<$BlogRSDUrl$>

28.7.04

A banha 



A minha sobrinha exige-me, à vez, que dance para ela ou que vá com ela ao banho. “Mais, piscina, tia, banha, xuxu”- são as palavras que decifro, repetidas até à satisfação dela e meu desespero. Assisto impotente à sucessão de estados de alegria esfuziante, birra e ganância, coisas que nós os crescidos nivelamos ou disfarçamos por não termos, em geral, quem nos satisfaça os caprichos. Nós, os crescidos, já não estreamos o mundo: uma ida “à banha” é mais uma ida “à banha”, mas o que nos esforçamos por voltar a estes momentos de alegria edénica, telúrica, juvenil. Alguém me diz que só os reencontra quando está no meio da natureza, frugalmente, num acampamento em volta de uma fogueira com amigos, sem saber o que fará no dia seguinte. Outrem, fala-me das suas idas à Índia, onde repousa e corta com as coacções sociais: parecer ser jovem, bem sucedido, rico, feliz, integrado social e familiarmente. Outro ainda diz que estas incursões à procura de um mundo pobre e mais espiritual são na verdade falsas porque quem as empreende sabe que terminam e que no final regressará a um mundo confortável, rico, limpo e organizado por muito esvaziado espiritualmente.
Ficámos sem saber se o mal dos nossos males, se o nosso exílio da praia da infância, está no mundo que nunca foi ou será perfeito ou apenas na idade adulta: esse “cancro da saudade”, para usar palavras de Paredes.
Mas fomos à banha e refrescámos.
Clara


Receita de Brusheta 

Antes de um bom jantar, uma entrada rápida de preparar, regada com um bom tinto ou um branco bem fresco, à escolha.

Ingredientes:

-Pão de mistura cortado às fatias
-2 dentes de alho
-o melhor azeite extra-virgem
-manjericão
-sal, pimenta preta, oregãos
-tomate maduro

Prepare uns minutos antes, à parte, o tomate partido miúdo e temperado com sal grosso, pimenta, oregãos, 1 dente de alho e folhas de manjericão.
Na hora, torre as fatias de pão. Passe o dente de alho por cima. Regue com azeite e espalhe em cima generosamente o preparado de tomate que graças ao sal deverá ter eliminado o excesso de sumo.

Pode variar trocando o tomate por mozzarella, queijo fresco ou cogumelos frescos. Delicioso.

Clara


26.7.04

Barrilaro Ruas, a procura do exemplo  

“ É diante da morte que a vida se revela. Revela-se no seu sentido pessoal e no seu sentido colectivo. Mesmo para aqueles que não creiam na transcendência do destino humano, a morte dá notícia da seriedade da vida. Pára a brincadeira; interrompe-se o jogo. Gelam os lábios e os gracejos. As gargalhadas morrem no silêncio. E, então, no fundo das almas, começa a construção do Homem”.


A Hemeroteca finalizou no sábado passado o ciclo de conferências dedicado a Henrique Barrilaro Ruas, a última das quais dedicada ao seu pensamento político.
No belíssimo salão-mor, juntou-se a família, os amigos de vida que restam (Pery Vidal deu testemunho da verticalidade do amigo que nunca deixou de lhe telefonar para o Brasil com regularidade) e uma excursão de jovens de t-shirt negra que desconfio vão ali enganados procurar um ideólogo para partidos reaccionários e pouco democráticos.
Gonçalo Ribeiro Telles evocou o caldo político da sua geração: reviralho, comunismo, Rolão Preto, Paiva Couceiro, António Sardinha, no qual germinaram as intenções políticas desse, então, estudante de Coimbra.
Explicou a sua herança de integralismo lusitano, que mesclou com preocupações ecológicas, sindicalistas e de regionalismo. Falou do seu bom-senso, equilíbrio, elegância, com o qual ouvia os outros e conciliava diferenças.
Embora monárquico, não desistiu da política por viver em regime republicano e tentou integrar no mesmo as mais-valias das suas ideias monárquicas. Defendia que Chefe-de-Estado não devia ser anulado pelo Parlamento mas devia estar investido de poderes efectivos e assim pugnava por um regime mais presidencialista que parlamentarista.
Paulo Teixeira Pinto falou do homem, da importância do exemplo, do que se é, dos comportamentos, do vazio de todos os discursos e das formas quando não habitadas pelo ser. Da atitude política como reflexo da atitude de uma vida, da política como a mais importante das coisas menos importantes. De como a vida mais tarde ou mais cedo reflecte os comportamentos. Do maquiavelismo político que se vive hoje e da falta de homens como este.
Alexandre Franco de Sá, complementou esta intervenção falando de um conceito de “propedêutica da salvação” que Barrilaro Ruas prescrevia. Abriu portas para um horizonte do transcendente de onde provinha toda a legitimação ética e política e para uma visão política que era o oposto do maquiavelismo.
Falou do personalismo, do homem de carne e osso, presente numa teia de relações, numa comunidade de relações de proximidade; da identidade, casa, oikos que só pode brotar das relações afectivas e familiares que o homem tece. A isso chamou Barrilaro Ruas o económico. Numa reacção contra a tentativa liberal de pensar o homem de modo abstracto, que esquece o económico ( neste sentido, de relações inter-pessoais) atribuindo ao homem uma liberdade sem vínculos nem laços imediatos. Mas personalimo oposto também ao totalitarismo que reduz o homem a um todo que o ultrapassa: seja um povo, uma nação, um partido, um Estado.
Barrilaro Ruas visionou a política da modernidade. Um mero instrumento técnico de obtenção e de conservação do poder fáctico: “ A crise da Política vem de Maquiavel: não apenas distinta, mas separada da Religião, deixou de ser “ arte régia” para se reduzir a mera técnica. A partir daí, todas as desgraças lhe podiam acontecer- desde a insuportável arrogância, até à definitiva humilhação”.
A política, disse-o, tornou-se pura ideologia, ideia da ideia.
E por mais que se discorde desta intercomunicação proposta pelo integralismo lusitano entre o económico, o político e o religioso, o certo é que ela apresenta a nação como um prolongamento de um comunidade e compromete o poder : “ El rei é um cativo: prisioneiro de Deus e da História”

Clara

No coração do Parque 


900 hectares de Serra da Arrábida ardida, na zona da Serra de grau de protecção mais elevada, logo a seguir à zona de Reserva Integral. Rescaldo: Zonas tampão ardidas e áreas de protecção florestal, com identificação já feita das espécies e dos habitats afectados.
O vento a soprar no sentido Norte-Sul levou o incêndio a galgar a serra e a avançar em direcção ao mar, tendo já queimado aquela encosta belíssima junto à estrada que todos conhecemos quando descemos do convento para as praias da Figueirinha e de Galápos. O fogo aproxima-se agora da Reserva Integral.
Tudo começou nos Arnais, onde a família Xavier de Lima tem a sua coudelaria. Na noite de sábado para domingo um primeiro foco de incêndio foi controlado, mas na tarde de domingo pelas 13h30 surgiu um novo foco de incêndio no mesmo local. Reacendimento ou mão criminosa?
O parque, com a falta de recursos habituais dos Parques, tem uns poucos vigilantes que patrulham a serra, à vez, com uma ou outra carrinha. A recém Directora tinha dispensado os jovens voluntários que durante anos se ofereciam para a vigilância alegando que não tinham nem preparação física nem formação para esse trabalho. Estavam agora os escuteiros encarregues desse acompanhamento. De facto, as viaturas do Parque estão equipadas apenas com um Kit de “primeiros socorros”, para apagar fogueiras, um depósito de águas e mangueiras não tendo equipamento nem recursos para apagar fogos a valer. Neste cenário, a ajuda de voluntários revelava-se irrisória. Para grandes emergências, só mesmo os bombeiros. Mas os bombeiros este fim-de-semana tiveram que se desdobrar por mais dois incêndios: Monchique e Torres Novas e apenas um helicóptero ajudou a combater o incêndio na Arrábida.
A preocupação dos bombeiros é neste momento a de salvar pessoas e casas. Para o fim ficam preocupações ambientalistas.

Clara

24.7.04

Dia para evocar Teilhard de Chardin 

Teólogo perseguido pelo Concílio pré-conciliar e que via na mulher: “pela simples acção de presença e como que em repouso”, “uma influência iluminadora e inspiradora”.
Em 1950, escreveu em Le Coeur de la Matière sobre a importância do feminino na sua vida: “ parece-me indiscutível ( de direito e também de facto) que para o homem - mesmo votado ao serviço de uma Causa ou de um Deus - não lhe é possível nenhum acesso à maturidade e à plenitude espirituais fora de qualquer influência sentimental que lhe venha influenciar a inteligência e excitar-lhe, pelo menos inicialmente, o poder de amar. Nenhum homem pode passar sem o Feminino, como não pode passar sem luz, sem oxigénio ou sem vitaminas, e isto é de uma evidência cada dia mais gritante”.

Clara

23.7.04

Hoje concerto do Festival do Estoril 

Com a Sinfónica! Como perdi os Gurrelieder por estar no estrangeiro não perderei este concerto. Estou com muita curiosidade com a obra de Luís TInoco e com a interpretação do D. João de Richard Strauss.

Henrique Silveira

Morreu Paredes 


A cor deste blogue não muda, continuamos de luto. Hoje por Carlos Paredes.
Ver mais em Público. Seguem-se homenagens e enterros, talvez desnecessários, talvez com sentido, mais para aqueles que privaram com o Músico. É claro, e repito-o, que a única coisa, e não é pequena, que mantém vivo Paredes é a sua guitarra.

Curioso é ver um jornal como o Público, uma hora depois da morte do guitarrista ter já um obituário tão elaborado sobre a sua morte. A morte como acto jornalístico previsível? Banalizada a acto jornalístico de antecipação? São as regras do jogo.

20.7.04

O fim de um mundo 

Morreu ontem aquele que foi talvez o maior intérprete musical de todos os tempos. Por certo foi a maior Maestro de sempre. Com ele não só desaparece um enorme artista que com a sua arte soube gerar uma nova força interpretativa dentro da tradição mas desaparece talvez o último grande testemunho da tradição musical vienense que desde o século XVIII deu ao mundo algumas das mais puras e cristalinas gotas de genialidade humana.
Com Carlos Kleiber encerra-se definitivamente a época dos Maestros que deram continuidade à tradição musical ocidental naquela que é, de facto, uma epopeia intelectual talvez ímpar na historia do homem.
Com Carlos Kleiber tudo nos reconduzia à verdade; de Beethoven (quem não se lembra das interpretações da 5ª e 7ª Sinfonia), Schubert, Brahms, Mahler e até Verdi (a gravação da Traviata é talvez a melhor de sempre) tudo acontecia com a naturalidade que só a um artista que tinha um fio invisivel de ligação com os pais da nossa arte era concedida.
Hoje, depois de muito muito tempo, estou triste. Acaba de facto uma época e sentimo-nos cada vez mais sózinhos, cercados como estamos cada vez mais pelo vazio feito de ignorância profissional.

Massimo Mazzeo, músico, que nos enviou este texto por por email


19.7.04

Morreu Carlos Kleiber 




1- Basílica da Estrela  

Não sei se por ali passou qualquer coisa que se possa chamar Deus, como disse Miguel Portas, mas ver ali ombro a ombro deputados de todos os partidos, a emblemática Odete Santos, a Basílica tão cheia que não se entrava na nave e cá fora tanta gente a despedir-se, palavras de saudade e eu a perguntar a uma deputada será que existem pessoas para substituir uma mulher como esta? E ela a dizer-me: mas onde?

2- “Aquilo de que faço parte é uma coisa que há-de vir e isso é para mim suficiente”

Esta frase que tirei do DNA e da última entrevista de Maria de Lurdes Pintasilgo comove-me porque está lá muito do que é ser visionário de outra humanidade e visionário de acção (como Cristo, Gandhi, Luther King), resistindo a depor fé e optimismo: “ faço parte de uma coisa que há-de vir”. Mas, sobretudo, comove porque está lá tudo do que é ser mulher: “ e isso é para mim suficiente”. O sacrifício, adiar-se, oferecer às cinzas a própria vida, pedir pouco, bastar-se com integrar o ciclo do tempo, comprometer-se com as gerações que virão, isso é coisa de mulheres, coisa que elas aprendem a fazer.
Ser visionária foi, como disse a Clara Ferreira Alves na última Pluma Caprichosa, arriscar-se a parecer pateta, desbocada, senil ou louca. Mais grave ainda se o visionário é mulher porque é o silêncio que se espera delas, o mutismo que, como disse Pintasilgo, tem sempre algo de violento e, acrescento, violentador.
Ela era uma dessa mulheres que tendo vivido na juventude a primeira fase dos movimentos feministas que reivindicavam toda a igualdade de direitos com os homens ( voto, educação, profissão, controlo da fertilidade) deu voz e corpo a um segundo movimento para o qual era mais importante procurar um modo de viver, pensar, conhecer, sentir próprio das mulheres que não fosse a adesão a um modelo construído no qual elas não participaram. E nos breves 100 dias em que foi Primeira-Ministra ela procurou um modo de estar no poder “feminino” e que não fosse a colagem ao modo tradicional de os homens o usarem.
Para ela, estamos no limiar dos tempos. Um tempo no qual as mulheres ainda não participam plenamente, uma igreja e uma democracia que ainda não germinaram. Uma livre expressão que ainda não se libertou do medo das críticas e da dificuldade na afirmação. Estar consciente da insuficiência do tempo, não é desistir. Tal como afirmar: eu penso, eu discordo- não é afrontar. O consenso é que é pouco elogioso para um nosso adversário. O consenso é que é pobre e mudo. Como ela dizia nessa última entrevista: “gosto de pensar com alguém que diz o contrário do que nós dizemos”. É indispensável o conflito para construirmos a identidade, para dizermos “eu, e depois tu e depois nós”.
E a propósito do seu gosto por discussões, uma querida amiga minha conta-me que a Maria de Lurdes, colega nos tempos do Técnico (IST) do padre João Resina, ambos os melhores alunos, amigos de uma vida até porque, cada um à sua maneira, a dedicou a Deus, entrando muitas vezes em acesa discussão terminavam sempre deste modo: -“Você é que é o mais inteligente!”
-“Não você é que é a mais inteligente!”
-“Não, não, você é que é o mais inteligente”.
A generosidade entre amigos que se congratulavam por o outro lhes ser superior.
É por existirem pessoas assim e que esperaram “uma coisa que há-de vir” que o mundo se torna menos insuportável.
Clara


A tábua, à vez 

Deixei de blogar este tempo todo, mas tive o meu piano. Se eu não tivesse uma coisa, ou outra, é que morria.
Clara



O crítico errou! 

Devo dizer que me enganei! Schönberg concebeu a Verklärte Nacht op. 4 no final do Verão de 1899, a concepção dos GurreLieder surge em Fevereiro de 1900. O meu erro deriva do facto de me lembrar apenas da data de orquestração da Noite que data de 1917 já bem depois da atonalidade de Pierrot Lunaire de 1912. Aliás os GurreLieder são de uma estética totalmente ultrapassada por Schönberg à data da sua conclusão 1911. Só foram orquestrados de forma sistemática depois de 1903 e sobretudo a partir de 1907, já Schönberg tinha travado contacto com Mahler o que inspirou uma orquestração tão pesada.
No entanto o meu erro retira pouco ao que afirmei. Gurrelieder é uma obra de juventude, 27 anos, em que Schönberg quer provar algo e é desregradamente megalómano. Quando se inspira em literatura, o que faria a vida inteira, e compõe de forma livre uma obra de um cromatismo exuberante, atinge um patamar sublime da arte musical: A Noite Tranfigurada op. 4 para sexteto de cordas. Sexteto inspirado musicalmente em termos de pathos e visão harmónica em Wagner. No melhor que Wagner deixou: a sensibilidade, o cromatismo, a inteligência musical e harmónica tão audíveis em Tristan. Claro que há um ponto que as palavras não conseguem explicar: o absoluto génio de Wagner impossível de traduzir em contextos harmónicos, melódicos ou outros, as receitas de Wagner usadas por outro qualquer quase nunca resultaram. Schönberg percebeu que o caminho não era copiar Wagner no cromatismo e na desmesura do peso dos sopros e dos metais ou Mahler na dimensão orquestral e coral. O caminho mínimo da Sinfonia de Câmara, ainda embebida nas concepções tonais, ou das peças para piano op. 11, ou do Pierrot, muito falado mas pouco ouvido, são a direcção que levou Schönberg ao nível de um grande compositor e revolucionário.

Finalmente, e como dizia anteriormente, a teorização posterior dos formalisms composicionais, com o anúncio de 1922 da descoberta que iria "colocar a música alemã na vanguarda musical por cem anos": a série e o dodecafonismo, levou a uma esterilização que a década de 1910 não fazia supor. Schönberg é eterno, em meu entender, pelo que fez nos anos de atonalidade pura. O medo da anarquia, a procura da ordem, o fugir do caos, o terror de não conseguir encontrar uma análise coerente numa partitura, o medo de ser chamado ignorante em termos teóricos, acabou por espartilhar a sua música.

Curioso que ninguém tenha reparado na grossa asneira que fiz ao situar os Guerrelieder antes da Verklärte Nacht e que detectei por mim próprio. Onde se prova mais uma vez que pequenos erros e minudências, como um acento fora do lugar, suscitam enormes comentários em alguns que se pretendem passar por versados na arte musical, mas erros de palmatória como o que eu cometi passam bem despercebidos numa comunidade cheia de pretensões mas com pouca profundidade. Se eu tivesse falado das fífias de uma flauta da sinfónica e estas tivessem sido dadas pelo flautim teria recebido diversos emails de protesto! Creio que existe demasiada arrogância e pouca sapiência na classe musical portuguesa, com raras e honrosas excepções, claro! Por esse motivo e outros, este blogue continua a ter um papel importante e independente.

H. Silveira

P.S. Fotos de A. Schönberg em 1900 e 1911.

Peskó e os Gurrelieder 


Não tenho grande coisa a acrescentar ao que já escrevi sobre os Gurrelieder e a direcção de Zoltán Peskó, mas face ao desafio do Henrique que, não tendo estado presente, ficou surpreendido com o que leu no Expresso, aqui ficam mais algumas reflexões. O Henrique supõe que o concerto foi desastroso a partir do que escrevi neste blogue, do relato de alguns amigos músicos e do que conhece de anteriores prestações de Peskó. Desastroso é um termo demasiado forte (há que relativizar, como o próprio HS gosta de advertir) e eu próprio fiz questão de sublinhar que estávamos num patamar superior ao de outras apresentações, essas realmente desastrosas, do "maestro". Só que entre o desastroso e o sublime (uma categoria que não se chegou a atingir), há várias gradações e ao longo do concerto passou-se por muitas delas. Os momentos mais altos devem-se, contudo, a solistas como Marinana Pentecheva (Pomba da Floresta), Glenn Winslade (Waldemar) ou Verner Prein (Orador) e não propriamente à direcção de Peskó, que teve falhas técnicas para além de ficar quase sempre aquém do potencial expressivo da partitura. Luciana Leiderfarb diz que ninguém caiu do arame. Eu diria que as ocasionais quedas não tiveram consequências demasiado trágicas porque existia uma rede: o profissionalismo da maior parte dos músicos da OSP e da ONP. Mas Peskó foi o principal factor de desequilíbrio, quando lhe competia ser o contrário.
Já o tinha dito no post anterior: o "maestro" andou à deriva aqui e ali, mas pontualmente até se esforçou e se envolveu emocionalmente nalguns pontos mais dramáticos. Será que foi isso que impressionou Luciana? Os momentos em que Peskó se pôs em bicos de pés, ruborizado e a transpirar, usando uma géstica veemente ao contrário da sua habitual atitude fleumática de marcador de compassos? Só que isso não basta para revelar toda a complexidade e riqueza dos Gurrelieder (e neste caso refiro-me à complexidade estética). É um exagero dizer que o maestro não "faz a menor ideia da obra" ou que não "evidencia o menor domínio da partitura" como supõe HS. Contudo, é evidente que a abordagem de Peskó é simplista e carece de amadurecimento.
Que o resultado foi "avassalador em termos de vivência e de memória", como diz Leiderfarb, até posso concordar (se atender à imponência da obra, à carga simbólica da 1ª audição em Portugal e até a alguns bons momentos musicais), mas dizer que "o maestro soube aproveitar ao máximo a massa humana que tinha à disposição" ou que "foi um sábio gestor de recursos emocionais e técnicos" é um perfeito disparate. Basta ouvir gravações existentes e comparar o resultado. E não me refiro só à perfeição técnica (não se pode avaliar um concerto da mesma maneira que um disco), mas sim a ideias interpretativas.
Ao contrário do meu amigo HS não creio que os "Gurrelieder" sejam uma "pastelice mastodôntica". Podem é muito facilmente ser transformados nela. É uma obra inquietante e bela, mas é também uma obra híbrida (o que não é novidade para ninguém), só que também nesse ponto Peskó falhou, ofuscando (por indiferença ou falta de capacidade) as diferenças de estilo. Por exemplo, a modernidade da 3ª parte não está apenas no evidente "sprechgesang", mas também na textura orquestral.
E já que voltámos a falar dos Gurrelieder vale a pena relembrar as reacções opostas que Peskó suscitou na imprensa diária (confirmação do perfil dos referidos críticos várias vezes traçado por HS neste blogue?). No PÚBLICO Manuel Pedro Ferreira diz que "Pesko impôs uma leitura vibrante, fluída e dinamicamente bem trabalhada da obra cujo espírito captou com invulgar empatia" (!?). Para Bernardo Mariano, do DN, "os principais defeitos da interpretação orquestral devem-se à falta de consistência, ou de constância, da direcção de Zoltán Peskó", que "alternou o bom com o mediano e o sofrível nas duas horas de concerto e, tendo em conta as características da orquestração da obra, raramente soube unir as forças orquestrais nas partes I e II e dividi-las na parte III".

Vasco Garrido

17.7.04

A anedota 

Santana Lopes e sus muchachos podia ser anedota. Sampaio e seu discurso, também. Nobre Guedes ministro do ambiente, porque usa Brise em casa, poderia ser outra...

Mas o que hoje me fez rir a bom rir foi Luciana Leiderfarb e a sua putativa crítica aos Gurrelieder de Schönberg no CCB.

Não estive presente, mas li o que o meu amigo Vasco Garrido, músico e homem muito benevolente, aqui escreveu. Ouvi outros músicos comentarem aquilo e sei do que Peskó (não) é capaz pelo que já vi em múltiplas ocasiões. Com Vasco Garrido discute-se Sokolov em termos filosóficos, não se discute a técnica! Se Vasco Garrido diz que tecnicamente a coisa foi fraca é porque foi mesmo. Desta rapariga, que escreve espesso no Expresso só lamentar tanta incapacidade de fundamentar o que parece ser o disparate. Segundo Vasco Garrido: Peskó esteve mal em termos interpretativos e técnicos. Acho impossível que alguém que escreve sobre música possa dizer que está esmagada por uma interpretação tão sublime, cheia de ideias miraculosas, e em que o maestro esteve sempre sobre o arame mas que nunca caiu! Isto sem nunca concretizar, sem fundamentar e depois de oitenta por cento do artigo com frases feitas, cheirando a enciclopédia e até imagino qual, sobre Arnold Scönberg. A coordenação da massa parece ter sido o forte de Peskó, segundo Luciana do espesso. Será ironia? Segundo Vasco Garrido: Peskó não só não teve a menor ideia musical de conjunto, como o conjunto andou descoordenado, como o maestro andou perdido e deu as célebres entradas em falso que o caracterizaram em qualquer aparição e são a sua imagem de marca de incompetente e acabado para a música, aliás parece nunca ter começado. Segundo V.G. o maestro não evidenciou o menor domínio da partitura, o que segundo Luciana foi o forte do "titular" do S. Carlos. Afinal em que é que ficamos? Espero um esclarecimento de Vasco Garrido!... Mas o que critico em especial é a incapacidade de fundamentação de quem que escreve no Expresso, eu não quero saber se quem escreve ficou ou não esmagada pela obra, pelo maestro, ou pelo ar condicionado! Eu, como leitor, quero saber porque motivos ficou esmagado o crítico. Foi a articulação, foi a compreensão do texto? Os sublinhados expressivos de certos momentos? As escolhas dos tempos? A paleta orquestral e o seu equilíbrio? A dicção dos coros? As vozes dos cantores? Os pontos culminantes da obra em termos musicais? Em termos dramáticos? Em termos interpretativos? Perguntas que ficam por responder, sabemos que quem escreveu ficou siderado e sabe umas banalidades para encher chouriços sobre o compositor e a obra. Crítica ao acto performativo? Zero. Falta relativização, falta contenção, faltam termos comparativos e distanciamento crítico. Muito barulho é realmente impressionante, mas será música? Um texto péssimo.

Depois de um rapaz, do qual nem me lembro o nome, ter ido à internet tirar umas coisas para escrever sobre Marc A. Charpentier sem citar Catherine Cessac. Depois do trio russo ter deixado Teresa Castanheira à beira de um ataque de histeria com um concerto horripilante. Depois da promoção descabida e pateta ao Domingos António, de quem ninguém fala agora. Depois das banalidades de Vanda se Sá sobre discos, em que nunca compromete uma opinião, tendo decaído muito nos últimos tempos em termos críticos e de escrita. Só faltava esta Luciana para completar o ramalhete.
Está mais do que provado que o Expresso em termos musicais depende exclusivamente da sabedoria e paixão de Jorge Calado, o resto é paisagem cinzenta e triste.

Finalmente acrescento que a partitura dos Gurrelieder é uma pastelice mastodôntica de primeira apanha. O jovem Schönberg queria afirmar algo e não sabia bem como, arranjou uma orquestra descomunal e um coro tirado dos livros do Gargantua, e nem foi original, Mahler tinha feito o mesmo antes. Scönberg criou massas sonoras gigantes e desequilibradas. Gurrelieder uma obra (obras?) com alguns pontos fortes no meio de uma xaropada imensa. Depois de perceber que aquele não era o caminho, Schönberg resolveu romper, passou os anos seguintes a compor de forma livre as melhores obras da sua vida, como a Noite Transfigurada em que recorre de forma superior ao sexteto de cordas, conjunto minimal após os excessos anteriores. No entanto escrever para sexteto de cordas sem ser redundante ou desequilibrado é mais difícil do que escrever para 500 músicos! Schönberg quase que conseguiu o equilíbrio, mas perdeu-o de novo quando abraçou o dodecafonismo. Alban Berg e Webern acabaram por escrever música que suplantou a do mestre. Schönberg, para mim, acabou por ser vítima da excessiva teorização que quis impor e esterilizou não só a sua música mas grande parte da música do século vinte. Mas isso são outras conversas que nos levariam muito longe.

15.7.04

Uma divulgação 

Recebemos por email o seguinte anúncio:

O Quarteto de Cordas São Roque irá realizar um recital na próxima 5ª feira, 22 de Julho, na Igreja de Santiago em Monsaraz, pela 19h00. Aqui será interpretado o Quarteto de Cordas em Lá menor "Rosamunde" de Franz Schubert e o Quarteto de Cordas em Sol M "Cenas da Montanha" de Vianna da Motta. Esta última obra é, na sua versão integral, inédita em audição moderna.

Para mais informações, fotografias ou outras questões, contactar quarteto.sao.roque@netvisao.pt

Os melhores cumprimentos,

João Pedro Delgado


Quarteto de Cordas São Roque
1º violino: António Martelo
2º violino: Cristina Almeida
Viola de Arco: João Pedro Delgado
Violoncelo: Ricardo Mota


As graçolas de mau gosto do candidato a crítico 

"Em pouco mais de 12 horas, ocorreu a morte política e sobretudo simbólica de Jorge Sampaio e soubemos a morte de Maria de Lourdes Pintasilgo.[...] O momento é do mais carregado luto.» Augusto M. Seabra in Público, lido por mim em Barnabé. O mau gosto do escriba é tão evidente que dispensa comentários. Ao nível do pior Seabra que, aliás, é o Seabra habitual. Eu acrescento que Augusto M. Seabra nunca dará motivos de luto a ninguém quando deixar de escrever: a sua escrita esteve sempre morta.

14.7.04

O Profeta mandou lavar os pés antes das orações 



Mas estes não devem ser muçulmanos muito seguidores!
O cheiro na mesquita em hora de oração é abominável... e ainda falam do fundamentalismo.

13.7.04

À porta da mesquita 



Um euro

Alentejo 

Algures no Baixo Alentejo.


Evocação 



“O sexismo é uma atitude e um código de comportamento que condiciona os direitos e deveres das pessoas ao sexo a que pertencem. … confere a um sexo atributos superiores aos do outro e por isso cria uma ordem social em que um sexo beneficia de privilégios à custa do outro sexo” Maria de Lourdes Pintasilgo

“Oriana atravessou o café e viu-a. Viu as suas asas e a sua varinha de condão. E viu que ela estava em pé no ar, sem que os seus pés tocassem o chão.
- Sou eu- disse ela
- Agora vejo que és tu. Agora vejo que és uma fada. Obrigada, Oriana, porque tu voltaste.
Oriana deu-lhe a mão. E sem que ninguém os visse, sairam do café. Atravesssaram a cidade as suas ruas cruzadas com anúncios luminosos. Atravessaram as praças, as avenidas e os cais. E sairam da cidade,
Foram pelo caminho ao longo do abismo até à floresta.
A lua cheia iluminava os montes os campos. Quando chegaram à floresta, o poeta pediu:
- Oriana, encanta tudo.
- E Oriana levantou a sua varinha de condão e tudo ficou encantado”.
Sophya

No espaço de uma semana, partem duas mulheres inteligentes e fortes que lutaram pela liberdade e que não temeram. Encontraram e seguiram a sua vocação até ao fim, disseram o que pensavam e sentiam, viveram com alegria a solidão.
Uma levantou a sua varinha de condão e encantou-me a infância com personagens imortais: a fada Oriana, o Cavaleiro da Dinamarca, o rapaz e a Menina do Mar. Com a outra caminho no inelutável tempo dos adultos.

Clara

BOXX 



A Voxx acabou, ficou a lembrança da "boz da Boxx".




12.7.04

Obrigado a VG 

É com desgosto que soube da morte de Sophya, já há alguns dias.
Quero agradecer a Vasco Garrido por ter mantido este blogue activo na minha ausência. A polémica sobre Sokolov acabou por não ter a repercussão que se poderia esperar. O homem tocou, recebeu e foi-se embora. O público comportou-se como na tourada, com urros e berros, gritos e pedidos de cortes de orelhas e rabo. Não creio que o assunto mereça mais tinta.

Pelo que Vasco Garrido escreve sobre os Gurre Lieder e pela sua benevolência característica, percebo que o maestro Peskó deve ter sido completamente desastroso, algo habitual e pouco surpreendente. Segundo alguns amigos que assistiram parece que o "maestro" andou perdido sem saber onde a música parava... a anedota continua e os incapazes recompensados. A falta de qualquer ideia para uma obra é uma constante em Peskó. A um maestro exigem-se ideias. Um batedor de compassos que erra na sua contagem e que dá entradas em falso... seria melhor um metrónomo.

Alguns amigos, críticos deste blog, pediram-nos, por email, para não falarmos de política uma vez que "não seria a nossa especialidade". Parece que "não somos analistas políticos". Mas um blogue é um espelho do nosso pensamento, não é apenas um veículo técnico especializado. Enquanto tivermos cabeça e liberdade de expressão diremos o que pensamos. Eu creio, em particular, que deveria ser a actual coligação a continuar a governar. Mas penso que Santana Lopes é um incapaz e um inculto, um populista da pior espécie, afinal um espelho do que Portugal é. Ferreira Leite, Fernando Seara, Marcelo Rebelo de Sousa, o Zé do PSD seriam todos melhores que Santana. Parece-me ainda que o actual presidente é um banana, perdoe-se a expressão, pior do que isso: é um homem sem capacidade de decisão e que anda a fazer de presidente. Sabia-se desde o início o que faria, mas andou a fingir que tomaria uma decisão, ouviu a brigada do reumático, fez o que pensa do que se esperaria de um presidente. É uma opinião minha e vale o que vale, mas há duas semanas quando saí para a Turquia sabia que Santana Lopes seria convidado para primeiro ministro. Passaram-se 15 dias e o presidente andou a perder tempo quando poderia ter tomado a mesmíssima decisão duas semanas antes, semanas preciosas em que Portugal esteve parado. Incapaz de ideias, incapaz de decisões, Sampaio sai de cena sem história, sem coragem, mais um presidente que Portugal merece, um vácuo presidencial.

Vista a net e os jornais dos últimos dias acho lindas as reacções de Ana Gomes, Ferro Rodrigues e do padre Louçã, este a espumar de raiva. Essas imagens dão-me um gozo puro e valem quase a desgraça de ter Santana Lopes como "Presidente do Conselho de Ministros".

Finalmente um novo Blog, o esplanar, promete.

E afinal cheguei com o tal primeiro ministro 

O tal que leva a Manuela Ferreira Leite para fora do Governo.
Tudo o que escrevi foi premonitório: Sampaio com decisão tomada a fingir que ia decidir o que já estava decidido. E voltei da Turquia com o primeiro ministro das santanetes. Depois dos vendedores de tapetes um vendedor de ilusões. Prefiro os aldrabões turcos... Quinze horas entre aeropostos, aviões, atrasos, temperaturas de 48º (!!) não me deixam muito espaço para escrever mais. Fotografias, relatos de viagens, perseguições policiais a 40 quilómetros por hora (!) com sete carros da polícia, tiros para o ar, quatro motas e um Dolmus, um pequeno autocarro a cair de podre cheio de turcos e turcas, estas em menor número, todos mal encarados de bigodes enormes e barbas mal escanhoadas e este vosso servidor embasbacado sem perceber nada do que se estava a passar depois de uma cena de pancadaria entre um polícia e o condutor do dito Dolmus. Um Hotel de quatro estrelas (???) algures na Anatólia em Antalya, Hotel Antalya de facto, onde se desligava o ar condicionado entre as 10 e as 17h, com temperaturas de 42º no mínimo dos mínimos, com mudança para Hotel de cinco estelas (mais barato que o anterior !!) e onde o ar condicionado se mantinha milagrosamente o dia todo, tudo aconteceu. Mas o cansaço rouba discernimento, fica para mais tarde...

11.7.04

Gurrelieder, no limiar da dignidade 


Na ausência d’ "O Crítico" principal deste blogue (o meu amigo Henrique Silveira que continua em terras turcas) aqui fica uma crónica desse "momento histórico", como lhe chamou a imprensa oficial, da estreia portuguesa dos "Gurrelieder", de Schoenberg, no final da temporada da Sinfónica Portuguesa. Um concerto que esteve longe da perfeição (seria utópico esperar que assim fosse) mas que se foi mantendo no limiar da dignidade, algumas vezes acima, outras abaixo… Atendendo à complexidade da obra, ao seu descomunal efectivo (mais de 340 pessoas em palco!) e ao facto de se tratar de uma primeira interpretação podemos até ser benevolentes e dizer que foi um esforço muito meritório. A partir de agora os "Gurrelieder" estão prontos para absorver rapidamente os apuramentos técnicos e as concepções interpretativas de um maestro a sério! As duas orquestras (OSP e Nacional do Porto) funcionaram razoavelmente bem em conjunto (ainda que as cordas carecessem de mais homogeneidade e densidade sonora e de algumas imprecisões nas madeiras; os metais estiveram bastante bem), mas teriam certamente correspondido muito melhor se tivessem à frente um maestro mais dotado e que establecesse uma comunicação mais empática com os músicos (mas será que Pesko tem mesmo ideias musicais interessantes para comunicar?). Há, no entanto, que reconhecer que, em comparação com outras ocasiões, o titular até se esforçou. Estamos longe daquela "Noite Transfigurada" de má memória que tivemos de suportar há meses atrás… A direcção imprecisa e quase displicente do início do Prelúdio Orquestral (que acabaria por comprometer a plácida magia do pôr-do-sol que a partitura evoca) melhorou ao longo da obra e Pésko demonstrou até vários momentos de arrebatamento. Continuou, no entanto, a falhar entradas (felizmente nem sempre com consequências de maior).
Mas pior do que isso é a ausência de uma concepção interpretativa verdadeiramente profunda e não apenas rotineira. Faltou subtileza no acompanhamento da maior parte dos "Lieder", os fraseados soaram sem "élan", o contraponto foi pouco transparente, a qualidade do som sem plasticidade. E onde ficaram as sonoridades mágicas e luxuriantes evocadoras da sensualidade, do mistério do amor e da morte ou da sombria e inquietante paisagem fantasmagórica que os belos textos de Jacobsen nos revelam?
Há quem duvide, como o crítico do PÚBLICO, Manuel Pedro Ferreira, da existência de traços de "debussysmo" (ou se quisermos da estética francesa do início do século XX) na partitura de Schoenberg. De facto, a interpretação de Pesko ofuscou completamente esta dimensão, mas ela existe e é evidente em várias gravações de referência. A este propósito Simon Rattle fala mesmo de "french connection" na entrevista publicada no CD que gravou com a Filarmónica de Berlim e refere ter dito aos seus músicos que se tocassem como se se tratasse de "Daphnis et Chloé", de Ravel, não se afastariam muito do espírito da obra… Um dos pontos mais fascinantes dos "Gurrelieder" reside precisamente na forma como Schoenberg consegue conciliar a herança wagneriana com um refinamento colorístico e uma filigrana orquestral próxima do impressionismo francês ao mesmo tempo que convoca as principais coordenadas do expressionismo germânico.
Em relação aos solistas Glenn Winslade foi um Waldemar de grande autoridade, mesmo se nem sempre tecnicamente perfeito, mas Anna-Katharina Behnke, demasiado operática e com problemas de projecção, entre outros, foi uma escolha infeliz para Tove. Imponente a voz de contralto Marina Pentcheva, uma impressionante Pomba da Floresta, que nos transmitiu com emoção toda a carga dramática do texto, e surpreendente e estilisticamente irrepreensível a arte do do "sprechgesang" de Johan Verner Prein. Os restantes cumpriram, destacando-se o Bobo de Jon Ketilson.
O outro grande desafio era a junção dos três coros: São Carlos, Gulbenkian e Lisboa Cantat. O primeiro coro masculino "Gegrüssst, o König…" soou como uma monumental sopa sonora (e ainda bem que a colocação ao fundo do palco dificultava a audição...!) mas as coisas melhoraram um pouco na segunda grande intervenção. Quanto ao coro misto final, apesar dos sopranos estridentes (seriam os do Coro do São Carlos?) e de outras imprecisões, salvou-se pela paixão que colocou na execução contribuindo para um final apoteótico.

Vasco Garrido

7.7.04

O Poema me levará no tempo... 


O Poema

O poema me levará no tempo
Quando eu não for a habitação do tempo
E passarei sózinha
Entre as mãos de quem lê

O poema alguém o dirá
Às searas

Sua passagem se confundirá
Com o rumor do mar com o passar do vento

O poema habitará
O espaço mais concreto e mais atento

No ar claro nas tardes transparentes
Suas sílabas redondas

(Ó antigas ó longas
Eternas tardes lisas)

Mesmo que eu morra o poema encontrará
Uma praia onde quebrar as suas ondas

E entre quatro paredes densas
De funda e devorada solidão
Alguém seu próprio ser confundirá
Com o poema no tempo

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)
In Livro Sexto


Um post de V.G.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) 


Alguns dias longe de Lisboa impediram-nos de prestar homenagem a Sophia no devido tempo. Já não me lembro que idade tinha quando li pela primeira vez A Floresta mas, tantos anos passados, esta é ainda uma das memórias mais fortes da minha infância e da sua obra literária. Isabel, o Anão e o Professor de Música, A Menina do Mar, A Fada Oriana, O Rapaz de Bronze… foram fiéis companheiros de sonhos que muito contribuiram para a minha paixão pelos livros e serviram de inspiração a precoces e inconsequentes experiências literárias. Filho único, como a Isabel de A Floresta, entretinha-me a inventar amigos, aventuras e estórias fantásticas que escrevia nas longas tardes de Verão. A poesia de Sophia veio mais tarde. Matinal, clara, luminosa, concisa, despojada de artifícios, com o mar ao fundo ou no centro, embalada por ecos da Grécia Antiga, tantas vezes feita de coisas simples e terrenas, mas sempre com uma porta aberta à esperança e uma janela para a eternidade. Aqui ficam alguns poemas.
V.G.

Varandas

É na varanda que os poemas emergem
Quando se azula o rio e brilha
O verde-escuro do cipreste — quando
Sobre as águas se recorta a branca escultura
Quasi oriental quasi marinha
Da torre aérea e branca
E a manhã toda aberta
Se torna irisada e divina
E sobre a página do caderno o poema se alinha

Noutra varanda assim num Setembro de outrora
Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava
Amei a vida como coisa sagrada
E a juventude me foi eternidade

Era o tempo

Era o tempo das amizades visionárias
Entregues à sombra à luz à penumbra
E ao rumor mais secreto das ramagens
Era o tempo extático das luas
Quando a noite se azulava fabulosa e lenta
Era o tempo do múltiplo deseja e da paixão
Os dias como harpas ressoavam
Era o tempo do oiro das praias luzidias
Quando a fome de tudo se acendia

Sophia de Mello Breyner Andresen
In O Búzio de Cós

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora a luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen
In Livro Sexto


2.7.04

Falta uma semana para a estreia dos “Gurrelieder” de Schoenberg 


Falta pouco menos de uma semana para a estreia dos “Gurrelieder”, de Schoenberg, no último concerto da temporada da Sinfónica Portuguesa (dia 8, no CCB). Um momento histórico já que esta partitura magnificente, estreada em Viena em 1913, nunca foi interpretada em Portugal, mas que nos causa também grande apreensão. Cume do romantismo tardio e premonição do atonalismo, os “Gurrelieder” são um misto de ciclo de canções, oratória, melodrama, ópera e poema sinfónico. Foram inspirados pela obra do poeta dinamarquês Jens Peter Jacobsen (1847-1885) e relatam com intensidade os eternos temas do amor (entre o rei Waldemar e Tove), do ciúme, da revolta, da natureza, da dor, da morte… A reinterpretação de Schoenberg do estilo e do imaginário wagneriano chega aqui ainda mais longe do que na “Noite Transfigurada” e os seus efectivos monumentais fazem concorrência às instrumentações mais megalómanas de Berlioz, Mahler ou Richard Strauss: 8 flautas (das quais 4 flautins), 3 oboés, 2 cornes ingleses, 7 clarinetes (incluindo 2 clarinetes em mi bemol e 2 clarinetes baixo), 3 fagotes e 2 contrafagotes, 10 trompas, 7 trompetes (um deles baixo), 7 trombones (1 alto, 4 tenores, baixo e contrabaixo), um grande grupo de percussão tocado por 11 instrumentistas, 4 harpas, celesta, quinteto de cordas, coros masculinos a 3 vozes, coro misto a 8 vozes, 5 solistas e narrador!
A OSP associa-se à Orquestra Nacional do Porto e, para além do Coro do São Carlos, participam o Coro Gulbenkian e o Coral Lisboa Cantat. A complexidade da obra e esta combinação seriam por si só um desafio ambicioso mas, como se não bastasse, há elementos inquietantes nos quais não podemos depositar a nossa confiança pelas razões mil e uma vez apontadas neste blogue: o Coro do São Carlos, a direcção de Zoltan Pésko…! A desastrosa prestação do maestro e da OSP na “Noite Transfigurada” e no 2º acto do Tristão em Novembro faz-nos sentir arrepios de pavor! Mas lançamos aqui um desafio. Surpreendam-nos! Ao contrário do que muitos pensam não gostamos de dizer mal, defendemos a seriedade, o profissionalismo, o respeito por compositores e obras e, acima de tudo, amamos a Música. Por isso dói tanto vê-la assassinada. Falta uma semana. Ainda é possível salvar a honra do convento. A partitura de Schoenberg é dificílima mesmo para intérpretes mais experimentados, mas ainda há algum tempo para trabalhar a fundo, com seriedade, profundidade, rigor, paixão. A responsabilidade é grande, não nos decepcionem e tratem a música de Schoenberg com a dignidade que ela merece. É o mínimo.
V.G.


Arquivos

This page is powered by Blogger. Isn't yours?