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19.7.04

Peskó e os Gurrelieder 


Não tenho grande coisa a acrescentar ao que já escrevi sobre os Gurrelieder e a direcção de Zoltán Peskó, mas face ao desafio do Henrique que, não tendo estado presente, ficou surpreendido com o que leu no Expresso, aqui ficam mais algumas reflexões. O Henrique supõe que o concerto foi desastroso a partir do que escrevi neste blogue, do relato de alguns amigos músicos e do que conhece de anteriores prestações de Peskó. Desastroso é um termo demasiado forte (há que relativizar, como o próprio HS gosta de advertir) e eu próprio fiz questão de sublinhar que estávamos num patamar superior ao de outras apresentações, essas realmente desastrosas, do "maestro". Só que entre o desastroso e o sublime (uma categoria que não se chegou a atingir), há várias gradações e ao longo do concerto passou-se por muitas delas. Os momentos mais altos devem-se, contudo, a solistas como Marinana Pentecheva (Pomba da Floresta), Glenn Winslade (Waldemar) ou Verner Prein (Orador) e não propriamente à direcção de Peskó, que teve falhas técnicas para além de ficar quase sempre aquém do potencial expressivo da partitura. Luciana Leiderfarb diz que ninguém caiu do arame. Eu diria que as ocasionais quedas não tiveram consequências demasiado trágicas porque existia uma rede: o profissionalismo da maior parte dos músicos da OSP e da ONP. Mas Peskó foi o principal factor de desequilíbrio, quando lhe competia ser o contrário.
Já o tinha dito no post anterior: o "maestro" andou à deriva aqui e ali, mas pontualmente até se esforçou e se envolveu emocionalmente nalguns pontos mais dramáticos. Será que foi isso que impressionou Luciana? Os momentos em que Peskó se pôs em bicos de pés, ruborizado e a transpirar, usando uma géstica veemente ao contrário da sua habitual atitude fleumática de marcador de compassos? Só que isso não basta para revelar toda a complexidade e riqueza dos Gurrelieder (e neste caso refiro-me à complexidade estética). É um exagero dizer que o maestro não "faz a menor ideia da obra" ou que não "evidencia o menor domínio da partitura" como supõe HS. Contudo, é evidente que a abordagem de Peskó é simplista e carece de amadurecimento.
Que o resultado foi "avassalador em termos de vivência e de memória", como diz Leiderfarb, até posso concordar (se atender à imponência da obra, à carga simbólica da 1ª audição em Portugal e até a alguns bons momentos musicais), mas dizer que "o maestro soube aproveitar ao máximo a massa humana que tinha à disposição" ou que "foi um sábio gestor de recursos emocionais e técnicos" é um perfeito disparate. Basta ouvir gravações existentes e comparar o resultado. E não me refiro só à perfeição técnica (não se pode avaliar um concerto da mesma maneira que um disco), mas sim a ideias interpretativas.
Ao contrário do meu amigo HS não creio que os "Gurrelieder" sejam uma "pastelice mastodôntica". Podem é muito facilmente ser transformados nela. É uma obra inquietante e bela, mas é também uma obra híbrida (o que não é novidade para ninguém), só que também nesse ponto Peskó falhou, ofuscando (por indiferença ou falta de capacidade) as diferenças de estilo. Por exemplo, a modernidade da 3ª parte não está apenas no evidente "sprechgesang", mas também na textura orquestral.
E já que voltámos a falar dos Gurrelieder vale a pena relembrar as reacções opostas que Peskó suscitou na imprensa diária (confirmação do perfil dos referidos críticos várias vezes traçado por HS neste blogue?). No PÚBLICO Manuel Pedro Ferreira diz que "Pesko impôs uma leitura vibrante, fluída e dinamicamente bem trabalhada da obra cujo espírito captou com invulgar empatia" (!?). Para Bernardo Mariano, do DN, "os principais defeitos da interpretação orquestral devem-se à falta de consistência, ou de constância, da direcção de Zoltán Peskó", que "alternou o bom com o mediano e o sofrível nas duas horas de concerto e, tendo em conta as características da orquestração da obra, raramente soube unir as forças orquestrais nas partes I e II e dividi-las na parte III".

Vasco Garrido

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