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1.6.04

Stiffelio 

STIFFELIO, Melodramma em três actos. Libreto de Francesco Maria Piave.


Verdi em 1851

Francesco Maria Piave, propôs este argumento a Verdi em Abril de 1850. No mês de Junho do mesmo ano transferiu-se para a casa do compositor para aí acabar o trabalho.
Do mesmo período é também a maior parte da composição musical da obra. A orquestração foi concluída durante os ensaios no teatro, como Verdi costumava fazer.
O argumento era bastante singular: a tendência para o realismo era a vertente mais notável da situação do drama. Outro ponto importante é a falta do usual intercâmbio amoroso, substituído por uma história de ciúme e, acima de tudo, pelo contraste entre o conflito evangélico do dever de perdoar e do desejo de vingança.


Francesco Maria Piave

Daqui surgiram os maiores problemas com a censura. Verdi travou uma duríssima batalha intelectual com a censura durante toda a sua vida e Stiffelio não foi excepção.
O resultado da estreia teve, assim, contornos pouco coerentes; de um lado parte da crítica tomou a posição do compositor sublinhando ironicamente a intervenção da censura; outra parte, ao invés, condenou o argumento julgado como inconveniente.
A intervenção da censura fez com que, no ano seguinte, esta ópera fosse estreada com o titulo de "Guglielmo Wellingrode" e com a personagem principal transformada de ministro de culto evangélico num Primeiro Ministro (político) Alemão (...)
Após esta ofensa Verdi meditou na hipótese de retirar a ópera do repertório e da edição para reconstruí-la totalmente. Este projecto só se concretizou no ano 1856, quando o compositor começou a trabalhar na ópera "Aroldo".
Junto com a ópera "Luisa Miller", Stiffelio é um dos primeiros exemplos de óperas construídas em torno de uma só personagem. São evidenciados e centralizados nesta figura quer as paixões quer os lados mais mesquinhos da vida humana.
Verdi estava interessado neste argumento, sensibilizado pela novidade e modernidade do mesmo. A confrontação com a censura, que lhe impôs muitas mudanças, acabou por desfigurar a beleza do drama original.
Stiffelio foi transformado num sectário genérico. Com isso perderam de significado muitas partes da ópera e, especialmente, as invocaçoes que Lina, que seria originalmente a mulher de Stiffelio. Lina acaba por não as endereçar ao marido, mas a um genérico homem de Fé agora transformado em seu pai! A diferença entre o originário "Ministro (de culto religioso) Confessatemi" e o mais inócuo "Rodolfo Ascoltatemi" no dueto do terceiro acto é um exemplo que, hoje em dia, pode esclarecer as razões de tantas décadas decorridas até se perceber a enorme qualidade "dramatúrgica" de Verdi. Todo o final da ópera sofreu alterações completamente disparatadas e perdeu significado.
Mas esta ópera, mesmo menorizada por estas alterações, continua a oferecer várias características de forte originalidade: o papel de protagonista é entregue ao tenor (em vez de um barítono: Nabuco, Rigoletto, Luisa Miller) numa contraposição com os hábitos da época e da mesma tradição vocal verdiana. Verdi inaugura assim uma nova tendência no contesto da vocalidade do génio de Busseto, um tenor mais forte, escuro, quase baritonal, que terá o seu acto de consagração no "Otello".

Do ponto de vista musical a ópera apresenta também algumas novidades: em primeiro lugar o grande recitativo inicial (Jorg) substitui a habitual cena coral; esta será uma das tentativas mais conseguidas de Verdi no caminho do afastamento do cliché melodramático italiano da época.

Muitas também são as páginas que preparam as grandes páginas que daí a poucos meses Verdi conseguiu. Foi a chamada (sic) "Trilogia Popular"; a apoteose do canto do Trovatore, a vocalidade de Gilda, o Lirismo de Violeta. Tambem a nível instrumental Verdi começa a ter um cuidado especial para a orquestra; por exemplo no terceiro acto da "Luisa Miller" ou no prelúdio de abertura do segundo acto do Stiffelio, para cordas, que tem uma qualidade elevada.
Depois da apresentação de "Aroldo", a opera "Stiffelio" foi esquecida, só no 1968 foi apresentada pelo Teatro Comunale de Parma, utilizando partituras de várias matrizes: uma cópia de Stiffelio e uma copia do "Guglielmo Wellingrode" guardadas no arquivo do Conservatório de Nápoles.
No 1985 o Teatro "La Fenice" de Veneza, onde o actual director do S. Carlos colaborava na direcção, propôs esta ópera, juntamente com "Aroldo", criando um sugestivo paralelismo, Em 1993 foi feita a edição crítica desta obra.
Finalmente no 1995 "Stiffelio" foi apresentada no "Teatro alla Scala" de Milão, onde nunca tinha sido representado antes. Na próxima quinta haverá a primeira récita desta obra no Teatro São Carlos de Lisboa. Veremos e ouviremos...

M.P.

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