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4.10.04

Resposta de M.P. a Duncan Fox 

A pedido do Henrique Silveira, pai espiritual deste Blog, tentarei dar alguns esclarecimentos aos conceitos formulados por D.F no seu email.
Em primeiro lugar quero aqui também motivar o crítico dos críticos, como os críticos oficiais chamam ao Henrique Silveira, a dar também uma resposta a quem, como no caso do D.F., aponta o indicador para este blog como um lugar em que se pratica a crítica ofensiva de músicos e afins. Eu, pela minha parte, limito-me a dizer com conhecimento do assunto que estou a tratar que, infelizmente, os músicos são, provavelmente, dos mais hipócritas entre os artistas. Muito sensíveis em termos de crítica, só aceitam a mesma quando feita por eles mesmos. A mesma coisa diga-se pela questão autocrítica: é sempre desculpabilizante dos erros e autocomiserativa.
Relembro-me muito bem das críticas muito bonitas feita neste blog a vários concertos da OSP e, em muitos casos, directamente para os músicos da mesma. O solo do Corne Inglês do terceiro acto do Tristão, os concertos dirigidos por Tate e alguns outros são só alguns dos exemplos, como noutros casos foram as chamadas de atenção para as pouco respeitosas condições de trabalho que até agora os músicos das orquestras, especialmente a do TNSC, têm de suportar. Muitas críticas favoráveis foram feitas aos concertos na Gulbenkian e a concertos no estrangeiro. Curiosas também as críticas negativas a agrupamentos estrangeiros que actuaram aqui e mesmo a artistas muito consagrados como Vengerov, Brendel e muitos outros.
No entretanto é verdade que, por aqui, não se anda com mentiras ou paninhos quentes e não é uma vergonha dizer que ainda hoje uma grande percentagem das actuações em Portugal é maioritariamente de baixo nível, às vezes de péssimo nível, não por falta de talento ou de condições mas por sistema e preguiça. “Para quem é bacalhau basta!”.
Falamos como amantes da música, aquela que os músicos deveriam servir da melhor forma, falamos também como utentes que esperam e pretendem não ser confrontados com actuações de qualidade duvidosa por desrespeito para com os ouvintes e compositores. Gostamos da música e achamos que os músicos deveriam ter a mesma atitude; esperamos que os músicos não se queiram substituir à musica e não tentem iludir quem vê nela uma grande expressão da humanidade. Mais preparação, mais respeito, sentido crítico e autocrítico, menos egocentrismo. Acho que são componentes mínimas. Infelizmente isto não acontece muitas vezes e ficamos tristes quando os músicos, como os mercadores do Templo, tentam guardar o segredo desta mentira, achando que ninguém percebe ou que possa permitir-se dizer qualquer coisa neste domínio. Afinal somos nós que ouvimos, que pagamos os bilhetes e os impostos de onde sai o dinheiro dos subsídios que sustentam os músicos. Nós que ouvimos temos o direito a criticar, sobretudo quando somos enganados! Sobretudo quando lemos e estudamos sobre o assunto que todos deveríamos amar: a música.
Vamos agora ao assunto relacionado com o email do D.F.; tentarei ser breve já que não me interessa a polémica sem outra finalidade que não a pedagogia. Não me interessa fazer uma exposição do “vazio sob vácuo”. De qualquer forma acho que isso não acabaria por ser tão “soul-saving” como o D.F. poderia esperar.
Quero em primeiro lugar pedir desculpa para não me ter relembrado do seu nome como actuante ao violone (em ré ou de 16 pés) naquele concerto caro Duncan Fox. Espero que não seja esta uma razão parcial da sua indignação. O programa, além dos imensos curricula de Mestre Bull e do Engenheiro Paiva (...) nem os nomes dos músicos trazia. Não tenho o dever de relembrar ou citar os actores na primeira pessoa, o que me interessa é o resultado. As minhas desculpas também por não ter esclarecido desde o princípio, e com mais exactidão, as vertentes da minha crítica. É verdade: havia um violone em ré com “tastos”. A minha atenção era, de facto, direccionada para a falta do violone em sol de oito pés, ou Violoncino, ou Baixo Francês e/ou de uma viola de gamba.
Discordo de maneira absoluta acerca da suposta falta de alguns destes instrumentos nas orquestrações de Charpentier, mas mesmo que a falta de um ou outro instrumento pudesse ser admissível, uma orquestra barroca nunca seria composta como a capela real se apresentou. A presença da viola da gamba e do Violoncino em sol é absolutamente documentada, assim como a do Violone quando integrado em agrupamentos que incluem violoncelos. A este propósito quero sugerir ao D.F. que inclua na sua irresistível biblioteca de manuscritos uma edição do Ausserlesener mit Ernst Lust-gemengter...(1701) de Georg Muffat. A data deste tratado é importante se observarmos o período de vida e a data da morte, três anos mais tarde, de Charpentier e de Biber.
Outra leitura para completar à famosa biblioteca do D.F. seria o Dictionaire des termes... de Sebastien de Brossard publicado na mesma data de 1701. Espero que esta sugestões possam ser úteis ao nosso amigo para convencer-se que, sim senhor, o Basse de Viol e o “Violoncino” eram instrumentos favoritos da Corte de França naquele período e que dois violoncelos e um violone em ré sem teorba tal como a Capela Real se apresentou é puro “nonsense” em termos musicológicos e, pior, musicais.
Espero de ter atendido ao seu pedido de esclarecimento e de ter feito uma coisa agradável ao ter-lhe sugerido as leituras que poderão esclarecer algumas das suas, muitas, dúvidas. Poderá assim evitar divulgar patetices ressentidas ditadas apenas pelo orgulho, um pouco corporativo, aos nossos quatro ou cinco leitores.
Constato que o nosso amigo, vivendo em Portugal há muitos anos segundo creio, continua a dominar única e exclusivamente a lingua da Rainha Elisabeth, aliás com muita propriedade. No entanto os tratados citados são em Alemão e Francês o que lhe poderá trazer alguma dificuldade no entendimento do fundamento do assunto.
Finalmente fico feliz ao constatar que, com a excepção do assunto inerente aos baixos, em princípio o amigo D.F. está de acordo com o resto da crítica visto que não discordou de mais nada.
Bem haja
M.P.

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