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29.2.04

Catherine Cessac 



Imagem recolhida do site:
Marc-Antoine Charpentier, musiciem du baroque, da responsabilidade de Catherine Cessac.

Crítica muito severa a um "escriba" do Expresso: L.M. Faria. Como é possível escrever um artigo inteiro sobre Charpentier sem citar Hugh Wiley Hitchcock e Catherine Cessac. Sem explicar o que o primeiro fez em prol de Charpentier e a imensa descoberta que Cessac tem desenvolvido em prol do melhor compositor do barroco francês. Usam-se resultados de Cessac, utilizam-se imagens recolhidas no site que é da responsabilidade da ilustre especialista em Charpentier e nem uma citação.
Esta omissão denota ou um relaxamento, desatenção e desconhecimento, o que seria lamentável, ou uma omissão propositada, o que é condenável.

o preta para o "escriba" do Expresso.

De que chapéu tira L. M. Faria o texto sobre Charpentier? Dos folhetos dos discos de William Christie? Parece ser a sua única referência.

H.S.

Ute Lemper na Gulbenkian  


Ute Lemper interessante e profissional. Cantou com elegância a obra do genial Kurt Weil.
A amplificação estragou um pouco a forma da percepção do som, mas Ute Lemper tem ritmo, tem musicalidade, tem afinação. O quarteto de cantores masculinos foi soberbo na afinação, no ritmo, e na qualidade sonora.

A abertura do Morcego foi apropriadamente muitíssimo mal tocada fazendo juz à obra e ao compositor comercial que as compôs e que nem merece nome neste blog.

Nota para as trompas. Nas variações sinfónicas sobre temas de Weber, de Hindemith, as trompas são solicitadas de forma severa. Corresponderam. Entradas certas, articulação exuberante mas apropriada, afinadas, não se ouviram as entradas esborrachadas que tinham andado a ser o apanágio deste naipe. Naipe que andava sistematicamente a estragar o conjunto da orquestra.
Dedo de Foster, o competentíssimo maestro titular da orquestra? Ou mais brio e trabalho dos músicos? Seja como for o resultado ouviu-se: muito superior ao mau serviço à música que temos tido o desprazer de ouvir. Alguns desacertos, mas a subida de qualidade sonora das trompas e do seu acerto ritmico foram evidentes. Parabéns.

H.S.

Crítica aos críticos 

Em artigo de A. M. Seabra mais uma vez se fala de Puccini da ópera, da Turandot, das conclusões de Alfano e de Berio.
No meio da tralha operática do costume, habitual em Seabra, lá vem o comentário sobre Luciano Berio, compositor nascido em 1925 e falecido o ano passado.
Quando fala de Luciano Berio cita trabalhos anteriores com material de Schubert. Esquece que Berio foi um génio orquestrador e que realizou, anteriormente uma orquestração verdadeiramente notável da sonata para clarinete e piano op. 120, número 1 em fá menor de Joahnnes Brahms. Quando Seabra pretende mostrar serviço falando de um material que "é certo" Berio utilizou anteriormente, esquece-se nesse "é certo" de outros "materias", quiçá bem mais importantes, uma sonata inteira de Brahms, uma das suas últimas obras, do mais profundo e tocante que o mestre alemão deixou.
É nestes trabalhos de Berio que se percebe toda a força do compositor italiano, musicalmente dominando toda a técnica que o precedeu e capaz de a subverter e inovar na vanguarda e no pensamento do final do século XX e iníco do XXI.
Pode-se encontrar uma gravação da EMI com Wolfgang Meyer no clarinete com a orquestra da rádio Polaca de Varsóvia e direcção de Wojciech Rajski, um disco de 1997.

H.S.

27.2.04

Hoje em Lisboa 

Hoje no Teatro Taborda um dos maiores poetas do século vinte, Edoardo Sanguineti, 19h, trabalhou com Luciano Berio, escreveu libretos de óperas para este compositor. É um génio da literatura actual, a entrada é livre (com senhas de entrada até 150 lugares) e ontem ainda havia bilhetes. É acompanhado por Stefano Scodanibio, um contrabaixista também excelente sobre fundo visual de Enrico Baj. É uma ocasião única na história cultural portuguesa poder escutar a recitação de Sanguineti em Lisboa, se tem tempo apareça no Teatro Taborda à Costa do Castelo. A ler Bernardo Mariano um não jornalista que sabe da poda!

Estreia hoje o Werther de Massenet no S. Carlos, 20h, encenação e trabalho prometem qualidade. Cantores parecem a postos e bons, como sempre prometem-se críticas, dissertações, análises. Enquanto não sobe o pano podemos ler algo no Público: Um tenor que parece inteligente e sincero!!!.

O recital de Rudy na Gulbenkian, na Terça-feira de Carnaval, foi extraordinário, o seu nível foi tão elevado que temos resistido, e hesitado, em colocar aqui um texto sobre o seu concerto que atingiu níveis quase intangíveis de qualidade e de poder mágico. Este efeito obteve-se sem Rudy ter sido irrepreensível em todos os aspectos o que ainda é mais surpreendente. Tentando amadurecer o nosso pensamento sobre este concerto ainda não escrevemos sobre o assunto, ou se escreve sobre o efeito do arrebatamento do instante, ou reflectimos maduramente, mas está prometido um texto sobre este concerto incrível.

Ute Lemper na Gulbenkian ontem e hoje (hoje às 19h, para variar). Um concerto muito interessante, pena a amplificação sonora.

25.2.04

Casa da música - uma visão diferente 

Concordo com HS quando fala dos exorbitantes custos da Casa da Música, dos atrasos sucessivos e intermináveis nas obras e da tontice (tipicamente lusitana) de construir um edifício deste tipo sem fosso nem teia, ainda por cima quando se sabia desde o início que uma das pricipais estruturas residentes iria ser um Estúdio de Ópera! Mas este é apenas um dos lados da questão. Ainda que muito exista para questionar neste conturbado processo, é injusto e parcial passar por cima dos aspectos positivos do trabalho de Burmester e da sua equipa. A Casa da Música não é apenas um edifício, mas um projecto artístico e cultural, cujas linhas (concorde-se ou não com elas) começaram a ser pensadas e postas em prática bem antes de 2001, ao contrário do que habitualmente acontece em Portugal, onde tantas vezes se constroem novas estruturas e equipamentos sem a mínima ideia concreta do que depois se irá fazer com eles.
O Estúdio de Ópera, o Remix Ensemble e o Serviço Educativo começaram a funcionar e a cimentar alicerces sensivelmente um ano antes da Capital da Cultura, mostrando trabalho muito válido. Houve a preocupação de criar estruturas para o futuro em detrimento de uma programação de fachada com nomes mediáticos, que provavelmente iria agradar a um público mais numeroso, mas que se esgotaria nisso mesmo. Apesar de alguns espectáculos de assinalável qualidade (por exemplo The Turn of the Screw, de Britten; O Amor Industrioso, de Sousa Carvalho; Três Extravagâncias ou a acção sacra Joaz, de Benedetto Marcello, etc.), o funcionamento do Estúdio de Ópera tem suscitado várias reservas — na selecção dos cantores; na direcção, formação e orientação artística; na escassez de produções de ópera propriamente ditas, colmatadas por recitais mensais de nível irregular, por vezes não muito longe do perfil das audições escolares —, mas também tem servido de banco de ensaio e trampolim para alguns cantores jovens talentosos : Sara Braga Simões, Alexandra Moura, Magna Ferreira, Rui Baeta e alguns outros. Além disso a escolha de títulos é interessante e imaginativa, apostando em obras raramente interpretadas entre nós.
Quanto ao Remix Ensemble atingiu uma qualidade internacional inédita em Portugal no âmbito da música contemporânea, ou mesmo de qualquer outra área musical. Algo só possível graças à regularidade e às condições do trabalho, a uma criteriosa selecção de instrumentistas e a um maestro titular notável: Stefan Asbury. É certo que o Remix absorve rios de dinheiro, mas neste caso os meios justificam os fins.
O Serviço Educativo tem realizado também um acção importante com crianças e jovens e com populações de bairros desfavorecidos como Aldoar, surpreendente no caso da colaboração com a Ópera de Birmingham na produção do Wozzeck, de Berg, em 2001. Há ainda a acrescentar a encomenda de novas obras e a preocupação de inserir a Casa da Música nos grandes circuitos internacionais, que se traduz por exemplo na sua aceitação como membro pelo Réseau Varése. Tudo isto, e não só, se deve a Pedro Burmester e à sua equipa. A sua acção está longe de ser perfeita, pode ser questionável em muitos pontos, mas não se pode ignorar. Cada uma das estruturas citadas terá mais ou menos aspectos a corrigir e a rentabilizar e seria desejável criar outras, por exemplo uma orquestra barroca ou um quarteto de cordas residente. Por outro lado, a programação tem tido até aqui uma orientação talvez demasiado voltada para o século XX e nem sempre com os critérios de qualidade mais elevados. A aposta na contemporaneidade não é um defeito mas é insuficiente e comporta um grave risco na captação de públicos. Para além de dar apoio à música e aos músicos portugueses será necessário que no futuro a Casa da Música albergue também uma temporada diversificada de qualidade com grandes intérpretes internacionais, uma grave lacuna na programação cultural do Porto, uma cidade que no princípio do século XX recebia as maiores personalidade musicais da cena europeia. Mas para isso é preciso dinheiro, vontade política e uma gestão administrativa e artística eficaz.
O modelo de inserção da Orquestra Nacional do Porto na Casa da Música continua também inexplicavelmente por resolver. Mais uma vez os jogos de poder parecem estar a atrapalhar as questões práticas e os interesses dos instrumentistas e do público.
Muitas personalidades do meio musical portuense, e não só, nunca perdoaram a Burmester o facto de ter concebido o projecto da Casa da Música de costas voltadas para elas, e isso tem-lhe trazido vários dissabores. Diga-se de passagem que nalguns casos o pianista fez muito bem, noutros talvez nem tanto. Convidar para director artístico alguém exterior ao mesquinho meio musical português, poderá até ser uma boa estratégia (o futuro o dirá), mas colocar totalmente de lado o mentor do projecto (ainda por cima quando se desconfia que as razões políticas se sobrepõem às artísticas) e ignorar a experiência e o caminho percorrido até aqui não será certamente o mais sensato nem o mais prudente.
V.G.


Imagem da Semana por Rodrigues 


Serpa

Foto de Rodrigues
(Clique para obter imagem de melhor qualidade)

Afastamento de Burmester da Casa da Música 

Que finalmente se diga tudo sobre o assunto. A Casa da Música é um exemplo do mal fazer, da incapacidade portuguesa de prever, de organizar, boas intenções más concretizações.

Nem falo do escândalo de ter custado mais de cinco vezes o custo previsto inicialmente, 100 milhões de Euros. Nem falo dos atrasos incríveis nos prazos de entrega da obra.

Falo do "esquecimento" de um fosso de orquestra e de uma teia para a encenação de teatro, bailado e ópera.
É uma anedota tão esclarecedora dos voluntarismos lusitanos sem substância na capacidade de execução e de previsão pensada e planificada que chega a ser trágica.

Quem é o primeiro responsável de tal anomalia que transforma a Casa da Música numa espécie de mono caríssimo de 100 milhões de euros? A casa onde deve permanecer um estúdio de ópera! O responsável tem nome, esteve na Administração, foi o idealizador do projecto, chama-se Pedro Burmester. Em vez de ter vergonha dos erros que cometeu, e que custaram aos contribuintes portugueses 100 milhões de euros, provavelmente o custo final ainda será maior, em vez de se ter afastado para aquilo que supostamente sabe, tocar música, e que tem feito tão mal ultimamente, continua agarrado a um poder que não merece e que já nem sequer tem.

Pinte a cara de preto e volte a estudar piano. É a tocar piano que pode contribuir a sério para a o enriquecimento de todos nós, como administrador de uma sala de concertos já provou que é completamente incapaz. Este comentário nada tem de político, é apenas uma constatação de facto, apesar de Jorge Sampaio e dos amigos, a incompetência deve ser punida.

H.S.


A única imagem 

Um dos maiores compositores de todos os tempos, viveu no século XVII tendo atravessado 1700 para vir a falecer em 24 de Fevereiro de 1704. Sim, é verdade, Marc Antoine Chapentier deixou-nos fez ontem 300 anos, curiosamente ainda hoje estou de luto pela perda tão prematura, tinha pouco mais de sessenta anos, deste ilustre músico.

Aluno de Carissimi em Roma, torna-se conhecido em França depois do seu regresso de Itália. Sofreu com o domínio que Lully exerceu sobre a música francesa ostracizando compositores com traços italianizantes.
Algumas das suas obras fundamentais são:

1670: Andromède, música de cena.
1670: A negação de São Pedro (Le Reniement de Saint Pierre), história sacra.
1673: O doente imaginário (Le Malade imaginaire), prólogo e três entreactos para a comédia de Molière.
1680: Lições das trevas, lamentações do profeta Jeremias (Leçons de ténèbres) H. 96 à 110.
1683: O massacre dos inocentes, história sacra.
1688: David et Jonathas, ópera bíblica. (Obra única de um género único: Ópera Jesuíta!)
1692: Te Deum H. 146.



1693: Médée, tragédia em música.
Em 1698 torna-se mestre de capela da Sainte-Chapelle.
1702: O julgamento de Salomão.

Os seus motetes, cantatas francesas (com origem na cantata italiana), hinos e missas fazem de Charpentier um dos maiores compositores de música sacra de todos os tempos.
É importante também o seu tratado de composição, que nos informa de forma preciosa das regras que um compositor do seu tempo usava para escrever música.

Ao fim de trezentos anos Chapentier começa finalmente a ver reconhecido o seu génio, lutou durante a sua vida contra os dissabores que o destino de ser universal lhe trouxeram: para Charpentier não interessava se o modelo era francês ou italiano, desde que fosse bom, isso trouxe-lhe a aversão dos defensores do estilo francês puro e duro como Lully, por sinal italiano de nascimento.
A escola italina com a sua inovação, cor e fogo virtuoso combinam-se com a finesse francesa em Chapentier. Esta fusão vem a fazer deste compositor um inovador na harmonia, no uso da dissonância, no dramatismo em música religiosa. Charpentier é contido sem perder expressividade, Charpentier é um mestre da emoção em música religiosa e de sentido dramático na música profana. Manter Charpentier vivo é antes de mais nada estudá-lo, escutá-lo e tocá-lo.
Assim em homenagem ao compositor francês, vou ouvir hoje a sua obra prima intemporal: Leçons de Ténèbres por Gerard Lesne, uma das supremas interpretações de Charpentier.
Neste ano de 2004 continuarei com referências a Marc Antoine Charpentier.

Ver o site: Musings on Marc-Antoine Charpentier and the Guises.
Uma discografia reduzida.
A discografia, de Cessac.
Uma conferência que terá lugar em Abril: Conferência sobre Charpentier.
Sociedade Charpentier.
Charpentier um músico do barroco é um excelente site . Da responsabilidade da grande especialista em Charpentier, Cathérine Cessac, imprescindível.
"Bom Entre Os Bons e Ignaro Entre Os Ignaros!".

Ver de Cathérine Cessac, Marc-Antoine Charpentier (Paris: Fayard, 1988).


H.S.

P.S. Agradeço a V.G. a lembrança da data da morte de M.A.C.

24.2.04

MIKHAIL RUDY 

Ele já tocou todos os concertos de Rachmaninoff em duas noites seguidas, ele apresenta um programa completamente devastador, com Prelúdio e Três peças de Romeu e Julieta de Prokofiev (no programa da Gulbenkian em minúsculas o que revela um cuidado de revisão minúsculo); Stravinsky: Petrushka (arranjo para piano solo do próprio Rudy) e uma segunda parte inacreditável com Richard Wagner: Sonata e Lá bemol Maior e, para terminar de forma colossal, de Franz Liszt a diabólica Sonata em Si menor. Um concerto sem hora marcada para acabar.
Se o concerto correr bem e como se espera, será memorável. Uma terça feira de carnaval para recordar. O que se espera de um concerto com um intérprete destes, com um programa destes num dia de Carnaval? Espero que não esteja às moscas.

Se não tem bilhete ainda e quiser ter um fim de tarde para não esquecer corra para a Av. de Berna, há de certeza bilhetes à venda, 19h na Gukbenkian.

23.2.04

MARIA HELENA DE FREITAS (1913-2004) 

Soube por este artigo no Blogue Portugal dos Pequeninos que Maria Helena de Freitas faleceu.

Com Maria Helena de Freitas e o seu "Canto e os seus Intérpretes" aprendi muito, quer sobre o canto e os seus intérpretes, quer sobre humanidade e paixão pela vida. Maria Helena de Freitas comunicava com toda a sua alma um amor pela música que deixou frutos, muitos, como eu, escutaram e aprenderam com esta grande senhora. Poderia parecer uma mera banalidade que se diz quando morre alguém conhecido, mas não é certamente neste caso, com a morte de Maria Helena de Freitas o mundo está mais pobre hoje. Espero que agora possa escutar de novo os grandes cantores do seu tempo, vejo-a escutando Gigli, Beniamino Gigli e não sei porque razão inconsciente associo a imagem deste tenor simples e humano à imagem de Maria Helena de Freitas. Talvez por Maria Helena ter privado de perto com este homem tão rodeado de gente e tão solitário ao mesmo tempo. Por ter falado de forma tão sentida do grande cantor nos seus programas de rádio. Por esse motivo, e na falta de uma imagem de Maria Helena de Freitas, aqui deixo uma fotografia de Beniamino rodeado por raparigas do coro da ópera de Amsterdão em 1955.


H.S.

P.S. Para mais informações sobre Maria Helena de Freitas ler artigo.

22.2.04

Chiara Banchini, a ler no Público de hoje.

Artigo de Cristina Fernandes.
Como o jornal costuma retirar os artigos online ao fim de algum tempo, aqui fica para memória futura.


Os Caminhos do Violino Barroco
Por CRISTINA FERNANDES
Domingo, 22 de Fevereiro de 2004

Directora musical do Ensemble 415 e uma das mais importantes violinistas barrocas actuais, Chiara Banchini tem visitado Portugal diversas vezes como intérprete, por exemplo por ocasião da Festa da Música, do Festival dos Capuchos ou das extintas Jornadas Gulbenkian de Música Antiga.

No final desta semana (entre os dias 19 e 21), esteve mais uma vez em Lisboa para leccionar uma "master class", no Conservatório Nacional, em torno de dois temas centrais do repertório violinístico dos séculos XVII e XVIII: "Da Diminuição à Ornamentação" e "A ornamentação na música de Corelli, Geminiani e Tartini". A iniciativa partiu da Associação de Amigos do Conservatório e do Ensemble Divino Suspiro e teve entre os participantes violinistas de vários níveis, desde alunos da instituição a músicos profissionais.

Com a excepção de cursos esporádicos (por exemplo os da Academia de Música Antiga de Lisboa ou os da Casa de Mateus), não existe em Portugal formação especializada no violino barroco. Assim, enquanto por toda a Europa proliferam agrupamentos com instrumentos da época de qualidade elevadíssima, a situação em Portugal é ainda muito incipiente. O projecto de convidar intérpretes internacionais para vir dar formação aos músicos portugueses irá prosseguir já no próximo mês de Julho, com uma "master class" de cravo e baixo contínuo por Rinaldo Alessandrini.

Chiara Banchini lecciona na Schola Cantorum de Basileia, a mais antiga e prestigiada escola no âmbito das práticas de interpretação históricas. Mas mesmo num centro com tanta tradição continua a existir uma divisão clara entre a especialização em música antiga e o ensino mais tradicional. "O conservatório está ao lado da Schola Cantorum, basta atravessar um pátio para escutar o nosso trabalho, mas os seus alunos não o fazem", contou Chiara Banchini ao PÚBLICO. "Claro que há uma certa consciência, mas o resultado foi que no conservatório quase se deixou de fazer música barroca! Creio que a união destes dois mundos só se fará na próxima geração. Quando os jovens que hoje beneficiam dos dois tipos de prática e se tornarem professores. É possível fazer uma interpretação historicamente informada num violino moderno." Mais importante que o instrumento é o arco: "Não se pode fazer música do século XVII com um arco do século XIX e vice-versa. À medida que avançamos no tempo os arcos começam a alongar-se e o som muda muito."

Em 1981, quando fundou o Ensemble 415, Banchini tinha como colegas violinistas tão ilustres como Fabio Biondi, Enrico Gatti, François Fernandez e Emilio Moreno. Depois cada um deles seguiu o seu caminho. Nos últimos anos os elementos do Ensemble 415 são quase todos alunos da violinista.

No que diz respeito à abordagem interpretativa, Banchini é tem algumas reticências quanto à extravagância teatral dos seus colegas italianos: "Creio que alguns exageram. A linha italiana não é totalmente extravagante. Os italianos têm também um lado mais sereno e conservador... Depois, o italiano é uma língua doce." Dos grandes violinistas actuais o que mais admira é Giuliano Carmignola, "um violinista genial que nem sequer é especialista no barroco, mas que se adaptou a este repertório magistralmente". Banchini foi aluna do principal pioneiro do violino barroco, Sigiswald Kuijken, e permanece fiel aos seus ensinamentos: "Ainda na semana passada deu um curso em Basileia onde falou da seriedade do trabalho interpretativo. Estamos ao serviço da música e dos compositores, não da vaidade do intérprete. Os irmãos Kuijken estão a ficar fora de moda porque são discretos, não fazem 'cenas'."

Antes de se dedicar à música barroca, Banchini chegou a ser membro da Orquestra Gulbenkian, em 1974. "Toquei muita música contemporânea nessa altura, com orquestra e grupos de câmara, e participei em várias estreias mundiais." Na sequência desta experiência, Banchini foi para a Holanda para se especializar no século XX, mas depois de assistir a um seminário de Harnouncourt sobre as cantatas de Bach apaixonou-se pelo violino barroco e nunca mais o largou.

Com uma ampla discografia na Harmonia Mundi (onde se destacam o "Stabat Mater", de Vivaldi, com Andreas Scholl ou os Concertos de Corelli), Banchini e o Ensemble 415 passaram a gravar recentemente para a Zig-Zag Territoires: "Discos como os dedicados a Bononcini ou Valentini não seriam possíveis na Harmonia Mundi, que apenas quer gravar nomes conhecidos. Com a A Zig-Zag tenho uma relação mais pessoal, há mais diálogo e tempo para as gravações. Se os últimos discos são mais belos não é porque nos tornámos melhores mas porque as condições de trabalho são mais favoráveis."

O próximo CD, que sairá em Março, é dedicado aos Concertos de Geminiani.


Um novo blogue 

É sabida a nossa aversão a dissertar sobre o interior da blogosfera, para nós um blogue começou por ser um meio divertido e descontraído de dizermos o que sentíamos. Descobrimos, com muita surpresa nossa, que o que escrevíamos era lido e tinha impacto nas pessoas. Já há muito passámos a barreira das cinquenta mil visitas, estamos a caminho das cem mil o que nos parecia francamente impossível quando isto começou. Hoje em dia já não é apenas um diário, é um meio de comunicação. Mantemos correspondência com críticos, recebemos textos, até tivemos polémica interna, por exemplo sobre o Concerto Soave. Não nos virarmos para a blogosfera tem vantagens claras, estamos abertos para o mundo e não somos lidos apenas pelos próprios blogueiros. Mas abrimos excepções, quando descobrimos algo francamente importante na blogosfera, não nos escusamos de o anunciar, quando algo nos parece francamente disparatado não resistimos à tentação de criticar. Assim hoje destacamos um blogue novo, o Blogue sobre Guilhermina Suggia, a ler, a rever, com todo o interesse que nos merece esta extraordinária figura da nossa música e cultura:

Suggia.

Ainda faltam as imagens e sons, nós estamos dispostos a ajudar se necessário nesse capítulo. Votos de continuação do bom trabalho.


21.2.04

O privilégio da asneira 

É dado a todos, mas Teresa Castanheira no Expresso de hoje consegue um pleno ao "criticar" a nona sinfonia de Beethoven na Fundação Gulbenkian na passada semana. Dizer que o coro cantou bem, quando berrou que se fartou, anunciar que os solistas cantaram no limite, sem reparar em problemas de articulação, omissão de notas, desafinação, frases incompletas, falta de ritmo, desacerto total do conjunto, incapacidade de meter as notas no compasso, entradas erradas, vozes feias, tudo horrendo. Sobre o maestro ainda acertou qualquer coisita ao dizer que foi apagado, mas o escândalo acontece quando o naipe de trompas foi elogiado como um dos melhores aspectos do concerto. Darem notas erradas, manterem uma desafinação constante e denodada, esborracharem praticamente todas as entradas a descoberto, manifestarem problemas nas entradas em conjunto, foram estes o critérios para a escolha de Castanheira? Foram de longe o pior naipe da orquestra. Nem sequer é questão de gosto, é objectiva e básica técnica. O que será que aconteceu a Teresa Castanheira? Será que assistiu ao mesmo concerto?

Por este motivos e outros deve o António Vitorino de Almeida ter respondido quando lhe perguntei o que pensava sobre a crítica musical em Portugal: "Qual crítica? Não conheço qualquer crítica musical em Portugal..."
H. Silveira


Tudo aponta para um exelente Werther 

Não esquecer, S. Carlos, estreia 27 de Fevereiro, Werther de Massenet sobre obra homónima de Goethe. Elenco de alta qualidade, trabalho intenso.
Espera-se brio de quem se imagina.

Foi-nos enviado um simpático email de Bernardo Mariano, o crítico do DN, sobre um texto nosso em que se criticava a sua nota sobre Brendel. Nesta nota dizia-se que Brendel era do Norte da Morávia, sendo austríaco. Nós esclareciamos que o Norte da Morávia era a algumas centenas de quilómetros da fronteira austríaca, e que esse aparente paradoxo era devido à alteração de fronteiras que se deu depois de 1918, agravadas pelos efeitos do final da 2ª guerra mundial o que não era explicado no texto de Mariano. Percebemos agora que o erudito crítico do DN, geralmente com bom ouvido e sentido crítico, mas muito suave nas suas apreciações, o que até não será um defeito, sabe realmente "da poda". É uma verdadeira enciclopédia em ilhas germânicas encravadas a leste!
Porque motivo não resumiu o que sabe no texto do DN? O que se imagina é que o jornal não deve dar muitos caracteres para a escrita sobre música. Vê-se como a música é tratada pelos ditos "jornais de referência", abaixo de cão, mas isso é uma história completamente diferente. Passamos a reproduzir a lição que vem no email de Bernardo Mariano (que nos chegou cheio de caracteres estranhíssimos e que tiveram de ser interpretados pelos serviços criptográficos deste blogue!)

Antes de mais, parabéns pelo vosso «site», onde abundam textos (e imagens) muito interessantes. Leitor ocasional, mas atento, reparei numa correcção a um meu artigo relativo a um prémio atribuído ao pianista Alfred Brendel. É a esse respeito que inauguro a minha «comunicação» convosco.
Apesar de nascido no norte da Morávia, Brendel e a sua família são etnica e culturalmente austríacos. E, como muitas famílias austríacas (resultado da convivência secular com outras raças no seio do Império Austríaco), apresentam um cruzamento de raças diversas, no seu caso, austríaca/alemã, italiana e eslava. Quando ele tinha seis anos, toda a família se mudou para Zagreb, após o que se radicaram em Graz, na Áustria. Aí completou os seus estudos e aí iniciou a sua carreira. É do meu perfeito conhecimento a profusa existência, até 1945, de ilhas linguísticas alemãs por toda a Europa de Leste (Boémia, Morávia, Eslováquia, Polónia, Galécia, Hungria, Transilvânia, Banato, etc.), sendo que no território da actual Rep. Checa, havia até 1945 uma minoria de cerca de 3,5 milhões de alemães/germanófonos expulsos pela investida russa e pelos chamadoas «decretos Benés» do imediato pós-guerra. Geograficamente, ocupavam toda a zona de fronteira com a Áustria e a Alemanha (fronteiras de 1937) -- os chamados «Sudetendeutsche» --, a que se somavam ilhotas linguísticas, mais numerosas no território moravo. Hoje ainda lá existem alguns, poucos, descendentes de alemães.
Um reparo: o «jornalista» não é jornalista, mas «percebe da poda». Se ficou a ideia contrária, aqui ficam estas linhas para a «redireccionar». Até mais e continuem o bom trabalho!


Curiosamente é no centro da Morávia que se situa uma cidade interessantíssima Olmütz (Olomouc em checo) do antigo império Austro Húngaro, sede de bispado e cidade de língua alemã (mais de dois terços da cidade seriam alemães em 1918) e onde ainda se fala alemão como segunda língua. É notável a sua coluna da Trindade e um relógio muito semelhante ao de Praga, mas mais complicado. Uma cidade barroca que tenta hoje recuperar o seu antigo esplendor.

Mais para ler deste crítico do Diário de Notícias:
Crítica a Concerto Soave.


Salão Nobre do Conservatório Nacional de Lisboa 

Quarta feira, dia 25 de Fevereiro, no Salão Nobre do Conservatório Nacional de Lisboa, António Rosado, 21h, para tentar salvar esta sala deslumbrante do nosso património.
Não falte e contribua com algum dinheiro no intervalo. Pinturas de Malhoa a destruirem-se com infiltrações, bancadas em risco iminene de derrocada. O ministério da educação? É como se não existisse.

Cage 

Erro de programa em Cage! O programa está mesmo errado, somando os tempos parciais dos andamentos temos os 4'33''. É um facto histórico, houve confusão na tipografia que realizou o programa. A peça estrutura-se em três andamentos. A partitura original tinha compassos com pausas e o pianista usava um cronómetro. A partitura autógrafa perdeu-se.

19.2.04

Encontrado hoje no espólio de Leite Faria 


Repare-se no erro do programa, 4'33'' vem indicado como quatro peças.
De facto o tempo de cada andamento, três no total, vem indicado, o que é uma indicação preciosa de interpretação. Clique na imagem para melhor visibilidade.




Antes tinha sido escrita uma peça de Allais, mas era humorística: Marcha fúnebre para um homem surdo.
A peça de Cage é extremamente séria e profunda.




18.2.04

Concerto Soave IV 

Uma interessantíssima discussão nasce do Concerto Soave, e da sua actuação dia 16 de Fevereiro na Fundação Gulbenkian. Para mim, simplesmente um dos mais fascinantes concertos dos últimos anos em Lisboa, não falo por Maria Cristina Kiehr, falo pelo conjunto e pela inteligência e qualidade musical do seu director: Jean Marc Aymes.
O concerto de dia 16 de Fevereiro teve um ensemble com teorba, dois violinos, duas violas da Gamba, harpa doppia e orgão positivo e cravo, contou com Maria Cristina Kiehr no canto. O concerto organizou-se em torno da monodia de Sigismondo D'India, árias, lamentos, canzonetas e madrigais.
Já falarei de Maria Cristina Kiehr, mas mais importante que qualquer intérprete, mesmo que superlativa, e infelizmente as conversas tendem a cristalizar-se em torno dos cantores, é discutir o universo por detrás de qualquer concerto público. O Universo e o Tempo. O problema de todos os que amam a arte e o belo, o universo da música, da recriação da obra, o universo do texto, a preparação, a leitura dos manuscritos e a edição do texto para o concerto. Neste caso Jean-Marc Aymes adopta uma posição extremanente doce, apropriada aos instrumentos e à voz de que dispõe. Provavelmente no La Fenice, com Jean Tubéry, a ideia musical era mais dura, mais apropriada ao ensemble de cornetos, trompetes barrocos e renascentistas, sacabuxas, curtais e serpentão! Aqui Jean Marc Aymes escreve as linhas superiores, completando o baixo contínuo escrito, que coloca nos instrumentos melódicos, os dois violinos e, eventualmente, uma das violas, que pode ser tenor, de braço ou baixo, segundo uma prática interpretativa própria da época de Sigismondo d'India, o maneirismo. A forma como Jean Marc Aymes o faz é absolutamente notável, ninguém diria que estas linhas não foram escritas por Sigismondo D'India (ouvir a propósito uma entrevista que Jean Marc e Maria Cristina concederam à Luna, Lisboa apenas, a sair na quinta feira depois das 21h10m com repetição no sábado às 13h). A subtileza posta na recriação da obra é acompanhada por uma interpretação absolutamente perfeita neste capítulo, os instrumentos fundem-se de forma notável, Jean Marc escolhe instrumentações apropriadas a cada obra: quando o canto é mais ornamentado contrabalança com os violinos, quando mais lamentoso usa as gambas. Quando mais intimista recorre apenas ao alaúde ou/e à harpa.
As durezzas, ou dissonâncias são realçadas pelo corpo instrumental de forma insuperável, sem acentuações desnecessárias, bastando-se por si próprias.
Outro aspecto importante é a afinação não temperada por igual, v.g. glissandos da nota para o seu sustenido, subtis, leves, surpreendentes em virtude de este intervalo ("meio-tom") ser muito mais curto na afinação mezotónica usada (ouvir entrevista), aspecto nem sequer citado nas críticas aparecidas em jornais.

Sobre a estética sonora um comentário: creio que o ideal de belo do maneirismo, final do renascimento, apontava para um sublinhado total do texto, poetas sublimes são usados pelos compositores (e cantores como o próprio Sigismondo d'India) essa preocupação com o texto encontra-se em Florença, em Veneza e em Roma, Schütz (outro génio absoluto) é notável neste capítulo, pela sua inteligência e cultura e, não esquecer, pela sua escola italiana. Não creio que esse ideal de beleza, de sentimento, seja incompatível com a forma perfeita e suave como Maria Kiehr e seus pares lêem a música. Antes pelo contrário, creio que o ideal renascentista procura um equilíbrio, conseguido de forma deslumbrante no concerto, entre o texto de qualidade literária elevada e a música. Vejo a entrada da dissonância mais como forma de comoção, de sentimento, de afetto, que reforça a beleza sonora e o instante dramático. O pré-barroco de Monteverdi, cerca de 1610, é diferente deste maneirismo claríssimo de Sigismondo d'India, Monteverdi é um inovador pela forma, é um moderno, é sem dúvida um revolucionário e um génio em todos os campos musicais, e é por este motivo que seus seguidores começam a desequilibrar o prato da balança para o lado da música em detrimento do texto, Monteverdi é um ponto de não retorno para um barroco puro e duro que chega a ser deplorável em termos de escolhas literárias. Já d'India explora os caminhos da comoção e dos sentimentos, usa caminhos já percorridos por outros, Caccini por exemplo, não esquece sequer Gesulado (que no meu entender é um falso revolucionário), mas de uma forma deslumbrante e contida, “soave” porque não dizê-lo, e que acaba por ser também revolucionária pelo uso do belo em equilíbrio extraordinário entre música e palavra.
A melodia que não fecha, as comoções, os poetas, Petrarca não será o menor, tudo aponta para equilíbrio total entre vários ideais de belo. Maneirismo na sua final expressão renascentista. Creio ser assim plenamente justificada a forma como a afinadíssima, e vocalmente bela, Maria Cristina Kiehr interpreta a obra de Sigismondo d'India. Com respeito à falta de variabilidade tímbrica devo dizer que concordo com M.P., creio que Maria Cristina Kiehr descobriu uma fómula perfeita para a sua voz e que não explora variações tímbricas, pelo menos neste reportório, a sua emissão é muito suave, a sua potência não é enorme, mas a sua interpretação do texto é muito inteligente na acentuação, no lamento, na ornamentação elegante e sem excesso. A sala do grande auditório da Gulbenkian é grande demais para um concerto que se queria intimista, estas obras eram apresentadas em pequenas câmaras, a sala da Academia das Ciências seria perfeita, como a própria Maria Cristina Kiehr comentou.
Entretanto o público acorreu em pequeno número e não encheu a sala, o que se compararmos com o inacreditável concerto de Vengerov atesta bem do mau gosto e da incapacidade cultural do público português.
Não posso estar em mais desacordo com o comentário sobre o lamento de Didone e a sua comparação com uma conversa de tia lamentosa, penso que o dramatismo e a expressividade se atingiram de forma subtil e sublime, precisamente neste ponto.
Também no tempo do renascimento havia cantores com mau gosto, e os compositores sofriam com isso, daí o colocarem nos seus textos indicações (ouvir a tal entrevista) para que os intérpretes não se excedessem na invenção de efeitos disparatados. Se por um lado temos a ideia de que os homens do final do renascimento eram seres incompreensíveis com formas de pensar difíceis de aceder pelos nossos cérebros, com costumes estranhos, por outro lado temos de lembrar que eram seres humanos sensíveis, inteligentes, cultos, e que nos maravilham com obras como as de Dante (este mais antigo), Shakespeare, Cervantes, Monteverdi, Schütz ou Sigismondo d'India. O belo é eterno, Maria Cristina Kiehr e Jean Marc Aymes deram-nos um pedaço desse eterno no dia 16 de Fevereiro. O prazer de ouvir música foi projectado até ao infinito, até ao divino.
H. Silveira


P.S. Desta vez eu nem sequer queria escrever sobre o assunto, o prazer de ouvir superou qualquer crítica possível que se possa fazer, mas fui obrigado pela “polémica” que o meu amigo M.P. suscitou pelo seu texto.


O feio é belo? Estética sonora (Concerto Soave III) 

Claudio Monteverdi esclarece em parte a ideia acerca da concepção do Som Vocal e instrumental.
De facto, hoje temos a convicção, francamente pouco fundamentada, de que o som deveria ser belo, sem defeitos e sem ruídos secundários.
Estou convencido em virtude dos documentos da época que, sobretudo, nos Sec. XVI e XVII o "Acento" se baseava essencialmente na "Verdade Musical" e numa interpretação optimal do Texto, da palavra e não na simples beleza sonora.
Para traduzir em música a "Verdade Musical" não havia limites estéticos. Temos informações acerca do tratamento da voz naquela época e por isso não é possível supor que um som bonito, imaculado, perfeito fosse o ideal. Acontece muitas vezes que para atingir a Verdade dramática devemos utilizar elementos menos belos.
Isto hoje acontece com a música contemporânea e é por isso que não raramente são possíveis as analogias entre este dois géneros musicais, antigo e contemporâneo. No meio estamos nós, sobreviventes de uma época, quase todo o sec, XX, completamente anacrónico e limitado.
Infelizmente os testemunhos são poucos, entre outros algumas cartas do mesmo Monteverdi, acerca da maneira de utilizar o "instrumentario" duma vez. No entanto as poucas fontes são suficientes para afirmar que a beleza do som era, em qualquer ocasião, submetida à verdade musical e dramática.
De outra maneira posso afirmar que, mesmo do ponto de vista estético, a beleza tem um efeito muito mais forte quando gerada pelo seu contrário. Isto foi um processo estético tão assumido e poderoso que mesmo a escrita harmónica e musical tiveram que subjugar-se a esta lei. Assim sendo, podemos reparar que Monteverdi no ponto final do processo que começou com a "Camerata-Bardi ou Fiorentina" passou a utilizar a dissonância de maneira cada vez mais ousada. A resolução duma dissonância numa consonância tinha que dar ao ouvinte a sensação de alívio após uma sensação de tensão ou de opressão. Até foi introduzida a prática de utilizar uma dissonância para começar uma peça, esta sim uma prática totalmente desconhecida na época.
Todos estes elementos, e mais outros, foram utilizados também no âmbito puramente sonoro. Encontramos assim alguns efeitos sonoros que jamais foram utilizados até ao Sec. XX, por exemplo tocar com o arco atrás do cavalete onde é claro que o som produzido é, mais ou menos, comparável a um desagradável zumbido.
As afirmaçoes de Monteverdi que repito: é num certo sentido o resumo do processo que tinha começado com a Camerata Fiorentina, nos permitem concluir, creio, que para eles a interpretação do texto viesse antes de qualquer outra coisa e mesmo antes da beleza da voz.
A invenção do "Bel-canto" no final da vida de Monteverdi, como reacção contra o chamado "parlato-cantato" dramático parece confirmar esta hipótese quase a devolver ao verdadeiro canto melódico o lugar que lhe pertencia. Mas isso aconteceu no final da vida de Monteverdi enquanto ontem assistimos a um concerto à volta de Sigismondo d'India cuja música que me parece mais próxima das consideraçoes mais acima. Maria Cristina Kiehr é uma voz, uma cantora e uma mulher espantosa mas Sigismondo e Monteverdi provavelmente não teriam gostado da sua forma de cantar.
Contudo posso tomar como hipótese que, a um certo ponto, a preocupação de mostrar a verdade pura chegou a ser exagerada a tal ponto que os cantores (na época) acabavam mesmo por cantar desafinado e, provavelmente por reacçao a esta situação, começou-se um caminho de redenção.
M.P.



17.2.04

Imagem da semana 


Monsaraz

Foto de Rodrigues

Concerto Soave II 

Não concordo com M.P. que neste blogue escreve sobre o Concerto Soave, achei a prestação de Maria Kiehr soberba do ponto de vista interpretativo e da inteligência dos textos, aliás excelentes, utilizados por Sigismondo d'India, em que se destaca Petrarca.
Farei mais comentários numa ocasião mais oportuna.
Acho saudável a divergência de opiniões, mesmo neste blogue. A polémica será sempre bem vinda.

H.S.

Concerto Soave 

A noite passada houve um concerto extraordinário no grande auditório da Fundação Gulbenkian; Concerto Soave tocando música de Sigismondo d'India. Houve coisas muito positivas como a insuperável coesão deste agrupamento e tivemos a ocasião de ouvir música de um compositor absolutamente "maestoso", quase "sideral" tanto é pura a música deste fenómeno.

Única pequena desilusão ; Maria Cristina Kiehr uma voz fabulosa! Uma capacidade técnica absolutamente fora do vulgar mas, infelizmente, pouco mais do que isto. Nenhuma presença dramática, o lamento de Didone, parecia uma conversa de uma tia aborrecida e uma fatal incapacidade de conseguir uma qualquer variabilidade sonora. Tudo foi desenvolvido a partir da utilização de uma voz bonita mas sem modulação nenhuma. Em resumo, a qualidade, às vezes, também aborrece. Estava à espera de viajar pelos inúmeros "turbamentos" da alma mas acabei quase a olhar o relógio.

Também foi ridículo o público da Gulbenkian recheado de falsos intelectuais que mandaram a calar os entusiastas que queriam bater palmas após a primeira peça. Até os músicos estavam à espera disso. Que pretensão e que tristeza este público falsamente conhecedor.

M.P.

16.2.04

A Crónica de AMSeabra no Público de ontem 

Augusto M. Seabra faz mais uma crónica no Público. Tenho pouco a acrescentar, está relativamente bem escrita, clara, e com um fio condutor. Farei apenas alguns reparos a imprecisões e a um erro clamoroso.
Se esquecermos as marcas de pretensiosismo de se pretender como o "Supremo Marcador Público da Crítica Colectiva", um irritante ego de auto colocado "Papa da Crítica" v.g. "E é deveras extraordinário que o facto se tenha passado sem a mínima observação pública - fica feita!", em que afirma que, depois desta referência mínima numa crónica de Domingo, a observação pública está feita, Seabra dixit. Dizia eu que, se esquecermos estes tiques, até se consegue ler a crónica, as frases estão mais simples, menos intrincadas e Seabra consegue expor as suas ideias.

Mas comete um erro crasso: a Sinfónica não tem condições de trabalho como é afirmado genericamente, e passo a explicar; a OSP não tem pequenas salas de ensaio apropriadas ao estudo de formações reduzidas ou de naipes e tem ensaiado no Salão Nobre do Teatro de S. Carlos, o que é péssimo acusticamente. Os músicos não têm gabinetes de trabalho, não existe uma estrutura própria de apoio, faltam salas de estar. Uma orquestra sinfónica, com elevada componente artística, com trabalho diário de preparação, com necessidades intelectuais prementes de documentação, deveria ter bibliotecas e audiotecas decentes, salas de estudo, salas para conferências e exposições, salas para "master classes" e uma sala de ensaios própria, especial, construída com condições acústicas cuidadas, insonorizada, cliamatizada, com possibilidade de se fazerem gravações e de se ensair com coro. Nada disto acontece, o que é uma falta de visão increditável dos políticos, completamente insensíveis ao fenómeno musical. Umas instalações deste tipo poderiam ser na sede da antiga PIDE, ao lado do S. Carlos. Seria uma reabilitação artística de um edifício com passado tão negro, uma redenção pelo amor da arte, o que poderia ser feito sem deixar cair a memória do local, isto se o projecto tivesse pés e cabeça, e não fosse mais uma ideia a "la casa da música" que nem sequer tem fosso de orquestra!

Hoje a sinfónica não tem as mínimas condições de trabalho, são vergonhosas! Pulgas no fosso da orquestra, temperaturas elevadas no Verão e congelantes no Inverno, sala de ensaio inacreditável, com um ruído horrível, quer exterior, quer interior devido à sonoridade e reverberação dos instrumentos. Orquestra a parar de tocar quando toca o sino da Igreja! Nem lembrou Seabra a Orquestra no Teatro Capitólio, sete anos a fio com os pombos a cagarem em cima! Isto ainda nos tempos do Santana Lopes. Os políticos andam a cagar em cima da orquestra desde a sua fundação, o que é bem pior! E Seabra tem a lata de dizer que "Manifestamente, tendo agora condições de ensaio no São Carlos", parece que anda a dormir ou que fechou os olhos à realidade ou não quis saber antes de escrever, é um mau exemplo de serviço público na escrita, em vez de apelar a condições de trabalho, em vez de criticar a tutela por esta situação lamentável vem dizer que está tudo bem, inconcebível. Serão melhores que quando os pombos se serviam da orquestra como WC, mas ainda são muito deficientes.

Haja dignidade e respeito pela música, ao menos que os políticos se lembrem de uma sala de ensaios em condições, será o ponto de partida mínimo. Orgulho de fazer música assim?

Cem por cento de acordo com a falta de brio profissional do coro. Agora pedir comprometimento artístico a um coro que não sente a arte, em que muitos elementos nem sequer sabem cantar... é demais, é impossível. Ganham o ordenado ao fim do mês e comportam-se de acordo com a ideia esteriotipada de funcionário público, dando razão a quem critica o funcionalismo público por ser laxista e desinteressado. A Orquestra Sinfónica Portuguesa, se esquecermos alguns exemplos, é exactamente o contrário e por isso vão fazendo música, quando os maestros que aparecem por Lisboa querem e podem.

H.S.

14.2.04

A não perder 

Quem gosta de Maria Cristina Kiehr deve ler esta entrevista.

Pinho Vargas lançou disco da ópera Dias Levantados.


Brendel recebe mais um prémio, talvez possa comprar uns comprimidos para a garganta para não grunhir tanto nos seus concertos.
Nota- O título do pequeno artigo é também muito giro: "Brendel ou o pianista que toca, lê, pensa e escreve" faltava dizer "e diz mamã e papá". No texto afirma-se que Brendel é originário do norte da Morávia e que é de origem austríaca, o que é uma pequena contradição mal explicada, a Morávia fica no lesta da República Checa, perto da Silésia polaca, o norte da Morávia fica a umas centenas de quilómetros da fronteira da Áustria. O que deveria ser dito é que Brendel é originário da Morávia e de uma família que falava alemão, uma vez que esta região era parte do Império Habsburg. Aliás toda a gente falava alemão nas cidades da Morávia, só depois de 1945 é que o alemão se foi reduzindo, muita gente de idade ainda fala perfeitamente esta língua na região, é interessante perceber que existem (existiram) ilhas alemãs muito para leste da região claramente checa da Boémia, a própria Silésia, um pouco mais ao norte da Morávia, era uma região de língua alemã. Percebe-se facilmente que o jornalista que alinhou estas linhas não percebe muito da poda, é preciso mais cultura nos jornalistas que estão nas secções culturais. Ou mais pesquisa...

Bernado Mariano critica Vengerov, com pouco sentido crítico, aliás habitual, mas com discernimento, o que também é habitual. Sem pegar o touro Ferdinand pelos cornos e sem chamar o boi pelo nome acabou por dizer que houve Vengerov a mais e, já agora, Bach, Brahms e piano a menos.


13.2.04

Leite de Faria 

666

Desaguar infinito
No sombrio mar do Inferno,
Este Inverno em granito.

L.F.

Escrito em Trás-os-Montes no Inverno de 1959

A ler 

O diário pessoal de uma estudante de música: Helena.

A notícia sobre Carlos Seixas no Público. Tem a citação genial de um vereador da cultura da Câmara de Coimbra: "Se ele não morre cedo, hoje era um Verdi"! Simplesmente genial este vereador, Mário Nunes. Carlos Seixas foi efectivamente um génio.


Boas notícias no Diário de Notícias, há festa da música. Há também um novo administrador do CCB, não se sabe se é boa notícia, pensa-se que sim, Miguel Vaz não é propriamente um desconhecido, já provou em tempos grande capacidade de trabalho e competência. Motta Veiga, o anterior administrador, estava muito ligado ao PS, mas parece ter desenvolvido bom trabalho.
A programação regular do CCB em termos de música desceu muito nos últimos tempos, talvez a falta de meios tenha sido responsável por este estado de coisas, o fim dos concertos "Em Órbita" também deixou de levar ao CCB alguns dos melhores agrupamentos, em termos musicais, que passaram por esta sala. Miguel Vaz tem fama de independente o que é, à partida, mais um bom sinal.

No público sai crítica a concerto dos Arditti, dois achados de altíssima qualidade: o título "O Grito e o Silêncio", muitíssimo bem apanhado e correspondente à música ouvida, e a comparação de Arditti com Ignaz Schuppanzigh, o primeiro intérprete dos então estranhíssimos e absolutamente geniais últimos quartetos de Beethoven, homem sem excessos de vituosismo, rude e admirável na sua musicalidade, mas com uma dignidade e uma dedicação à música muito para além do fácil e do imediato: Arditti, como o seu predecessor, está no mesmo caminho. Bem apanhada a crítica ao público. Discordo na apreciação de que "Rocking Mirror Daybreak", de Takemitsu é uma obra despretensiosa, penso que é uma obra de arte, ponto! É uma obra de contraponto atonal, brilhante na sua aparente simplicidade mas complexa na sua construção. Como Einstein dizia: "quanto mais simples a realidade mais complexo o modelo." Mas percebe-se o, perdoe-se a repetição, contraponto em que se usa a palavra "relativamente" se pensarmos nas abomináveis, e longas, obras do Guerrero e de Ferneyhough.

Finalmente no Fórum de Música:
Texto de Virgílio Marques sobre Suggia e os seus violoncelos, a mesquinha forma de Portugal tratar os seus melhores. Bendito violoncelo doado aos ingleses. Obrigado Virgílio Marques pelo seus ensinamentos e pela sua emoção.

H.S.

Um concerto muito mau na Gulbenkian dia 12 de Fevereiro 

Os três primeiros andamentos da nona sinfonia de Beethoven em ré menor, op. 125, foram completamente arrasados por uma interpretação arrastada, quer de Günther Herbig, maestro, quer por uma orquestra Gulbenkian desinspirada em que se notou falta de estudo e, provavelmente, falta de ensaios. O naipe das trompas foi particularmente mau, com entradas muito más, sempre por baixo e fora de tempo, desafinação constante e notas trocadas. O 1º fagote foi o que mais se destacou pela positiva, muito embora tenha falhado também entradas.
O Scherzo foi altamente confuso, atropelos, entradas trôpegas, metais em excesso de zelo, tudo muito manhoso.
O andamento lento, adagio molto e cantabile saiu melhorzito em termos técnicos, mas muito apagado de vida e força.
Os trompetes deram notas erradas na entrada do último andamento o que deu uma nota do que se iria seguir.
O Final, com a Ode à Alegria saiu absolutamente miserável por culpa de um naipe de cantores solistas desastroso. O currículo do tenor, cujo nome nem vale a pena citar, começa com "principal tenor de Lituânia", será o único? Voz desinteressante e mal colocada, cantando em esforço, pouca potência e falta de qualidade nos agudos, o menos mau das vozes masculinas!
O baixo, ou barítono, ou lá o que era, foi inconcebível na incapacidade de cantar bem: frases não terminadas, frases aldrabadas e com metade das notas, saídas constantes de tom, desacerto rítmico. Enfim a mais completa falta de voz, de sentido musical e de capacidade de afinar, veio da Áustria para ajudar a arruinar o final da sinfonia em ré menor de Beethoven, conseguiu.

A cantoras também não andaram muito melhor, a soprano tem uma voz feia e não acertou com os restantes solistas. A mezzo Bizineche ainda tentou fugir à desgraça geral, mas tem um papel muito pequeno e com tanto desacerto dos outros cantores tornava-se impossível fazer melhor. Parece quase incrível a forma como conseguiram acabar ao mesmo tempo! Muitos anos de prática devem ter ajudado, pelo menos, a terminar em conjunto a obra.

O coro gritou em vez de cantar, talvez a pedido do maestro, mas acabou por ser feio de ouvir, alguma desafinação não habitual surpreendeu também, assim como algum atabalhoamento rítmico no presto junto do final.

Se não comprou bilhetes para estes concertos, aliás esgotados, não se sinta infeliz, não perdeu nada. Dia 13, sexta feira, repete, para azar de quem ouve a pastelada.

O público aplaudiu vigorosamente, o mesmo público que deu umas palmas anémicas a uma oitava sinfonia de Beethoven muitíssimo melhor interpretada, o mesmo público que esteve ausente nos concertos do excelente quarteto Arditti. Assim se vê a cultura musical e a inteligência do público, supostamente, mais informado e culto, o público que vai à Gulbenkian.
M. C.

Adenda:
Bola preta para as trompas da orquestra Gulbenkian, têm tocado francamente mal em todos os concertos a que temos assistido, e na nona de Beethoven ultrapassaram todos os limites, poder-se-ia escreve quase uma série de tratados: "da incapacidade de entrar a tempo", "da incapacidade de tocar com coesão", "da incapacidade de atacar as notas com segurança" ou "da incapacidade de entrar sem esborrachar as notas". Uma emissão horrível, parece que nem têm embocadura, fortíssimos a rasgar para compensar a incapacidade de articular em piano e pianíssimo, incapazes de se integrarem num conjunto sonoro orquestral, berrantes na arrogância. Apenas o solo no trio do Scherzo escapou, não parece um problema do solista, embora este tenha trocado ostensivamente muitas notas, é um problema de naipe que tem de ser resolvido rapidamente, para não estragar um conjunto geralmente bem coordenado.
Achamos a sonoridade da orquestra muito desequilibrada, com metais em excesso de produção sonora (e de má qualidade), pouquíssimos violoncelos (mas bons) e muito poucas violas: as partes em que as violas têm de sustentar o coro, junto do final da obra, e que nos delumbram com a sua envolvência harmónica, sairam francamente débeis por falta de massa, falta de número. São muito poucos instrumentistas nos graves e médios no arco.
H.S.

12.2.04

Galeria de cromos Wagnerianos - Die Walküre 



Delmas, França 1907

Amalie Materna e seu cavalo Grane, 1876 em Bayreuth


Como era feito!

O que se via!




11.2.04

Ecos de domingo - O Coro 

O Blogue Portugal dos Pequeninos critica uma crítica deste blogue ao concerto de domingo. Devemos dizer que nos estimula o debate livre e franco de ideias, e todas as opiniões são saudáveis, gostámos deste eco, e gostamos de não ser uma autoridade absoluta, temos opiniões e são discutíveis, por muito que se defendam com ênfase. Posto este preâmbulo passamos ao concreto, e cita-se o texto por inteiro de Portugal dos Pequeninos, para melhor apreensão do seu conteúdo:

O CORO

Nas grandes tragédias clássicas bem como em grande parte do repertório lírico, o coro tem por função o enquadramento do pathos do enredo e das vicissitudes por que passam os protagonistas. O coro comenta o que se passou, o que se está a passar e anuncia felicidades ou desenlaces fatais futuros. O coro do Teatro Nacional de São Carlos, não fugindo a esta tradição, decidiu não se apresentar num concerto sinfónico, aparentemente por razões corporativas. O crítico aplaudiu a ausência deste corpo artístico e só lhe faltou sugerir o pelotão de fuzilamento. Sabe-se que o coro pode não ter sido excessivamente feliz nas suas últimas prestações e que a sua direcção musical pode acusar algum desgaste perfeitamente natural. Porém, não convém nestas coisas pensar com os pés. O coro do TNSC está integrado numa organização complexa que é o São Carlos, recheada de contradições e de uma deficente estrutura interna. Se os corpos artísticos têm o "poder" que têm, designadamente de alterar por completo a "fisiologia" do restante programa dos concertos sinfónicos, foi porque alguém o concedeu. Por outro lado, e numa mesma semana de trabalho, o coro pode ter de ensaiar textos musicais completamente distintos, passando de uns para os outros, a ritmos absolutamente estonteantes. A actual direcção do teatro, como aqui já afirmei, vive muito do "faz de conta". Adora fazer de conta que está tudo no melhor dos mundos quando efectivamente não está. A sua insegurança manifesta-se nestas alturas e sempre da pior maneira. E nada se resolve com prepotências ignorantes. O coro e a Orquestra Sinfónica Portuguesa são constituídos por bons músicos, homens e mulheres que gostam da sua profissão e que a honram. Um teatro com as características do São Carlos dirige-se com eles e não contra eles. O mesmo raciocínio é aplicável aos funcionários "técnicos" e "administrativos". É que se assim não for, em última análise, quem "paga" o devaneio é o público a quem tudo se dirige e que, não esqueçamos, acaba efectivamente por pagar tudo.

Nunca defendemos o pelotão de fuzilamento para o coro, nem nada que se pareça, defendemos a melhoria da sua qualidade, avaliamos sempre pelo que ouvimos e nunca pelo que nos dizem. Cremos que é um objectivo comum.
O coro não existe enquanto tal, contém dentro de si alguns cantores bons, que reunidos em pequenos agrupamentos têm conseguido atingir níveis dignos, mas medianos. Quando o coro se reune na sua totalidade, ou quase, os resultados são, em geral, maus ou muito maus.
A orquestra é diferente: luta, prova variadamente que tem qualidade, os músicos são reconhecidamente bons, a prova é que quando surgem maestros melhores o resultado é excelente, falta mais trabalho de base, mas o maestro titular, Peskó, amarrou o Teatro a um contrato, toda a gente sabe que não está presente e que não tem o domínio técnico que se lhe atribuía inicialmente, a razão não é conhecida, mas os resultados são (in)audíveis. O maestro titular é irregular, não serve, terá de ser encontrada outra solução, também mais económica, quando acabar o seu contrato. O maestro anterior também não é exemplo, uma vez que escolhia um reportório discutível e desinteressante na maior parte dos casos. Raramente se fazia um reportório sinfónico, com desaproveitamento das qualidades e características da orquestra.
Voltando ao coro: em sociedades civilizadas não se dá o pelotão de fuzilamento a quem não atinge os objectivos, dá-se uma mudança de funções, ou mesmo um despedimento se o caso for insolúvel, o que talvez não seja o caso.
O que nos leva para o sublinhado seguinte: o maestro de coro tem provado repetidamente que não serve, não tem ouvido, não se trata de desgaste natural, trata-se de falta de formação em coro e vozes, de falta de estudos na área da direcção musical e coral. Um maestro de coro incapaz de conseguir a afinação é uma aberração. Não dando directivas, não ensinando como se faz, confiando apenas no ouvido dos cantores acaba tudo numa descoordenação total, sem fio, sem guia, sem destino. Surgem problemas de falta de liderança, de desmotivação, cortes de compassos em partituras difíceis para se enganarem apenas a si próprios, pensando que o público não conhece as obras ou não repara. As contratações de cantores para o coro são pouco criteriosas, o resultado final é muito mau. O coro precisa de uma reforma completa, os cantores de qualidade que restam, e são ainda bastantes, podem ser a base de um trabalho futuro e concordamos aí com o Portugal dos Pequeninos.
Um coro moderno, capaz, profissional e com uma direcção, pode (e deve) trabalhar várias obras ao mesmo tempo: Viena, Paris, Londres, Milão apresentam muitas récitas por semana, dezenas de óperas e concertos com programas diferentes por ano. Com orquestras de cento e cinquenta músicos (menos em Viena, segundo cremos) e coros fixos. Não é a mudança de reportório que justifica a incapacidade do coro neste domingo, é a falta de liderança e de capacidades musicais, é o sindicalismo corporativista e sem fundamento ético. Sem nada para dar em troca dão-se ao luxo de pedir dinheiro a mais, porque está no contrato. Está completamente certo. Mas o mais importante, não sabemos se está no contrato, é que o coro deve cantar com qualidade mínima, e isso não tem feito. Quem faz exigências financeiras deste tipo está a pedir rigor no cumprimento integral dos contratos, isso pode levar, por absurdo que pareça, à extinção do coro, cantores incapazes de cantar não deveriam receber um chavo do estado, quando têm um vencimento certo e pago pelos contribuintes, contribuintes que passam as dificuldades sabidas.

Claro que muitos cantores suam, tentam, têm brio profissional, mas sem liderança e com muita gente incapaz, do ponto de vista musical, o trabalho dos que remam pela música e com brio, fica muito dificultado. Até os bons cantores estragam a voz num coro assim, conhecemos cantores que nunca concorreram ao coro do TNSC com medo de estragar a voz, ganhando muito menos noutros coros de muito maior qualidade.

O coro precisa de sentido profissional e de qualidade antes de tudo, depois pode começar a pedir horas extraordinárias, mas ter a mentalidade de mendigar uns tostões para assassinar depois uma obra é um escândalo, é falta de vergonha.

Não defendemos o pelotão de fuzilamento, defendemos o júri internacional com plenos poderes para avaliação do coro e a contratação de um maestro de coro com personalidade, que saiba do ofício e goste do que faz.

Também não achamos que as culpas sejam desta direcção, à qual falta reconhecidamente a capacidade de dar murros na mesa (o que pode até deitar tudo a perder), mas que se tem mostrado competente em muitos aspectos como montar uma temporada de ópera sem recursos e em cima da hora. Se esquecermos certos maestros inacreditáveis (exemplo: o arménio que veio ao S. Luiz) que aqui têm passado e a acústica da Culturgest para o Tristan und Isolde, a direcção tem conseguido o que muitas outras não conseguiriam e não conseguiram.

A diferença de nível entre orquestra, com boa qualidade geral e o coro, com fraquíssima qualidade, prova que o problema não será só da direcção de Pinamonti. Repare-se que a orquestra tem tantas ou mais razões para estar descontente, os políticos nem sequer dotaram a OSP de uma sala de ensaios, de gabinetes de trabalho, de salas de convívio. No entanto esta orquestra tem qualidade, e quando os maestros são dignos desse nome sobe de nível de uma forma soberba. Precisaria de um concertino principal com menos ânsia de protagonismo e com mais ouvido e capacidade musical.

Está convidado o João do Portugal dos Pequeninos para falar sobre o assunto e outros quando quiser e onde quiser, perante a audiência que achar mais conveniente. Um abraço para si e para quem nos lê. Estamos fartos de discutir este tema do TNSC aqui neste blogue.
Agora vamos escrever mais sobre música antiga (uma das nossas paixões), e pedir aos nossos amigos que aqui escrevem mais arte e cultura e menos debate sobre assuntos já bem esclarecidos. O projecto dos links musicais também tem de ser desenvolvido, agradecemos a quem nos enviou links muito interessantes.

H. Silveira (com V. G.)


10.2.04

Imagem da semana por Rodrigues 


María Cristina Kiehr, um ensaio em La Coruña

Foto de Rodrigues
(Clique para ampliação)

Para além do corpo um Kyrie, para além do visível o intangível, o eterno, o instante mágico em que se produz o som e nasce a música, aquela que dá a vida, em folhas de papel branco e nas memórias dos que vão vivendo para recordar. Um corpo, o corpo que existe entre nós e o infinito. Bach e Maria num ensaio en La Coruña, Brüggen não está na fotografia mas a sua imagem domina o quadro, como Bach domina, do infinito, toda a cena...
À espera de encontrar María Cristina para a semana, deixamos aqui esta fotografia do intermediário entre os nós e o infinito.

Dia 16 de Fevereiro na Fundação Gulbenkian, Concerto Soave e María Kiehr.

9.2.04

Crónica de um concerto admirável 

Domingo, 16h CCB, orquestra sinfónica portuguesa, maestro Josep Pons.

Não somos de elogiar em excesso. Houve defeitos, houve entradas a medo, a Petruchka de Stravinsky poderia ter sido melhor preparada. Daphnis e Chloé de Ravel poderia ter sido mais exacto. Mas só podemos dizer uma coisa: houve perfeição dentro das imperfeições. Houve música, só uma grande orquestra, recheada de músicos de alto nível poderia ter respondido assim a um maestro, também brilhante, como Josep Pons, que parece ter percebido como funciona a OSP e entrado em comunicação, com a música, com a orquestra e com o público.

Dois compositores mestres notáveis da arte de orquestrar e de criar música, Stravinsky e Ravel. Neste último a orquestra atingiu quase o absoluto ideal de sonho e de som que só uma grande orquestra consegue. Não existiram desafinações nos violinos, o som foi coeso, as cordas estiveram ao melhor nível que se ouviu nos últimos anos. As entradas bateram certo. Os graves estiveram perfeitos, as violas dando um corpo unificador sem par, e os violinos construindo sonoridades envolventes.
Os sopros, com dificuldade a superar, superaram-se, ainda entraram um pouco a tremer, mas com o evoluir da obra de Ravel consolidaram de tal forma a sua actuação que chegaram a comover pelo empenho e qualidade de som que produziram, ajudados pela segurança nas entradas e no ritmo de Pons. Não percebemos o porquê do esquecimento do maestro relativamente ao clarinete solista nos agradecimentos finais, que foi tão notável como os seus companheiros das trompas, dos oboés, do corne inglês, das flautas, dos fagotes, dos trombones, da tuba e dos trompetes, que estiveram particularmente seguros, com solos muito conseguidos, fazendo esquecer de vez um azarado concerto de Brandenburg algum tempo atrás.
A música do genial francês parecia nascer das veias dos músicos da orquestra, harpas, percussão, tecla, todos contribuiram para um concerto de altíssima qualidade. Nem é uma questão de solistas, os tutti foram avassaladores, de efeitos tímbricos muito bem conseguidos. Poéticas as imagens impressionistas da natureza, uma recriação da obra de Ravel com uma concepção tão conseguida como sonhadora, sendo densa nos momentos mais pujantes e transparente nas filigranas mais delicadas. Josep Pons conseguiu efeitos muito belos e a orquestra respondeu com musicalidade. Mais trabalho haveria a fazer para se corrigirem alguns detalhes, mas o concerto prova, mais uma vez, a qualidade superlativa da maior parte dos músicos da orquestra sinfónica portuguesa.

O concertino esteve ausente, o que foi uma benção para a melhoria de qualidade do naipe de violinos.

Finalmente uma sala com qualidade para concertos sinfónicos dignos desse nome.

O coro usou argumentos sindicais para exigir dinheiro extra por ensaios ao sábado e concerto ao domingo. Foi dispensado, uma decisão sábia que nos poupou ao provável descalabro e destruição do trabalho da orquestra nos momentos em que teria de intervir. Os parabéns à direcção pela decisão de fazer sair o coro pela porta baixa, e ainda têm lata de exigir mais dinheiro. Se não fosse vergonhoso seria ridículo. É altura de acabar com a bandalheira, exigem-se medidas para melhorar a qualidade deste coro que é a anedota de toda a comunidade musical portuguesa e uma vergonha para o estado português e os contribuintes que desperdiçam dinheiro com uma estrutura que não funciona. Se nada for feito neste momento a tutela verá a sua autoridade moral posta em causa por um grupo pouco capaz de cantar e capaz de exigir disparatadamente dinheiro por nada.
H.S.

8.2.04

Onde pára o coro? 

Será que o Coro do S. Carlos aparece hoje para o Daphnis de Ravel? Está no programa, está nos bilhetes comprados pelo público. Mas será que aparece em palco? Aqui no blogue apostamos que não!

Razões? Se acontecer esta ausência, como se prefigura, é adivinhar. Esperamos estar enganados e que o milagre aconteça, mas parece impossível.

Um coro que não é capaz de cantar o que quer que seja. Que pode ser dispensado a todo o momento por maestros com personalidade forte e dignidade no trabalho ou que não sobe a palco a um domingo por razões "sindicais" não serve a um teatro Nacional de Ópera como o do São Carlos. Director, Secretário de Estado, Ministro: é tempo de agir.

Por outro lado o coro não aparecer em palco será óptimo para todos os melómanos com ouvidos sensíveis.

7.2.04

Lido no Público e comentado aqui 


A ler no Mil Folhas: Crítica a discos por Cristina Fernandes. Devo dizer que sou muito mais severo que Cristina Fernandes relativamente às interpretações com uma voz por parte de obras como as paixões e as missas de Bach por certos maduros: Rifkin, Mcreesh e, juntando-se tarde a este grupelho Konrad Junghänel, um alaúdista bom que se tornou num excelente director do Cantus Kölln.

Estamos claramente perante um excesso de fundamentalismo interpretativo, é completamente impossível que uma obra majestosa, de síntese, destinada a uma corte importante, por um homem como Bach, destinada a um ofício (que acabou por ser mais conceptual do que real) de grande solenidade e numa catedral imensa, corte que dispunha, desde o tempo de Schütz (e este bem se queixava da diminuição de efectivos durante a guerra dos trinta anos), de vários coros de grande número (trinta cantores, o que era elevado) e de alta qualidade, é, repito, impossível que tivesse sido concebida para uma voz por parte.
Nem era uma obra para Leipzig, onde às vezes Bach lutava com dificuldades em recursos humanos e financeiros, era destinada ao Príncipe da Saxónia e Rei da Polónia, o soberano também de Leipzig. No entanto esta cidade universitária era directamente governada por um conselho municipal muito autónomo e com o qual Bach entrava em conflito ciclicamente.
É uma fraude interpretativa, ao abrigo de uma fraude musicológica e intelectual. Junghänel deu-nos gravações e interpretações notabilíssimas, incluindo um Schütz deslumbrante, mas este disco é bola preta. É um disparate e só se justifica por motivos económicos, é mais barato cantar com poucos ou nenhuns cantores nas partes de coro, é mais barato usar um instrumento por parte. Sonoridades desequilibradas, falta de eficácia na glorificação, falta de corpo no Credo, os momentos mais íntimos resultam também demasiado leves. Uma má leitura do que Bach escreveu e deixou como legado. Um disco Bola Preta. Não compre, faça deste disco o fracasso que merece ser.

P.S. Percebe-se que um alaudista queira uma voz por parte, é que um alaúde nunca se ouve, com menos cantores talvez se consiga ouvir um pouquito mais, uma esperança que Konrad não resolve juntando ao efectivo orquestral quatro alaúdes e uma teorba ou duas, como faziam Schütz e Praetorius, mas aqui já nem estou a escrever sobre Bach. Konrad Junghänel tem feito gravações de compositores alemães do século XVII com apenas um alaúde, o que é francamente errado em termos musicológicos. É demasiado pecado para quem vem juntar-se ao grupo dos "iluminados" de uma voz por parte. Dão argumentos aos que dizem (ainda há muitos) que as interpretações com fundo musicológico não interessam nada e o que conta é como se interpreta. Realmente a forma como se interpreta é essencial, mas fazendo-o com inspiração musical respeitando a obra e o tempo originais é deslumbrante. Quer emocionalmente, quer racionalmente. A emoção conta muito em música e não o nego, mas completada com pensamento leva ao delírio, ao sonho, ao prazer absoluto que só a música pode dar e que estas palavras toscas nunca conseguirão transmitir.

Um disco da Alpha 



Um disco novo da Alpha, Johann Sebastian Bach

Concerts avec plusieurs instruments - II

3º Concerto de Brandenburg, sol maior BWV 1048
1. Allegro - Adagio (5'18)
2. Allegro (4'11)

Concerto para dois violinos e cordas em ré menor BWV 1043
3. Vivace (3'26)
4. Largo ma non tanto (5'57)
5. Allegro (4'03)

Suite em dó maior BWV 1066
6. Ouverture (9'02)
7. Courante (2'04)
8. Gavottes I & II (2'39)
9. Forlane (1'07)
10. Menuets I & II (2'54)
11. Bourrées I & II (2'21)
12. Passepieds I & II (3'02)

Concerto para oboé e violino em dó menor BWV 1060
13. Allegro (4'18)
14. Adagio (4'32)
15. Allegro (3'08)

Intérpretes:
Café Zimmermann
Pablo Valetti, violino e Konzertmeister
Amandine Beyer, David Plantier, Helena Zemanova, Farran James e Paula Waisman, violinos
Patricia Gagnon, Laura Johnson e Diane Chmela, violetas
Petr Skalka, Felix Knecht e Dmitri Dichtyar, violoncelos
Ludek Brany, contrabaixo
Antoine Torunczyk e Jean-Marc Philippe, oboés
François Charruyer, fagote
Céline Frisch, cravo

Gostei do brandenburg, mas acho os tempos excessivamente rápidos, parece um corrida contra o tempo, por outro lado o contraste é baixo na dinâmica feita quase toda entre o forte e o mezzoforte. A articulação é quase perfeita e o som muito bom. A técnica dos músicos é notável, a coordenação perfeita em espirais de movimento quase alucinatórias. Mas o esteriótipo de querer fugir a esteriótipos é demasiadamente evidente, um disco de grande qualidade mas que acrescenta pouco. Uma leitura que quer ser musicológica mas que não nos dá uma alma cantada e acaba por falhar no campo dos tempos, creio que seria quase impossível, com músicos quase amadores, fazer os tempos tão vertiginosos como o Café Zimmermann nos apresenta. A ouvir atentamente, diapason 5, não atinge o diapason d'or, e creio que bem.



6.2.04

Fazil Say e Vengerov - Um excelente pianista e um palhaço de circo 

4 de Fevereiro, Fundação Calouste Gulbenkian, 19h.

Um espectáculo bom como palhaçada de circo, exibição de talentos virtuosístico de péssimo gosto no género do final do século XIX, cabriolas e momices, anedotas e habilidades de um Vengerov vaidoso e armado em super-estrela. Escolheu um reportório de elevado nível, Bach e Brahms, do qual não está claramente à altura, e acaba com três extras para o povo, aliás o que o povo esperava ouvir, que o "Brahms é chato" e o Bach mal tocado.

Não quero perder muito tempo com este concerto lamentável de um artista, não um músico, muito bom no espectáculo. Bach foi péssimo, desafinado, notas trocadas, expressividade e vibrato exagerados, articulação ultra romântica e de mau gosto. Pouco a dizer, Vengerov não percebeu, ou não quis perceber o que se descobriu sobre a interpretação de Bach.

Brahms pouco contido, desequilibrado, violino exagerado e piano completamente metido debaixo do tapete. Muitos gestos com a cabeça e o corpo, quase parecia um boneco articulado em vez de um músico, sem correspondência sonora para além de um som muito cheio e acentuações a mais, sforzandos em excesso, mau gosto em tudo, por excesso de protagonismo, vaidade, carisma excessivo, falta de sentido estético e musical no sentido profundo do termo, Brahms se aparecesse na Fundação Gulbenkian teria dado um pontapé no violinista. Vengerov dá as notas todas e o som do instrumento é excelente, mas falta uma intelectualidade, uma percepção da obra, uma concepção. Vengerov, um nome a riscar enquanto não tiver a modéstia de perceber que as obras e a música são mais importantes que cabriolas, ego e exibição de feira.

Já o pianista Fazil Say mostrou uma subserviência total ao violinista, nunca passou do meio forte, e quando digo nunca é mesmo nunca! Mas mostrou uma segurança enorme, um touché límpido mas de uma suavidade notável, uma textura e um som com ressonâncias mágicas, efeitos de uma poesia absoluta e com uma densidade espantosa, mas sempre estragado pelas momices de um Vengerov que não sabe onde estão os limites da música e a fronteira da palhaçada.

Vengerov é um fenómeno de alegria, de poder de som do instrumento, de técnica, de comunicação com o público, mas não se pede apenas isso, pede-se bom gosto e música. Vengerov é um violinista pimba!

Bola preta.


Último Tango de Fermat no Teatro da Trindade - não uma crítica, uma apreciação de espectador 

Gostei muito da mulher do protagonista, Joana Manuel e menos de algumas dicções... mas parece que quanto mais aguda a voz mais complicado, assim diz um recente estudo australiano.
Joana Manuel tem grande presença, inteligência, carisma, dicção, voz, capacidade de representação. Tem uma cena, a da "Viúva", em que mostra o seu potencial e teria valido a pena ir ao teatro da Trindade apenas por essa cena, que não revelo aqui, mas em que canta e representa muito bem.
Divertido é também Rui Baeta, um pouco no género bailarina La Feria, mas engraçado, um boa voz de barítono. Mário Redondo no papel do matemático Keane, é bastante convincente na caracterização do personagem, um actor cantor que já não é apenas uma promessa.
Pedro Pernas, Madalena Paiva Boléo, Rita Crespo, Jaime Bacharel, todos empenhados na representação, muito bem também, divertidos e com prazer no que fazem, com a ressalva de uma percepção menos ideal das vozes mais agudas.
A amplificação é demasiado elevada em certos momentos, o que para ouvidos sensíveis e habituados a vozes nuas e instrumentos acústicos às vezes é ligeiramente incómodo. Sugiro uma ligeira redução dos volumes sonoros. Mais elevados na matiné com jovens das escolas, mais reduzidos nas noites, a minha sugestão.

A orquestra, pequena, em palco está a tocar muito bem, com segurança e qualidade.
A música de Joshua Rosemblum é boa mas repetitiva, mas aqui concedo que o nosso padrão é diferente e que o musical é um género menos exigente que a ópera ou a música contemporânea mais académica. O texto de Joanne Sydney Lessner é muito interessante e bem concebido mas custa-me a ver os não iniciados em matemática a perceber algumas graças com referentes mais técnicos, felizmente o assunto é muito bem enquadrado e explicado e existem momentos de humor muito divertidos para além da matemática. Nesta peça nota-se que os anglo-saxónicos olham para a ciência de forma mais amigável que nós, a matemática em Portugal olha-se de longe, e tenta-se fugir. Sem mitos, sem tabus consegue-se aqui uma aproximação do público em geral de uma ciência que não é assim tão hermética e pode ser fascinante.

Interessante a evolução do repórter pouco conhecedor ao princípio, destacado de outra área do jornal, que se apaixona pelo assunto e no final surpreende os colegas com o que entretanto aprendeu sobre matemática e o problema de Fermat, conclusão: a matemática é fascinante e acessível a qualquer um que tenha cérebro e interesse pelo pensamento e pelo mundo. Ou seja, é acessível a qualquer ser humano. Neste musical faltam raparigas de pernas ao léu e de penas (ou plumas) no traseiro a descer escadas e a gritar: "grande noite, grande noite!"... É, aliás, excelente que assim aconteça, é bom sinal.

Bom trabalho de César Viana na adaptação do texto à nossa língua.

Encenação bem marcada, de Claudio Hochman, Francisco Cardoso na direcção musical promete muito, cenografia e multimédia (económica) simples mas eficaz de Alberto Lopes, os figurinos de Rafaela Mapril são algo difíceis de interpretar, o triângulo em cima da cabeça do Pitágoras ainda é acessível o resto da iconografia menos. O dedo no ar de Rita Crespo em Newton é francamente bom, caracteriza bem o carácter autoritário e mesquinho (ele não tinha necessidade) do génio inglês (Rita estudou bem o seu Newton!). O ar de bailarina La Feria de Fermat é demasiado histriónico para o nosso gosto.

Gostámos muito do desenho de luzes de Alexandre Coelho, foi bom o sublinhado rectilíneo das personagens, poético por vezes, criando momentos mais íntimos ou mais mediáticos de acordo com a quantidade de luz empregue e o momento cenográfico.

Carlos Fragateiro do Teatro (propriedade) do Inatel continua de parabéns, se exceptuarmos a peça Viriato com texto fraquíssimo de Freitas do Amaral, o recurso a equipas jovens e com paixão pelo que fazem, com empenho e frescura revela-se uma excelente aposta, que continue e que a música pura tenha também algum lugar neste teatro com tão boas condições e tão bem localizado.

Recomenda-se vivamente uma ida ao Teatro da Trindade.

P.S. - O trabalho geral de marcação, as danças dos matemáticos e a coreografia da "Viúva" são baseados em improvisos dos actores, mas com uma apertada supervisão e orientação de mais uma pessoa para além do encenador, o coreógrafo e preparador físico dos actores cantores: Bruno Cochat.
Agradeço a informação a quem me enviou o amável email, notando alguns pequenos erros no meu texto e com esta informação tão útil.


5.2.04

Algures no campo 



Foto de Cunha

Não tenho visto este meu amigo ultimamente, será que morreu?
Muito me entristeceria se tal tivesse acontecido.
Estou com saudades do campo.

4.2.04

O trauliteiro do cachimbo 

Mais uma vez o excesso de Rosas no Público, entre outras diz:

E que também reconhecemos, em versão "hard", no excesso histriónico e no abuso antidemocrático do "Gauleiter" madeirense do PSD, João Jardim, ou, em versão "soft" de revista cor-de-rosa, no registo populista-delicodoce de Santana Lopes e seu séquito. são eles que comandam o actual Governo.

Haja modos senhor professor, para quem pretende criticar a direita caceteira devo dizer que uma moca de Rio Maior na mão direita e o cachimbo Peterson Sterling Silver na esquerda não lhe assentariam melhor. Alberto João Jardim é um ser histriónico, caricato e anti-democrático, mas chamar ao líder regional de um regime democrático, eleito pela esmagadora maioria dos eleitores da Madeira, um Gauleiter nazi é demasiadamente ofensivo. O senhor professor trauliteiro vai longe demais nos seus esforços de violência verbal, não mede o que diz e acaba por ter de re-engolir o vómito que deita fora por mercê do descrédito que isso lhe acarreta.
As afirmações despropositadas que profere, sem nexo com a realidade, são tão exageradas que descredibilizam qualquer discurso sério. Quer acusar os seus adversários políticos de primários e caceteiros, mas usa insultos em pior estilo do que os que acusa, afinal quem quer denegrir.
É pateta, é confrangedor para um observador descomprometido ver os seus esforço para dar socos e ver esses socos atingirem o ar e acabarem por lhe deixar um olho roxo. Não há rosas sem espinhos e o homem do cachimbo Peterson Sterling Silver abusa. Se não consegue ser um senhor, ao menos que perceba que ao ser tão disparatado acaba a dar tiros nos pés. Mete dó.

3.2.04

Imagem da semana 


Pés

Foto de Rodrigues

Um dia 

Liguei a televisão e vi um pouco, vejo televisão raramente, no meu caso não falo por falar, ou para me gabar, de facto sobra pouco tempo. Tenho umas boas dezenas de CD's para escutar sem tempo para o fazer, tenho umas boas dúzias de livros para ler, grossos e em línguas variadas, mil e uma pequenas coisas, concertos, teatro, textos para preparar, investigação para fazer, sestas para dormir. Enfim a televisão fica para o fim do fim, depois do sono. Aliás a televisão não se enquadra no meu ideal de vida conservador, se pudesse alumiar-me com velas não hesitaria. Acho a televisão altamente intrusiva, irritante, manhosa, distorcida, manipuladora. Mas isto para dizer que hoje, ao fim de algum tempo, liguei a televisão: futebol, falavam de futebol, na semana passada tinha também olhado para o ecrã num café e futebol era o tema, será sempre assim?
Não sei se os meus leitores repararam antes, mas futebol é tema quer nunca entrou neste blogue, reparo eu agora. Nem sequer tem sido de propósito, é que o assunto é mesmo desinteressante para quem escreve aqui.
Depois de desligar a TV e de ter colocado um CD, com o "Le Parlament de Musique" um CD da Opus 111, com Charpentier dirigido pelo Martin Gester, o Miserere deste compositor deslumbrante, gravado aqui precisamente em primeira gravação mundial de 1991. Vou blogar, digo eu de mim para mim: dou um salto a uns blogues, e o que vejo? Futebol! Tal como na TV. Querem eles deixar de passar por suburbanos, querem ser elite, mas passam a vida a falar de carros, bichas de trânsito e futebol. E dizem-se liberais. Mas de facto são escravos, mais escravos que Hunding o era de Fricka. Logo o mais rasteiro dos temas, as pancadarias e os dirigentes, o mais deprimente dos assuntos, a cultura da incultura e do acéfalo, o mundo da pobreza mental e da corrupção, confesso que nem prestei muita atenção, se calhar aquilo até poderia fazer sentido, mas estou sem paciência. Vou desligar o computador depois de escrever estas linhas e continuar a ler um livro que estou a achar excelente, de 1998, "Le Moulin et la Rivière - air et variations sur Bach" de Gilles Cantagrel. Emprega-se melhor o tempo, não estou com paciência para pesquisar nos suspeitos do costume. Ao menos que leia e que venha o sono.

2.2.04

A ler - música com fartura no Público e Diário de Notícias 

Depois de uma crítica fora das suas águas habituais, em que dissertou sobre uma meia Oratória de Natal, fraca, na Gulbenkian como se tivesse sido a oitava maravilha do mundo, Teresa Cascudo brinda-nos com uma excelente crítica no Público. Entendeu e deu entender aos leitores que assistiram ao concerto o valor de uma interpretação. Não explica em detalhe as reticências à direcção de John Nelson, no meu entender demasiado carregada de acentuações, mas a falta de espaço justifica as opções que fez, notável a observação de Litaker, o tenor e de Robinson, a soprano americana que tem uma voz naturalíssima e muito bela, espera-se que não engorde em demasia, uma vez que ainda muito jovem já tem um porte majestoso.
Sobre o mesmo assunto Bernardo Mariano faz uma crítica muito positiva, mas com o defeito de não ter sabido ver para além da beleza superficial e da espectacularidade géstica do maestro, às vezes excessiva, ver artigo no DN. Bernardo Mariano costuma ter o seu sentido crítico mais apurado.

Por outro lado temos tido excelentes reportagens de Nantes, quer o Público, quer o DN publicam hoje artigos sobre o assunto.
Ver texto sobre pianistas na Folle Jounée e concertos em Nantes.
No DN temos uma notícia, sem crítica de concertos.

1.2.04

Turandot, o balanço 



Puccini por Nauer

Puccini e a obra
Turandot é uma obra de um compositor popular, Puccini. Um compositor de fórmulas gastas, um pretenso modernista, incapaz de renovar uma arte em declínio. A razão da sua dificuldade em compor nos últimos anos de vida, Puccini tinha acesso e informação a tudo o que se fazia na Europa de então, anos iniciais do século vinte, e é por perceber que está num beco sem saída que se lhe torna penosa a composição.
Melodia fácil, esse o grande mérito do compositor. Mas não se pode esquecer que Resphigi, Busoni, Maderna eram seus contemporâneos, e italianos, esses sim compositores inovadores, e às vezes injustamente esquecidos. Puccini morre em 1924 sem acabar a obra, note-se que Wagner tinha morrido há cinquenta anos e Mahler no início do século. Alban Berg, Shoenberg e Webern compunham furiosamente, por exemplo o Pierrot Lunaire era uma obra que Puccini conhecia e, provavelmente, admirava. E quem fala destes compositores não pode esquecer Débussy, Ravel, Prokofiev e Stravinsky. No entanto Puccini é um compositor de árias bonitas, de melodias fáceis disfarçadas com cromatismos, com uns metais estridentes a dar um ar de modernismo, com uns bombos aqui e ali. Harmonicamente pouco inovador, cenicamente a atingir o esgotamento, Puccini é um compositor francamente reaccionário. Por muito que se diga que era um modernista, que assimilou Schoenberg, e que admirasse o Pierrot Lunaire.
Claro que alguma influência terá tido dos seus contemporâneos, mas Puccini continuou sempre a ser um melodista virado para o público, um génio sem dúvida na melodia e com um sentido teatral enorme.
Não foi um compositor que tenha aberto portas e desbravado novos caminhos. Foi um homem no final de um beco sem saída.

Isto não lhe tira o mérito de escrever bem para a voz, de ser competente na orquestração. O povo adorou o compositor em Itália do princípio do século vinte, o povo continua a adorar Puccini. Curiosamente não é falado nas academias, é criteriosamente esquecido, ou quase, nas cadeiras de história da música. Foi um compositor francamente comercial e explorando clichés, já usados há muito, com engenho, e assumidamente: Puccini sabia o que fazia e queria ter sucesso.
Envereda por um realismo, verismo, que no final do século XIX e início do XX tenta renovar pelo teatro o que não se consegue fazer pela música. Um caminho em vias de se esgotar também em 1920. Puccini escolhe assim uma fábula como motivo de mais uma ópera: Turandot. Um argumento absurdo, se visto como peça real e humana. Uma obra que nem chega a ser surreal, porque com final moralista e um "happy end" disparatado que negaria à partida qualquer subversão da realidade. Aliás o texto do século XVIII, uma fábula de Gozzi, é claramente barroco e ingénuo: o poderoso não é maldito como em D. Giovanni, não é castigado pelos crimes que comete. Ao imperador impotente e à sua filha frígida e psicótica todos os crimes se permitem, o aristocrata está acima de qualquer lei, e quando ascende ao poder imperial dispõe da vida e da morte dos seus súbditos. O povo está sujeito a todos os castigos sem problemas morais. O amor tudo salva e tudo faz esquecer. Mas o absurdo do crime mantém-se na ideia do espectador, a morte, a tortura a escravidão tudo se obnubila como por encanto no texto, gera-se uma tensão que leva a rejeição do texto como objecto passível de interpretação racional. Turandot a esquizofrénica muda de personalidade ao encontrar Calaf. Esse o moralismo de Turandot: o amor redime. Enfim, depois de Woyzzeck, depois de Pier Gynt, o serôdio barroco disfarçado de modernismo. Curiosamente Puccini diz que a escolha de Turandot é por causa do lado humano do personagem de Carlo Gozzi, o que parece (de novo) contraditório, mas que o encenador da ópera no TNSC, Andrei Serban, também afirmou ter sentido no texto de Turandot.
O que se salva da ópera de Puccini: a melodia, o canto, o canto luminoso e belo de uma Itália finalmente unida e feliz nos breves instantes entre as duas guerras.
A música é banal harmonicamente, recheada de efeitos eficazes mas batidos, os graves a pontuar as tensões, as percussões a sublinhar os momentos mais poderosos cenicamente, os metais a exaltar o poder, as escalas pentatónicas para dar a cor chinesa, os acordes de terceira e de quinta maiores em momentos mais felizes, menores em momentos de maior tristeza, sem grandes complexidades em termos globais e cromatismos melódicos para dar o ar modernista; dizia eu: a ópera acaba por se ouvir com agrado, 77 anos depois da sua estreia, até porque já esquecemos o contexto em que foi criada.
Puccini é também um génio, quem sou eu para o negar, mas um génio menor, um homem que quis ter sucesso e ser popular e escolheu o caminho fácil. Franco Alfano, o fascista director do conservatório de Turim terminou a obra que o cancro na garganta impediu Puccini de concluir. Apesar de Toscanini ter severamente criticado o trabalho de Alfano e ter cortado muitos compassos deste, nota-se no texto de Alfano que nem todos podem ser Puccini, mesmo com os defeitos que este tinha: a música não tem o mesmo poder e sedução, é francamente obra de circunstância, é de encomenda, é competente, mas sem rasgo.


Carlo Gozzi

A encenação
Realçando o sentido de fábula, a encenação feita num teatro chinês em que o público do S. Carlos fecha o círculo, desmonta qualquer ideia de realismo, trata-se de uma fábula, não haja dúvidas. A luz acende-se na sala, como se acende no palco no círculo do teatro chinês. O coro comenta, como deveria comentar, pelo menos interiormente, o público no teatro, o coro sublinha, está presente, o público também. Por isso o encenador acende as luzes no teatro.
Uma moralização sobre a redenção pelo amor. Os personagens são tipos, não evoluem. A Turandot salta de um tipo para outro, sem transição, dá-se um clique e descobre que o amor a venceu. O encenador tenta dar pistas desse salto, os olhares do primeiro acto, a cena dos enigmas, em que Turandot se mostra perturbada, são exemplos dessa quebra que ocorrerá no final.

O lado humano é realçado no terceiro acto, mas é esse lado humano que a fábula nega à obra? Existe aqui contradição? Não cremos que exista, a fábula pode conter em si, além do seu efeito moralizador, do seu lado mágico, um lado humano e até intenso, Turandot é uma mulher poderosa mas psicótica. O que é mais humano do que a doença mental?

A cenografia é muito bela visualmente, mas com o defeito de ficar atravancada no palco do S. Carlos, em Convent Garden cabe melhor. Não avança pelo lado popular de uma espectacularidade fácil, exceptuando a entrada do Imperador vindo do céu num trono suspenso. Lindíssimo o jogo de luz com os fumos.

Os efeitos coreográficos são também interessantes, estilizados, mas sempre no registo mágico da fábula, são mais um comentário subjacente à vizão do encenador.

Cremos que a encenação foi conseguida, seria difícil subverter genialmente uma obra tão contraditória como Turandot.


Comparação de elencos

Já se falou aqui da diferença entre primeiro e segundo elencos.
O primeiro teve cantores de grande currículo, mas cantando com dificuldades. Alessandra Marc com uma voz metálica e desigual, melhor nos agudos, agreste nos médios e graves. Sem capacidade de representar.
Jon Villars é um tenor banal como muitos outros, de novo agudos razoáveis no primeiro acto, decaindo sempre até final. A ária do terceiro acto é um ecemplo de arrastamento e banalidade vocal. Esqueceu o dó no segundo acto. Péssimo actor.
A Liù do primeiro elenco esteve melhor: Micaella Carozzi, mas mostrou uma voz com muito pouca cor. Subiu no último acto em que dramaticamente foi muito convincente.

O segundo elenco foi muito superior, Lucia Mazzaria foi excelente, redonda em todos os registos, uma voz mais quente, muito bem colocada, o seu tom de desdém nos trechos falados foi excelente. Boa actriz.
Franck Porreta, em Calaf, foi soberbo, excelente, raramente vi e ouvi um tenor tão consistente neste papel. Voz boa por inteiro, apaixonado, melódico, músico, interpretou com nível superior a sua parte, deu brilho onde outro tinha apagado o personagem. Bom actor.
A Liù de Elvira Ferreira foi também de grande qualidade vocal e cénica. Todos conhecem a voz desta cantora portuguesa. Um papel ao seu melhor nível.
Os restantes cantores estiveram bem, Hao Jiang Tian foi notável como Timur. Luís Rodrigues, Féliz António e Carlos Guilherme, aos papéis na estreia, com a insegurança e falta de clareza do maestro nas entradas, mas a segurarem bem em termos vocais e representativos. Nas récitas seguintes melhoraram o desacerto inicial nas entradas e foram quase divinais nos seus divertidos jogos cénicos. O imperador de José Araújo foi mauzote, voz fraquita e sem corpo para o papel de Imperador. Desafinou um bocadito, um cantor fraco. Mandarim: Paulo Ferreira, cumpriu. Aias: Filipa Lopes e Luísa Tavares cumpriram.

Coro dos Pequenos Cantores da Academia dos Amadores de Música:
Na estreia estiveram um pouco desafinados, mas foram cada vez melhor, como tinhamos previsto.

Maestro: Soltan Peskó, irregular.

Outros elementos
Sobre outros aspectos já falámos antes e não vou repetir aqui o que eu e outros membros do blogue escrevemos aqui anteriormente.

P.S. Concedemos: depois de reclamações concedemos um de sexta napolitana, umas inversões, meia dúzia de acordes de sétima e uns retardos. Mas tudo muito denunciado e muito batido, geralmente resolvido, cromatismos com sabor a receita, e modernismo de pacotilha...

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