dado ano, os Estados, não os países, ou o sistema económico global, mais nada. Misturar sistema global com os Estados e seus orçamentos é mais um erro. As coisas estão ligadas mas de forma bem mais complexa. O simplismo como raciocínio típico de um liberal, mais outro erro.

Pensar a impossibilidade de um défice é eliminar a componente tempo do sistema económico. É cristalizar. Como diria Smale (um dos mais importantes estudiosos da matemática da economia) e muitos outros: a entropia é a seta do tempo.

Para um défice ser sustentado terá de ser criada riqueza correspondente ao défice. Em princípio o crescimento terá de ser superior ao défice do orçamento de Estado porque os impostos só captam cerca de cinquenta por cento do PIB. Os pequenos défices são sempre cobertos pelo crescimento dos anos seguintes.

Os impostos são demasiado elevados? Claro que sim, cerca de cinquenta por cento do PIB em Portugal é um exagero. Para mim o número ideal deveria ser inferior a 40% e decrescente.
Para o défice funcionar como motor da economia o crescimento terá de ser superior ao défice, em termos percentuais. Uma simples conta mostra isso. O raciocínio de José Sócrates é uma asneira, um défice de 3% exigiria um crescimento de 5% no mínimo dos mínimos para que o défice fosse sustentado. Ora perspectivar um crescimento de 5% para Portugal dentro da zona Euro é mais uma asneira própria da incompetência habitual do PS.
Para um défice de 1,5% o crescimento terá de ser de 3%, o que parece muito optimista, mas não será assim se o Estado gerir bem os seus gastos e se reduzir as suas despesas supérfluas.
Voilà, o que parece um problema insolúvel é afinal muito simples para quem tem rudimentares conhecimentos de economia, de matemática e um pouco de física.

Mas os senhores liberais continuam com a arruaça intelectual da ignorância. Agora vou tomar um duche que estou cheio de sal.


Os disparates e a ciência 

Fernando Pessoa ilustre poeta e génio das letras nunca foi cientista, opinativo, a sua imagem mental do mundo era uma visão poética e não prática.
Reduzir tudo à opinião na economia ou nas outras ciências sociais é uma opinião, como tal mal fundamentada e não científica.

Assim faz um tal Rui A, que se julga muito feliz por ter desenterrado umas imbecilidades pessoanas e as posta no blogue como se tratassem dos recém descobertos manuscritos do mar morto.

Por pensarem que as ciências sociais, e sobretudo as económicas, são apenas questão de opinião é que os adeptos do liberalismo económico emitem tantas barbaridades.
O humanismo, já o disse e volto a dizê-lo, defende que acima dos valores económicos e do interesse pessoal egoísta e selvático (lei da selva = competitividade desregrada), está o homem e a capacidade de dar, o altruísmo é um dos valores máximos do humanismo. A dignidade humana acima de tudo. Antes de pensar vender ou comprar, antes de pensar em como é bom haver pobres e desempregados para manter salários baixos, eu penso no homem/mulher que está desempregado/a e na sua família.

Penso também que existe Estado em excesso, que a iniciativa privada deve assumir posições em companhias aérias, na energia, nas telecomunicações e em múltiplos sectores onde o Estado é ineficaz. Penso que o Estado deve abandonar a comunicação social. Mas também penso que os impostos são essenciais, que a segurança pública deve continuar sob a tutela do Estado, que a saúde deve continuar a ser paga com os impostos de todos os cidadãos e não apenas dos que estão doentes. Que a educação deve ser paga com os impostos de todos, pois só com a educação se podem dar oportunidades aos que nasceram sem capacidade de competir na selva liberal. A defesa e os negócios estrangeiros devem ser privilégio do Estado. Finalmente a segurança social, que os mais velhos e incapazes, que não conseguiram acumular riqueza durante a vida depois de contribuirem com o seu trabalho para a prosperidade da selva liberal, tenham dignidade na velhice e não morram à fome, porque existem egoístas que acham que gastam melhor o seu dinheiro, obtido à custa do consumo e trabalho dessas mesmas pessoas indefesas perante a selva liberal, numas almoçaradas ou numas festas de ostentação e desperdício, ou no que quiserem, em vez de pagarem impostos para ajudarem os menos dotados economicamente.

Prova-se que o Estado e a sua intervenção são elementos preciosos no desenvolvimento ou na recuperação de crises. Basta pensar na saída da depressão americana, basta pensar no pós-guerra europeu ou em países como a Dinamarca, a Noruega, a Finlândia, destruídas pela guerra e que têm hoje em dia dos melhores níveis de desenvolvimento humano do mundo.

Por outro lado negar ao Estado o seu papel regulador é negar o princípio básico da democracia. A decisão não está apenas no poder do investimento e no capital mas também nas pessoas que votam e exigem regulação da actividade económica e do sistema social. Negar o papel do Estado é negar a democracia, coisa que os liberais fazem implicitamente.

Finalmente o papel do Estado na defesa do ambiente é essencial, como emanação democrática dos cidadãos, zelar pela segurança e pelo bem estar é dever essencial do Estado. Sabe-se que o interesse puro do lucro, e da especulação, não se compadece com quaisquer juízos ambientais. A regulação e fiscalização por parte do Estado serão essenciais num futuro imediato. Prova-se ainda que o Estado em Portugal é bem liberal na forma como deixa à solta os liberais interesses de especuladores imobiliários que têm destruído um país que teria tanto para ser dos mais belos e com melhores condições ambientais para viver e que não passa de um amontoado de cinzas e de barracas (algumas com muitos andares) em cima da linha da costa.

O Liberalismo continua a ser uma teoria de gente emergente, sem substrato cultural profundo. De jovens burgueses que não se apercebem que o desenvolvimento de todos gera bem estar para todos. Gente sem cultura humanista e de riqueza recente, gente mesquinha e egoísta, sem pé na realidade. Arrivistas e chicos espertos, no fundo apenas mais uns taxistas, apesar das gravatas, não querem pagar impostos. Nem se apercebem que uma selva liberal gera conflitos sociais insanáveis. Os adeptos das teorias liberais são absolutamente primários. Isso é irritante. O liberalismo não é de esquerda nem de direita, pertence ao reino da estupidez, uma espécie de anarquia do dinheiro. Bendito banqueiro anarquista de Fernando Pessoa...

Outro assunto

Este rapaz diz, de novo, mais alguns liberais disparates: Défices superioes a 0% trazem aumento de impostos! Só esses défices são sustentáveis!
Qualquer economista do mundo percebe que o que Jaquinzinhos diz é totalmente falso. Se o défice for 0%, significa que os impostos são demasiado elevados no ano em causa, ou seja já subiram anteriormente, quer dizer que o Estado gastou tanto como o que arrecadou.
Um défice baixo, da ordem dos 1.5% significa que o Estado gastou mais do que recebeu. Esse diferencial, se for gasto em investimento, estimula a economia. Se a economia crescer no ano subsequente os impostos arrecadados, sem elevação de taxas, são suficientes para cobrir o défice do ano anterior e despesas de serviço. O défice serve para realimentar o sistema económico, onde se destacam os agentes económicos em livre iniciativa que beneficiaram de um ano com impostos mais baixos e de mais investimento estatal para fornecerem os seus serviços. Um défice moderado proporciona aos consumidores mais dinheiro para gastar, o que estimula o consumo e o crescimento... O problema é quando os agentes são ineficazes e não aproveitam os frutos do défice para crescer e investir acabando o défice por ser gasto nas importações, mas nesse caso é apenas a economia aberta a funcionar o que deveria deixar feliz o autor de Jaquinzinhos.
Enormidades como a de Jaquinzinhos são habituais em liberais que lançam com facilidade ideias feitas sem pensarem nos assuntos. Segundo creio o autor de Jaquinzinhos até será da área de gestão ou parecida, de onde se prova que existe muita gente a fazer cursos superiores sem ter adquirido a devida formação, recomendo uma reciclagem em economia do desenvolvimento e em finanças públicas.

Agora vou velejar um pouco que o vento está bom.


Desconstrução de insónia 

Imagens cada vez mais longínquas, tempo que julgava adormecido, apagado. Primeiro desamarra-se uma imagem principal (um neutrão): uma roda num parque, uma escada de mão, uma passadeira grená e depois, à volta dela, reunifica-se o tempo, o que eu era então, as pessoas que estavam vivas, as vozes, as comidas familiares, as sombras, a luz, o mofo, os cheiros (os electrões) e então, desfragmentam-se novas imagens, a passar na retina a uma velocidade luz (novos neutrões) e mais uma vez o eu que eu era, os outros.... Às vezes, quero só deter-me na carga toda que a imagem contêm e não deixar que ela se explique.
Está cá tudo. Nada realmente desaparece. Estilhaços. Deve ser isto envelhecer.

Clara

6.8.04

Manuel Alegre tem um blog 

Devo andar a leste, só hoje vi que Manuel Alegre tem um blogue que muito se saúda aqui no crítico. Independentemente de não ser socialista penso que Manuel Alegre é um candidato com substância, com pensamento, com ideologia é um homem de perfil e combate. Um homem que se lê, um homem que se admira. Mesmo que se discorde de quase tudo o que diz é um homem que apetece admirar e não um menino da mamã ou um boneco articulado que fala, sem dizer nada, na TV.

Henrique Silveira

O concerto da Sinfónica 

23 Julho 21.30 h. Centro de Congressos do Estoril / Sala de Exposições

ORQUESTRA SINFÓNICA PORTUGUESA
David Alan Miller, David Alan Miller, maestro
Véronique Gens, soprano
Dimitris Marinos, bandolim grego

Round Time , Luis Tinoco
Shéhérazade, Ravel
Cinq Mélodies Populaires Grecques , Ravel
Oniro Fantasie for mandolin, Kostis Kritsotakis
Don Juan, Strauss

Notou-se no concerto da Sinfónica Portuguesa uma descontracção, ambiente de Festival, calma. Isso foi muito agradável de sentir. Notou-se que estávamos em presença de uma orquestra e não de um grupo de músicos desgarrados.
Em todo o concerto desde Tinoco ao Strauss a orquestra mostrou-se coesa, com os naipes de madeiras em grande destaque. Flauta, oboé (aliás muito elogiado ultimamente e justamente), clarinete destacaram-se pela elegância pela subtileza e pela qualidade do som.
No D. João de Strauss os metais foram também muito convincentes, ao contrário do último concerto em que ouvi a obra (com a orquestra Gulbenkian) as trompas resolveram de forma calma e expressiva as dificuldades da partitura.

O maestro foi apenas mais um, bate bem compassos, é exuberante mas em Ravel, onde é necessário um cuidado enorme, uma dedicação à produção do som, à filigrana das subtilezas sonoras, o maestro mostrou total incapacidade para a música francesa do início do século vinte e para obras mais complexas.

Véronique Gens, que admiro profundamente, foi um caso estranho, a soprano tem uma enorme elegância e um fraseado muito correcto. Pensei que se tratava de uma incursão da cantora, habituada à música antiga, num repertório francês difícil mas perfeitamente ao alcance do seu instrumento vocal. Pensei que a inteligência da cantora poderia abarcar de forma subtil e inovadora, até pelo percurso anterior da cantora, a música genial de Maurice Ravel no que parecia uma experiência putativamente interessante. Não foi assim, Gens esteve desenxabida e apagada, leu o papel sem interpretar e nunca teve a chama que esta música poderia transmitir. Gens nunca conseguiu uma vocalidade quente e diria mesmo erótica que Ravel pede. Limitou-se a ser elegante e ponto.

A sala de exposições do centro de congressos do Estoril mostrou poucas qualidades, demasiado ruído de ventilação, mais parecia um enorme armazém, numa sala assim não se pode apreciar música a sério. Os envidraçados enormes reflectiam o som de forma estranha e parecia estarmos todos dentro de uma panela.

O minuto de silèncio por Carlos Paredes foi louvável, mas o esquecimento de Carlos Kleiber, que muito tem a dizer a uma orquestra sinfónica, foi condenável.

Peter Devries, o concertino, continua a tocar fortíssimo e a antecipar as entradas em vez de tocar o que está escrito na partitura, pizzicatos, notas em pianíssimo, lá está o irritante e vaidoso concertino a sobressair, como se isso pudesse fazer com que os restantes violinos o seguissem e o respeitassem quando ele próprio não respeita o que vem escrito pelo compositor. Mas teve dois lados positivos: entrou na sala com a orquestra em vez de entrar atrasado para receber algumas palmas de circunstância (ou alguns apupos) e no solo do D. João de Richard Strauss foi razoável.

Um concerto agradável em final de estação com uma Sinfónica madura a tocar independentemente do maestro, espera-se que com Peskó, o titular, continue a tocar bem independentemente do maestro andar perdido e a dar entradas em falso. Afinal quando o maestro é uma anedota todas as orquestras boas do mundo tocam sem ligar a menor importância ao incompetente que vai passando no estrado.

P.S. Sauda-se de forma entusiástica a nomeação em diário da república do novo maestro de coro, que irá tentar salvar um coro destruído por anos e anos de João Paulo Santos.
Parece também que a nova temporada do S. Carlos será excelente, esperamos ansiosamente a divulgação pública, e como sempre muito atrasada relativamente a toda a Europa, da nova temporada que deveria começar em Outubro na pior das hipóteses.

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