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30.6.04

Sokolov, outra opinião 


Não posso estar mais de acordo com o meu amigo Henrique em relação às condições em que decorreu o recital de Sokolov em Queluz. Um verdadeiro horror, um sufoco, a tortura de não poder usufruir uns segundos de silêncio absoluto que permitissem escutar a música de Bach e Beethoven com o recolhimento que ela merece. Pelo contrário, não partilho uma boa parte dos seus comentários críticos a este pianista e à interpretação. Comentários esses que são, aliás, contraditórios. Sokolov é um intérprete fora do comum que consegue baralhar os críticos? É verdade que as condições eram péssimas, mas daí ao resultado ser "um concerto, sem capacidade de transmitir qualquer ideia, qualquer sentimento" parece-me um exagero tão grande, ou maior, do que aqueles que H.S. aponta a Sokolov!
"Sokolov não é um pensador (…) ou é um imbecil ou é um autista" diz H.S. Alguém que encadeia deliberadamente a Partita nº6 com a Fantasia e Fuga em Lá menor, concebendo a interpretação das duas obras como um todo (um arco que vai do início da Toccata ao fim da Fuga), alguém que recria universos tão surpreendentemente contrastantes em cada um dos andamentos da Partita — e eu não gostei de todos, note-se! — ou que muda radicalmente de atitude quando aborda a clássica Sonata op. 22 ou a revolucionária op. 111 não é um pensador? Um pianista que consegue fazer soar de forma coerente (e apaixonante) no piano moderno obras eminentemente cravísticas de Scarlatti e Couperin não é um pensador? É possível que H.S. tenha razão e afinal tudo isto surja por intuição, mas será uma intuição superior. Na entrevista que deu à Cristina Fernandes, do PÚBLICO, há dois anos, e que guardo religiosamente, o pianista dizia: "Não há nenhuma diferença entre o que pode explicar a minha opção racionalmente e aquilo que funciona a um nível mais elevado da consciência. Trata-se do mesmo cérebro!"
Tenho de concordar que Sokolov foi desregrado neste recital, o que também foi um mistério para mim. Quem o ouviu tocar sonatas de Haydn no Centro Olga Cadaval com um recorte, uma elegância de fraseados e uma depuração extremas, fazendo soar o piano quase como um pianoforte, não acreditaria que era o mesmo pianista que tocou Bach anteontem. Também me desagradaram certas ousadias, a violência do "touché", acentuações excessivas (por exemplo no tema da Giga), fraseados extravagantes, mas não consegui deixar de ficar rendido à perfeita delicadeza do "Air" (com uso do pedal esquerdo, fazendo lembrar o registo de 8 pés associado ao teclado superior do cravo), à profundidade expressiva e magnificente ornamentação da Sarabanda ou à arrepiante seriedade e meticulosa arquitectura da Fuga. E aqui a "touché" foi de uma suavidade ímpar, doseando com precisão matemática o peso de cada linha melódica e mudando mesmo o seu volume e cor sonora.
"Musicalmente tudo o que faz é óbvio, para quem tem a capacidade técnica que tem" diz o meu amigo Henrique. Pois a mim não me parece nada óbvio e creio que o problema é mesmo esse. Sokolov surpreende, faz uma leitura muito pessoal, mas se prestarmos atenção ao todo a sua abordagem acaba, quase sempre, por revelar uma lógica inabalável. Claro que esta atitude se pode identificar com a de um "cultor de um ego absoluto, que se sente à vontade para fazer o que quer…" Acreditem que também eu detesto esse tipo de intérpretes, mas no caso de Sokolov há qualquer coisa de inexplicável que me faz ter um profundo respeito pelas suas propostas, mesmo quando não me identifico plenamente com elas.
"Basta ler a partitura de Beethoven e exagerar de forma ostensiva..." A minha leitura não é esta. Sokolov acentua os contrastes de forma desmesurada, mas creio que o que ele quis mostrar no primeiro andamento op. 111 foi a violência do sofrimento de Beethoven e da sua tumultuosa vida interior, um sofrimento até aos limites do insuportável. E para mim houve subtileza e introspecção nas variações da "arietta". O final não me convenceu assim tanto. Gostaria que tivesse feito justiça à bela frase de Brendel ("um prelúdio ao silêncio"), mas com o irrequieto ambiente da sala seria difícil.
Sokolov insensível? Sokolov não consegue comunicar? Duvido. Um pianista cujos discos foram quase todos registados ao vivo porque detesta estúdios de gravação é "insensível ao objecto público do concerto"? Podemos é não estar em sintonia com a mensagem que ele quer transmitir. Na minha opinião Sokolov não é apenas alguém que elevou aos limites máximos todos os parâmetros da técnica pianística, é um desafio aos sentidos e um desafio ao intelecto. Não gostei incondicionalmente do recital e a experiênncia (talvez pelas condições) foi menos intensa e menos gratificante do que nas outras vezes que o ouvi ao vivo, mas mesmo assim considero que foi um grande recital.
Cito um fragmento do "Doutor Fausto", de Thomas Mann, a propósito de Beethoven e da op. 111: "(…) dos confortáveis domínios da tradição, subia diante dos olhares da humanidade que, espantados, a seguiam, a esferas inteiramente pessoais; um ego dolorosamente isolado no absoluto, distanciado até, em virtude da extinção do ouvido, daquilo que os sentidos podem apanhar, o solitário príncipe de um reino de espectros, do qual apenas partiam tremores estranhos em direcção aos mais bem-intecionados contemporâneos, e cujas mensagens aterradoras estes só ocasional e excepcionalmente tinham sabido captar."
Para muitos Sokolov será, como Beethoven, "um ego dolorosamente isolado no absoluto", para outros um "insensível", para outros simplesmente mais um pianista de personalidade forte e técnica superlativa. O mistério permanece.

Vasco Garrido



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