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11.7.04

Gurrelieder, no limiar da dignidade 


Na ausência d’ "O Crítico" principal deste blogue (o meu amigo Henrique Silveira que continua em terras turcas) aqui fica uma crónica desse "momento histórico", como lhe chamou a imprensa oficial, da estreia portuguesa dos "Gurrelieder", de Schoenberg, no final da temporada da Sinfónica Portuguesa. Um concerto que esteve longe da perfeição (seria utópico esperar que assim fosse) mas que se foi mantendo no limiar da dignidade, algumas vezes acima, outras abaixo… Atendendo à complexidade da obra, ao seu descomunal efectivo (mais de 340 pessoas em palco!) e ao facto de se tratar de uma primeira interpretação podemos até ser benevolentes e dizer que foi um esforço muito meritório. A partir de agora os "Gurrelieder" estão prontos para absorver rapidamente os apuramentos técnicos e as concepções interpretativas de um maestro a sério! As duas orquestras (OSP e Nacional do Porto) funcionaram razoavelmente bem em conjunto (ainda que as cordas carecessem de mais homogeneidade e densidade sonora e de algumas imprecisões nas madeiras; os metais estiveram bastante bem), mas teriam certamente correspondido muito melhor se tivessem à frente um maestro mais dotado e que establecesse uma comunicação mais empática com os músicos (mas será que Pesko tem mesmo ideias musicais interessantes para comunicar?). Há, no entanto, que reconhecer que, em comparação com outras ocasiões, o titular até se esforçou. Estamos longe daquela "Noite Transfigurada" de má memória que tivemos de suportar há meses atrás… A direcção imprecisa e quase displicente do início do Prelúdio Orquestral (que acabaria por comprometer a plácida magia do pôr-do-sol que a partitura evoca) melhorou ao longo da obra e Pésko demonstrou até vários momentos de arrebatamento. Continuou, no entanto, a falhar entradas (felizmente nem sempre com consequências de maior).
Mas pior do que isso é a ausência de uma concepção interpretativa verdadeiramente profunda e não apenas rotineira. Faltou subtileza no acompanhamento da maior parte dos "Lieder", os fraseados soaram sem "élan", o contraponto foi pouco transparente, a qualidade do som sem plasticidade. E onde ficaram as sonoridades mágicas e luxuriantes evocadoras da sensualidade, do mistério do amor e da morte ou da sombria e inquietante paisagem fantasmagórica que os belos textos de Jacobsen nos revelam?
Há quem duvide, como o crítico do PÚBLICO, Manuel Pedro Ferreira, da existência de traços de "debussysmo" (ou se quisermos da estética francesa do início do século XX) na partitura de Schoenberg. De facto, a interpretação de Pesko ofuscou completamente esta dimensão, mas ela existe e é evidente em várias gravações de referência. A este propósito Simon Rattle fala mesmo de "french connection" na entrevista publicada no CD que gravou com a Filarmónica de Berlim e refere ter dito aos seus músicos que se tocassem como se se tratasse de "Daphnis et Chloé", de Ravel, não se afastariam muito do espírito da obra… Um dos pontos mais fascinantes dos "Gurrelieder" reside precisamente na forma como Schoenberg consegue conciliar a herança wagneriana com um refinamento colorístico e uma filigrana orquestral próxima do impressionismo francês ao mesmo tempo que convoca as principais coordenadas do expressionismo germânico.
Em relação aos solistas Glenn Winslade foi um Waldemar de grande autoridade, mesmo se nem sempre tecnicamente perfeito, mas Anna-Katharina Behnke, demasiado operática e com problemas de projecção, entre outros, foi uma escolha infeliz para Tove. Imponente a voz de contralto Marina Pentcheva, uma impressionante Pomba da Floresta, que nos transmitiu com emoção toda a carga dramática do texto, e surpreendente e estilisticamente irrepreensível a arte do do "sprechgesang" de Johan Verner Prein. Os restantes cumpriram, destacando-se o Bobo de Jon Ketilson.
O outro grande desafio era a junção dos três coros: São Carlos, Gulbenkian e Lisboa Cantat. O primeiro coro masculino "Gegrüssst, o König…" soou como uma monumental sopa sonora (e ainda bem que a colocação ao fundo do palco dificultava a audição...!) mas as coisas melhoraram um pouco na segunda grande intervenção. Quanto ao coro misto final, apesar dos sopranos estridentes (seriam os do Coro do São Carlos?) e de outras imprecisões, salvou-se pela paixão que colocou na execução contribuindo para um final apoteótico.

Vasco Garrido

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