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24.11.04

"Arte Molecular": um Sokal às avessas 

"Arte Molecular": um Sokal às avessas
por João Tenório Castanheira

A exposição "Arte Molecular - Formas não convencionais de representação molecular", de Nuno Micaelo, presentemente na Sala Laman do CCB, explora formas de representação gráfica de moléculas biológicas. A exposição consiste em várias fotografias e uma instalação de vídeo criados digitalmente, aparentando tratar-se duma simples mostra de ilustração científica menos convencional. Com efeito, conquanto a preocupação estética na escolha de representações seja manifesta, não transparecem claramente uma intenção ou um objecto de natureza essencialmente artística. Esta ideia é reforçada quer pelo texto auxiliar que acompanha a exposição, onde as considerações de índole científica são abundantes, quer pelos títulos das obras expostas, um verdadeiro rol de jargão e acrónimos científicos. Assim, dir-se-ia estarmos perante um perfunctório exercício estético para divulgação ou recreação científicas, passível, sem dúvida, de cativar um público mais inclinado para tais temáticas, mas incapaz de suscitar considerações ou reflexões mais profundadas, desde logo devido à aparente inexistência dum objecto sério de reflexão.

Uma tal leitura da exposição é sem dúvida possível, e talvez mesmo a mais provável para o grande público, mas certamente aquém do seu real conteúdo. Paradoxalmente, o autor parece ter-se esforçado para que assim fosse, dissimulando cuidadosamente a atitude profundamente crítica que subjaz afinal ao seu trabalho. As pistas foram espalhadas com parcimónia pelo texto auxiliar, mas estão lá para quem quiser vê-las. A questão central encontra-se de forma velada algures no meio do texto, onde é referida de forma aparentemente inocente, quase parentética: "A particularidade de ser impossível obter uma imagem directa (instantânea ou dinâmica) da realidade dos acontecimentos moleculares, reforça o questionamento da sua representação." Os aparatos técnicos à disposição do cientista são pois insuficientes para produzir uma representação que não seja subdeterminada pelos factos deles resultantes (a caverna de Platão é mencionada), numa espécie de versão gráfica da tese de Duhem-Quine. Mas, trabalhando activamente na investigação dos aspectos teóricos moleculares, Micaelo sabe que a representação é crucial para a interpretação e que, ao efectuar este exercício, "questiona-se a forma como as moléculas são representadas e inevitavelmente a sua interpretação". Ou seja, não estamos perante uma mera liberdade na escolha da ilustração, mas antes face a uma verdadeira subdeterminação epistemológica, que expõe de modo evidente a extrema subjectividade ontológica dos objectos moleculares construídos segundo a ortodoxia interpretativa. Desta forma, o conteúdo da narrativa científica dominante, baseado nas representações moleculares convencionais, é facilmente posto em causa: a escolha de representações alternativas não convencionais tudo altera, "transfigurando e reinterpretando os objectos", acabando por "confrontar os cientistas com o seu objecto diário de trabalho que se encontra agora descaracterizado dos seus elementos comuns de interpretação". Desta transgressão resulta uma multiplicidade feyerabendiana de representações/interpretações possíveis (ilustrada, por exemplo, com "Cutinase" e "Androgen"), que cria um impasse ao investigador, num evidente confronto entre paradigmas do mundo molecular. O que Micaelo acaba por apresentar é a proposta duma dialéctica metodológica para contornar a incomensurabilidade kuhniana entre estas alternativas: a estética como modo de legitimação científica. O resultado desta abordagem liberatória é uma humanização da práctica científica e do próprio investigador. Estamos pois face a uma séria reflexão epistemológica que acaba por contextualizar-se numa dimensão estética.

O que é surpreendente neste trabalho é o facto do autor ser ele mesmo membro integrante da comunidade científica convencional. Assim, não estamos perante um ataque à metodologia científica vindo do exterior (das humanidades, o "inimigo de estimação"), mas antes perante a reflexão corajosa e profundamente crítica dum dos intervenientes no jogo científico. Micaelo surge pois como uma espécie de "Sokal às avessas", que denuncia o relativismo e incerteza existentes no interior da sua própria área de actividade. Talvez isso explique a recorrente dissimulação que percorre todo o texto, e que termina com a deliciosa afirmação de que "o autor apenas propõe [...] um olhar pessoal e acientífico do mundo molecular". Como se tal pudesse "desculpar" tudo o que acabou por dizer! Mas, afinal, talvez isso seja suficiente para que a provocação passe despercebida à maioria dos seus pares, pois não deixa de ser irónico que uma boa parte dos seus patrocionadores pertençam, pela acção ou apoio, ao meio da tecnociência. É caso para dizer que talvez esse rei não vá nú, mas vai certamente tão fascinado com a sua vistosa indumentária que não nota os olhares trocistas da sua própria corte.

João Tenório Castanheira

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