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31.3.04

“To create a new theory of science, you have to be mad”- Gregory Chaitin 

TSF, “Pessoal e Transmissível”, o melhor programa de entrevistas diárias às 19h00, Carlos Vaz Marques à conversa com um dos grandes matemáticos deste século, Gregory Chaitin que comparou a beleza da matemática, à beleza de uma mulher, à beleza de Lisboa “all shaped by the same forces, namely what Darwin referred to as "sexual selection" e que, deixou estas entre outras ideias polémicas (completadas pela consulta de outras entrevistas):
A matemática, antes de ser um templo de razão e de lógica e para ser boa matemática tem de ser um acto criativo, misterioso. “You have to imagine a beautiful new theory before you can verify it. And most of the beautiful theories you imagine, fail. The first step is an act of imagination. It is an act of imagination, it is a tremendously emotional thing, too. You have to throw your whole personality at the problem”.
Para fazer boa matemática é necessária uma tremenda emoção. É muito difícil. É preciso estar inspirado e ter um tremendo domínio emocional. O acto da criação é mágico. Não existe qualquer lei para fazer ciência, do mesmo modo que não existe uma lei em arte.
A matemática está mais próxima da arte do que se pensa e não atinge as certezas que se esperam. Tem limitações, um grau de irreducibilidade ou de imponderabilidade que Gregory Chaitin tem denunciado, em livros como The Limits of Mathematics e que lhe tem valido duras críticas de colegas.
A beleza ou elegância é uma palavra corrente tão importante para um matemático, como para um artista. Mais, existe um elemento de loucura na ciência tanto quanto na arte. “You see, you have to be crazy to think something at a time when there is almost no evidence for it and go off in a different direction from the rest of the scientific community. And the scientific community will usually fight you”.


Gottfried Wilhelm von Leibniz (ou Leibnitz)
1 Julho 1646, Leipzig. 14 Nov 1716, Hannover

O matemático persegue a fórmula redutora, quanto mais simples melhor, o small is beautiful. Uma ideia da simplicidade e de inteligilibilidade do universo que remonta a Platão e a Leibnitz, um filósofo que o tem inspirado particularmente, enformado decisivamente pelo seu génio como matemático: “ God has chosen the most perfect world, that is, the one wich is at the same time the simplest in hypotheses and the richest phenomena”. Mas essa equação única não existe, o homem e o mundo são infinitamente complexos e a matemática não está separada dessa realidade e está, nesse aspecto, mais próxima da biologia, da química, da psicologia. Talvez a ênfase na simplicidade reflicta mais o modo de ser e o que a mente humana procura do que a natureza do universo. Talvez essa ênfase diga mais acerca de nós do que acerca do universo. O problema é que admitir uma complexidade das leis que esteja para lá da nossa capacidade de compreensão torna todos os esforços inúteis.
A matemática não se faz só com números, porque existem naturais constrangimentos nas teorias axiomáticas, faz-se também com palavras, literatura, filosofia.
E, finalmente, a genialidade nasce da loucura, da coragem de romper com o pensamento dominante: “Wittgenstein was a lunatic. He is considered a great philosopher, right? But there are lots of lunatics who are lunatics in uninteresting ways... Let me make my point in science. To create a new theory of science, you have to be mad. You have to have for some insane reason, this unjustified belief that all the current theories are wrong and that the physical universe is completely different. Now at the time you do this, the reason you are a genius, is because you are doing this at a time when there is almost no evidence… But then maybe fifty years later, it is no longer the right madness”.
CMC

30.3.04

Imagem da Semana 




Francisco por Rodrigues

Quem se lembra do Pinochio? 

Encontro um professor de um curso de escrita infantil que tirei na Gulbenkian, no tempo em que à instituição sobravam trocos para essas actividades. Saí de lá como entrei, sem jeito nenhum para essas coisas, mas com uns truques na manga: o segredo de um bom nome para um herói ou heroína, as leis do conto de Propp e uns livros da autoria de António Torrado autografados aos alunos.

Da geração de Alice Vieira e de Maria Alberta Menéres, diz-me que continua a resistir, escrevendo o mesmo de sempre, histórias para teatro, poesia, contos infanto-juvenis, percorrendo as escolas do país, mas com uma nuance de adaptação aos tempos, criou um site: História do dia, actualizado diariamente. Mau, mau é os miúdos já não reconhecerem a marioneta do Pinóquio por nunca lhes terem contado a história. Era uma vez. Um boneco de pau.

CMC

Rakhmaninov e Zemlinsky 

Em excelente nível a ópera "Cavaleiro Avarento" de Rakhmaninov, ver e rever, ouvir e reouvir. Ópera em um acto, op. 24, texto de Puchkin.

Cavaleiro Avarento: Vladimir Vaneev. Albert: Vsevolod Grivnov. Duque: Arnold Kocharyan. Usurário Judeu: Guy Flechter. Criado: Aleksandr Jerebtsov. Maestro Jonathan Webb.

Sabia-se da qualidade literária de Puchkin, sabia-se da pujança da obra em termos musicais, não se sabia que a realização poderia ser tão boa, todos os elementos se reuniram esta noite para a qualidade musical de todo o conjunto.
Todos os cantores estiveram bem. O destaque vai, no entanto, para Vaneev, um baixo de recursos elevadíssimos, de uma classe imensa, um actor extraordinário, um cantor sublime. Potência, sensibilidade, timbre, capacidade interpretativa, tudo se conjugou para fazer um Barão perfeito. Notável, comovente, de ir às lágrimas. Como se um Barão Avarento pudesse comover... claro que pode, a tragédia de um homem solitário, doente. Vaneev ofusca tudo, por muito bons que fossem os outros cantores, nomeadamente os que se seguiram na Tragédia Florentina de Zemlinsky, o Barão de Vaneev é o tempo mágico que faz memória. É raro poder apreciar estes momentos de música em Portugal, ou noutro lugar qualquer da terra. Se puder não falhe as próximas récitas no S. Carlos. Vivamente recomendado. Vaneev é único. Não tem vinte valores porque nem concebo a enormidade da classificação de um mestre como Vaneev, está acima de qualquer classificação. Notável a naturalidade do génio, em que nem se nota o trabalho imenso de composição que Vaneev não pode deixar de fazer. Sem palavras.

Não consigo escrever sobre o resto, que me perdoem. Noutro dia, mais para a frente, falarei dos restantes cantores, do maestro, das encenações, da orquestra. Mas deixo em jeito de aperitivo que a récita correu bem sobre todos os aspectos excepção feita à encenação tonta da Tragédia Florentina. Nota negativa para o fosso da orquestra do TNSC, atravancado, péssimo em termos de condições de trabalho, a orquestra necessária a Zemlinsky não cabe neste fosso, daqui resultam desequilíbrios sonoros artificiais que foram corrigidos com muito mérito pelo maestro e pelos músicos que se acotovelam no espaço ridículo que o S. Carlos lhes põe à disposição.

Henrique Silveira

29.3.04

Tristeza globalizada? 

Breves notas trocadas com um amigo italiano de visita a Portugal. Não há alternativa a Berlusconi que ultimamente, entre outras, perdoou as dívidas dos clubes de futebol e fez-se ouvir durante trinta minutos na televisão estadual na qualidade de ouvinte opinativo. Não há política de ensino. Os alunos parqueiam na universidade até aos trinta anos desmotivados para completarem os cursos, sem emprego à vista. O trabalho é precário para os poucos contemplados, celebram-se contratos por seis meses e depois é esperar. O aluguer de um módico quarto não custa menos de 600 euros. Um ordenado médio cifra-se na ordem dos 1000 euros. Neste cenário são poucos os jovens que saem de casa dos pais, onde vivem à espera de melhores dias. As relações amorosas duram pouco. Um homem que tenha casa própria é cobiçadíssimo. Pessoas interessadas pela leitura e cultura são poucas. Artistas de talento e cientistas emigram para a Europa ou States. Resultado: tristeza contagiosa. Falta de esperança. Presente ou futuro de Portugal?

CMC



Literatura, Música e Cinema 

Sábado passado teve lugar o terceiro destes encontros. Organizado pela Culturgest, mais precisamente por Miguel Lobo Antunes que é actualmente seu vice-Presidente, teve desta vez o auditório às moscas. Depois de Mega Ferreira ler Proust (boring) e Lobo Antunes ler Pessoa (muito bem) chegou a vez de Natália Luiza ler Musil (nada mal para o grau de dificuldade) sobre música de românticos, Schubert e Strauss e antecedida da projecção dos primeiros filmes que nos situam na Viena imperial. Pena a falta de adesão em espectáculos de tanta qualidade e bastante completos. Os últimos resistentes agradecem.

CMC

No Fim de Semana 

Imprescindível:
Luiz Pacheco.

A ler:
Adelino Gomes.

Detestável:
Tanto o Público como o Expresso noticiam fim de casamento de duas pessoas conhecidas como se isso tivesse algum interesse público, não há pachora. O Expresso com honras de primeira página. A decadência dos media, uma pouca vergonha.

28.3.04

Como hei-de prometer as coisas  




Como hei-de prometer as coisas
que se movem no mar
os dedos que demoram na leitura
os modos que tecem devagar
o escuro a tocar-nos
nome novo
adormecem na areia
os quartetos
sob as cordas dos barcos
as mãos
sob as águas dos peixes
onda a onda
como hei-de prometer as coisas

João Miguel Fernandes Jorge

Cabeça de turco e jovem turco 

Augusto Manuel Seabra em 21 de Março ataca com a veemência, da sua pose de "patrono dos media portugueses", o "jovem" Pereira Coutinho:
João Pereira Coutinho, um desses colunistas cuja ascensão é sintomática da gratuitidade que impera na "opinião" impressa no espaço público...

Pereira Coutinho neste Expresso, com a sua pose de "jovem arrogante e iconoclasta mas brilhante", ataca o "velho" A. M. Seabra:
Augusto M. Seabra, um desses colunistas cuja existência é sintomática da gratuitidade que impera na opinião impressa no espaço público...

O resto não interessa. Estão bem um para o outro e ambos têm razão.

27.3.04

Pedido 

Existe um senhor, que se afirma músico da Orquestra Sinfónica Portuguesa, que nos envia um email anónimo com alguns palavrões sempre que denunciamos a má qualidade dos violinos da orquestra ou as péssimas prestações do concertino. Estes emails alegram os elementos que escrevem neste blogue, além de outros amigos. Qual bailarino que se queixa da sala torta este senhor explica que o naipe dos violinos, e só este, toca mal, desafina, foge do ritmo, etc, etc, etc, por causa das salas onde a Orquestra Sinfónica se apresenta. O que é musicalmente uma explicação notável e que nunca nos tinha ocorrido.

Ora o seu último email apareceu truncado, o alvo era M.P. que aqui também escreve. Assim apenas pudemos apreciar a substância das duas primeiras linhas por qualquer misterioso desígnio informático, uma pena de facto. Fazemos o pedido encarecido para que nos reenvie o seu último email para nos podermos divertir com as suas justificações.

Um bom estudo para a estreia de segunda feira, se for realmente músico, ainda estamos no sábado e talvez possa compensar o fosso da orquestra com umas arcadas bem dadas. Bem haja amigo.

P.S. Depois de mostrarmos os emails deste "anónimo" a alguns amigos percebemos que Portugal é um bidé e Lisboa um penico! Retirar arcadas e colocar...


Domingos António Gomes 

Escutei há poucos dias atrás Domingos António Gomes ao piano, um homem jovem, de vinte e seis anos. De Bach uma suite inglesa, de Mussorgsky “Quadros de uma Exposição”, se bem me recordo seguiu-se Schubert, Chopin e Paganini/Liszt como extras.


Mussorgsky

Se nada tivesse sido dito ou escrito sobre este talento novo da música, as espectativas não teriam sido tão elevadas, Domingos António seria certamente uma surpresa agradável, sabendo ainda por cima que não estudava a sério há mais de dois anos.

Penso no artigo de Duarte Lima no Expresso, 04.03.06, em que apelida o rapaz de “artista genial” com um “talento absoluto” senhor de uma “técnica fora do comum” e “artista prodigioso”; bem como em António Cartaxo, que sem a menor noção da enormidade do que diz, e acredito que é profundamente sincero uma vez que a paixão e o amor pela música podem cegar, quando afirmou: Domingos António toca “Os quadros de uma Exposição” melhor que Sviatoslav Richter”!

A enormidade não está na afirmação em concreto de Cartaxo, mas no que se ouve quando o pianista executa ao piano a peça de Mussorgsky. O que ouvi foi um rapaz com uma força muito grande, com um indesmentível talento, uma técnica razoável, em que se notaram erros interpretativos graves, tempos demasiados puxados para a técnica que demonstrou, falhas nas passagens mais complexas. Exemplo: na passagem muito sincopada das correrias das crianças foi notória a falta de coordenação dos dedos de Domingos António, quando teve de fazer escalas muito recortadas a alta velocidade acabava por se atrapalhar comprometendo a clareza dessas passagens. Outro dado muito concreto foi a falta de precisão de toque, umas vezes mais martelado, outras mais doce, errático de certa forma, mas aqui claramente desculpável para quem andou a tocar em cima de um tampo de uma mesa durante dois anos! É um aspecto que terá de praticar muito, agora que parece já ter um piano. O uso do pedal foi umas facetas mais interessantes deste pianista, sem exageros de empastelamento. Na suite inglesa de Bach, usou tempos violentíssimos, uma rapidez vertiginosa, o que deu completamente para o torto, a clareza das linhas de semicolcheias bachianas ficou completamente destruída, algumas notas ficaram por tocar e o ritmo de execução perdeu-se. O estilo de tocar Bach pela escola russa é altamente discutível, as ênfases, as acentuações estiveram fora do lugar, o fraseado romântico substituiu a articulação barroca. Pior, os tempos exagerados descaracterizam o cariz de dança das suites. A velocidade excessiva tranformou o pianista num frio dactilógrafo imperfeito. A própria Allemande foi demasiado veloz, sabendo que era uma peça de apresentação aos monarcas, pomposa, aqui a pompa deu lugar a um ritmo mais andante marcato que pomposo.
Em suma Domingos António mostra qualidades evidentes, técnica elevada, mas que tem de ser aproveitada com um estudo muito rigoroso, uma vez que tem muitos problemas de interpretação.

O lado humano da questão é muito importante, é um erro gravíssimo endeusar um homem como Domingos António, felizmente creio que ele terá a inteligência e a modéstia para perceber o exagero. Pode ser muito perigroso para o seu futuro de músico e até como ser humano. Domingos António antes de ser apresentado como um “fenómeno” de circo deve ser escutado como um pianista de elevadíssimo potencial, mas que deve ser aconselhado, deve trabalhar com pedagogos de grande qualidade musical e humana. Pouco precisa, apenas uma orientação séria, e poderá ser a confirmação de uma promessa que hoje se começa a desvendar. Fazer de Domingos António, hoje, um artista acabado de mestre incógnito mas consagrado e vender a imagem de um deus vivo do piano é uma irresponsabilidade gravíssima que me faz doer a alma.

Não ponham a fasquia demasiado alta a Domingos António é o que peço a quem “descobriu” o pianista e a quem muito se deve agradecer pela desinteressada ajuda a um jovem carenciado e talentoso, mas sem exageros, com todos os cuidados pelo lado humano.

Henrique Silveira

P.S. Escrevi este texto para mim próprio, de forma a ficar no meu diário pessoal com uma lembrança do que se passou, é complicado escrever publicamente sobre um recital privado. Uma vez que jornais de referência, como o Expresso de hoje, violam alegremente esta regra, creio que não será dispiciendo escrever sobre este assunto, sobretudo pelo factor humano e pela crítica construtiva que encerra e que deve ser ponderado por quem se deixou cegar.

26.3.04

Elizabeth Barrett Browning 


How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.
I love thee to the level of everyday's
Most quiet need, by sun and candle-light.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise.
I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose
With my lost saints, -I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life! -and, if God choose,
I shall but love thee better after death.


De que formas te amo eu? Deixa-me ver:
Com a profundidade, extensão e altura
Que minha alma alcança quando procura
Os limites da Graça ideal e do Ser.

Amo-te ao nível do meu mais simples viver,
A luz do sol ou da vela que tremula;
Livremente como o que p'lo Direito luta,
Pura, como o que o louvor soube esquecer.

Amo-te com a paixão com que então sofria
As velhas penas, e a fé de infância sem par.
Amo-te com um amor que já não sentia

P'los queridos mortos - amo-te com o meu respirar,
Risos, lágrimas! - e, se Deus assim o queria,
Só depois da morte melhor te hei-de amar.

Clara Macedo Cabral

O Cavaleiro Avarento 

O Cavaleiro Avarento, música de S. Rachmaninov (1873-1943), Libreto baseado no texto homónimo de Aleksandr Sergeevic Puskin (1799-1837). Estreado com Francesca da Rimini, em 1906, quando Rachmaninov era maestro director do Bolshoi.
Não foi esta a primeira vez que um texto de Puskin foi aproveitado como base para uma ópera; O Cavaleiro Avarento faz parte da série das pequenas tragédias deste autor.
Esta ópera é contemporânea de outra e mais famosa "Francesca da Rimini". O Compositor dirigiu a estreia no Teatro Bolshoi.
A característica principal desta ópera é de utilizar, além da ausência do coro (que também não aparece na tragédia florentina), especialmente apreciada nesta produção do TNSC considerando o escândalo que é o coro deste teatro, só vozes masculinas em todas personagens. A capacidade de caracterização psicológica é o ponto de força desta obra. A segunda cena é de grande efeito; praticamente um grande solilóquio do Barão (um homem terrivelmente avarento que faz o seu filho passar as mais terríveis privações), nas caves do castelo "cercado" pelas suas riquezas e tesouros. Aqui esperamos os momentos mais poderosos desta produção em termos de encenação e de interpretação. O grande baixo russo Vladimir Vaneev estará no palco, esperamos grandes momentos nesta segunda cena. A escrita orquestral de Rachmaninov atinge um altíssimo nível de descrição psicológica que, esperamos, não ser completamente vandalizado por parte dos tristemente famosos violinos da OSP ou pelos metais que nem sempre têm consciência do que é tocar uma obra de música séria.

O papel do Barão foi escrito de propósito para o grande baixo Fjodor Ivanovič Šaljapin (1873 - 1938). Entretanto nota-se uma pequena tónica antisemita por parte de Rachmaninov, ou de Puskin, na caracterização do judeu ao qual Albert, o filho do Barão, se dirige para conseguir um empréstimo; vamos ver como o encenador vai resolver este assunto tendo em conta os últimos acontecimentos ligados ás terras de Israel. A influência de Wagner nota-se nesta obra, uma vez que Rachmaninos tinha tido contacto recentemente com a obra de Wagner.
Esperam-se momentos de elevação; pedimos à orquestra que não estrague tudo.

M.P.


Rachmaninov


25.3.04

Alexander Zemlinsky no Teatro Nacional de S. Carlos 

Bom, ninguém me pediu para fazer esta crónica mas achei interessante dizer duas palavras acerca dos autores e das obras que vão ser apresentados no TNSC, na próxima semana, segunda feira estreia a Tragédia Florentina de Zemlinsky.

Alexander Zemlinsky é um compositor de transição entre a Viena do fim do século XIX e o princípio do XX. Johannes Brahms tinha notado as capacidades deste compositor ainda muito jovem. Foi director do Volksoper de Viena. Veio a fazer amizade com Mahler que foi sempre um mecenas de Z. quer ao nível artístico quer económico.

Depois dirigiu os teatros de Praga e Berlim para regressar a Viena antes de fugir para os EUA. Foi um grande divulgador e defensor da música de Shoenberg, Webern e Berg mesmo sem partilhar com estes os mesmo ideais radicais.

A actividade de compositor de Z. é extremamente influenciada por Mahler e pelo clima cultural da Viena do início do século XX. Ao mesmo tempo está muito próximo da música juvenil de A. Shoenberg.

Escreveu música sinfónica sendo a Lyrische Symphonie a sua obra mais apreciada, merecendo ser citada na obra prima Lyrische Suite de Alban Berg; na música de câmara posso salientar os quartetos de cordas que são extremamente interessantes.

Eine florentinische Tragodie é a quinta ópera de Z. e é quase inevitável a referência para a Salomé de Richard Strauss quer pelo factor comum de Oscar Wilde, que foi a referência dos dois libretos, seja pela ênfase que acompanha a figura da amante e a maneira de salientar esta faceta na escrita musical.

Todavia o ambiente visionário e febril desenvolve-se através de momentos polifónicos e orquestrais de ascendência totalmente ligadas à experiência de Mahler, com uma capacidade melódica (que Alban Berg amava muito) onde as fórmulas tonais perdem o antigo significado mas não chegam a ser manipuladas e desmembradas como nos compositores seus comtemporâneos.

Shoenberg também gostava de Zemlinsky e tinha em elevadíssima consideração a "Tragedia Florentina". Shoenberg que, entretanto, tinha casado com a irmã de Z. Mathilde.

Aqui então temos um autor de conjunção das escolas romântica e pós-romântica (Brahms, Strauss) e da segunda escola de Viena (Shoenberg, Berg) tendo sempre como ponto central a grande tradição mitteleuropeia e bidermeier da qual Viena é única e insuperável testemunha.

Amanhã Rachmaninov

M.P

Nota de H.S. – Shoenberg tornou-se, ainda muito jovem, amigo de Z., ambos na casa dos vinte anos, este, muito melhor preparado musicalmente, deu lições de contraponto a Shoenberg. A ópera "Uma Tragédia Florentina" data de 1911. A estreia mundial da peça de Wilde deu-se curiosamente na Alemanha e numa tradução em alemão em 1906 (se não me engano na data).
Nascido: 14 de Outubro de 1871, Viena (Áustria)
Falecido: 15 Março de 1942, Larchmont, NY (EUA)

24.3.04

Mistério II 

Absorvi o mundo através de uns olhos verdes. Seixos obstinados, de lágrimas fáceis.
Moldei os gestos a partir de umas mãos. Velozes, eficientes, irrequietas.
Copiei os passos de uns pés, o sabor de uma mão de sal, a voz de um timbre, o olfacto de um nariz.
Persegui nuns dedos as primeiras sílabas, letras, linhas, histórias e sonhos que deixaram debaixo da almofada.
Tirei-lhe da figura a maquilhage, perfume, roupas, vaidade.
Perdeu altura, perdeu peso. Ainda peço o que me habituei a ter, comida e histórias, lençóis frescos a seguir à febre. Um cordão onde estou a salvo.

Clara Macedo Cabral

Angela Gheoghiu - Recital péssimo com direito a corte de orelhas e rabo 

Era o título que tinha preparado, aliás já estava anunciado, ao contrário do que é habitual deixei-me atrasar, o Público diz tudo na sua crítica, em que até explica porque razão o público da Gulbenkian se deixou rabejar, não encontro outro termo, por uma cantora abominável de uma escola que devia ter sido arrumada numa nota de rodapé dos tratados de história da música séria.

Por isso faço apenas uns breves comentários:
Se quisermos perceber porque razão a música pimba ainda tem o sucesso que tem em Portugal, afinal o "povo" é todo o mesmo, devemos ir à Gulbenkian num destes dias de Angela Gheorghiu. Esta assassinou literalmente compositores (fraquíssimos a maior parte deles como Massenet, Délibes e os romenos, nem consigo perceber porque razão Massenet ainda não foi banido de recitais, deve ser pela mesma razão porque Marco Paulo ainda canta) e músicas. Mostrou uma imagem triste de uma diva que errou a vocação e que deveria ter sido toureira. Nem sequer grandes qualidades vocais evidenciou, uns fortes bem pujantes, despropositados a maior parte deles, nas cadências finais a puxar o aplauso, mas apianandos muito fracos, irregulares, em que não conseguia sustentar as notas de forma gradual, mostrando um controlo vocal bem menor do que eu estava à espera. Não é pela berraria no final dos trechos, com consequente levantar de braços em poses mais ou menos bandarilhadoras que se vê a qualidade vocal, ouve-se, isso sim, pela qualidade dos pianos e do domínio vocal em situações delicadas. Qual domínio? Parecia um boi numa loja de porcelanas, se Massenet mercecia os bibelots partidos ao menos que as delicadas obras de Alexandro Scalatti, de Bizet ou de Verdi escapassem intactas! Mas Angela arrasou com igual alegria todos os 14(!) compositores que abordou. Que belo instrumento desperdiçado desta forma. Concerto horrendo, para esquecer, melhor teria feito se eu tivesse ido à (extinta) feira popular ou ao cinema. Volta Vengerov, estás perdoado!

Henrique Silveira

P.S. Desnecessária a crítica feita por Cristina Fernandes ao vestido da cantora, mas apropriada! O vestido da primeira parte era mais elegante, o que retirou um pouco de monotonia ao abominável passar dos minutos...

23.3.04

Alvíssaras 

Li textos notáveis no Aviz sobre Belgais, estou finalmente em total sintonia com Francisco José Viegas, que deixando ser "simpático", escreve algo que faz sentido sobre Maria João Pires e Belgais.

[Actualização em 24.3.2004]Alvíssaras II, "O Menino Chegou!" Francisco José Viegas volta a surpreender pela positiva, mostrando mais uma reflexão sensata no seu blogue. Fala do último livro de António Manuel Baptista. É de ler.[Fim da actualização]

Nota sobre o nome Vianna da Motta. Já vi este nome escrito de quatro variadas formas. O Carlos Alves, que mantém um blogue muito atento a estes problemas, e com muita qualidade, esclareceu-me que Vianna da Motta gostava de assinar, e fazia questão que lhe escrevessem o nome, com dois "nn" e dois"tt". No entanto do seu assento de baptismo em S. Tomé consta Viana da Mota! O que não é certo é usar erraticamente Vianna da Mota ou Viana da Motta, ou se é coerente e se usa o nome registado no baptismo, ou se respeita a vontade do velho mestre. Eu prefiro a segunda hipótese.

Henrique Silveira

Próximo post: Angela Gheorghiu na Gulbenkian. Um concerto péssimo com corte de orelhas e rabo! Crítica ao público e ao concerto. Ou porque razão a música pimba tem o sucesso que tem em Portugal.

Imagem da Semana 


Muros, Galiza

Foto de Rodrigues

Por uma vez 

Seabra na sua crítica do Público diz tudo. A ópera "Os Fugitivos" é de fugir, como eu já disse aqui.

Sem inovar absolutamente nada o compositor José Rocha ainda consegue tecer uma teia musical minimamente profissional. Mas para um homem que colocava coros de cãezinhos de peluche a ladrar (ao menos estes coros conseguem-se ouvir) um homem que usava a ironia e o humor como uma forma estimulante de criação cai aqui num trabalho monótono e de pendor academista, com o a querer provar que sabe realmente compor para instrumentos a sério.

O pior mesmo é o inacreditável libreto de Zink, banalidades, estilização infecunda das personagens e um desfecho que só um puto do liceu se lembraria para sair do impasse a que acção dramática, praticamente inexistente, conduziu. Um beco sem saída, sem originalidade nem qualidade literária no texto, uma inconcebível e monótona sucessão de quadros, com caracterizações triviais e previsíveis dos personagens, já vistos e revistos em milhares de peças: a mãe complacente, o pai frustado, o filho político, palavroso e com uma mancha terrível no passado, uma inacreditável "maluquinha de Arroios" do consumismo, personagem não-personagem, que nada traz e sem qualquer ligação dramática ou interacção com os outros elementos. A luta contra a globalização aqui é tão pateta e desconexa como todo o resto do libreto. Afinal estamos numa Ópera do Tempo? Se estamos porquê a marca da "tragédia" falsa e sem densidade? Uma ópera do tempo com o elemento fantástico? Com um deus ex machina? Que afinal é o diabo, e que surge do toxidependente, figura também banal, que no contraponto de classes começa por ser um elemento menor e que acaba por ser a gota de água que demonstra que nesta mecânica teatral nada funciona.
Descobrimos, para nosso "espanto" como não fosse evidente, que a solução de Zink iria surgir sem qualquer rasgo: na peça está tudo morto, incluindo o engenho do libretista. De facto estão todos na barca do inferno, onde oh!... suprema moralidade de pacotilha, a heroína, a personagem boazinha da história: Marta a segurança pessoal do político, que passou toda a peça sem se perceber qual o seu papel ali, vai desembarcar e salvar-se, vivinha da costa nas costas do inferno, depois de feita a travessia. Porra! Já não há pachorra para teatro de liceu, depois do Freitas do Amaral e as suas peças de menino da escola primária vem o "intelectual" Zink apresentar as suas meditações escolares.
Isto de se mandar umas bocas e ter alguma graça, isto de se ser mediático não garante qualidade, nem bilheteira. Mais uma prova: este triste espectáculo que nem sequer atinge o nível do bocejo...

Sobre cenografia Seabra diz tudo.

Os músicos foram muito profissionais e Cesário Costa, o maestro, é um valor seguro, concentrado, pensado. Cesário Costa sempre que o vejo a dirigir e ouço o resultado sinto uma afirmação de qualidade. Seria com jovens deste calibre que o S. Carlos se deveria renovar. Como será Cesário a dirigir um repertório menos contemporâneo? Creio que deve ser excelente, uma carreira a acompanhar.

Os cantores estivem em bom plano, sem destaques. Seabra esquece a soprano ligeiro Sara Braga Simões, muito certa, bem colocada, uma voz sem grande segundo harmónico, e não muito pujante, mas de voz bonita e correcta. Pena a ingratidão das linhas melódicas.

Música e Dramaturgia: José Eduardo Rocha - 9.5
Libreto: Rui Zink - 5
Direcção Musical: Cesário Costa - 16
Encenação: Paulo Matos - 10 (com este material como se pode encenar?)
Cenografia: José Manuel Castanheira - 5
Figurinos: Rafaela Mapril 10 (com esta peça não pode brilhar?)
Desenho de Luz: Vítor Correia 12

Interpretação:
Mário Redondo..................Roberto
Sara Braga Simões...........Marta
José Corvelo.....................Alfredo
Elmira Sebat....................Elisa
José Lourenço..................Ferlucci
Catherine Rey....................Cremilde

Ensemble Instrumental da Metropolitana 13
Produção: Teatro da Trindade/INATEL


22.3.04

O espanto 

Políticos israelitas assassinaram o Sheik Ahmed Yassin. Confesso que o Sheik não me inspirava a menor simpatia, bem como não me inspira Sharon. Num mundo perfeito teriam os dois sido julgados por crimes contra a humanidade há muito tempo, mas isso não impede que a morte de Ahmed Yassin seja um crime hediondo.

A propósito do que leio com espanto o seguinte texto retirado, "copy e paste", de Glória fácil, creio que o título do blogue está de acordo com o texto, é fácil atingir-se a glória com este género de comentários, o autor é João Pedro Henriques, e creio que o ódio em vez de se reduzir se alastra. Quase nem concebo como um homem educado num estado de direito pode proferir este arrazoado:

Março 22, 2004
Esquerda - a separação das águas
Sheikh Ahmed Yassin, líder do Hamas, foi assassinado, o que não me provoca um segundo que seja de angústia ou pena ou lamento ou o que quer que seja. Dizem que era um "inválido de cadeira de rodas" e que que foi "abatido" por tiros disparados "de um helicóptero Apache".

Sabendo que é também possível que um "inválido de cadeiras de rodas" abater um "helicóptero Apache", não me parece grave.

O que me provoca angústia é a esquerda burra (*) que mora no Barnabé (apesar dos esforços de sensatez do Daniel Oliveira).

Porque, obviamente, no assassinato do chefe do Hamas não há o assassinato de um inocente. Era tudo menos "inocente", o senhor Yassin. Não foi um acto de terrorismo de Estado - foi um acto de guerra. Um acto de guerra eficaz, porque pela liderança se debilitam exércitos.

Convinha, por isso, uma separação de águas, à esquerda: não quero a companhia de quem lamenta o "assassinato" do senhor Yassin. A "esquerda" que tem pena do tal líder do Hamas porque andava de "cadeira de rodas" não tem autoridade nenhuma para andar a apanhar boleias da vitória do PSOE. Essa esquerda dá mau nome à decisão espanhola.

(*) - Referência ao texto "Mais um passo na direcção do choque das civilizações, cortesia de Israel", de Pedro Oliveira


Não me associo à esquerda, nem percebo a associação desta com o facto de pretender o autor defender o assassinato como acto de "gerra" na salganhada de conceitos misturados do seu texto. Associo-me, sim, aos valores do estado de direito. Sei que um estado que respeita os direitos humanos não organiza assassinatos. Se um estado que preza o sentido da palavra justiça suspeita de actos criminosos deve trazer os suspeitos à justiça. Penso que é assim que se dá sentido à palavra humanismo, ao pensar assim sinto-me bem comigo mesmo.

Explico melhor uma vez que JPH parece ser um pouco obtuso, neste caso a pedagogia de uma explicação talvez possa ser necessária, nem bem para iluminar o autor do texto acima, mas quem possa ter dúvidas sobre o sentido do que é, para mim, ser humano.
Existe guerra neste caso? É muito duvidoso, uma vez que Israel nega o estado de guerra negando a existência de um estado palestiniano. A guerra existe apenas entre estados, povos ou nações e é um conceito simétrico. Não existe guerra entre um grupo terrorista e um estado. Não existe guerra entre um estado e um povo sem exército e basicamente desarmado. Israel reconhece que toda a nação palestiniana se lhe opõe, daí o futuro muro, mas declara guerra a quem? A qual exército? Extermina a Palestina com mulheres e crianças incluídos? Por estes usarem pedras? Ou actua em termos punitivos contra criminosos individualizados ou em bando? Não existe meio termo. O conceito de guerra ao terrorismo é um disparate filosófico e face à história, o que poderá existir é o direito de perseguição de criminosos com o objectivo de levar estes a julgamento.

A perseguição e extermínio de adversários por políticos é a negação do estado de direito e uma violação da mais elementar ética relaccional entre povos. Dando de barato que existe guerra, realça-se que a guerra é, também, um conceito ético, além de uma situação de facto, até em guerra se deve manter a honra, muito embora Hitler e Estaline, nos façam às vezes pensar que o conceito de honra em guerra foi ultrapassado. JPH parece alinhar por uma práxis desprovida da carga dos princípios, mas são esses princípios que me fazem sentir diferente das feras das SS, dos Kmers vermelhos ou dos esbirros do Beria...

Por outro lado pede-se ao estado de direito organizado que mantenha a sua superioridade, o que não significa que seja fraco. Se Israel tem autoridade de estado nas zonas ocupadas, questionável é certo, o que deveria fazer, como estado de direito, seria procurar a prisão do Sheik e o seu julgamento face às leis do seu país, ou face às leis internacionais, mas oferecendo um julgamento justo e com garantias de defesa. Claro que isso significaria também que os dirigentes de Israel poderiam enfrentar a justiça em situações semelhantes. Mas isso não queremos pois não JPH?

Henrique Silveira

P.S. Já agora estendo as considerações pedagógicas acima a Jaquinzinhos que, pelo ódio que demonstra ao "um patifório" como diz, no que parece ter toda a razão, desculpa implicitamente o acto criminoso de políticos israelitas, como se a guerra justificasse o assassinato. Andámos milhares de anos até às convenções dos direitos humanos e de Genebra para ter de aturar neo selvagens no século vinte e um. O Joãozinho nunca terá ouvido falar de justiça, de tribunais? Por muito que o Cheik negasse esses conceitos, essa é a supremacia da democracia, o direito, a garantia, mas também a certeza do castigo se assim for o caso, de se ser julgado quando se é suspeito. Essa é mais uma vantagem da direita esclarecida, a defesa intransigente da justiça, dos valores morais e cristãos do perdão e do castigo justo. Mas Jaquinzinhos não pertence a esta direita esclarecida e com valores humanos, já o provou bastas vezes. Mas faz-me pena, às vezes percebe-se que existe um ser sensível por detrás do suburbano feroz ao volante de um blog radical.

Mistério 

Quotidiano. Pegar no carro, parar naqueles semáforos, restaurantes, escrever aquelas linhas. Ver as noticias na banca, na T.V, encolher no medo. Pisar a mesma calçada, sobre a qual se tecem invisíveis mudanças, que sobem e se diluem no quotidiano, no igual, na não- memória.
Quotidiano. Aparência de continuidade que a memória desmente. Memória que trai, que transfigura a bel-prazer, mas só ela atesta da mudança. O L. que não via há 10 anos e que continua com os mesmos óculos de massa. Estás igual, digo-lhe, mas sei que não. O café onde ia lanchar igual só em nome, mesas e cadeiras, são outras as pessoas.
Quotidiano para nos sossegar, para nos apaziguar com o tempo. A voragem do tempo. Como estancar o tempo? O segredo dos velhos. Dilatar, na eternidade da memória, a infância, uma professora de escola, um brinquedo, o primeiro amor, dilatar para não morrer.
Quotidiano. Ouvir aquelas palavras vindas daquela boca. Previsíveis. Ouvidas mil vezes. Para me sossegar. Para saber que ela ainda aqui está. Tal como eu a conheci. Tal como eu aqui estou. Eu que mudei, mudo, com qualquer coisa que resiste a unir-me aos estilhaços do que vou sendo.
Quotidiano. Abafador do ruído. Abafador da turbulência. Abafador do mistério do mundo. De todos os mistérios que continuam. Sem neles repararmos. Esquecimento. Conformação ao dissecado no jornal, nos comentários do Prof., nos livros sagrados, na sonda de Marte, no planeta Sedna, na lamina do laboratório.
T. que te aconteceu depois de tocares a morte? J. de dois anos que vês tu quando assistes pela primeira vez a um concerto e acenas aos músicos na despedida? Ouço a tua voz a atravessar o Atlântico, tens 80 anos e estás viva, depois de um cancro, não sei porque te escolhi ou porque me escolheste, mas vejo os lugares por onde andas e tu sabes por que lugares ando. Mistério.

Clara Macedo Cabral


20.3.04

Muito a dizer 

Assisti à Ópera: "Os Fugitivos", no Teatro da Trindade, muito há a dizer, mas ainda não me apeteceu.
Muito havia a dizer sobre a genial encenação de Vick da Ópera Werther de Massenet, esse compositor medíocre, que numa temporada de pouquíssimas óperas teima em aparecer, quando Mozart ou Wagner ficam de fora.
Não me esqueci destes assuntos, ambos serão abordados.

Hoje na Livraria "Eterno Retorno", no bairro Alto em Lisboa um debate sobre a Ópera "Os Fugitivos": "Uma ópera de fugir?", como a minha opinião é realmente essa, a ópera é de fugir, fugirei também desse debate.

Muito haveria a dizer sobre a nova participante deste blogue: Clara Macedo Cabral, que aqui começou a escrever sem uma palavra de boas vindas de quem aqui estava antes. Veio do "Desejo Casar". Fica reparada a injustiça, a Clara é muito bem vinda. Clara escreve sobre literatura, poesia, teatro, política e o que lhe vai pela alma, sobre o que quiser, no fundo. Significa também uma lavagem do template, novos links, da sua preferência, e a inclusão de novos blogues nas citações. Na próxima semana faremos essas alterações.

Têm surgido blogues jovens de grande qualidade e têm desaparecido blogues mais antigos, uns por esgotamento das fórmulas, outros por cansaço dos bloggers, outros por fusão e refundação.

Outro assunto: a nossa fórmula ainda não está gasta, parece-nos. Enquanto a crítica em Portugal for feita por um pequeno grupo de pessoas. Enquanto a amizade e os pequenos grupos ditarem as poucas posições no nosso meio, sobra espaço para pessoas, que não tendo o menor interesse em ocupar postos ou acumular prebendas, nem fazer carreira no meio cultural, ou mesmo continuar a sobreviver sem serem votados ao ostracismo, se estão nas tintas para as opiniões dos "ditadores" do nosso tacanho meio e escrevendo por prazer vão explicando as suas sensações, as suas interiorizações do que se vai passando, tentando ser pedagógicos, quer para intérpretes, quer para o público, continuando a ler e a ouvir, estudando, e sobretudo mantendo-se independentes, sem receios que, dizendo bem disto ou mal de aquilo, possamos ser arredados de um lugar qualquer no futuro, com a subjectividade própria das nossas opiniões e da nossa capacidade humana de erro.

Finalmente respostas a comentários: o blogue "Portugal dos pequeninos" no meio de textos excelentes, a crónica da Petraglia é uma parábola das pequenas tragédias humanas, resolve comentar que eu, estaria a sofrer algumas consequências por dizer verdades aqui. Nunca pedi ao autor que me servisse de advogado neste tipo de questões, nem me parece que esteja a sofrer o que quer que seja. Se pensa o meu amigo João Gonçalves, ou outro, que uns bilhetes oferecidos ou não, e que custam uns miseráveis euros, podem obnubilar o meu sentido crítico, estará enganado. A Luna acabou, logo é natural que os bilhetes oferecidos desapareçam também. Não vem mal nenhum ao mundo. Ao menos poderei apupar ou aplaudir mais livremente no próprio local, com bilhete pago, em vez de ter de esperar pelos programas de rádio para fazer as críticas aos maus e bons serviços que tenho ouvido.

Sobre o M.P., que escreve também neste blogue, terá as suas opiniões, creio que são muito sentidas e ainda vão mais longe que as minhas. Não creio que gestão Pinamonti do S. Carlos seja uma catástrofe tão grande como a que ele vê. Por exemplo o dr. Pinamonti tem imaginação e consegue montar uma temporada, discutível mas possível, em cima do joelho, com pouco dinheiro e em cima da hora, num teatro cheio de vícios, com um coro que é incapaz de cantar e cheio de grupos de interesses e com gente a mais. Pinamonti terá o defeito de ter também o seu círculo de amizades, mas é o que acaba, paradoxalmente, por salvar o Teatro neste ano.
O seu principal defeito é a incapacidade de reformar de reformular, de despedir os incompetentes ou de enfrentar a realidade. Só um surdo, ou quem meta a cabeça na areia, não percebe o que se passa no TNSC. Se virmos o que ganha um maestro fora de prazo como Peskó, mensalmente, sem por os pés no teatro, ou quando põe: milhares de contos por estreia, mais milhares de contos por récita e por concertos além do ordenado fixo e certo, e o rendimento que esse investimento, pago com os nossos impostos, nos oferece: quase zero ou negativo. Se virmos quanto ganha um concertino, para trabalhar como concertino, e que em vez de concertar desconcerta, percebemos como o dinheiro dos nossos impostos é mal gasto, se percebermos quanto ganha um maestro de coro, mais adjuntos, mais coordenadores, para o coro ser a desgraça que é, sem ninguém dar um murro na mesa, percebemos o escândalo de uma gestão cultural ruinosa com os nossos impostos.
Esse é o defeito de Pinamonti, pactuar com este estado de coisas, que devora milhões de contos por ano, para uns poucos se exibirem nas estreias e dizermos que temos um "teatro de ópera" em Lisboa. Mas para manter a situação, Pinamonti é um gestor ideal, sabe manter-se sempre à tona de água e vai gerindo de forma habilidosa todos os pequenos focos de conflito, sem deixar o barco afundar de vez. O caso das horas extraordinárias que fez o coro deixar de cantar no CCB seria um óptimo pretexto para arrumar de vez com a questão, mas tudo foi ficando em águas turvas até desaparecer das memórias, como se nada se tivesse passado. Pinamonti é um director ideal para uma tutela que prefere deixar tudo como está. Sem a força de um Ministério forte e sem peso político por detrás será impossível, para qualquer direcção, a execução da reforma necessária ao S. Carlos e à ópera tutelada pelo estado neste país.

Se o estado pretendesse poupar dinheiro e produzir mais teria de ter uma vontade política férrea relativamente a este assunto, fazer audições por padrões internacionais, avaliar desempenhos, despedir ou recolocar incompetentes e improdutivos, em vez de andar a cortar nos museus e a deixar de apoiar os jovens artistas. Por outro lado o estado deveria pagar a tempo e horas aos artistas, tratá-los bem. O segredo seriam contratos bem negociados mas escrupulosamente cumpridos e assim recuperar a boa fama do Teatro Nacional de S. Carlos nos círculos internacionais.
A tutela teria de colocar um director no teatro como Almerindo Marques está a funcionar na RTP, o director artístico poderia muito bem não acumular funções com o director do teatro, parece que funciona assim em toda a parte do mundo e só quando a personalidade é excepcional é que se considera a hipótese de acumulação.

Porquê falar tanto deste teatro? Porque a ópera é um assunto apaixonante. Porque o S. Carlos é a instituição que recebe mais dinheiro do estado em termos musicais. É pago por mim e por uma data de gente que nem sequer consegue ser bem atendida num hospital público e que vai pagando salários principescos a gente que nem sequer merecia um pontapé no rabo no dia do despedimento com justa causa. Tenho mais do que o direito de falar sobre o assunto, tenho a obrigação. Sinto esse dever moral.

19.3.04

Vagabundos de Nós 

Subiu ontem ao palco do Teatro Maria Matos, o texto de Daniel Sampaio encenado por Luís Osório, representado por Márcia Breia e Nuno Lopes. 50 minutos de suspensão e comoção. Ponto de partida: o suicídio de um jovem. Dois monólogos em desencontro. De uma mãe, dirigindo-se ao filho que morreu. De um filho, explicando-se à mãe que ficou. Palavras que não serão escutadas. Tudo quanto é possível dizer, finalmente, dito, verbalizado. Em jorro ou em reticências, murmúrios, pausas. O difícil, o inexprimível de todas as relações pais-filhos, mulher-marido. Palavras que desvendam segredos, fixações, que dão forma à dor, que mostram o diferente e a igualdade do diferente, através das quais se procura a sanidade e a salvação. Impossível continuar homofóbico depois desta peça.

Clara Macedo Cabral

18.3.04

Rádio Experimental na Internet 

Fecha todos os dias às 2h da manhã. Recomeça pelas 9h do dia seguinte.
Hoje a música barroca e Mahler.
Depois de finalizar Saul de Handel, que neste momento se pode ouvir, com direcção de Paul McCreesh e com Gabrieli Consort and Players, haverá uma fascinante explicação da Sexta Sinfonia de Mahler, depois das 19h30m. Andamento a andamento por Benjamin Zander, em inglês. Zander que depois dirige a Philharmonia Orchestra na mesma obra de Gustav Mahler. Para ouvir: clicar no link na coluna da direita. O winamp gere muito bem o streaming áudio do Sapo. O problema será conseguir ouvir o ficheiro após a publicidade, o winamp faz isso na perfeição. E pode-se avançar sem escutar a publicidade saltando directamente para o ficheiro de audição. Recomendo vivamente as palavras de Zander, são um momento de rara magia, para músicos e melómanos.

H.S.

“Beyond Belief “ 

Os especialistas já realçaram a importância do sistema de franchising na Al-Quaeda. Desmantelados os campos de treino no Afeganistão, a Al-Quaeda opera agora com locais que reagem ao nome e imagem da Al-Quaeda, evitando deslocações suspeitas, contando com os recém-convertidos ao islamismo.
Naipaul retrata a conversão de um jovem de Oklaoma da seguinte forma: “ toda a gente nasce muçulmano, sem pecado, dissera ele na cerimónia de conversão. A consequência disso- embora ele o não tivesse dito- era que, no mundo exterior ao islão, todos laboravam no erro e talvez estivessem algo incompletos até encontrarem o seu eu muçulmano... O Corão é um sistema de valores. É como um carro. Um carro é um sistema: se apenas tiver o motor e a roda, não tem o automóvel. O Islão é um sistema. Tem de tê-lo todo ou tem de o abandonar. Não se pode ser meio-muçulmano ou muçulmano a três quartos. Ou a pessoa se torna muçulmana com todo o coração ou então não vale a pena”.
Mais à frente, é um poeta paquistanês de uma família hindu recém-convertida que explica o islamismo nos seguintes termos: “ O islamismo não é como o cristianismo, dizia ele. Não é uma religião de consciência e de prática privadas. Vem acompanhado de determinados “conceitos legais”. Estes têm um significado cívico e instauram uma certa ordem social. O ideal religioso não pode ser separado da ordem social”.

Clara Macedo Cabral

17.3.04

O Médio Oriente e o Ocidente. O que correu mal? 

Ontem na Culturgest na última conversa sobre “ Os Livros em Volta” foi apresentado o livro de Bernard Lewis sobre “O Médio Oriente e o Ocidente. O que correu mal?”, escrito antes do 11/09 e com uma actualidade notável. B. Lewis devedor da tese de Huttington de que à guerra fria se sucederiam divisões de carácter civilizacional, explica como a actual animosidade entre o Ocidente e o Médio Oriente é um padrão histórico, com raízes no encontro dramático entre estes mundos e não um fenómeno recente. Na sua análise recua até aos tempos medievais, onde a civilização islâmica não teve rival, quer em termos de potência militar- o Islão invadiu África, Índia, China- quer no campo da ciência e das artes. Com o Renascimento, a civilização europeia regista a primeira ruptura de peso face à civilização islâmica, acentuada com os Descobrimentos, a Reforma e a Revolução Industrial. O Ocidente vai gradualmente efectuando uma modernização de que o mundo islâmico se revela incapaz, declinando militar e economicamente, incapaz de laicização e de atribuir um papel activo às mulheres. No mundo contemporâneo é evidente um mundo islâmico mais pobre, fraco e ignorante e que por detrás destes problemas está a falta de liberdade. Falta de liberdade de pensar, da iniciativa privada, das pessoas em relação ao poder político, das mulheres em relação aos homens.

Clara Macedo Cabral


Solistas da Missa de Beethoven no CCB último domingo 

Soprano Ricarda Merbeth.
Meio-soprano Olga Savova
Tenor Jorma Silvasti
Baixo Kurt Moll

Que dizer dos solistas; penso que são do pior que se pode ouvir hoje em dia.
Uma concepção da vocalidade velho com utilização da voz como se fosse a única finalidade da criação musical em vez de elemento integrante e estrutural, componente, da partitura.
Dito curto e grosso: cantaram todos forte e "profissional" e utilizo esta palavra no seu significado pior; sempre igual sem modulação, sem participação, sem tratamento da voz, sem nenhum respeito pelo texto e sem uma dicção apropriada; o que é isto!?

Contudo estiveram presentes, operários de uma arte que precisaria de inspiração.
Todos andaram a fugir aos andamentos e a fazer exibicionismo da própria vocalidade que se mostrou, de facto, obsoleta e inútil.
É demasiado fácil. Parece que o Doutor Pinamonti faz de Director artístico apenas tendo como meio o auscultador do telefone. Há muita gente hoje em dia que sabe, e pode, fazer melhor do que estas velhas glórias. Ainda por cima os gostos, as técnicas, a aproximação à execução destas obras mudou profundamente nestes últimos anos e parece que o TNSC, com o Dr. Pinamonti e o Maestro Peskó à frente, nem repararam.

Começa a perceber-se porque razão Elisabete Matos cancela todos os trabalhos com o S. Carlos. Sem ser dada uma explicação cabal pela direcção.

P.M.


Rádio Experimental na Net. Clicar em "A LunaExperimental".
Publicidade à entrada, mas segue música de qualidade sem mais publicidade. Parece que é preciso um programa qualquer para se ouvir audio streaming.

16.3.04

Imagem da Semana 


Arrábida

Foto de Rodrigues

Burmester sai finalmente 

Pedro Burmester sai finalmente da Casa da Música. O autor do projecto não tem, manifestamente, qualidades de gestão cultural. Duvido também que as tivesse para a idealização de um objecto para o qual mostrou pouca competência. Pedro Burmester sai finalmente, depois de quase esvaziado de funções e depois de posto à margem pela nomeação de um director artístico.

O principal responsável pela anedota de uma Casa da Música, que se supõe albergar um estúdio de ópera, sem teia nem fosso sai, não pela incompetência, ou por vergonha, mas por motivos políticos e a culpa morre mais uma vez solteira.
Notícia do Público

É claro que o nosso amigo V. G. vai discordar (teremos mais discussão interna neste blogue?) e achar que é uma perda para a Casa da Música o afastamento de Burmester. Eu penso que é óptimo para o desenvolvimento do projecto ter um director artístico competente e pouco armado em "prima dona". Mais: penso que será excelente para a música em Portugal, ter Burmester fazendo opinião de fora, sem estar manietado por falsas lealdades e, sobretudo, podendo estudar música, uma vez que o pianista estava a perder-se disfarçado de programador cultural medíocre. Não foi bom nesta qualidade e estava a perder-se como intérprete.
De parabéns estamos todos nós, e o próprio, por esta sábia decisão, por motivos errados, mas até que enfim, de Pedro Burmester. Vamos poder ouvi-lo, espera-se que em forma, dentro de alguns meses de estudo e de regresso ao trabalho musical a sério...

H.S.

O Islão em “ Para além da Crença” de V.S. Naipaul 

Depois da tradução de algumas das obras ficcionais de Naipaul, a Dom Quixote lança-se agora na tradução dos seus livros de viagens.
Naipaul assume-se como produto de dois mundos inconciliáveis, por um lado o mundo colonial (Trinidad, onde nasce) por outro, o mundo colonizador ( Inglaterra onde estudou e actualmente vive).
Uma das dimensões da sua escrita e que tem sido mais contestada é a de encarar algumas culturas como obstáculo ao crescimento intelectual, considerar que enquanto os povos do Terceiro Mundo: indianos, africanos, paquistaneses, continuarem a pensar de acordo com as suas instituições culturais, serão inábeis para lidarem com os seus próprios problemas.
A literatura que Naipaul cultiva é a literatura de viagens que se presta por natureza ao ser isolado e desenraizado que Naipaul reconhece em si e é o género não ficcional e mais autobiográfico que lhe dá a possibilidade de escrever sobre o que é viver nas margens, sobre essa procura de uma identidade entre dois mundos sem pertencer a nenhum, já que o romance ficcional pressupunha uma centralidade a que ele não pode aspirar ao dar-se conta da sua fragilidade e falta de auto-confiança. Ele próprio o afirma: “one has ceased to be a colonial. One no longer enjoys this great security. I am aware that I am (an) insecure person”
No prólogo de “ Beyond Belief” Naipaul alerta-nos : “ O islão não é somente uma questão de consciência ou de crença privada. Faz exigências imperiosas. A visão do mundo de um convertido é diferente. Os seus lugares santos são em terras árabes, a sua língua sagrada é o árabe. A sua noção de história é diferente. Ele rejeita a sua e, quer goste quer não, torna-se parte da árabe. O convertido tem de se afastar de tudo quanto é dele. A perturbação é imensa para as sociedades e, mesmo após uns mil anos, pode continuar por resolver; este virar de costas tem de ser feito uma e outra vez. As pessoas criam fantasias sobre quem são e o que são, e, no islão dos países convertidos, existe um elemento de neurose e de niilismo. Estes países podem facilmente entrar em ebulição”.
Nada mais actual e que aqui continuarei a dissecar.

Clara Macedo Cabral


Convidada 

Convidada para uma colaboração com o Crítico, depois de o Desejocasar fechar portas, prometo não me imiscuir em polémicas musicais e limitar-me a um ou outro apontamento sobre o quotidiano e a literatura.

Clara Macedo Cabral

15.3.04

Um rapaz sorridente - a rotina e a banalização na crítica 

Sai crítica hoje, no Público, sobre Fabio Biondi e Europa Galante, Manuel Pedro Ferreira, que costuma ser extremamente generoso nas suas críticas, dando muitas vezes a impressão de ter poucos termos de comparação, mais uma vez perde-se a analisar o currículo de Biondi e dos compositores envolvidos. Comenta as notas de programa e, a medo, no final do artigo dedica o último parágrafo ao acto que se passou na Gulbenkian. Dá a impressão que tem receio de escrever sobre o objecto da crítica em concreto, repetindo o que a apresentação do concerto, feita dias antes no mesmo jornal, já tinha feito. Um erudito, sem dúvida, mas a crítica não se faz apenas com livros sobre a origem da sinfonia.

Encontramos as banalidades:

a perfeita concentração e espírito colectivo da "Europa Galante", em total sintonia com a visão interpretativa de Fabio Biondi; em segundo lugar, a capacidade deste último de conjugar precisão, transparência, agilidade e imaginação no delinear das frases e na variação do timbre; em terceiro lugar, o impressionante leque dinâmico, do "piano pianíssimo" ao "forte", posto ao serviço da modelação formal dos andamentos. Para além da garra virtuosística e da subtileza dos desenhos em filigrana oferecidos pelo violino de Biondi, a qualidade individual de alguns outros membros do agrupamento, mormente os violetistas e Gianacomo Pinardi (tiorba) ficou também patente (embora as dimensões da sala e a colocação do cravo dificultassem a percepção deste último).

Perde-se neste blá blá encomiástico sem descer ao que realmente aconteceu no concerto e sem o menor sentido crítico. Concedo que Biondi variou os timbres em certos pontos, mas a ornamentação escolhida foi banalíssima, a transparência foi perfeita na percepção da trapalhada de notas trocadas e desacertos rítmicos em lugar da propalada precisão, que a existir só em sonhos e no extra em pizzicato. A modelação formal dos andamentos começaria pelas tonalidades e o "crítico" de serviço nem se apercebeu da monotonia de cor dada pelo temperamento igual, o que denota uma total ausência de ouvido de quem tem obrigação de ouvir, o que no caso do temperamento e do diapasão, a 440, mostra uma abstracção da realidade e do que se passou este sábado na Gulbenkian. O bom alaúdista que se encarregou da teorba foi compensado pela falta de qualidade do violoncelo solo de Naurizio Naddeo e pela falta de homegeneidade qualitativa dos violinos. Tocar todos os compositores em concerto da mesmo forma, a despachar o assunto, com uns laivos de espectáculo em trejeitos de cabeça de Biondi, em que ora se encolhia, ora dava pulos, consoante os momentos eram mais em piano ou mais em forte, deve ter dado a impressão de que os músicos estavam muito inspirados. Mas o que importa não são os aspectos visuais, é o que se ouve, e o que se ouviu foi uma pastelada em três tempos: fria, com energia, sim, mas mal gasta e com musicalidade dúbia. Um concerto banal, que acabou por ser uma desilusão, atendendo às espectativas. Logo de um agrupamento que se destacou pela emoção, pela energia e pela musicalidade, tempos idos.
Mais uma crítica de um rapaz sorridente que não consegue distinguir o trigo do joio e critica em face do nome dos intérpretes. Aspectos como a fuga total da afinação teriam de ser referidos por qualquer crítico com ouvido.

H.S.

P.S. - Concerto para 14 valores.

Tal como prometi 

Não faço a crítica do concerto da OSP, nem estive presente. Mas um colaborador deste blogue não quis deixar de fazer o seu comentário. Não é uma quebra de promessa uma vez que neste blog, sendo escrito por diversos autores, apenas posso dar a palavra por mim próprio. Pelas palavras de M.P. parece ter sido um bom concerto, que deixou o público satisfeito. Muito trabalho haverá a fazer, mas parece que o S. Carlos até está no bom caminho...

H.S.

Concerto da OSP e do Coro do S. Carlos no CCB 

Assistimos ontem a um concerto que marca o regresso de alguma qualidade nas actuações da OSP. Falaremos dos solistas mais tarde, hoje discutimos aspectos relacionados com orquestra, coro e maestro.

Esperando que não seja um fogo efémero quero salientar que há muito tempo que as energias não se manifestavam desta maneira. Houve, dito de forma breve, uma coesão e uma tensão que há muito tempo faltavam nas actuações da OSP e do TNSC.

O Maestro Peskó, em palco, trabalhou com muita energia, parece ter estado concentrado e teve um cuidado que não lhe tem sido habitual. Quem não se lembra das últimas dúzias de actuações sem chama e muito descuidadas deste maestro à frente da Orquestra da qual é titular?

A orquestra participou com diligência e paixão e trouxe a um bom porto uma actuação francamente digna. Infelizmente fica tudo por aqui, já que o verdadeiro problema deste conjunto está enraizado muito mais profundamente; de facto é cultural. É pena dever admitir-se que o máximo que esta orquestra pode entregar são alma e participação; isto é pouco. Uma Missa Solemnis de Beethoven tocada com ardor de adolescente não se confaz a uma orquestra de profissionais preparados. Assistimos, portanto, a uma execução onde se passou uma hora e meia de "papa" sem forma com sonoridades fortíssimas e forçadas desde o princípio até o fim da obra, tirando um pianíssimo que é "inevitável".

Os problemas verdadeiros são técnicos e intelectuais. Uma Missa tem muito a ver com a retórica musical e a participação íntima, a comoção, a atenção ao texto deveriam ser totais. O que se passou, ao invés, foi um constante contrariar do texto por parte das cordas; imagino que haja uma responsabilidade do concertino nisso. Como é possivel fazer acentuações métricas erradas desde o primeiro “Ky-ri-e” e continuar assim a peça toda, confundindo, por exemplo, as lágrimas da misericórdia com um mero trabalho de arcadas e articulações ao contrário? Não houve comoção nenhuma, ainda por cima no final do Credo a orquestra andou completamente perdida, fagotes a fazer escalas de colcheias à solta com os Violinos a fazer o mesmo desenho constantemente atrasados e com toda as secções que tocavam a parte temática acima deste contraponto a mandar notas por todo o lado. Numa obra desta força seria desejável que o maestro tentasse sensibilizar a orquestra para um trabalho um pouco menos de funcionário e mais intelectual. Será possivel?

Nota-se também a contínua tentativa do concertino de se fazer sobressair de qualquer maneira. Este passou todo a peça a antecipar a entrada do resto da orquestra de, pelo menos, um décimo de segundo. Irritante para dizer o mínimo!!

O coro é um caso que deveria ser estudado por uma equipa de cientistas para ver se há uma predisposição genética para ser tão mau.
No Sanctus e no Credo ouvimos sopranos a berrar que nem no mercado do peixe e os tenores a dar ataques assustadores (Et in secula....) com vozes que entram em competição com as dos carregadores das cargas na Doca da Rocha do Conde de Óbidos. Acham que gritar o tempo todo é uma distinção de qualidade. Admito que as outras secções foram mais conseguidas mas, em geral, continua o nível inaceitável do costume. Assusta o facto de se notarem caras novas. Fizeram audições? Os critérios foram ponderados? Os velhos dinossauros da velha guarda já arrumaram os jovens ao rame-rame do costume?

Esperam-se constantes melhorias. Tentem lembrar-se da música, servi-la. Menos sindicato, mais música.

Mas ontem foi melhor.

M.P.

13.3.04

Fabio Biondi - o cansaço 



Arcangelo Corelli
Concerto Grosso op.6 nº 4

Antonio Vivaldi
Concerto em Ré Maior, op.3 nº 9
Concerto para Violino, em Dó Maior, op.8 nº12
Concerto para dois Violinos e dois Violoncelos, em Ré Maior

Pietro Antonio Locatelli
Concerto em Mi bemol Maior, Op.7 nº 6, Il pianto d'Arianna

Francesco Geminiani
Concerto Grosso, op.3 nº 2

Giovanni Battista Sammartini
Sinfonia em Fá Maior


Chegou a altura de, no movimento da música antiga, se parar e pensar.
As rotinas instalaram-se, a força do novo, o prazer do diferente, o trabalho de longa duração, o ensaio, o afinar em conjunto começa a tornar-se em monotonia e banalidade. Os grandes nomes saiem das formações que os lançaram e criam novos agrupamentos. Os grupos rejuvenescem-se, mas a qualidade nem sempre se mantém. Os velhos mestres perdem a paciência, perdem a chama. Fabio Biondi engordou, ganhou peso, parece que este peso se transmitiu ao seu agrupamento.
Aconteceu assim com A Europa Galante: a banalização de Fabio Biondi. Um concerto apagadíssimo, sem chama nem cor. Instrumentos antigos? Arcos barrocos? Afinação? Aqui um dos pontos mais fracos: temperada e a 440Hz! Eu nem queria acreditar, desafinação constante, cordas demasiado tensas. Fuga continuada da afinação em todo o concerto. Falta de cor, uniformidade, ornamentação banal e esteriotipada. Música sem prazer, sem respiração, sem cor. Tonalidades todas iguais, qual ré maior, qual mi bemol maior? Tudo soava igualzinho e igualmente descolorido.
Vivaldi como Corelli. O primeiro andamento do pianto de Ariana de Locatelli sai com algum encanto, logo desfeito nos concertos de Vivaldi. Um violoncello completamente fora de tempo, de ritmo, de batimento. Um Fabio Biondi a cheirar demasiado a espectáculo visual e a pouca inspiração musical. Com diapasão a 440 e temperamento igual cheira também a fraude musical.
E de facto cheirou a fraude musical, faltou a música, e quando a música falta, falta tudo, mesmo que se toque com instrumentos originais.
Foi triste ouvir descordenação ritmica, falta de articulação, ornamentação pobre, baixo contínuo pesadão e sem agilidade.
O público, como sempre em Portugal, gostou do programa, aplaudiu, menos efusivamente que o costume, mas generosamente.

Quem os ouviu e quem os ouve hoje, que desilusão. Totalmente dispensável este concerto, médio para o medíocre. Se não tem bilhete para o concerto do Porto não perde nada.

Uma pergunta forte para a Gulbenkian: Onde pára a Música Francesa e a Música Alemã, no ciclo de música antiga? A música italiana é muito interessante mas há quanto tempo não se ouve um Schütz? Um Schein, um Scheidt? Um Funk? Conhecem Delalande? Marin Marais? O nome da família Couperin diz algo aos senhores programadores? Creio que até diz, mas onde estão estes compositores? E lá temos de gramar com o Biondi, gordo como um perú de Natal a tocar entre médio e o mal.

Um reparo severo para a Gulbenkian: Já vamos em Março e o ano Charpentier parece ter passado ao lado da Fundação. Estavam a dormir quando programaram a temporada? Uma pena e uma falha gravíssima de programação. Muitos concertos são devidos a Charpentier. Um dos melhores compositores de todos os tempos, como não me canso de repetir aqui.

P.S. Fora do concerto: a qualidade do bar da Gulbenkian está a piorar a olhos vistos: empadas cruas, croquetes ensopados em óleo, bicas mal tiradas, meias de leite mornas que afinal saiem a escaldar. Qualidade dos bolos a piorar cada vez mais, preços galácticos. Falta de qualidade e preços elevadíssimos, há que mudar rapidamente.

H.S.

12.3.04

Aos mortos desse dia de cólera 

Requiem aeternam dona eis Domine et lux perpetua luceat eis. Requiescant in pace. Amen.

E silêncio.

11.3.04

pulido valente, a miséria e a decadência 

Tive acesso, finalmente, ao arrazoado de Vasco Guedes, que assina Pulido Valente, no jornal DN, coloco aqui o artigo para que os leitores possam avaliar por si. Os erros ortográficos são da autoria de Pulido Valente, pode-se ver, mais abaixo, como Vianna da Motta assinava. Vianna da Motta não foi apenas pianista, não foi medíocre, foi compositor de génio e intérprete ilustre. Pior que medíocre é o texto ignorante e com cheiro a taberna que se lê no Diário de Notícias.
H.S.


Pretensões
Vasco Pulido Valente

Começo por dizer que detesto futebol e o repelente país do futebol. Acho sobretudo triste a paixão clubista de pessoas que deviam ter juízo, mas que não hesitam em gemer em público pelo Porto ou pelo Sporting, pelo Benfica ou pelo Braga, porque isso, presumivelmente, lhes dá um ar mais «povo». Apesar disso, fiquei surpreendido com o furor que provocou o avião «Viana da Mota», quando o rebaptizaram com o nome de «Eusébio». Parece que se trata de «uma injustiça incrível». Ao princípio, não percebi onde ela estava, essa injustiça. Verdade que, no seu tempo, Viana da Mota era grande pianista, como havia dezenas, e que se distinguiu discretamente como compositor e professor. Infelizmente, hoje só se fala dele por causa da miséria absoluta da nossa música. Em contrapartida, Eusébio foi, depois de Pelé, o maior jogador de sempre, um facto que o mundo inteiro reconheceu e reconhece; e, ao contrário de Viana da Mota, uma figura menoríssima, não há história do futebol sem ele. Numa sociedade em que se apregoa a «excelência» como um valor supremo, julguei que o avião ganhava com a mudança. Infelizmente, pensadores de prestígio não concordam comigo: entre um músico medíocre e um futebolista genial, preferem o músico, porque preferem a cultura ao «espectáculo» e, ainda por cima, um espectáculo sobre o primitivo. Segundo a sua autorizada opinião, a troca não passou de um enorme insulto à superioridade do espírito e da arte; e de uma cedência sem desculpa à plebe imunda. Aterrorizada, a TAP arranjou logo a Viana da Mota outro avião. Donde se conclui que o mérito está mais na actividade do que na pessoa, uma ideia arrasadoramente reaccionária. Não importa: acabaram por ganhar as pretensões de uma classe média ignorante e sem educação. Serve de consolo.

10.3.04

Domingo Concerto da Sinfónica, Sábado Concerto de Fabio Biondi 

Sábado, dia 13 de Março, Fabio Biondi e Europa Galante, imprescindível. Gulbenkian 19h.

Domingo, Beethoven, Orquestra Sinfónica Portuguesa com Direcção de Peskó, Missa solene. 16h CCB.
Anuncio desde já que não farei crítica a este concerto, estou farto de bater no ceguinho. Além disso actua (quem sabe?) o "coro" do Teatro Nacional de São Carlos, se não fizer greve, ou se achar que as horitas extraordinárias ao domingo devem ser pagas ainda mais caras... Teríamos o prazer de escutar a missa de Beethoven sem coro, o que, neste caso deveria ser uma grande melhoria. Por isso mesmo não farei crítica, é difícil, senão impossível criticar o inexistente.

H.S.

Tenores - A crítica ao Crítico dos Críticos 

Permitam-me uma palavra de clareza acerca do assunto da presença de cantores no mundo da Música Lírica hoje em dia.

O problema não está ligado à falta de artistas com capacidades mas sobretudo na falta de Directores de Teatro, Críticos e operadores desta área da cultura que vivem com uma mentalidade de "supermercado". Vão ao supermercado e compram o que houver nas prateleiras, um puro exercício de ginástica que é só aquele, lamentável, de levantar ou baixar o auscultador do telefone para contactar agentes.

O trabalho de um director de Teatro deveria impor qualidade, estar ao par do que acontece, de promover excelência, e não só amizades. Um director deve trabalhar para que a qualidade aconteca; viajando e encontrando pessoas mesmo nas produções mais "blazé"; organizando audições sérias e desenvolvendo um trabalho de prospecção, lançando e arriscando em novos valores. Para um director de Teatro Italiano como Pinamonti isto deveria ser "canja" já que em Itália temos centenas de Teatros, quase todos operacionais e que, em Italia, vivem milhares de Cantores provenientes de todos os cantos do mundo, lituanos, moldavos, búlgaros, chineses, japoneses, americanos e, porque não, italianos. Desde a chegada de Pinamonti temos tido no palco do São Carlos pouquíssimas coisas de qualidade e demasiadas demonstrações de mediocridade; maestros convidados grotescos, cantores em primeiros elencos que num Teatro normal nem fazem o terceiro, um maestro titular que não dá para acreditar. A direcção é melhor nas encenações mas isto só serve para esclarecer o nível amador que a Direcção demonstra a nível musical, até na escolha do repertório; depois de três anos e meio de Pinamonti a OSP não tem repertório nenhum e não tem feito experiência nenhuma no domínio de um repertório qualquer. Toca Mozart como se fosse Strauss e Mahler como se fosse Mozart, isto mesmo na Ópera. Quem não se lembra do descalabro da Flauta Mágica dirigida pelo Peskó há dois anos? É só um exemplo, já que não me lembro de uma só peça tratada como deve ser a nivel musical ou instrumental.

Também a crítica, se for construtiva, poderia ser uma ajuda. Chega destes jornalistas preguiçosos que se limitam a criticar de maneira mais ou menos suave um espectáculo musical em troca de bilhetes de borla para assistir a aquela récita que deveriam criticar com objectividae e constructivismo.

Conheco pessoalmente cantores muito superiores ao Sabbatini no papel de Werther mas que, ao contrário deste, não podem investir dinheiro pagando a uma grande agência artistica. Nem compensa apontar a comparação com Alagna que, mesmo sendo irónica, esclarece a nossa pobreza de conhecimentos. Neste sentido nós também temos culpas graves, devemos confrontar-nos não apenas com níveis elevados de hierarquia artística ou de vedetismo. Não é assim que se faz cultura ou que se ajuda a fazê-la.

M.P.

Mais Werther 

Wherter mais uma vez em destaque por Augusto M. Seabra no Público. Depois de ter ouvido Sabbatini, o omnicrítico escreve finalmente uma reflexão com as cartas todas na mão. O texto, em poucos caracteres resume o essencial do nosso texto anterior sobre Werther, de onde se conclui que neste caso o "Crítico Musical" e Augusto M. Seabra concordam em quase tudo, no melhor e no pior. Parece-nos, no entanto, muito exagerado o preconceito de Seabra relativamente a Sabbatini, que melhor Werther hoje? Alagna?

Sabbatini tem a virtude da inteligência. Sobre o canto a plenos pulmões, custa-me a definir o que se entende por canto a plenos pulmões. Sabbatini foi contido quando assisti à sua récita, saído de um gripe talvez se tenha poupado, o que contribuiu para um Werther muito equilibrado vocalmente, por antítese à sua perturbação mental. Mas quem sabe, hoje dia 10 de Março é realmente a última récita. A produção é excelente, recomendo um último salto ao S. Carlos. Até Vaz de Carvalho, depois de críticas muito rigorosas, parece ter melhorado um pouco.

O que não parece ter melhoras é a coordenação do naipe de violinos e volto a concordar com Seabra. Não me parece que com Peter Devries o problema se possa resolver, é, de facto, um concertino que não consegue, não sei porque razões nem me interessam, motivar, homogeneizar, afinar, sincronizar o naipe mais influente no som de uma orquestra, que quando falha arrasta tudo para o abismo. Espanta-me, pelo ridículo, a vaidade oca deste senhor "concertino", que em concertos teima em entrar depois dos seus músicos para levar com umas palmas de circunstância totalmente imerecidas. Até quando? Não se enquadra nem nossa tradição, nem na competência mostrada por Peter Devries.

Ler A.M.Seabra:
Artigo de 9 de Março.

H.S.

Um Músico de Génio um Futebolista de Eleição e um Articulista Decadente 

É com incredulidade que leio uma citação de um artigo do Diário de Notícias:

"...infelizmente, pensadores de prestígio não concordam comigo: entre um músico medíocre (Viana da Mota) e um futebolista genial (Eusébio) preferem o músico, porque preferem a cultura ao futebol e, ainda por cima, um espectáculo sobre o primitivo..." e conclui:.. "aterrorizada a TAP arranjou logo a Viana da Mota outro avião onde se conclui que o mérito está mais na actividade do que na pessoa, uma ideia arrasadoramente reacionária; não importa: acabaram por ganharem as pretensões de uma classe média ignorante e sem educação. Serve de consolo."

Segundo me disseram o autor seria Vasco Pulido Valente. O Pulido Valente que eu conheço só poderia escrever estas alarvidades se não estivesse sóbrio. Talvez tenha escrito mesmo. Não vale a pena comentar, apenas deplorar o triste estado a que chegou quem escreveu o texto acima, mete dó. É quase impossível que alguém que se diz investigador e erudito possa dizer que "Viana da Mota" era um músico medíocre, é ignorância de taberna. Até nos erros ortográficos na escrita do nome Vianna da Motta.

Henrique Silveira


9.3.04

Ainda a Luna 

Recebi por email, do Álvaro Teixeira, amigo, compositor e jornalista, o texto em que lamenta o fim da nossa rádio, a LUNA. Como lhe tinha pedido um texto para publicar, aqui neste blog, aqui o reproduzo, com amizade e admiração pela beleza do que nos diz.
E aqui vai o texto do Álvaro.

H.S.

A Morte da Luna

Domingo 7 de Março, fiquei a saber, pela voz de Marcelo Rebelo de Sousa nos seus comentários semanais na mesma televisão cujo grupo acabou com a "nossa" rádio , que a Rádio Luna ia desaparecer! Talvez por isso M.R. de Sousa se limitou a dizer que gostava muito da Luna e que era uma pena...

Fui colaborador e ouvinte da Luna e todas as pessoas que conheço ouviam aquela rádio de Jazz e Música Clássica. O Henrique M. Silveira, principal animador da Rádio, já me tinha pedido para participar com comentários aos concertos que semanalmente vão acontecendo na capital, coisa que não me desagradaria totalmente apesar da minha "vocação" ser escrever crónicas que alguém lê com fundo musical "genial, como uma vez ele me citou no final de uma das minhas crónicas tão bem lidas (re-creadas) por ele e potenciadas pelas suas escolhas musicais.

A Luna era uma rádio com vitalidade e com dinamismo, feita da vontade de "carolas" que ao contrário de gente instalada nalgumas rádios pagas pelos contribuintes, não recebiam, injustamente mas sem mágoa e com entusiasmo, qualquer remuneração, tal como eu nada recebi, para além do prazer de as ouvir, pelas crónicas que ofereci à Luna.

A Luna era a grande alternativa querida e ouvida por um vasto leque de gente na Grande Lisboa. Era uma das preferidas de M.Rebelo de Sousa e de muita mais gente, da música à literatura, citadinos e menos citadinos, intelectuais e menos intelectuais. Era a Rádio de Futuro: independente, inovadora e feita de forma inteligente.

Nunca acreditei que quem a recebeu como bonus (o grupo MédiaCapital- o da TVI...- comprou a Rádio Vox por um milhão de contos e como a frequência da Luna lhe está associada e não podem ser separadas recebeu a Luna como brinde...) fosse capaz de acabar com ela. Sempre pensei que iriam desenvolvê-la... Afinal era uma rádio com ouvintes, com um público fiel!
Imaginei que Portugal fosse um país Europeu com uma classe capitalista europeizada... qualquer capitalista Europeu (tirando os da laia de Berlusconni...) mimariam a Luna. Talvez passasse a ser a "menina dos olhos" para alguns.

Mas afinal não! Isto é Portugal e a gente da MédiaCapital portugueses, portuguesinhos aplica-se melhor. Portuguesinhos endinheirados com a sua visão de curto alcance disposta a pagar milhões por programas lixo que colem na mediocridade condicionada pela falta de instrução de um povo que anos e anos foi o mais miserável da Europa. Formar para quê? O que
importa são audiências nada mais. Mas mesmo aqui falharam. Assassinaram a Luna que tinha audiências e que era a grande alternativa ao imobilismo, à inércia e falta de vitalidade da "rádio do estado" que essa sim está a esfregar as mãos de alegria pois a Luna era quem lhe roubava audiências. Porque a Luna era melhor!
Incrivelmente melhor!

Mas a este país, com gente endinheirada curta de vistas e vazia de "substância", não lhe vislumbro grande futuro. Nunca o teve, mas cada vez mais as oportunidades de se engrandecer parecem ser destroçadas como se só o futebol e os Big Brothers pudessem fazer história. Enganam-se não fazem, não fizeram e nunca farão. É um país cada vez mais à beira da "não-história". Do fim.

Álvaro Teixeira

Um abraço para o Álvaro Teixeira que estendo também ao técnico de enorme categoria, o André Teresinha que, sózinho, conseguia fazer duas rádios em termos técnicos, incluindo a programação inteira da VOXX em termos musicais. Desde computadores, internet, produção de spots, tratamento de som, montagem de programas, incluindo excelentes ideias de realização, domínio técnico e profissional, inteligência, qualidades aliadas a musicalidade própria de ser também ele músico, e além disso sempre com sentido de humor e disponibilidade para aturar os cromos, muitas vezes até o sol nascer. Espero que o desemprego seja breve para o André.

H.S.


As fotografias de Jaquinzinhos 

Tanto post sobre os São Miguel, tanta fotografia de qualidade, tanta emoção, tanto sentimento humano e paixão pelos outros que transparece na fotografia. Veja-se a que aparece disfarçada sob o pseudo-irónico título de "Centro Esquerda", a fotografia é muito mais bela que a falsa distância criada com a ingénua tentativa de ter graça. A fotografia mereceria muito mais o título singelo de "A Confraria do Degrau" que aparece na legenda. Esse humanismo que aparece nas imagens nem parece que provém de um auto designado "liberal" que não dispensa o automóvel e as filas na estrada de Cascais, que despreza os menos favorecidos pelo engenho liberal, que acha bem que os deficientes paguem mais, apenas porque são deficientes, que não percebe a solidariedade que devemos ter relativamente aos mesmos, pagando um pouco mais para que estes tenham os mesmos direitos de mobilidade e de vida. Mesmo quando a solidariedade é imposta pelo estado, a empresas privadas, é justa.
Não percebo JCD, afinal é um homem sensível disfarçado por uma capa de cinismo. João larga a máscara e mostra-te como és, só te ficaria bem. E, já agora, desculpa o meu paternalismo...

A ler e, sobretudo, ver as fotografias em Jaquinzinhos.

H.S.

Imagem da Semana 


Orquestra do Século XVIII, A Coruña.

Foto de Rodrigues

8.3.04

Marcelo Rebelo de Sousa e Jornal de Notícias 

Marcelo Rebelo de Sousa deu a má notícia, a Rádio LUNA acabava, uma rádio da qual ele gostava. O JN publica a seguinte notícia sobre fim de VOXX e LUNA, e que reproduzimos aqui com a vénia a Alexandra Marques. Uma correcção, a Luna acabou com a Pequena Missa Solene de Rossini, Jos van Imerseel a dirigir, e algumas peças mais. A última seria o prelúdio do terceiro acto da ópera Lohengrin de Wagner que não chegou a terminar, a poucos segundos do seu final foi interrompida por uma coisa que continuou pela noite dentro. Acabou assim a Rádio LUNA.


Rádios Voxx e Luna terminam sem projectos de continuidade

A rádio "fora do baralho" transmitiu o último "Mensageiro da moita" em directo e com amigos reunidos em estúdio Frequências poderão retransmitir outras estações ou ser usadas como canal exclusivo de futebol

Alexandra Marques


Ao soar da meia-noite de ontem, a Voxx e a Luna deixaram de emitir. Acabam assim duas estações de música alternativa que, desde há cinco anos, habituaram o público a uma forma diferente de fazer rádio. A Luna intervalava as peças de música erudita, jazz ou
cinematográfica com spots de estreias teatrais e mostras de arte. A Voxx cultivou uma programação de autor, com textos irónicos e muito humor à mistura.
"Finda uma forma alternativa de fazer rádio que privilegiava a palavra, que era pouco acomodada e fazia programas fora do comum, sem nunca ter problemas de formatação. A Voxx era insurrecta e subversiva e tornou-se, com muita naturalidade, numa rádio deculto ", diz Pedro Gonçalves, autor com Luís Pinheiro de Almeida, do programa nocturno "Mensageiro da moita". O programa mais antigo da Voxx e que ao longo de quase quatro anos foi gravado antes de ser transmitido, às 20 horas, foi ontem a títu
lo excepcional emitido em directo do estúdio em Lisboa. Uma hora antes, Pedro Gonçalves não sabia o que iria acontecer. "Será um programa especial, com amigos, para além de eventuais telefonemas para quem queira dizer de sua justiça", disse ao JN.

Ser eco ou passar futebol
As estações foram compradas em Outubro à Côco -Companhia de Comunicação -, pela Rádio Milénio, do dirigente do CDS-PP e membro do Conselho Superior de Magistratura, Luís Nobre Guedes, advogado do grupo Media Capital. O futuro das três frequências (Voxx: 91.6-Lisboa e 90.0 Porto. Luna: 106.2) ainda não é certo. Guilherme Statter, director da Luna e sogro do dono da Côco, crê que servirão para "retransmitir a programação de estações do grupo Media Capital". Da Comercial ou do Rádio Clube Português, mas ontem o site "Jornalradio" noticiava que a "Euro 2004-Rádio" poderá utilizar as duas frequências da Voxx. "Se isso acontecer, reflecte a realidade do Portugal de hoje", diz Ricardo Saló que, em dias úteis, das 22h às 2h da manhã, fazia "Galinhas no horizonte", um programa com muito jazz e textos elaborados consoante o tema em foco numa das quatro horas de emissão.
Também a Luna cujo indicativo (RSV-153 de Vivaldi) foi escolhido por Jaime Fernandes, se calou à meia-noite de ontem. Guilherme Statter que desde Janeiro de 1999, a dirigia, quis estar no estúdio. Ao JN contou que a Luna nasceu por a filha Cristina gostar muito de música erudita. Também passava muito jazz e bandas sonoras. O fim soou com "Jazz a la carte", um programa de Fernando Santos.


7.3.04

Crítica I - Aspectos Técnicos na Ópera de Werther de Massenet - São Carlos 2004 - Os intérpretes 


Imagens encontradas no site: Jules Massenet, excepto a caricatura.

Werther no São Carlos
Breve análise técnica de duas récitas a 3 e 4 de Março, segundo e primeiro elencos.
27 Fevereiro ΙΙ 1 Ι 3 Ι 4 Ι 10 Março ΙΙ 20:00h
7 Março ΙΙ 16:00h

Aqui temos um detalhe de uma caricatura em que se mostra Massenet manejando como um realejo a Opera de Paris. É genial, embora algo excessiva. Massenet é realmente um compositor esteriotipado, contraditório, consegue efeitos de uma beleza etérea para logo cair na banalidade mais confrangedora do chavão e da fórmula gasta. Consegue em Werther transcender-se e criar uma obra que consegue ultrapassar as dificuldades cénicas que um romance epistolar traz, e quem leu Werther de Goethe percebe imediatamente a dificuldade da tarefa. Mas esta conversa ficará para a discussão da encenação. Passamos a discutir a interpretação em concreto.

Werther
Ópera em quatro actos de Jules Massenet
Libreto de Edouard Blau, Paul Milliet e Georges Hartmann,
Obra original: Romance Epistolar Os Sofrimentos do Jovem Werther Johann Wolfgang Goethe.

Maestro: Alain Guingal – muito tenso no dia 3 de Março (talvez por ser o segundo elenco), preocupou-se em extremo com a segurança dos cantores, dando muitas indicações para entradas e de dinâmica. Melhor no dia 4. Sempre muito exacto, entradas certas, não tirou da orquestra o melhor que esta sabe dar. As sonoridades de Massenet não se conseguiram obter de forma perfeita, a coesão da orquestra não foi a mais perfeita, não conseguiu obter dos violinos a afinação e coesão necessária nas partes mais a descoberto, mas esse problema será abordado na parte destinada à orquestra. Parece melhor na direcção e coordenação das vozes e menos fluente com a orquestra.

Encenação: Graham Vick – Altíssima qualidade. Discutível na interpretação, em meu entender mais complexa do que as críticas e os comentários deixaram supor. A encenação lida com os graves problemas psicológicos que Charlotte e Werther exibem durante a Ópera. Mas esse assunto será deixado em suspenso para a análise mais detalhada da encenação, noutro texto.

Cenografia e figurinos Timothy O’Brien – Também analisados posteriormente, mas com apreciação francamente positiva.

Desenho de luzes Robert A. Jones – Perfeito.








Intérpretes
Werther
O mais importante atributo de Krauss, com quem Sabbatini e Melani foram injustamente comparados é a inteligência. Ao contrário de muita gente que fala de Krauss fazendo deste excelente cantor um Deus, sem nunca o ter ouvido em público, eu recordo de forma muito viva Krauss em recital e em ópera. Krauss não tinha a voz potente, a voz não era de uma beleza ímpar nos médios. Alfredo Krauss era um portento de finesse, de elegância, de afinação, de colocação, capaz de cantar com pianissimi de arrepiar. E diga-se, cantar em pianíssimo nos agudos é bem mais complexo que cantar a puxar. Tinha uma voz de cabeça que nos transportava ao mundo dos sonhos. O Werther de Krauss era uma das ópera mais apropriadas a este tenor. O registo é muito desconfortável para um tenor dramático que cante de peito, a tessitura sem ir a limites do agudo, anda sempre pela zona de transição entre a voz de peito e a voz de cabeça, subindo por vezes a registos muito elevados, muitas vezes em pianíssimo. Era aqui que Krauss e a sua inteligência dominavam com uma elegância de mestre o papel que Jules Massenet criou para Ernest Van Dyck.

Giuseppe Sabbatini (dias 27 Fev; 4, 7, 10 Mar.) – A palavra certa para Sabbatini é inteligência. Sem ter a voz muito bela, isto é quase recursivo quando se fala de Sabbatini, uma vez que ele próprio assim o afirma. Imediatamente todos os textos que falam de Sabbatini, acabam sempre por dizer esta banalidade que eu próprio repito. Afinal o que é uma voz bela? Mas, e dando de barato que a voz de Sabbatini não será bela nos médios, Sabbatini compensa com capacidade representativa, e não falo apenas da sua presença como actor, falo da sua representação ao nível vocal, Sabbatini canta Werther como deve ser cantado, sem maneirismos, simples, linear, contido, mas com grande expressividade. Sabbatini consegue fazer esquecer ao espectador que é um homem grande, de certa forma com aparência e vaidade de pavão.
A sua sensibilidade e a sua inteligência mostram um Werther frágil, perturbado. Um homem obsessivo, que mesmo quando morre ainda está preocupado com a imagem que deixa em Charlotte. Sabbatini convence, não será um intérprete para 20, como lemos em alguns textos, mas num conjunto actor/cantor transcende, não me lembrei do referente Krauss quando o vi cantar e representar. Sabbatini entrou francamente frio e com a voz a falhar nos inícios das frases, algum grão (resquício de constipação?) na récita a que assisti, mas a sua progressão é extraordinária. O terceiro acto é feito com uma expressividade e um melancolia que só é ultrapassada pelo final, forma ausente mas tão presente, na alucinação que Charlotte não olha. Nem falo de emissão, colocação, afinação, descontando o início da ópera, Sabbatini mostrou ser um cantor maduro e em forma, quase irrepreensível.

Leonardo Melani (dia 1 e 3 Mar.) Ouvido a 3 de Março Um jovem cantor, frágil como Werther. Menor actor do que Sabbatini, ou menos trabalhado pelo encenador. Voz bonita. Entrou muitíssimo nervoso, o primeiro acto foi mesmo muito fraco. Semitonou, a emissão fugiu-lhe ao domínio, enfim fracote, parecia que alguns amigos que tinham assistido no dia 1 de Março, tinham razão ao dizer que teria sido um descalabro. Mas Melani encontrou-se, não mostrou potência vocal. Quem a quer em Werther? Mostrou uma voz com potencialidades, sensibilidade, boa voz de cabeça, e subtileza na interpretação. Não é um cantor feito, é um jovem com imenso futuro. Gostei, massacrar este tenor, com snobismo, com arrogância, com ignorância é maldoso e infeliz. Augusto Seabra mais uma vez comete esse pecado capital na sua “crítica” que aliás é completamente incompreensível e que nem sequer assenta no concreto acto performativo que teve lugar num dia preciso num teatro concreto.

Charlotte - Mezzo soprano

Marie Renard
Criadora do papel de Charlotte


Monica Bacelli (dias 27 Fev; 1, 4, 7, 10 Mar.) Uma cantora de crédito firmados, também. Mostrou grande segurança. Fisicamente frágil, deu-nos uma Charlotte credível. Boa dicção no francês, um mezzo soprano muito equilibrado, com uma vocalidade intensa, mas não demasiado encorpada, agudos fáceis, pareceu-me mais uma voz de soprano com grande extensão que de mezzo puro. Como actriz: óptima. Bacelli e Sabbatini formam o par ideal que hoje em dia se pode encontrar para esta ópera.

Liubov Sokolova (dia 3 Mar.) Voz de Mezzo pura a caminhar para o contralto, voz muito encorpada e escura nos graves. Chega a ser pouco maleável. Potência muito elevada. Estas características obscurecem totalmente a dicção do francês. Nos agudos mostrou naturais dificuldades: a passagem de voz nos registos foi demasiado evidente. Tem óbvias dificuldade de colocação da voz no registo mais agudo e parece sofrer para conseguir atingir as notas, tão pujante nos graves e médios como pequena nos agudos. Creio que necessita de mais trabalho neste registo. Não sei se será o papel indicado para esta jovem cantora. Mas é ainda muito jovem e tem imenso espaço de evolução. Como actriz também não foi tão convincente como Bacelli.

Albert - Barítono
Jorge Vaz de Carvalho. Muito fraco, percebe-se porque razão Charlotte não pode amar este homem, nesse aspecto a encenação é convincente, não se podia encontar outro cantor que destruísse de forma tão radical qualquer frase musical, que desafinasse tanto, que metesse notas erradas a torto e a direito nas frases. Um desastre. Não se percebe como se pode deixar passar em claro na crítica institucional, Bernardo Mariano no DN ainda aflora a medo o problema, Seabra no Público passa por cima e Jorge Calado do Expresso mete-o no saco do elenco excepcional! Por ser português existe um certo pudor em arrasar a interpretação. Infelizmente a crítica não é só elogio e as verdades têm de ser ditas. Cheguei a ter pena de Vaz de Carvalho, que já teve melhores dias, mas o público não deve ser defraudado. Cansaço? Muitas récitas seguidas? Eu ouvi Vaz de Carvalho em 3 e 4 de Março. Em 3 de Março conseguiu ser ainda mais destrutivo para as linhas de Massenet que em 4 de Março.

nota depois de récita de domingo - segundo alguns amigos que assistiram a esta récita, Jorge Vaz de Carvalho terá sido menos mau, não perfeito, mas em melhor nível que nas noites de 3 e 4 de Março. Fica aqui o registo.


Cartaz de estreia em Viena

Le Baill - Barítono

Jérôme Varnier. Excelente cantor, correcto, colocado, bom actor. Cumpriu com rigor o que se lhe pedia.

Sophie- Soprano
Hélène Le Corre – Alguém disse que Sophie é a personagem mais interessante da ópera. Isto não deixará de estar associado ao facto de jovens e airosas sopranos cantarem usualmente este papel. Hélène Le Corre cantou de forma soberba nos dois dias. Voz maleável, ágil nos agudos, parecia que os pássaros se ouviam na letras e na música que perpassou pela garganta e lábios desta excelente cantora.
Sophie sempre presente, muito mais interesseante e equilibrada que a sua irmã Charlotte, que é tão transtornada psicologicamente como Werther. E que amando Werther o faz de forma suave, sem que este repare na verdadeira jóia que Sophie encerra. Mais uma vez assim aconteceu, pelos mecanismos do teatro, Werther mata-se mais uma vez no último acto, em vez de ter o amor que merece, o de Sophie. Le Corre deu-nos precisamente essa ideia, o que signfica que foi perfeita.



Johann - Barítono
Luís Rodrigues
Cumpriu, como actor esteve bem. Como cantor regular.


Schmidt - Tenor
Carlos Guilherme
Cumpriu como actor, gritando como cantor.


Brühlmann
Ciro Telmo
Cumpriu

Käthchen
Ana Margarida Serôdio
Cumpriu

Orquestra Sinfónica Portuguesa
Desta feita foi desfeita a excelente impressão do último concerto no CCB. Podia ter sido mais coesa, ensaios em número elevado, maestro com bom currículo. O que faltou? Cansaço? Adaptção ao fosso? A orquestra foi pouco plástica, o som não foi untuoso. Para mim o que falha é o naipe que deveria ser a charneira da orquestra: os primeiros violinos, desconexos, más entradas, ritmo a falhar, e sobretudo: desafinação infernal. É mau demais para ser verdade, é recorrente, um bom concerto no CCB, duas récitas abomináveis em termos de afinação nos violinos, nas récitas no Teatro de S. Carlos. Algo tem de ser feito para corrigir esta situação de incompetência. Tenho acompanhado o trabalho noutras orquestras, o chefe de naipe tem um papel decisivo em ensaio, muitas vezes com maestros de craveira galáctica, como Boulez. Os chefes de naipe levantam-se, dão instruções, corrigem afinação, vão à estante dos colegas indicar apontamentos. O chefe de naipe é implacável com entradas menos conseguidas. Será que isso acontece na OSP? Ensaios de naipe? Som? Afinação? Pizzicato? Efeitos com arco? Não sei se se faz este trabalho, creio que não.

A orquestra, em geral, esteve regular, para o 13, 14 valores, bons violoncelos, bons contrabaixos, harpa muito bem, naipes, vistos em separado, em geral bem; o conjunto a fraquejar um pouco.
Os primeiros violinos estiveram ao nível do 7, 8 valores, descendo para 2, 3 valores nas partes mais expostas: exemplo: o inenarrável anoitecer do primeiro acto, em que ficam os primeiros violinos a desafinar, a entrar atrasados, a arrastar notas depois dos outros terem acabado as frases. Enfim, neste ponto a música deixou de se poder de ouvir, foi mesmo uma desgraça.

Coro feminino do Teatro Nacional de São Carlos
Pouco se ouve nesta ópera, o que deve ter sido óptimo.
Crianças deveriam ter sido mais ensaiadas, na récita de 3 de Março estiveram muito desastradas. Melhoraram francamente a 4 de Março.

Nova ProduçãoTeatro Nacional de São Carlos
Excelente produção, aposta completamente ganha pela direcção. Vick consegue encenação fascinante, subversiva na aparência, mas absolutamente lógica ao nível da concepção e do pensamento, o mínimo detalhe encaixa. Esta produção deveria ser vendida e mostrada nos teatros de todo o mundo. Uma produção S. Carlos 2004 ao melhor do que se faz no mundo.
A alterar: coordenação dos violinos. Encontrar um cantor mais convincente para Albert.


O Punho de Massenet escreveu o fragmento acima

H.S.

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