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30.1.04

Concerto de muito boa qualidade na Fundação Calouste Gulbenkian 

Sexta, 30 Jan 2004, 19:00 - Grande Auditório

Elenco do dia 29 de Janeiro igual ao do dia 30, depois de ouvido o concerto de 29 o nosso resumo é simples:

CORO GULBENKIAN - alto nível
CORO DE CÂMARA INFANTIL DA ACADEMIA DE MÚSICA DE SANTA CECÍLIA - muito cuidada a participação destes jovens
ORQUESTRA GULBENKIAN - bem com alguns erros das trompas e pequenos erros dos trompetes
JOHN NELSON (maestro) - exacto, globalmente bom
RUTH ZIESAK (soprano) - Muito bem
TWYLA ROBINSON (soprano) - Excelente
MARISA FIGUEIRA (meio-soprano) - Papel a solo muito pequeno, mas bem
DELPHINE HAIDAN (meio-soprano) - Bem
BARBARA HÖLZL (meio-soprano) - bem
MARCO ALVES DOS SANTOS (tenor) - Bem
DONALD LITAKER (tenor) - Muito bem
DIETRICH HENSCHEL (barítono) - Razoável, bom timbre, mas voz pequena e desafinou.
ALASTAIR MILES (baixo) - Muito bom
BERTRAND GRÜNENWALD (baixo) - Bem

Robert Schumann
Szenen aus Goethes Faust


Se ainda não tem bilhete para dia 30 de Janeiro e gosta de Schumann e de Goethe, não esqueça, um concerto que promete ser muito bom na Fundação Gulbenkian às 19h. Dia 29 os solistas mostraram-se de alta qualidade, o maestro mostrou categoria e o coro esteve em belíssimo plano. Depois de ouvir o "coro" do S. Carlos ouvir o coro da Gulbenkian é a prova de que os nossos ouvidos estão a funcionar bem e que é possível ter um bom coro em Portugal.
Mais atenção ao naipe das trompas com as entradas a descoberto, não acertaram uma, uma pena estragarem assim um concerto que poderia ter sido perfeito. Nem acertaram na afinação nem no tempo exacto dos ataques, e o maestro foi extremamente preciso, aqui as culpas foram claramente para os instrumentistas que falharam (os trompetes também meteram água). Mais atenção e timming.
Sexta feira mais comentários aos cantores, todos pela positiva, mas alguns merecem destaque. A interpretação dirigida por John Nelson foi decidida e exacta, mas às vezes demasiado sacudida (acentuada em demasia) nas partes mais agitadas. A obra de Schumann é absolutamente genial: Szenen aus Goethes Faust. Pena é ser realizada tão poucas vezes.

A ler, Carlos de Pontes Leça, no site da Gulbenkian:
Artigo 1
Artigo 2


Concerto da Orquestra da Escola Superior de Música - dia 30 - 18h 

Local: Sociedade de Geografia de Lisboa.
O horário do concerto de 6ª da Orquestra da ESML mudou e passou para as 18h.

Programa:

Abertura da ópera “Fidelio” de Beethoven
Concerto para Violino de Sibelius
Sinfonia nº4 de Schumann

Infelizmente não sabemos quem é o solista do concerto de Sibelius.

29.1.04

O rídiculo mata 

Depois do livro "cultural" de Santana Lopes a proposta peregrina: fado património mundial! Terá trocado as vogais? É que a procriação é que mesmo necessária para o povo do mundo manter a espécie, e nunca ninguém se lembrou de sugerir que a cópula fosse elevada à categoria de património universal, bem o merecia! Outros blogues, mais habilitados que este, têm aqui um tema, será que a arte do sexo pode ser monumental? Artística? E desculpem os meus leitores esta incursão pelos domínios do brejeiro, mas é que não há paciência para tanto disparate, só com umas bojardas se consegue reajir, de forma a ver se não se chora vamos tentando rir.
Santana não sabe o que fazer para manter a sua demagogia no padrão habitual. Inventa conceitos com vivacidade, percebe que em Portugal é a ignorância e o provincianismo que mandam, que se confunde obra com engenho. Ora Santana é engenhoso, não a criar factos políticos ou concretos, mas a criar factos demagógicos, que nem sequer são as obras virtuais de Guterres tipo as várias pontes sobre o Tejo, foram anunciadas várias, duas em Lisboa, que "hádem" estar feitas. As obras mirabolantes e os anúncios de medidas virtuais de Guterres eram tão ridículas que ninguém as levava a sério mas Santana escolhe a dedo os seus factos demagógicos, é difícil desmontar sem receio de perder popularidade esta do fado, por exemplo. O fado é um estilo de canção pobre, quer melodicamente quer harmonicamente, quer ritmicamente. O fado nem sequer é património quanto mais mundial. Porque não a ópera italiana classificada como património mundial? Já desapareceu, a sua classificação nunca impediria o seu desaparecimento, os tempos mudam, os gostos evoluem, ficam os grandes cantores, os grandes intérpretes, ficam as obras entretanto escritas, no caso do fado nem os grandes compositores sobrevivem, porque compor para fado nem sequer é compor, é copiar fórmulas.

O ridículo mata, mas apenas dentro dos que sabem reconhecer o ridículo, os concertos para violino de Chopin nunca mataram Santana, em França talvez tivessem assassinado directamente qualquer candidato ao que quer que fosse, menos a empresário da praça Pigalle, em Portugal é folclore, a elite ri-se, o povo delira. Em Portugal estima-se o pacóvio e o chico esperto, afinal o que Santana é. E vence em vez de morrer.

O Público noticia o facto, em vez de gozar perdidamente com a história do fado como património mundial, dá a notícia como se fosse para levar a sério.

"Crítica" de ópera no DN - a anedota! 

O DN publica uma "crítica", (ver fim do nosso texto se o link deixar de funcionar) à Turandot de Puccini no TNSC, um texto que deveria ser classificado como exemplo do que não deve ser crítica. O título é exemplar "Um belo espectáculo", espectáculo? Uma tourada? Um futebol? Não, fala-se de ópera no Teatro Nacional. Mas não pára no título, continua, sem critério, sem análise musical, sem ouvido. Os autores (Fernando Pires?) do texto transcendem todos os padrães de baixa qualidade que se podem imaginar. Não se sabe de onde sairam estes rapazes, mas devem voltar rapidamente ao local onde estiveram escondidos. Bernardo Mariano, o crítico habitual do DN, habituou os seus leitores a um bom padrão, sem ser demasiado incisivo, hoje o Diário de Notícias desce muito na consideração de vários leitores habituais que assistiram à ópera e que podem julgar pelo que viram e ouviram.

Pôr a questão em termos de espectáculo, de grandiosidade? É bater na tecla errada, a encenação reduz a componente espectacular da obra e torna íntima a visão cénica, num exíguo espaço de um teatro chinês.

Dizer que a soprano Marc consegue superar completamente as agruras que Puccini lhe reservou é dizer demais, Marc apresentou uma voz feia nos graves e cansada. Os agudos foram razoáveis, mas a leitura foi arrastada, sem expressividade, fria. Dizer o disparate "Cenicamente, ainda que com as limitações do seu desmesurado porte físico, corresponde com adequada expressão. é uma barbaridade completa. A soprano Marc mal se pode mexer deve pesar mais de 160 Kg, incapaz de andar, de se voltar, de olhar para os outros intérpretes, quando canta fita o público e repete a fórmula sistematicamente, não representa. Dizer que "Villars, em Calaf, parece ainda à procura de um estilo, mas a sua voz tem corpo e poder e transmite verosimilhança à sua parte". É uma enormidade de se lhe tirar o chapéu, a voz não tem grande corpo, mostrou algum vigor e cantou bem no primeiro e segundo acto, com excepção do dó que, ou não saiu, ou saiu uma terceira abaixo, mal se ouvindo, aqui sem corpo nenhum, numa voz baça e apagada. Um tenor que chega ao terceiro acto a arrastar-se e consegue uma ária completamente desnivelada "Nessum Dorma", sem cor na voz, cansado, sem expressividade nenhuma, fraquíssimo.
Lemos com surpresa: "A cena dos enigmas foi, por ambos, e nos dois planos, desempenhada a gosto de fazer e de assistir. " Mas que bela consideração depois de ver dois paquidermes, incapazes de representar, a olhar para o público em vez de ser entre si, sem qualquer dramatismo, sem qualquer capacidade de transmitir emoções, sem tensão erótica e dramática. O tenor do elenco principal é um cantor/"actor" capaz de deixar morrer Liù no terceiro acto sem sequer olhar para a escrava que se deixa sacrificar por um Calaf totalmente ausente, um tenor sem qualquer potencialidade para o teatro, e com voz de qualidade mais que duvidosa, à procura de um estilo? Só se for um estilo de sair de forma airosa do teatro sem apanhar com vegetais, que é o que lhe acontecia em Itália se cantasse assim.
Será que nós vimos a mesma ópera? E a caracterização dramática e pujante de Liù? Uma voz que é tudo menos dramática, uma voz sem corpo, fina, sem harmónicos, diria mesmo que frágil, e quais os modelos de que falam sem enunciar? Liù, de facto, é uma mulher forte, tão forte que se sujeita à tortura sem vacilar e que morre livremente pelo seu amado. Infelizmente a Carosi não transmitiu essa força no primeiro acto, mas conseguiu um trabalho melhor no terceiro acto, em que foi um pouco mais convincente. Ao menos representou.
Os ministros Ping, Pang e Pong foram medianos e desacertaram muito nas entradas, quando a agitação é maior desacertaram e cantaram desgarrados, a afinação destes nem sempre foi perfeita, isto na estreia, mas que tem vindo a melhorar e já estão a um nível muito superior ao inicial.
O Imperador de Araújo foi, e continua a ser, outra pequena tragédia, uma voz pequena, apenas a vaidade do imperador foi servida pelo cantor, que de voz nada. Fraca, pouco encorpada, semitonada, o menos convincente dos imperadores, não tivemos um papel de fim de carreira de um grande cantor, tivemos um fim de carreira para um cantor que nunca foi grande coisa.

Finalmente o "prodigalizar de aplausos do público", "o trabalho fascinante" estas são mesmo as mais ridículas das observações, onde terá escutado o "crítico de serviço" do DN o final da estreia? Uns aplausos anémicos de poucos segundos e finito. Pelo contrário: na estreia do segundo elenco o aplauso foi entusiástico e merecido. O "pleno agrado" da direcção musical não apontou os defeitos da mesma, os desequilíbrios sonoros, o lamentável coro do Teatro. Fascinante, talvez para quem se habituou aos musicais do La Feria.

Sem ouvidos e sem cérebro não se pode fazer crítica, pelo menos não se deve colocar o nome "Crítica" no topo da página, deve-se chamar encómio ou publicidade. Não serve para nada senão para enganar o público, em lugar de o servir, e não ajuda os intérpretes a encontrar o caminho.

Da estreia principal para a estreia do segundo elenco percorreu-se um caminho, a direcção musical parece mais segura, os cantores/actores são melhores, os desequilíbrios desapareceram, os naipes estão muito melhores em termos de entradas e de massas. A beleza do som da orquestra aumentou de forma substantiva, e isso deve-se à crítica, provavelmente dos próprios intérpretes entre si e em ensaios, e da crítica externa que, de forma séria aponta, pedagogicamnete, caminhos. Na estreia do segundo elenco já se fez Música com amor e M grande.

Não falamos, bem entendido, do coro, que arruinou completamente o final do terceiro acto, numa berraria desafinada com vaga (muito vaga) relação com o texto original, ainda por cima numa melodia que é fácil e cantores e público bem conhecem, mas o resto salvou a noite, a direcção começa a estar de parabéns, mais pelo segundo elenco e por Peskó estar a trabalhar.

Continua. Fica prometida uma análise comparativa dos elencos, da encenação e da cenografia.
Será feita a crítica do "Último Tango de Fermat" por um dos nossos críticos musicais.
Será feita a crítica da "Tempest" de Shakespeare pelo nosso crítico de Teatro, estreia 29 de Janeiro S. Luiz.
Será publicado um texto sobre o concerto acústico de Luís Reprezas no S. Luiz, próximo sábado, por um autor que já tem escrito neste blogue, raramente, sobre música mais popular.


Segue Texto do Diário de Notícias, com a devida vénia.

Belo espectáculo
MIGUEL-PEDRO QUADRIO FERNANDO PIRES
Título. Turandot

Direcção musical. Zoltán Peskó

Encenação. Andrei Serban

Cenografia e figurinos. Sally Jacobs

Coreografia. Kate Flatt

Desenho de luzes: Robert Bryan

Personagens e intérpretes. Turandot: Alessandra Marc (28, 30 e 1 Fevereiro) e Lucia Mazzaria (27 e 29); Calaf: Jon Villars (28, 30 e 1 Fev. ) e Frank Porretta (27 e 29); Liù: Micaela Carosi (28, 30 e 1 Fev) e Elvira Ferreira (27 e 29); Imperador: José Manuel Araújo; Timur: Hao Jiang Tian; Ping: Luís Rodrigues; Pang: Frederico Félix António; Pong: Carlos Guilherme; Mandarim: Paulo Ferreira.

Local. Teatro Nacional de São Carlos



O grande espectáculo que é Turandot foi montado em São Carlos numa encenação que pretende repor o espírito da obra matriz, a peça de Carlo Gozzi, autor de fábulas do século XVIII.

A intenção realiza-se de forma brilhante, em todas as vertentes por que apreciemos o que nos é dado a fruir. Do cenário que se nos apresenta à curiosidade logo que entramos na sala, das máscaras que nos irão surgir, dos figurinos que compõem um arco-íris, da coreografia que descobre e embeleza movimentos, das luzes que criam misteriosas atmosferas, enfim, das personagens da história e da realização musical.

Será de todo justo, para mais numa situação desfavorável, saudar a direcção do São Carlos pelo esforço que certamente representa programar uma ópera como a Turandot. E oferecê-la com todos os requisitos precisos, dando lustre ao Teatro, e em nada menos de oito récitas, abrindo oportunidades para conquistar mais público para a ópera. O anúncio da Turandot é sempre excitante para os melómanos; os ecos do êxito na sua estreia, espera-se que despertem o interesse dos que a conhecem apenas pela popularidade de Nessun dorma.

O naipe de cantores (elenco principal) destaca uma soprano superlativa, Alessandra Marc, e um tenor em afirmação, Jon Villars. A Turandot de Alessandra, vocalmente, situa-se à altura do papel, vence com facilidade as agruras que Puccini lhe reservou. Cenicamente, ainda que com as limitações do seu desmesurado porte físico, corresponde com adequada expressão. Villars, em Calaf, parece ainda à procura de um estilo, mas a sua voz tem corpo e poder e transmite verosimilhança à sua parte. A cena dos enigmas foi, por ambos, e nos dois planos, desempenhada a gosto de fazer e de assistir.

Se as atenções se centram nas figuras de Turandot e de Calaf, e estas o mereceram pelo nível dos intérpretes, e também de Liù, confiada a Micaela Carosi, menos doce e menos frágil que os modelos mas dramática o bastante para impressionar, não passou despercebida a actuação do baixo Hao Jiang Tian, em Timur. Curtos momentos para tão excelente voz. Os três ministros, Ping, Pang e Pong, assentaram, e bem, em Luís Rodrigues, Frederico Félix António e Carlos Guilherme, e José Manuel Araújo serviu com correcção o Imperador Altoum, descendo, como «filho do céu», em sua poltrona, das alturas do palco, numa condescendência do encenador à espectacularidade.

A direcção musical de Zoltán Peskó, com a Orquestra Sinfónica Portuguesa, contribuiu para que a Turandot resultasse em pleno agrado, e o público, no final, prodigalizasse aplausos, premiando nos intérpretes e criadores um trabalho fascinante.

28.1.04

Começa a Folle Journée de Nantes 

Espera-se que a Festa da Música também venha a ser realizada em Abril.
Ver em site da Folle Journée.


27.1.04

Galeria de imagens e links 

A partir de hoje teremos uma galeria de imagens e de links, começamos com imagens de Puccini, Alfano, Sabata. O link hoje é da MIDEM em França. Apenas por curiosidade e actualidade, está a decorrer neste momento esta feira do Disco e do audiovisual em Cannes.
Acústica no mundo, compilação do Laboratório de Acústica da FEUP

Puccini e Mascagni no funeral de Leoncavallo


Alfano
Compositor que terminou Turandot



Victor de Sabata sentado, 1950
De pé: Renata Tebaldi e Fedora Barbieri


Imagem da semana 

Óbidos

Foto de Rodrigues

O desconforto de um ângulo estranho, o tentar olhar para cima para tentar perceber quem são os personagens desta história. A roupa, de cerimónia, e a calçada, o grupo e o solitário, elementos que criam a história, a imaginação.
Em Óbidos?

A aventura 




Turandot no S. Carlos II - Puccini 

Sábado as coisas correram pior que na estreia de quinta feira, a soprano Alessandra Marc apresentou a voz em pior forma, a direcção de Peskó foi mais frouxa que na estreia, os desequilíbrios foram maiores nas massas orquestrais. Não houve tensão dramática, já não tinha havido na estreia, e, sobretudo não houve brilho. Uma interpretação arrastada pelos cantores, nomeadamente por uma Alessandra Marc em mau plano, com uma emissão fraca, anasalada e pouco brilhante. Parecia adoentada este sábado.
Os metais taparam o conjunto por completo quando entravam em fortíssimo, numa confusão clara entre espressividade e barulho. A gesticulação do maestro exagerada não correspondeu a qualquer resposta da orquestra. A expressão "caldo de notas" aplica-se ao resultado sonoro desta récita, na componente orquestral.
Se o coro tinha estado ao seu nível habitual, muito mau, na estreia, tendo sido o seu pior momento o final do primeiro acto, sábado o descalabro foi total: desafinação, berraria e desacerto com o maestro, orquestra e cantores; tudo demasiado notório para podermos ficar calados, atrasos, entradas em falso, houve de tudo.
Parece que a tensão da estreia contribuiu para elevar, um pouco, o nível.

O maestro continua a mostrar-se muito irregular ao dirigir uma orquestra nacional de ópera, uma má aposta da direcção, que tem trabalhado com muito cuidado e imaginação nesta temporada reduzida. Sem ovos tem feito omeletes, mas é traída pela ineficácia de certos elementos colocados em posições chave e com contratos assinados. Provavelmente, com menos dinheiro gasto, poder-se-ia ter um melhor director da orquestra, mais jovem e com melhores concepções musicais. Menos complacência e mais visão global das obras e dos seus conceitos. Quando ninguém devia ter dormido, parece que o maestro principal adormeceu, uma pena.
Já nem falamos do maestro de coro, pouco ouvido, pouco interesse, pouco brio, nem conseguimos perceber porquê. Quando aparece fora do S. Carlos, com formações mais reduzidas, talvez mais escolhidas, o trabalho sai relativamente digno, dentro do TNSC os resultados são pavorosos.


Victor de Sabata
Um bom maestro em Puccini

Sobre encenação, cenografia, figurinos, elencos e solistas vocais, dissertaremos posteriormente. Há tempo para uma crítica mais cuidada.

Para dia 27 de Janeiro espera-se um melhor elenco em termos de representação e até vocalmente. Espera-se mais concentração do coro, o que parece francamente impossível por problemas de qualidade intrínseca, eles nem sequer sabem como fazer, nem foram ensinados pelo maestro de coro, isto julgando pelos resultados.

Pede-se aos chefes de naipes da secção de metais que refreiem a natural tendência de puxar pelos instrumentos quando o maestro começa freneticamente a agitar os braços! Calma, suavidade, o som tem surgido de forma demasiado estridente na sala. Sejam uma orquestra a sério, toquem apesar do maestro, como fazem as grandes orquestras quando lhes aparece um maestro pouco eficaz a dirigir. Contenção e espírito de grupo na orquestra é um dos princípios fundamentais da interpretação orquestral, sacrifício do som do vosso trompete, trompa, trombone e tuba pelo som de todos.
Com elegância, com nível. Afinal a OSP tem excelentes músicos. Apelo aos violinos: não arranhem as notas, e tentem afinar nos agudos. É quase um apelo desesperado, mas temos esperanças, não esmoreçam, o Peskó não há-se ser sempre o maestro, nem o concertino actual pode durar muito mais tempo com tão maus resultados. Dêem ao público e a vós próprios o maior prazer que é o de interpretar uma composição como foi escrita, com musicalidade, afinal o prazer de fazer música e de a escutar quando feita com amor.
Lembrem Puccini e Toscanini, o maestro que estreou a obra em 1926



A julgar pela crítica saída no Público, AMSeabra parece que leu o nosso texto anterior e afina, em geral, pelo mesmo diapasão. No capítulo vocal não avaliámos as vozes, AMSeabra foi muito ambíguo neste ponto, como aliás quando tem de mostrar conhecimentos musicais. Ficámos sem saber se o tenor era mau, médio ou bom, pelo texto escrito não se percebe o pensamento do tudólogo do Público, esta confusão escrita é aliás um dos recortes estilísticos de Seabra. Mas a ler, a crítica saída no sábado no Jornal "O Público".


26.1.04

Concertos da Orquestra da Escola Superior de Música de Lisboa 

Orquestra da ESML. Concertos próximos que esta orquestra vai realizar: 6ª-feira, 30 de Janeiro às 17h na Sociedade de Geografia em Lisboa e, 31 de Janeiro às 21h no Colégio Salesiano de Manique no Estoril. Brevemente serão divulgados os programas destes concertos.

23.1.04

A. Leite de Faria 1957 

666
Na desolada costa
Sou náufrago incerto
Do deserto do amor.

As sombras e silêncios
Destes dias de Inverno.
Fazem-me só no inferno.


Diário de Notícias noticia: Bartoli contrata Salieri para fazer um filme! 

Leio hoje no diário de notícias:
Cecilia Bartoli 'contrata' Depardieu para Salieri
BERNARDO MARIANO
Cecilia Bartoli não pára. A capacidade empreendedora da grande e muito popular mezzo-soprano italiana não deixa de nos surpreender. De há anos a esta parte, vem-se envolvendo em projectos visando restituir ao público, quer obras menos conhecidas de autores conhecidos, quer simplesmente a música de compositores caídos no esquecimento. Foi assim com Vivaldi e Gluck, foi assim com os compositores que escreveram para o castrato Farinelli e o caso repetiu-se recentemente com Antonio Salieri (1750-1825), de quem gravou (para a Decca) uma selecção de árias de ópera que obteve um grande sucesso.

Ler o resto da notícia em Artigo completo



22.1.04

A surpresa da noite, 22 de Janeiro, Turandot, Teatro Nacional de São Carlos 

E da noite saiu Hao Jiang Tian

Timur no Metropolitan
Timur em Lisboa
Simplesmente notável a voz deste baixo, aveludada e ao mesmo tempo rutilante, sem gritar ouve-se até ao mais íntimo do ser. Está destinado a ser um dos grandes baixos do nosso tempo.

Faremos mais comentários posteriormente, deixamos aqui um resumo do que sentimos, para não defraudar os nossos habituais leitores! O balanço pendeu para o lado positivo, com ressalvas.

Os lados mais negativos foram o desequilíbrio de massas, defeito que advém logo à partida da partitura (no nosso entender muito pessoal e subjectivo), alguma desafinação crónica nos agudos dos violinos e o impagável coro do S. Carlos, cremos que este coro está ao nível dos piores coros de ópera do terceiro mundo, é certamente muito pior que coros amadores que temos ouvido por essa Europa fora. O maestro titular será insensível ao que se passa no coro? O coro infantil esteve ao nível que se pode esperar de um coro infantil, desafinando aqui e ali, mas deve melhorar com a confiança e as várias récitas.

Aspectos a melhorar são a falta de alguma coesão na orquestra, falta um som próprio e idiossincrático, mas nota-se mais empenho, às vezes com excesso de intensidade, o que tem a vantagem de tapar um pouco o coro. Notou-se o esforço do maestro em conquistar a orquestra e em ser preciso nas entradas.

Os lados positivos. As madeiras estiveram bem. Os metais mantiveram um bom nível, mas houve intensidade excessiva em alguns momentos mais estrídulos. Gostámos do naipe dos contrabaixos, marcante nas suas intervenções mais escuras.
As cordas estiveram relativamente bem, com as desafinações apontadas. Será que as "obras" no fosso alteraram as condições? Não conseguimos notar grandes diferenças ao nível sonoro. Recomendamos ainda que se avalie a produção sonora do conjunto orquestral do lado de fora do fosso para ter uma ideia da sonoridade da orquestra em diferentes lugares do teatro, cremos que os metais se sobrepuseram excessivamente, as cordas deixavam de se ouvir quando os metais entram em fortíssimo, que foi quase sempre, mais moderação melhorará o efeito obtido na sala. Estamos em crer que foi um efeito acústico, porque a orquestra deixou passar de forma transparente as vozes dos cantores protagonistas mesmo quando em fff.
O facto de o plano cénico ser em nível mais elevado que o habitual, pelo estrado colocado em cima do palco, deve ter melhorado a propagação das vozes, uma solução muito interessante em termos de visibilidade da sala para o palco, mas um pouco incómoda para as primeiras filas da plateia.

Outro aspecto positivo foi a encenação muito cuidada, da qual falaremos mais detalhadamente noutra ocasião, e os figurinos, aspectos questionáveis filosoficamente mas coerentes. Aliás a encenação sublinha o absurdo do enredo, se este fosse visto apenas como uma tentativa de recriar o real a encenação seria completamente cabotina, mas existiram elementos irónicos que desmontaram essa visão simplista. A cenografia foi um dos aspectos mais conseguidos desta produção já antiga. O programa pareceu-nos bem numa primeira abordagem. Sobre encenação ver apresentação e entrevista com o encenador.
Com o evoluir das récitas o conjunto deve melhorar. Faremos mais dissertações após a récita de sábado. Nessa altura falaremos sobre as vozes e representação dos "actores" cantores.

Sobre a obra de Puccini, Turandot, falaremos do assunto também mais à frente, cremos que será interessante dar uma visão desta ópera dentro do quadro da ópera italiana e da obra de Puccini. Para nós esta ópera é o ponto final na ópera italiana, é um canto do cisne de um compositor que não consegue terminar a obra porque a sua garganta o matou. Trágico e cruel final para o compositor.


AMSeabra esteve presente, por esse motivo não vamos desvendar mais segredos antes da crónica do tudólogo do Público sair.

Turandot hoje no S. Carlos 

Peskó, o titular fantasma, quase sempre ausente, mesmo quando dirige, e que de repente aparece sob a forma de lampejos vagos, mas com uma réstia de brilhantismo, um maestro ainda sob observação, fará a direcção da obra de Puccini, veremos se cumpre.
Queríamos aproveitar aqui no crítico, de desejar aos cantores, músicos e solistas as maiores felicidades e desejar uma boa récita, com qualidade, com concentração e entrega.
Aproveitem estes momentos para rever as partes mais complexas dos papéis, para meditar na música como arte de conjunto, sem estridências, sem voluntarismos que estragam o trabalho global.
As maiores esperanças de retorno à qualidade nesta tardia temporada de ópera, a bom tempo regressada a Lisboa.

Ao público em geral, desejamos um bom espectáculo, sem tosses, aproveitamos para recomendar aos mais cavernosos que podem usar uns comprimidos para suprimir a tosse por algumas horas e umas boas pastilhas para a garganta, assim até podem gritar mais no fim! Podem passar por uma farmácia próxima do S. Carlos. Se não conseguirem reprimir a tosse existem boas gravações, a preços mais económicos que o bilhete da plateia, da ópera de Puccini. Disfrutam mais e evitam estragar a ópera aos desgraçados que querem ouvir por entre as tosses mais ou menos farfalhudas.

Mariss Jansons, Riga 1943 

Mariss é Maestro Titular da Orquestra Sinfónica da Rádio da Baviera, que ouvimos 21 de Janeiro, ontem, no Coliseu dos Recreios em Lisboa. É ainda titular da Sinfónica de Pittsburgh e será, este ano, nomeado titular da Orquestra do Concertgebouw de Amesterdão.
Ouvimos ontem Mariss no Coliseu a dirigir Chostakovitch, sexta sinfonia, e Berlioz, sinfonia fantástica, num concerto extra programa do ciclo “Grandes Orquestras Mundiais”. Um concerto extraordinário com uma sinfonia fantástica.
Dois extras: quebra nozes de Tchaikovsky e a marcha húngara da Danação de Fausto de Berlioz.

Orquestra:
Primeira parte do concerto.
A sinfonia de Shostakovitch foi muito bem interpretada, a orquestra reagiu bem à batuta de Jansons, concentrada. Ritmicamente muito acertada, quase perfeita não fossem alguns ataques fora de tempo dos metais, que foram muito fracos nas trompas, o que ainda se viria aliás degradar na segunda parte.
Gostámos da secção de Cordas da Orquestra da Radiodifusão da Baviera, unido, muito coeso, uma sonoridade encorpada, graves pujantes, com 8 contrabaixos e 10 violoncelos a mostrarem um belo trabalho e um som muito compacto e denso.
As violas também mostraram uma sonoridade de grande qualidade. Os violinos mostraram-se impecáveis em termos de afinação, coordenação e sincronismo. Ataques perfeitos, pizzicatos de uma precisão imbatível. O concertino mostrou no solo da sinfonia de Shostakovitch, uma sonoridade e uma expressividade notáveis. Um músico de grande categoria, primeira estante de uma das melhores orquestras do mundo, trabalhando com os seus colegas de forma impressionante e mostrando frutos do trabalho, quer a solo, quer nos resultados colectivos. Sem vaidades vazias desnecessárias para além da qualidade do trabalho que se ouve.
As madeiras foram quase perfeitas, oboés, flautas, clarinetes, fagotes em elevado plano.
A bateria esteve relativamente bem, mas a complexidade rítmica de Shostakovitch deixou a percussão algumas vezes a tentar seguir o ritmo, em vez de o marcar, não gostámos de ouvir numa orquestra alemã deste nível falhas neste capítulo.
Os metais foram pouco empolgados, sonoridades muito belas, coesas nas partes mais lentas, mas com evidentes problemas ritmicos: quando os andamentos rápidos da sexta sinfonia de Shostakovitch exigiram o melhor dos trombones e das trompas, houve mesmo descoordenação e desacerto, claro que a um nível mínimo, mas evidente. Mais ensaios, cremos que será esta a chave do problema, esta sinfonia com o seu largo inicial e dois scherzos rápidos e complicados no ritmo é de uma dificuldade técnica assombrosa, precisa de muito traballho. Também não sabemos se a propagação do som no Coliseu é perfeita, se a acústica deixou a secção mais sonora da orquestra, mas que está colocada no fundo do palco, confusa com os tempos dos ataques e o ritmo que os restantes músicos imprimiam nos outros naipes. Mas o maestro está presente para ser seguido.

Segunda parte:
Na sinfonia de Berlioz, compositor romântico e exaltado por excelência, orquestrador inovador e inspirado, só uma orquestra muito boa consegue dar uma visão aceitável da sua música. A nossa impressão foi mista, se por um lado a orquestra da radiodifusão da Baviera é uma máquina sonora, conseguindo efeitos verdadeiramente poéticos, e momentos de grande poder mágico, cremos que aqui os músicos tocaram mais descontraídos e cometeram mais erros de displicência, os metais estiveram francamente mal quando se exigia mais velocidade e momento, exemplo: a marcha, 4º andamento, em que se apresentaram desgarrados do todo. Mas a produção sonora nos momentos em que a coesão surgia foi sempre de uma grande intensidade expressiva e muito bela. É uma pena não terem agarrado a sinfonia de Berlioz de forma igual por toda a orquestra. De notar que a bateria esteve francamente mal no último andamento de Berlioz, quando se pedia concentração total, o sincronismo não foi nada perfeito. Reparámos que os músicos encarregues dos dois bombos em vez de estarem concentrados no maestro se entreolhavam rindo entre si, durante o troar pujante, mas assíncrono dos seus instrumentos. Mais concentração era esperada de uma orquestra como a da Radiodifusão da Baviera.

Mais entusiático foi o fragmento do quebra nozes de Tchaikovsky, muito plástico e empolgado pela reacção algo excessiva do público após Berlioz. A orquestra atacou de forma muito vibrante as notas do mestre russo, em que o maestro é especialista.

Já a marcha da Danação de Fausto de Berlioz saiu um pouco mais trapalhona e baça, mais por culpa de um cansaço já evidente pela duração do concerto. O que também não seria de esperar numa orquestra alemã, parecia que os músicos já estavam um pouco fartos e desconcentrados, notou-se falta de coesão ritmica de novo.

Maestro
O maestro esteve em plano muito alto, mas não foi excepcional, teria sido se não tivessem existido as falhas já apontadas. Apontámos a precisão dos ataques, a elegância do gesto, a clareza dos sinais, a exuberância contida da forma, sem excessos, tudo mostra uma finesse, um conhecimento musical da mais elevada craveira. Nem falamos do equilíbrio entre massas, obtido de forma tão subtil que nem se notou qualquer esforço feito nesse sentido. Os sforzandos nos pontos exactos deixaram-nos agarrados às cadeiras quase sem fôlego, as articulações mais líricas feitas de forma apaixonada e romântica em Berlioz, mas mais técnico, sem deixar de ser expressivo em Shostakovitch.
Creio que o único erro que cometeu foi ter confiado demasiado na secção de metais, e de ter puxado demasiado pelos tempos. As velocidades usadas foram delirantes: a sinfonia de Shostakovitch foi tocada em 25 minutos, às vezes a exigência excessiva pode trazer resultados piores, mas Jonsons dirige ao ataque, não se defende, não poupa, isso é belo, é o que traz a magia. Temos a certeza que esta mesma orquestra, num bom auditório, seria capaz de fazer este programa de forma irrepreensível. Quando se arrisca tudo no fio da navalha, com trabalho sério por base, temos de gostar, mesmo com falhas, só o risco traz a paixão que só a música sabe transmitir.
Essa paixão sentiu-se em Jonsons. Pela entrega, pela concepção global das obras, sobretudo em Shostakovitch, em que existiu um claro contraste entre o primeiro e os segundo e terceiro andamentos, num tour de force verdadeiramente olímpico. O primeiro andamento transmitiu uma força interior, uma alma que só um maestro formado na escola russa consegue entender.
A construção desta sinfonia evoca-nos a da sonata opus 27 nº 2 de Beethoven, com a devidas diferenças é claro, Jonsons criou o crescendo emocional que termina com um quase ataque de nervos final, uma construção do compositor levado ao clímax pelo maestro. Gostámos muito do concerto, sobretudo pela primeira parte.

Uma palavra para o público: ignorante, palmas a despropósito entre andamentos, com bravos à mistura, um coro infernal de tosses, durante os andamentos e entre os andamentos. Euforia excessiva no final, mercê da penúria de um som sinfónico em Portugal, quando surge uma orquestra com som de orquestra o público delira. É pena que assim seja, é sinal do pauperrismo lusitano nesta matéria.

O Coliseu não tem condições para receber uma orquestra, ruídos pelos corredores, portas a abrir e a fechar, pessoal a conversar no exterior da sala, ruídos exteriores a penetrar no interior. Muito más condições, pede-se mais cuidado ao pessoal do Coliseu com o ruído.


20.1.04

Imagem da Semana 


Cantão

Foto de Rodrigues

Anátema 


Não amas, e não podes
Ler o livro da vida
Sem amor nenhuns olhos são videntes
A tarde triste é o sol que não consentes ao coração.
Mundo de solidão,
O que atravessas,
É um deserto habitado
Onde tropeças
Na sombra do teu eu desencantado

Miguel Torga



Frei Manuel Cardoso (1566 -1650) 

Natural de Fronteira pertenceu à notável geração da escola de Évora: é a geração dos polifonista portugueses, onde se destaca também Duarte Lobo (1565 - 1646), ambos alunos de Manuel Mendes (1547 - 1605).
São compositores que transcendem a Península Ibérica, são marcos da cultura europeia.
Frei Manuel Cardoso foi menino do coro na Catedral de Évora. Tomou votos em 1589 como frade carmelita no Convento do Carmo em Lisboa onde passou a residir. Entre 1618 e 1625, serviu o Duque de Bragança, mais tarde, D. João IV, que também era compositor de talento. Dedicou algumas obras a Filipe IV de Espanha, antes da restauração da independência em 1640, obras encomendadas pelo monarca.
Após essa data data, que encheu de júbilo o compositor, trabalhou sobretudo para D. João IV. Diz o rei que frei Manuel Cardoso era homem de grande humildade e estremamente frugal, mas o seu génio musical era unanimemente reconhecido.
Frei Manuel Cardoso conjuga o estilo polifonista antigo, anterior ao concílio de Trento, mais complexo, com o estilo mais despojado, privilegiando a compreensão do texto, que foi ditado neste concílio. Faz uma síntese à moda de Palestrina, mas em que a sua originalidade é manifesta.
As obras de Frei Manuel Cardoso estão reunidas em cinco volumes, a impressão de dois dos quais foi financiada por D. João IV, existe uma reedição recente da Fundação Gulbenkian. A sua obra consta de motetes, magnificats missas, incluíndo o seu célebre requiem a seis vozes.
Frei Manuel Cardoso é o mais conhecido compositor do grupo de polifonistas de Évora, tanto pelo seu génio como pelo facto de muita da sua música vocal, sem acompanhamento instrumental, ter sobrevivido ao terramoto de 1755. Não se sabe se terá escrito algumas obras instrumentais que, eventualmente, o terramoto tenha destruído.

É ainda de notar que a polifonia cantada usualmente com vozes sem instrumentos, era acompanhada por instrumentos ao tempo em que foi composta: existem os registos de pagamentos a organistas e outros músicos quando se faziam cerimónias litúrgicas.
Tanto os organistas, como outros instrumentistas, de sopro e de cordas, dedilhadas ou friccionadas, sabiam ler as partes da polifonia, dobrando vozes, ou substituindo-as quando faltavam cantores. É tempo de se começar a interpretar a música dos grandes compositores portugueses como foi pensada. Aliás, é tempo de escutar a música dos grandes compositores portugueses, ponto.

19.1.04

Lugar de concertino auxiliar aberto na Fundação Gulbenkian 


Ver notícia.
Cuidado com os barrocos, faltam nas peças a concurso. Falta também leitura à primeira vista e cultura musical. Um concertino é o braço direito de qualquer maestro, precisa mais do que saber uns solos e uns tuttis. Além disso precisa de qualidade humanas, liderança, direcção, comunicação, etc. Ouviremos o escolhido, cedo ou tarde.

17.1.04

Precisamente por ser Siza 

Sei que as Torres de Alcântara não vão esquecer a cidade, as pessoas, o rio e o mundo. Serão arte, tal como disse antes, arte na cidade, "não se podem transportar de um lado para o outro", serão arte no local onde serão edificadas. E serem arte em arquitectura significa muito. A um artista do nível de Siza (e de outros ao mesmo nível) devem-se dar condições para a realização das suas obras, é um dever de todos nós enquanto membros da sociedade.

Basta-me o currículo de Siza para prever um trabalho de altíssimo nível. Arquitectura não é uma arte simples, nenhuma arte é simples, mas a arquitectura é especialmente mais complexa, vive-se em torno, e dentro, de arquitectura. Não é pintura ou escultura que se vê ou toca. Sei que Siza não é um agressor e que se lhe pedirem a agressão ele não só sairá do projecto como terá fibra ética para denunciar essa agressão. Conhecer os homens é importante, e Siza é um homem que me deixa tranquilo. Mas ser um artista será sempre o mais importante.

Há arquitectos tão bons ou melhores que Siza? Siza é o melhor? Nunca o dissémos, outros arquitectos teriam a nossa confiança, claro que sim, mas não se trata agora desse assunto.

Sábado, 17 de Janeiro, recomendamos 

Paula Mendes, organista, S. Vicente de Fora em Lisboa, 17h horas.
Obras de Buxtheude, Frescobaldi, Muffat, Rodrigues Coelho, Pablo Bruna, Frei Diogo da Conceição, Correia de Araújo e Jimenez. Entrada livre, aniversário da organista. Musicalidade, estilo, arte, Paula Mendes nunca deve deixar de ser ouvida.
Um dos orgãos mais belos em termos de som, do mundo, não temos qualquer receio do excesso da afirmação, assumimos.


Bruno Belthoise (piano), Christophe Giovaninetti (violino), Alexandre Delgado (violeta e comentários), Teresa Valente Pereira (violoncelo).
LISBOA Pequeno Auditório do CCB. Hoje, às 18h.
Concerto comentado por Alexandre Delgado. Obras de Armando José Fernandes, mais outro grande compositor português que esteve esquecido, parabéns a Bruno Belthoise, um pianista francês, como não podia deixar de ser, que redescobriu, motivou, gravou. Alexandre Delgado, ilustre compositor português colaborou e nesta descoberta e também se deixou apaixonar pela qualidade de Armando José Fernandes. Esperam-se mais trabalhos deste agrupamento e a redescoberta da música orquestral de Armando José Fernandes.

Não há tempo para ir a S. Vicente e ao CCB, mas dois bons concertos em perspectiva. O primeiro, com entrada livre, o segundo a dois euros e meio.

Critica ao Público que publica mal o nome do violinista, não sabemos se erro da cronista ou dos serviços do Público, pede-se mais atenção pelos músicos.

P.S. Um agradecimento a quem criticando o crítico dos críticos nos emendou o nome de dois compositores, trocados por nós. Ao crítico dos críticos dos críticos o nosso obrigado e bem haja.


Manuel Mendes 

Manuel Mendes, nasceu na primeira metade do século XVI, estudou em Évora com o padre Cosme Delgado, que era mestre de capela do convento do Espinheiro e da Catedral de Évora.
Depois de ordenado padre presbiteriano, Manuel Mendes foi colocado em Portalegre onde ocupou as funções de mestre de Capela da catedral desta cidade. Voltou depois a Évora para ocupar o lugar que foi a de seu mestre. Veio a falecer a 16 de Dezembro de 1605. As suas obras não tiveram publicação, encontrando-se algumas missas avulsas em códices de bibliotecas de Lisboa e Évora. O seu estilo era notável pela sua pureza, sendo o mais simples e severo dos mestres da escola de Évora. A sua influência deu-se sobretudo como pedagogo, pois foi mestre de Frei Manuel Cardoso e Duarte Lobo, os grandes polifonistas portugueses da transição do século XVI para o XVII .
Existe um Asperges me e um Hosanna filio David gravados num disco da Hyperion, com direcção de Owen Rees e o agrupamento inglês A Capella Portuguesa, nome realmente notável para um agrupamento inglês. Infelizmente e segundo creio este agrupamento não tem gravado muito mais desde o disco de 1996 "Music for the Holy Week at the Chapel of the Dukes of Braganza".

Creio que fazem falta mais agrupamentos de qualidade no domínio da polifonia e da música antiga em Portugal. A gravação por bons agrupamentos da música portuguesa faz muita falta. Comecemos por Manuel Mendes e avancemos por aí adiante, com amor, com paixão; a música merece.

A edição crítica e revista das obras dispersas por arquivos deste país não se faz, ou faz-se numa escala ridícula face ao património elevadíssimo que existe e que tende a destruir-se por falta de conservação. Por incrível que pareça hoje a conservação dos documentos é muito pior do que há 170 anos atrás, os edifícios não são conservados por falta de dinheiro. Anteriormente as confrarias e a Igreja dispunham de meios para conservar telhados e paredes, hoje ninguém se interessa. Depois existe a poluição que, misturada com a humidade, tem efeitos catastróficos em documentos antigos. Além disso as tintas ferrosas corroem os pergaminhos e o papel. Estamos em vias de perder um património riquíssimo por falta de atenção. Precisamos de um novo Santiago Kastner? Porque será que os portugueses são os últimos a olhar para o génio português? Recordo ainda a fibra de um Michel Giacometti. Manuel Mendes repousa em silêncio na poeira dos arquivos mas atormentado no céu, por os seus concidadãos se terem olvidado da sua música. Ressuscitemos os nossos grandes.

Mandar à merda 

Algo que não se percebe, mas que funciona, não mandámos à merda Manuel, com pena nossa. Não reparámos no post em que o actor afirmou que iria estrear. Manuel estreou e parece que bem, iremos ver a peça, e faremos a nossa crítica, diletante, que não somos tudólogos como o mestre Seabra, o especialista em Tudo.
Mas de forma algo atrasada, daqui mandamos um "merda para ti" Manuel, não te desejamos sorte, que isso não se deseja a um actor, nem "parte uma perna", que é de importação. Merda para ti: Manuel; com todo o nosso carinho.
O sentido do mandar à merda um actor, um músico, um artista do palco, qualquer que seja, é uma superstição da amizade, dita com carinho, como aquela mãe do Porto que chama o filho da janela ao fim da tarde e grita: "vem para casa meu filho da puta", como o Júlio Machado Vaz disse hoje na Antena 1. Citamos de memória Júlio Vaz, mais adiante: "Quem se escandaliza com a palavra merda, de nariz torcido, provavelmente terá a cabeça cheia da mesma."
Quando nós queremos, de facto, mandar à merda alguém, pura e simplesmente fazemos como Nietsche tão bem aconselha: esquecemos. É construção, não é desconstrução...

15.1.04

A estética e a política 

Recusamos a discussão estética com base em pressupostos políticos e acusamos a esquerda de o ter feito na questão das Torres de Alcântara, o responsável pelas Torres é o Santana, logo a esquerda deita abaixo, defende de caminho o João Soares que deixou fazer os escarros de Sete Rios, e vêm os senhores intelectuais de esquerda dizer: estão integradas no meio de outras porcarias do mesmo género.
Esquece a esquerda intelectual, que o projecto de Alcântara é de um arquitecto genial, um artista eterno que Portugal deu ao mundo. A partir deste momento recusamos qualquer discussão política, recusamos qualquer democracia, a maioria não vence em questões estéticas, a democracia não funciona em arte. A turba não escolhe o belo, nem o choque. A maioria é conservadora no mau sentido da palavra. A um Da Vinci ou a um Bach admitimos tudo dentro das suas artes, a Siza nós permitimos tudo e dizemos: Faça! Confiamos no artista, no génio, a política baixa não nos interessa, é-nos indiferente saber se foi a vaidade do Santana ou a do João Soares que contrataram o mestre.

Um verdadeiro conservador sabe que a arte só se pratica com o choque e a ruptura. Conservar em arte e cultura significa romper sistematicamente com padrões, com tradições. O motor da arte são as contradições.

Ao ler o Blog de Esquerda percebemos que praticou a analfabetismo deliberado, a falsa leitura de quem não quer ler e mete na boca dos outros o que nunca disseram, que é uma forma que certa esquerda tem de combater, imagina o que os outros pensam, num claro processo de intenção, e afirma que esses disseram isso mesmo, quando disseram o contrário:

1- As torres de Sete Rios (de esquerda?) são um escarro
2- Mas as de Alcântara (de direita? do centro?) são uma obra de arte e prontos
3- Dizer o contrário é pura demagogia


Nunca se disse que as torres de Sete Rios eram de esquerda, a afirmação, com o ponto de interrogação para disfarçar, de BdE é insidiososa e revela apenas má-fé numa discussão que deveria ser serena. Nem as torres de Alcântara são de direita, de centro ou de esquerda, nem as de Sete Rios são de esquerda, direita ou centro. Talvez sejam de esquerda porque lembram a arquitectura da Coreia do Norte, mas isso são outras histórias... O que é certo é que umas são de Siza e as outras não. E nós acreditamos em Siza, é o nosso postulado básico: ao génio nada se nega, Siza já provou que o que faz é arte de altíssima qualidade, logo que faça o que quer.

A nossa crítica vai para a esquerda que não percebe esse facto elementar e que não teve o engenho para chamar o Siza Vieira para projectar em Lisboa, isto enquanto a esquerda governou a cidade. Vai também a nossa crítica para a esquerda cega que se deixou ultrapassar pela esquerda baixa quando os empreiteiros, ou empresários ou lá o que são os patos bravos, a coberto ou a mando de Santana Lopes, demagogo e inculto é certo, mas esperto, como todos os bons demagogos, chamou o Siza. Só o despeito e o combate político mesquinho podem tentar deitar abaixo uma oportunidade histórica como a proposta. Se tivesse sido o Fidel de Castro a chamar o Siza Vieira para projectar o que quer que fosse nós acharíamos bem. O problema não é a esquerda ou a direita, mas o conceito estético e o eterno belo. Se um pato bravo dá um projecto a Siza Vieira deixa de se chamar "pato bravo" e passa a ser uma espécie de "Ludovico Sforza".

Se as Torres de Alcântara não se fizerem a culpa de se perder uma oportunidade histórica, de dar valor a uma zona horrenda da cidade, de ter arte na cidade, arte na vida, será dos que se dizem intelectuais de esquerda e que torpedeiam cegamente tudo o que não é da sua iniciativa, se Siza tivesse recebido o convite do Francisco Louçã para qualquer projecto já teríamos, para os rapazes da esquerda iluminada, a obra do século XXI.

Criticamos o Santana pelos cartazes, despropositados e gastos disparatados de dinheiro dos contribuintes. Mas as guerras políticas dos demagogos ganham-se com marketing. A guerra do belo ganhar-se-ia com educação, é pena que não se invista na cultura e na educação o que se investe em demagogia e na ambição pessoal dos políticos. Mas essa é uma história totalmente diferente. Uma história triste de um Portugal mesquinho e acobardado. Um Portugal que mata os seus génios, os seus referentes e valoriza o nada.

14.1.04

Concertos 


Concerto dia 14 de Janeiro no Salão Nobre do Conservatório de Lisboa
Sobre este concerto no Conservatório, sobre o Salão Nobre a degradar-se ver Artigo do Público. Assunto muito importante a que dedicaremos a nossa atenção no futuro.

Concerto sábado em S. Vicente de Fora
Muita atenção a Paula Mendes, concerto em S. Vicente de Fora, Lisboa, Orgão, sábado, dia 17 de Janeiro pelas 17h. A não perder.
Um concerto no dia de anos da Organista, os nossos parabéns e um conselho: a não perder, uma intérprete de grande musicalidade.
Teremos novas sobre o programa com brevidade.

Rameau 


Jean-Philippe Rameau, 1683-1764.
A sua fama só surge depois dos cinquenta anos, antes disso era conhecido como teórico desde os seus quarenta anos. Natural de Dijon passou a fase inicial da sua vida em viagens pela Europa fixando-se apenas em 1723 em Paris onde veio a falecer. Em 1706 publica o seu primeiro livro de peças para cravo. Em 1722 sai o seu Tratado de Harmonia. Em 1724 publica o seu segundo livro de peças para cravo. Compõe também cantatas até 1730, mas só depois desta data começa a escrever tragédias líricas, como então as óperas eram conhecidas em França. Teve muita dificuldade em encontar tema para a sua primeira ópera devido à censura. A sua primeira ópera Hyppolite et Aricie, com base na Fedra grega traz-lhe um sucesso notável e fama. Seguem-se Les Indes Galantes, Castor et Polux e Dardanus.
O seu estilo operático é baseado no recitativo infinito da tradição francesa é no entanto bastante variado e aproximas-se muitas vezes da ária e do arioso numa perspectiva que será retomada por Debussy ou Wagner.
Foi considerado após a querela dos Bufões de 1752 como um conservador na tradição de Lully. A sua última ópera “Les Boréades” só foi representada duzentos anos após a sua morte, em 1964. A sua orquestra é usada de forma muito completa, Rameau é um orquestrador: não distribuindo as vozes pelos instrumentos de forma esteriotipada, como até então se fazia. As suas composições são de dificuldade técnica muito elevada para os instrumentos da época, sendo célebre a cena do tremor de terra. A densidade psicológica dos seus personagens é também uma marcante da sua obra. Neste aspecto entre os seus antecessores apenas Monteverdi lhe pode ser comparado. Fica para a história como um cravista excelente, um teórico e crítico muito sólido e um grande compositor de ópera.


13.1.04

Foto da semana 


Basileia

Foto de Rodrigues

Outra imagem da semana 


Ria Formosa

Foto de Rodrigues

Não resistimos a colocar duas imagens esta semana, uma cidade e um caminho, a cidade por causa de uma viagem e precisamente de um caminho. Um caminho para fazer a pé, tortuoso, sobre um rio, uma travessia possível.

12.1.04

Altura e Génio 

O nosso postulado é simples: uma obra de arte fica bem em qualquer lado, sobretudo numa zona abarracada e infame como a Alcântara dos armazéns decrépitos e imundos, cheios de ratazanas.



Por outro lado as torres de Sete Rios são péssimas como arquitectura.

Entre um escarro integrado no meio de outros e uma obra de arte onde quer que seja, prefiro a segunda, não há opção.

Dizer o contrário é demagogia pura. Percebem-se os ataques a Santana Lopes, vindos de uma esquerda cega, ou que não quer ver: Santana não sabe que Chopin nunca escreveu um concerto para violino e não é de esquerda.

Mas Siza Vieira continua a ser um génio e um artista, apesar do Santana Lopes.

P.S. Quando dizemos obra de arte, dizemos isso mesmo: Obra de Arte. Poder-se-ia discutir eternamente o assunto, mas a integração da obra de arte inicia-se na sua construção e concepção, no próprio facto intrínseco, e extrínseco, da obra poder ser arte. É consensual que a arte da arquitectura pode iniciar-se pelo choque, vamos mais longe: no nosso entender deve iniciar-se pelo choque.
Mas estamos a explicar o óbvio, daí repetirmos: uma obra de arte fica bem em qualquer parte, o que não quer dizer que se possa meter, ou transportar de uma parte para outra.

11.1.04

O privilégio 

Repare-se nesta frase:

Estou de acordo com Freitas do Amaral quando este afirmou à TSF - segundo o Público de hoje - que «receio muito que o processo Casa Pia possa ser o processo do regime. Tal aconteceu nos finais da I República com o processo Alves dos Reis».

Freitas do Amaral é livre de dizer disparates, é um hábito antigo do Freitas. Matamouros segue alegremente no caminho do esquerdista, centrista que pisca o olho à direita sem esquecer de dar a mão ao PS, e nem repara, porque desconhece, que Alves dos Reis começou a ser julgado em 1930. Um processo que vem da primeira república (em minúsculas) mas bem dentro de um novo regime instituído em Maio de 1926, regime que viria a ser chamado de Estado Novo. Se estivéssemos na primeira república Alves dos Reis teria sido libertado em pouco tempo. Como se alterou a lei para o caso de Alves dos Reis, que foi julgado por um tribunal especial, o célebre vigarista só sairia da cadeia em 7 de Maio de 1945.

As naturezas dos crimes de Alves dos Reis e dos falados actualmente são completamente diferentes. Como se sabe tratam-se de casos totalmente díspares. Ao caso hoje na ordem do dia o blogue Matamouros dedica a maior parte dos seus posts, numa obsessão incontrolável. Mas os crimes são fenómenos pessoais praticados por indivíduos por sua livre vontade, estes são ou não punidos pela sociedade, os criminosos são ou não regenerados pela sociedade que, infelizmente, é geralmente ineficaz neste capítulo para nós essencial. A sociedade deve manter um sistema democrático e um sistema de justiça, pago pelos contribuintes. Se o sistema prova ser falível pode e deve ser melhorado pelo sistema democrático. Nós gostávamos de ver as alternativas propostas pelos maledicentes crónicos. Defendemos que a crítica é legítima se for de coração puro e saudável, nenhum tema deve ser intocável, mas para se construir, para abrir portas e não para destruir de forma sistemática e com intenções escondidas. Infelizmente é mais difícil em política apontar caminhos, em música pode-se sugerir um melhor fraseado, uma maior preocupação com a afinação, mais trabalho de um naipe ou de outro, podem-se apontar caminhos estilísticos, etc...

Nunca uma sociedade poderá ser condenada pelos crimes cometidos pelo livre arbítrio de pessoas. Qualquer liberal sabe isso, menos Matamouros. Mesmo os crimes de regime são sempre crimes de pessoas, seria completamente indigno condenar sociedades inteiras, ou nações, pelos crimes dos seus dirigentes. Por isso não condeno nem os palestinianos nem os israelitas, no seu todo, ou os alemães, na segunda guerra mundial, ou os americanos, por usarem a bomba atómica, num manifesto crime de guerra. Os responsáveis pelos crimes têm nomes.
Matamouros, por generalizações abusivas faz corar de vergonha qualquer conservador, e também pela agressividade, pela violência verbal, pela deselegância e, já agora, pela ignorância. Quem tem aliados destes, mesmo que de direita, deveria preferi-los como adversários. Nunca renunciarei ao privilégio de escolher os primeiros, os segundos eles que escolham...

Basta reparar no título do blogue para se perceber de que gente se trata.

9.1.04

A não esquecer na Igreja de S. Roque em Lisboa 

Concerto de Ano Novo com obras de Carlos Seixas
Coro Voces Caelestes e Orquestra Barroca Capela Real, direcção de Stephen Bull.
Igreja de São Roque, 10 de Janeiro, 21h. Largo da Misericórdia, antiga cabeça da ordem dos Jesuítas em Portugal.

1.ª parte:

Dixit Dominus
Verbum Caro Factum Est

------ intervalo ---------

2.ª parte:

Missa em Sol Maior

------- Solistas -----------

Ruth Dutra, soprano
Ricardo Ceitil, contratenor
Gonçalo Pinto Gonçalves, tenor
Carlos Pedro Santos, barítono

O genial coimbrão, Carlos Seixas, fazia em 2004 trezentos anos de vida, infelizmente não passou dos trinta e oito. O ano 2004 é o ano de Carlos Seixas e Marc Antoine Charpentier (este último pelos trezentos anos da sua morte).
A missa em Sol Maior é uma obra maior do reportório barroco universal, podemos esperar um bom concerto, esperamos ir, ver e ouvir.

8.1.04

Marko Letonja, um Maestro com M grande 

Um ouvinte que assistisse de olhos vendados ao concerto da OSP nunca acreditaria que tivesse sido a mesma orquestra a actuar na primeira e na segunda parte! Será que a orquestra que tocou a Burleske de Richard Strauss foi a mesma que interpretou a 5ª de Mahler? Ou teria sido uma ilusão de óptica? Antes do intervalo um Strauss desinspirado, sempre em cima do arame ("Ai, ai, ai!!! Que vamos parar ao chão e ainda por cima não temos rede!").
Por acaso nem houve feridos, até se conseguiram segurar, ainda que com alguns solavancos, mas claro que nesta situação não se pode falar de interpretação.
O maestro Marko Letonja, um jovem inteligente e com bom senso, também não quis arriscar muito aqui, preferiu jogar pelo seguro. O mesmo se pode dizer do ainda jovem Pedro Burmester, que mais uma vez se fartou de martelar o Steinway (sim, era mesmo um Steinway, se fosse um Yamaha ainda se podia pensar que a culpa era do piano). Mas até dói dizer isto, o Pedro é um rapaz simpático, cheio de talento e intuição musical. É frustrante termos sempre a nítida sensação de que está a tocar aquém das suas capacidades. Mas ele lá sabe a opção que fez. Quando a Casa da Música estiver pronta (numa data incerta que nem Deus conhece) veremos se valeu a pena o sacrifício.
Regressando ao CCB: na segunda parte, o milagre! Chegámos a pensar que o Letonja tivesse trocado a batuta por uma varinha mágica durante o intervalo, mas o segredo não tem nada de sobrenatural: trabalho profundo e rigoroso (do todo e dos pormenores), uma técnica de direcção precisa, clara e apaixonada. Letonja domina a orquestra como um virtuoso domina o seu instrumento, sabe modelar as sonoridades, possui a arte do fraseio, consegue dosear bem o peso de cada naipe (e a 5ª de Mahler não é pêra doce). Em suma, sabe bem o que quer e sabe-o transmitir aos músicos. Resultado: o som de uma verdadeira orquestra sinfónica (um som mahleriano sem dúvida), transparência de detalhes, uma concepção profunda da obra: a tensão e o drama, a tragédia e a ironia, o lirismo e a trivialidade dos ländler e valsas, a serenidade contemplativa do Adagietto e o triunfo luminoso do Rondó Há muito tempo que não tinha tanto prazer em escutar a OSP. Até quase nos tinhamos esquecido que tal coisa era possível! No fim do Scherzo, um dos espectadores não resistiu a gritar um "Bravo" (merecido). A parte da trompa solista também correu muito bem. Claro que nem tudo foi perfeito. Os violinos estão melhorzitos mas continuam a precisar de trabalho de fundo e houve um ou outro deslize aqui e ali, mas ouviu-se sempre Música com M grande, dirigida por um Maestro com M grande. Se a OSP tivesse um titular como este outro galo cantaria! E ainda por cima, além de talentoso e profissional, é um maestro com boa presença, dá gosto vê-lo dirigir!
Curiosamente os maestros em Mahler têm sido de grande nível, tivemos oportunidade de escutar Tate na 9ª de Mahler, antes do Verão de 2003, e a orquestra esteve também em grande plano. A prova de que a orquestra é de boa qualidade. O problema é a direcção, já foi escrito aqui e voltamos a repetir.

6.1.04

Imagem da Semana por Rodrigues 


Serpa

Foto de Rodrigues

Agenda 

Dia 6 de Janeiro estava prevista a Maria João Pires no S. Luiz, mas parece que cancelou, um velho costume da senhora, uma pianista de enorme craveira, mas que, ciclicamente, desrespeita o público. Há algum tempo que isto não acontecia, espera-se que não volte ao hábito antigo de cancelar metade dos concertos e de mudar os programas aos outros já depois de entrada em palco.
A ópera no Teatro Aberto continua, e parece que se recomenda, ler crítica cuja autora aconselha esta obra, eu confio no julgamento de Teresa Cascudo, pelo período musical em causa. A ver a ópera e a ler crítica, espero ver um destes dias...
Dia 6 a sinfónica estará no CCB para obras de Strauss e de Mahler.

Gustav Mahler
Quem gosta não deve perder, tendo em conta que a sala tem condições para se ouvir música.
Dia 10 um concerto de Natal em S. Roque, espero dar mais detalhes deste concerto rapidamente.
Sequeira Costa na Gulbenkian, dia 5 já passou, dia 6 outra vez, o programa é bom: Beethoven, o pianista já está expirado e prefiro recordar Sequeira Costa nos seus grandes momentos, mas há adeptos incondicionais.

Bolsa 

O modelo sobre o qual eu falei anteriormente que é usado no BNP para investimento automático na bolsa é um modelo de curtíssimo alcance, funciona com compras e vendas com períodos de minutos, a validade das previsões dissipam-se no máximo de dois dias, como se sabe quando os resultados já estão próximo do aleatório, nos papéis do Dow Jones um período útil de previsão é apenas até à sessão seguinte, não sendo utilizável de sexta para segunda. Para se ganhar dinheiro não se pode investir como particular, só um institucional pode ter resultados por causa das comissões. Os ganhos por transacção são reduzidos, têm de se realizar muitas transacções para se obter lucros consistentes. Chama-se a isso peneirar na espuma das flutuações. Ganha-se e perde-se, mas o balanço é claramente positivo, mesmo quando a bolsa cai, que é o mais importante neste modelo.
Usar este tipo de modelo para previsões para um ano completo é impossível, só quem não tem a menor noção deste tipo de fenómenos é capaz de pensar semelhante coisa, este é um modelo de curtíssimo prazo.
Investimentos utilizando modelos mais complexos com prazos maiores implicam riscos extremos, geralmente só funcionam quando o mercado está a evoluir numa direcção certa, trend. Não falarei mais sobre o mecanismo destes modelos de curto prazo.
O uso de modelos automáticos de prazo elevado, dias ou mesmo semanas, que foram infalíveis durante algum tempo e que deixaram os investidores (e teóricos) histéricos, resultaram catastóficos quando o mercado mudou subitamente de direcção. Não vou citar exemplos, mas houve um célebre investidor que se viu em muito maus lençóis... Teve a ver com a teoria de comprar de cada vez que os futuros baixavam! E não falo do Nick Leason (o bancário) por ser um caso grosseiro.
Curiosamente a Itália entra no Euro, moeda e não no futebol, por um mecanismo quase do mesmo tipo, mas isso é outra história... que um destes dias alguém contará num blogue.
Eu volto para a música.

3.1.04

A ciência moderna e o positivismo - teoria do caos e seus ensinamentos 

Causa Liberal diz que este Blogue é positivista. Serve este post para explicar que a crença na ciência, na matemática e na capacidade de previsão da economia não é uma afirmação positivista; que a questão do positivismo está ultrapassada do ponto de vista epistemológico e ainda para explicar alguns factos a quem, por acaso, nos lê.

A Ciência moderna não é positivista, antes pelo contrário! Ao admitir que um sistema é complexo, e mais do isso: caótico, negamos objectivamente o positivismo. Passamos a explicar, uma vez que os nossos leitores poderão ser leigos nestes assuntos.

Tentaremos ser simples e pedagógicos.

Falamos então de fenómemos que são objecto de estudo da física e da matemática, fenómenos clássicos, gases, atmosfera, mesas de bilhar, turbulência, etc, etc, etc, falamos também de fenómenos oriundos das ciências sociais, económicas ou financeiras, que nos chegam às mãos como séries temporais, exemplo: taxa de inflacção ao longo dos meses, cotações na bolsa, taxas de natalidade, fluxos de investimento, capitais acumulados, taxas de reinvestimentos, etc, etc, etc.
Nem sequer falamos de fenómenos incluídos na microfísica e abrangidos pelo princípio da incerteza, muito mais complicado de abordar numa breve análise epistemológica.

O que a ciência moderna, incluindo a física e a matemática nos têm ensinado nestes últimos trinta anos, no estudo destes fenómenos complexos, é que a capacidade da previsão de um sistema deste tipo é limitada. Mesmo que saibamos as condições iniciais com uma precisão arbitrária, a capacidade de previsão poderá diminuir exponencialmente com o tempo. Daí as previsões em meteorologia serem muito limitadas no seu alcance temporal. Daí o bilhar às três tabelas ser muito mais complexo que o bilhar às duas tabelas e este mais complexo que o bilhar com uma tabela, e por diante.
Por outro lado o conhecimento de invariantes pode dar indicações muito objectivas a longo prazo, exemplo: a temperatura média a subir tem consequências muito precisas na precipitação, no nível dos mares, nos ventos, etc, etc, etc. A emissão de moeda terá consequências na inflacção, nas taxas de juros, etc. A diminuição global da taxa de lucro terá efeitos nas taxas de desemprego e por aí fora.

A matemática ensinou-nos que existem invariantes de grande importância que nos dão, com grande rigor, propriedades de cada sistema: existência de órbitas periódicas, recorrência, a medida da complexidade que é a entropia topológica que, por outro lado, pode medir a quantidade, ou ausência, de informação. Temos também a temperatura e a pressão, conceitos não válidos apenas em física do ambiente, mas usados em sistemas dinâmicos abstratos e com significados importantes. Há propriedades topológicas e métricas. As propriedade topológicas não dependem da escala, dependerão do sistema em si e da forma como os conjuntos são definidos. As métricas dependem da escala do fenómeno, da medida, da definição de norma como dizemos em matemática.

Estes invariantes são próprios de cada sistema e dizem-nos o que se pode esperar, em termos de comportamento global e, às vezes, em termos de comportamento local. Dizem-nos que pode, ou não, ocorrer uma bifurcação nas órbitas (uma mudança de comportamento topológico ex: equilíbrio atractivo torna-se instável, etc), ou uma catástrofe, no sentido da teoria de René Thom, uma queda de potencial súbito sem hipótese do sistema regressar ao estado inicial.
Exemplo: panela de pressão fechada, que se aquece até determinado ponto, se se desliga a fonte de calor volta ao estado inicial, se não se desliga explode, esta explosão é uma catástrofe. Assim se passa com uma grávida, o seu estado evolui suavemente até ao nascimento da criança em que se dá uma quebra súbita das condições do problema, neste caso não se pode desligar a fonte, nem a catástrofe, em termos matemáticos, é uma catástrofe, em termos do senso comum! Outro exemplo será o da empresa que pode ter altos e baixos mas se passar por um ponto crítico demasiado baixo falirá, este limiar depende muito do país.

O que se passa é que estes conceitos são altamente complexos para pessoas com pequena formação em matemática, o que é uma pena, e sobretudo para o público português em geral, muito distante da ciência, desvalorizada habitualmente em termos sociais, exactamente pela ignorância e analfabetismo congénitos de Portugal, que se estende aos governantes que desvalorizam e não investem no assunto e passando pelos professores de que dispomos e que são incapazes de motivar.

Usei o exemplo da meteorologia, porque mais acessível ao leitor comum, é um sistema complexo e mais do que isso: caótico, daí o termos citado o uso de modelos de investimento por computador e totalmente automatizado, que funcionam e dão lucros aos bancos com compras e vendas de acções e de futuros. Mas as previsões são probabilísticas, nem sempre se ganha dinheiro com os modelos matemáticos (mesmo que bem feitos), nem sempre chove quando a chuva é prevista. Mas saber que se aproxima uma catástrofe, poder intervir enquanto há tempo é crucial, e para isso cá está a ciência, mesmo que não saibamos o momento exacto em que esta catástrofe se dará.

O reconhecimento destes simples factos da natureza complexa dos fenómenos, e demonstrados matematicamente, são a negação de qualquer positivismo em termos epistemológicos, esse problema já nem se põe ao cientista hoje, está para além dessa questão, põe-se apenas aos "investigadores" das ciências socias que ainda estão a discutir o positivismo do século XVIII, porque não entraram na linguagem das ciências de hoje e são incapazes de o fazer. Ler um artigo sobre a desconstrução do PI num livro obsceno, que nem cito aqui, é penoso. São esses "cientistas" sociais, exemplo Boaventura Sousa Santos, que sem perceberem patavina do que estão a falar aceitam um artigo como o de Sokal como uma obra prima e não percebem que o artigo era para o gozo! (Boaventura é citado nesse artigo, não esquecer) Sokal escreve uma obra prima, de facto, ao mostrar que o "o Rei vai nu" nas ciências sociais, e que um dos mais tristes aspectos das ciências, hoje, é o divórcio entre os verdadeiros cientistas, que não perdem tempo com "desconstrução", e os "cientistas" sociais que não percebem nada do que se faz em ciência hoje.

Resumo: As ferramentas da ciência, e sobretudo da matemática, ajudam o político a decidir, ajudam o economista a elaborar. Não são certezas. A generalização do post citado da Causa Liberal é abusiva. O conhecimento científico ensina a não se ser positivista. As novas descobertas da matemática, no campo dos sistemas dinâmicos discretos e contínuos, e a análise de sistemas dinâmicos caóticos ensinam-nos que é impossível prever o comportamento dos sistemas sabendo apenas alguns invariantes. Mas que se podem tirar conclusões que nos podem ajudar a viver melhor. Podem todos ter a certeza desse facto, é aproveitado hoje por bancos deste mundo para fazer bom dinheiro à custa dos outros investidores, e muito bem. Negar a capacidade de previsão da ciência, mesmo que limitada, no estudo dos fenómenos caóticos é um erro que mostra ignorância nos avanços que se têm feito recentemente nestes campos.

Negar o valor da ciência é uma afirmação que parece ter saído da cartilha de um inquisidor da Idade Média e não de alguém que quer ver as suas ideias respeitadas no século XXI.

Conservadorismo e ideologia É-se conservador porque se é inteligente, não porque sim! Conservar o que há de bom no mundo, no respeito que devemos ter pelo mundo, pelas pessoas. Acreditamos no valor pessoal, no entanto também acreditamos no valor do estado como emanação dos valores sociais e da democracia. O equilíbrio é a nossa razão, desde que as relações sociais existem, as sociedades humanas necessitam de escalas organizativas. Tem sido demonstrado ao longo dos séculos, e desde os tempos mais remotos que os indivíduos em sociedade escolhem dirigentes e as elites surgem naturalmente, sempre. É a natureza humana. E, curiosamente, até somos liberais, acreditamos que o indivíduo nunca deve ser subjugado pelo estado, uma vez que esse estado deve servir os homens. Mas não somos excessivamente liberais, porque não gostamos de ver indivíduos despojados das mais elementares condições de vida porque o mercado assim o ditou. Seremos conservadores, liberais mas humanistas. Defendemos impostos e sistema de assistência, e a existência de um estado capaz de intervir onde valores importantes para a sociedade, e logo para a maioria dos indivíduos estejam em perigo por causa de um mercado inflexível, automático e desumano. Exemplos onde o estado deve intervir: ambiente, segurança pública, justiça, saúde, educação, defesa, assistência, igualdade de oportunidades, fisco, cultura e património... Com custos mínimos, com eficiência, com a ajuda e contratação da iniciativa privada. Ajudando os que são mesmo carenciados, reduzindo aparelhos e sem burocracia. Acreditamos no equlíbrio entre estado e indivíduo sem esquecer que o estado são as pessoas.

P.S. Um elogio ao Causa Liberal que, ao contrário de outros, acrescenta argumentos para uma discussão interessante sobre estes assuntos, motiva assim uma resposta deste blogue e uma troca de reflexões que parece interessante, discordámos mas gostámos do post de causa Liberal.

Hoje S. Vicente de Fora 

Hoje em S. Vicente de Fora, 17h, João Vaz, organista, obras dos mais variados compositores.
Hoje no Teatro Aberto estreia uma ópera com encenação de Luís Miguel Cintra. A vida musical retoma o seu ritmo, depois de desaparecida durante o Natal e fim de ano. Ao contrário das outras capitais europeias morre-se musicalmente em Lisboa no tempo do Natal. Uma desgraça.

2.1.04

A ignorância 

Mais um post de Liberdade de Expressão em que se esperava que se rebatesse a nossa afirmação de que a economia como ciência deve servir para prever. Pelo contrário preocupa-se com a meteorologia, usada por nós apenas como exemplo de um sistema complexo e previsível. Duvidando L-d-E que o sistema meteorológico é mais complexo que a economia consegue-se preceber que o autor ainda está na idade da pedra da ciência e poucos conhecimentos tem, a arrogância da ignorância é realmente insondável.
É evidente que o sistema económico depende de muitos factores, mas só depende da meteorologia pelas causas que esta produz, que são completamente modeláveis, consideradas de forma estatística e não em termos do número de moléculas presentes no sistema atmosférico, nos oceanos, nas calotes polares, na terra e que constituem o sistema complexo da meteorologia. Não se está a falar de alguns milhões de agentes económicos, produtores e consumidores que tentam produzir com o máximo de lucro e um mínimo de custos. O problema é o modelo, enquanto a Matemática ajudou a Física a encontrar as equações de Navier Stokes, que nos dão um modelo muito aceitável para a atmosfera, os economistas nestes anos todas andam a discutir se o estado deve ou não intervir na economia com argumentos aristotélicos e do senso comum, como tão bem L-d-E sabe fazer.
Para se perceber a falácia das argumentações de L-d-E acrescentamos que o sistema económico também actua sobre o sistema meteorológico e que, mesmo assim, este continua a ser previsto de forma muito acertada, no curto prazo. O estudo do clima também está a avançar nas previsões de longo prazo. Sabe-se o que vai acontecer se o sistema económico continuar a destuir o ambiente como tem sido feito, procurando os empresários apenas maximizar lucros. Claro que o argumento de L-d-E será: se o ambiente for muito destruído os lucros começam a diminuir e os empresários mudam de estratégia! Os governos não devem intervir, a terra sofre um bocadito, mas depois volta tudo ao normal, isto se a economia liberal funcionar na perfeição! Começa tudo a ser amigo do ambiente... Nem vale a pena discutir a imbecilidade de um "argumento" liberal típico como o anterior. É claro que o processo é irreversível, um matemático percebe, um físico percebe, qualquer pessoa que nos lê percebe a menos que seja liberal.
Voltemos à bolsa, L-d-E não sabe se os autores deste blogue ganham ou não dinheiro na bolsa, nem vai ser informado desse assunto que não lhe diz respeito, no entanto afirma alegremente Quem fala assim não devia escrever Blogs. Devia jogar na bolsa a tempo inteiro. Devemos informar L-d-E, talvez não saiba, que o BNP Paribas, banco que conhecemos bem, tem um sistema de investimento automático programado em computador, da autoria de um grande amigo nosso, doutorado em física, que, sem intervenção humana, e a título experimental, permitiu obter lucros de muitos milhares de milhões de euros nos mercados asiáticos no ano passado (2003). Porquê mercados asiáticos? Porque eram mais voláteis, porque trabalham as horas em que os serviços do BNP, situados em Paris, não tinham as salas de mercados tão activas, porque menos predictáveis; ou seja: o modelo teria de passar por uma prova de fogo e passou! A início foram feitos testes com investimentos fictícios e parecia que resultava, depois começaram-se a investir quantias experimentais, resultava, quando se aumentou o volume máximo diário de compras o modelo comportou-se de forma notável. Não foi publicado qualquer estudo sobre mecanismo do modelo, como é evidente. Aliás, os estudos matemáticos nesta área têm vindo a público sempre com consideráveis atrasos sobre a sua concepção, isso é patente também na área da criptografia, o que se compreende. Os modelos funcionam. Claro que a bolsa não é exemplo do sistema económico global, é uma parte turbulenta dentro de um sistema maior. Um físico perceberia que a parte pode ser mais complexa que o todo, que as médias não são muito sensíveis a flutuações locais, mesmo que extremas. Claro que estas oscilações locais influenciam o todo, mas o modelo económico de longo prazo integra (em termos matemáticos) os seus efeitos. Logo citar a bolsa para tentar rebater o que afirmámos é mais uma prova de ignorância e falácia aristotélica.
Há previsões em economia, se os bancos centrais emitirem papel moeda gera-se inflacção, um exemplo muito concreto, querem mais? Não há melhores previsões porque existem economistas que negam o papel da matemática e da ciência. E não só se negam a trabalhar nesse campo, como dinamitam o trabalho dos outros, por motivos ideológicos. O que é certo é que nunca haverá certezas, mas a ciência nunca deu certezas, nem isso lhe é pedido.
Outra pérola: Se a capacidade de previsão aumenta o sistema não se modifica, mais um disparate crasso do autor de L-d-E que entra em contradição consigo próprio, se o sistema económico está ligado por acoplamento ao meteorológico, ao aumentar a previsão do sistema meteorológico vai-se perceber que caminhamos para o aquecimento global, logo o sistema económico adapta-se tentando corrigir esse efeito, o sistema meteorológico é influenciado. Se quisessemos levar o raciocínio ao extremo e aproveitássemos a ideia do acoplamento de L-d-E, como este próprio o faz, diríamos que ao prever o sistema meteorológico estaríamos também a prever o sistema económico e que actuando sobre a economia se poderia controlar o clima. Acaba por ser verdade, mas pelas razões mais penosas, se deixarmos o sistema livre, sem intervenção dos estados, entramos num processo irreversível de destruição global, para onde nos leva, de forma inconsciente, a teoria liberal.

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