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30.6.04

Turquia 

Volto dentro de duas semanas. A antiga Constantinopla aguarda-me dentro de umas horas. Quando voltar espero não ter Santana Lopes como Primeiro Ministro.

Henrique Silveira


Sokolov, outra opinião 


Não posso estar mais de acordo com o meu amigo Henrique em relação às condições em que decorreu o recital de Sokolov em Queluz. Um verdadeiro horror, um sufoco, a tortura de não poder usufruir uns segundos de silêncio absoluto que permitissem escutar a música de Bach e Beethoven com o recolhimento que ela merece. Pelo contrário, não partilho uma boa parte dos seus comentários críticos a este pianista e à interpretação. Comentários esses que são, aliás, contraditórios. Sokolov é um intérprete fora do comum que consegue baralhar os críticos? É verdade que as condições eram péssimas, mas daí ao resultado ser "um concerto, sem capacidade de transmitir qualquer ideia, qualquer sentimento" parece-me um exagero tão grande, ou maior, do que aqueles que H.S. aponta a Sokolov!
"Sokolov não é um pensador (…) ou é um imbecil ou é um autista" diz H.S. Alguém que encadeia deliberadamente a Partita nº6 com a Fantasia e Fuga em Lá menor, concebendo a interpretação das duas obras como um todo (um arco que vai do início da Toccata ao fim da Fuga), alguém que recria universos tão surpreendentemente contrastantes em cada um dos andamentos da Partita — e eu não gostei de todos, note-se! — ou que muda radicalmente de atitude quando aborda a clássica Sonata op. 22 ou a revolucionária op. 111 não é um pensador? Um pianista que consegue fazer soar de forma coerente (e apaixonante) no piano moderno obras eminentemente cravísticas de Scarlatti e Couperin não é um pensador? É possível que H.S. tenha razão e afinal tudo isto surja por intuição, mas será uma intuição superior. Na entrevista que deu à Cristina Fernandes, do PÚBLICO, há dois anos, e que guardo religiosamente, o pianista dizia: "Não há nenhuma diferença entre o que pode explicar a minha opção racionalmente e aquilo que funciona a um nível mais elevado da consciência. Trata-se do mesmo cérebro!"
Tenho de concordar que Sokolov foi desregrado neste recital, o que também foi um mistério para mim. Quem o ouviu tocar sonatas de Haydn no Centro Olga Cadaval com um recorte, uma elegância de fraseados e uma depuração extremas, fazendo soar o piano quase como um pianoforte, não acreditaria que era o mesmo pianista que tocou Bach anteontem. Também me desagradaram certas ousadias, a violência do "touché", acentuações excessivas (por exemplo no tema da Giga), fraseados extravagantes, mas não consegui deixar de ficar rendido à perfeita delicadeza do "Air" (com uso do pedal esquerdo, fazendo lembrar o registo de 8 pés associado ao teclado superior do cravo), à profundidade expressiva e magnificente ornamentação da Sarabanda ou à arrepiante seriedade e meticulosa arquitectura da Fuga. E aqui a "touché" foi de uma suavidade ímpar, doseando com precisão matemática o peso de cada linha melódica e mudando mesmo o seu volume e cor sonora.
"Musicalmente tudo o que faz é óbvio, para quem tem a capacidade técnica que tem" diz o meu amigo Henrique. Pois a mim não me parece nada óbvio e creio que o problema é mesmo esse. Sokolov surpreende, faz uma leitura muito pessoal, mas se prestarmos atenção ao todo a sua abordagem acaba, quase sempre, por revelar uma lógica inabalável. Claro que esta atitude se pode identificar com a de um "cultor de um ego absoluto, que se sente à vontade para fazer o que quer…" Acreditem que também eu detesto esse tipo de intérpretes, mas no caso de Sokolov há qualquer coisa de inexplicável que me faz ter um profundo respeito pelas suas propostas, mesmo quando não me identifico plenamente com elas.
"Basta ler a partitura de Beethoven e exagerar de forma ostensiva..." A minha leitura não é esta. Sokolov acentua os contrastes de forma desmesurada, mas creio que o que ele quis mostrar no primeiro andamento op. 111 foi a violência do sofrimento de Beethoven e da sua tumultuosa vida interior, um sofrimento até aos limites do insuportável. E para mim houve subtileza e introspecção nas variações da "arietta". O final não me convenceu assim tanto. Gostaria que tivesse feito justiça à bela frase de Brendel ("um prelúdio ao silêncio"), mas com o irrequieto ambiente da sala seria difícil.
Sokolov insensível? Sokolov não consegue comunicar? Duvido. Um pianista cujos discos foram quase todos registados ao vivo porque detesta estúdios de gravação é "insensível ao objecto público do concerto"? Podemos é não estar em sintonia com a mensagem que ele quer transmitir. Na minha opinião Sokolov não é apenas alguém que elevou aos limites máximos todos os parâmetros da técnica pianística, é um desafio aos sentidos e um desafio ao intelecto. Não gostei incondicionalmente do recital e a experiênncia (talvez pelas condições) foi menos intensa e menos gratificante do que nas outras vezes que o ouvi ao vivo, mas mesmo assim considero que foi um grande recital.
Cito um fragmento do "Doutor Fausto", de Thomas Mann, a propósito de Beethoven e da op. 111: "(…) dos confortáveis domínios da tradição, subia diante dos olhares da humanidade que, espantados, a seguiam, a esferas inteiramente pessoais; um ego dolorosamente isolado no absoluto, distanciado até, em virtude da extinção do ouvido, daquilo que os sentidos podem apanhar, o solitário príncipe de um reino de espectros, do qual apenas partiam tremores estranhos em direcção aos mais bem-intecionados contemporâneos, e cujas mensagens aterradoras estes só ocasional e excepcionalmente tinham sabido captar."
Para muitos Sokolov será, como Beethoven, "um ego dolorosamente isolado no absoluto", para outros um "insensível", para outros simplesmente mais um pianista de personalidade forte e técnica superlativa. O mistério permanece.

Vasco Garrido



A democracia e o povo 

A democracia é um sistema politicamente correcto hoje, do género Fumar mata ou Neste clube é proibido mandar bocas aos gays.

Enfim, temos de viver com o sistema, melhor parece não haver, mas não se exagere, eleições todos os dois anos? Só porque não se gosta do Santana Lopes. Esperem? Santana Lopes? Não existe um presidente? Anda a fingir que ouve uns e outros? Foi eleito para quê? Para passar uns dias a criar instabilidade a fingir que está a formar uma opinião que já está formada. Um presidente com discernimento nunca aceitaria um incapaz para primeiro ministro, óbvio. Será que um conselho nacional de um partido tem mais legitimidade do que um presidente para escolher um primeiro ministro? Confuso? A Constituição apenas diz que a dissolução do Parlamento é um dos poderes do Presidente, e que o pode usar depois de ouvido o Conselho de Estado. Ponto. Logo a solução é simples: se o PSD apresentar um incapaz, como o Santana Lopes, eleições. Se apresentar um rapaz inteligente e capaz, tipo Marcelo Rebelo de Sousa, poupem-se as eleições e feche-se o ciclo para o qual as últimas eleições serviram. Se Sampaio é um presidente com discernimento e coragem para impor esse tipo de decisão? Não o creio, mas... Democracia? Sim, politicamente correcta, mas dando sempre soluções erradas, a pior delas é o presidente que temos. O povo a votar? Mas se foi esse povo que votou no presidente que não vai convocar eleições e deixar um incapaz como primeiro ministro. Confuso? Nem por isso, viva a democracia e que o povo vote, erra sempre de forma politicamente correcta, tipo: "Fumar mata". Mas o povo continua a fumar. Ou não fuma? Confuso?

Se andam felizes aos gritos em frente do Palácio, os rapazes convocados pelos blogues, é deixá-los. Mas o fracasso dessas manifestações, até agora, significa duas coisas: o PCP não está por detrás da organização, a blogosfera é muito pequena.


29.6.04

Sokolov o autocrata 

Um desabafo: vive-se no século vinte e um, o tempo de Stalin já passou há muito. Isto aqui não é a velha União Soviética. Os Czares estão enterrados ainda há mais tempo. Por outro lado estou farto de "artistas" armados em craques e cheios de manias e, perdoem-me o desabafo, o putativo génio não justifica tudo. Claro que existe a liberdade democrática de se ser acéfalo e estúpido, mas cada um que use essa liberdade como Deus lhe deu. Um concerto, mais de quinhentas pessoas apinhadas numa sala de um palácio antigo, Queluz, portas fechadas, janelas fechadas, cadeiras incómodas e sem condições para 3 horas de concerto. Um "génio" autocrata tinha decidido que essas eram as condições ideias para a recepção de um concerto de música em que seria necessário silêncio, em que seria necessária concentração para se poder escutar a interpretação de obras sublimes, supostamente interpretadas por um intérprete carismático, pensador, genial, transgressor mas fundamentado. Um "pensador" que tinha decidido que 36 graus, humidade elevadíssima, e quinhentas pessoas a respirar o mesmo ar viciado numa noite de final de Junho, juntamente com mais umas centenas de lâmpadas de incandescência, era a melhor forma de apreciar um concerto. Conseguiu ruído de fundo constante, senhoras e cavalheiros a abanarem-se com tudo o que tinham à mão, como leques, programas, folhetos papelotes e o que fosse. Conseguiu pessoas a sentirem-se mal e a terem de sair da sala, conseguiu uma porcaria de concerto, sem capacidade de transmitir qualquer ideia, qualquer sentimento, por falta de condições de audição e de recepção do objecto musical.

Enfim, um predestinado para o piano, num concerto que tinha todos os ingredientes para ser sublime e que teve de facto interpretações com uma técnica irrepreensível, mas demasiados pontapés no piano e em Bach (primeira parte) para se poder considerar um concerto maturado e pensado. Sokolov não é um pensador, diga-se o que se disser, assumo o que digo depois do que assisti ontem, diria mesmo que é um imbecil, ou então é autista. Musicalmente tudo o que faz é óbvio, para quem tem a capacidade técnica que tem, basta ler a partitura de Beethoven e exagerar de forma ostensiva, puxando até ao limite tudo o que vem escrito, sem subtileza, sem elegância, violentamente, excessivamente, perdendo o domínio do objecto filosófico e optando claramente pelo lado do desregramento obsessivo.
Desregrado nos pianíssimos, desregrado na "expressividade", desregrado nos fortíssimos, desregrado no uso do pedal, desregrado no touché agressivo quando quer martelar as ideias apaixonadas e violentas de Beethoven. Não, não é o meu género, já o sabia das gravações, já o tinha ouvido no repertório russo onde é excelente. Mas em Beethoven e Bach não é o profundo pensador que se esperava. Em Chopin, Scarlatti e Couperin, extras em que escolheu peças de recorte, de textura, de claridade mas simples intelectualmente, foi perfeito. Tão perfeito quanto a técnica humana permite. Na opus 111 de Beethoven foi demolidor e destrutivo e em Bach limitou-se a fazer tudo o que Bach não podia imaginar que se escondesse por detrás do que escreveu... Bom? Creio que sim, bom pianista. Na Gulbenkian ou no Centro Cultural Olga Cadaval teria sido um melhor concerto? Certamente. Mas, agora que penso nisso, a postura agressiva de Sokolov perante o público foi útil, revelou com mais clareza a faceta autista do intérprete. Fosse noutro local e os mesmo defeitos lá estariam, menos audíveis, menos visíveis. Mas preciso de mais tempo para pensar, para me distanciar, para relativizar. E, admito, a minha análise pode evoluir, é apenas mais uma achega crítica, uma visão pessoal desse mistério que dá pelo nome de Sokolov.

Fiquei com ideia de que Sokolov é uma espécie de "fenómeno", com uma capacidade de digitação e de coordenação motora incríveis, mas com uma total insensibilidade para a recepção daquilo que produz. Uma espécie de cultor de um ego absoluto, que se sente à vontade para fazer o que quer de tudo aquilo que aborda, neste caso Bach e Beethoven. Insensível. Tal como insensível ao objecto público do concerto, insensível ao lado mais místico da música, a capacidade de comunicar.

O público urrou no fim, parecia a tourada, numa demonstração daquilo que se esperava, com ânsia de uns extras que rentabilizassem um pouco mais o bilhete. Degradante. Se eu não tivesse tido um convite teria certamente de manifestar o meu desagrado. Creio que uns "olés" durante a exibição dos dotes do fenómeno seriam apropriados.

No palácio de Queluz fechado, sem ar, com semelhante ogre não me apanham mais. Ao menos na tourada ainda vendem refrescos enquanto se tortura o animal. Em Queluz penamos enquanto o piano é martirizado... E se queriam crítica ao que se passou fiquem a saber que não valeu a pena, será sempre melhor comprar uns discos.

Faltou oxigénio, faltou ar, faltou música, faltou comunicação.

O Polícia 

Hoje atravessava o Chiado, largo junto à estátua do Camões, fim de tarde, carro antigo, descapotável, parado no sinal, um polícia municipal, bigode, cabelo grisalho, sério, encostado ao gradeamento, olhando de cima, inquisitivo:
- O senhor não tem cinto?
Respondo inocente:
- Não posso usar cintos neste carro, tem cinquenta anos!
Resposta pronta do "cívico":
- Então como segura as calças? - com sonora gargalhada. Ainda respondi que estava de calções, mas não fui a tempo, o sinal abriu e o homem ria como um pateta.

Assim vai Lisboa...


28.6.04

Valentim Loureiro Ministro das Finanças 

Pinto da Costa Ministro do Desporto. Cinha Jardim certa na Coltura. Lili Caneças nos Assuntos Sociais. Não-sei-quantas-Napoleão ministra das primeiras pedras e inaugurações antecipadas. Luís Filipe Menezes ministro da Administração interna. Elsa Raposo ministra da nigth... Lobo Xavier ministro do Gel e Educação, nomeado pelo PP.

O meu candidato para substituir Barroso: o homem foi presidente do Sporting e não ganhou o que quer que fosse. O homem dos concertos para violino de Chopin. Um cérebro que nunca escreveu uma linha sobre o que quer que seja. Um homem que não se sabe o que pensa sobre a europa. Um gel... aquilo que Portugal precisava...

Jeffrey Tate no CCB dirige uma verdadeira orquestra Sinfónica Portuguesa 

Ontem foi o concerto da Canção da Terra de Mahler no CCB. O maestro Jeffrey Tate, discreto e muito certo, sábio no trabalho de casa, deu-nos uma leitura poética, muito ligada ao texto poético do alemão de Bethge traduzindo poesias chinesas de Li T'ai-po (1,3,4,5), Chang Tsi (2) e Meng Kao-yen e Wang Wei (6 Der Abschied - O Adeus). Não descobri qualquer referência à autoria dos poemas chineses no programa do concerto. Esta referência seria importante e a sua omissão um erro grave.

Tate sabe como poucos dirigir Mahler, sabe dar-nos a evolução do material temático em infinitos matizes, em variações infindas, com uma subtileza tal que a marcha temática e harmónica se tornam imperceptíveis. Tate não se limita a ler rigorosamente a partitura, Tate transgride e reinterpreta, faz suspensões quando a música e a poesia se aproximam dos momentos de clímax, quer por saturação, quer por despojamento. Mas, por outro lado, a subtileza rítmica de Mahler, é lida de forma tão exacta, mesmo quando transgredida, quase um paradoxo, que quase chega a ser perturbante. Ouvir as alterações súbitas de tempo, sempre surpreendentes, sempre novas, mas tão ligadas ao texto, às mudanças de humor, alegria, euforia, abandono, adeus, desencanto, ligadas ao tempo, ao timbre, à progressão harmónica. Fico sem palavras para explicar, apenas o ouvir, o recordar... Noto a perpétua indecisão entre as tercinas e as batidas a dois tempos marcadas nas harpas depois repercutidas por toda a orquestra e que prenunciam a nona sinfonia, a derradeira, a mortal nona sinfonia que aterrorizava Mahler e que, estranhamente, seria o ponto derradeiro e esperado, anunciado, da sua vida. Volto à oscilação entre esses pólos, essa indecisão que leva à eternidade, é nesse oscilar que o final eterno se condensa. Tate dirige o Abschied, o Adeus que mata mas leva ao eterno, o Adeus com que Mahler abraçou a eternidade do "Ewig..." final. Tate dirige a orquestra responde... que mais há para dizer?

Cantores: o tenor, Keith Lewis, substituto, cantou em esforço e visivelmente preocupado por abraçar um papel pouco preparado, esteve francamente aflito na primeira canção "Das Trinklied..." e francamente melhor nas outras duas, mas sempre a patinar um pouco nas saídas e no final das notas, nas suspensões, nas variações de tempo de Tate, sempre a desligar as notas de forma stressada, preocupado em não falhar a próxima entrada! Cantou sempre entre o meio forte e o fortíssimo, caindo muito para o canto demasiado puxado na garganta e pouco apoiado no corpo, acabou por ser pouco natural. Nota-se que tem qualidade musical, mas o trabalho de ensaio deve ter sido muito curto para apurar a interpretação, embora este papel não lhe seja totalmente estranho. De qualquer modo cantar com o concertino Devries a tocar atrás das costas deve ser terrrrrrífico, é quase o mesmo que cantar com uma arma de destruição maciça do George W. Bush apontada às costas, perdoa-se pois ao tenor algum deslize...

A meio soprano Petra Lang, substituta, foi a taluda para a produção, estava em Sevilha a cantar este papel, estava muito bem preparada, uma voz de uma grande elegância e subtileza, uma interpretação poética e musical notável, vibrante mas melancólica ao mesmo tempo. Graves pouco naturais mas muito bem preparados e bem disfarçados, trata-se de uma meio soprano e não de uma contralto. Os ataques perfeitos, um entendimento com Tate que parece ter sido amor à primeira vista, não notei uma entrada fora de tempo, um desligar dos tempos oscilantes de Mahler e Tate, não houve um perder do tempo quer nas inflexões súbitas quer nos ritardandos. Ensaio no sábado, concerto ao domingo... e a perfeição.

Da orquestra quando está óptima pouco resta a dizer, há que corrigir o concertino, talvez um curso de reciclagem. Madeiras excelentes, clarinetes, flautas, oboés, fagotes, contrafagote: bravo o solo do Abschied, trompas divinas, celesta claríssima, harpas bem, restantes metais discretos na estridência e imperiais no som, como mandam as regras. Cordas muito bem, violinos (apesar do tal) sem desafinar e coesos, o que é raro, violoncelos e contrabaixos dentro do costume que é muito bom, violas untuosas e sonoras, percussões muito musicais.

O coro em Schumann, uma obra facílima, foi melhor que o costume, mas mesmo assim empastelado e a precisar urgentemente de um maestro de coro que saiba trabalhar um coro.

Um concerto que se deve todo a Tate e ao profissionalismo e qualidade dos músicos. O que seria se a OSP tivesse sempre maestros deste calibre? Seria uma grande orquestra mundial dentro de pouco tempo.


Um problema de direcção - Um artigo de política cultural 

Separei a crítica do concerto de ontem da análise da direcção musical da orquestra sinfónica portuguesa como se verifica no seu modelo actual e ligada ao teatro de S. Carlos e ao respectivo coro. Tudo interligado e debaixo da mesma direcção. No próximo post falarei em concreto do concerto de ontem.

O Schumann ouvido ontem, no CCB, pela orquestra sinfónica portuguesa dirigida por Jeffrey Tate é um Schumann espúrio, um pequeno retalho sem qualquer nexo com a filosofia estética do restante concerto: a Canção da Terra de Mahler. Eu diria que aqueles dez minutos (aliás lindíssimos) da Nachtlied de Schumann se justificaram apenas para que o coro do Teatro Nacional de S. Carlos estivesse ocupado. Ou talvez para aprender algo com um maestro a sério: Jeffrey Tate. Repare-se que falta ao coro do S. Carlos um maestro de coro digno desse nome, e isto há muitos anos. Esta falha vai ser reparada: vem aí um novo maestro de coro, directamente de Génova. Parece que o anterior maestro de coro vai para assistente do maestro titular da orquestra sinfónica portuguesa. Uma promoção!
Agora a orquestra sinfónica portuguesa fica sob a direcção de um titular ausente e, geralmente, incapaz: Peskó. Este maestro titular será coadjuvado pelo novel assistente. Assistente sem formação para o cargo e que mostrou à saciedade uma total incapacidade para a direcção do Coro do Teatro durante os anos em que contribuiu para a destruição do mesmo.

Nota sobre o maestro Peskó: ainda tenho nos ouvidos uma das mais lamentáveis interpretação de todos os tempos da Noite Transfigurada de Schönberg cruelmente assassinada por Peskó, que depois arruinou completamente um segundo acto do Tristan und Isolde com entradas em falso, falta de sentido musical, incapacidade musical de leitura, falta de trabalho, falta de estudo, falta de trasparência, falta de tudo. Um desrespeito total pelo público e pela música que seria punida com despedimento com justa causa em qualquer casa de ópera dessa Europa. De Santos são inúmeras as tropelias, mas a pior será talvez, é difícil escolher, a cantata de Beethoven no S. Luiz em que já ninguém sabia onde estava o coro, e que nem o maestro sabia se aquilo tinha ou não chegado ao final! Afinal o coro andar dois ou três compassos perdido da orquestra é outra especialidade e nem sequer é das piores, ou a afinação dodecafónica em que se usam todos os tons possíveis para cantar a mesma nota em uníssono!

É assim que se promovem os novos valores em Portugal! Tinhamos sugerido aqui uma promoção, ironicamente, para um lugar onde não empatasse, tipo director de estudos musicais ou outra coisa qualquer onde ficasse a fazer o que sabe: do género tocar piano. Fomos escutados. Se o novo maestro assistente servir para andar a transportar cafés, fazer anotações nas partituras, trazer e levar casacos e chapéus aos maestros que visitam o Teatro de S. Carlos, talvez a escolha tenha sido acertada.
Mais do que essas funções a nomeação deste senhor será uma das maiores asneiras que a direcção do Teatro pode fazer. João Paulo Santos não tem sequer capacidade musical e de direcção para se fazer ouvir por uma orquestra recheada por músicos de grande qualidade e que sabem muito mais de música, em muitos casos, do que o anterior director do coro. João Paulo Santos não sabe o que é afinar um coro, João Paulo Santos faz cortes em partituras porque não consegue sequer explicar a música ou como dirigi-la ou colocar o coro a cantar como deve. Veja-se o triste exemplo do concerto com Messiaen em que compassos e compassos foram obliterados por serem demasiado "difíceis".

O problema que se põe agora é recuperar um coro com problemas de atitude, com vícios musicais, indisciplinados, com vozes perdidas. Com cantores contratados sem critério. O Coro do S. Carlos precisa de um vendaval que recupere as muitas vozes que ainda podem voltar a cantar depois destes anos todos em que não só se perdeu tempo como se andou para trás...

Depois desta dupla de maestros "titulares", Peskó e JPSantos, temos um concertino vaidoso e pouco dotado musicalmente. Se fosse só vaidoso seria desagradável, se fosse apenas pouco dotado teria a capacidade de se restringir ao que sabe sem impor as suas "ideias" aos restantes músicos, mas sendo vaidoso e incapaz torna-se destrutivo. Ontem tivemos mais um desgraçado exemplo: a entrada depois da orquestra para as palmas da vaidade bacoca, tudo bem se soubesse tocar. O solo da Canção da Terra com acentuações disparatadas, sforzandos ridículos com cacetadas do arco inconcebíveis, umas saídas do tempo não se percebe se por incapacidade musical ou por "expressividade" à revelia do maestro Tate. Um pizzicato, um dó desgarrado que serve para dar cor ao remate de uma nota dos sopros, a ser tocado em fortíssimo e antes do tempo de entrada dos restantes violinos. Sempre em fortíssimo, sempre sem nuances, sempre a forçar. O problema não é uma nota fora de tempo ou um pizzicato mal feito, todos fazemos erros, somos todos humanos. O problema é o erro ser deliberado, ser motivado pela ânsia de sobressair. O erro aqui é um barómetro da incapacidade artística do autor. Não é um erro por descuido ou azar, ou uma falha casual. O erro quando motivado pela arrogância da vaidade mesclada com ignorância deve ser fortemente criticado e penalizado.

Pensar que a OSP terá à frente estes três senhores, um maestro acabado, um assistente incompetente e um concertino vaidoso mas oco, é uma desgraça assim tão grande?
Talvez não, repare-se que o titular Peskó nunca está em Lisboa, João Paulo Santos não tem qualquer hipótese de dominar uma orquestra que tocará apesar da sua direcção e que se estará nas tintas para o que fizer ou disser. Finalmente o concertino Devries só toca de vez em quando. Neste último caso os violinos têm de tocar apesar das gésticas escusadas e dos dislates musicais. Devem importar-se sobretudo com o seu papel e com os bons maestros que nos visitam.
Só assim se justifica que o concerto de ontem tenha sido muito bom.


25.6.04

Epidemia afasta cantores 

Segundo algumas fontes bem informadas uma estranha epidemia afastou os solistas do concerto de domingo da Orquestra Sinfónica Portuguesa. Robert Gambill o grande tenor não vai cantar, a solista feminina Nadja Michael, também adoeceu. Será a mesma doença que afasta Elisabete Matos sempre que se prepara para cantar em S. Carlos?
Os melómanos atormentados perguntam: Será que a garantia de qualidade deste concerto, Jeffrey Tate, maestro previsto, não virá a ser substituído à última hora por algum maestro assistente feito à pressa?
A esperança é a última a morrer e nós lá vamos estar às 16h para escutar Mahler dirigido por Tate. Sempre que Tate dirige a OSP esta mostra uma qualidade ímpar que outros deixam escondida e que existe. Não perca a ocasião de ouvir a Sinfónica a brilhar.

Concerto de altíssima qualidade no Coliseu 

A Filarmónica de Munique apresentou-se sob direcção de Boreyko, aqui já falado. Terça feira última.

O programa começou pelo jovem Wagner: abertura de Rienzi. Wagner quase autodidacta, aprendendo com as óperas de Weber, amando Beethoven, aspirando ao infinito, de forma ainda académica, um jovem cuja ambição era o universo. Essa vontade de poder aparece de forma notável na abertura de Rienzi, uma sucessão de momentos fortes, ainda sem o domínio da paleta orquestral das suas últimas obras mas com um entusiasmo transbordante. Um entusiasmo que a Filarmónica de Munique transmitiu. No seu elemento estiveram os metais, as madeiras, as cordas e a percussão que deram uma força "bávara" ao mestre alemão. Vigor, poder, amor pela música, belo.

Se a orquestra foi notável em Wagner, pela força e pujança da sua sonoridade transbordante e equilibrada, em Ravel foi subtil, uma mudança de cambiantes quase mágica, Boreyko dominou a direcção com subtileza, com plasticidade. Ravel, embora tocado com poder sonoro, foi tratado com luvas de pelica, era um gosto ver os instrumentistas das madeiras, flauta sobretudo, aplicarem-se com gosto e empenho nesta música quase diáfana.

Mas se a primeira parte foi muito boa, a segunda, com Brahms, não foi pior. Brahms foi dirigido com competência, com realce dado às harmonias que esconde atrás do seu classicismo. Eu não sou um admirador incondicional da primeira de Brahms mas dirigida por Boreyko não se notou qualquer empastelamento, todos os cambiantes foram transmitidos. Notou-se o ênfase na modernidade escondida na partitura. Segundo um amigo presente, e que cito com toda a propriedade: "Boreyko não leu o Brahms que olha para trás, Brahms foi lido como o homem que olha para o futuro e acaba por deixar aberto um caminho sólido para Alban Berg e a segunda escola de Viena", por muito discutível que esta opinião possa parecer eu concordo plenamente.

Boreyko foi plástico, competente nas entradas, escolheu bem os tempos, foi lírico nos momentos certos e enérgico nos pontos mais empolgantes. Os seus sinais junto da orquestra mostraram grande comunicação e empatia com os músicos.

A orquestra mostrou-se forte nos metais e madeiras, com imprecisões infinitesimais nas entradas. O ritmo das percussões impressionou. Os violinos desacertaram um pouco na exactidão do pizzicato. Mostrou uma grande segurança em Ravel, o som em Brahms foi muito belo, envolvente, diria eu, sem nunca ser demasiado espesso. Boreyko deu uma leitura transparente e muito bela. Creio que ficámos a ganhar relativamente a Levine.

O extra foi uma dança húngara de Brahms, tocada de forma muito lírica e com um sentimento muito húngaro. Um grande concerto. No início do concerto o Hino Nacional (presidente presente) foi tocado com energia e um cuidado musical raro, Boreyko entusiasmou a orquestra na interpretação da obra de Keil do Amaral e Henrique Lopes de Mendonça.

Detalhe curioso: Boreyko benze-se sempre antes de entrar em palco e tem um ajudante que o penteia quando sai depois de agradecer as palmas. Um dos concertos melhor conseguidos desta série das orquestras mundiais. Pena não ter sido Mahler.

22.6.04

A canção da Terra, uma partitura indispensável 



E um concerto a não perder, Jeffrey Tate este domingo, pelas 16h no CCB, com a OSP para esquecer futebóis. Para ouvir a Música.

Camões e o Soberbo Castelhano 

E, por que mais aqui se amanse e dome
A soberba do inimigo furibundo,
A sublime bandeira Castelhana
Foi derribada aos pés da Lusitana.

Luís Vaz de Camões, "Os Lusíadas", Canto IV, 41.


19.6.04

Festival de Sintra 

Sem relativização alguma: Vasco Wellenkamp é absolutamente brilhante, já o provou inúmeras vezes, agora como director do Festival de Sintra, na parte do bailado, consegue uma programação deslumbrante. Ontem Nederlands Dans Theater, um espectáculo de bailado por uma companhia de topo a nível mundial. Repete hoje, sábado, no Centro Cultural Olga Cadaval. Uma companhia que esgotaria salas pelo mundo fora, que tem listas de espera para os seus espectáculos de anos, ontem às 21h30, tinha meia casa enquanto os futebóis esgotam. Triste país este de bandeira a meia haste, onde constantemente se ouvem lamúrias relativamente à inexistência de iniciativas culturais. A verdade é que não foi apenas ontem. Por todo o país, cidades que organizam festivais de música e de dança têm muitas vezes as salas às moscas. Será falta de divulgação, será porque é demasiado barato e o povo julga que é sinónimo de má qualidade. Não dá para perceber. Podem-nos dizer que é a crise, a falta de dinheiro... mas dificilmente acreditaremos quando vemos os estádios de futebol cheios com bilhetes a preços exorbitantes e bares por Lisboa fora a abarrotar de gente de copos na mão.

Deixem-se de histórias, aproveitemos a qualidade que estes Festivais oferecem. E os músicos, cantores e bailarinos portugueses onde andam? Porque não ajudam a divulgar esta belíssima programação, porque é que não ajudam a encher as salas... porque é que não aprendem com os outros? Estranho, não?! Ai, espera... estariam a trabalhar!?

Os tais músicos portugueses que nunca aparecem em concertos a não ser quando tocam.

Recomendamos fortemente este espectáculo de bailado, hoje no Centro cultural Olga Cadaval, do melhor que vimos em termos de bailado, em todo o mundo. Ainda há bilhetes, infelizmente, corra a Sintra e não perca uma noite fantástica de bailado contemporâneo.

Toda a programação do Festival é de grande qualidade. Mesmo o quinteto do Burmester, Saiote e companhia, se estudarem, se melhorarem relativamente a concertos anteriores, pode não ser tão mau como M.P. relatou aquando do Festival de Leiria.

Festival de Sintra

H.S. com S.B.

Relativização 

A crítica deve ser sempre exercida criando distância, relativização face ao objecto. A crítica emotiva, sensorial, é a negação de qualquer hipótese de análise racional. Isso não nega, nem contradiz o pricípio dionísiaco da fruição estética, que necessita obrigatoriamente de uma lado emocional profundo sem a qual a experiência vivida será sempre incompleta. Mas o crítico, e somos todos críticos quando apreciamos e gostamos de arte, deve poder abstrair-se, geralmente à posteriori, do lado puramente emotivo. Esta relativização conduz a uma reflexão mais ampla, mais lata do objecto. A uma maior compreensão das obras, a uma pesquisa de contexto e, no fundo, a um enriquecimento interior e a um prazer cada vez maior na fruição artística e cultural.

Sem relativização cai-se no disparate, na patetice bacoca de um elogio acéfalo; com excessiva relativização e pretensa erudição, muitas vezes sem alicerces numa fruição coerente, cai-se numa crítica pretensiosa sem qualquer sentido, pode-se até ser destrutivo sem se ser pedagógico, um dos maiores erros que um "candidato" a crítico pode cometer.
Estes extremos são ilustrados pela última "crítica" de ópera (Stiffelio) que saiu no DN em que se faz um elogio acéfalo e totalmente desregrado da produção e da direcção do teatro de S. Carlos, sem reflexão, sem relativização, sem apontar defeitos e caminhos. No outro extremo temos a "crítica" do eterno candidato a crítico, Augusto Seabra, pomposa, prolixa, confusa na escrita e nas ideias, talvez porque pouco assente em verdadeiros conhecimentos musicais e demasiado em referentes "eruditos" e muita pretensão. Seabra é bom em cinema mas gostava de ser crítico de música. Um equívoco que acaba por ser destrutivo.
No meio estão os críticos que não conseguem criticar porque não sabem se vão errar, não sabem se gostaram ou não, sentem-se inseguros e fogem, como o diabo da cruz, de uma definição, a não ser que o objecto seja inquestionável, ou eles assim o pensem. Exemplo: críticas a "grandes orquestras mundias" em que se elogia invariavelmente qualquer que seja o concerto e o maestro, mesmo quando há defeitos manifestos, v.g. críticas à orquestra do festival de Budapeste, ou críticas de Manuel Pedro Ferreira em geral. Neste caso situo também alguma da crítica que se faz no Expresso, exemplo Festa da Música. Excepção feita a Jorge Calado, crítico de ópera do Expresso, homem cuja erudição, paixão, arrebatamento, conduzem a uma escrita vigorosa e empenhada, segura mesmo quando sabe que é polémico. Fruto de uma fruição emotiva. Sem distanciamento? Talvez, mas com muita relativização, que resulta de leituras intensas, de constantes viagens aos melhores teatros do mundo anos a fio. Aqui a excessiva paixão é compensada pelos riscos que assume e pelo prazer que a sua escrita dá ao leitor.
João Almeida é também exemplo desse entusiasmo, nos seus apontamentos sobre música clássica na rádio, mas com menor erudição que Jorge Calado, é claro que o prazer que põe nas coisas, a alegria e entusiasmo com que arrisca tornam muita agradáveis os seus trabalhos; no entanto não pretendem ser "crítica" no sentido tradicional do termo.
Existem muitos estilos de crítica musical, mas a relativização e o distanciamento, aliadas a uma constante dúvida, a pesquisa constante, e a certeza objectiva dos detalhes técnicos, antes de passar à análise da concepção e do lado artístico, serão sempre os alicerces de qualquer crítica séria. Bem como o entendimento das dificuldades que a criação artística encerra e compreensão pelo lado humano dos artistas. Sem, no entanto, se deixar de ser implacável com faltas de profissionalismo e com fraudes. Mas a essência é a relativização.

17.6.04

MERCÈ RODOREDA  

Um mês depois do falecimento de Mercè Rodoreda, Gabriel García Márquez escreveu: “la vida privada de Mercè Rodoreda es uno de los misterios mejor guardados de la muy misteriosa ciudad de Barcelona”.
Mercè Rododeda, durante o tempo do exílio, dos finais dos anos 30 aos anos 70, viveu em Genebra, Paris (onde assistiu à entrada dos nazis) Limoges e Bordéus, com o companheiro e seu mais exigente crítico Joan Prat, mais conhecido por Armand Obiols. Com ele viveu um amor secreto e condenado pelos companheiros do exílio (Obiols era casado e tinha uma filha) o que terá sido determinante na opção de ficarem na Europa, contrariando o exílio preferido rumo à América Latina.
Em Genebra viviam num pequeníssimo apartamento: apenas uma sala que servia de quarto, onde o sofá à noite se transformava em cama, uma cozinha e um casa-de-banho e, claro, a máquina de escrever. Entre esse apartamento e Paris terá escrito a sua maior obra “A Praça do Diamante” e outras novelas que a consagraram ainda em vida e que permitem reconhecê-la como o maior nome da literatura catalã contemporânea.
Deixou mistérios. Alguns desvendados pela imprensa, um casamento consanguíneo com um tio, do qual nasceu um filho esquizofrénico, e outros que levou com ela, pois cumpria a máxima de Sterne : “I honour you, Eliza, for keeping secret some things”.
Nunca escreveu para o público mas apenas para o seu segundo companheiro Obiols, seu mais exigente e inteligente crítico, para quem afirmava que escrevia enquanto o esperava das viagens de trabalho e das temporadas que passava em Viena junto da mulher e filha. “Todo el decurso del tiempo de una mujer es esperar. Y yo escribía esperando el regreso de Obiols…Entonces era cuando escribía más y mejor.”.
Depois da morte de Obiols, isolou-se em Romanya, numa casa a quinhentos metros de altitude, construída já com os proventos dos direitos de autor, um desafogo material de que nunca gozara. Ao longo da via apenas lhe interessou ler, sobretudo romances policiais- que a ajudaram a urdir o “plot”- ingleses e franceses, escrever, tratar das flores e do pequeno jardim que no fim da vida criou em Romanya. Passavam-se dias sem falar com ninguém. Vivia entre a imaginação e a espiritualidade. A secretividade acompanhava-a tanto quanto aos seus personagens, pois, como diz García Márquez, ela era uma cópia viva dos personagens. Depois da sua morte, soube-se que fez parte dos rosa-cruz locais. J.M Castellet que foi seu editor e amigo interrogou-se: “cheguei alguma vez a conhecer esta mulher”?

Clara



Um maestro de coro 

Começamos hoje uma nova série de posts, maestros de coro. Verdadeiros, com estudos, currículo, conhecidos a nível mundial. Prova-se que existem, têm formação e estão no mercado. Italianos, alemães, franceses. Deve-se notar que em Portugal não existem coros profissionais dignos desse nome. A Gulbenkian tem um coro semi-profissional relativamente bom e o S. Carlos tem um coro de ópera que é pior que muitos coros amadores desse mundo. Basta ver o exemplo de Colónia, onde entre coros profissionais e amadores há mais coros que em Portugal inteiro, sendo o seu melhor coro amador superior a qualquer coro português. Qualquer política cultural musical terá de passar pelo reforço desse débil sector da nossa actividade artística. Orquestras parece que já existem, faltam agora os coros.

O maestro de coro de Bayreuth desde 2000.

Eberhard Friedrich, nascido em 1958

Trabalhou com Rilling, foi director de coro em Koblenz e, desde 1991, em Wiesbaden no teatro nacional do Hesse. Trabalhou com o coro nacional de crianças em Baden-Wuerttemberg. Trabalhou ainda em Krakau, Talinn e Vilnius, dirigiu o coro Philharmoni de Praga e o coro da rádiodifusão da Baviera. Desde 1993 que Eberhard Friedrich colabora em Bayreuth, onde trabalhou como assistente do Professor Norbert Balatsch. Em 2000 foi nomeado director de coro do festival. É o director de coro que está a trabalhar em Bayreuth este ano.


A vitória do PS - Razões higiénicas 

Estive ontem com um grande amigo. Na conversa veio à baila a vitória do PS. Ele disse logo que percebia o porquê escondido dessa vitória, até ele que não era PS tinha votado nesse partido. Fiquei surpreso, e perguntei-lhe porque razão. A resposta veio cartesiana:

"Já reparaste que o povo quis Ana Gomes, Edite Estrela, Elisa Ferreira e Jamila Madeira em Bruxelas. Nos próximos anos a probabilidade de encontrar qualquer uma dessas senhoras em Portugal passa a ser muito menor."

Realmente tem razão, se eu tivesse olhado com atenção para as listas do PS também teria votado nesse partido. A qualidade de vida em Portugal vai subir muito nos próximos anos.
Eu queria colocar fotos destas senhoras, mas acho que degradava a imagem estética deste blogue.

Henrique Silveira

16.6.04

Notícia de Última Hora 


James Levine não dirige a Filarmónica de Munique a 22 de Junho.
Doença é a razão oficial. Problemas nas costas de Levine. Era sabido algum mal estar entre a direcção da orquestra e o maestro da "batuta de ouro", já que tudo o que Levine toca com a batuta se transforma em dinheiro. Não sabemos se este mal estar se traduziu na necessidade de Levine ter repouso absoluto ou por causa da oficial vértebra marota.
Talvez seja melhor assim. A qualidade musical de Levine, fora do Met, tem sido questionada.
Todos os concertos da digressão planeada serão dirigidos por Boreyko. Levine deixa Munique, onde substituiu Celibidache, para se tornar titular de Boston.
O próximo titular de Munique será o ainda jovem mas consagrado Christian Thielemann, que também visitará Lisboa e que se notabilizou em Wagner.
Poderemos ver e ouvir este último maestro em Bayreuth no final de Agosto.

O maestro substituto é o menos célebre, mas musicalmente muito bom, Andrey Boreyko, titular da orquestra de Jena, nascido em 1957 em S. Petersburgo.
Segundo o Süddeutsche Zeitung, 16.06.2003, Boreyko foi absolutamente brilhante na sua estreia à frente da filarmónica de Munique, em 13 e 14 de Junho do ano passado. O público alemão vibrou e aplaudiu intensamente, o programa foi apenas e só Igor Strawinsky.

O programa do concerto de Lisboa mantém-se, o que é pena, em vez da sinfonia nº1 de Brahms bem se podia regressar a Mahler.




15.6.04

O Jogo no Estádio do Dragão 

Sábado 14h30m: Matosinhos, Metro. Como a nossa casa no Porto se situa na Foz lá fomos apanhar o "metro" a Matosinhos. Na estação Matosinhos Sul já não havia bilhetes! Lá fomos até à primeira estação. Assim conseguimos ir sentados no eléctrico. Os bilhetes chamam-se "andantes".
Os tais "andantes" têm de se comprar a cinquenta cêntimos para depois pagar ainda mais um euro por cada viagem. Devo dizer que o preço dos bilhetes é caro: o andante, ida e volta dois euros e cinquenta, quinhentos escudos dos antigos para ir e voltar às Antas, exagero? Creio que sim. O Metro de Lisboa é mais barato.
Serviço do Metro? Em dias de grande movimento os eléctricos saem de 8 em 8 minutos de Matosinhos. O serviço é mau nestes dias. Na estação de Matosinhos Câmara Municipal o eléctrico em que circulávamos encheu. Os nossos companheiros de viagem, portuenses bem castiços gritavam em cada estação:

"Não entra mais ninguém, não entra mais ninguém!"

E depois

"OOO Hop, OOO Hop!"

antes do eléctrico arrancar. Um coro improvisado bem mais certo que o do S. Carlos. Entretanto o calor apertava e o ar condicionado do eléctrico deixou de funcionar! Como o eléctrico estava superlotado imagine-se o inferno, as portas não abriam em nenhuma estação. Deficientes, idosos, público em geral amontoavam-se nas paragens sem poder entrar, metro a metro, lá iam ficando nas estações.

Depois os envolventes do estádio estavam ainda em acabamentos, cabos eléctricos à vista, etc. O estádio é muito bom, um bom projecto, muito aberto, arejado. Estava-se muito bem. A cobertura defende bem do sol e o ar circula de forma a aliviar o calor. Bares bem organizados. Cerveja só sem álcool. Muito bem.

Segurança muito fraca, na nossa entrada só revistavam os homens, e mal, eu trazia uma garrafinha de água que entrou nas calmas no estádio. As senhoras iam entrando e os senhores que controlavam a entrada gritavam para outra entrada: "Ó Manel manda para aqui uma mulher para revistar as senhoras que a gente não revista mulheres"...

A selecção entrou muito mal em campo, pareciam umas meninas a tremer. Rui Costa muito em baixo. Defesa a fazer fífias, Fernando Couto a desafinar, encolhendo-se em vez de arriscar. Ricardo mediano não fez solos dignos de nota.
Paulo Ferreira a titubear de forma lamentável. Costinha a recuperar bem bolas mas a perdê-las depois. Nota curiosa: na primeira parte a selecção portuguesa jogou apenas na sombra, a faixa de sol estava sempre livre de jogadores portugueses, não se pode perceber na televisão, mas no estádio foi manifesto. Uma auto-estrada para os gregos, os portugueses deviam sentir muito o sol coitadinhos...

A certa altura os gregos da bancada central, onde nós estávamos, começaram a gritar olé, olé, aos passes dos seus jogadores! Um castiço do Porto levantou-se, umas filas abaixo, virou-se para os gregos e de dedo médio bem espetado no ar num gesto bem característico do Portugal destes eventos disse em voz bem sonante, e ar zangado, dirigindo-se aos gregos: "Vão todos para o {@£alho"! Toda a bancada central, apesar dos dois a zero desatou a rir à gargalhada e o castiço lá se sentou de novo muito mais aliviado perante a impassibilidade dos gregos!

Enfim um bom jogo dos gregos e péssimo para os portugueses. Saímos e surpresa: o chão das entradas estava cheio das garrafas e materiais apreendidos à entrada do estádio. Que vergonha, o pessoal nem sequer tem sacos ou depósitos para colocar o lixo que proibe de entrar no estádio! Tudo no chão num estendal nojento. Muito mau sinal da organização. Lá apanhámos o metro de volta para Matosinhos. Comentários sobre Scolari, Rui Costa, Figo, Costinha, Paulo Ferreira, Ricardo, Fernando Couto, Pauleta, irrepetíveis aqui neste blogue. O comentário de outro castiço no metro: "no Porto só ganham os azuis e brancos, c...".
Um Porto vintage, prova do dia seguiu-se no Museu Romântico, Solar do Vinho do Porto e depois ala para a Foz para uma jantarada bem regada.

Os acessos ao estádio são muito fracos e o metro chumbou nesta prova de fogo.

12.6.04

 




Amanhã, desdizendo tudo o que tenho aqui dito, vou estar num estádio a torcer para que Portugal vença. Com a tristeza de ver empresas de bebidas alcoólicas a patrocinar o suposto "desporto". Obrigado a "R" que nos ofereceu os bilhetes. Destes amigos não há!

Na crítica que farei espero não vir a dizer que a defesa desafinou, que o guarda redes deu notas erradas ou que os avançados deram fífias!

11.6.04

Os "anos de prisão" de Verdi 

Segundo um crítico de um jornal diário: "É a última ópera dos anni di galera (anos de prisão) de Verdi, período em que, entre o Nabucco (1842) e o Rigoletto (1851), Verdi escreveu 13 óperas (quase metade da sua produção)."
O leitor incauto fica pois a saber que Verdi passou uns anos na cadeia onde escreveu quase metade da sua produção. De facto, e essa explicação falta, são os anos de sofrimento, de experimentação, de trabalhos incessantes na busca de um estilo a que Verdi, ele próprio, dava o nome de Anni di Galera. Não se assuste o leitor que Verdi não esteve preso nesses anos. Creio que o erro do crítico se deve a uma tradução automática de um texto ou a falta de caracteres para explanar decentemente as ideias. Neste último caso devia abster-se de induzir o leitor em erro. Contaram-me hoje na ópera, entre gargalhadas, que leitores houve que garantiam que Verdi passou uns anos na cadeia uma vez que tinham lido isso no sacrossanto DN!
Por outro lado a pergunta legítima: se Rigoletto é o ponto final destes anos, como pode Stiffelio ser a última das óperas dos "anos de prisão" de Verdi? O artigo citado não explica o paradoxo... Além disso se contarmos Stiffelio temos 14 óperas, e se contarmos com a revisão dos Lombardos (Jerusalem) 15! Se retirarmos Rigoletto e a revisão dos Lombardos temos as tais 13, mas não acaba em Rigoletto, afinal onde ficamos e quantas são as óperas? A "trilogia popular" pertence, ou não, aos "anos de prisão"? Ou só o Rigoletto, o que dá as tais 14 óperas? Confuso? Eu fiquei ao ler o artigo. Será que falta a palavra "exclusivé"? Mas o Nabucco não é dos anni di galera? Todos os musicólogos o incluem neste período, que se segue à depressão pela morte da primeira mulher. Alguém que me explique o teor do artigo citado, que eu não arranjo forma de perceber o que o autor queria dizer!


Verdi acabadinho de sair da "prisa" em 1851!

Mas passemos ao prato de resistência:

11 Junho 20:00h
Teatro Nacional de São Carlos

Stiffelio
Giuseppe Verdi
Melodramma serio em três actos, com libreto de Francesco Maria Piave.

Direcção musical
Donato Renzetti
Encenação, cenografia, figurinos e desenho de luzes
Ulderico Manani

Intérpretes

Stiffelio: Mario Malagnini
Lina: Dimitra Theodossiu
Stankar: Carlo Guelfi
Raffaele: Leonardo Melani
Jorg: Andrea Concetti
Federico: João Miguel Queirós
Dorothea: Isabel Biu

Orquestra Sinfónica Portuguesa
Coro

Produção: Teatro Comunale de Trieste



Cantores: a parte de leão desta produção.
Stiffelio: Mario Malagnini foi notável, pujante, claro, afinado, agudos rutilantes, metálicos. Grande recorte técnico, excelente dicção, bem interpretado, com acento no dramatismo nos pontos chave. Uma voz muito bem apoiada, sempre físico, pés bem assentes no chão, as notas parecem vir todas do peito. Um jovem verdiano nato. Um pouco pior nos graves, mas sempre em grande estilo, bom actor. A voz deveria, opinião pessoal, ser mais escura, mais abaritonada. Mas cada qual tem a voz que Deus lhe deu e Malagnini é um grande cantor e provou-o. Fará um bom Siegfried? Parece-me ter o timbre ideal, este jovem tenor não cantou ainda Wagner, provavelmente nem quer...
O facto de ter começado pelo trombone parece dar-lhe um fôlego e uma capacidade de respiração invejáveis.

Lina: Dimitra Theodossiu. Já esteve no S. Carlos antes. Segundo uma amiga nossa durante o intervalo: "tem grande sentido dramático". Concordo, uma actriz perfeita. A voz é algo àspera nos agudos, é uma voz angulosa, sobretudo a frio, ou seja no início da récita. Mas compensa com grande maestria na interpretação, na colocação. Tem graves de grande intensidade expressiva. Uma grande cantora e uma senhora actriz. Tira partido da voz que tem de uma forma intensa.

Stankar: Carlo Guelfi. Um senhor barítono, bom actor. Uma voz de peito com uma ressonância espantosa. Às vezes um pouco mais de dificuldade na agilidade vocal necessária em Verdi. Superior, claramente, no registo grave, consegue mesmo assim um bom equilíbrio de registos. Interpreta bem em termos musicais. Confiante e seguro de si.

Raffaele: Leonardo Melani. Um bom tenor neste papel. Já antes tinhamos dito que não tem grande potência. Fez um Werther muito razoável anteriormente. É muito jovem, este papel mais pequeno que o de Werther, assenta-lhe muito bem. Inteligente, boa voz de cabeça, actor sério. Também é uma aposta ganha.

Jorg: Andrea Concetti. Um baixo respeitável, muito jovem também, tem um grande caminho e um grande futuro pela frente. Não sei se o papel hierático e hirto de um baixo verdiano de circunstância será o ideal para este jovem cantor, Marcello da Bohème, o Poeta do Turco ou Leporello parecem assentar melhor a Concetti. Ficámos curiosos de o escutar nesse seu repertório. Mas foi bravo neste papel.

Federico: João Miguel Queirós, correcto no pouco que tem para mostrar nesta obra.

Dorothea: Isabel Biu. Demasiado voluntariosa, quis sobressair onde não podia fazê-lo. Consequência: um timbre demasiado gritado para se poder apreciar. Não aprovada. Precisa de ter mais calma.

Orquestra com vivacidade, apostada em despachar a última récita da ópera de forma desempenada. A direcção descontraída e muito musical de Renzetti ajudou. No primeiro acto a desafinação crónica dos violinos. E já agora: os pizzicatos devem ser atacados todos ao mesmo tempo. Pizzicato não quer dizer harpejado! O que se ouviu na abertura foi um descalabro total, uma entrada increditável em que em vez de se ouvirem as notas dos violinos a uma só voz, e de uma só vez, choviam pizzicatos de todos os lados possíveis e imagináveis, em todos os tempos possíveis. De fugir e a fazer prever o pior, mas a coisa foi-se compondo. Nota-se muita insegurança no naipe quando o concertino titular aparece. Nota-se também grande imprecisão nos ataques, reforçada quando o tal concertinho titular pensa que está a controlar a situação! Deve ser do tique que tem de entrar sempre antes do tempo, imaginando que com isso que está a dar um exemplo de confiança ao naipe. De facto está a esborrachar entradas e a lançar a confusão.
Os restantes músicos deviam esquecer as entradas do concertino e concentrarem-se no maestro e na sua própria musicalidade. Bom o solo da abertura, sonoridades muito belas nas madeiras nos momentos mais "bizarros" da orquestração de Verdi. Cordas graves em grande estilo, sonoras, coesas, pizzicatos seguríssimos nos graves a contrastar com os violinos.

O coro: deviam, de uma vez, cantar em vez de berrarem desalmadamente e de forma pouco coesa. Soa feio. No primeiro acto mais uma vez andaram à deriva com cantores a entrar fora de tempo e com problemas de afinação disfarçados pelo número. Os fortíssimos foram de fugir. Quando tentaram cantar mais em piano a coisa foi melhor. O miserere final foi fraquito. Continua a não existir um coro de ópera profissional em Portugal. Maestro de coro precisa-se. Depois de um ano de trabalho aparece o coro completo mais uma vez, a segunda ópera num ano inteiro de temporada. Há que pensar: Afinal o dinheiro que o estado dispende com tão inútil coro é bem gasto?

A encenação foi muito rigorosa, mas a obra teatral é uma nódoa em termos de libreto. Piave aqui nada tem a ver com Da Ponte, ou com os libretos de Rossini. Uma confusão de conceitos, de avanços e recuos, de contradições. Um tema moderno: a questão do adultério, o perdão que acaba por ser concedido pelo marido enganado à mulher adúltera.

Um tema de reconciliação que Verdi ilustra de forma notável em termos melódicos e, pontualmente, em termos de colorido orquestral e harmónico. Aqui e ali uma certa mistura de música de banda, os célebres acompanhamentos fáceis de Verdi em contratempo não deixam de aparecer. A cena final é metida a martelo no contexto da ópera que é finalizada de forma brusca. É como se "Verdi estivesse farto da ópera e quisesse acabar com aquilo depressa". A encenação faz o possível para não destruir o que resta da verosimilhança na obra. É uma encenação conformista, mas cenicamente bem conseguida em termos estéticos, boas marcações e bons efeitos cenográficos. Muito bem idealizada a cena em dois planos em que Lina concede o divórcio e se confessa a Stiffelio/Rodolfo enquanto o pai mata o sedutor. Figurinos sem grande rasgo, distribuição de cores pelos membros do coro irregular e pouco conseguida em termos de estética de conjunto.

Produção muito bem conseguida pelo naipe extraordinário de cantores/actores reunidos. Leitura de Renzetti muito verdiana, muito à "bon vivant". Renzetti, conhecido pelas suas explosões de cólera e pelo seu mau humor furioso. Renzetti que põe o peso da responsabilidade nos músicos, sem exagerar no trabalho de ensaio, mas sabendo exigir quando necessáro. Acabou por dominar todas as pontas: o coro não foi horrendo (o que seria habitual), a orquestra esteve bem (o que é habitual com maestros que a entendem), os cantores estiveram excelentes. Creio que Renzetti é o máximo responsável pela qualidade a que pudemos assistir. Tempos bem escolhidos, oscilações dinâmicas bem doseadas. Competente e musical. Imperfeito? Claro que sim, mas são destas imperfeições que se perdoam, e o tema era o perdão, quando se faz música com M. Creio que, com as matérias primas à disposição, conseguiu o melhor possível.
Pena esta ópera de Verdi não ser o seu melhor, mas para o ano há mais.

A minha opinião pessoal, resposta ao post anterior: Esta ópera talvez fique na história do S. Carlos pelos cantores que estiveram reunidos e pela direcção musical. A obra de Verdi, independemente da sua beleza, não me convenceu: Othello e Falstaff estão a anos luz deste pobre Stiffelio. Mesmo o Trovador, com o seu libreto ridículo, está muitos furos acima.

Henrique Silveira

Bem, até que enfim 

Hoje vou assistir ao Stiffelio no S. Carlos. Espero gostar, Jorge Calado disse-me que esta produção ficará na história.
Veremos, estou muitíssimo curioso.

Sentimos a morte de Lino de Carvalho.

Carlos Seixas celebra 300 anos hoje.

9.6.04

Goa 


Odalisca de Boucher

E o Grão Mongol é o título de uma exposição que inaugurou ontem na Gulbenkian. Graças ao Império Otomano e ao Imperador Akbar que, à semelhança do sultão Shariar das Mil e Uma Noites, se deliciava com literatura lida em voz alta, além de música, arquitectura, mulheres, beleza e vinho, podemos apreciar uma boa amostra de iluminuras de 1500 a 1600, guaches em admirável estado de conservação, minuciosas, coloridas, muitas sobre folha de ouro e nas quais Akbar aparece dissolvido no meio da multidão. Deixo os orientais retratados em movimento, festa, música e dois passos mais à frente deparo-me com os nossos vice-reis, nomes ilustres, carantonhas rígidas, meio-mortas, todas iguais. Mais à frente, fico a saber que o Grão Vizir não resistiu a copiar o retrato pessoal, decalcar Visitações e Anunciações em tons mais escuros e a atribuir um preço exagerado às vestimentas e objectos que cobiçava aos portugueses.
Não faltam os riquíssimos contadores, com pacientes desenhos de homens com saias montados em elefantes, uma cama em laca, tapeçarias, Cristos, Virgens, Santos vários e Jesuítas, cafrealizados com a devida patine. Preciosas esculturas em marfim e Bíblias que se lêem detrás para a frente, obra de pacientes missionários. E se não me engano até as impressões de Afonso de Albuquerque se podem ler às avessas. Azulejos em tons azulados e motivos abstractos como manda o cânone muçulmano, a adornarem conventos ilustrados em maquete. Goa. O que foi e o que permanece. A não perder.

Clara


Odalisca de Ingres

A Morte de Sousa Franco 

É com surpresa que soube da morte do Professor Sousa Franco. É um choque, custa quase a crer.
A vida é mesmo um fio ténue apesar dos sonhos e dos projectos.
Portugal fica mais pobre.

8.6.04

Um Sapo Frio no blogue do crítico 

A minha querida Clara Cabral às vezes exagera, o Pedro Mexia, que é um verdadeiro artista na arte de se vender a si próprio, lançou um livro. Acho muito bem, cada um faz o que que lhe dá na bolha.
Não vou comprar o texto uma vez que já li grande parte do narcisismo, aliás assumidíssimo, e reflexões sobre a vida de Mexia por si próprio no original: o blog dele.
As hesitações do poeta, "deve ou não ir ao cinema", "deve ou não gastar o seu dinheiro a comprar Proust ou numa ida ao teatro?"... "Atravessar ou não a rua? Dúvidas metafísicas." ... Mexia hesitando entre deixar de escrever uns tempos no blogue, por ter importantes artigos a ultimar, participações em conferências no estrangeiro, deixar ou não os desesperados leitores sequiosos pelas discorrências do seu mentor? Enfim, Pedro Mexia blogger by himself, creio que será bem pior que Mexia poeta ou Mexia crítico, que aprecio, como já lho disse pessoalmente. De caminho, Pedro Mexia apaga o blog, mostrando que este meio não lhe diz realmente muito. A fidúcia diz mais, a mim também, mais a humana. Todos temos as nossas dificuldades e desejos. Mexia, se calhar, precisa de um papel novo para a parede da sala e vendeu o blogue a retalho. Acho bem que se compre, quem gosta... Eu por mim passo, não estou para ir a lançamentos ou para comparar Mexia a Fernando Pessoa, como generosamente a Clara faz.

H.S.

Assossegue-se! 

Caro Claudio,

Tenho que dar a mão à palmatória, excedi-me no calor da escrita.
Hoje o Bernardo Soares teria um blog que não seria o Dicionário do Diabo.

Clara

Matemáticos 

Conheci ontem um matemático. Os matemáticos são por norma pouco expansivos. Têm dificuldade em saltar dos números para a vida. Mas este matemático está a fazer um doutoramento em pedagogia da matemática e gosta de ensinar, indiferentemente, alunos de faculdade ou de liceu. E gosta de trocar por miúdos a teoria de Euclídes, de Pitágoras ou de Sharkovsky. E garante-me que não existe efeito borboleta, quando muito um efeito dominó porque uma vez accionado um mecanismo logo se accionam as devidas compensações, pelo que é difícil que uma acção desencadeie reacções até ao infinito.
Pois este matemático é madeirense. E começou a trabalhar aos sete anos. Na indústria de vimes do pai que antes do 25 de Abril empregava mais de cem pessoas e a numerosa família e que hoje está em extinção. Foi aí que aprendeu a separar os vimes para as mulheres da casa entrançarem e tinha que os agrupar em feixes de 20 e tinha que ir à loja com o dinheiro contado para não ter que carregar com trocos. Pelo que tinha que calcular a quantia exacta da despesa. É assim que os talentos surgem. Com uma semente e um contexto que a faz germinar. E o fermento da capacidade de trabalho. Só a partir pedra, a cumprir horários das 9 às 17h, a cumprir rotinas e a ter vidas que outros achariam monótonas, se pode alcançar um movimento de clarividência, de fulgor, de iluminação.
Do tédio, da disciplina nasce a obra de arte, a invenção, a descoberta, o que faz mudar a vida dos homens, o clarão na noite escura.

Clara

4.6.04

O afã da viagem 



CONSOLO NA PRAIA
Vamos, não chores...
A infância está perdida.
A mocidade está perdida.
Mas a vida não se perdeu.
O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.
Perdeste o melhor amigo.
Não tentaste qualquer viagem.
Não possuis casa, navio, terra.
Mas tens um cão.
Algumas palavras duras,
em voz mansa, te golpearam.
Nunca, nunca cicatrizam.
Mas, e o humor?
A injustiça não se resolve.
À sombra do mundo errado
murmuraste um protesto tímido.
Mas virão outros.
Tudo somado, devias
precipitar-te, de vez, nas águas.
Estás nu na areia, no vento...
Dorme, meu filho.

Carlos Drummond de Andrade

Intercidades Lisboa-Coimbra. Duas horas repimpada a ler ou a olhar a paisagem. Uma ida ao bar, para refrescar e desentorpecer as pernas. Duas horas escapando à gravidade do tempo, deitando, janela fora, no manto verde que acompanha o olhar, fardos, decisões, protestos.
As viagens têm este poder simbólico, sejam de comboio de carro ou de avião. Mas as de comboio têm o condão de serem as mais confortáveis. E de, a cada para-arranca dessas velhas estações do Portugal, do embalo, do barulho da maquinaria a rolar nos carris se libertarem memórias de outras viagens, tempos lentos.
Não admira que os maquinistas sejam tipos bem dispostos. Muitíssimo mais que pilotos, comissários de bordo e hospedeiras. De chegada ou de partida, na sala de espera, trocam saudações e histórias com velhos colegas, em trânsito. Como explicam o seu bom humor? É o afã da viagem.
Clara

Índia 



Rosário Tavares

Morre Ghiaurov 

Búlgaro, nasceu em 1929, 13 de Setembro, em Velingrad (ou Welingrad), morreu aos 74 anos. Desaparece assim o "baixo para as óperas de Verdi" segundo palavras de Carlo Bergonzi o famoso tenor.
Notícia 1 (alemão) , notícia 2 (inglês).
Uma pneumonia com enfraquecimento respiratório deu origem à paragem cardíaca do grande cantor numa clínica de Modena, cidade onde residia, foi no dia 1 de Junho.
O funeral será em Modena no próximo sábado.

Não vale a pena dizer muito sobre este cantor, não vale a pena estar com teorias e relembrar óperas, datas, estreias, recusas. Afinal toda a gente sabe quem Ghiaurov é e o que fez. A única coisa que vale a pena é sentir um pouco o luto, sentir a lembrança, é continuar a escutar sempre que possível a voz deste cantor eterno.

Não mais o poderemos escutar no D. Carlos ou na Tosca, mas poderemos escutá-lo sempre na lembrança. Mais um dos grande vultos do século vinte sai de cena neste início de século sem que se veja quem o poderá substituir. Falta a profundidade deste baixo ao nosso tempo, falta profundidade ao nosso mundo. A sua voz deslumbrante, mesmo quando falava, faz uma falta tão grande como a do canto dos pássaros na Primavera... Olho lá para fora e sinto que o mundo está mais triste.

O seu filho Nicolai seguiu-lhe os passos na música e é hoje em dia um maestro muito promissor.



3.6.04

A matemática da música, a música da matemática 


"Musica est exercitium arithmeticae occultum nescientis se numerare animi"

Gottfried Wilhelm Leibnitz (1646-1716)


Um post de VG

2.6.04




Gulbenkian 2004-2005 

A Fundação Gulbenkian anuncia o programa 2004-2005.
Ver no site da Gulbenkian.

A primeira análise, já um pouco a frio é que se trata da pior programação de sempre em termos de música antiga e barroca. Inacreditável para quem conheceu a tradição da Gulbenkian nesta área. Será que há mesmo muito pouco dinheiro? Um desastre total em número de concertos que nem sequer é compensada por Jordi Savall, por René Jacobs, por William Christie (este metido à pressão nas orquestras mundiais para reforçar também um fraco programa) ou pelo ensemble Micrologus. Quatro concertos com nomes sonantes mais o ensemble barroco do Chiado. Dois concertos de música antiga e três de música barroca, se contarmos com William Christie. A machadada final, depois dos concertos Portugal Telecom acabarem é vez da música antiga quase desaparecer da Gulbenkian. Bola preta.

Bola preta para a alegria privada do Corboz outra vez, e desta feita com solistas de alto nível, num arraso de obras de Bach.
Se estes solistas fossem aproveitados para fazer um concerto de Bach sério? Com um ensemble barroco em instrumentos originais? Ou mesmo se se mudasse apenas o maestro para um capaz em música barroca? Lembro que o Hogwood conseguia tirar sonoridades muito idiomáticas da orquestra Gulbenkian, o que nunca foi o caso de Corboz. Na situação prevista Prégardien, Maria Christina Kiehr, Ann Murray e Peter Harvey são o exemplo de dinheiro deitado à rua para que um fóssil interpretativo e uma orquestra sem qualquer idiomática barroca cumpram uma tradição que não tem sentido: música de Bach por Corboz antes de uma solenidade qualquer, neste caso Natal... Costumava ser também na Páscoa mas felizmente escapámos ao massacre dos cordeiros! Em 2005 não haverá o habitual sacrifício ritual da música de uma das Paixões de Bach pelo mesmo intérprete. Hossana! Hossana! Alvíssaras: o Menino chegou! A falta de dinheiro tem estas, muito poucas, consolações.

Henrique Silveira

P.S. Mais comentários sobre temporada Gulbenkian se seguirão.

1.6.04

Stiffelio 

STIFFELIO, Melodramma em três actos. Libreto de Francesco Maria Piave.


Verdi em 1851

Francesco Maria Piave, propôs este argumento a Verdi em Abril de 1850. No mês de Junho do mesmo ano transferiu-se para a casa do compositor para aí acabar o trabalho.
Do mesmo período é também a maior parte da composição musical da obra. A orquestração foi concluída durante os ensaios no teatro, como Verdi costumava fazer.
O argumento era bastante singular: a tendência para o realismo era a vertente mais notável da situação do drama. Outro ponto importante é a falta do usual intercâmbio amoroso, substituído por uma história de ciúme e, acima de tudo, pelo contraste entre o conflito evangélico do dever de perdoar e do desejo de vingança.


Francesco Maria Piave

Daqui surgiram os maiores problemas com a censura. Verdi travou uma duríssima batalha intelectual com a censura durante toda a sua vida e Stiffelio não foi excepção.
O resultado da estreia teve, assim, contornos pouco coerentes; de um lado parte da crítica tomou a posição do compositor sublinhando ironicamente a intervenção da censura; outra parte, ao invés, condenou o argumento julgado como inconveniente.
A intervenção da censura fez com que, no ano seguinte, esta ópera fosse estreada com o titulo de "Guglielmo Wellingrode" e com a personagem principal transformada de ministro de culto evangélico num Primeiro Ministro (político) Alemão (...)
Após esta ofensa Verdi meditou na hipótese de retirar a ópera do repertório e da edição para reconstruí-la totalmente. Este projecto só se concretizou no ano 1856, quando o compositor começou a trabalhar na ópera "Aroldo".
Junto com a ópera "Luisa Miller", Stiffelio é um dos primeiros exemplos de óperas construídas em torno de uma só personagem. São evidenciados e centralizados nesta figura quer as paixões quer os lados mais mesquinhos da vida humana.
Verdi estava interessado neste argumento, sensibilizado pela novidade e modernidade do mesmo. A confrontação com a censura, que lhe impôs muitas mudanças, acabou por desfigurar a beleza do drama original.
Stiffelio foi transformado num sectário genérico. Com isso perderam de significado muitas partes da ópera e, especialmente, as invocaçoes que Lina, que seria originalmente a mulher de Stiffelio. Lina acaba por não as endereçar ao marido, mas a um genérico homem de Fé agora transformado em seu pai! A diferença entre o originário "Ministro (de culto religioso) Confessatemi" e o mais inócuo "Rodolfo Ascoltatemi" no dueto do terceiro acto é um exemplo que, hoje em dia, pode esclarecer as razões de tantas décadas decorridas até se perceber a enorme qualidade "dramatúrgica" de Verdi. Todo o final da ópera sofreu alterações completamente disparatadas e perdeu significado.
Mas esta ópera, mesmo menorizada por estas alterações, continua a oferecer várias características de forte originalidade: o papel de protagonista é entregue ao tenor (em vez de um barítono: Nabuco, Rigoletto, Luisa Miller) numa contraposição com os hábitos da época e da mesma tradição vocal verdiana. Verdi inaugura assim uma nova tendência no contesto da vocalidade do génio de Busseto, um tenor mais forte, escuro, quase baritonal, que terá o seu acto de consagração no "Otello".

Do ponto de vista musical a ópera apresenta também algumas novidades: em primeiro lugar o grande recitativo inicial (Jorg) substitui a habitual cena coral; esta será uma das tentativas mais conseguidas de Verdi no caminho do afastamento do cliché melodramático italiano da época.

Muitas também são as páginas que preparam as grandes páginas que daí a poucos meses Verdi conseguiu. Foi a chamada (sic) "Trilogia Popular"; a apoteose do canto do Trovatore, a vocalidade de Gilda, o Lirismo de Violeta. Tambem a nível instrumental Verdi começa a ter um cuidado especial para a orquestra; por exemplo no terceiro acto da "Luisa Miller" ou no prelúdio de abertura do segundo acto do Stiffelio, para cordas, que tem uma qualidade elevada.
Depois da apresentação de "Aroldo", a opera "Stiffelio" foi esquecida, só no 1968 foi apresentada pelo Teatro Comunale de Parma, utilizando partituras de várias matrizes: uma cópia de Stiffelio e uma copia do "Guglielmo Wellingrode" guardadas no arquivo do Conservatório de Nápoles.
No 1985 o Teatro "La Fenice" de Veneza, onde o actual director do S. Carlos colaborava na direcção, propôs esta ópera, juntamente com "Aroldo", criando um sugestivo paralelismo, Em 1993 foi feita a edição crítica desta obra.
Finalmente no 1995 "Stiffelio" foi apresentada no "Teatro alla Scala" de Milão, onde nunca tinha sido representado antes. Na próxima quinta haverá a primeira récita desta obra no Teatro São Carlos de Lisboa. Veremos e ouviremos...

M.P.

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