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20.8.04

O som das orquestras e o vibrato 


A interpretação de música barroca com vibrato causa hoje arrepios à maior parte dos músicos e melómanos. E não só aos mais puristas ou aos adeptos mais fiéis da recuperação da "praxis" de execução da época. Para além de ser uma incongruência histórica (nos séculos XVII e XVIII o vibrato era usado como ornamento ou apenas como enfatização expressiva de algumas passagens), este não se adequa mais aos padrões de gosto vigentes actualmente. E quanto ao repertório sinfónico romântico e pós-romântico? As HIP (não, não é o nome de nenhum vírus esquisito, apenas a abreviatura de "historical informed performance", designação que se generalizou nos últimos anos e tem a virtude de evitar o termo "autenticidade" que tantos equívocos causou…) têm avançado cada vez mais no tempo, mas poucos se questionarão sobre o uso do vibrato em Berlioz, Wagner, Bruckner ou Richard Strauss, aceitando-o como um dado adquirido e como parte integrante da identidade interpretativa dessa música. No entanto, tem-se chegado à conclusão de que as orquestras no século XIX tocavam com muito pouco ou nenhum vibrato. Segundo Sir Roger Norrington nenhuma orquestra alemã tocava com vibrato antes de 1930! Pelo menos não tocavam com o vibrato contínuo (em todas as notas) que se tormou comum posteriormente. O maestro britânico desenvolve esta ideia num interessante artigo na revista Early Music e fundamenta-a com base em registos fonográficos do início do século XX. Tece também algumas considerações curiosas sobre o advento da moda do vibrato (que, aliás, dá imenso jeito para disfarçar problemas de afinação…), associando-a, por exemplo, ao conceito hollywoodesco do "glamour". Mas a investigação sobre esta questão está ainda a dar os primeiros passos — ainda não se fez uma história do som das orquestras no século XX. Independentemente de se gostar mais ou menos das interpretações do próprio Norrigton, este é um artigo que coloca questões muito importantes, as quais, a longo prazo, poderão vir a transformar substancialmente a abordagem desse repertório. Leitura obrigatória!

V.G.


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