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7.7.04

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) 


Alguns dias longe de Lisboa impediram-nos de prestar homenagem a Sophia no devido tempo. Já não me lembro que idade tinha quando li pela primeira vez A Floresta mas, tantos anos passados, esta é ainda uma das memórias mais fortes da minha infância e da sua obra literária. Isabel, o Anão e o Professor de Música, A Menina do Mar, A Fada Oriana, O Rapaz de Bronze… foram fiéis companheiros de sonhos que muito contribuiram para a minha paixão pelos livros e serviram de inspiração a precoces e inconsequentes experiências literárias. Filho único, como a Isabel de A Floresta, entretinha-me a inventar amigos, aventuras e estórias fantásticas que escrevia nas longas tardes de Verão. A poesia de Sophia veio mais tarde. Matinal, clara, luminosa, concisa, despojada de artifícios, com o mar ao fundo ou no centro, embalada por ecos da Grécia Antiga, tantas vezes feita de coisas simples e terrenas, mas sempre com uma porta aberta à esperança e uma janela para a eternidade. Aqui ficam alguns poemas.
V.G.

Varandas

É na varanda que os poemas emergem
Quando se azula o rio e brilha
O verde-escuro do cipreste — quando
Sobre as águas se recorta a branca escultura
Quasi oriental quasi marinha
Da torre aérea e branca
E a manhã toda aberta
Se torna irisada e divina
E sobre a página do caderno o poema se alinha

Noutra varanda assim num Setembro de outrora
Que em mil estátuas e roxo azul se prolongava
Amei a vida como coisa sagrada
E a juventude me foi eternidade

Era o tempo

Era o tempo das amizades visionárias
Entregues à sombra à luz à penumbra
E ao rumor mais secreto das ramagens
Era o tempo extático das luas
Quando a noite se azulava fabulosa e lenta
Era o tempo do múltiplo deseja e da paixão
Os dias como harpas ressoavam
Era o tempo do oiro das praias luzidias
Quando a fome de tudo se acendia

Sophia de Mello Breyner Andresen
In O Búzio de Cós

Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora a luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo

Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen
In Livro Sexto


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