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30.4.04

Divino Sospiro na Sociedade de Geografia, dia 18 de Maio, às 21h00. 


Iskrena Yordanova e Massimo Mazzeo
Divino Sospiro na Sociedade de Geografia, dia 18 de Maio, às 21h00.Divino Sospiro é uma Orquestra barroca que tem desenvolvido trabalho na área da interpretação da música antiga e que já conhecemos da Festa da Música de 2003, dedicada ao barroco italiano, de Monteverdi a Vivaldi. É formada por músicos portugueses e por italianos residentes em Portugal, e dirigida por Massimo Mazzeo.
Deixem-me falar-vos do Massimo Mazzeo, sem cometer inconfidências. O Massimo é um italiano que se rendeu a Portugal. Vai para dez anos. Acha isto muito melhor que Itália, será possível? Menos caótico, mais ameno, nada feio. Uma boa base para dar os seus giros por Itália, onde é considerado um excelente violista. Tem ar de músico indisfarçável. Assim imagino os seus comparsas do Barroco e do Romantismo: misturem Corelli (das suas preferências) e Vivaldi. Mas é com Rossini que lhe vejo mais afinidades. É enorme, grande e alto, excelente conversador e de óptimos humores. Casado com a Iskrena , uma búlgara que de visita a Portugal, numas férias, calhou trazer o violino e, por graça, concorrer e arrebatar a uma vaga na Sinfónica. Tinha, então, dezoito anos e já lá está há dez.
Têm uma vida de casal de músicos. Sem fins-de-semana, sem férias, de manhã à noite enfiados cada um no seu quarto, a aperfeiçoar as cordas. É o tipo de profissão que nem se concebe com um parceiro de área diferente. Além de que quando estão com os amigos, músicos por sua vez, aproveitam para fazer concertos ou seguir as partituras enquanto alguém toca. Sacerdócio e casamento. Dois em um.
Programa de dia 18 de Maio: Luly, Telemann,Geminianni-Corelli, Purcell, Scarlati, Avison, Seixas. Dirigido pelo maestro Enrico Onofri,

o mítico concertino e solista do lendário grupo "Il Giardino Armonico" e uma das pessoas mais amáveis deste mundo.
Clara



29.4.04

Um concerto contraditório no Coliseu - Orquestra do Festival de Budapeste 

O concerto das Grandes orquestras mundial no Coliseu dos Recreios, anteontem, foi contraditório.
Uma sinfonia nº 4 de Schubert, uma interpretação correcta mas com pouco valor acrescentado em que a orquestra pareceu pouco entregue à música e com demasiada procupação no som e pouco na interpretação coesa da obra. Pareceu-me um interpretação desgarrada, com os naipes a tocar cada um para o seu lado e ritmicamente pouco conexa, o minuete foi muito mauzinho. A sonoridade pareceu-me o melhor, sobretudo nas madeiras (2 flautas, 2 oboés, 2 clarinetes e 2 fagotes) colocadas junto do estrado de regência onde se colocam geralmente as primeiras estantes de violinos, violas e violoncelos. O próprio maestro Fisher não me pareceu muito concentrado.

A sinfonia nº 9 de Mahler valeu pelas atmosferas sonoras criadas pelos sopros, pelo som em termos dinâmicos, não me convenceu nos solos individuais, notei graves falhas no contrafagote, completamente "à rasca" no solo a descoberto do último andamento, perdoem-me a expressão pouco própria que diz tudo de forma sucinta! As trompas, muito boas em conjunto, colapsaram nos solos, o terceiro trompa falhou redondamente logo no início em que teve de disfarçar notas trocadas e a primeira trompa também arruinou completamente o último andamento, onde a menor quebra destrói a magia etérea deste momento sublime da criação mahleriana. Perfeito esteve o clarinete em mib e os trompetes. O flautim desafinou largamente quando na oitava acima dos primeiros violinos. As harpas demasiado longe uma da outra não estiveram bem em acerto de entradas. Aliás, as entradas em muitos casos não foram claras e precisas, isto em Mahler e em Schubert.

A concepção de Fisher, foi pouco turbulenta, pouco arrebatada, demasiado plástica, a beleza dos pianíssimos, só por si, não faz uma interpretação, o prazer estético de ouvir os pianíssimos das cordas, aliás pouco coesas no resto, em tutti misturados com os ruídos inacreditáveis de uma sala imprópria para a música como o Coliseu foi compensação muito pequena para a falta de coesão, de pathos, de densidade nas cordas.
Não é por ser uma orquestra estrangeira, e de Budapeste, que torna o concerto numa experiência inolvidável, é preciso mais.
Não foi certamente um dos melhores concertos do ciclo das orquestras mundiais. Diria que 15 valores numa apreciação global é mais que suficiente.

P.S. Curiosamente já tenho ouvido as cordas da OSP, quando dirigidas por Tate, por exemplo, e sem o fraco concertino titular, a tocar com mais pathos e maior coesão que as desta orquestra. Sei que parece um sacrilégio dizer isto, mas é a minha convicção profunda em termos do que ouvi. Estarei a ficar surdo?

Elizabeth Bishop (1911-1979) 


Last night I slept with you.
Today I love you so
how can I bear to go
(as soon I must, I know)
to bed with ugly death
in that cold, filthy place,
to sleep there without you,
without the easy breath
and nightlong, limblong warmth
I've grown accustomed to?
-- Nobody wants to die;
tell me it is a lie!
But no, I know it's true.
It's just the common case;
there's nothing one can do.

“Breakfast Song," 1974



28.4.04

Magdalena Kozená 

Confesso que não via nem ouvia Magadalena Kozená ao vivo desde os concertos "Em órbita" com uma péssima, mas aclamada pela crítica, Paixão Segundo S. Mateus de Bach por Paul MCreesh no CCB, uma voz por parte, entradas em falso, desequilíbrios vocais, esquecimentos de entradas, teatralidade excessiva na gestualidade, comportamento "à diva" na vocalidade e na expressão não acompanhada de técnica o que resultava ridículo. Depois do descalabro técnico e musical de MCreesh o pior tinha sido mesmo Kozená. Lembro com amargura o assassinato da ária do contralto em que Cristo espalha a sua Benção ao mundo e aos despojados quando, no Golghota, abre os braços na Cruz para abraçar o universo, cinco ou seis compassos perdidos por uma entrada completamente esquecida, com uma atrapalhação tão evidente da cantora que até meteu dó, mas adiante!
Ou seja eu desconfio à partida de mediatizações excessivas de cantoras, lembro a horrenda Gheorghiu que deixou o público, neste caso acéfalo e pimba, de rastos com um programa mal cantado, mal interpretado e com um mau gosto de se por o chapéu. Conhecendo alguns registos discográficos de Kozena a minha opinião tinha evoluído num sentido claramente positivo. Foi pois com sentimentos mistos que assisti ao concerto de segunda na Gulbennkian, um recital com Magdalena Kozená e Malcolm Martineau.
Segunda, 26 Abr 2004, 19:00 - Grande Auditório

MAGDALENA KOZENÁ (meio-soprano)
MALCOLM MARTINEAU(piano)

Joseph Haydn
The Mermaid’s Song
The Spirit’s Song
O tuneful Voice

Benjamin Britten
La belle est au jardin d’amour
Fileuse
Il est quelqu’un sur terre
Quand j’étais chez mon père

Erwin Schulhoff
Três canções op.14
- Februarschnee
- Sommerabend
- Dämmerstunde

Cinco Canções Populares e Danças da Região de Tesín:
- Kdyz Jsem byla mamince na klíné
- Svatebnì
- Kozaka by tancovala
- Sidej na vuz
- Pasala volky

Modest Mussorgsky
Detskaja (O quarto das crianças):
nº 1 S njanej
nº 2 V uglu
nº 3 Zhuk
nº 4 S kukloj
nº 5 Na son grjadushchij
nº 6 Pojekhal na palochke
nº 7 Kot Matros

Francis Poulenc
Miroirs Brûlants:
- Tu vois le feu du soir
- Je nommerai ton front

Hugo Wolf
Mörike Lieder:
- Zum Neuen Jahr (E.M.27)
- Zitronenfalter im April (E.M.18)
- Elfenlied (E.M.16)
- Schlafendes Jesuskind (E.M.25)
- Abschied (E.M.53)

Kozená interpretou com um rigor vocal absoluto todas as obras em presença, a voz muito bela, redonda, de uma pujança notável nos graves, que se notaram em particular em Mussorgsky.
O pianista muitíssimo bom, participou no recital como um parceiro e cúmplice e não como um mero subalterno, ao contrário de Jeff Cohen com Angela Gherghiu, mas basta de comparar o incomparável, Kozená é uma cantora a outra é uma cantora pimba. Malcolm Martineau acentuou o discurso expressivo de Kozená em Haydn, criou atmosferas em Britten, situou, marcou, sublinhou, participou no jogo teatral em Mussorgsky, foi poético em Poulenc, foi poético e depois irónico em Hugo Wolf, o último poema, um gozo descarado aos críticos, foi verdadeiramente delicioso. Nos extras de Dvorjak e de Janacek foi agitado e poético. E dizendo isto, o espaço para Kozená, moldado de forma excelente por Martineau, encontrava-se definido, em Haydn foi clássica, em Britten disse a poesia de forma perfeita com um verdadeiro acento popular que reforçou nas melodias checas, a sua teatralidade em Mussorgsky foi notável, a vertente divertida e irónica foram excelentes, a ama e a criança surgiram-nos caracterizadas de forma perfeita. Schulhoff, foi um pouco redundante neste concerto, mas bem interpretado.

Em Poulenc, um dos meus compositores predilectos, esteve excelente no primeiro poema de Paul Eluard, cantado com um grande sentimento que preferiu à linha sustentada da melodia, o que pode ser discutível, mas mostrou uma finesse que complementou de forma subtil o tom popular da primeira parte. Wolf a rematar foi deslumbrante, o poema "Jesus Adormecido" e a "Borboleta" foram perfeitos, preferiu entremear textos mais irónicos com textos mais melancólicos numa concessão ao que parece ser o gosto fácil de algum público. Eu teria preferido um recital mais profundo em termos musicais. Percebeu-se que esse desígnio está totalmente ao alcance desta cantora.

O público presente na sala foi muito bom e percebeu claramente o recital.
Um puxão de orelhas ao público ausente da sala da Gulbenkian. Sala a cerca de dois terços ou menos, intérpretes muitíssimo inferiores enchem a sala por causa de mediatizações que nada têm a ver com a qualidade intrínseca. O público português, mesmo o da música dita erudita, continua a evidenciar um analfabetismo musical e cultural confrangedor.

27.4.04

Bloguers despedidos 

Primeiro caso de despedimento de três jornalistas d’ “O Primeiro de Janeiro” por participarem num blog.
Liberdade de expressão versus dever de lealdade.

Fonte: Público de Hoje.
Ler também DN

26.4.04

O que perdura e o efémero - Depois de Domingo sem balanços 

Domingo, concerto Köln, Melvyn Tan no piano de concerto em vez de piano forte, sem maestro. Uma excelente sinfonia para cordas nº 10 em si menor de Mendelssohn. Concerto Köln dispensa apresentações e elogios. Afinação muito complicada e a fugir um pouco, ou bastante, sobretudo nos agudos, porque, creio eu, as cordas temperadas para 430Hz estavam afinadas a 442Hz por causa do piano de concerto que veio a ser usado a seguir. O concerto resultou algo estranho neste aspecto, incaracterístico desta formação excepcional. Os concertos anteriores deste agrupamento com cordas na sua tensão habitual foram perfeitos, nada tendo a ver com esta apresentação matinal. Não comento Tan porque apenas ouvi um pouco e mudei de sala para escutar o concerto do octeto dos Limas, mas pareceu-me pouco fluente, agarrado ao teclado pesado do instrumento moderno que Portugal tem para dar aos grandes intérpretes do pianoforte histórico...

Domingo, 11h da manhã, octeto de Mendelssohn opus 20, Aníbal Lima, José Pereira, Miguel Gomes, Rodrigo Queirós, violinos; Paul Wakabayashi, Jano Lisboa, violas; Irene Lima, Paulo Gaio Lima, violoncelo. Devo dizer que não me parece o melhor do ponto de vista da prática musical que se formem agrupamentos apenas para um concerto. Parece que em Portugal tudo é difícil, que trabalhar para aquecer é duro, duríssimo até. Nestas circunstâncias será difícil fazer melhor. Como comparar um quarteto, ou um duplo quarteto com agrupamentos que tocam juntos há mais de vinte anos (com dois músicos a tocar há quarenta anos juntos) sem fazer mais nada, caso do quarteto Lindsay? Ou mesmo há três como o Psophos? Ou há mais de dez como o Isaÿe?
Mas a música feita com prazer acaba sempre por ser agradável, neste caso assim foi, mas é uma experiência efémera, que não perdura. Notaram-se dificuldades de afinação no primeiro e segundo andamentos do octeto de Mendelssohn, corrigidas no scherzo, o último andamento, com algumas dificuldades de tempo de entrada no início até correu muito bem. Merecia mais continuidade, mas sabemos que esta experiência não perdura e não vai ganhar consistência...
Cravos vermelhos nas estante de Aníbal Lima, Irene Lima e Paulo Gaio Lima, se não me engano: 25 de Abril na Festa da música.

12h15m, Sala Hölderlin, Boris Berezovsky, Sinfonia Varsovia, direcção de Peter Csaba. Manfred abertura de Schumann: muito bem tocada, sopros de veludo, uma beleza para os ouvidos. Entra Berezovsky, concerto de Chopin opus 21, número 2. Ataca o piano de forma intensa, faz recostes de arrasar com os seus dedos mágicos, pianíssimos incríveis, touché com uma suavidade e uma clareza impossíveis. Tudo foi dito: um sobredotado, um virtuoso incrível, um verdadeiro fenómeno. Mas senti que faltava a mola emocional do primeiro concerto, na sala Hoffmann, bem mais pequena, onde a proximidade com o piano e o artista acabaram por dar à interpretação uma naturalidade maior. Mas foi marcante.
Berezovsky para mim esteve no melhor e no pior desta festa da música, o concerto de câmara a que assisti foi um triste espectáculo em que colaborou sem se impor. Perdi o Ensemble explorations à mesma hora sem ter ganho grande coisa com o facto.

13h, corrida do concerto de Berezovsky para assistir ao quinteto de Schumann em mi bemol maior opus 44, para cordas e piano, um quinteto célebre, uma obra de câmara absolutamente genial, uma peça de uma arquitectura deslumbrante que está, para mim, acima de muitas obras sinfónicas do mesmo compositor, uma obra prima da música de todos os tempos. Neste quinteto não existe qualquer destaque de qualquer instrumento relativamente aos outros, é uma obra de um equilíbrio total. Intérpretes: Jean-Efflam Bavouzet, um pianista intelectual, francês com escola russa, tecnicamente muito bom, emocionalmente empenhado na música que é como quem diz: toca com paixão. Que combinação perfeita: racionalidade e paixão, a crítica institucional não deu o destaque merecido a este pianista. O quarteto Lindsay fez a parte das cordas. O quarteto Lindsay é um quarteto notável, muito intuitivo, com uma sensibilidade para os timmings de entrada tão exacta que até dói, não existe uma nota fora do lugar, uma entrada fora de tempo, um retardando que não seja feito por todos, ninguém dá ordens, Peter Cropper no 1º violino geme em silêncio, bate com os pés, faz caretas, Ronald Birks no segundo é um modelo de calma e eficiência um prazer ouvi-lo a tocar e conversar sobre música, Robin Ireland com o seu cabelo grisalho e rabo de cavalo parece que se está nas tintas para tudo, como compete a qualquer bom viola que se preze, o violoncelo é um gorducho com ar de bom garfo já com falta de cabelo e ar rosado que toca como se não fosse nada com ele. Birks explicou-me que a paixão com que tocam é natural mas também é fruto de um trabalho intenso, não se podem tocar os compositores do romantismo de forma contida, tem de se ser apaixonado, dar tudo, isto não significa que não se seja másculo. Creio que aqui bate o ponto, o quarteto Lindsay é, em certos passos, demasiado rústico na sua sonoridade, o que dá alguma impressão de falta de pensamento das obras, mas creio que é apenas impressão, se ouvirmos as dinâmicas e os tempos percebemos que muito saber está por detrás.
Segundo se escreveu Bavouzet foi contagiado pelo quarteto Lindsay mas, segundo o próprio Peter Cropper, Bavouzet foi tão intuitivo, tão apaixonado pela música de Schumann que o contágio foi mútuo. Segundo Bavouzet disse em conversa em torno de um café: "A life time experience" ao que Peter Cropper acrescentou que a experiência era mútua. Depois desta conversa que mais há para dizer do concerto? A Life time experience para quem ouviu, nem mais nem menos... A comunicação entre os músicos foi tão profunda, a execução tão perfeita que a par de Wagner por Bavouzet, do Paulus de Mendelssohn, de Chopin por Berezovsky e do Concerto Köln na Italiana de Mendelssohn, estes foram os momentos que perduram na minha memória desta Festa da música.

Seguiu-se um concerto de uma elegância enorme: Akademie für Alte Musica de Berlin sem maestro, numa sinfonia para cordas de Mendelssohn, nº 10 em si menor e num andamento da opus 11. Concerto para violino nº 1 em ré menor para violino e cordas. Midori Seiler no violino. Gostei muito deste concerto pela plástica sonora das belíssimas cordas de tripa, tocadas de forma notável pelos músicos da AAM de Berlin. Midori foi muito sensível, articulou muito bem, irrepreensível na afinação e muito expressiva. Uma interpretação apolínea a combinar com as de Queffélec e do Psophos e para contrastar um pouco com os dionisíacos Beresovsky, Bavouzet, Lindsays, Stern e demais...

Uma conversa com Peter Neumann o maestro perfeccionista e tímido que dirigiu Elias opus 70 de Mendelsohn e Missa Sacra de Schumann opus 147, a sua insatisfação com os sopros: "os oboés eram muito fracos" e um baixo (Friedrich que fez o Elias) que desafinava nas entradas e cujo vibrato parecia trémulo, uma coisa bastante estranha: "Ele é bom, um excelente cantor, mas está habituado à música antiga onde não há vibrato, além disso a afinação a 430Hz faz com que tenha dificuldades nas entradas a seco", quando lhe falei do vibrato deu uma pequena gargalhada suave e disse: "realmente soava esquisito não era? Nos ensaios até cantou bem". Segundo sei Neumann fez muitos ensaios em Colónia com a orquestra do Collegium Cartusianum e o coro, mas os oboés foram substituídos à última hora o que desequilibrou todos os sopros devido ao papel tão importante destes instrumentistas na respectiva secção. Um coro amador: Kölner Kammerchor, de fazer corar muitos coros profissionais. No final e mesmo com os defeitos apontados acabou por ser uma interpretação muito cuidade e muito intensa. A preocupação perfeccionista de Neumann com a beleza sonora rendeu frutos no Elias, o maestro ontem estava muito mais satisfeito do que no Sábado após a Missa de Schumann. Ursula Eittinger foi um contralto de última hora que cumpriu, o soprano Trine Lund mostrou uma voz pouco encorpada mas bonita, o tenor Felix Rienth também cumpriu, mas os solistas foram um pouco inferiores aos da oratória Paulus do mesmo compositor. Não ouvi até ao fim, mudei de sala a correr para escutar o octeto de Mendelssohn.

A.M.Seabra dormia como um anjinho no fantástico octeto de Mendelsshon, pelos quartetos Psophos e Lindsay (senhoras primeiros), não uma experiência intelectual profunda mas uma experiência libertadora e catártica que às vezes também faz bem. Mas prometo que deixarei de falar aqui de Seabra, primeiro porque já falei demais, segundo porque até tem ideias e teve um lugar importante na crítica em Portugal, terceiro porque agora é moda bater no Seabra e eu não alinho em modas, quarto porque quem dorme no octeto de Mendelssohn se deixou penetrar pela música.

Foi muito belo ver os Lindsay com aquela idade a puxarem as jovens raparigas para um encontro com o Sturm und Drang de Mendelssohn. Fora de tudo o que é normal ouvir-se: "tem de ser completamente louco, senão soa banal e demasiadamente correcto", como nos ia dizendo Bavouzet entre os andamentos do octeto de Mendelssohn opus 20. Curiosa e inexperada a desafinação no primeiro andamento. Birks, o cerebral segundo violino do Lindsay, justificou-me que o ar condicionado na sala Novalis estava demasiado frio o que prejudicou de forma desigual a afinação dos instrumentos, logo corrigida a partir do segundo andamento.

Para o ano há mais.

Maratona da Música 

"Though he has to earn a living,
Man dwells poetically on this earth."

Friedrich Hölderlin





Um horário para cumprir, num máximo possível de 7 a 8 concertos por dia, a começar às 11h00 e a terminar às 24h, com os ouvidos cansados e suplicando silêncio. Resmas de gente, paradas em bichas ou em frenesim pelos corredores. Avós, pais, filhos pelos braços ou ao colo. Concertos lotados, salas à cunha, oportunidade, no ano, dos contribuintes usufruirem das belíssimas salas do CCB e evocarem, de raspão, também os escritores românticos: Holderlin, Hoffmann, Novalis, Richter, Heine. Pontualidade q.b.(atrasos registados, explicados pelos “encore”). Público a aplaudir tudo, o melhor e o menos bom, com o mesmo fervor, não raras vezes de pé e a deixar escapar tosse e toques de telemóvel, apesar dos pré-avisos, infelizmente só nas salas Heine e Hoffman. Coleccionadores, papa-concertos, mais concentrados no desdobrável e na tarefa de o cumprir do que no gozo da música. Pianistas a largar “extra”, simpatia e autógrafos, organizadores em barda, simpáticos e úteis, a cortar bilhetes, a distribuir o programa da sala e a fingir que procuram uma bomba nas malas à entrada. Comida do self-service, má “as usual”, mas com papéis de tabuleiro alusivos à festa. Caras públicas, caras conhecidas, inflação de críticos musicais de jornais e revistas, peças famosas (concerto para piano nºs 1 e 2 de Chopin, a sinfonia italiana de Mendelssohn-Bartholdy, a kreisleriana de Schumann) peças quase desconhecidas (concertos de Clara Schumann) e outras conhecidas mas pouco interpretadas (Paulus e Elias, oratórias de Mendelssohn). Intervalos para novas bichas: café, w.c., Valentim de Carvalho, social, actualização de tricas e maledicência.
O melhor tem que ser dito: o Rias Kammerchor e ao piano: Boris Berezovsky, Bavouzet, Philippe Guisiano e uma senhora: Anne Queffélec, maratonistas que já cá por cá andavam em anos passados, à excepção de Bavouzet. Nos nacionais, fico-me por Jorge Moyano (embora sem ter visto tudo). Notas: um autógrafo de Boris Berezovsky, de ar façanhudo, um bacalhau a Jean Bavouzet que sem pretensões declara “nous sommes tous amateurs”, uma frase apanhada no ar entre A. Seabra e José Vieira Mendes com certeza na sequência das afirmações que o primeiro fez de favorecimento da organização às respectivas etiquetas (Harmonia Mundi e Mirare): “Não estou muito bem visto”.
E para o ano Beethoven!

Sugestões: Galeria em pé: porque não pôr lá umas cadeirinhas (género bar)? Guarda pessoal dos objectos nos cacifos existentes à entrada para não andarem as pessoas com os sacos de lá para cá e a vasculharem o seu conteúdo durante os concertos ( Em Oslo, cada bilhete já tem o número do cacifo).
Mais panfletos que esgotaram em alguns concertos.

Clara

A grande Ilusão 

Concertos de Domingo

A escola russa no seu pior, Berezovsky no piano, Dmitri Makhtin no violino e Alexander Kniazev no violoncelo, sonata para violino e piano em Fá Maior Op 4 de Mendelssohn: violinista banal, inseguro, com vibrato impossível de aturar, sem dinâmica, uma seca. 17h na sala Eichendorff.
Entra o violoncelista e acaba o concerto, o trio de Mendelssohn Op. 49 em ré menor destruído por uma sonoridade exagerada, tudo em fortíssimo, vibrato arrogante, um segundo andamente horrendo, sem lirismo nenhum com o violoncelo a ser a anedota, um trio não é concerto para violoncelo e resto. Mesmo no acompanhamento o violoncelo deste increditável Kniazev soava de forma arrogante e agressiva. Um conceito anormal de música de câmara. Berezovsky imperturbável continuava no piano com um touché de uma suavidade impressionante. O violino ia atrás do violoncelo e entrava em competição sonora. Uma interpretação sem conceito, sem ideias, sem nada. Saí antes do final do segundo andamento, impossível permanecer naquele quadro, seria demasiado mau... A pior surpresa da Festa da Música de 2004. Deve ter acabado com bravos e aplausos de pé.


25.4.04

Sábado na Festa da Música 

Sábado

Jean Efflam Bavouzet, redução para piano de Liszt da Morte de Isolda, o prelúdio do 1º acto do Tristão numa redução de Zoltan Kocsis na sala Eichendorff, concerto de nível extraordinário. Wagner de arrasar, Liszt um pouco redundante depois. Falei com o pianista há alguns minutos atrás, e perguntei-lhe porque razão colocou obras musicalmente tão mais pujantes de Wagner no princípio do recital e Liszt depois para terminar, a resposta foi simples: A morte de Isolde é tão dramática que toda a gente se iria atirar à água à saída. Terminar com o Grande Solo de Concerto de Liszt é uma saída em brilhantismo, peça dificílima, raramente tocada em versão de piano solo, é a obra precursora da sonata de Liszt. Mas claro que musicalmente o recital foi em crescendo de brilho e decrescendo musical, a opinião com que ambos ficámos, mas o público ainda manda qualquer coisa. De qualquer modo Bavouzet pensou muito na ordem do programa acabando por decidir acabar em força em vez de acabar em tristeza. A ideia de juntar o prelúdio de Tristan à morte de Isolde vem de Wagner, que nunca quis que a Morte fosse executada sem o Prelúdio, quando em concerto e com a Morte em versão orquestral sem o canto. Liszt nunca reduziu o Prelúdio para o piano, ninguém sabe porquê, é um mistério. Bavouzet quis assim respeitar Wagner e interpretou uma redução do Prelúdio, que classificou como excelente, de Kocsis. O Arco fecha-se assim com o acorde de Tristan e uma coerência harmónica de uma lógica inabalável. A escolha de Wagner por Bavouzet é lapidar, alguém com coragem de transcender algumas das banalidades pianísticas de Liszt, terrivelmente difíceis para os pianistas e violentas para o público, mas que às vezes acabam por ter pouco conteúdo musical, nem toda a obra de Liszt é da qualidade da sonata e das suas últimas obras, muita da sua música de piano destinava-se apenas a fazer desmaiar as damas e satisfazer a vaidade do virtuoso Liszt... Bavouzet acrescentou que a obra Grande Solo de Concerto tem uma arquitectura complexa em quatro partes: arrebatada, meditativa, arrebatada, meditativa a que se acrescenta uma coda final,..., esta última é apenas um terrível tour de força para levar o público ao desvario com acordes violentíssimos e harpejos num crescendo vertiginoso e sem grande relação musical com estrutura que a precede, a coda serve para arrebatar o público e fazer suar o pianista, uff c'est terrible!" Uma das mais difíceis obras do repertório pianístico.
Bavouzet citou ainda Haydn: A música é matemática feita sem se perceber que se está a fazer matemática, intuitivamente. Palavras do pianista que citou de memória... Amanhã toca com os Lindsay, a não perder: quinteto de Schumann.

SN 12h30m, Carlos Mena cantou Schumann e Liszt, a sua sensibilidade e musicalidade são elevadas mas o concerto não foi perfeito, a sua mulher, Susana García de Salazar, não foi exacta ao piano, e Mena entrou muito frio, com a emissão a fugir e algo áspero nos agudos primeiro e nos graves a seguir, felizmente foi melhorando. Mas pôs a tónica na beleza vocal, na melancolia e não numa leitura poética dos textos de Eichendorff. Paradigmática a falta de dramatismo na palavra "Tod", quando se revela, de chofre e em choque, que a donzela há muito estava morta, palavra que remata um dos poemas da Liederkreis: "In der Fremde".

Concerto de Clara Schumann em lá menor, com orquestra nacional do Porto, houve tempo para escutar, mudei de sala depois do Schumann de Mena e ainda ouvi este concerto fora do percurso previsto. Um belo concerto, muito lírico, com frases, entregues ao piano, de grande poesia e beleza. Um solo de violoncelo que saiu bem, embora o violoncelista seja conhecido como "o gesto é tudo"! O som do violoncelo ainda se conseguiu ouvir além da géstica do músico. A solista, Brigitte Engerer, não foi muito convincente, o maestro pareceu-me correcto e o som da orquestra bastante aceitável. Nos Prelúdios de Liszt o mesmo defeito da OSP: sopros muito duros, mas a orquestra neste capítulo: equilíbrio cordas/sopros, pareceu mais certinha que a OSP.

Quarteto Ysaÿe, elegância, fraseado recortado e muito entusiasmo numa sala sem condições para a audição musical, ar condicionado com um ruído horrível e tecto muito baixo, Mendelsshen e Schumann com subtileza e lirismo. O som foi pouco denso, mas a elegância foi total. Concerto muito bom.

Quarteto Lindsay: mandaram desligar o ar condicionado e bem! Um dos melhores quartetos da actualidade. O primeiro violino e o violoncelo tocam juntos há mais de quarenta anos! Pareciam miúdos, com a maturidade de patriarcas. Foi um deslumbramento ouvir Mendelssohn e Schumann assim. Outro concerto extraordinário.

18h: Kölner Kammerchor e Colegium Cartusianum, direcção de Peter Neumann. Missa Sacra opus 147 de Schumann. Solistas médios com poucas intervenções. Coro muito bom, orquestra de música antiga com instrumentos da época. Um som de grande qualidade, mas algumas falhas nos metais e nos oboés, as restantes madeiras estiveram muito bem, faltou alguma expressividade nas cordas onde existiu uma grande preocupação com a qualidade sonora. Faltou algum pathos. Mas bom concerto.

Boris Berezovsky LISZT Integral dos estudos de execução transcendente, era a não perder e fica marcado pela personalidade deste pianista fortíssimo. Acabou por ser uma demonstração de um virtuosismo absoluto onde só faltou um pouco de contenção na agressividade do toque e do manejo do pedal que em certos momentos empastelou um pouco a clareza das frases. Mas a clareza táctil e a agilidade do pianista são extraordinárias. A capacidade de tocar estes estudos de um fôlego já é de si uma raridade. Outro aspecto é a qualidade musical destas obras que são demasiado agressivas na componente virtuosística, por isso mesmo o pudor de Liszt na denominação: "estudo", algo que se pode tocar em concerto mas que serve para um propósito de desenvolver um capítulo técnico e artístico, estes parece que eram mesmo para concerto. Por atacado fica um pouco a sensação de que falta algo e que é demasiado do mesmo. Mas mesmo com estas ressalvas foi um recital extraordinário.

Paulus de Mendelssohn, Akademie für Alte Music Berlin, RIAS-Kammerchor, Daniel Reuss direcção, Sibylla Rubens - soprano, Christianne Stotjin - alto, James Taylor - tenor, Christoph Hartkopf - baixo. Simplesmente deslumbrante esta obra de Mendelssohn. Simplesmente deslumbrante a interpretação de Neumann, a sua vivacidade a sua capacidade de tirar expressividade e som de uma orquestra que está virada para um reportório muitíssimo mais antigo! Mas que clarinetes, oboés, fagotes e flautas. Que excelentes trompas com um trabalho terrível de canalização durante toda a obra: trompas naturais, sem rotações; para se conseguir tocar em todas as tonalidades é necessário andar a trocar tubos cada vez que se modula. Trompetes idem! Trombones aspas. Tímpanos a condizer. Cordas mais que perfeitas. Que se pode dizer quando é tudo bom? Coro simplesmente celestial, bem que fizeram a voz de Deus, a voz de Jesus de Nazaré que chama por Paulo. Um belíssimo tenor, um soprano bom com reservas: deixou fugir a emissão algumas vezes, um baixo que entrou mal e a desafinar e acabou a subir, um contralto que é mezzo, sem graves, mas que também quase não tem papel. O melhor foi a orquestra e o coro, concentrados, com prazer na música, deliciados em tocar e cantar, um deslumbramento. Mendelssohn o grande compositor inspirado em Bach, com Beethoven pelo meio, a mostrar-se em todo o seu esplendor. O concerto do dia pela música e pela interpretação, mesmo com as cordas a esquecerem o vibrato...

24.4.04

Notas muito elementares a serem desenvolvidas posteriormente sobre Festa da Música 

Um quarteto Psophos bom, mas que podia ser melhor. Uma Irene Lima muito bem. Um Berezovsky de cair de lado tocando um Chopin másculo e excepcional: uma experiência arrasadora com uma Sinfonia Varsovia sempre dirigida por Peter Csaba e com um som de veludo.

Uma Queffélec a tocar Chopin com uma elegância absoluta com a mesma Sinfonia Varsovia.

Um Andreas Steier com uma articulação e um fraseado de um recorte insuperável, com uma orquestra de câmara de Basileia em estado de graça, com uns sopros de uma elegância e um fraseado de uma subtileza que assustam. David Stern a dirigir como um apaixonado.

Uma sinfónica portuguesa cujos sopros precisam de escutar outras orquestras presentes na Festa da música para ver se aprendem a tocar música e deixam de berrar com os instrumentos. Depois de ouvir os metais e madeiras da Sinfonia Varsovia, da orquestra de câmara de Basileia e do Concerto Köln, ao ouvir a berraria dos sopros, sobretudo os metais, da OSP nos Prelúdios de Liszt caio para o lado, ninguém ensinou aos senhores o significado de contenção, de elegância, de suavidade no ataque? De integração no conjunto? Eles dão bem as notas, articulam, têm técnica, poderiam ser uma das mais-valias da orquestra, porquê tocar todos os ff como se tivessem fffff?
Podia-se fazer um filme Matrix com a OSP: os metais a dispararem notas, as cordas e o público a esquivarem-se em movimentos muito rápidos tentando proteger os ouvidos da surdez!... A qualidade geral da orquestra acabou por perder muito em comparação com outros agrupamentos presentes por este efeito dos sopros demasiado agressivos, acabou por ser um concerto mediano quando poderia ter sido muito bom.
António Rosado ao seu melhor nível a abordar o repertório mais difícil que se pode imaginar, Totentanz de Liszt, com a OSP neste ponto a ser mais contida e exacta. Percebe-se que com mais trabalho deste maestro, Zsolt Hamar, mais uma sugestão para um verdadeiro titular, a coisa poderia ir ao bom caminho. As cordas, muito razoáveis neste concerto, precisam de um som mais próprio, mais untuoso, mais coeso, mais idiomático. Mais uma vez se notou que, com outros concertinos o som das cordas melhora muito. O concertino de ontem, Alexander Stuart, mostra uma entrega e um entusiasmo no seu trabalho que se reflecte imediatamente no resultado sonoro.
Nota-se que orquestra precisa de mais trabalho em profundidade com um maestro que saiba o que quer, quando há bons maestros a técnica e a interpretação deixam de ser problema, começa a discutir-se a plástica sonora o que é um bom sinal. A orquestra atingiu a maturidade, precisa agora de atingir a excelência, o factor humano é bom, a reforma rápida do actual titular é a única solução que vejo para o problema. Mas este não é o local para escrever sobre o assunto, voltemos à Festa da Música!

No final do dia, a acabar já algo depois da meia noite, um concerto surpreendente, um Concerto Köln, dirigido por David Stern, com o concerto de Schumann em lá menor para violoncelo e orquestra com Jean-Guihen Queyras em violoncelo com corda de tripa, cordas com instrumentos barrocos e sopros com instrumentos do final do século XVIII, afinação com diapasão a 430 se o meu ouvido não me traiu. Uma revelação de sonoridades, o concerto de Schumann foi tocado de uma forma inspirada por solista e orquestra. A Sinfonia Italiana de Mendelssohn, que se seguiu, foi tocada de forma irrepreensível do ponto de vista técnico, com os sopros superlativos a dominar as terríveis dificuldades dos instrumentos e as piores dificuldades da partitura, o final saltarelo presto foi mesmo presto, rapidíssimo, as fllautas, os clarinetes, os oboés, fagotes, trompas e trompetes conseguiram uma fluência que às vezes não se encontra em orquestras com instrumentos modernos. A entrada da flauta neste último andamento foi belíssima, num pianíssimo pianíssimo pianíssimo, a uma velocidade estonteante, faz um solo tão perfeito que deixou o público de cabelos em pé! Os tímpanos, umas pequenas chaleiras amachucadas, foram atacados por um músico também notável que agradeceu de pé no final! Afinal ouvimos a sonoridade que se ouvia em 1830/40. Sem tiques barrocos, com o vibrato que a interpretação pedia, com a expressividade clássica/romântica desta sinfonia. Recomenda-se fortemente este agrupamento nos concertos de sábado e domingo.

Ninguém deve perder Berezovsky, é arrasador, é tão forte a emoção de ouvi-lo que acaba por ser tremendamente fatigante... Devo reabordar as previsões que fiz para o meu itinerário em função deste pianista, não se lhe pode perder uma nota...



23.4.04

Houve Música na Gulbenkian - D. Giovanni notável 


Por culpa deste homem: Lawrence Foster.

Quem ainda não tiver compromissos para sábado às 20h deve correr à Gulbenkian para assistir a uma interpretação admirável (se for igual à de esta noite) de D. Giovanni de Mozart, K. 527.

Sábado, 24 Abr 2004, 20:00 - Grande Auditório

CORO GULBENKIAN
ORQUESTRA GULBENKIAN
LAWRENCE FOSTER (maestro)

KWANGCHUL YOUN (barítono) (Don Giovanni)
MLADA HUDOLEY (soprano) (Donna Anna)
BRUCE SLEDGE (tenor) (Don Ottavio)
REINHARD HAGEN (baixo) (Commendatore)
HEIDI BRUNNER (soprano) (Donna Elvira)
GILLES CACHEMAILLE (baixo) (Leporelo)
LUÍS RODRIGUES (barítono) (Masetto)
LUCY SCHAUFER (soprano) (Zerlina)
WILLIAM HOBBS (cravo)

Wolfgang Amadeus Mozart
Don Giovanni, K.527
(ópera em versão de concerto)

Uma interpretação de Mozart como Mozart merece: com humor, com teatro, com som, com envolvência. Uma regência entusiástica e eficaz, de uma competência total. Foster nem sempre é elegante no estrado, abusa de movimentos às vezes, mas cria uma empatia enorme com músicos e cantores, está em cima do acontecimento com a batuta, com as entradas, controla as dinâmicas sempre pronto a corrigir excessos e procura, acima de tudo, um equilíbrio total dentro da orquestra e entre orquestra e cantores.

Cantoras divinas: uma Dona Ana perfeita, séria sem ser demasiado histérica, uma voz de uma beleza ímpar, uma riqueza tal de harmónicos que é quase um prazer carnal ouvir um instrumento tão belo, encorpada, metálica q.b. uma emissão de um domínio total: um instrumento dominado nos ínfimos detalhes, capaz de variações tímbricas e com uma cor indizível.
Depois alia esta capacidade vocal à inteligência, à interpretação e à beleza. É perfeita e equilibrada em todos os registos. Rendido a Mlada Hudley. Esta cantora já é uma certeza mas se tudo lhe correr bem será um grandes nomes do início do século XXI.

A Dona Elvira, Heidi Brunner, foi também superlativa, um instrumento canoro menos perfeito mas igualmente belo. A perfeição é um dom natural, a capacidade de interpretar e de tirar partido da voz não: a sua menor gama de harmónicos acaba por se revelar um trunfo, pois consegue um despojamento maior do canto nas partes em que chora o seu sofrimento. Sem deixar de ter a voz encorpada mostra um terceiro harmónico menos intenso que Mlada. A intensidade da sua interpretação, sobretudo na última ária, foram de arrepiar, uns graves de grande qualidade saídos do peito de uma forma tão pesada e angustiada que electrizaram. Heidi tem menos potencial canoro que Mlada, menos cor, mas tem uma qualidade interpretativa tão elevada que no balanço geral ficaram em total pé de igualdade.

Kwangchul Youn em D. Giovanni foi correcto.

Bruce Sledge foi um desgraçadinho Don Ottavio com bom nível, impressionou a bela ária do segundo acto, sobretudo pela respiração e fôlego. Bem apoiado é, no entanto, muito preocupado em ser exacto com os tempos, canta tudo muito certinho à batuta, um pouco mais de rubato não ficaria mal, parece ainda pouco maduro em termos de libertação interpretativa e naturalidade, mas ainda é muito jovem tem caminho para evoluir e mostou boas qualidades, voz redonda, colocação e é desempenado nos agudos.

Reinhard Hagen, no comendador foi exemplar vocalmente, um gigante larguíssimo foi uma estátua convincente. Uma voz de baixo mas muito rica de harmónicos: um fundamental profundo ajudado por harmónicos que às vezes quase davam a impressão de estar a cantar na oitava acima.

Gilles Cachenaille, Leporelo, actor exímio, falei um pouco com este cantor no final da ópera, confirmou-me o que eu suspeitava, estava com uma forte alergia, e queixou-se do ar condicionado da Gulbenkian, muitas mucosidades no nariz e garganta afectaram-lhe a articulação de longas frases rápidas e com muita articulação, o que já tinha sido notório. Vocalmente esteve muitíssimo melhor na acção do que nas árias, a primeira, a do catálogo, mostrou que estava com algumas dificuldades. A voz é, no entanto muito bonita, arredondade, aveludada. Espero ver este actor cantor numa encenação, em forma é muito bom.

Lucy Schaufer foi uma Zerlina correcta, divertida, voz razoável mas muito mais magra vocalmente que as suas parceiras, aliás é assim que o papel pede. Podia ter sido mais histriónica musicalmente, como actriz mostrou que numa encenação da ópera deve ser muito convincente no papel.

Luís Rodrigues, Maseto. Bom actor como sempre, mesmo nesta versão semi-representada em concerto. A voz esteve certa, colocada, correcta, bem interpretado. Mas há um evidente problema com Luís Rodrigues, não sei se deve parar um pouco, se deve apostar mais em papéis mais arredondados e aveludados. A suavidade da voz nunca foi o seu maior trunfo, mas a voz de Rodrigues está forçada, diria que quase gutural, um pouco rouca. Creio que tem tido demasiados papéis secundários e semi-principais, tem agarrado todas as oportunidades do nosso mercado escasso, o que o leva a forçar a voz em muitos trabalhos desgastantes. Rodrigues já merecia um papel importante numa ópera de palco em Portugal ou no estrangeiro depois de ter mostrado tão bom trabalho no Teatro Aberto. Se me lê dou-lhe um conselho não pedido, deve tentar arredondar mais a voz, aveludar, trabalhar com menos stress e procurar a suavidade que ontem faltou um pouco.

A orquestra Gulbenkian esteve praticamente perfeita.

Foster mostrou um trabalho de alto nível no baile descompassado! Os duetos, tercetos, quartetos, quintetos, sextetos e septetos (!) dificílimos de trabalhar sairam quase todos impecáveis.

O coro esteve muito bem.

O cravista cumpriu bem.

O que ressalta é um trabalho de conjunto, a musicalidade, o sentido de humor e o génio de Mozart. Quem organizou tudo, quem nos mostrou o melhor Mozart, quem teve a visão de conjunto, quem leu de forma coerente, em sonoridade, em ritmo, em poesia, em amor pela música, em trabalho preparatório?

Foster: um titular a sério, parabéns pela música que nos dás Maestro.

Festa da Música - Informações de Última Hora obtidas junto do CCB. 

Obtive a informação seguinte que é da responsabilidade do CCB, quem está interessado na Festa da Música pode consultar a informação anexa. Creio que a informação é útil e repito-a aqui.

Para que não diga que não sabia!

FESTA DA MÚSICA NO PRÓXIMO FIM-DE-SEMANA


É já na próxima Sexta-feira que tem início mais uma Festa da Música, este ano dedicado ao Romantismo, Geração de 1810, Chopin, Schumann, Liszt e Mendelssohn.

São 152 concertos em 7 salas, aproximadamente 1.260 intérpretes e 57mil bilhetes disponíveis. É uma maratona musical para ser vivida com imensa alegria e informalidade, mas que requer tempo.

Este ano, por precaução, as garagens do Centro Cultural de Belém durante estes três dias estarão encerradas, sendo que a Garagem Norte (Rua Bartolomeu Dias, em frente ao Museu da Marinha) funcionará como Bengaleiro onde deverão ser guardados sacos mais volumosos ou outros objectos.

É assim conveniente que, nestes dias, quem participe na Festa da Música venha com o tempo necessário para estacionar o carro (se for caso disso) e esteja atento à sinalética no exterior do edifício, que indica as zonas de bengaleiro e portas de entrada do recinto.

Lembramos que muito perto do CCB, na Av. da Índia e junto ao Padrão dos Descobrimentos, se encontram dezenas de lugares de estacionamento que normalmente são "esquecidos". Há uma passagem subterrânea que faz o acesso pedonal para o CCB/Praça do Império.

Ainda há alguns milhares de bilhetes disponíveis (entre os 3,50 euros e 8,50 euros) e diz-nos a experiência de anos anteriores que se formam enormes filas à porta das bilheteiras. Aconselhamos, assim, que venham mais cedo, com o tempo necessário para a escolha e compra dos bilhetes, pois os concertos terão necessariamente início à hora anunciada, de forma a não comprometer o bom funcionamento da Festa.

Sexta-feira dia 23 o CCB abre ao público às 12h00 e os concertos têm início por volta das 13h00.
No Sábado dia 24 e Domingo dia 25 abre às 10h00 e os concertos têm início às 11h00.

Lembramos ainda que a pensar nos pais com filhos mais pequenos, o Centro de Pedagogia e Animação desenvolveu uma série de actividades no Sábado e Domingo entre as 11h00 e as 20h00 para crianças a partir dos 5 anos. Aí, nos "Afazeres Musicais", enquanto os pais vão assistir a um concerto, os filhos podem construir um instrumento musical, lanchar (a troco de uma nota musical cantada) ou ouvir diferentes intérpretes que aí se irão deslocar para oferecerem pequenos apontamentos musicais. As crianças podem permanecer por um período de 90m, sendo que pode ser repetido durante o dia. As inscrições gratuitas, mas com capacidade limitada, fazem-se nas bilheteiras do CCB ou no próprio Centro de Pedagogia e Animação.

Nestes dias o público do CCB terá que ser portador de pelo menos 1 bilhete para o dia da Festa e tem acesso livre a todos os espaços do Centro, inclusive o Centro de Exposições. Poderá ainda beneficiar gratuitamente das conferências, da venda de livros, CD's, e outros objectos, de filmes sobre alguns dos compositores ou formações, e ainda de pequenos concertos em espaços públicos, mais conhecidos pelos coretos.

O acesso exclusivo ao Centro de Exposições faz-se somente pela Rua Bartolomeu Dias. O horário é o habitual do Centro de Exposições, das 10h00 às 19h00, última entrada às 18h15.

Gabinete de Imprensa do CCB

22.4.04

30 anos depois... 


Dois bloguers na TV2 que andavam de fraldas no 25 de Abril, num programa com este nome: Conselho de Estado dos Cidadãos (apropriado a um serviço público!) para discutir os 30 anos do 25 de Abril.
Pedro Lomba: Uma coisa é o 25 de Abril e outra o que foi feito ao 25 de Abril. A deposição de um regime autoritário é justa e necessária. Eu não tenho medo das revoluções, tenho medo dos revolucionários.
Sou emocionalmente neutro em relação ao processo revolucionário.
O que temos hoje é indiscutivelmente melhor do que alguma vez tivemos na história. Revejo-me nas pessoas que sem ideologias, sem oportunismos, viram na revolução a oportunidade de sermos donos das nossas vidas. Não me revejo em quem tinha projectos concentracionários para a sociedade.
Não aceito que se olhe com bonomia os erros do PREC da mesma forma que não poupo erros à ditadura. Os anos 40 e 50 em Portugal foram de um analfabetismo inaceitável.
(E a propósito do cartaz “Abril é Evolução”) Sou a favor da queda do R. A Revolução de Carlos Antunes falhou.
Lomba para Carlos Antunes: “ A sua revolução não era um movimento democrático. Era um movimento incompatível com a ideia de legalidade”.“Acha que consegue criar uma sociedade sem haver um mínimo de regras de certeza e estabilidade?”
Carlos Antunes: “Vivo como sempre vivi. Nunca quis fazer política para viver da política. O meu modelo não é dos que oprimem. O meu modelo é o da liberdade”.
António Marques Bessa para Carlos Antunes: “O Carlos Antunes afirmou que a Revolução libertou os mais pobres. Eu tenho ido a Angola e visto que a Revolução originou um esclavagismo entre pessoas da mesma cor”. Marques Bessa: “Não concordo nada que tenham tirado o R (a propósito do cartaz). Esconder que houve uma Revolução. Isso é uma estupidez”.
Zé Mário Silva- Quando se deu o 25 de Abril a minha família estava em França. Eu tinha dois anos e alugámos uma televisão.
Quando se fala do PREC fala-se dos abusos da esquerda e então os abusos da direita, o padre Max, etc?
Eu sou sensível ao lado suave da Revolução, as únicas vítimas foram 4.
( A propósito do cartaz): Sou contra a queda do R.
Zé Mário para Pedro Lomba e Marques Bessa: “Nós sentimo-nos proprietários do 25 de Abril mas vocês nunca o quiseram”.

Festa da Música - um possível alinhamento, mas capaz de sofrer alterações 

Editado pela última vez em 23 de Abril às 0h46m.

Os concertos a que vou assistir na Festa da Música, não é uma recomendação é um estudo de um percurso possível até que já conheço e ouvi muitos dos intérpretes presentes neste repertório e quero explorar outras experiências. Quando não indico a sala significa que permaneço na anterior.

Sexta

Sala Hoffmann (SHf) 13h15m, Makhtin, Kniazev e Engerer.

Sala Tieck (ST) 14h15m, Quarteto Psophos.

Sala Novalis (SN) 15h30m, Peregrinação da Rosa Coro do S. Carlos e J. Paulo Santos. Preferia Irene Lima e Tânia Achot às 15h15m, mas não deve dar tempo para mudar de sala...

Sala Hölderlin (SHl) 16h30m, Rosado e OSP, deveres de ofício: tenho de estar em cima deles senão começam a tocar mal! Deixando-me de brincadeiras: este maestro costuma trabalhar a sério, veremos, levo partitura de bolso dos Prelúdios de Liszt. É uma obra que aprecio vivamente e que ouço regularmente, espero uma interpretação à altura da obra.

18h, Queffélec (piano) e Sinfonia Varsovia com Peter Csaba.

19h30m, Andreias Staier (este não perco) e Kammerorchester de Basileia.

SHf 21h30, outro que não perco: Berezovsky e Sinfonia Varsovia.

23h, Qeyras no violoncelo, Concerto Köln e David Stern.

Sábado

Dúvida
ST 11h, Andreia Marques (muito curioso em ouvir esta jovem harpista que me parece em forma) com o quarteto Ysaÿe numa obra de Liszt: Junto do Túmulo de Richard Wagner! Mas à mesma hora Jean Efflam Bavouzet toca obras de inspiração wagneriana no piano, redução para piano de Liszt da Morte de isolda, o prelúdio do 1º acto do Tristão numa redução de Soltan Kocsis, isto na sala Eichendorff (SE) à mesma hora, mas creio que vou ouvir a nossa harpista.

SN 12h30m, Carlos Mena canta Schumann e Liszt, a sua sensibilidade e musicalidade são elevadas mas torço o nariz, fortemente, a um contratenor neste repertório. Apenas curiosidade.

ST 14h30m, Quarteto Ysaÿe.

16h30m, Quarteto Lindsay.

Dúvida entre as 18h e 18h30m com três opções a) Elena Rozanova - b) Concerto Köln - c) Kölner Kamerchor e Colegium Cartusianum.

Certeza: SHf 19h30m, Boris Berezovsky LISZT Integral dos estudos de execução transcendente. A não perder.

SHl 21h30m, Paulus de Mendelssohn, Akademie für Alte Music Berlin, Daniel Reuss.

Domingo

SE 11h, Octeto de Cordas dos Limas! Irene Lima, Aníbal Lima e Paulo Gaio Lima...

SN 12h45m, Ensemble Explorations - São excepcionais.

SE 14h. Mais um Lima: o Paulo Gaio (já ouvido antes) e o António Rosado.

Dúvida às 15h15m: Orquestra do Porto na SHl (deveres do ofício) e Academie für Alte Music Berlin (deveres do coração).

16h45m SHl, Rias Kammerchor, Daniel Reuss.

Distensão, sesta, conversa, discos e revistas, cirandar, ir ao gabinete de imprensa, etc, etc, etc,

20h15m SN, dois quartetos juntos: o Lindsay, com jarretas bem simpáticos e a tocar muito bem, e o quarteto Psophos, com umas jovens e simpáticas raparigas, todos juntos e ao vivo, em contraste bem giro no octeto de Mendelssohn!

E a seguir há uma festa com os músicos todos e a equipa do CCB...

Sinto complexos de culpa por não ter arranjado um pedaço para ouvir a Via Crucis de Liszt mas que conheço e (recomendo violentamente) e Ana Ester Neves em lied de Liszt e de Mendelssohn. O lied falta nesta festa da música, uma carência gravíssima, um programa muito desequilibrado neste aspecto que mereceria correcção.


21.4.04

As famílias felizes 

Partilho com o Pedro Lomba a obsessão das famílias. E subscrevo as palavras de Filomena Mónica: as famílias felizes são um mito. Às vezes, basta um olhar para compreender uma data de coisas: se têm de que falar, se implicam, se controlam, se descolam, se refreiam ou esperneiam, se resta amizade, respeito, se há egoísmo ou sacrifício, quem mais sacrificou, quem mais ama. O banal. O fora do normal são famílias a exteriorizar o afecto ( Registo que esta semana o prof Marcelo foi classificado pela filha como um pai afectivo e preocupado com os outros, o melhor cartão de visita caso planeie regressar à política). Regalo-me quando uma adolescente poisa a cabeça no ombro do pai e refugio-me nas ondas hertzianas que se desprendem de serões e comensais de famílias felizes.
Analiso um extracto de famílias felizes: desprendimento material. Está lá sempre. Iguais no tempo de partilhas, perante parentes pobre ou ricos. Silêncios e, à vez, sacrifícios individuais para que reine a harmonia do grupo. Também. Alegria e muita converseta. Todos a mexerem-se e a torcerem e a festejarem pela causa de um. Só não sei em que porções é que tudo isto se mistura. Porque as famílias felizes fazem tudo isto com a naturalidade de quem descasca uma laranja e a seguir saboreia sem culpa os gomos doces ou de quem nos presenteia com um banquete mas nos poupa os preparativos.



O Cachimbo no dilúvio 

Como é que o cachimbo do Diogo não se apaga no meio de um dilúvio? Como consegue andar um quilómetro debaixo de chuva com o cachimbo a fumegar? Sem guarda chuva, sem gabardine, calmamente. É de Gente! Há certas coisas que só mesmo a rapaziada de direita...



Leite de Faria, poemas com "enes" 

301

um dois três
...
Nada


575 (o formato clássico)

Sendo aquilo que é:
Nuvem no fim de jornada
O tudo que é nada.

Outro

Nasce a passo rápido
Nuciforme sentimento.
Quero um quebra-nós...

33

Numismata
Numisfola.

Uma nassa

Na praia de São Martinho
Roubei uma nua nassa.
Caminhava nas calmas e vi-a:
Funil onde não passa vinho
Onde nada se passa
Nem peixes caça:
Uma nassa feita de névoas
Para caçar almas sem tréguas.

Leite de Faria - 1961

20.4.04

Deitar os foguetes e apanhar as canas 

Parece-me inaceitável que críticos como A.M.Seabra, sejam convidados e aceitem falar em conferências, o que acho excelente, e depois critiquem, croniquem, dissertem sobre os eventos organizados pelo promotores da conferência num jornal, o que acho péssimo: ou uma coisa ou outra. Qual a independência do crítico após a participação no projecto?
Falo do projecto Feldman, que teve conferência, concertos e ópera.

Acho também digno de nota que o mesmo crítico durma durante os concertos sobre os quais depois disserta! Neste caso acho que faz muito bem, trata-se afinal de Feldman.


Filomena Mónica à conversa com Maria João Avillez 

Algumas ideias:

A univesidade, em ideal, devia ser um encontro de pares, uma conversa para entre si se estimularem e aperfeiçoarem. Em vez disso é um antro de ódio e inveja.
Oxford made me. Em Portugal, país pobre e periférico, é fácil brilhar e cair na lassidão. Preciso que me critiquem, cá a única pessoa que o faz é o Vasco (Pulido Valente), já sei que vai dizer mal por dizer mal. De vez em quando, vou a Oxford para me espicaçarem. Eu não sou nenhum génio. Como o Eça era.
A condessa de Rio Maior era católica e aristocrata. Eu sou plebeia e agnóstica.
O D. Pedro V era muito Saxo-Coburgo e nada Bragança. Ao contrário do pai, D. Fernando, que gostava muito de mulheres e de festa, D.Pedro V era austero e frugal e não gostava de mulheres.

19.4.04

Este nosso pequeno pueblo 

Domingo à tarde, no Chiado, encontro um bloguer a falar ao telemóvel. Acaba o telefonema.
- Desculpa lá. Estava só aqui a acabar uma conversa com a bloguer x que, por acaso, namora com o bloguer y, sabias?
- Não, não sabia. Queres vir almoçar para a semana com o bloguer z que trabalha ao pé de nós?
- Está bem. Sabes todos os dias falo ao telefone com o bloguer w, temos grandes discussões políticas, mas não se pode dizer nada no blog, senão caía o Carmo e a Trindade.
- Isso é o que os políticos dizem uns aos outros, não é?

17.4.04

Uma sucessão de prazeres culminando com o Remix 

Ao contrário do que alguns amigos me dizem eu não adoro dizer mal, arrasar, criticar de forma violenta e pouco construtiva, para mim o essencial é seriedade, o prazer da música, quando vejo e ouço que algo é excelente, bom, médio, medíocre ou péssimo digo-o da mesma forma, descomprometida e descomplexada. O meu maior prazer é dizer que algo correu bem, que se obteve uma fruição e recepção de um conceito musical com sucesso, que houve empenho, trabalho, que mesmo com erros, mesmo com pequenos defeitos houve música! Mas quando nem sequer houve pequenos erros? Então fico realmente feliz.

Curiosamente as últimas semanas têm sido um manancial de pequenos e grandes prazeres musicais.

Começou com Leonskajia na Gulbenkian, um recital de grande qualidade, aliás habitual nesta pianista. Um recital sem direito a críticas nos jornais. Onde andaria A. M. Seabra?

A paixão de Bach já foi comentada, mas acabou por ser agradável, nota onze, pela música de Bach e alguns momentos bons.

O concerto dos Sixteen foi um prazer inolvidável.

A ópera de Feldman uma excelente surpresa pelo bom trabalho da orquestra, cantora e maestro.

Ontem o subir da montanha revelou um Remix ensemble perfeito, nem um cabelo a apontar, o que me deixou realmente satisfeito, a prova que em Portugal se consegue um trabalho sério, perfeito, de qualidade global e não apenas local:

Concerto no Salão Nobre do Teatro Nacional de S. Carlos 16 Abril de 2004 às 18:00h.

Morton Feldman
The Viola in my Life I para viola e ensemble
The Viola in my Life II para viola e ensemble
The Viola in my Life III para viola e piano

John Adams
Chamber Symphony

Viola
Christophe Desjardins

Direcção musical
Jürjen Hempel

Um violetista irrepreensível, brilhante mesmo, com uma sonoridade muito bela, bem conhecido aliás, uma direcção exacta e sobretudo um conjunto de músicos notáveis, ensaiados, afinados, excelentes em conjunto que deram uma interpretação verdadeira empolgante de John Adams, o que contrastou com o soporífero Feldman.
Um concerto a coroar umas três semanas de prazeres musicais e vem aí a Festa da Música...

Nota - Soporífero não é pejorativo, pode-se ser suporífero e bom. Quem consegue dormir ao ouvir umas marteladas na obra da casa do vizinho?
Feldman é tão soporífero que durante a ópera Neither parece que alguns músicos se deixam dormir, tendo o maestro vários cordéis na estante de regência ligados aos polegares dos dedos dos pés dos músicos para os acordar um pouco antes das entradas, um violoncelista chegou mesmo a adormecer enquanto dava uma arcada de uma nota que se arrastava há quarenta compassos! E continuou a tocar, aliás de forma excelente, enquanto ressonava até lhe ter sido puxado o cordel...Mas Feldman tem boa música apesar desse efeito anti-insónia.



Uma crítica atrasada que deve ficar feita e registada 

1,2 e 3 de Abril de 2004, 19:00 no Grande Auditório da Gulbenkian, Paixão Segundo S. João de Bach.
Nomes dos intérpretes e apreciação individual resumida no final.

Uma Paixão Segundo S. João de Bach na Gulbenkian dirigida por um fóssil interpretativo: Michel Corboz, com alguns solistas de má qualidade, por exemplo um baixo que mais parecia um astrólogo, incapaz de articular com limpeza as escalas que Bach lhe entregou, um tenor sem voz nem articulação para as árias, uma interpretação geral descuidada, incoerente com o estilo: nem barroca nem romântica a meio cominho mas cheia de vícios como vibrato excessivo na orquestra, na qual poderia apontar mil e um detalhes. O trabalho do baixo contínuo foi muitíssimo irregular, com um organista despistado a esquecer-se de acordes do cifrado uns atrás dos outros e incoerente na sua aplicação. O maestro foi também incoerente nas suspensões dos corais, o que é costume em Corboz, faz as suspensões quando acha que deve fazer sem regra nenhuma. Sem critério musical ou musicológico.

Os elementos melhores foram o evangelista, a soprano, a contralto, o Cristo, o coro e a gamba. Uma nota para o bom coro da Gulbenkian que, apesar de ser o parente pobre da Fundação Gulbenkian, acaba por ser um dos maiores trunfos da casa e que é desperdiçado, desaproveitado a fazer Bach com milhares de cantores, de forma mastodôntica e arrastada, quando está um enorme reportório coral sinfónico para ser feito à espera de um coro com a qualidade do coro Gulbenkian.
Salvaram-se alguns cantores e a música eterna de Bach. Bach é difícil de destruir, a qualidade intrínseca da sua música resiste mesmo a um Corboz incapaz de dominar a moderna orquestra Gulbenkian, orquestra sem idiomática barroca, Corboz é incapaz de escolher um naipe de solistas homogéneo. A audição acabou por se revelar agradável na segunda performance mercê dos lados positivos apontados, a primeira foi muito má.
O pior de tudo é que a Gulbenkian continua a entregar a Corboz as Paixões de Bach, o pior de tudo é que não se percebe que interpretações de Bach sem assumirem qualquer lógica interpretativa, com violas da gamba barrocas misturadas com violoncelos modernos, cantores a cantar à barroca com contínuo quase apropriado à obra mas misturado com violoncelo e contrabaixo modernos, tocados sem qualquer sensibilidade barroca, a destruir completamente qualquer verosimilhança interpretativa, o pior não é estarem instrumentos modernos misturados com antigos, o pior é aquilo ser uma confusão, uma salganhada de estilos misturados num pastiche em que não se percebe qualquer racional, qualquer pensamento, qualquer lógica. Uma bola preta para a Gulbenkian que continua a insistir em tais programas que serão sempre incapazes de responder ao propósito musical da fruição de um espectáculo coerente, sempre desequilibrados estes concertos, bons momentos, excelente música, mas grande pobreza intelectual e emocional.
Acabou por ser suportável, agradável, mais pela obra e certos momentos do que pela interpretação global.

CORO GULBENKIAN - Bom.
ORQUESTRA GULBENKIAN - Banal, muito má nas cordas a solo, violoncelo com interpretação péssima do que é um baixo contínuo em Bach, vibrato desmesurado e completamente errado.
MICHEL CORBOZ (maestro) - Um fóssil musical, bom na direcção coral, fraco no domínio de uma orquestra, ainda tem alguma musicalidade mas muitos furos abaixo do que foi em tempos.
LETIZIA SCHERRER (soprano) - Muito bem.
HELENA RASKER (contralto) - Muito bem,
WERNER GÜRA (tenor) Evangelista – Excelente, articulação clara, expressividade, narração exacta, voz bem colocada e bem projectada, agudos fáceis.
RAY M. WADE JR. (tenor) - Fraco. Voz fraca, magra, respira mal, não tem ainda maturidade para cantar a solo as árias de uma Paixão de Bach, a ária "Erreweghe..." saiu um desastre, uma das mais difíceis páginas de todos os tempos entregues ao tenor não poderia ser cantada por alguém com tão pouca maturidade vocal e interpretativa.
MARCOS FINK (barítono) Cristo - Muito bom. Tem uma voz requintada, aveludada, muito rica, e fez o papel na perfeição.
MICHAEL SCHOPPER (baixo) Astrólogo de serviço nas árias- Bom nos recitativos, mau nas árias, articula mal, não tem agilidade vocal. No primeiro dia foi desastroso, parecia um elefante numa loja de porcelanas a destruir as notas que Bach escreveu, ritmo desacertado, stress nas entradas, muitas falhadas, notas erradas na segunda ária. Corrigiu e esteve um pouco melhor no segundo dia, mas a articulação não consegue melhorar, não tem capacidade nem agilidade para a ária em que se caminha para o Gólgota, com uma torrente vertiginosa de escalas e de semicolcheias, um facto que Corboz não pode ignorar.
MARCELO GIANNINI (órgão) - Descuidado, desatento.
JUAN MANUEL QUINTANA (gamba) - Impressionou bem.

16.4.04

Feldman e Beckett no S. Carlos 


NEITHER

to and fro in shadow from inner to outer shadow

from impenetrable self to impenetrable unself
by way of neither

as between two lit refuges whose doors once
neared gently close, once away turned from
gently part again

beckoned back and forth and turned away

heedless of the way, intent on the one gleam
or the other

unheard footfalls only sound

till at last halt for good, absent for good
from self and other

then no sound
then gently light unfading on that unheeded
neither

unspeakable home


Samuel Beckett


A propósito de Neither de Morton Feldman. Ópera em um acto para soprano e orquestra sobre um texto de Samuel Beckett.
Teatro Nacional de São Carlos: 15 Abril 2004, 20:00h; 16 Abril 2004, 20:00h, 17 Abril 2004, 20:00h.


Direcção musical
Emílio Pomàrico

Instalação
David de Almeida

Desenho de luzes
Pasquale Mari

Soprano
Petra Hoffmann

Orquestra Sinfónica Portuguesa

O prato de resistência do ciclo Feldman, ou "Projecto Feldman" no S. Carlos foi a ópera "Neither" com texto escrito por Beckett para Feldman, o compositor utiliza um texto minimalista cheio de vazios e de silêncios para construir uma ópera/não-ópera em um acto com uma hora de duração.

O texto de Beckett é notável na sua concisão e na sua poesia filosófica, na sua força de pensamento, no seu turbilhão caótico de ideias ditas em pouquíssimas palavras, é absolutamente genial. A música de Feldman, e perdoem-me os indefectíveis de Feldman, é agradável mas muito simples, cheia de fórmulas, que nos trazem uma aparente complexidade que é apenas combinatória e não intrínseca, uma música polar que oscila entre o ser e o não ser, uma música pairante dirão alguns, uma música mínima dirão outros. Porquê mínima? Porque se baseia em módulos melódicos muito simples, em fragmentações rítmicas, em harmonias estáveis, pese embora a aparente complexidade harmónica, mais resultante da combinação de timbres pouco habituais do que de uma real liberdade tonal. Eu encaro a música de Feldman como a parte menor do complexo texto/música. Agradável, boa, nunca genial, nunca transgressora, pelo menos em Neither. Beckett é caótico, nunca polar, nunca linear, o ser e o não ser, não são pólos, são extremos de um raciocínio denso que vagueia algures entre a definição da auto consciência de nós e do mundo e a disrupção dessa mesma consciência, cuja principal consequência será a morte, a luz algures no meio, tal como no texto, tal como na vida...

A parte vocal da obra é terrífica, num registo quase impossível, o soprano paira em notas agudas acima do fá, sol, lá bemol, lá, si, dó e mantém-se acima o tempo todo passeando pelos sobreagudos. É ingrato, quase não se percebe a voz atrás de tal registo. Petra Hoffmann parece ter uma voz dotada para o papel, mas que me pareceu muito magra quando desceu a notas mais graves. A afinação, diabólica aliás, foi perfeita, conseguiu esse feito graças ao diapasão que teve de usar sistematicamente para conseguir manter a cabeça fria nos ataques sem preparação de notas agudas. Sai com nota elevadíssima.

A orquestra esteve de novo em plano muito alto, com defeitos graves apenas no sincronismo dos ataques em simultâneo de alguns sopros, fagotes atenção às entradas a tempo. Os sopros entram quase sempre em conjunto, têm também registos muito incómodos, os clarinetes que o digam. As cordas têm de suportar longuíssimas notas o que deve ser tremendamente fatigante e desconfortável. Mas tenham atenção, o efeito para o ouvinte foi bom senão muito bom. Continuem concentrados e melhorem os ataques que então terão uma performance irrepreensível. Notou-se a afinação dos violinos, o concertino habitual deu folga aos seus colegas e aos ouvidos do público o que muito se agradece.

A direcção musical esteve em plano muito bom, com muita atenção e concentração do maestro Emílio Pomàrico que tirou partido da orquestra, o resultado foi excelente.

A instalação será falada noutro texto, mas creio que será um dos aspectos mais discutíveis da produção, com pontos a favor e pontos contra.

Recomendo vivamente uma ida ao S. Carlos hoje e amanhã, não espere uma ópera convencional, prepare-se para uma experiência enriquecedora e libertadora.

15.4.04

Carnívora ou vegetariana? 

Peter Singer e Coetzee

Pois estive neste fim-de-semana a comer uma belíssima empada de coelho bravo especialidade d’A Escola, que recomendo, perto de Alcácer. “A Escola” porque reformou uma dessas escolas públicas que o “Botas” nos deixou que não só resistem, como não há câmara que se preze que não as recupere.
Levava na bagagem um livro inofensivo, leve, do J.M Coetzee, “ As vidas dos Animais”, uma ficção que retoma as questões que Peter Singer veio deixar a Portugal em Fevereiro do ano passado e que são basicamente as questões dos direitos dos animais, onde Coetzee se lembra de tornar atraentes questões teóricas filosóficas que lhe são caras, com a dos direitos dos animais.
Peter Singer, por exemplo, tinha-nos dito que deitava ao lixo a tradição Judaico-Cristã a favor dos seres humanos enquanto seres especiais, que Deus criou à sua própria imagem e a quem deu domínio sobre os outros animais. E outras coisas bem mais polémicas: que desde que o possamos, deveríamos reduzir a quantidade de sofrimento no mundo, desde logo com os animais em laboratórios e nos matadouros (este último um mal moral superior porque envolvendo mais carnificina). Para já não falar de outras propostas que lhe valeram acusações de nazismo, como a aceitação da eutanásia. Disto tudo fala ele em Ética Prática, onde propõe uma nova ética por “ a ética tradicional não ser mais sustentável”.
Também Coetzee, neste livro nos diz, através de Elizabeth Costello, que numa tradição que remonta a Descartes, separámos os animais do homem, a partir da razão, e fechámos-lhes o coração, a capacidade de compreender e imaginar como é ser um animal em sofrimento, para evitarmos que nos perturbem. Partilhamos com os animais bem mais do que imaginamos, pelo menos, a capacidade de sentir dor e a capacidade de sofrer. Costello chega a comparar o comportamento humano para com os animais com o comportamento dos nazis para com os judeus, como já fizera um dos personagens de Isaac Singer. Coetzee e Singer parecem coincidir neste ponto de que o poder impõe a razão e os fortes podem fazer o que quiserem com aqueles que se encontram sob o seu domínio.
Mas quais as consequências de um reconhecimento deste pretensos direitos dos animais, que aliás não têm mais de 150 a 200 anos, na tradição ocidental? Nas palavras de Peter Singer : “ seríamos forçados a efectuar mudanças radicais na forma como tratamos os animais, o que teria implicações relativamente à nossa alimentação, aos métodos de criação de animais, aos processos experimentais em muitas áreas da ciência”.
Ou tal como o próprio Coetzee refere pela voz de outra personagem: “ Parece-me que o nível de comportamento que pretende modificar é demasiado básico..O carácter carnívoro exprime algo de verdadeiramente profundo acerca dos seres humanos...Eles gostam de comer carne. Há algo de atavicamente de atavicamente satisfatório em comer carne”.

CMC

The Sixteen 

Gulbenkian, dia 13 de Abril, 19h. Ver crítica.

Como o artigo citado informa, eu apenas faço mais uma reflexões.
Um excelente concerto, não absolutamente perfeito, umas entradas falhadas no Stabat Mater de Domenico Scarlatti, curiosamente uma obra de pendor bem mais "arcaico" que o conhecido Stabat Mater de seu pai, Alessandro, mas em que se nota um génio absolutamente notável. Obra a dez vozes com baixo contínuo, o baixo não se limita a dobrar as vozes dos baixos, é independente e sublinha de forma notável os momentos mais expressivos da obra. Um Stabat Mater compungido, em que se lamenta o sofrimento da Mãe de Deus, mas também dramático, em que se sublinha o sofrimento do Filho, e em que se aspira ao Inefável através da identificação dos sentimentos do crente, que escreve a obra, com os padecimentos de Maria.
É precisamente nesta fase derradeira em que se aspira ao Céu e se pede a Redenção que a obra assume um pendor contrapontístico notável, em que as vozes se perseguem numa fuga complexa que carece de um coro maduro e perfeito. Aqui o agrupamento dirigido por Harry Christophers, eram vinte cantores, (não eram dezasseis como o nome poderia dar a entender!) foi notável. O Amén final deu-nos a confiança e a esperança, até para perceber que existem coros capazes de cantar estas obras com alto nível.

Claro que as vozes individualmente consideradas não seriam as mais indicadas para os soli expostos do Stabat Mater mas será que no século XVIII se cantaria tão bem esta obra? De forma tão perfeita? Não será demais exigir a um coro que contenha em si cantores solistas, que poderiam cantar papéis de ópera ou de oratória?

Numa perspectiva contida dentro do agrupamento entende-se a concepção do maestro, por outro lado senti uma interpretação muito pura da vocalidade em todo o reportório abordado, as obras ganham no meu entender uma dimensão intemporal, como se tratassem dos últimos quartetos de Beethoven ou da Arte da Fuga, uma dimensão pura e mágica não metida a martelo num período histórico e com os seus tiques.
Mas será que quando foram compostas se interpretariam de forma tão pura, tão renascentista? O que aliás não está longe da concepação maneirista das obras, repare-se nos cromatismos que realçam as chagas de Cristo, as dissonâncias que marcam a crucificação e a morte sob Pôncio Pilatus, ou as pausas súbitas que dão uma força telúrica aos padecimentos de Maria.

Os barroquismos não contaminariam a interpretação na época em que as obras foram compostas? Tratam-se de obras religiosas a muitas vozes, melismas a mais, ornamentações, diminuições seriam sempre complicadas de fazer por capricho de cantores isolados, falo de prática usual e global, instituída, estabelecida, o uso de formalismos assumidos na época e que se perderam na descontinuidade intrínseca que o conceito de música antiga contém dentro de si, afinal perdeu-se a linha da interpretação desta música. Nem sempre: certos corais de Schütz permaneceram nos livros de liturgia até 1936 ou mesmo até hoje, mas da nossa música de setecentos perdeu-se mesmo a linha interpretativa.
Ou será que estas questões são disparatadas e a beleza da música é apenas e só eterna? A beleza que os Sixteen nos trouxeram.

Notas finais:
Um excelente baixo contínuo com arquialaúde, harpa doppia e orgão positivo. Se contarmos com Henry Christophers os 16 eram afinal 24!

Segundo me disseram não se ouviam as cordas numa zona do auditório a partir do meio da primeira plateia, faltou a ressonância de uma nave de uma igreja, ou então uma sala mais pequena. Recordo que os orgãos que acompanhavam os coros eram orgãos grandes, com uma respiração uma pujança enormes, mesmo quando usavam os registos do positivo, os alaúdes podiam ir aos cinco e seis, percebe-se pois a pouca audibilidade dos instrumentos, felizmente estava à frente e consegui escutar com muita clareza a beleza dos instrumentos dedilhados.

Henrique Silveira

13.4.04

Tristão e Isolda em Roma 

Tristão e Isolde regressou a Roma numa actuação de grande sucesso pelas mãos da Orquestra da Academia e Santa Cecília dirigida por Myung-Whun Chung. Esta versão de concerto não foi dirigida para um público de vulgares ouvintes, mas para um público de entendidos que não podiam prescindir da qualidade da actuação. Assim sendo, a resposta dos artistas foi majestosa; o soprano lituano Violeta Urmana o baixo Finlandês Matti Salminen e o Tristão dinamarquês Stig Andersen estiveram a níveis excepcionais. Ouvimos também uns óptimos Lioba Braun e Alan Titus nos papéis secundários. A orquestra tocou aos níveis que lhe competem, sendo esta possivelmente a melhor orquestra sinfónica italiana com um recente passado de Maestros Titulares tais como Leonard Bernstein, Carlo Maria Giulini, Giuseppe Sinopoli e agora Myung-Whun Chung. Momentos de enorme fascínio como por exemplo o célebre dueto do segundo acto e os arrepiantes momentos do terceiro que deixaram o público quase aniquilado pela força e beleza do som produzido, aumentado pela enorme qualidade acústica do fenomenal, e novo, Auditório de Roma.

M.P.

São Carlos e Culturgest 

A Ópera "Neither" de Morton Feldman em um acto para soprano e orquestra sobre texto de Samuel Beckett estreia dia 15, com repetição a 16 e 17 de Abril no Teatro Nacional de São Carlos. Concertos sobre Feldman no Salão Nobre do São Carlos de 14 a 17 de Abril.
Falar de Feldman – Colóquio Internacional na Culturgest a 16 e 17 de Abril. A não perder.

Recital de Thomas Hampson cancelado devido a doença do cantor. Era dia 14, quarta feira às 19h.

Imagem da Semana 


Serpa

Foto de Rodrigues


12.4.04

Henrique Cymerman 

O melhor jornalista de reportagens que temos. Por tantos anos de trabalho e de isenção, sempre a mostrar os dois lados da questão, conseguindo encontrar, qual agulha no palheiro, um judeu e um palestiniano de braços dados reconciliados, parabéns!

9.4.04

Música para a Semana Santa 


A liturgia da Semana Santa inspirou algumas das mais extraordinárias obras musicais de todos os tempos. Música de grande carga espiritual e intenso dramatismo, escrita com um cuidado meticuloso, fazendo uso dos mais sofisticados recursos expressivos (pungentes cromatismos e dissonâncias, o característico baixo de Lamento no momento da Crucificação, lágrimas e suspiros entrecortadas por por pausas, harmonias ousadas, nem sempre presentes no repertório habitualmente destinado a outros fins). Em conformidade com a gravidade da ocasião, numa tentativa de comunhão com o divino, de evocação do sofrimento e do amor de Cristo, do mistério da morte e da ressurreição, de temor e de júbilo.
As eternas Paixões de Bach e dos seus contemporâneos e antecessores (Schütz, Kaiser, Telemann) no âmbito da tradição luterana, mas também da liturgia católica — de polifonistas como Lassus ou Victoria às obras dramáticas, quase teatrais, do século XVIII sobre o libreto de Metastasio (“La passione di Gesù Cristo”) usado por Jommelli, Paisiello ou Caldara. O belíssimo Oficio das Trevas (Tenebrae), ou seja das Matinas do Triduum Sacrum, cerimónia que durava até ao amanhecer e previa a extinção das velas, uma a uma, à medida que se cantava cada versículo. Os Salmos, as Antífonas e os Responsórios deste serviço religioso serviram de base a numerosas peças, mas foram as comoventes Lições do 1º Nocturno (as famosas Lamentações de Jeremias) a exercer o maior fascínio sobre os compositores, principalmente a partir do século XV. Dufay, Arcadelt, Crequillon, La Rue, Sermisy, Lassus, Palestrina, Gesualdo, Byrd, Tallis, mas também os compositores ibéricos do Renascimento e do Maneirismo edificaram esplêndidas obras polifónicas sobre o texto do profeta. O tenebrismo e a austeridade da Contra Reforma, as vestes roxas e o cheiro a incenso, as monumentais procissões, onde o sacro e o profano se confudiam num misto de misticismo e sensualidade. Elementos por vezes contraditórios que teriam servido de cenário às composições dos espanhóis Morales e Victoria ou de portugueses como Frei Manuel Cardoso, João Lourenço Rebelo ou Diogo Dias de Melgaz.
Depois de 1600, começam a aparecer Lamentações monódicas em Itália (Cavalieri, que opera uma admirável síntese entre a polifonia renascentista e o nascente estilo monódico, Carissimi, Frescobaldi, Stradella…) e em França, onde nasceu um género próprio ligado ao estilo peculiar da arte vocal francesa, combinação subtil entre declamação e profusão ornamental. Lambert, Charpentier, Couperin, Brossart, Nivers, Delalande ou Bernier, criaram música simultaneamente intimista e perturbante para vozes solistas e baixo contínuo. Durante o século XVIII continuaram a compôr-se numerosas Lamentações (por exemplo por Alessandro Scarlatti, Durante, Jommelli, Zelenka ou Heiniken), mas é em relação aos dois séculos anteriores que encontramos o legado mais sublime e, também, uma discografia mais rica e abundante.
Outras partituras associadas à Semana Santa incluem, por exemplo, as originais SeteÚltimas Palavras de Cristo na Cruz, encomendadas pelos bispo de Cadiz a Haydn, que Filipe Pinto Ribeiro interpreta esta tarde, na versão pianística, em Mafra. Na próxima terça-feira, na Gulbenkian, o interessantíssimo programa proposto por Harry Christhophers e o coro The Sixteen inclui também várias páginas alusivas à quadra Pascal. Entre outras, a Lamentação de Quinta-feira Santa, de Diogo Dias de Melgaz, os Crucifixus, de Antonio Lotti e Antonio Caldara (respectivamente a 8 e a 16 vozes), o monumental Stabat Mater, a 10 vozes, de Domenico Scarlatti, herdeiro do colossal barroco musical romano. Recorde-se que este agrupamento britânico reeditou recentemente na sua etiqueta Coro, um excelente CD dedicado a Rebelo e Melgaz: “A Golden Age of Portuguese Music”. E falando de Stabat Mater (como poderíamos também falar do Miserere e de muitos outros textos), mais uma lista de obras admiráveis nos vêm à memória, da autoria de compositores tão diversos como Josquin Desprez, Vivaldi, Pergolesi, Bocherini, Haydn, Rossini, Dvorák, Poulenc…
A lista de música para a Semana Santa (bem longe de ser exaustiva) poderia prolongar-se muito mais, incluindo os séculos XIX (a visionária “Via Crucis”, de Liszt) e XX (“Impropérios”, de Mompou, as Paixões de Penderescki e Arvo Part, “L’Ascension”, de Messiaen, “As Sete últimas Palavras”, de Gubaidulina…), mas estas sugestões, mais ou menos ao sabor da memória, são já mais que suficientes para uma Páscoa ao som de alguma da melhor música de sempre, susceptível de emocionar crentes e não crentes.
V.G.

P.S. - Voto para um milagre: que o Bispo Pedreira de Viana do Castelo possa ouvir pelo menos uma destas obras e reconheça que a música é o mais poderoso dos alimentos espirituais!




8.4.04

Um email de um músico 

Recebemos um amável email de um anónimo, devidamente identificado, que reclama contra o nossa brincadeira de obrigar os músicos a pagar pelas notas trocadas:

Caro crítico, a notícia acerca da orquestra alemã é paradigmática. Contudo a coisa que me espantou mais foi a seguinte: "Os músicos alemães, escreve o jornal "Daily Telegraph", ganham por mês cerca de 6200 euros, quase o dobro dos britânicos." Bem, esta quantia é quase cinco vezes aquela que se ganha na OSP, onde os salários andam pelos 1400 euros (posso demonstrar isso). Calculando que o custo da vida em Portugal está quase ao nível alemão, considerando a consideracão que em Portugal temos pelos músicos e a que se tem na Alemanha, devo concluir que se estes são os termos de comparação a OSP está de parabéns por conseguir o que consegue.
Os músicos alemães, mesmo aplicando a tabela que o crítico, com um pouco de falta de tacto, sugeriu em baixo... "O que teria mesmo graça seria descontar um euro por cada entrada fora de tempo, dois euros por nota trocada, 1 euro por desafinação, 1 euro por tocar forte nos pianos e vice-versa"... continuariam a ganhar mais do que os músicos da OSP. Gostaria de convidar todos vós a comparar as condições de trabalho entre a tal orquestra de Bona e a OSP.
Para concluir gostava fazer uma proposta: ao invés de ver sempre as coisas do ponto de vista punitivo (este sim indicador da sua mentalidade de direita...) poderiamos propor que se acrescentassem valores de meritocracia: acrescentar um Euro no salário por cada entrada certa, dois euros por nota bem dada, 1 euro se a afinação for acertada, mais 1 euro se forem respeitadas as dinâmicas. Quem sabe, a julgar do ordenado deles, talvez seja assim que a orquestra de Bona funciona. Respeitosamente



Disgrace 

Coetzee é um escritor que à pergunta posta pelo seu editor: “Ficção ou memória?” responde com outra pergunta: “ tenho que escolher entre uma e outra?”. Ou autor de uma frase como esta: “ O mundo está cheio de gente que quer construir uma vida sua, mas, para além do deserto, bem poucos podem fruir duma tal liberdade”.
No seu livro “Disgrace”, o seu primeiro livro a lidar explicitamente com a África do Sul pós-apartheid, Coetzee diz-nos algo a que já todos nos rendemos: que as trocas políticas quase nada podem fazer para eliminar a miséria humana. Aí um homem, David Lurie, professor universitário que perde o emprego por se envolver com uma aluna, é reduzido a quase nada antes de encontrar uma minúscula redenção pela aceitação do sofrimento : “One gets used to things getting harder; one ceases to be surprised that what used to be as hard as hard can be grows harder yet”. Nesta frase espelha-se também o que Coetzee pensa da vida na África do Sul, que a uma brutal tirania sucedeu uma brutal anarquia.
Coetzee é particularmente bom a convocar lugares onde o medo se desfoca e a situar as personagens em situações extremas que as compelem a explorar o que significa ser humano. Mais tarde na novela, depois de David ter caído em desgraça e trocado Cape Town pela quinta remota da filha Lucy, ela diz-lhe : “this is the only life there is. Wich we share with animals.”
Lucy parece entender o que David não consegue: que para viver onde ela vive, ela tem que tolerar a brutalidade e a humilhação e simplesmente continuar em frente. “Perhaps that is what I must learn to accept’, diz-lhe ela “To start at ground level. With nothing… No cards, no weapons, no property, no rights, no dignity… like a dog”


Filipe Pinto Ribeiro na Basílica do Convento de Mafra 

Filipe Pinto Ribeiro, Lara Martins, António Esteireiro, vão dar um concerto em Mafra, amanhã dia 9 de Abril, Sexta Feira Santa, as Sete Últimas Palavras de Cristo na Cruz de Haydn, com leitura de textos religiosos entre andamentos, tal como concebido originalmente, música na Igreja de forma séria, com qualidade, com respeito pelo local de culto. Pena é que este evento, musical e religioso, seja quase singular no nosso panorama musical. A entrada não é paga.

Sexta Feira Santa 18h30 na Basílica de Mafra, a não perder.

Ver Notícia do Público.
Ver Guia do Lazer

O Bispo e a Pedreira 


O bispo de Viana do Castelo não gosta de música, para este prelado a música não serve a elevação do espírito, como durante milénios a Igreja ensinou, os orgão estão ao abandono, os padres já não sabem música, guitarradas infames de escuteiros, pandeiretas, o padre Borga, putos esganiçados aos berros na igreja a cantar um "Pai Nosso" musicalmente degradante, as velhas beatas esforçando-se por uivar desalmadamente. Este o panorama da música religiosa católica em Portugal, hoje. Com honrosas excepções é um panorama triste para um país com uma das maiores tradições em música sacra do mundo, para um país onde existiram centenas e centenas de orgãos históricos. Para um país onde existiram músicos e coros de qualidade elevadíssima em todas as dioceses.
O estado de abandono da música religiosa em Portugal é confrangedor, poderia ser mitigado por uma programação de concertos em templos, com música de qualidade que servisse para emprestar aos locais de culto algum brilho do eterno, alguma cor do céu, onde os anjos tocam melodias celestiais, segundo se sabe! Mas não, há bispos que não amam a música, que em vez de reverem métodos, pedindo por exemplo para a partir de uma certa data analisarem eles próprios os pedidos de concertos que existem, resolvem proibir em cima da hora concertos programados e autorizados pelos párocos.
Assim se passou com o bispo Pedreira de Viana do Castelo, um nome digno do opado que enverga o báculo do Alto Minho, Rídiculo se não fosse trágico.

Pelo contrário, a diocese de Lisboa não só autoriza concertos, como exige que não haja entradas pagas, a Igreja é de todos, não só dos que podem pagar bilhete, os pobres podem e devem ter acesso à casa de Deus, a Música serve a elevação da Alma. Em tempos reclamei contra as entradas livres na Sé de Lisboa em recitais de orgão. O incómodo provocado pelos turistas que entram e saem poderia ser resolvido proibindo a entrada depois do concerto começar, vejo hoje que a decisão de proibir entradas pagas nas igrejas de Lisboa é acertada e de acordo com os objectivos pelos quais esta instituição se orienta. Amanhã Filipe Pinto Ribeiro vai estar na Basílica de Mafra dando um concerto que se afigura magistral e exemplar do que se pretende para uma execução pública num espaço de culto.


6.4.04

Primavera 

Sobem os termómetros. Finalmente, aquilo porque torcíamos. E o comércio também. Meia-hora na bicha da loja para comprar uma roupa de verão. Esplanadas cheias. Umas férias à vista. Isto deveria chegar. Para nos deixar gratos. E a alegria ser fácil. E uma nesga de esperança... Não? Uns minutos de noticiário, dois anos de balanço de governo e oposição, imagens do xeque xiita radical, pedaços de histórias ao nosso lado. Sabemos tudo e nada dos males do mundo, da lama, da corrupção. Apetece-nos esta aldeia global? Apetece depor a lucidez, os jornais e a ciência, as conjecturas económicas, a resistência, tudo o que nos é dado ver e aprender. Depor o medo de viver. Duplicado. Abusado. E habitar a uma escala ínfima. Fora do mundo. Fora do tempo.
CMC

Imagem da Semana 


Estrela

Foto de Rodrigues


E se a moda pega! 

Lido no Público

Nos Bastidores
Terça-feira, 06 de Abril de 2004

Violinistas de orquestra alemã exigem mais dinheiro por "notas extras"

Dezasseis violinistas da Orquestra Beethoven, em Bona, querem ganhar mais do que os seus colegas porque, alegam, tocam muito mais do que os outros. Os violinistas, contratados pela câmara municipal de Bona, querem receber um extra de 90 euros por ensaio ou concerto de modo a compensar as "notas extras" que lêem ou tocam. Segundo a BBC, os 16 violinistas vão apresentar uma queixa em tribunal, em Maio. O chefe de orquestra, Laurentius Bonitz, diz que a queixa é "ridícula" e que tocar um instrumento não pode ser comparado a outra profissão. Além disso, acrescenta, quem deveria receber aumentos deveriam ser os solistas da orquestra e não os violinistas. Os músicos alemães, escreve o jornal "Daily Telegraph", ganham por mês cerca de 6200 euros, quase o dobro dos britânicos.


A novidade não é grande, já o coro do S. Carlos não toca fora das horas de expediente porque não recebem horas extraordinárias, o exemplo não é novo.

Mas se em Portugal a moda pega a sério?
Receber por nota bem dada, pagar uma multa por notas mal dadas. Notas de música por nota de euros, toma lá, dá cá!
O que teria mesmo graça seria descontar um euro por cada entrada fora de tempo, dois euros por nota trocada, 1 euro por desafinação, 1 euro por tocar forte nos pianos e vice-versa, não havia ordenado para ninguém no naipe dos violinos da OSP, pelo menos quando o concertino aparece, ainda teriam de pagar para tocar! Do coro nem se fala, ao fim de uma semana do novo regime grande parte dos coralistas estaria a ver as hipotecas executadas...


2.4.04

CARSON MUCCULLERS II 

Falou-lhe da sua nanny negra, das conversas repetidas à mesa da cozinha, dum som súbito de blues e jazz, do Sul dos E.U.A, dessa adolescência com medo por espigar demais, do que sofria em ciúmes do irmão, de como dormia colada a ele, de chocolates em conchas plissadas.
Disse-lho em palavras curtas e pormenores azuis.
Falou-lhe disso nos seus livros, como filmes autobiográficos em que o tempo parava sempre na magia da adolescência, e detinha o ímpeto do outro tempo: a falta de dinheiro, o internamento psiquiátrico, o suicídio do marido, o sofrimento físico da pleurisia e dos avc.

Passava horas a lê-la, a olhar para além daquela fotografia. O ar arrapazado, os dedos grandes ao lado do piano. O dedo de feiticeira, o que escapou ao reumatismo articular. Sabia dela o que não sabiam as pessoas do seu tempo.
Mas nunca a poderia conhecer em carne e osso.
Ela morrera dois anos antes de ela nascer.
E isso era um desgosto.

CMC

Carson MacCullers 

The writer by nature of his profession is a dreamer and a conscious dreamer. How, without love and the intuition that comes from love, can a human being place himself in the situation of another human being? He must imagine, and imagination takes humility, love, and great courage. How can you create a character without love and the struggle that goes with love?…
Above all, love is the main generator of all good writing. Love, passion, compassion are all welded together.

The flowering dream

1.4.04

Críticas - Uma tragédia Florentina de Zemlinsky 

Saiu ontem a crítica de ópera do Público, da autoria de A. M. Seabra. O que diz é realmente relevante: é uma imbecilidade a adaptação de uma ópera cheia de referentes da Renascença, em que se matam salteadores à espada, em que acaba tudo num duelo, como se tratatasse de uma Zeit Opera.
O pior de tudo, no entanto, não é visto: a encenação de Curran mostra o percurso de Simone (por um excelente Johann Verner Prein) e de Guido Bardi (Jon Ketilsson bom vocalmente e excelente actor) encarado como uma caminhada para o assassinato. Simone vai embededando o aristocrata para, no final, o burguês assassinar calmamente o príncipe.
No meu entender na lógica dramática de Wilde deveria acontecer uma ebriedade mútua, o burguês embebeda-se para se libertar da capa da hipocrisia e da subserviência para, finalmente livre do cinismo, matar frente a frente o senhor; Guido Bardi, o príncipe, com o ingerir do vinho caminha cada vez mais para a inconsciência da sua própria arrogância face ao "infame" merceeiro. O final, o confronto, será uma luta em que o embrutecido Bardi queda morto pelo liberto Simone, a burguesia mata a nobreza de frente. A forma como a encenação é feita revela um comportamento deliberado do burguês que vai dando vinho a Guido acabando este último completamente embriagado, sem capacidade de resistência.
O final de Bianca (uma bela Fredrika Brillembourg, da qual gostei da voz) em que esta diz: "Porque não me disseste que eras tão forte" fica completamente desprovido de sentido. Não por ser banal devido aos elementos modernistas da cenografia, mas porque fica ilógico, sem sentido. Uma encenação tonta de Curran (como já tinhamos dito antes), que mostra que o encenador nem sequer percebeu o genial texto de Wilde. A bela esposa será, finalmente conquistada, o prémio do velhaco (na visão de Curran).
O poder liga-se ao sexo, como tão bem Seabra diz ou como Pontes Leça tinha também afirmado poucos dias antes da estreia, na conferência que proferiu sobre o assunto.
Mas uma boa crítica de Augusto Seabra, notou também que os violinos não se apresentaram de forma tão desastrada como habitual e concluiu, com razão, que isso se deve à ausência do concertino titular. A orquestra esteve magra para a ópera de Zemlinsky, mais por força do pouco espaço do fosso do que por carências musicais.

Henrique Silveira


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