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27.9.04

Capela Real em Coimbra 

Encontro-me por casualidade em Coimbra neste fim de semana, onde decorreu esta noite um Concerto da Orquestra "Capela Real".

Em programa música de Charpentier, Biber e Carlos Seixas.

Admito que fui a este concerto como quem vai para o patíbulo já que estava a espera de assistir a um dos piores concertos dos últimos anos; enfim, a Capela Real nos últimos anos tem dado argumentos para se estar sempre à espera do pior.

Afinal não foi péssimo; só foi mau.
O que salvamos deste concerto é a sensação de que se o grupo foi menos desafinado do que em outras ocasiões mas além disso pouca coisa ou nada.
Sinto-me até constrangido e peço desculpa, estou a tentar de ser o mais humano possível mas, contudo, não consigo esquecer as coisas más que a Capela Real continua a mostrar desde a sua fundação.

O facto, parece-me, é que quando se aborda um repertório tão variado como o da música pré-clássica seria necessária uma grande capacidade de saber dizer através da leitura musical e da oratória quais as vertentes, quais as ideias, de um mundo de invenção retórica, musical, emocional; queremos saber distinguir as diferenças e as razões que fazem a música Francesa tão diferente da música Alemã. As diferenças de tratamento harmónico, de tessitura e de utilização da orquestração. As Diferenças!
Para além disso a música deveria dar-nos prazer para além de todas as considerações teóricas.
A Capela Real conseguiu uma espécie de globalização nivelada para baixo de tudo isto; desde Charpentier, até Seixas e Biber este agrupamento manifesta uma abordagem absurdamente pobre de todo o material musical e instrumental.
Um exemplo paradigmático disto foi a primeira peça; o Prelúdio do Magnificat de Charpentier; parecia uma Missa dos Mortos e cheguei a perguntar-me se por acaso os músicos desta orquestra tinham claras na cabeça as duas perguntas que, penso eu, um músico deveria fazer a si mesmo quando aborda uma interpretação: o que significa "Magnificat"? quem é Charpentier? ou o que quer dizer-nos, quais são os "affectos"?

É claro que a Capela Real foge de todas as mais elementares leis da "prattica".
Som sempre igual, fraquinho e monótono durante todo o concerto, sem variação alguma que não a dada pela desafinação, mesmo assim, como expliquei mais acima, foram menos pronunciada do que em outras ocasiões mas que, por absurdo que possa parecer, a falta da desafinação total acabou por aumentar a monotonia.
Nas intenções musicais passa-se a mesma coisa, parece que os músicos da Capela Real têm um treino especial para desenvolver frases castradas e castrantes, sem nunca demonstrar um momento de orgulho, de alegria, jóia, e personalidade. Sem programa à nossa frente não se poderia adivinhar quem eram os compositores da noite bem como reparar se existe alguma diferença entre os mesmos.

Em primeiro lugar os protagonistas!
Stephen Bull; é uma anedota, um enorme bluff (talvez nem isso já seja). É possível que tudo aquilo que ele faz quando pega no violino seja tirar sons horríveis? Sem nenhum momento de música o Director da Capela Real limita-se a dar instruções elementares aos músicos que dirige. Há alguma razão para continuarmos a ouvir um violinista que toca tão desafinado? Afinal ele é o Director Musical deste grupo desde que conhecemos a Capela Real; ele esteve a dirigir e a tocar a solo; desde sempre e sempre da mesma forma péssima.
Claro que se o chefe for tão mau não podemos esperar que o resto da banda tenha capacidade maior; enfim, se aceitam ser dirigidos por uma anedota tão enorme devem reconhecer-lhes capacidades que os outros não conseguem. De facto o resto dos músicos que integram a Capela Real demonstra dar razão a esta hipótese.
As sonatas de Biber, provavelmente arranjadas pelo "director" tiveram verdadeiros momentos de arrepio, uma dor quase física para os ouvidos e ouvintes. Não é aceitável.

O cravista Rui Paiva é um organista honesto, alguma crítica reputa-o de excepcional mas isto apenas por Portugal ser num país que não está interessado em ter uma coerência cultural e estética. Quando Paiva passa ao cravo resulta ser do mais deprimente que nos é dado a ouvir.
Nem um momento de inspiração, nem uma cadência, nunca uma ornamentação que nos surprendesse um pouco; não precisariamos de uma cadência maravilhosa ou ornamentação inspirada, gostávamos apenas de ouvir uma para amostra! Mas não, não houve um momento que ultrapassasse o aborrecimento.
O concerto de Seixas foi um mero exercício de secretaria assim como ao longo do programa foi o trabalho de cravo no baixo continuo. Tudo tão vulgar que depois de alguns momentos esquecemos da presença de um cravo no concerto.
Conheço as regras que poderiam justificar uma atitude musical naquele sentido. Gostava de saber se Rui Paiva também as conhece, já que nunca ouvi dele outra forma de tocar em anos de carreira.
Talvez tenhamos de ser mais pacientes, já que como ele salienta na abertura do seu próprio curriculum, é licenciado en Engenharia Electrotécnica, aspecto fundamental da arte de tocar o orgão e o cravo e muito relevante para um programa musical...

Outra secção que não me parece fazer sentido são os baixos, ou melhor, os violoncelos; parece que se está na escola com os alunos mas sem o professor. Parece que ficam como que perdidos e sem personalidade própria, repetindo sempre, digo sempre, o mesmo esquema. Num baixo continuo!!?? Qualquer nota com a mesma intensidade (ou não intensidade)!!?? Sempre o mesmo som, sempre as mesmas fórmulas de baixo que anda por grau conjunto ascendente e com a mesma fármula que parece tirada do livro ?"O meu primeiro violoncelo barroco?". Ainda por cima não houve presença de nenhum violone ou viola de gamba num programa que incluía Charpentier e Biber. Já tenho visto alguns dos músicos da Capela Real (Miguel Ivo Cruz e um contrabaixista do qual não relembramos o nome) tocarem violones e gambas quando integrarem outros agrupamentos. Para não falar da falta de uma theorba ou instrumento do género.
Assumimos que esta seja então uma escolha artística dos directores deste agrupamento.

Os violinos, como disse, não estiveram tão desafinados como de costume mas notei, mais uma vez, falta de unidade sonora, falta de coesão num concerto que não teve nenhuma mudança dinâmica ou de humor. Um concerto com um som despersonalizado e sem alma que não fez o menor sentido.

A musica Barroca vive principalmente de momentos de alta invenção; lamento por estes músicos mas parece-me que não percebem o que fazem e se perceberem por certo não devem gostar nada.

Em resumo; um concerto que se limitou a ser não catastrófico, evitando apenas as habituais desafinações horripilantes. Contudo, salienta-se, que sem as desafinaçoes do costume um concerto da Capela Real torna-se num acontecimento de alto aborrecimento.

Solistas e Maestros com escolhas erradas a nível musical e altamente soporíferos.
Igreja de Santa Justa com um terço dos lugares preenchidos.

M.P.

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